O estranho

Camilla Läckberg · Capítulo 7 de 10

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O estranho

Capítulo 7

 

Ànoite era a hora em que o terror parecia m ais próxim o. E se eles viessem quando ele estivesse dorm indo? E se ele não conseguisse acordar? Antes de ser tarde dem ais. Ele e sua irm ã tinham cada um sua própria cam a no quarto. Ela norm alm ente os punha na cam a à noite, puxava as cobertas até o queixo deles e depois os beij ava, ele prim eiro e depois ela, na testa. Um suave “boa-noite” e então ela apagava a luz. E trancava a porta. Era quando o m al reinava livre em suas m entes. Mas eles haviam inventado um a form a de se consolar. Com passos cuidadosos, ele se esgueirava até a cam a da irm ã e deitava-se j unto a ela debaixo das cobertas. Eles nunca conversavam , apenas ficavam deitados bem j untos e sentiam o calor da pele um do outro. Tão próxim os que sua respiração se tornava um a só, o ar quente de sua própria expiração, que preenchia seus pulm ões e aquecia seu coração, dando-lhes um a sensação de segurança.

Às vezes, ficavam acordados assim . Am bos viam o m edo nos olhos do outro, m as não conseguiam esboçar palavras. Nessas horas, ele às vezes sentia tanto am or pela irm ã que parecia que poderia explodir. O sentim ento tom ava todo o seu ser e o fazia querer acariciar cada centím etro de seu corpo. Ela era tão indefesa, tão inocente, tão assustada com o que havia lá fora. Muito m ais assustada do que ele. Para ele, o m edo na verdade se m isturava ao anseio pelo que havia lá fora. Ao que ele poderia ter acesso, se não fosse um pé-frio e se o desconhecido não estivesse esperando lá fora.

Às vezes, enquanto ficava lá deitado à noite, com sua irm ã nos braços, ele se perguntava se o terror tinha qualquer conexão com a m ulher com a voz brava. E então o sono o dom inava. E com ele, vinham as m em órias.

Martin sofrera a vida toda de enj oo, m as ainda tentou ler as páginas que haviam sido copiadas do diário de Lillem or.

– Quem é esse “ele” de que ela tanto fala? A pessoa que ela reconheceu? – ele disse espantado, lendo para ver se encontrava m ais pistas.

– Não diz – disse Patrik, que j á tinha lido as páginas antes de saírem . – Ela não parece ter m uita certeza se o viu m esm o e onde.

– Mas ela escreve que ele a deixa desconfortável – disse Martin, apontando um trecho na página que estava lendo. – Dessa form a, parece im provável ser um a coincidência que ela tenha sido assassinada.

– Sim , estou inclinado a concordar com você – disse Patrik, acelerando para ultrapassar um cam inhão. – Mas não há m ais nada que possa ser um a pista, não no diário pelo m enos. E poderia ser qualquer um . Alguém na cidade, alguém no grupo, alguém da produção. Tudo que sabem os é que é um hom em – notou que Martin com eçava a respirar fundo. – Com o está? Está se sentindo m al? – um a olhada para seu colega confirm ou. As sardas de Martin eram de um verm elho brilhante em seu rosto, que estava m ais pálido que o norm al, e seu peito subia e descia enquanto ele respirava com dificuldade.

– Quer que eu deixe entrar um pouco de ar? – disse Patrik, sem saber o que fazer. Sentia-se m al por seu colega, m as não tinha a m enor vontade de dirigir até Lund em um carro cheirando a vôm ito. Martin assentiu com a cabeça, então Patrik apertou o botão para abrir a j anela do lado do passageiro. Martin apoiou-se na porta, inspirando com sofreguidão, apesar de o ar estar m isturado à fum aça dos escapam entos e não proporcionar tanto alívio quanto ele esperava.

Muitas horas depois, entravam no estacionam ento da delegacia de Lund, as pernas dorm entes e as costas doendo. Não se perm itiram m ais que um a breve pausa para ir ao banheiro e esticar as pernas, j á que estavam am bos excitados com o que a reunião com o superintendente Kj ell Sandberg poderia revelar. Tiveram que esperar poucos m inutos na recepção até ele descer. Na verdade, ele deveria estar de folga nesse sábado, m as depois do telefonem a de Patrik, concordara voluntariam ente em vir à delegacia.

