O estranho

Camilla Läckberg · Capítulo 10 de 10

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O estranho

Capítulo 10

 

Quando o choque da colisão transform ou tudo em um pesadelo, ele soube que a culpa era dele. Ela tinha razão. Ele era um pé-frio. Ele não dera ouvidos a ela, m as insistiu e im plorou e nunca desistiu até ela se render. E agora o silêncio era ensurdecedor. O som dos carros batendo um contra o outro havia sido substituído por um a calm aria terrível, e a pressão do cinto de segurança m achucava seu peito. Pelo canto do olho, viu sua irm ã se m exer; ele não ousava olhar para ela. Mas, quando o fez, viu que ela tam bém não parecia ferida. Lutou contra a vontade de chorar quando ouviu sua irm ã com eçar a choram ingar baixinho e depois se entregar a gem idos e soluços terríveis. De início, não ousou olhar para o banco da frente. O silêncio lhe dizia o que iria encontrar. Sentia que a culpa o estrangulava. Soltou o cinto de segurança com cuidado e lentam ente se inclinou para a frente, cheio de m edo. O que viu o fez se encolher, e o m ovim ento rápido intensificou a dor em seu peito. Os olhos dela o encaravam , cegos e m ortos. O sangue havia escorrido por sua boca, e sua roupa estava ensopada de verm elho. Ele pensou ter visto um a acusação em seu olhar vazio. Por que você não m e ouviu? Por que não m e deixou cuidar de você? Por quê? Por quê? Seu azarado. Olhe para m im agora.

Ele soluçou e arfou, procurando forçar um pouco de ar para dentro da garganta, que parecia tão apertada. Alguém tentou abrir a porta pelo lado de fora e ele viu o rosto de um a m ulher olhando para ele, em choque. A m ulher se m ovia de m aneira estranha, cam baleante e com surpresa ele reconheceu o cheiro daquela outra. Aquela que existia apenas em sua m em ória. Ele sentiu o m esm o odor forte que saía da boca dela, im pregnado em sua pele e em suas roupas. Tudo que era suave tinha desaparecido. Então sentiu-se ser tirado do carro e com preendeu que a m ulher vinha do outro autom óvel, o que havia batido de frente com o deles. Ela deu a volta para tirar a irm ã de lá e ele prestou atenção a ela. Ele j am ais esqueceria seu rosto.

Depois vieram m uitas perguntas. Muitas perguntas estranhas.

“De onde vocês são?”, questionaram . “Da floresta”, eles responderam , sem entender por que aquela resposta causara expressões tão frustradas. “Sim , m as de onde vocês vieram antes daquilo, antes da casa na floresta?” Eles só ficavam olhando para as pessoas que perguntavam , sem entender o que deveriam dizer. “Da floresta” era a única resposta que podiam dar. É claro que ele pensou no lugar salgado, com os pássaros guinchando. Mas nunca disse nada sobre aquilo. Tudo que conhecia era a floresta.

Ele tentava não pensar especialm ente nos anos que se seguiram àquelas perguntas. Se soubesse com o o resto do m undo era frio e m au, j am ais teria insistido para que ela os levasse para fora da floresta. Ele teria ficado feliz naquela casinha, com ela, com a irm ã, em seu próprio m undo que, olhando em retrospectiva, parecia tão m aravilhoso em com paração. Mas era um a culpa que ele teria que carregar. Ele causara o acidente. Ele não acreditara que era um pé-frio. Não acreditara que trazia infortúnio para si e para os outros. Ele era o culpado pelo olhar m orto nos olhos dela.

Durante os anos que se seguiram , a irm ã era a única razão para ele seguir adiante. Os dois estavam unidos contra todos os que tentavam destruí-los e torná-los tão feios quanto o m undo lá fora. Eles eram diferentes. Juntos, eles eram diferentes. Na escuridão da noite, eles sem pre encontravam consolo um no outro e eram capazes de escapar aos horrores do dia. Sua pele contra a dela. Seu hálito m isturado ao dele.

E finalm ente ele tam bém havia encontrado um a form a de com partilhar a culpa. Sua irm ã estava sem pre lá para aj udá-lo. Sem pre j untos. Sem pre. Juntos.

