O estranho
Capítulo 9
Finalm ente ela havia se rendido. Só um a volta de carro. Um a pequena expedição ao m undo im enso e desconhecido. E depois voltariam para casa. E ele pararia de pedir.
Ele concordara, ansioso. Mal conseguia se conter. E um olhar na direção de sua irm ã m ostrava que ela estava tão excitada quanto ele.
Ele se perguntou o que eles veriam . Com o era lá fora. Além da floresta. Um pensam ento não o deixava em paz. E se a outra estivesse lá fora? A m ulher com a voz áspera? Ela teria aquele cheiro que era com o um a lem brança em suas narinas, salgada e fresca? E a sensação do barco sacudindo e o sol sobre o m ar e os pássaros ao redor e... Ele m al podia esquadrinhar todas as expectativas e im pressões. Um pensam ento zunia em sua cabeça. Eles iam dar um a volta de carro com ela. No m undo lá fora. Não era problem a algum para ele prom eter, de sua parte, nunca m ais pedir. Um a vez bastaria. Estava bem convencido disto. Esta era a única coisa que queria. Só um a vez.
Com expressão preocupada, ela abriu a porta do carro para eles e os observou escalar o banco de trás. Afivelou seus cintos de segurança e sacudiu a cabeça enquanto sentava-se ao volante. Ele se lem brava de ter rido. Um a risada aguda e histérica quando a tensão acum ulada finalm ente tinha perm issão para ser liberada.
Quando pegaram a estrada, ele olhou de relance para a irm ã. E então segurou sua m ão. Estavam a cam inho.
Patrik sentou-se diante da tela com a lista de criadores de cães e a leu cuidadosam ente m ais um a vez. Ele havia inform ado Martin e Mellberg sobre o que ele e Gösta descobriram na ilha e pedira a Martin que ligasse para Uddevalla novam ente e tentasse conseguir m ais inform ações sobre os gêm eos. Fora isso, não havia m uito m ais o que fazer no m om ento. Ele havia obtido livre acesso a todos os docum entos com relação à m orte de Sigrid Jansson provocada, por Elsa Forsell, m as nada parecia dar pistas para seguir adiante.
– Com o vão as coisas? – disse Gösta da porta, olhando para dentro.
– Não vão – disse Patrik, soltando a caneta que tinha na m ão. – Estam os de m ãos atadas até saberm os m ais sobre as crianças – suspirou, correndo as m ãos pelos cabelos e as entrelaçando na nuca.
– Há algo que eu possa fazer? – disse Gösta, usando de tato.
Boquiaberto, Patrik olhou bem para ele. Não era com um Gösta entrar e pedir para trabalhar. Patrik pensou por um m om ento.
– Já repassei essa lista de criadores de cães um as cem vezes. Mas não acho nenhum a conexão com nosso caso. Pode verificá-la novam ente? – Patrik atirou o disquete para ele, e Gösta pegou-o no ar.
– Claro – ele disse.
Cinco m inutos depois, Gösta voltou com um a expressão espantada.
– Você por acaso apagou algum a linha? – ele disse.
– Apaguei? Não, o que quer dizer?
– Porque quando eu com pilei a lista, havia cento e sessenta nom es. Agora há apenas cento e cinquenta e nove.
– Pergunte a Annika. Foi ela quem com binou os nom es aos endereços. Talvez ela tenha deletado algum por engano.
– Hum m – Gösta disse, cético, e foi ver Annika. Patrik levantou-se e seguiu-o.
– Vou verificar – disse Annika, procurando a tabela de Excel em seu com putador. – Mas eu m e lem bro de que tinha cento e sessenta linhas. Era bonito, um núm ero redondo – ela buscou em suas pastas até encontrar o arquivo que procurava.
– Ahá, cento e sessenta – ela disse, virando-se para Patrik e Gösta.