– Com o foi a viagem ? – disse Kj ell Sandberg, m ostrando o cam inho de form a ágil. Era um hom em m uito pequeno (em torno de um m etro e cinquenta e dois, Patrik supôs), m as parecia com pensar sua baixa estatura com um a quantidade enorm e de energia. Quando ele falava, usava o corpo todo e gesticulava m uito. Martin e Patrik tiveram dificuldade para acom panhá-lo, j á que ele praticam ente corria à frente deles. A m archa finalm ente os levou para um a sala de descanso, e Kj ell fez um gesto para que Patrik e Martin entrassem prim eiro.

– Achei que poderíam os nos sentar aqui em vez de no m eu escritório – disse Kj ell, apontando para um a m esa com um a pilha de pastas. A de cim a estava com um a etiqueta que dizia “Börj e Knudsen”, que Patrik havia aprendido no dia anterior ser o nom e da vítim a núm ero três, ou dois, na contagem cronológica. Eles se sentaram , e Kj ell em purrou a pilha de arquivos para Patrik.

– Passei o dia de ontem lendo tudo novam ente. Depois que recebem os sua notificação, bem , eu devo dizer que com ecei a pensar em vários casos de m aneira diferente da que víam os na época. Ele sacudiu a cabeça lam entando-se, com o se estivesse pedindo desculpas.

– Então não houve suspeita algum a na época, seis anos atrás? Nenhum a intuição de que algo não era o que parecia? – disse Patrik, com cuidado para não soar acusatório.

Kj ell sacudiu a cabeça novam ente. Seu bigodão m ovia-se com icam ente quando ele m exia a cabeça.

– Não, nós honestam ente não fazíam os ideia de que houvesse algo de suspeito na m orte de Börj e. Vocês têm que entender que Börj e era um desses boêm ios que nós j á esperávam os encontrar m orto algum dia. Ele esteve a ponto de m orrer de tanto beber várias vezes, m as sem pre escapava. Dessa vez nós pensam os que... Bem , nós sim plesm ente com etem os um erro – ele disse atirando as m ãos para cim a. Tinha um a expressão triste no rosto.

Patrik disse, consolador:

– Pelo que vej o, é um erro passível de se com eter nessa situação em particular. E por um bom tem po nós acham os que o nosso assassinato era um acidente tam bém – essa adm issão pareceu fazer Kj ell se sentir m elhor.

– O que o fez responder à nossa notificação? – perguntou Martin, tentando não olhar dem ais para o bigode pululante. Ele ainda estava um pouco pálido por conta da viagem e com agrado enfiou dois biscoitos na boca. Aquilo aj udou um pouco. Norm alm ente levava um a hora e pouco após um a longa viagem de carro até ele se sentir norm al outra vez.

De início, Kj ell não disse nada enquanto folheava a pilha de pastas, procurando por algo. E então ele pegou um arquivo, que abriu e colocou diante de Patrik e Martin.

– Vej am isso. Aqui estão as fotos de Börj e quando nós o encontram os. Ele estava m orto em seu apartam ento fazia dez dias, então não é um a visão bonita – ele acrescentou. – Ninguém notou até o corpo com eçar a feder.

Kj ell estava inegavelm ente certo: era m esm o um a cena horrível. Mas o que cham ou a atenção deles era algo que Börj e tinha na m ão. Parecia um pedaço de papel am assado. Quando folhearam as fotos, viram um a foto em detalhe do papel, depois de ter sido tirado da m ão de Börj e e desam assado. Era um a página do m esm o livro que Patrik e Martin conheciam tão bem . João e Maria, dos irm ãos Grim m . Eles se entreolharam e Kj ell disse:

– Sim , é um a coincidência estranha dem ais para ser acidente. E eu m e lem brei disso porque parecia m uito bizarro que Börj e estivesse segurando um a página de um livro infantil. Ele não tinha filhos.

– Você ainda tem a página? – Patrik prendeu a respiração e sentiu seu corpo retesar-se de ansiedade. Kj ell não disse um a palavra, m as um sorriso brincou nos cantos de sua boca e ele pegou um saco plástico que havia sido colocado na cadeira ao lado da dele.

– Um a com binação de sorte e habilidade – ele disse, sorrindo.

Patrik reverentem ente pegou o saco plástico e estudou o conteúdo. Então entregou-o a Martin, que tam bém exam inou a página com excitação.

– E quanto ao resto? Os ferim entos e a causa da m orte? – Patrik perguntou, tentando estudar as fotos do corpo de Börj e m ais de perto. Achou que podia ver som bras azuladas em torno da boca, m as o corpo estava em tal estado de decom posição que era difícil dizer – ele podia sentir seu estôm ago se revirar.

