O estranho

Camilla Läckberg · Capítulo 1 de 10 · parte 1/3

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O estranho

Capítulo 1

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

Oque ele m ais se lem brava era de seu perfum e. Aquele que ela deixava no banheiro. O frasco cintilante com a fragrância doce e encorpada. Já adulto, havia procurado em loj as de perfum e até encontrar um idêntico. Riu quando viu o nom e: Poison.

Ela costum ava borrifá-lo em seus punhos e esfregá-lo em seu pescoço e, se estivesse vestindo um a saia, tam bém em seus tornozelos.

Ele achava aquilo tão bonito. Seus punhos frágeis e delicados roçando graciosam ente um no outro. O arom a se espalhava em torno dela, e ele sem pre ansiava pelo m om ento em que chegasse bem perto, quando ela se inclinava e o beij ava. Sem pre na boca. Sem pre tão levem ente que às vezes ele se perguntava se o beij o fora real ou se ele estava apenas sonhando.

– Cuide de sua irm ã – ela sem pre dizia antes de sair e parecia flutuar em vez de cam inhar porta afora.

Mais tarde, ele não conseguiria se lem brar se havia respondido em voz alta ou apenas com um aceno de cabeça.

O sol de prim avera brilhava através das j anelas na delegacia de Tanum shede, expondo sem piedade a suj eira nas vidraças. A fuligem do inverno era com o um a película sobre o vidro, e Patrik sentia com o se a m esm a película o cobrisse. Aquele havia sido um inverno rigoroso. Viver com um a criança em casa era infinitam ente m ais divertido, m as tam bém im ensam ente m ais trabalhoso do que ele j am ais im aginara.

E ainda que as coisas com Maj a estivessem m ais calm as do que no início, Erica ainda não tinha se acostum ado com a vida de m ãe em tem po integral.

Essa noção atorm entava Patrik a cada segundo e cada m inuto que passava no trabalho. E tudo o que havia acontecido com Anna colocava um fardo extra sobre seus om bros.

Um a batida na porta interrom peu seus pensam entos som brios.

– Patrik? Acabam os de receber um a cham ada sobre um acidente de trânsito. Apenas um carro envolvido, na estrada para Sannäs.

– Está bem – disse Patrik, levantando-se. – A propósito, não é hoj e que chega a substituta de Ernst?

– Sim – disse Annika –, m as ainda não são nem oito horas.

– Então vou levar Martin com igo. Do contrário eu a levaria com o parceira por um tem po, para pegar o j eito das coisas.

– Bem , isso m e dá um pouco de pena da coitada – disse Annika.

– Por ter que andar com igo? – disse Patrik, fingindo ofender-se.

– Naturalm ente, eu sei com o você dirige... Mas, sério, não vai ser nada fácil para ela ficar com Mellberg.

– Depois de ler seu currículo, eu diria que, se alguém consegue lidar com ele, essa pessoa é Hanna Kruse. Ela parece ser durona, a j ulgar por seus registros e suas ótim as referências.

– A única coisa que m e parece duvidosa é por que ela iria querer trabalhar em Tanum shede.

– Sim , talvez você tenha razão nisso – disse Patrik, vestindo o paletó. – Terei de perguntar por que ela quer baixar tanto o nível a ponto de trabalhar nesse fim de carreira com hom ens da lei am adores com o nós – ele piscou para Annika, que deu um tapinha em

seu om bro.

– Você sabe que não foi isso o que eu quis dizer.

– Claro, eu só estava te atorm entando. A propósito, conseguiu m ais inform ações sobre o local do acidente? Alguém ferido? Algum a vítim a fatal?

– De acordo com a pessoa que ligou, parece que há apenas um a pessoa no carro. Morta.

– Droga. Vou cham ar Martin e vam os para lá dar um a olhada. Voltarem os logo. Você pode acom panhar Hanna por ora, não pode?

Naquele m om ento, ouviram um a voz de m ulher na recepção.

– Olá?

– Deve ser ela – disse Annika, apressando-se em direção à porta. Curioso a respeito da nova conquista fem inina da polícia, Patrik a seguiu.

Ficou surpreso quando viu a m ulher de pé na recepção, esperando por eles. Não sabia pelo que esperar, m as talvez alguém … m aior. E não tão bonita... e loira.

Ela estendeu a m ão, prim eiro para Patrik, então para Annika e disse:

– Olá, sou Hanna Kruse. Com eço a trabalhar aqui hoj e.

A voz dela superou suas expectativas. Grave, com um tom decidido.

