O estranho
Capítulo 5
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Ocheiro de água salgada. Pássaros piando no céu e o azul se estendia até onde ele podia enxergar. A sensação do balançar de um barco. A sensação de que algo estava diferente. Alguém tinha desaparecido. Algo que havia sido quente e m acio se tornara duro e afiado. Braços que o abraçavam , m as tinham um cheiro forte e desagradável, que estava im pregnado nas roupas e na pele. Mas o pior cheiro de todos saía da boca da m ulher. Ele não conseguia se lem brar de quem era ela. E não sabia por que estava tentando se lem brar. Parecia que havia sonhado com algo durante a noite, algo ruim , m as ainda fam iliar. Algo que ele queria conhecer m elhor.
E ele não conseguia deter suas perguntas. Não sabia por quê. Por que ele não podia aceitar tudo, com o sua irm ã? Ela sem pre ficava com tanto m edo quando ele fazia perguntas. Ele queria deixá-la em paz. Mas não conseguia. Não quando sentia o cheiro de água salgada e se lem brava do vento nos cabelos dela. E do hom em que costum ava balançar ele e sua irm ã no ar. Enquanto a outra, a m ulher cuj a voz que antes era suave e depois se tornara ríspida, ficava ao lado dele e olhava. Às vezes, em sua m em ória, ele achava que a via sorrir.
Mas talvez fosse com o ela dizia. Ela que era real e bonita e os am ava. Aquilo foi só um sonho. Um pesadelo que ela iria substituir por sonhos bons e adoráveis. Ele não a contradizia. Mas às vezes se pegava com saudade do cheiro salgado. E dos pássaros piando. Até da voz ríspida. Mas j am ais ousaria dizê-lo.
– Martin, que diabos estam os fazendo, afinal? – Patrik arrem essou a caneta na m esa, frustrado. Ela quicou no tam po e caiu no chão. Martin a pegou calm am ente e a colocou no porta-lápis de Patrik.
– Só se passou um a sem ana, Patrik. Isso leva tem po, você sabe.
– Tudo que eu sei é que as estatísticas m ostram que, quanto m ais se dem ora para revolver um caso, m enor é a probabilidade de que ele sej a solucionado.
– Mas estam os fazendo tudo o que podem os. Não há m ais horas no dia – Martin estudou Patrik por um m om ento. – A propósito, você não deveria tirar a m anhã de folga, tom ar um longo banho, relaxar um pouco? Você parece exausto.
– Relaxar? No m eio desse circo? Eu acho que não – Patrik passou a m ão pelos cabelos, que j á estavam tão despenteados que ficaram de pé. O telefone tocou com um som agudo e am bos pularam . Irritado, Patrik levantou o fone e o desligou novam ente. Ele ficou em silêncio por um m inuto e depois tocou outra vez. Frustrado, Patrik foi até a sala principal e gritou:
– Droga, Annika, desconecte m eu telefone, pode ser? – voltou a seu escritório e bateu a porta atrás de si. Vários outros telefones na delegacia tocaram sem parar, m as com a porta fechada não faziam tanto barulho.
– Qual é, Patrik, isso não vai dar certo. Você está a ponto de subir pelas paredes. Precisa descansar um pouco. Precisa com er. E talvez sej a um a boa ideia você ir até lá e pedir desculpas para a Annika, senão ela vai te am aldiçoar. Ou te dar sete anos de azar. Ou você nunca m ais vai poder saborear um dos bolinhos caseiros que ela traz às sextas-feiras à tarde.
Patrik voltou a sentar-se pesadam ente em sua cadeira, m as teve de sorrir.
– Os bolinhos, você diz? Acha que ela seria tão m aquiavélica a ponto de m e negar seus bolinhos?
– Talvez até a fornada especial, com caram elo feito em casa e fudge de chocolate do Natal, – Martin fez com a cabeça um gesto de quem fingia seriedade.
Patrik entrou na brincadeira e arregalou os olhos:
– Não, não o de chocolate! Ela não seria tão vil.
– Eu acho que ela seria – disse Martin. – Então, talvez fosse m elhor você ir lá e pedir desculpas.
Patrik riu.
– Ah, ok, eu vou – correu a m ão por seus cabelos castanhos novam ente. – Eu só não esperava esse... cerco. Os repórteres de TV e j ornais são loucos. Não parecem ter o m enor escrúpulo. Será que não percebem que estão sabotando nossa investigação quando ficam nos caçando assim ? É im possível trabalhar!