– Eu não entendo – disse Gösta, olhando para o disquete em sua m ão. Annika pegou-o e inseriu no com putador, abrindo o m esm o docum ento, colocando-os lado a lado na tela, para que pudessem com pará-los. Quando o nom e que faltava apareceu, Patrik sentiu algo fazer um clique em sua m ente. Virou-se depressa, correu pelo corredor até seu escritório e ficou ali, observando o m apa da Suécia. Um a um , olhou para os percevej os que m arcavam as cidades das vítim as. O que antes era um padrão indecifrável agora se tornava m ais claro. Gösta e Annika o haviam seguido até seu escritório e agora pareciam perplexos enquanto Patrik com eçou a tirar papéis da gaveta de sua m esa.
– O que está procurando? – disse Gösta, m as Patrik não respondeu. Papel após papel foi tirado e j ogado no chão. Na últim a gaveta, ele encontrou o que procurava. Ele se levantou com expressão excitada e com eçou a ler o docum ento com atenção, às vezes adicionando novos percevej os ao m apa. Lenta, m as m inuciosam ente, cada local m arcado ganhou um novo percevej o ao lado do antigo. Quando term inou, ele se virou.
– Agora eu sei.
Dan finalm ente tom ara um a decisão. Entrou em contato com um corretor im obiliário. A im obiliária que procurou ficava do outro lado da rua, e ele finalm ente se decidira a ligar para o núm ero que via pela j anela da cozinha todos os dias. Agora que as engrenagens estavam em m ovim ento, tudo cam inhava surpreendentem ente depressa. O rapaz que atendera disse que poderia olhar a casa na hora, o que para Dan era perfeito. Ele não queria arrastar as coisas sem necessidade.
E agora vender a casa não parecia m ais um problem a tão grande. Todas as conversas que vinha tendo com Anna, tudo o que soube sobre o inferno pelo qual Lucas a fizera passar, tudo aquilo tornava seu em penho em m anter a casa tão... ridículo, para ser brutalm ente honesto. O que im portava onde m orava? O im portante é que as m eninas viessem visitá-lo. Que ele pudesse abraçá-las, enfiar o nariz em seus pescoços e ouvi-las contar sobre seu dia. Nada m ais im portava. E quanto a seu casam ento com Pernilla, estava definitivam ente acabado. Ele j á se dera conta disso havia tem pos, m as não estava pronto para aceitar as consequências. Agora era hora de m udar radicalm ente. Pernilla tinha sua própria vida, e ele, a dele. Dan só esperava que um dia pudesse retom ar a am izade que havia sido a base de seu casam ento.
Seus pensam entos foram parar em Erica. Em apenas dois dias, ela estaria casada. Aquilo tam bém lhe parecia correto. Ela estava dando um passo adiante, assim com o ele. Ele estava sinceram ente feliz por ela. Foram um casal havia tanto tem po; eles eram j ovens na época, pessoas totalm ente diferentes. Mas sua am izade só se fortaleceu com o passar dos anos, e ele sem pre desej ara algo assim para ela. Filhos, união, um casam ento religioso, com o qual Dan sabia que Erica sem pre sonhara – apesar de j am ais adm itir. E Patrik era perfeito para ela. Terra e ar. Era com o ele pensava nos dois. Patrik era tão solidam ente ancorado no chão em que pisava, estável, inteligente, calm o. E Erica era um a sonhadora, com a cabeça sem pre nas nuvens e m esm o assim com coragem e inteligência que a im pediam de flutuar para m uito longe. Eles realm ente com binavam .
E Anna. Ele pensava m uito nela ultim am ente. A irm ã que Erica sem pre superprotegera, que ela via com o fraca. O engraçado é que Erica se via com o a prática, e Anna com o a sonhadora. Durante as últim as sem anas, ele havia conhecido Anna m elhor e descobrira que na verdade ocorria o inverso. Anna era a prática, a que via a realidade com o ela era. Se não era assim antes, ela havia aprendido a sê-lo durante seus anos com Lucas. Mas Dan percebeu que Anna deixava Erica m anter essa ilusão. Talvez ela com preendesse a necessidade de Erica de ser a responsável, aquela que sem pre cuidou da irm ã caçula. De certa form a, tam bém era verdade; ao m esm o tem po ela não raro subestim ava Anna e continuava tratando-a com o criança, do j eito que só os pais poderiam fazer.