Seu aperto de m ão era prova de horas na academ ia, e Patrik reconsiderou sua prim eira im pressão.

– Patrik Hedström . E essa é Annika Jansson, a espinha dorsal da delegacia.

Hanna sorriu.

– O único posto avançado fem inino num a terra de m achos, percebo. Pelo m enos até agora.

Annika riu.

– Sim , tenho que adm itir que é bom ter alguém para contrabalançar toda a testosterona que existe aqui dentro.

Patrik interrom peu a conversa.

– Vocês, m eninas, podem se conhecer m elhor m ais tarde. Hanna, recebem os um a cham ada sobre um acidente fatal com um único carro envolvido. Pensei que você j á poderia vir com igo, se concordar. Com eçar com tudo seu prim eiro dia aqui.

– Por m im , tudo bem – disse Hanna – Posso só deixar m inha m ala em algum lugar?

– Eu a colocarei no seu escritório – disse Annika. – Farem os o tour m ais tarde.

– Obrigada – disse Hanna, correndo apressada atrás de Patrik, que j á estava saindo pela porta principal.

– Então, com o se sente? – perguntou Patrik, quando j á estavam dentro da viatura, na direção de Sannäs.

– Bem , obrigada. É sem pre m eio desesperador com eçar um novo trabalho.

– Você j á fez isso várias vezes, a j ulgar pelo seu currículo.

– Sim , eu queria adquirir o m áxim o de experiência possível – Hanna disse enquanto olhava pela j anela com curiosidade. – Partes diferentes da Suécia, j urisdições de tam anhos diversos, o que você im aginar. Qualquer oportunidade em que eu pudesse expandir m inha experiência com o policial.

– Mas por quê? Qual é o seu obj etivo final, por assim dizer?

Hanna sorriu. Seu sorriso era am igável, m as ao m esm o tem po convicto.

– Um a posição de chefia, é claro. Em um dos m aiores distritos policiais. Então tenho feito todos os cursos, aprendendo o m áxim o possível e trabalhando duro.

– Parece ser a receita para o sucesso – disse Patrik, sorrindo, m as a enorm e am bição que irradiava em sua direção o fez sentir-se um pouco desconfortável. Não era algo com que estava acostum ado.

– Espero que sim – disse Hanna, ainda vendo a paisagem rural passar. – E você? Há quanto tem po trabalha em Tanum shede?

Para seu desgosto, Patrik soou envergonhado aos próprios ouvidos quando respondeu.

– Oh... desde a academ ia de polícia, na verdade.

– Nossa, eu j am ais conseguiria isso. Quero dizer, você deve gostar m esm o daqui. Parece um bom presságio para o tem po que passarei aqui.

Ela riu e virou-se a fim de olhar para ele.

– Bem , acho que você pode pensar assim . Mas boa parte disso tem a ver com costum e e com ficar na m inha zona de conforto tam bém . Eu cresci aqui e conheço a área com o a palm a de m inha m ão. Se bem que não m oro m ais em Tanum shede. Agora eu m oro em Fj ällbacka.

– É verdade. Eu soube que você se casou com Erica Falck! Eu adoro os livros dela! Bem , dos que tratam de assassinatos. Eu ainda não li as biografias, tenho que adm itir.

– Você não tem que se envergonhar disso. Metade da Suécia j á leu seu m ais recente rom ance policial, a j ulgar pelos núm eros de venda, m as a m aioria não sabe que ela publicou cinco biografias de escritoras suecas. A que m ais vendeu foi sobre Karin Boy e, acho que chegou a um as duas m il cópias. De qualquer form a, ainda não estam os casados, m as estarem os em breve. Vam os nos casar na noite do Pentecostes!

– Parabéns! Que fascinante, um a cerim ônia de casam ento no Pentecostes.

– Nós esperam os que sim . Se bem que, para ser sincero, a essa altura, eu preferiria voar para Las Vegas e fugir de toda essa algazarra. Eu não fazia ideia de que planej ar um casam ento seria um a tarefa tão difícil.

Hanna deu um a gargalhada.

– É, posso im aginar.

– Mas você tam bém é casada. Vi na sua ficha. Você não teve um a cerim ônia religiosa cheia de pom pa?

Um a som bra passou pela face de Hanna. Ela desviou o olhar e resm ungou tão baixinho que ele m al conseguiu ouvir.

– Nos casam os no civil. Mas isso é um a história para outra hora. Parece que chegam os.