– Infelizm ente, não tenho nenhum a inform ação sobre o traum a. Com o eu disse, o corpo dele não dava condições para um a autópsia e Börj e estava sem pre em m au estado, então a pergunta é: será que nós teríam os investigado m esm o se... – sua voz m orreu na garganta e Patrik com preendeu o que ele quis dizer. Börj e era um bêbado que frequentem ente se m etia em brigas. O fato de ele presum ivelm ente ter bebido até m orrer não dera nenhum a razão para um a investigação m inuciosa. É claro que agora eles descobriam que sua suposição estava errada, m as Patrik não os podia culpar. Era fácil ver as coisas com clareza em retrospectiva.

– Mas ele tinha um a grande quantidade de álcool no corpo?

Kj ell concordou e seu bigode pulou.

– Sim , essa parte está correta. Mas m esm o assim … Ele tinha um nível anorm alm ente alto de álcool no sangue, m as sua tolerância tam bém havia crescido ao longo dos anos. A conclusão do m édico legista era que Börj e sim plesm ente bebeu um a garrafa toda e m orreu de intoxicação por álcool.

– Ele tem algum parente com quem possam os falar?

– Não, Börj e não tinha ninguém . As únicas pessoas com quem ele tinha contato eram policiais e seus com panheiros de bebedeira. Além de qualquer um que ele conhecesse durante seus períodos na cadeia.

– Pelo que ele cum priu pena?

– Ah, houve vários m otivos. A lista está na pasta de cim a, com as datas. Agressão, intim idação, dirigir em briagado, hom icídio culposo, assalto, o que im aginar. Ele provavelm ente passou m ais tem po dentro do que fora, eu acho.

– Posso levar esse m aterial com igo? – perguntou Patrik, cruzando os dedos.

Kj ell assentiu.

– Sim , essa era a ideia. Prom eta que vai nos avisar se puderm os aj udar m ais. Eu vou investigar m ais um pouco tam bém , verificar se podem os desenterrar m ais algum a coisa que possa lhes auxiliar.

– Agradecem os m uito – disse Patrik enquanto am bos se levantavam para sair.

A cam inho da saída, tiveram que dar um a corridinha para acom panhar Kj ell.

– Vão voltar hoj e à noite m esm o? – ele perguntou quando chegavam à entrada principal.

– Não, nós reservam os um quarto no Scandic. Assim podem os exam inar o m aterial à vontade antes de nossa próxim a parada am anhã.

– Ny köping, certo? – de repente, Kj ell ficou m uito sério. – Não é m uito com um para um assassino espalhar seus atos em lugares tão distantes.

– Não – disse Patrik, com o a m esm a seriedade. – Não é m uito com um . Não é com um m esm o.

– Qual deles você quer? Rastrear os au-aus ou estudar o arquivo de Marit? – Gösta não conseguia esconder sua frustração quanto às tarefas que haviam lhe passado. Hanna tam bém não parecia propriam ente feliz. Ela provavelm ente aguardara ansiosa por um a relaxante m anhã de sábado, em casa, com seu m arido. Mas Gösta tinha que adm itir relutantem ente que, se havia razões para fazer hora extra, esta certam ente era um a delas. Um a investigação envolvendo cinco assassinatos não aparecia todos os dias na delegacia.

Ele e Hanna haviam se instalado na m esa da cozinha para enfrentar o trabalho que Patrik havia pedido que fizessem , m as nenhum dos dois se sentia m inim am ente entusiasm ado. Gösta olhou para Hanna enquanto ela se servia de café, de pé à beira da pia. Ela j á não era gorda quando com eçou a trabalhar na delegacia, m as agora ela, m ais do que m agra, estava cadavérica. Ele perguntou-se novam ente com o era a vida dom éstica dela. Havia algo na expressão de Hanna que parecia tenso, quase atorm entado, ultim am ente. Talvez ela e o m arido não pudessem ter filhos, especulou. Ela tinha quarenta anos e nenhum filho. Ele desej ou poder oferecer um om bro am igo para qualquer coisa que ela quisesse lhe dizer, m as tinha a sensação de que tal oferta não seria bem recebida. Hanna puxou para trás um a m echa dos cabelos loiros. Ele pensou de repente que havia tanta vulnerabilidade, tanta incerteza naquele gesto sim ples. Hanna Kruse era certam ente um a m ulher de contradições. Na superfície era forte, resoluta e coraj osa. Ao m esm o tem po, ele pensava que por breves m om entos, em certos gestos, conseguia ler algo com pletam ente diferente, algo... partido; era o m ais próxim o que ele era capaz de encontrar para descrevê-la. Mas, quando ela virou-se para ele, Gösta im aginou se não estava alucinando dem ais. A expressão dela agora era dura. Tinha um rosto forte. Nenhum a fraqueza evidente.