Dan levantou-se, pegou o telefone e a lista telefônica. Era hora de com eçar a procurar um a nova casa.
O clim a era pesado e aflitivo na delegacia. Patrik havia convocado um a reunião no escritório do chefe. Todos estavam em silêncio, olhando para o chão, incapazes de entender, incapazes de absorver o incom preensível. Patrik e Martin tinham pegado j untos a TV e o videocassete. Assim que Martin soube de tudo, lem brou-se do que havia fugido de sua m ente quando assistiu aos registros da últim a noite de vida de Lillem or.
– Vam os ter que ver tudo isso passo a passo. Antes de fazerm os qualquer coisa – Patrik disse quando finalm ente quebrou o silêncio. – Não há espaço para erros – todos concordaram .
– A prim eira ficha caiu quando descobrim os que um nom e havia sido apagado da lista de criadores de cães. Originalm ente, havia cento e sessenta nom es, tanto quando Gösta com pilou a lista com o quando Annika atribuiu endereços atualizados a eles. Quando eu recebi a relação, havia apenas cento e cinquenta e nove. O nom e que faltava era Tore Sj öqvist, com residência em Tollarp.
Ninguém reagiu, então Patrik prosseguiu.
– Eu voltarei a isso m ais tarde. Mas foi o que m e levou a encaixar a últim a peça do quebra-cabeça.
Todos sabiam o que vinha em seguida, e Martin enterrou o rosto nas m ãos e fechou os olhos, com os cotovelos pousados nos j oelhos.
– Eu j á havia reparado que os locais onde as vítim as foram m ortas parecia fam iliar. E quando finalm ente entendi, não dem orou para confirm ar a conexão – ele fez um a pausa e pigarreou. – Os locais dos assassinatos correspondem cem por cento com os lugares onde Hanna j á trabalhou – disse, em voz baixa. – Eu j á os havia visto em seu currículo antes de a contratarm os, m as... – ele atirou as m ãos para o alto e deixou Martin assum ir o com ando.
– Algo que vi no vídeo da noite em que Lillem or m orreu m e incom odava. E quando Patrik m e contou sobre Hanna... Bem , é m elhor m ostrarm os de um a vez.
Ele fez um sinal para Patrik, que apertou “play ”. Eles j á tinham avançado para o trecho certo e levou poucos segundos até a cena da discussão violenta aparecer na tela, seguida pela chegada de Martin e Hanna. Eles podiam ver Martin conversando com Mehm et e os dem ais. A câm era então seguiu Lillem or, que fugira na direção do centro da cidade, confusa e inconscientem ente correndo na direção da própria m orte. E então a câm era aproxim ou-se de Hanna, que falava ao telefone. Patrik congelou a im agem e olhou para Martin.
– Foi isso que m e incom odou, apesar de eu não ter percebido o porquê até agora – Martin disse. – Para quem ela estava ligando? Eram quase três horas da m anhã e nós éram os os únicos trabalhando, então ela não podia estar telefonando para nenhum de vocês.
– Pegam os um a lista das cham adas dela com a operadora e era um a ligação feita para sua própria casa. Para seu m arido, Lars.
– Mas por quê? – disse Annika e o espanto em seu rosto era com partilhado por todos.
– Eu pedi a Gösta para verificar o registro pessoal de cidadãos. Hanna e Lars Kruse têm , sim , o m esm o sobrenom e. Mas eles não são casados. Eles são irm ãos. Gêm eos.
Annika teve um sobressalto. Houve um silêncio m acabro no recinto depois que Patrik lançou aquela bom ba.
– Hanna e Lars são os gêm eos desaparecidos de Hedda – disse Gösta, à guisa de explicação.
– Sim , e nós ainda não recebem os as inform ações de Uddevalla – disse Patrik. – Mas aposto qualquer coisa com o vam os descobrir que os nom es são Lars e Hanna e que eles assum iram o sobrenom e Kruse em algum m om ento por m eio de adoção.