Os prim eiros acordes da Marcha Nupcial de Mendelssohn ecoaram pela igrej a. Patrik sentiu a boca secar. Olhou para Erica a seu lado e lutou contra as lágrim as. Tinha que im por-se algum lim ite. Não seria bonito entrar na igrej a chorando. Mas ele estava tão incrivelm ente feliz. Apertou a m ão de Erica e recebeu um sorriso largo com o resposta.

Ele não acreditava com o ela estava bonita. Ou que estava ao seu lado. Por um segundo, teve um lam pej o de seu prim eiro m atrim ônio, quando se casara com Karin. Mas a lem brança se foi tão rapidam ente quanto veio. No que dependesse dele, essa era sua prim eira vez. Essa era para valer. Tudo o m ais tinha sido apenas um a prova de roupa, um desvio, um a preparação para o m om ento em que ele iria cam inhar em direção ao altar com Erica e j urar am á-la na saúde e na doença, por toda a sua vida.

Agora as portas da igrej a se abriam e eles com eçaram a cam inhar lentam ente, enquanto o órgão era tocado e todos os rostos sorridentes se viravam em sua direção. Ele olhou m ais um a vez para Erica, e seu sorriso cresceu m ais ainda. O vestido dela tinha corte sim ples, com detalhes bordados de branco sobre branco e caía-lhe perfeitam ente. Seus cabelos estavam presos de m aneira despoj ada, com alguns cachos soltos aqui e ali. Flores brancas estavam presas com o pequenas j oias em seus cabelos e ela usava brincos de pérolas sim ples. Estava tão linda. Mais um a vez surgiram lágrim as em seus olhos, m as ele as afastou com teim osia. Estava determ inado a passar por aquilo sem chorar e ponto final.

Eles viam am igos e parentes sentados nos bancos. Todos da delegacia estavam lá. Até Mellberg havia se enfiado em um terno e arrum ado os cabelos com m ais cuidado. Nem ele nem Gösta vieram acom panhados, enquanto Martin, que era padrinho de Patrik, estava com sua Pia, e Annika, com seu Lennart. Patrik ficou feliz por vê-los todos lá. Juntos. Dois dias antes, ele não achava que seria capaz de m anter a cerim ônia. Quando viu Hanna e Lars desaparecerem nas profundezas, foi tom ado por tristeza e exaustão tão dolorosas que não podia nem sequer im aginar celebrar um casam ento. Mas ao chegar em casa, Erica o colocara na cam a e ele dorm ira por vinte e quatro horas direto. E quando Erica disse a ele, um tanto tím ida, que eles tinham ganhado um a noite com j antar em um hotel e perguntou se Patrik estava disposto, ele disse que era exatam ente disso que precisava. Passar um tem po a sós com Erica, fazer um a boa refeição, dorm ir ao lado dela e conversar bastante.

Naquele dia, ele se sentiu m ais que preparado. A escuridão, o m al, agora pareciam tão distantes, banidos de um lugar com o este. De um dia com o este.

Eles chegaram ao altar e a cerim ônia com eçou. O pastor Harald falou sobre o am or exigir paciência e gentileza, falou sobre Maj a e sobre com o Patrik e Erica haviam se encontrado. Ele fora extrem am ente feliz em encontrar as palavras certas para descrever os dois e a form a com o viam a vida j untos.

Maj a ouviu seu nom e ser m encionado e decidiu que não queria m ais ficar sentada no colo do avô; queria ficar com a m am ãe e o papai, que por algum a razão estranha estavam de pé nessa casa desconhecida, usando roupas engraçadas. Kristina tentou por um m om ento m anter Maj a sentada e quieta, m as depois de um gesto de Patrik, soltou-a em direção ao altar e a deixou engatinhar até lá. Patrik a pegou e, com Maj a no colo, colocou a aliança no dedo de Erica. Quando finalm ente se beij aram pela prim eira vez com o m arido e m ulher, Maj a apertou o rostinho contra o deles com um a risada, encantada com aquela brincadeira divertida. Naquele m om ento, Patrik se sentiu o hom em m ais rico do m undo. As lágrim as vieram novam ente e dessa vez ele não conseguiu segurá-las. Fingiu abraçar Maj a para lim par as lágrim as na roupa da filha, m as logo percebeu que não enganava a ninguém . E o que im portava, na verdade? Quando Maj a nasceu, ele chorou sem reservas, então ele podia se perm itir um a ou duas lágrim as no dia de seu casam ento tam bém .