Avistaram adiante um carro destruído, num a vala. Dois bom beiros se ocupavam de cortar a lataria do teto, m as sem pressa. Após um a olhada no banco da frente, Patrik entendeu o porquê.

Não foi por acaso que a reunião aconteceu em sua própria casa, em vez de ser no centro com unitário. Após m eses de reform a pesada, a casa, ou “a Pérola”, com o ele norm alm ente a cham ava, estava pronta para ser inspecionada e adm irada. Era um a das m aiores e m ais antigas residências em Grebbestad, e foram necessárias boas doses de persuasão para convencer os antigos proprietários a colocá-la à venda. Eles se lam entavam dizendo que ela “pertencia à fam ília” e que seria “deixada para seus netos e bisnetos”, m as as lam úrias se reduziram a balbuciações e logo passaram a cochichos anim ados quando ele aum entou a oferta. E os estúpidos m oradores nem perceberam que ele estava propondo consideravelm ente m enos do que estava disposto a pagar. Eles provavelm ente nunca puseram os pés fora da cidade e não tinham a m enor ideia do valor das coisas – um conhecim ento que se adquiria vivendo em Estocolm o e sabendo das condições do m ercado im obiliário. Após a venda, ele havia gastado sem piscar m ais de dois m ilhões de coroas para reform ar a casa e agora exibia com orgulho o resultado para o restante da Câm ara Municipal.

– E aqui trouxem os um a escadaria da Inglaterra, que com bina bem com os detalhes típicos daquele período. Não foi barato, é claro. Apenas cinco com o essa são feitas por ano, m as se quiser qualidade, terá de pagar o preço. Tam bém trabalham os em contato direto com o Museu de Bohuslän, para não arruinar a integridade da casa. Mas Viveca e eu som os m uito cuidadosos com esse tipo de coisa, querem os sem pre reform ar um a casa m eticulosam ente sem destruir sua alm a. E aqui tem os alguns exem plares da últim a edição de Residence, em que são docum entados os resultados da nossa rem odelação. O fotógrafo disse inclusive que nunca vira um a renovação de tam anho bom gosto. Por favor, levem um a revista na saída, para folhear à vontade. E sim , devo m encionar que Residence é um a revista que só publica casas exclusivas, não é com o a Beautiful Homes, em que qualquer Tom , Dick e Harry pode ser enaltecido e deu um a risadinha para enfatizar com o era absurda a ideia de que um a casa que pertencia a ele e a sua esposa figurasse naquele lixo. – Então, vam os todos nos sentar e tratar de negócios – Erling W. Larson apontou para a grande m esa de j antar, posta para o café. Sua esposa havia preparado tudo enquanto ele m ostrava a casa e agora ela aguardava em pé j unto à m esa enquanto todos se sentavam . Erling lhe fez um aceno de cabeça em sinal de aprovação. Ela valia ouro, a pequena Viveca: conhecia seu lugar e era um a excelente anfitriã. Talvez um pouco quieta e não m uito versada na arte da conversação, m as um a m ulher que sabia quando m anter sua boca fechada e que não dem onstrava inclinação para conversa fiada, com o tinha o hábito de dizer. – Então, que tipo de ideias vocês têm para o m arco que atingim os?

Todos estavam sentados à m esa e Viveca passava servindo café nas frágeis xícaras de porcelana branca.

– Bem , você sabe qual é m inha posição – disse Uno Brorsson, colocando quatro cubos de açúcar em sua xícara. Erling fitou-o com aversão. Ele não entendia pessoas que negligenciavam a própria saúde. De sua parte, corria dez quilôm etros toda m anhã e tam bém j á havia feito pequenas cirurgias reparadoras. Mas apenas Viveca sabia disso.

– Certam ente sim – disse Erling, um tanto m ais ríspido do que pretendia –, m as você teve a chance de dar sua opinião e, agora que chegam os a um acordo, creio que seria m ais razoável nos unirm os e tirarm os proveito da situação. Continuar debatendo o assunto é inútil. A equipe de TV chega hoj e e vocês sabem o que penso. Pessoalm ente, acho que é a m elhor coisa que poderia acontecer à nossa área. Vej am só a popularidade que as tem poradas anteriores trouxeram aos outros lugares. Amigas de colégio recebeu m uita atenção quando Moody sson fez o tal film e sobre a cidade, m as nada com parado à publicidade gerada por um reality show daqui. E Sodding Töreboda sem dúvida colocou a com unidade no m apa. Então im aginem boa parte da Suécia parando para ver Sodding Tanum . Um a oportunidade única para exibirm os nossa pequenina esquina da Suécia pelo seu m elhor ângulo!