– Eu acho que avançam os bastante em um a sem ana – Martin disse calm am ente. – Nós entrevistam os todos os colegas de elenco de Lillem or, exam inam os o vídeo da noite da festa em que ela desapareceu e estam os verificando cada pista que recebem os do público. Acho que estam os fazendo um belo trabalho. Sobre o fato de as coisas estarem m ais caóticas por causa de Sodding Tanum, bem , não há m uito o que possam os fazer.
– Acredita que decidiram continuar transm itindo aquela porcaria? – Patrik j ogou as m ãos para cim a. – Um a garota é assassinada e eles usam isso com o entretenim ento em horário nobre. E o resto da Suécia senta e assiste. Eu acho que isso m ostra um a incrível falta de respeito.
– Mais um a vez, você está certo – disse Martin, agora com m ais rispidez na voz. – Mas o que podem os fazer? Mellberg e aquele Erling W. Larson são tão aparecidos que nem consideraram cancelar a produção. Mas nós só precisam os continuar fazendo nosso trabalho. A situação não vai m udar. E eu ainda digo que tanto você quanto a investigação se beneficiariam de um descanso.
– Eu não vou para casa, se é isso que está insinuando. Eu não tenho tem po. Mas nós poderíam os alm oçar no restaurante. Isso conta com o descanso? – encarou Martin, m as sabia que seu colega tinha razão.
– Vai ter que servir, acho – disse Martin, levantando-se. – E lem bre-se de pedir desculpas para Annika na saída.
– Sim , m am ãe – disse Patrik. Pegou seu paletó e seguiu Martin pelo corredor. Só então percebeu com o estava com fom e.
À volta deles, os telefones continuavam tocando.
* * *
Kerstin não conseguiria encarar a ideia de ir ao trabalho. Ela na verdade não precisava ir, ainda estava de licença por doença e o m édico lhe aconselhara a pegar leve. Mas ela tinha sido criada com um a forte ética profissional que a obrigava a cuidar de seu em prego, não im portava o preço. De acordo com seu pai, estar no leito de m orte seria o único m otivo válido para não ir ao serviço.
O único problem a era que ela se sentia assim . Seu corpo funcionava: m ovia-se, com ia, lavava-se e fazia tudo o que era necessário, m as m ecanicam ente. Por dentro, era com o se estivesse m orta. Nada m ais parecia im portante. Nada lhe dava qualquer sensação de alegria ou m esm o interesse. Tudo parecia frio e m orto. A única coisa que restava dentro dela era a dor, que às vezes ficava tão forte que a fazia se dobrar.
Duas sem anas haviam se passado desde que a polícia fora à sua porta. Assim que ouviu a batida, soube de algum a form a que isso iria m udar sua vida. Todas as noites, quando ia para a cam a e tentava dorm ir, lem brava-se da discussão que tivera com Marit. Ela j am ais poderia escapar da certeza de que a últim a conversa que tiveram foi repleta de raiva. Kerstin desej ava ternam ente poder retirar pelo m enos parte das palavras duras que havia atirado a Marit. Mas o que isso im portava agora? Por que não podia deixar isso pra lá? Por que queria tanto que Marit tom asse um a posição e tornasse público o relacionam ento entre am bas? Por que isso era tão im portante? A coisa m ais im portante deveria ser estarem j untas. O que as outras pessoas sabiam ou pensavam ou diziam agora era tão insignificante. E ela não conseguia entender por que, no passado distante, na verdade apenas duas sem anas atrás, ela chegara a pensar que era tão crucial.
Incapaz de decidir o que fazer, Kerstin deitou-se no sofá e ligou a TV com o controle rem oto. Cobriu-se com o cobertor que Marit havia com prado durante um a de suas raras viagens para casa, na Noruega. Cheirava à lã e ao perfum e de Marit. Kerstin enterrou o rosto no cobertor e respirou fundo, desej ando que a fragrância preenchesse o vazio dentro dela. Partículas de lã penetraram em seu nariz e a fizeram espirrar.