Martin segurou Maj a enquanto Patrik e Erica saíam da igrej a sem pressa. Depois de esperar na sacristia até que todos saíssem , foram para os degraus da igrej a, onde receberam um a chuva de arroz, ao som de cliques e à luz dos flashes das câm eras. As lágrim as voltaram . Patrik deixou que corressem .

Erica descansou um pouco os pés, m ovendo os dedos, agora m isericordiosam ente livres dos sapatos brancos de salto alto. Pelo am or de Deus, com o seus pés doíam . Mas ela se sentiu incrivelm ente satisfeita com o dia. O casam ento fora m aravilhoso. A recepção no hotel fora soberba e houve vários discursos solenes. O que m ais a tocara foi o de Anna. Sua irm ã teve que parar várias vezes porque sua voz falhava e as lágrim as rolavam . Ela falou sobre quanto am ava a irm ã e intercalou os m om entos sérios de seu discurso com histórias engraçadas de sua infância. Depois ela tratou brevem ente do m om ento difícil que haviam passado recentem ente e concluiu dizendo que Erica sem pre fora tanto um a irm ã quanto um a m ãe para ela, m as agora ela tam bém havia se tornado sua m elhor am iga. Aquelas palavras aqueceram o coração de Erica e ela teve que enxugar as lágrim as com o guardanapo.

Mas agora o j antar tinha term inado e todos dançavam havia algum as horas. Erica se preocupava em com o estaria o hum or de Kristina, considerando todas as obj eções que tivera quanto aos planos para a cerim ônia. Mas sua sogra a surpreendera. Ela estava dando um show na pista de dança, inclusive com Lars, o pai de Patrik, e agora bebia licor e conversava com Bittan, a nam orada dele. Erica estava boquiaberta.

Quando seus pés se recuperaram um pouco, Erica decidiu sair e tom ar um pouco de ar fresco. Dentro do salão, estava quente e abafado, com tanta gente dançando e transpirando, e ela queria sentir a brisa fria em sua pele. Com um a careta, calçou os sapatos novam ente. Quando estava prestes a se levantar, sentiu um a m ão quente em seu om bro.

– E com o está m inha querida esposa?

Erica ergueu os olhos para Patrik e pegou sua m ão. Ele parecia feliz, m as um pouco desarrum ado. Seu paletó j á não lhe caía tão bem quanto antes, após dançar alguns passos de jive com Bittan. Erica notou que seu m arido não era o m elhor dançarino do m undo quando se tratava do jive. Mas ganhou pontos pelo entusiasm o.

– Pensei em sair e tom ar um pouco de ar, quer vir? – disse Erica, apoiando-se nele, sentindo a dor voltar a golpear seus pés.

– Para onde tu fores, eu irei – Patrik recitou e Erica percebeu, divertida, que ele sem dúvida j á estava um pouco bêbado. O bom é que eles só tinham que subir um lance de escadas m ais tarde.

Saíram para os degraus que conduziam ao pátio superior e Patrik estava a ponto de abrir a boca para dizer algo quando Erica pediu que fizesse silêncio. Algo lhe cham ou a atenção.

Fez um gesto para que Patrik a seguisse. Foram calm am ente em direção às pessoas que Erica tinha visto. Ninguém poderia dizer que se m oviam sem fazer barulho. Patrik ria e estava quase caindo sobre um a urna cheia de flores, m as o casal que estava abraçado em um canto escuro do j ardim não parecia ter se dado conta do ruído.

– Quem está lá se beij ando? – Patrik disse, sussurrando alto.