– Então ela ligou para Lars? – disse Mellberg, que parecia estar tendo algum a dificuldade para acom panhar todas as revelações repentinas.
– Nós acham os que ela ligou para Lars, que pegou Lillem or. Ela pode ter dito para ele pegá-la. Lars conhecia todos os m em bros do elenco e não teria parecido um a am eaça. E não se esqueçam do fato de que Lillem or havia escrito em seu diário que achava que reconhecia alguém , um a pessoa que considerava desagradável. Tudo leva a crer que essa pessoa era Lars. O que ela se lem brava era do encontro com o hom em que ela achava ser o assassino de seu pai – Martin franziu a testa.
– Mas aparentem ente ela não conseguia se lem brar de onde conhecia Lars; ela não o associava àquela lem brança. E ela nem tinha certeza de realm ente reconhecê-lo. No estado em que se encontrava, ela provavelm ente aceitaria agradecida o socorro de qualquer um , desde que pudesse fugir da equipe de TV e do elenco que havia brigado com ela – Patrik hesitou, m as prosseguiu. – Eu não tenho provas disso, m as tam bém acredito que Lars foi quem deu início à briga naquela noite.
– Com o assim ? – Annika perguntou. – Ele nem estava lá.
– Não, m as havia algo nos depoim entos do elenco que não parecia certo. Olhei rapidam ente as transcrições antes dessa reunião e todos os que discutiram com Lillem or disseram que “alguém disse para eles que Barbie estava falando m al deles” ou outras palavras nesse sentido. Não tenho provas concretas, m as m inha intuição é de que Lars usou as conversas individuais que teve com o elenco m ais cedo naquele dia para sem ear a discórdia entre eles e Lillem or. Considerando todas as inform ações íntim as e privadas que eles devem ter lhe dado, seria fácil para ele causar danos graves e dirigir a ira de todos contra Lillem or.
– Mas por quê? – disse Martin. – Ele não podia prever que a noite transcorreria com o transcorreu e que Lillem or fugiria daquele j eito.
Patrik balançou a cabeça.
– Não, sem dúvida foi pura sorte. Um oportunidade surgiu e ele e Hanna a aproveitaram . Não, eu acho que a ideia básica era criar um a distração para Lillem or. Ele sabia quem ela era, sabia que Lillem or o vira naquela vez, oito anos atrás e tinha m edo de que ela se lem brasse. Então Lars iria dar a ela outra coisa para pensar. Mas quando a oportunidade surgiu, então... ele decidiu resolver o problem a de m aneira m ais perm anente.
– Lars e Hanna m atavam as vítim as j untos? E por quê?
– Não sabem os ainda. Tudo leva a crer que Hanna rastreava os nom es e endereços das vítim as, j á que ela tinha acesso a esse tipo de inform ação nas delegacias em que trabalhava.
– Mas ela nem havia com eçado a trabalhar aqui quando Marit foi m orta.
– Não, m as inform ações assim tam bém podem ser encontradas em arquivos de j ornais. Foi provavelm ente com o ela encontrou Marit. Eu não tenho ideia do porquê. Mas tudo está provavelm ente ligado ao acidente original, quando Elsa Forsell m atou Sigrid Jansson. Hanna e Lars estavam no carro. Eles haviam sido sequestrados por Sigrid Jansson quando tinham três anos e viviam em isolam ento na casa dela havia m ais de dois anos. Quem sabe a que tipo de traum a eles foram subm etidos?
– Mas e quanto ao nom e na lista de endereços? Por que fez você pensar em Hanna? – Annika olhou para ele, em dúvida.
– Prim eiro porque recebi o CD de Hanna, j á que você pediu que ela m e entregasse. Sua lista original possuía cento e sessenta nom es; a que encontrei no CD tinha um a m enos. A única pessoa que poderia ter apagado o nom e era Hanna. Ela sabia que havia um a chance de eu reconhecer o nom e. Quando ela com eçou a trabalhar aqui na delegacia, m e disse que ela e Lars tinham alugado a casa de um Tore Sj öqvist, que estava se m udando para Skåne por um ano. Então, quando o nom e apareceu, j untam ente com um endereço em Tollarp, não foi difícil som ar dois m ais dois – Patrik fez um a pausa. – Eu achei que era necessário repassar tudo m ais um a vez. O que vocês acham ? Tem algum furo no m eu raciocínio? Há dúvidas de que tem os o bastante para seguir adiante?