De repente, sentiu saudade de Sofie. A m enina que tanto a fazia lem brar Marit e tão pouco Ola. Sofie tinha vindo ver Kerstin duas vezes. Fizera isso para consolar Kerstin, apesar de parecer que ia chorar a qualquer m om ento. A m enina, de um a hora para outra, havia adquirido um ar adulto, que nunca esteve aparente antes. Certa m aturidade dolorosa que era totalm ente nova. Kerstin queria poder tirar isso dela, queria fazer voltar o relógio e trazer de volta a ingenuidade que m eninas da idade de Sofie deveriam ter. Mas nela isso se fora para sem pre. Kerstin tam bém sabia que perderia Sofie. A m enina não havia percebido ainda; sem dúvida tinha toda a intenção de perm anecer ligada à com panheira de sua m ãe. Mas a vida não ia perm itir isso. Havia tantas outras coisas que teria que fazer, coisas que iriam assum ir o com ando quando a dor passasse: am igos, nam orados, escola, tudo que faz parte da vida de um adolescente. Além disso, Ola ia tornar difícil para ela m anter o contato. Com o tem po, Sofie não seria capaz de continuar lutando. As visitas se tornariam m enos frequentes e finalm ente cessariam por com pleto. Dali um ano ou dois, Kerstin e Sofie poderiam até se cum prim entar caso se encontrassem na rua, talvez trocar algum as palavras, m as então cada um a se viraria e seguiria seu cam inho. A única coisa que restaria seriam as m em órias de outra vida, m em órias que, com o as partículas de névoa, iriam se espalhar se tentassem agarrá-las. Ela ia perder Sofie. É assim que as coisas são.
Kerstin zapeava indiferentem ente pelos canais. Eram na m aioria program as em que os telespectadores tinham que telefonar e adivinhar palavras. Terrivelm ente chatos. Seus pensam entos foram para o assunto que a preocupava tanto nas duas últim as sem anas. Quem iria querer m achucar Marit? Quem a capturaria no m eio de seu desespero por conta da briga delas, no m eio de sua raiva? Será que ela teve m edo? Sua m orte foi rápida ou lenta? Teria sido dolorosa? Será que ela sabia que ia m orrer? Todas essas perguntas se atropelavam na cabeça de Kerstin sem encontrar respostas. Ela havia acom panhado as m atérias sobre o assassinato da garota do reality show, tanto nos j ornais quanto na TV, m as se sentia estranham ente alheia a tudo; ainda estava com pletam ente tom ada por sua própria dor. Em vez disso, ficou preocupada que esse segundo assassinato pudesse tirar recursos da investigação da m orte de Marit. A atenção da m ídia faria a polícia passar todo o tem po tentando encontrar o assassino da garota, e eles não iriam m ais se preocupar com Marit.
Kerstin sentou-se e buscou o telefone na m esa de centro. Se ninguém m ais ia fazer coisa algum a, ela iria pelo m enos cuidar que os interesses de Marit estivessem protegidos. Ela lhe devia isso.
* * *
Desde a m orte de Barbie, eles se reuniam em um círculo no m eio do centro com unitário um a vez ao dia. A princípio, houve protestos. Um silêncio solene seguido de com entários m ordazes, m as depois de Fredrik explicar que isso era a condição para prosseguirem com as gravações, todos eles relutantem ente aceitaram cooperar. Depois de m ais ou m enos um a sem ana, com eçaram , de um j eito constrangido, a aguardar ansiosos pela terapia em grupo com Lars. Ele não era arrogante com eles, ele ouvia, fazia com entários que não pareciam deslocados e falava com eles em seus próprios term os. Até Uffe relutantem ente com eçava a gostar de Lars, ainda que preferisse m orrer a adm itir abertam ente. As sessões em grupo tam bém eram com plem entadas por conversas individuais e ninguém m ais protestava quanto a elas. Ninguém no grupo estava exatam ente exultante com o processo da terapia, m as agora prevalecia um ar de aceitação resignada.
– Com o se sentiram nesses últim os dias? Com tudo o que aconteceu? – Lars olhou para um participante após o outro, esperando que alguém com eçasse a falar. Seus olhos pararam em Mehm et.
– Acho que está tudo bem – Mehm et disse, depois de um m om ento. – Tem sido um caos tão grande que nós, tipo, quase nem tivem os tem po para pensar.
– Pensar sobre o quê? – disse Lars, incentivando-o a explicar m elhor.
– Sobre o que aconteceu. Sobre Barbie – Mehm et olhou para as próprias m ãos. Lars tirou os olhos dele e correu-os pelos dem ais.
– Acha que é um a coisa boa? Que vocês não tenham tem po para pensar nisso? É assim que tem sido a experiência dos dem ais? Que o caos tem sido positivo?
Outro m om ento de silêncio.
– Não para m im – disse Jonna, triste. – Eu acho que está sendo difícil. Muito difícil.