– Shhii! – Erica disse outra vez, m as ela tam bém não conseguia evitar o riso. Todo o cham panhe e todo o vinho bom que acom panharam o j antar tinham lhe subido à cabeça. Deu m ais um passo à frente. Então parou de repente e virou-se para Patrik, que abruptam ente chocou-se contra ela. Am bos abafaram as risadas.

– Vam os voltar – disse Erica.

– Por quê? Quem é? – disse Patrik, esticando o pescoço para tentar ver algum a coisa. Mas o casal estava tão unido que era difícil reconhecer os rostos.

– Seu idiota, é Dan. E Anna.

– Dan e Anna? – disse Patrik, com um olhar encabulado. – Eu nem sabia que eles estavam interessados um no outro.

– Hom ens – Erica bufou, com desdém . – Vocês nunca reparam em coisa algum a. Com o conseguiu não perceber? Eu sabia que algo estava acontecendo ali antes m esm o deles!

– Então está tudo bem ? Quero dizer, sua irm ã e seu ex? – disse Patrik sem graça, cam baleando um pouco enquanto voltavam para dentro do hotel.

Erica deu m ais um a olhada para trás, para o casal que parecia distraído do resto do m undo.

– Bem ? – Erica riu. – Está m ais do que bem . É fantástico!

E então ela arrastou seu m arido para a pista de dança, tirou os sapatos e saiu dançando descalça. Bem m ais tarde, o Garage tocou “Wonderful tonight”, a balada que era sem pre seu núm ero final, dedicada ao feliz casal. Erica se agarrou a Patrik, apoiou o rosto em seu om bro e fechou os olhos.

O casam ento de Patrik tinha sido um a festa divertida. Boa com ida, bebida grátis, e Mellberg tinha certeza de que causara boa im pressão na pista de dança. Mostrou para os j ovenzinhos que entendia do riscado. Apesar de nenhum a das senhoras presentes ser páreo para Rose-Marie. Ele sentira sua falta, m as não conseguiu arrum ar coragem a fim de pedir perm issão a Patrik para levar um a acom panhante tão em cim a da hora. Mas eles se veriam naquela noite.

Ele havia feito nova tentativa de arrum ar a cozinha e ficou incrivelm ente satisfeito com seu esforço. Aj eitou a m esa com a porcelana boa, e as velas estavam acesas. Foi com expectativa tensa que preparou tudo para esse j antar. A ideia que lhe ocorrera quando estava no banco, de transferir o dinheiro para a com pra do apartam ento com partilhado na Espanha, ainda o agradava. É claro que era tudo m uito repentino, m as eles não eram m ais crianças, ele e Rose-Marie. Já que havia encontrado o am or na sua idade, não havia sentido em perder tem po.

Ele havia pensado bastante em com o fazê-lo. Quando viu a m esa posta de m aneira tão elegante e a com ida, pretendia dizer que queria que tudo estivesse perfeito, porque tinham que celebrar a com pra j untos. Aquilo daria certo. Ele achava que ela não suspeitaria de nada. Então, depois de m uita agonia, decidiu que usaria a sobrem esa, um a m usse de chocolate, com o o esconderij o para sua grande surpresa. O anel. Aquele que havia com prado na sexta-feira e planej ado dar a ela enquanto fazia o pedido que j am ais fizera a m ulher nenhum a. Mellberg m al podia se conter; desej ava ver a expressão no rosto dela. Ele não havia econom izado no anel. Som ente o m elhor era bom o bastante para sua futura esposa, e ele sabia que ela ficaria extasiada quando visse a aliança.

Olhou para o relógio. Cinco m inutos para as sete. Cinco m inutos até ela tocar a cam painha. Na verdade, ele iria fazer um a cópia da chave para Rose-Marie im ediatam ente. Mellberg não podia deixar sua noiva parada lá, tocando a cam painha com o um a visita.

Às sete e cinco, Mellberg estava com eçando a ficar ligeiram ente nervoso. Rose-Marie era sem pre tão pontual. Ele m exeu um pouco na m esa posta, aj ustou os guardanapos nos copos, m oveu os talheres m eia polegada para a direita e depois os deixou na posição original.