Todos sacudiram a cabeça negativam ente. Não im portava quanto tudo aquilo soasse inacreditável, havia um a lógica assustadora no relato de Patrik.
– Que bom – disse Patrik. – O m ais im portante agora é agirm os antes de Hanna e Lars descobrirem que sabem os. E tam bém é extrem am ente im portante que eles não saibam nada a respeito de sua m ãe e de com o desapareceram , porque eu acho que pode ser perigoso para...
Ele parou quando Annika arfou.
– Annika? – Patrik viu com crescente desconforto toda a cor se esvair do rosto dela.
– Eu contei a ela – Annika disse com tensão na voz. – Hanna ligou logo que vocês voltaram de Kalvö. Ela não parecia nada bem . Disse que tinha dorm ido um pouco e estava se sentindo m elhor e que provavelm ente não teria que ficar em casa por m ais que um dia ou dois. E eu... eu... – Annika gaguej ou, m as se recom pôs e olhou para Patrik. – Eu disse que queria m antê-la atualizada, então contei sobre o que você tinha encontrado. Sobre Hedda.
Por um segundo, Patrik ficou im óvel. Então disse:
– Você não tinha com o saber. Mas é m elhor irm os para a ilha. Agora!
De repente houve um rom pante de atividade na delegacia de Tanum shede.
Patrik sentiu o pânico se instalar com o um nó apertado em seu estôm ago enquanto se via na proa do Minlouis, barco da Sea Rescue Society, correndo em direção a Kalvö. Ele apressava o barco m entalm ente, m as esse j á se encontrava em velocidade m áxim a. Tinha m edo de que j á fosse tarde dem ais. Quando entraram nos carros de polícia e ligaram as sirenes azuis, para chegar o m ais rápido possível a Fj ällbacka, receberam um a cham ada de um proprietário de barco. Ele lhes disse, inflam ado, que seu barco havia sido confiscado por um a policial em com panhia de um hom em desconhecido. Com eçou a reclam ar sobre banditism o e com o seriam todos m andados para o inferno se aparecesse o m enor arranhão em seu barco. Patrik sim plesm ente desligou o telefone. Não tinha tem po para reclam ações no m om ento. O im portante era que agora sabiam que Lars e Hanna tinham conseguido um barco. E que estavam a cam inho de Kalvö. E da m ãe deles.
O barco de resgate m ergulhou entre duas ondas, e um a chuva de água salgada caiu sobre Patrik. Um a tem pestade se aproxim ava e a superfície plácida em que Gösta e Patrik haviam navegado m ais cedo fora substituída por ondas quebrando ininterruptam ente e águas cinzentas. Na m ente de cada um , novos cenários se apresentavam , novas im agens do que veriam quando chegassem . Gösta e Martin estavam encolhidos no interior do barco, m as Patrik sentiu a necessidade de ar fresco para se concentrar no que haveria pela frente. Sabia que, o que quer que acontecesse, não haveria final feliz.
Chegaram à ilha após o que pareceu ser um a viagem interm inável naquele barco, m esm o tendo levado apenas cinco m inutos. Viram o barco roubado am arrado fortuitam ente no píer de Hedda. Peter, que era o capitão do barco de resgate, atracou com habilidade, m esm o sendo a em barcação m aior que o píer. Sem hesitar, Patrik pulou na areia, seguido por Martin. Am bos aj udaram Gösta a desem barcar. Patrik havia tentado persuadir o colega m ais velho a ficar na delegacia, m as Gösta Fly gare dem onstrara surpreendente obstinação e insistira em ir. Patrik cedeu. Agora ele se arrependia da decisão, m as era tarde dem ais para especular sobre isso.