– Melhor ângulo? – Uno bufou. – Álcool e sexo e m ulheres burras típicas de reality show; é assim que querem os m ostrar Tanum shede?

– Bem , eu acho que será incrivelm ente excitante! – disse Gunilla Kj ellin, de m odo encantador, com sua voz um pouco estridente, os olhos brilhando para Erling. Ela nutria um a grave paixonite por ele, apesar de j am ais adm iti-lo. Mas Erling tinha conhecim ento de seus sentim entos e os explorava para conseguir seu voto em todos os assuntos de seu interesse.

– Sim , ouçam Gunilla. Esse é o espírito com o qual devem os receber esse proj eto. Estam os em barcando num a aventura excitante e é um a oportunidade que devem os saudar com gratidão – Erling usava sua voz entusiasm ada, aquela que em pregara com tanto sucesso em seus anos com o diretor de um a im ensa corretora de seguros e que fazia tanto em pregados quanto gerentes ouvir com grande interesse tudo o que ele tivesse a dizer. Ele sem pre se sentia nostálgico quando se lem brava dos anos passados naquela atm osfera abafada. Mas, graças a Deus, havia saído dali no m om ento certo. Pegou seu dinheiro ganhado com suor e disse obrigado e adeus. Antes que a m atilha de repórteres sentisse o cheiro de sangue e perseguisse seus pobres colegas com o caça prestes a ser abatida e despedaçada. Erling agonizou para tom ar a decisão de um a aposentadoria antecipada após seu infarto, m as realm ente isso acabou provando ser a m elhor decisão que havia tom ado na vida.

– Por favor, sirvam -se de alguns desses excelentes doces. São da padaria do Elg – apontou para a bandej a cheia de pastéis dinam arqueses e bolos de canela. Todos se inclinaram obedientem ente e se serviram . Ele se absteve.

Havia tido um infarto afinal de contas e, m esm o sendo cioso com exercícios e com o que com ia, aquele episódio o tornara ainda m ais cuidadoso.

– O que estam os fazendo com relação a possíveis danos? Ouvi dizer que Töreboda teve m uitos enquanto o program a foi gravado lá. A em issora vai cobrir?

Erling bufou im pacientem ente para o hom em que fez a pergunta. O j ovem diretor financeiro da cidade sem pre tinha que se preocupar com trivialidades em vez de ver o todo, Erling adorava dizer. Que diabos o hom em sabia sobre finanças? Ele m al tinha trinta anos e em toda a vida j am ais devia ter lidado com quantias que Erling poderia gastar em um único dia em seus bons anos na em presa. Não, ele não tinha paciência com contadorezinhos. Virou-se para Erik Bohlin, que havia feito a pergunta e disse enfaticam ente:

– Não é algo com que tenham os que nos preocupar agora. Com parado ao aum ento do fluxo de turistas que esperam os, algum as j anelas quebradas não são nada com que se preocupar. Eu antevej o tam bém que os policiais vão fazer o seu m elhor para m erecer seu salário e se m anter inform ados sobre a situação.

Ele cruzou seu olhar por alguns segundos com cada um dos presentes sentados àquela m esa. Era um a técnica que descobrira ser m uito eficiente no passado. E era igualm ente agora. Todos baixaram o olhar e guardaram qualquer form a de protesto no lugar certo: dentro de si. Eles haviam tido sua chance, m as agora a decisão havia sido tom ada em bom espírito dem ocrático, e hoj e os ônibus da TV com os participantes chegariam a Tanum shede.

– Vai dar tudo certo – disse Jörn Schuster. Ele ainda não havia superado o fato de que Erling tinha tom ado o posto de com issário que ele desem penhara por quase quinze anos.

Por sua vez, Erling não com preendia por que Jörn havia decidido perm anecer na Câm ara. Se ele tivesse perdido na contagem de votos de m aneira tão desonrosa, teria rastej ado para fora com o rabo entre as pernas. Mas se Jörn queria chafurdar em sua hum ilhação, ótim o. Havia certos benefícios em ter a velha raposa presente, apesar de hoj e estar exausta e desdentada, no sentido figurado.

Ele tinha seus defensores, e esses ficariam calados desde que vissem que Jörn ainda era um líder ativo.

– Agora, então, é um a questão de m ostrarm os nosso entusiasm o. Vou até lá receber a equipe pessoalm ente à um a da tarde e, claro, todos estão convidados a com parecer. Do contrário, nos verem os na reunião norm al na quinta-feira. Ele levantou-se para indicar que a reunião estava encerrada.