– De que m aneira? Que aspecto disso tudo tem sido difícil? – Lars inclinou a cabeça para o lado.
– Pensar no que aconteceu com ela. Ver im agens em m inha m ente. Com o ela deve ter m orrido e coisas assim . E a form a com o ela estava naquela... lata de lixo. Tão noj ento.
– Vocês todos veem im agens tam bém ? – o olhar de Lars pousou sobre Calle.
– Claro, pode acreditar que sim . Mas pensar nisso não faz nenhum bem . Barbie ainda vai estar m orta.
– Então não acha que seria m elhor para vocês lidar com essas im agens? Confrontá-las?
– Porra, é m elhor tom ar outra cervej a. Não acha, Calle? – Uffe chutou Calle na canela e riu, m as logo se retraiu por trás de sua expressão solene quando notou que ninguém com prara a ideia. Lars deslocou o foco para Uffe, o que o fez se contorcer na cadeira. Ele era o único que ainda se recusava teim osam ente a participar do processo, com o Lars o cham ava.
– Uffe, você sem pre se faz parecer durão. Mas o que vem à sua m ente quando pensa em Barbie? Que tipo de im agem passa pela sua cabeça?
Uffe olhou em volta com o se não pudesse acreditar no que estava ouvindo. Que im agem m ental de Barbie? – ele riu e olhou para Lars.
– Bem , qualquer um que disser que os seios não são a prim eira coisa de que se lem bram está m entindo. Aquilo eram bom bas de silicone! – pôs as m ãos em form a de cálice e olhou em volta, buscando apoio do grupo. Mas ninguém parecia se divertir dessa vez tam bém .
– Meus Deus, Uffe, cale a boca! – Mehm et disse, irritado. – Você é tão estúpido quanto parece ou está só se exibindo?
– Por que diabos acha que pode m e criticar? – Uffe inclinou-se na direção de Mehm et com um a expressão hostil, m as parecia ter ciência, em algum lugar naquele cérebro de réptil, de que seus com entários poderiam não ser apropriados. Novam ente se fechou em um sorriso solene. Ninguém gostava de Barbie quando era viva, m as agora todos se sentavam aqui com o bebês chorões e falavam sobre ela com o se sua m elhor am iga tivesse m orrido.
– Tina, você não falou m uito. Com o a m orte de Lillem or te afetou?
– Foi tão trágico – ela tinha lágrim as nos olhos e sacudia a cabeça. – Quero dizer, ela tinha toda a vida pela frente. E um a carreira internacional de certa form a. Ela ia fazer um ensaio para um a grande revista quando o program a term inasse, isso j á estava certo e tam bém tinha falado com um cara sobre ir para os Estados Unidos e tentar fazer a Playboy. Quero dizer, ela poderia ter sido a nova Victoria Silvstedt. Victoria j á está envelhecendo, e Barbie estava pronta para assum ir. Conversávam os m uito sobre isso e ela era tão am biciosa. Legal pra caram ba tam bém . Isso é um a m erda, é tão trágico – agora as lágrim as corriam e ela as enxugava com a m ão, com cuidado para não borrar o rím el.
– É, é triste pra cacete, é verdade – disse Uffe. – O m undo perdeu a próxim a Victoria Silvstedt. Tipo, o que vai ser do m undo agora? – ele riu, m as ergueu as m ãos na defensiva quando viu os olhares de desdém dirigidos a ele. – Está bem , está bem , eu vou calar m inha boca. Fiquem aí tagarelando, seus idiotas hipócritas.
– Você parece estar sentindo um a enorm e frustração a respeito de tudo isso, Uffe – Lars disse gentilm ente.
– Não é frustração. Eu só acho que eles são uns falsos de m erda. Sentados aí, chorando por causa de Barbie, sendo que não se im portavam nada com ela quando estava viva. Pelo m enos eu estou sendo sincero – ele j ogou as m ãos para cim a.
– Você não é sincero – Jonna resm ungou. – Você só está sendo um im becil.
– Olha só, a louca de pedra está falando. Puxa aí suas m angas pra eu ver sua últim a obra de arte. Louca do caralho – ele riu e Lars se levantou.
– Eu não acredito que vam os obter m ais progressos hoj e. Uffe, eu acho que você e eu deveríam os ter nosso encontro individual agora.
– Beleza, beleza. Mas não pense que eu vou sentar lá e chorar. Esses outros trouxas fazem isso tão bem – ele se levantou e deu um tapa na parte de trás da cabeça de Tina, o que a fez se virar e socá-lo. Ele apenas riu e saltitou atrás de Lars. Os outros o observaram partir.