Ele fez um gesto na direção do chalé, que parecia perfidam ente vazio e erm o. Não se ouvia som algum vindo de lá. Quando destravaram suas pistolas, Patrik pensou ter ouvido o som ecoar por toda a ilha. Foram agachados até o chalé e aj oelharam -se sob as j anelas, do lado de fora. Agora Patrik ouvia vozes da parte de dentro e cautelosam ente olhou pelos vidros im undos e incrustados de sal. Prim eiro, viu apenas a som bra de alguém se m exendo, m as assim que seus olhos se aj ustaram à luz fraca, ele pôde distinguir duas pessoas andando na cozinha. As vozes aum entavam e baixavam de volum e, m as era im possível com preender o que diziam . De repente, Patrik se pegou sem saber o que fazer, m as tom ou um a decisão. Fez um gesto na direção da porta. Moveram -se com cuidado para lá e Martin e Patrik se posicionaram um de cada lado dela, enquanto Gösta ficou um pouco m ais longe.
– Hanna? Sou eu, Patrik. E alguns dos outros estão aqui tam bém . Está tudo bem ?
Não houve resposta.
– Lars? Sabem os que está aí com sua irm ã. Não faça nada estúpido. Ninguém m ais precisa m orrer.
Nenhum a resposta ainda. Patrik com eçou a ficar nervoso, e a m ão que segurava a pistola estava cada vez m ais suada.
– Hedda? Você está bem ? Estam os aqui para te aj udar! Lars e Hanna, não m achuquem Hedda. Ela fez algo terrível, m as creiam , ela j á foi punida por isso. Olhem em volta, vej am com o ela tem vivido. Hedda viveu no inferno por causa do que fez a vocês.
O silêncio foi sua única resposta e ele am aldiçoou baixinho. Então a porta se abriu um pouco e Patrik segurou a arm a com firm eza. Pelo canto do olho, viu que Martin e Gösta fizeram o m esm o.
– Estam os saindo – disse Lars. – Não atire ou eu atiro nela.
– Está bem , está bem – disse Patrik, tentando soar o m ais calm o possível.
– Baixem as arm as. Eu quero vê-las no chão – disse Lars. Eles ainda não podiam vê-lo pela fresta da porta.
Martin olhou para Patrik, que fez um gesto e lentam ente soltou a arm a. Gösta e Martin seguiram seu exem plo.
– Chutem -nas para longe – Lars disse, de form a som bria, e Patrik deu um a passo à frente e chutou as três pistolas, que saíram de seu alcance.
– Saia da frente.
Mais um a vez, eles obedeceram e aguardaram , tensos, que algo acontecesse. Lentam ente, m uito lentam ente, um centím etro por vez, a porta se abriu. Patrik esperava ver Hedda, m as enxergou Hanna em seu lugar. Ela ainda parecia doente, com suor na testa e olhos brilhando de febre. Seu olhar encontrou o dele, e Patrik se perguntou com o pudera ter sido tão ludibriado. Com o era possível ela ter sido capaz de ocultar por tanto tem po toda aquela m aldade por trás de um a fachada tão norm al? Por um segundo, ele pensou que ela queria se explicar, m as então Lars a em purrou para a frente e a pistola que ele apontava para sua têm pora pôde ser vista. Patrik reconheceu a arm a. Era o revólver de trabalho de Hanna.
– Saia de perto, vá para m ais longe – Lars sibilou e, em seus olhos, Patrik não viu nada a não ser escuridão e ódio. Seus olhos foram de um lado para o outro e algo em sua expressão disse a Patrik que Lars havia finalm ente deixado cair a m áscara e que não conseguiria m ais viver um a vida dupla. A loucura – ou a m aldade, ou o que quer que aquilo se cham asse – finalm ente vencera. A luta havia acabado contra aquela parte de sua personalidade que não desej ava nada além de um a vida norm al, com em prego e fam ília.