Uno ainda resm ungava quando saiu, m as Erling considerou que, no geral, havia se saído m uito bem na tarefa de reunir as tropas. Esse em preendim ento cheirava a sucesso, tinha certeza.

Satisfeito, foi até a varanda e acendeu um charuto da vitória. Na sala de j antar, Viveca silenciosam ente tirou a m esa.

– Da da da da – Maj a estava sentada no cadeirão balbuciando, enquanto evitava com habilidade a colher que a m ãe tentava enfiar em sua boca. Depois de m irar por um m om ento, Erica finalm ente conseguiu em purrar um a colher de m ingau, m as sua alegria durou pouco, pois Maj a escolheu aquele instante para dem onstrar que sabia fazer o som de um carro.

– Brrrrr – ela disse com tanto gosto que o m ingau foi borrifado por todo o rosto de sua m ãe.

– Fedelha m aldita – disse Erica, exausta, m as arrependeu-se da escolha de palavras na hora.

– Brrrrr – Maj a disse feliz, conseguindo lançar na m esa os restos do m ingau que ainda tinha na boca.

– ‘Elha m aldita – disse Adrian, e sua irm ã m ais velha, Em m a, o repreendeu im ediatam ente.

– Você não pode dizer palavrões, Adrian!

– Mas a Ica acabou de falar isso.

– Mesm o assim , você não deve falar palavrões, não é verdade, tia Erica?

Em m a colocou as m ãos na cintura e lançou um olhar insistente a Erica.

– Você está totalm ente certa. Eu fui boba de falar palavrão, Adrian.

Satisfeita com a resposta, Em m a voltou a com er seu kefir. Erica olhou para ela com am or e preocupação. A m enina tinha sido forçada a am adurecer tão depressa. Às vezes ela se com portava m ais com o um a m ãe do que com o um a irm ã para Adrian. Anna não parecia perceber, m as Erica via m uito bem . Ela sabia exatam ente o que era arcar com esse papel com tão pouca idade.

E agora ela estava fazendo isso de novo. Sendo m ãe para sua irm ã. Ao m esm o tem po que era a m ãe de Maj a e m eio que um a m ãe substituta para Em m a e Adrian, esperava que Anna saísse de sua letargia. Erica olhou para o teto enquanto com eçava a lim par a bagunça da m esa. Mas não havia som do andar de cim a. Anna raram ente acordava antes das onze, e Erica a deixava dorm ir. Não sabia m ais o que fazer.

– Não quero ir para a creche hoj e – anunciou Adrian, fazendo um a expressão que dizia claram ente “e tente m e im pedir se puder”.

– É claro que você vai para a creche, Adrian – disse Em m a, de novo com as m ãos na cintura. Erica interveio antes que a briga com eçasse, ao m esm o tem po que tentava lim par da m elhor form a possível sua filha de dezoito m eses.

– Em m a, vá colocar o casaco e as botas. Adrian, eu não tenho tem po para essa discussão hoj e. Você vai para a creche com sua irm ã, e isso não está aberto a negociação.

Adrian abriu a boca para protestar, m as algo na expressão de sua tia dizia que, nessa m anhã especialm ente, era m elhor obedecê-la. Mostrando um a obediência incom um , dirigiu-se à sala.

– Ótim o, agora tente calçar os sapatos – Erica pegou os tênis de Adrian, m as ele apenas balançou a cabeça.

– Eu não sei. Você precisa m e aj udar.

– Sabe sim . Você calça os sapatos sozinho na creche.

– Não, eu não consigo. Eu sou pequeno – ele adicionou, para dar ênfase.

Erica suspirou e colocou Maj a no chão. A m enininha com eçou a engatinhar antes m esm o que suas m ãos e seus j oelhos tocassem o chão. Ela havia com eçado a engatinhar m uito cedo e agora era m estre naquela ação.

– Maj a, fique aqui, querida – disse Erica, enquanto tentava calçar os sapatos em Adrian. Mas Maj a preferiu ignorar o pedido e saiu feliz num a viagem de descobertas. Erica sentia o suor com eçando a escorrer por suas costas e axilas.

– Eu pego a Maj a – disse Em m a prestativam ente, tom ando o silêncio de Erica com o um sinal de assentim ento.

Arfando, Em m a voltou com Maj a, que se contorcia em seus braços com o um gato arredio. Erica viu que o rosto de sua filha com eçava a assum ir o tom de verm elho que norm alm ente avisava que lá vinha choro e correu para pegar a criança. Apressou os m ais velhos porta afora, em direção ao carro.