Rose-Marie estava a cam inho de Tanum shede para o alm oço. Era o prim eiro encontro dos dois desde o j antar e Mellberg estava esperando com excitação febril o relógio bater m eio-dia. Olhou para o relógio, que ainda indicava que faltavam dez m inutos, enquanto batia o pé do lado de fora. Os ponteiros se arrastavam , e ele olhava de lá para cá entre o relógio e os veículos que entravam no estacionam ento de vez em quando. Ele havia sugerido o m esm o restaurante da outra vez. Em term os de atm osfera rom ântica, não havia lugar m elhor.
Cinco m inutos depois, ele viu o pequeno Fiat verm elho de Rose-Marie entrar no estacionam ento. Seu coração com eçou a bater de m odo estranho e ele sentiu sua boca secar. Verificou, em ato reflexo, se seus cabelos estavam no lugar. Enxugou as m ãos nas calças e foi ao encontro dela. O rosto de Rose-Marie se ilum inou quando o viu e ele teve que reprim ir um im pulso de incliná-la para trás e dar-lhe um beij o bem longo no m eio do estacionam ento. A força de seus sentim entos o surpreendia. Sentia-se com o um adolescente novam ente. Eles se abraçaram e apertaram as m ãos e ele a deixou ir à sua frente para dentro do restaurante. Sua m ão trem ia um pouquinho quando a tocou nas costas por um segundo.
Quando entraram no restaurante, ele teve um a surpresa. Em um a das m esas próxim as à j anela, Hedström e Molin olhavam para ele, estupefatos. Rose-Marie olhou-o com curiosidade e depois para seus dois colegas, e Mellberg relutantem ente percebeu que teria que fazer as devidas apresentações. Martin e Patrik cum prim entaram Rose-Marie com sorrisos largos. Mellberg suspirou. As fofocas na delegacia com eçariam logo. Por outro lado… Rose-Marie não era definitivam ente um a m ulher ao lado de quem ele teria vergonha de ser visto.
– Gostariam de se j untar a nós? – Patrik apontou as duas cadeiras vazias em sua m esa.
Mellberg estava a ponto de declinar quando ouviu Rose-Marie dizer um alegre “sim ”. Ele disse um palavrão baixinho. Estava ansioso para ficar sozinho com ela. Um alm oço com Hedström e Molin definitivam ente não iria proporcionar a intim idade rom ântica que ele tinha visualizado. Mas teria que sorrir e aguentar. Olhou irritado para Patrik pelas costas de Rose-Marie. E então, resignado, puxou um a cadeira para ela. Hedström e Molin pareciam não acreditar no que seus olhos viam . Não era de surpreender. Jovens da idade deles provavelm ente nunca ouviram a palavra “cavalheiro”.
– Que prazer conhecê-la... Rose-Marie – disse Patrik, olhando para ela do outro lado da m esa. Ela sorriu e as ruguinhas de expressão ao redor de seus olhos ficaram m ais pronunciadas. Mellberg não conseguia parar de olhar para ela. Havia algo na form a com o seus olhos brilhavam e seus lábios se curvavam para cim a quando sorria, que... não, ele não conseguia pôr em palavras.
– Onde vocês dois se conheceram ? – a voz de Molin tinha um tom ligeiram ente divertido, e Mellberg encarou-o carrancudo. Ele esperava de verdade que eles não pensassem que podiam tirar sarro às suas custas. E de Rose-Marie.
– No baile, em Munkedal – os olhos de Rose-Marie brilharam . – Bertil e eu fom os arrastados para lá por nossos am igos e não estávam os tão entusiasm ados com tudo aquilo. Mas às vezes o destino nos guia para o cam inho certo – sorriu para Mellberg e ele sentiu-se enrubescer de felicidade. Então ele não era o único tolo sentim ental. Rose-Marie tam bém sentia que havia algo de especial naquela prim eira noite.
A garçonete chegou à m esa para anotar os pedidos.
– Peçam o que quiserem , hoj e é por m inha conta! – Mellberg ouviu-se dizer, para seu im enso espanto. Arrependeu-se por um instante, m as o olhar de adm iração que recebeu de Rose-Marie fortaleceu sua determ inação. Descobriu, talvez pela prim eira vez em sua vida, o verdadeiro valor do dinheiro. O que eram poucas centenas de coroas com paradas ao apreço que viu nos olhos de um a m ulher bonita? Hedström e Molin olharam para ele pasm os, e ele bufou irritado.