Os policiais se m overam para ainda m ais longe e Lars passou por eles, segurando Hanna com o um escudo à sua frente. A porta do chalé ficou aberta e, quando olhou para dentro, Patrik entendeu por que Hedda não poderia ser usada com o escudo. Horrorizado, viu que ela estava am arrada a um a cadeira. O m esm o tipo de fita que havia deixado traços de adesivo nas outras vítim as estava colada em sua boca e havia um buraco no m eio dela, grande o bastante para passar o gargalo de um a garrafa. Hedda havia m orrido da m esm a form a com o vivera. Repleta de álcool.
– Posso entender por que você queria Hedda m orta. Mas por que os outros? – Patrik não pôde resistir e fez a pergunta que dom inava sua vida havia sem anas.
– Ela tirou tudo. Tudo o que tínham os. Hanna a descobriu sem querer e nós dois sabíam os o que tinha que ser feito. Então ela m orreu da m esm a coisa que arruinou nossas vidas. A bebida.
– Está falando de Elsa Forsell? Nós sabem os que vocês estavam no carro quando Elsa Forsell causou o acidente que m atou Sigrid, a m ulher com quem viviam .
– Nós tínham os um a vida boa – disse Lars, com voz aguda. Cam inhava de costas lentam ente em direção ao píer. – Ela cuidou de nós. Ela j urou que nos protegeria.
– Sigrid? – Patrik disse, m ovendo-se com cuidado na m esm a direção que Lars e Hanna.
– Sim , m as nós não sabíam os que esse era seu nom e. Nós a cham ávam os de m am ãe. Ela nos disse que era isso que ela era. Nossa nova m am ãe. E nós tínham os um a vida boa. Ela brincava conosco. Nos abraçava. Lia histórias para nós.
– João e Maria? – Patrik continuou indo em direção ao píer e pelo canto dos olhos via Gösta e Martin seguindo-o.
– Sim – disse Lars, falando perto do ouvido de Hanna. – Ela lia para nós. Aquele livro. Você se lem bra, Hanna, com o era lindo? Com o ela era bonita? Com o cheirava bem ? Você se lem bra?
– Eu m e lem bro – Hanna disse e fechou os olhos. Quando os abriu novam ente, estavam cheios de lágrim as.
– Foi a única coisa que nos deixaram guardar depois que ela m orreu. O livro. Nós quisem os m ostrar a eles com o era pouco o que sobrou. É tudo o que resta quando você destrói a vida de alguém .
– Mas Elsa não bastou – disse Patrik, m antendo os olhos fixos em Lars.
– Havia tantos outros que fizeram o que ela fez. Tantos... – disse Lars, deixando as palavras m orrerem . – Em todos os lugares aonde íam os. Todos os lugares precisavam ser... lim pos.
– Assassinando a pessoa que m atou alguém enquanto dirigia bêbada?
– Sim – disse Lars, sorrindo. – Só assim poderíam os ter paz. Tínham os que m ostrar que não íam os tolerar esse tipo de crim e, que j am ais esqueceríam os. Você não pode sim plesm ente destruir a vida de alguém assim ... e sair im pune.
– Do j eito que Elsa saiu depois de m atar Sigrid?
– Sim – disse Lars e a escuridão em seus olhos se aprofundou. – Com o Elsa.
– E Lillem or?
Agora eles estavam quase no píer, e Patrik se perguntou o que fariam se Hanna e Lars pegassem o barco de resgate, que era m uito m ais rápido que o outro. Eles j am ais conseguiriam alcançá-los. Mas o capitão parecia ter tido o m esm o pensam ento, porque estava se afastando da doca, de m odo que apenas o barco m enor ficou ali.
– Lillem or – Lars debochou –, um ser hum ano estúpido e sem valor. Exatam ente com o o resto da ralé com quem fui forçado a trabalhar. Eu nunca a teria reconhecido, m as m e lem brei de seu nom e quando vi de onde ela era. Eu sabia que tinha que fazer algum a coisa.
– Então você disse aos outros que ela estava falando m al deles, de form a a criar o caos e distraí-la.
– Você não é tão burro – Lars disse, com um sorriso, dando o prim eiro passo para trás, chegando ao píer.