Às sete e m eia, ele estava totalm ente convencido de que ela devia estar m orta em um a vala qualquer. Podia até ver seu carrinho verm elho batendo contra um cam inhão ou um daqueles j ipes im ensos que as pessoas insistiam em guiar, que podiam dem olir tudo em seu cam inho. Talvez devesse ligar para o hospital. Vacilou para a frente e para trás, m as então percebeu que era m elhor ligar para o celular dela. Mellberg deu um tapa na própria testa. Por que não pensou nisso antes? Discou de m em ória o núm ero do celular de Rose-Marie, m as franziu a testa quando ouviu a m ensagem da operadora: “Este núm ero está fora de serviço”. Tentou discar novam ente; devia ter errado um dígito. Mas a m esm a m ensagem foi ouvida novam ente. Estranho. Ele teria que ligar para a irm ã dela a fim de saber se Rose-Marie havia se atrasado por algum a razão. De repente se deu conta de que ela nunca lhe dera o núm ero de telefone de sua irm ã. E ele não tinha ideia de qual era seu nom e. Tudo que sabia é que ela vivia em Munkedal. Ou não?

Agora um pensam ento perturbador com eçava a se criar na m ente de Mellberg. Ele o rej eitou, recusou-se a aceitar, m as prontam ente viu a cena em que estava no banco e im aginou-a sendo reproduzida em câm era lenta. Duzentas m il coroas. Ele havia transferido aquele m ontante para a conta espanhola que Rose-Marie havia lhe passado. Duzentas m il. Dinheiro para com prar um apartam ento. Agora ele não conseguia m ais afastar o pensam ento. Ligou para o auxílio à lista para saber se tinham algum núm ero ou endereço para ela. Não encontraram nenhum registro naquele nom e. Desesperadam ente, tentou se lem brar se havia visto qualquer prova, docum ento de identidade ou algo assim , que confirm asse que o nom e dela era o que ela dizia ter. Descobriu, com horror crescente, que nunca vira nada disso. A dura verdade é que ele não sabia qual era o nom e dela, onde m orava ou quem realm ente era. Mas em um a conta na Espanha, ela agora tinha duzentas m il coroas. O dinheiro dele.

Com o um zum bi, foi até a geladeira, pegou a porção dela da m usse de chocolate e sentou-se à m esa do j antar posta de form a tão festiva. Lentam ente, ele enfiou a m ão no pote de vidro e enterrou os dedos na m usse m arrom . O anel brilhou através do chocolate quando ele o tirou. Mellberg o segurou e olhou para ele. Colocou-o gentilm ente na m esa e, com lágrim as correndo pela face, com eçou a se em panturrar de m usse de chocolate.

– Foi certam ente um dia fantástico.

– Hum m – disse Patrik fechando os olhos. Eles tinham decidido previam ente não sair em lua de m el logo depois do casam ento, e sim fazer um a viagem m ais longa com Maj a quando ela fosse alguns m eses m ais velha. A Tailândia estava no topo da lista no m om ento. Mas parecia estranho voltar à vidinha cotidiana tão cedo. Eles passaram o dom ingo dorm indo até tarde, bebendo m uita água e falando dos eventos de sábado. Na segunda-feira, Patrik decidiu tirar o dia de folga. Ele queria que os dois tivessem a chance de relaxar e digerir tudo, antes que a rotina diária tom asse conta novam ente. Considerando todo o trabalho que ele fizera nas últim as sem anas, ninguém na delegacia levantou a m enor obj eção. Então agora ele e Erica estavam deitados no sofá, abraçados. Tinham a casa para si. Adrian e Em m a estavam na creche e Anna tinha levado Maj a para a casa de Dan, para que os recém -casados pudessem ter um dia de paz e sossego. Não que ela precisasse de algum a desculpa para estar com Dan. Ela e as crianças j á haviam passado o dia anterior na casa dele tam bém .

– Você nem suspeitava? – Erica disse com cautela quando viu Patrik im erso em pensam entos.

Patrik entendeu na hora o que ela queria dizer. Pensou um pouco.

– Não. Na verdade, não suspeitei. Não havia nada de... anorm al em Hanna. Eu notei que algo pesava sobre ela, m as achei que fossem problem as em casa. E eram , m as não da m aneira com o nós pensam os.