Droga, com o ela odiava m anhãs com o essa.

– Entrem no carro, estou com pressa. Estam os atrasados novam ente, e vocês sabem o que a srta. Ewa acha disso.

– Ela não gosta – disse Em m a, balançando a cabeça, preocupada.

– Não, ela não gosta m esm o – disse Erica, acom odando Maj a à cadeirinha, no carro.

– Eu quero ir na frente – Adrian anunciou, cruzando os braços, preparado para a batalha. Mas agora a paciência de Erica j á estava se esgotando.

– Sente-se na sua cadeira! – ela gritou, sentindo certa satisfação quando o viu praticam ente voar para seu assento no carro. Em m a tom ou seu lugar tam bém em um a cadeirinha infantil bem no m eio do banco de trás e afivelou o próprio cinto.

Apressadíssim a e ainda irritada, Erica com eçou a afivelar Adrian na cadeira, m as parou ao sentir um a m ãozinha em sua bochecha.

– Eu te a-a-am o, Ica – disse Adrian, tentando parecer o m ais doce possível. Sem dúvida num a tentativa de conseguir ganhá-la, m as que funcionava sem pre. Erica sentiu seu coração transbordar e inclinou-se para dar-lhe um beij o estalado.

A últim a coisa que fez antes de engatar a ré na garagem foi lançar um olhar apreensivo para a j anela do quarto de Anna. Mas a persiana ainda estava fechava.

Jonna pressionou a testa na j anela fria do ônibus e olhou para a paisagem rural que passava rapidam ente. Sentia um a trem enda apatia. Com o sem pre. Puxou as m angas de seu m oletom para cobrir as m ãos. Ao longo dos anos, isso se tornara um hábito. Perguntou-se o que estava fazendo aqui. Com o veio parar nisso tudo? Por que havia tanta fascinação em acom panhar sua vida diária? Jonna sim plesm ente não com preendia. Um a garota doente, solitária e esquisita que gostava de se cortar. Mas talvez fosse esse exatam ente o m otivo de ter sido eleita a continuar, sem ana após sem ana, na Casa. Porque havia m uitas outras garotas com o ela em todo o país. Garotas que se reconheciam avidam ente nela, quando ela constantem ente entrava em confronto com os outros participantes, quando chorava no banheiro, cortando os braços com lâm inas, quando ela em anava tanto desam paro e desespero que os dem ais na Casa a evitavam com o se ela estivesse infectada por raiva. Talvez fosse por isso.

– Ai, Meu Deus, que excitante! Im agine que tem os, tipo, m ais um a chance – Jonna ouvia a anim ação sem fim na voz de Barbie, m as se recusou a responder. Só o nom e da garota j á a fazia querer vom itar. Mas os tabloides am avam . BB-Barbie estava se saindo m uito bem nas estatísticas. Seu nom e verdadeiro era Lillem or Persson. Um dos j ornais a havia desm ascarado. Tam bém encontraram fotos antigas dela, da época em que era um a m oreninha esquelética com óculos im ensos. Nada com parado à loira arrasadora e siliconada que era hoj e. Jonna deu gargalhadas quando viu tais fotos. Eles haviam recebido um a cópia da edição na Casa. Mas Barbie chorou. E então queim ou o j ornal. – Vej a que m ultidão! – Barbie apontou excitada para um grupo de pessoas na praça, para onde o ônibus parecia estar se dirigindo. – Você não com preende, Jonna? Eles estão todos aqui para nos ver, não entende? – ela m al conseguia se m anter sentada, e Jonna lançou-lhe um olhar desdenhoso. E então colocou os fones de ouvido de seu tocador de MP3 e fechou os olhos.

Patrik cam inhava lentam ente ao redor do carro, que havia caído num despenhadeiro e finalm ente parado quando atingiu um a árvore. A frente estava destruída, m as o resto do veículo estava intacto. Não havia conseguido fazer a curva na velocidade em que estava.

– O m otorista deve ter se chocado contra a direção. Acho que foi essa a causa da m orte – disse Hanna, agachando-se do lado do m otorista.

– Acho m elhor deixarm os isso para o m édico legista – disse Patrik, ouvindo-se soar m ais crítico do que pretendia. – Quero dizer...

– Tudo bem – disse Hanna, com um gesto de desdém . – Foi um com entário idiota. Vou m e contentar em observar daqui por diante e não tirar conclusões. Por enquanto – acrescentou.