Por um segundo, Patrik considerou tentar dom iná-lo. Mas, m esm o sentindo que Lars estava apenas blefando ao m anter a irm ã com o refém – afinal fizeram tudo j untos –, Patrik não ousaria. Não tinha arm a; ela estava lá no topo, com o as de Martin e Gösta, então nessa situação Lars e Hanna tinham vantagem .
– Fui eu quem ligou para Lars – Hanna disse com voz ríspida.
– Nós sabem os – disse Patrik. – Tem os isso gravado em videotape. Martin assistiu, m as nós não entendem os...
– Não, com o poderiam ? – ela disse com um sorriso triste.
– Então Lars a pegou depois de você ligar para ele.
– Sim – disse Hanna, em barcando com cuidado. Ela sentou-se na depressão no centro do barco, enquanto Lars se acom odou ao lado do m otor e girou a chave da ignição. Nada aconteceu. Lars fez um a careta e tentou novam ente. O m otor em itiu um grunhido, m as não deu a partida. Patrik olhava adm irado, m as percebeu o que estava acontecendo quando olhou para o barco de resgate que estava afastado, balançando ao sabor da m aré, a um a distância segura da ilha. O capitão m ostrou um galão de com bustível e Patrik com preendeu que ele o havia confiscado. Um cam arada audacioso, esse Peter.
– Não tem com bustível – disse Patrik, soando m ais calm o do que estava na verdade. – Então não há para onde fugir. O reforço está a cam inho, então o m elhor a fazer é se renderem e cuidar para que ninguém m ais se m achuque – Patrik soava ridículo, m as não conseguia pensar nas palavras certas. Se é que havia algum a.
Sem responder, Lars soltou a corda e chutou o barco para longe da doca. A corrente o pegou na hora e eles com eçaram a se afastar da m argem , devagar.
– Vocês não vão a lugar nenhum – disse Patrik enquanto avaliava suas possibilidades. Mas não havia nenhum a. A única alternativa era assegurar-se de que Lars e Hanna seriam pegos. Sem m otor, eles não iriam m uito longe; provavelm ente parariam na m argem de algum a das ilhas próxim as. Patrik fez um a últim a tentativa.
– Hanna, é óbvio que você não foi o cérebro por trás de todos esses eventos. Você ainda tem um a chance de se salvar.
Hanna não respondeu. Sim plesm ente encarava Patrik. Então segurou a m ão de Lars que ainda em punhava a pistola. Ele não apontava m ais para a cabeça dela, m as se segurava no banco do rem ador, onde ela estava sentada. Com a m esm a calm a incom um , ela pegou a m ão de Lars e a ergueu, para que ele apontasse novam ente a arm a para sua têm pora. Patrik viu o olhar intrigado de Lars. Então, por um breve segundo, sua expressão era de puro terror. No instante seguinte, um a calm a estranha o atingiu. Hanna disse algo para Lars que ninguém na ilha pôde ouvir. Ele respondeu algo, depois a abraçou, de m odo que ela descansava em seu peito. Hanna colocou o dedo sobre o dele. E puxou o gatilho. Patrik sentiu-se pular; atrás dele, Martin e Gösta tiveram um sobressalto. Incapazes de se m over, incapazes de dizer um a palavra, eles observaram Lars sentar-se com cuidado na beirada do barco, ainda segurando o corpo agora sem vida e ensanguentado de Hanna em um abraço terno. O sangue havia espirrado em seu rosto e parecia que ele estava usando cam uflagem de guerra. Com a m esm a expressão calm a, ele olhou para todos um a últim a vez. Depois apontou a arm a para a própria cabeça. E puxou o gatilho.
Quando caiu para trás, para além da borda, Hanna tom bou com ele. Os gêm eos de Hedda desapareceram sob a superfície da água. Para as profundezas, com o Hedda um dia os havia sentenciado à m orte.
Depois de alguns segundos, os anéis desenhados na superfície da água se foram e não havia m ais sinal de onde haviam afundado. O barco coberto de sangue balançava com as ondas e ao longe, com o em um sonho, Patrik viu m ais barcos se aproxim arem . Era o reforço a cam inho.