– E o fato de viverem j untos? Mesm o sendo irm ãos?

– Nós nunca vam os saber todas as respostas, m as Martin ligou e disse que eles finalm ente receberam os relatórios da assistência social. Aqueles dois passaram um inferno com o filhos adotivos depois do acidente. Im agine com o deve tê-los afetado prim eiro terem sido sequestrados de sua m ãe e depois forçados a viver no isolam ento com Sigrid. Isso deve ter gerado algum a form a de laço anorm al entre eles.

– Hum m – disse Erica, m as ainda achava difícil im aginar isso. A coisa toda ia além da com preensão. – Mas com o eles conseguiam m anter separadas as duas diferentes faces de sua vida? – ela disse, depois de instantes.

– O que quer dizer? – disse Patrik, beij ando a ponta de seu nariz.

– Bem , quero dizer, com o podiam viver um a vida norm al? Estudar? E até se tornarem um a policial e um psicólogo? Mas ao m esm o tem po viver com todo o... m al que fizeram ?

Patrik dem orou um tem po para responder. Não entendia a situação toda tam bém , m as tinha pensado m uito nisso desde que havia descoberto a identidade do assassino e achava que tinha chegado a um a conclusão.

– Acho que é exatam ente isso. Eram duas partes separadas. Um a delas vivia um a vida norm al. A m im parecia que Hanna queria m esm o ser um a detetive de polícia e fazer algo significativo. E ela era um a boa policial. Sem dúvida. Lars e eu nunca nos encontram os até pouco antes de… – ele parou. – Bem , a ideia que eu tinha dele era m ais difusa. Mas ele era obviam ente inteligente e eu acho que sua intenção tam bém era ter um a vida norm al. Ao m esm o tem po, o segredo que escondiam devia assom brar sua psique. Então quando aconteceu de darem de cara com Elsa Forsell, na época em que Hanna entrou para a polícia de Ny köping, isso deve ter desencadeado algo dentro deles, algo que deve ter ficado apodrecendo por um bom tem po. Bem , essa é m inha teoria, pelo m enos. Mas j am ais saberem os com certeza.

– Hum m – disse Erica pensativa. – É um pouco a form a com o eu m e sinto a respeito de m am ãe – ela disse, afinal. – Com o se ela vivesse duas vidas separadas. Um a conosco, papai, Anna e eu. E outra dentro de sua cabeça, em que não nos era perm itido entrar.

– Foi por isso que você decidiu fazer um a pesquisa sobre ela?

– Sim – disse Erica. – Eu não tenho certeza, m as sinto que há algo que ela escondia de nós.

– Mas não tem ideia do que poderia ser? – Patrik olhou para ela e penteou para trás um a m echa de seus cabelos.

– Não, e não sei por onde com eçar. Não sobrou nada. Ela nunca guardou nada.

– Tem certeza? Você j á procurou no sótão? Da últim a vez que estive lá, vi um m onte de lixo velho.

– Tenho certeza de que a m aioria é do papai. Mas... acho que podem os dar um a olhada. Só para ter certeza – ela sentou-se. Um tom ansioso apareceu em sua voz.

– Agora? – disse Patrik, que não estava nem um pouco inclinado a deixar o calor de um sofá confortável para ir a um sótão frio e úm ido, que tam bém estava cheio de teias de aranha. Se havia algo que ele odiava, eram aranhas.

– Sim , agora. Por que não? – Erica disse, j á a cam inho do andar de cim a.

– Claro. Por que não? – Patrik suspirou, levantando-se relutantem ente. Ele sabia que era m elhor não protestar quando Erica punha algo na cabeça.

Quando chegaram ao sótão, Erica se arrependeu da ideia por um m om ento. Parecia m esm o que só havia lixo lá em cim a. Mas não faria m al dar um a olhada. Ela se abaixou para não bater a cabeça nas vigas de m adeira do teto enquanto com eçava a m udar coisas de lugar e erguer tam pas de caixas aqui e ali. Com cara de noj o, ela lim pou as m ãos nas calças. Aquilo estava m esm o em poeirado. Patrik tam bém com eçou a vasculhar, apesar de agora duvidar se sua ideia daria algum resultado. Erica provavelm ente estava certa. Ela conhecia m elhor a m ãe. Se ela disse que Elsy não guardava nada, então... De repente, seus olhos captaram algo que cham ou sua atenção. Lá no fundo do sótão, encaixado debaixo da inclinação do telhado, havia um baú velho.