– Olhem aqui, peçam logo antes que eu m ude de ideia e desconte dos seus salários.
Ainda em estado de choque, Patrik gaguej ou:
– Eu vou querer a solha – e Molin, tão em basbacado quanto ele, só conseguiu fazer um gesto que indicava que ia querer o m esm o.
– Eu vou querer o picadinho – disse Mellberg, e então olhou para Rose-Marie.
– E você, m inha querida? O que a dam a gostaria de pedir hoj e? – Mellberg ouviu Hedström tossir, engasgado com um gole d’água. Olhou com reprovação para Patrik e pensou que era em baraçoso estar na com panhia de dois adultos que não sabiam se com portar. A j uventude de hoj e tinha grandes lacunas em sua educação de berço.
– Eu vou querer o filé de lom bo de porco, por favor – disse Rose-Marie, desdobrando o guardanapo e colocando-o no colo.
– Você m ora em Munkedal? – perguntou Martin, polidam ente, servindo m ais água para a m ulher sentada ao seu lado.
– No m om ento, estou m orando em Dingle – ela disse, bebendo um gole d’água antes de continuar. – Recebi um a oferta de aposentadoria antecipada e não pude recusar, então decidi m orar m ais perto de m inha fam ília. Agora estou hospedada na casa de m inha irm ã até encontrar um lugar para m im . Morei na costa leste por m uito tem po, então quero m e habituar com a área antes de decidir onde plantar m inhas raízes. Quando eu m e instalar, terão de m e carregar de lá na horizontal.
Ela deu um a risadinha que fez o coração de Mellberg parar por um instante. Com o se tivesse percebido isso, ela prosseguiu, tím ida, com olhos baixos:
– Vam os ver o que acontece. Tudo depende das pessoas que conhecem os – ela ergueu os olhos e encontrou o olhar de Mellberg. Ele não se lem brava de ter sido tão feliz. Abriu a boca para dizer algo, m as nesse exato m om ento a garçonete chegou com a com ida. Rose-Marie virou-se para Patrik, com um a pergunta:
– Com o vão as coisas para vocês com esse assassinato terrível? Pelo que soube por Bertil, foi algo bem chocante.
Por um m om ento, Patrik se concentrou em equilibrar peixe, batatas, m olho e vegetais no garfo que se dirigia para sua boca.
– Sim , terrível é certam ente a palavra correta para isso – ele disse ao term inar de m astigar. – E tam bém não tem sido fácil para nós, com esse circo que a m ídia está fazendo. – Ele olhou pela j anela na direção do centro com unitário.
– Sim , eu não entendo com o as pessoas podem achar divertido parar para assistir tam anho lixo – Rose-Marie sacudiu a cabeça. – Especialm ente depois de um evento tão trágico. As pessoas são com o urubus!
– Verdade, verdade – disse Martin, som brio. – Eu acho que é porque elas não encaram com o pessoas reais quem aparece na TV. É a única explicação que eu consigo encontrar. De que outra form a poderiam suportar divertir-se com tam anha tragédia?
– Vocês suspeitam que algum dos outros participantes estej a envolvido no assassinato? – Rose-Marie baixou a voz de m aneira conspiratória.
Patrik olhou para seu chefe. Não se sentia confortável discutindo aspectos da investigação com alguém de fora da polícia. Mas Mellberg perm aneceu em silêncio.
– Estam os investigando o caso de todos os ângulos possíveis – disse Patrik, com cautela. – Ainda não nos concentram os em nenhum suspeito específico – ele decidiu esquecer o assunto.
Com eram em silêncio por um tem po. A com ida estava boa, m as o esdrúxulo quarteto não conseguia encontrar um tópico em com um para conversar. De repente, o silêncio foi quebrado pelo toque agudo de um telefone. Patrik procurou no bolso por seu celular e então se levantou e andou rapidam ente para a entrada enquanto atendia. Ele não queria perturbar os dem ais clientes. Voltou após alguns m inutos. Voltou-se para Mellberg sem tornar a se sentar.
– Era Pedersen. O relatório da autópsia de Lillem or Persson foi concluído. Podem os ter m ais pistas para seguir em frente – sua expressão era som bria.
Hanna estava curtindo o silêncio de sua casa. Decidiu ir até lá para alm oçar; a viagem de carro levava poucos m inutos. Após os cansativos últim os dias, era m uito bom poder dar um descanso aos ouvidos do som dos telefones tocando. Em casa, ela ouvia apenas o barulho distante do tráfego da rua lá fora.