– Eu pego o arquivo de Marit – ela disse ao se sentar. Você pega os cachorros. Está bem assim ? – ela olhou para ele sobre a borda da xícara.

– Claro, tudo bem . Eu disse que você poderia escolher.

Hanna sorriu e a form a com o isso suavizou seu rosto fez Gösta sentir m ais dúvida sobre suas especulações.

– É um a droga term os que trabalhar, não acha, Gösta? – ela disse, dando um a piscadela.

Ele não conseguiu evitar sorrir de volta. Afastou seus pensam entos sobre a vida privada de Hanna e decidiu sim plesm ente aproveitar a com panhia de sua nova colega. Ele gostava m esm o dela.

– Está bem , eu pego os vira-latas – ele disse, ficando de pé.

– Au-au! – ela respondeu, rindo. E então com eçou a folhear os papéis à sua frente.

– Soube que houve certo dram a aqui – disse Lars, com um olhar severo para os m em bros do elenco sentados em torno dele em círculo. Ninguém disse um a palavra. Ele tentou novam ente.

– Alguém pode, por favor, m e dar um a pista do que aconteceu?

– Tina se fez de palhaça – resm ungou Jonna.

Tina olhou-a com desprezo.

– Fiz o caralho! – ela olhou para todos no círculo. – Vocês só estão com invej a porque não o encontraram e pensaram o m esm o!

– Eu nunca faria algo tão desprezível – disse Mehm et, olhando para as pontas dos sapatos. Ele andava com um desânim o fora do norm al nos últim os dias. Lars m udou o foco para ele.

– Com o vai, Mehm et? Você parece m eio pra baixo.

– Não é nada – ele disse, ainda olhando intensam ente para os próprios sapatos. Lars dirigiu-lhe um olhar inquisitivo, m as não o pressionou. Talvez as coisas transcorressem m elhor na sessão individual. Lars voltou a Tina, que balançava a cabeça de m aneira desafiadora.

– O que havia no diário que te chateou tanto? – ele disse, gentilm ente. Tina fingiu fechar os lábios com zíper. – O que a fez considerar j ustificado deixar Barbie... Lillem or vulnerável dessa form a?

– Ela escreveu no diário que Tina não tem talento nenhum – disse Calle, solícito. Sua relação com Tina estava extrem am ente gélida desde a discussão no restaurante, e ele prontam ente aproveitou a oportunidade de provocá-la. O com entário que ela fizera sobre ele ainda m agoava, então sua voz tinha um tom de escárnio. – E não dá para culpar Barbie – acrescentou, friam ente. – Ela só estava dizendo a verdade.

– Cale a boca, cale a boca, cale a boca! – Tina gritou histérica. Saliva proj etava-se de sua boca.

– Vam os nos acalm ar – disse Lars, sua voz taxativa. – Lillem or escreveu algo depreciativo sobre você em seu diário, então achou que poderia difam ar a m em ória dela – olhou para Tina, inflexível, e ela evitou os olhos dele. Aquilo parecia tão... perverso e desprezível dito por ele daquela form a.

– Ela escreveu m erda sobre todos vocês – ela disse, olhando para o grupo, na esperança de transferir para os dem ais um pouco de seu desprazer em relação a Lars. – Ela escreveu que você é um m oleque m im ado, Calle. E disse que você, Uffe, é um a das pessoas m ais estúpidas que ela j á conheceu, e que Mehm et é tão inseguro e preocupado em não conseguir agradar a fam ília que seria m elhor ele aprender a ter colhões! – fez um a pausa quando virou-se para Jonna. – E você... Ela disse que é tão patético isso de você se cortar. Ninguém foi poupado. Agora vocês sabem . Alguém ainda acha que devem os “honrar a m em ória de Barbie” ou qualquer dessas baboseiras que vocês têm falado? Se vocês se sentem culpados pelo que disseram a ela na festa, esqueçam ! Ela teve o que m ereceu! – Tina j ogou os cabelos para trás, desafiando alguém a contradizê-la.

– Ela m ereceu m orrer tam bém ? – disse Lars, calm am ente.

O silêncio se instalou no recinto. Tina roía um a unha, nervosa. Então levantou-se abruptam ente e saiu correndo. Todos os olhos a seguiram .