– Erica, venha cá.

– Encontrou algum a coisa? – ela disse e foi até ele, dobrando-se para a frente.

– Não sei, m as esse baú m e parece bastante prom issor.

– Pode ser de papai – ela disse, pensativa, m as algo lhe dizia que o baú não era dele. Era feito de m adeira, pintado de verde, com um padrão elegante, em bora apagado, pintado na superfície. O trinco estava enferruj ado, m as o baú não estava trancado, então ela cuidadosam ente levantou a tam pa. Em cim a de tudo, havia fotografias de duas crianças. Quando ela as pegou, viu que havia algo escrito no verso. “Erica, 3 de dezem bro de 1974”, estava escrito em um a delas, e na outra estava escrito “Anna, 8 de j unho de 1980”. Atônita, viu que era a letra de sua m ãe. Mais abaixo, dentro do baú, havia um a pilha de desenhos e coisas que ela e Anna tinham feito na aula de artes, m isturadas a decorações de Natal e coisas que tinham feito em casa. Todas as coisas com as quais ela sem pre pensou que sua m ãe não se im portava.

– Vej a – ela disse, ainda incapaz de absorver o que via –, vej a o que m am ãe guardou – ela cuidadosam ente pegou um a coisa após a outra. Era com o um a viagem no tem po, de volta à sua infância. E à de Anna. Erica sentiu as lágrim as chegando, e Patrik acariciou suas costas.

– Mas por quê? Nós pensávam os que ela não... Por quê? – Erica enxugou as lágrim as na m anga da blusa e voltou a rem exer no baú. Ali pela m etade, suas relíquias infantis term inaram e coisas m ais antigas com eçaram a aparecer. Ainda com expressão incrédula, Erica pegou um punhado de fotografias em preto e branco e exam inou-as, sem fôlego.

– Sabe de onde são essas fotos? – disse Patrik.

– Não faço ideia – ela disse, balançando a cabeça. – Mas pode apostar que vou descobrir!

Avidam ente, ela cavou m ais fundo, m as parou quando sua m ão se fechou em torno de um obj eto m acio com algo duro e afiado dentro. Ergueu para ver o que era. Tinha em sua m ão um pedaço suj o de tecido, que um dia havia sido branco, m as agora estava am arelado e coberto com feias m anchas de ferrugem . Algo era envolvido pelo tecido. Erica abriu-o cuidadosam ente e teve um susto quando viu o que era. Dentro do pano havia um a m edalha, cuj a origem ela não tinha dúvida. Não havia com o confundir um a suástica. Calada, m ostrou a m edalha para Patrik, cuj os olhos se arregalaram . Ele então olhou para o tecido, que Erica havia largado de qualquer j eito no colo.

– Erica?

– Sim ? – ela disse, seu olhar ainda fixo na m edalha que tinha na m ão.

– Você deveria ver isso – Patrik disse.

– O quê? O que é? – ela disse, confusa e então notou para onde Patrik apontava. Soltou a m edalha nazista e abriu o pedaço de tecido. Mas não era m eram ente um pedaço de tecido. Era um pagãozinho, bem à m oda antiga. E ela percebeu que as m anchas m arrons nele não eram de ferrugem , afinal. Eram de sangue.

De onde vinha aquela roupinha? Por que estava coberta de sangue? E por que sua m ãe guardou-a em um baú no sótão, j untam ente com um a m edalha da Segunda Guerra Mundial?

Por um m om ento, Erica considerou guardar tudo de volta no baú e fechá-lo.

Mas com o Pandora, ela estava curiosa dem ais para deixar o baú perm anecer trancado. Ela tinha que descobrir a verdade. Não im portava qual fosse.

Você terminou O estranho

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