Sentou-se à m esa da cozinha e soprou a com ida que havia aquecido no m icro-ondas. Era o estrogonofe de linguiça do j antar da noite anterior, um prato que ela sem pre achava que era m ais gostoso no dia seguinte. Era um prazer estar sozinha em casa. Ela am ava Lars dem ais. Mas quando ele estava em casa, havia sem pre aquela tensão, aquela preocupação silenciosa no ar. Ela percebeu quanto aquilo a deixava exausta.
O problem a era que ela sabia que seu relacionam ento estava sendo drenado por algo que eles nunca poderiam m udar. O passado era com o um cobertor pesado e úm ido que sufocava tudo em suas vidas. Às vezes, ela tentava fazer Lars entender que eles tinham que erguer aquele cobertor j untos, deixar entrar um pouco de ar, um pouco de luz. Mas ele não conhecia outra form a de viver que não no escuro e na um idade. Pelo m enos era algo fam iliar.
Ela frequentem ente ansiava por algo novo. Algo diferente desse ciclo vicioso m iserável em que eles tinham entrado. Nos últim os anos, ela sentira que um filho poderia ser capaz de apagar o passado. Um a criança que poderia ilum inar a escuridão, aliviar o peso e perm itir que respirarassem de novo. Mas Lars se recusara. Não queria nem discutir o assunto. Ele tinha seu trabalho, dissera; e ela, o dela; isso bastava. Mas ela sabia que não. Sem pre faltava algo. Isso nunca term inava. Um filho faria tudo aquilo acabar. Abatida, pousou o garfo no prato. Tinha perdido o apetite.
* * *
– Com o vão as coisas com você? – Sim on dirigiu a Mehm et um olhar preocupado enquanto se sentava de frente para ele à m esa, em um canto da padaria. Haviam trabalhado duro e agora estavam se perm itindo um a pequena pausa. Mas isso significava que Uffe tinha que cuidar dos pedidos na loj a, então Sim on ficava olhando inquieto naquela direção.
– Ele não consegue arruinar tudo em cinco m inutos. Eu não acho, pelo m enos – disse Mehm et, rindo.
Sim on relaxou e riu tam bém .
– Infelizm ente, eu j á perdi as esperanças quanto a aquela “aquisição” em particular para o m eu quadro de funcionários – disse. Eu devo ter tirado o palito curto quando foi feita a distribuição de tarefas no elenco – bebeu um gole de café.
– Pode ser. Mas você tam bém conseguiu a m im ! – disse Mehm et com um sorriso largo. – Então, se j untar Uffe e eu, você tem um funcionário m ediano.
– Sim , você tem razão quanto a isso. Peguei você tam bém ! – disse Sim on, rindo. Ele então ficou sério e olhou longam ente para Mehm et, m as este decidiu não corresponder. Havia m uitas dúvidas e palavras não ditas naquele olhar, com as quais ele não podia lidar no m om ento. Se é que um dia conseguiria.
– Você não respondeu m inha pergunta. Com o vão as coisas com você? – Sim on insistiu.
Mehm et sentiu trem ores nervosos em suas m ãos. Tentou ignorar a pergunta.
– Ah, estou bem . Eu não a conhecia m uito bem . Mas há um a gritaria tão grande em torno disso. Pelo m enos, os caras da TV estão felizes. Os núm eros da audiência estão batendo todos os recordes.
– É, eu vej o vocês dois o suficiente na loj a todos os dias, então não consegui assistir a um único episódio ainda – Sim on baixou um pouco a intensidade de seu olhar. Mehm et perm itiu-se relaxar. Deu um a m ordida caprichada em um a rosquinha que acabara de sair do forno, deliciando-se com o sabor e o arom a da canela.
– Com o foi? Ser interrogado pela polícia? – Sim on tam bém pegou um a rosquinha e engoliu quase um terço dela em um a m ordida.
– Não foi tão ruim – Mehm et não se sentia m uito confortável falando sobre isso com Sim on. Além disso, estava m entindo. Não queria contar a verdade sobre com o fora hum ilhante sentar-se naquela salinha, com o fora bom bardeado com perguntas e com o as respostas que dera nunca eram satisfatórias.
– Eles foram m uito educados. Não creio que eles suspeitem seriam ente de algum de nós – ele evitou os olhos de Sim on. Im agens se sucediam em sua m ente, m as ele as afastou na hora. Recusava-se a aceitar do que elas queriam lem brá-lo.