Patrik term inou sua volta em torno do carro e agachou-se perto de Hanna. A porta do lado do m otorista perm anecia aberta, e a vítim a ainda estava presa ao cinto de segurança, inclinada para a frente, apoiada na direção. Sangue escorria de um ferim ento na cabeça e criava um a poça no assoalho. Eles ouviram um dos técnicos fazendo fotos atrás deles para docum entar a cena do acidente.

– Estam os te atrapalhando? – perguntou Patrik, virando-se.

– Não, j á tiram os quase todas as fotos de que precisam os. Pensei em endireitarm os a vítim a e fazer m ais fotos. Tudo bem ? Já viu tudo o que precisava por ora?

– Vim os, Hanna? – Patrik tinha o cuidado de incluir sua colega. Não devia ser fácil ser o recém -chegado, e ele queria fazer o m elhor para que ela se sentisse bem -vinda.

– Sim , acho que sim – am bos levantaram -se e saíram da frente para dar m ais espaço para os peritos. Com cuidado, ele segurou o om bro da vítim a e apoiou o corpo no encosto. Só agora era possível ver que era m ulher. Os cabelos curtos e as roupas unissex fizeram -nos pensar prim eiro que se tratava de um hom em , m as bastou olhar o rosto para perceber que a vítim a era um a m ulher em torno de quarenta anos.

– É Marit – disse Patrik.

– Marit? – Hanna questionou.

– Ela tem um a loj inha em Affärsvägen. Vende chá, café, chocolate e coisas assim .

– Ela tem fam ília? – a voz de Hanna soou um pouco estranha quando fez a pergunta, e Patrik olhou para Hanna. Mas Hanna parecia a m esm a de sem pre, então talvez ele estivesse im aginando coisas.

– Eu não sei, na verdade. Terem os que verificar.

O perito havia term inado de fazer as fotos e deu um passo atrás. Patrik e Hanna se aproxim aram novam ente.

– Cuidado para não tocar em nada – Patrik disse, sem pensar. E antes que Hanna pudesse responder, continuou: – Desculpe, eu esqueço que você pode até ser nova em nosso departam ento, m as é um a policial experiente. Você vai ter que m e dar um desconto – disse, desculpando-se.

– Não sej a tão sensível – sua nova colega disse, rindo. – Eu não m e ofendo tão facilm ente.

Patrik riu tam bém , aliviado. Não fazia ideia de que estava tão acostum ado a trabalhar com pessoas que conhecia bem , pessoas cuj os hábitos profissionais lhe eram fam iliares. Provavelm ente seria m esm o um a boa ter sangue novo na corporação. Além disso, em com paração a Ernst, qualquer coisa era um a m elhoria.

O fato de ele ter sido despedido depois de fazer j ustiça com as próprias m ãos, por assim dizer, no outono passado era... bem , nada m ais nada m enos que um m ilagre.

– Então, o que acha? – perguntou Patrik, aproxim ando-se para olhar o rosto de Marit.

– Não é tanto o que vej o, m as o cheiro que sinto – Hanna respirou fundo algum as vezes. – Ela fede à bebida. Devia estar desacordada quando saiu da estrada.

– É o que parece m esm o – disse Patrik. Ele parecia um pouco distraído. Com um a careta preocupada, observou o interior do carro. Não havia nada fora do norm al. Um a em balagem de chocolate no assoalho, um a garrafa plástica vazia de Coca-Cola, um a página que parecia ter sido rasgada de um livro e, em um canto do outro lado do banco do passageiro, um a garrafa vazia de vodca.

– Não parece m uito com plicado. Um acidente envolvendo um único carro e um m otorista em briagado.

Hanna deu alguns passos para trás e parecia estar se preparando para ir em bora. A am bulância estava pronta para levar o cadáver e não havia m ais o que pudessem fazer.

Patrik exam inou de perto o rosto da vítim a. Inspecionou os ferim entos que tinha na face. Algo não se encaixava.

– Posso lim par o sangue? – perguntou a um dos peritos da cena do crim e, que guardava seu equipam ento.

– Acho que tudo bem , j á tem os bastante docum entação. Aqui, eu tenho um pano – o perito deu um pedaço de pano branco a Patrik, que agradeceu. Com cautela, quase com carinho, lim pou o sangue que saía principalm ente de um ferim ento na testa. Os olhos da vítim a estavam abertos e, antes de continuar, Patrik cuidadosam ente fechou-os com seus dedos indicadores. Em baixo do sangue, o rosto de Marit estava coberto de ferim entos e hem atom as. Havia batido no volante com bastante força, o carro era de um m odelo antigo, sem airbag.