– O psicólogo com quem vocês conversam , ele é bom ? – Sim on inclinou-se para a frente e deu outra boa m ordida na rosquinha enquanto esperava pela resposta de Mehm et.
– Lars é legal. Está sendo bom poder falar com ele.
– Com o Uffe está aceitando? – Sim on apontou com a cabeça para a loj a, onde podiam ver Uffe passar correndo pela porta, fingindo tocar guitarra em um a baguete. Mehm et não conseguiu conter o riso.
– O que acha? Uffe é... bem , Uffe. Mas poderia ser pior. Nem ele ousa questionar Lars. Não, ele está bem .
Um a senhora de idade entrou na padaria e Mehm et a viu se proteger da dança selvagem de Uffe.
– Acho que está na hora de socorrer os fregueses.
Sim on virou-se a fim de ver para onde Mehm et estava olhando e levantou-se prontam ente.
– Você tem razão, a sra. Hj ertén pode ter um infarto se não a aj udarm os.
Quando eles entraram na loj a, a m ão de Sim on sem querer roçou a de Mehm et. Mehm et se afastou com o se tivesse sido queim ado.
– Erica, eu tenho que ir a Gotem burgo hoj e à tarde, então vou chegar em casa um pouco tarde. Lá pelas oito, acho.
Enquanto ouvia a resposta de Erica, podia escutar Maj a balbuciando ao fundo. Sentiu na hora um a saudade aguda de casa. Poderia m andar tudo para o inferno, ir para casa, j ogar-se no chão e brincar com a filha. Tam bém tinha se aproxim ado m uito de Em m a e Adrian nos últim os m eses e queria poder passar m ais tem po com eles. E se sentia culpado por Erica ter que cuidar de tantas coisas antes do casam ento, m as, do j eito que as coisas estavam , não tinha outra opção. A investigação se encontrava em seu estágio m ais intenso e ele não tinha tem po para m ais nada. Sorte dele Erica ser tão com preensiva, pensou enquanto entrava no carro. De início, pensou em pedir a Martin que fosse com ele, m as não era necessário que os dois fossem até Pedersen. Martin m erecia um a chance de ir para casa ficar com Pia. Ele tam bém vinha trabalhando dem ais ultim am ente. Assim que Patrik engatou a m archa para sair com o carro, o telefone tocou novam ente.
– Hedström – ele disse, ligeiram ente irritado por im aginar ser m ais um a bateria de perguntas de um repórter. Quando ouviu quem era, lam entou o tom im paciente de sua voz.
– Olá, Kerstin – ele disse, desligando o m otor. A leve sensação de culpa que sentia havia um a sem ana agora o atingia em cheio. Ele havia negligenciado a investigação da m orte de Marit por estar trabalhando no caso de Lillem or. Não fora um a decisão consciente, m as a pressão da m ídia era enorm e depois do assassinato da garota. Com um a careta, ouviu o que Kerstin tinha a dizer e então respondeu:– Nós... nós não descobrim os m uita coisa, sinto dizer.
– Eu entendo, vocês devem estar m uito ocupados ultim am ente.
– Deixe-m e assegurá-la de que nós não perdem os o foco na investigação da m orte de Marit – fez outra careta, achando de m au gosto ter de m entir. Mas o que poderia fazer agora era tentar com pensar o tem po perdido. Ficou ali sentado por um instante, depois de desligar o telefone. E então ligou para outro núm ero e passou os cinco m inutos seguintes conversando com alguém que soava m uito confuso com o que ele dizia. Aliviado, Patrik dirigiu-se para Gotem burgo.
Duas horas depois, ele chegou ao Laboratório de Medicina Forense, em Gotem burgo. Logo encontrou o cam inho para o escritório de Pedersen e bateu na porta. Eles norm alm ente se com unicavam por fax ou telefone, m as dessa vez Pedersen havia insistido em discutir os resultados da autópsia pessoalm ente. Patrik suspeitava que o grande interesse da m ídia fosse a razão para que os chefões não quisessem deixar nada para a sorte.
– Olá! Há quanto tem po! – disse Pedersen quando Patrik entrou. Ele se levantou e os dois se cum prim entaram .
– Sim , é verdade. Faz tem po desde a últim a vez que nos vim os, apesar de conversarm os por telefone o tem po todo – disse Patrik, sentando-se na cadeira do visitante, de frente para a enorm e m esa de Pedersen.