– Pode fazer m ais fotos? – perguntou ao hom em que lhe dera o pano. O perito concordou e pegou a câm era. Fez m ais algum as fotos rapidam ente e olhou para Patrik de m aneira inquisidora.

– Já está bom – disse Patrik, cam inhando até Hanna, que parecia intrigada.

– O que foi que você viu? – ela perguntou.

– Não sei. Há algo que... Não sei – ele fez um aceno de desconsideração. – Provavelm ente não é nada. Vam os voltar à delegacia. Os outros podem term inar o trabalho aqui.

Entraram na viatura e foram para Tanum shede. O cam inho de volta foi feito em total silêncio. E naquela quietude, algo latej ava em sua m ente. Ele só não sabia o que era.

Bertil Mellberg estava estranham ente tranquilo. Do m odo com o norm alm ente se sentia quando passava algum tem po com Sim on, o filho do qual não soubera da existência por quinze anos. Infelizm ente, Sim on não o visitava com m uita frequência, m as pelo m enos vinha, e eles conseguiram estabelecer algum a form a de relacionam ento. Não era um a ligação exuberante, nem visível de fora; existia de m odo um tanto velada. Mas estava lá.

A sensação, difícil de descrever, veio de algo inusitado que havia acontecido a ele no dom ingo anterior. Depois de m eses de aborrecim ento e pressão de Sten, seu bom am igo – ou m elhor, seu único am igo, e m esm o ele estava m ais para um conhecido –, Mellberg havia concordado em ir ao baile em Munkedal. Mesm o considerando a si m esm o um bom dançarino, fazia m uito tem po que não frequentava um salão de dança. E um baile de quadrilha lhe soava de algum a form a com o um bando de caipiras dançando ao som de violinos. Mas Sten era um frequentador habitual e finalm ente o havia convencido de que esses bailes não só ofereciam o tipo de m úsica que gente de sua geração gostava com o tam bém eram excelentes lugares para caçar.

– Elas ficam lá, sentadas em fila, apenas esperando ser escolhidas – Sten lhe dissera. Mellberg não podia negar que isso parecia bom ; ele não havia conhecido m uitas m ulheres recentem ente, então certam ente sentia necessidade de arej ar o rapazinho. Mas seu ceticism o baseava-se na expectativa de que tipo de m ulher ia a um baile daquele. Coruj as velhas e depenadas, que estavam m ais interessadas em cravar as garras em um hom em m ais velho com um a boa pensão do que em sexo casual. Mas se havia um a coisa que ele sabia era com o se proteger de dam as que só pensavam em casam ento, então decidiu acom panhar Sten e tentar a sorte.

Em todo caso, vestiu seu m elhor terno e borrifou um pouco de perfum e aqui e ali. Sten veio até sua casa e eles se reforçaram com algum as doses antes de sair. Sten pensou em cham ar um táxi, para não terem que se preocupar com quanto beberiam . Não que Mellberg se preocupasse com isso sem pre, m as não seria nada bonito se fosse pego dirigindo em briagado.

Depois do incidente com Ernst, os chefes estavam de olho nele, por isso tinha que ser cauteloso. O que os olhos não veem ...

Apesar de toda a preparação, não foi com grande expectativa que entrou no salão, onde a dança j á estava à toda. E seu preconceito se confirm ou: apenas velhas de sua idade, para todos os lados. Quanto a isso, ele e Uffe Lundell estavam em com pleto acordo. Quem iria querer um corpo enrugado e flácido de m eia-idade perto de si quando havia tanta carne boa, firm e e j ovem por aí? Mellberg tinha que adm itir, no entanto, que Uffe obtinha m uito m ais sucesso nesse cam po que ele. Era por causa daquela aura de estrela do rock. Que inj ustiça.

Estava prestes a se dirigir para o bar e reforçar um pouco m ais sua coragem quando ouviu alguém falar com ele.

– Que lugar! E nós ficam os aqui, nos sentindo velhos.

– Bem , eu estou aqui sob protesto – Mellberg respondeu, olhando para a m ulher que estava agora ao seu lado.

– Eu tam bém . Foi Bodil que m e arrastou para cá – disse ela, apontando para um a das dam as que j á suavam na pista de dança.

– No m eu caso, foi Sten – disse Mellberg, apontando para o am igo na pista.

Continuar: parte 2 de 3