A estrada se estendia sem fim à frente deles. Todas aquelas horas viaj ando de carro estavam com eçando a cansar Patrik. Ele virou a cabeça a fim de olhar para seu colega, no banco do m otorista. Martin tinha se oferecido para dirigir hoj e, na esperança de afastar a náusea. Até agora estava funcionando, e eles tinham m enos que cem quilôm etros até chegar a Ny köping. Martin bocej ou e Patrik fez o m esm o. Os dois riram .

– Acho que ficam os acordados até m uito tarde na noite passada – disse Patrik.

– É, eu tam bém acho. Mas havia m uito a estudar.

– É – disse Patrik. Trabalharam ardua e repetidam ente nos detalhes do caso na noite anterior, no quarto de hotel de Patrik. Martin ficou fora de seu próprio quarto até altas horas. Ainda levara m ais um a hora para os dois finalm ente adorm ecerem , com todos os pensam entos e pontas soltas m aquinando na m ente deles.

– Com o está Pia? – disse Patrik para fugir do assunto dos assassinatos.

– Ótim a! – Martin ilum inou-se. – Os enj oos m atinais j á passaram . Na verdade, ela se sente fantástica agora. Cara, eu estou tão anim ado!

– Sim , eu sei com o é – Patrik estava pensando em Maj a. Queria tanto estar em casa com ela e Erica que doía.

– Pia vai fazer um ultrassom para descobrir o sexo do bebê? – Patrik perguntou enquanto saíam da estrada principal, em direção a Ny köping.

– Bem , eu ainda não sei. Mas acho que não – Martin disse, prestando atenção às placas ao longo da estrada. – O que vocês fizeram ? Vocês quiseram saber antes?

– Não. Parece que assim estaríam os trapaceando. Queríam os que fosse surpresa. E com o prim eiro filho não im porta m uito, na verdade. Mas no segundo, seria legal se fosse m enino, para term os um de cada.

– Vocês não estão…? – Martin virou-se para Patrik.

– Não, não, não – Patrik riu. – Ainda não, graças a Deus. Já tem os bastante trabalho nos acostum ando a viver com Maj a. Mas talvez m ais tarde...

– O que Erica acha disso? Considerando o problem a que ela teve… – Martin parou, sem saber se havia problem a em falar no assunto.

– Nós na verdade não conversam os sobre isso. Eu apenas supus que teríam os dois – disse Patrik, pensativo. – Bem , chegam os, afinal – notou, feliz por dar um fim ao assunto.

Eles saíram do carro com as pernas doloridas e espreguiçaram -se antes de entrar na delegacia. A rotina estava com eçando a parecer fam iliar, pelo m enos para Patrik. Era a terceira vez em pouco tem po que ele visitava um a nova delegacia em um a nova cidade.

Quando conheceram o superintendente, Patrik viu m ais um a vez, perplexo, com o a polícia na Suécia era tão pouco hom ogênea. E com o ele j am ais conhecera alguém cuj a aparência fosse tão diferente da im agem que havia criado com base no nom e. Para com eçar, Gerda Svensson era m uito m ais j ovem do que ele im aginara, por volta dos trinta e cinco. E apesar de seu nom e extrem am ente sueco, sua pele tinha a m esm a cor e brilho que m ogno escuro. Era um a m ulher de beleza im pressionante. Patrik percebeu que estava de boca aberta, com o um peixe, e um breve olhar para Martin m ostrou-lhe que seu colega tam bém estava agindo com o um bobo. Patrik cutucou Martin nas costelas e então estendeu a m ão para a superintendente Svensson.

– Meus colegas estão nos aguardando na sala de conferências – disse Gerda Svensson enquanto m ostrava o cam inho. Sua voz era grave e suave ao m esm o tem po, e extrem am ente agradável. Patrik podia sentir que era difícil tirar os olhos dela.

Eles não disseram nada enquanto cam inhavam para a sala de conferências. O único som era o tam borilar de seus sapatos no assoalho. Quando entraram na sala, dois hom ens se levantaram e vieram até eles com as m ãos estendidas. Um tinha por volta de cinquenta anos, era baixo e largo, m as com um brilho nos olhos e um sorriso caloroso. Apresentou-se com o Konrad Meltzer. O outro tinha m ais ou m enos a idade de Gerda, era um loiro grande e altivo. Patrik não conseguiu evitar de pensar que ele e Gerda form avam um par espetacular. Quando ele se apresentou com o Rickard Svensson, Patrik descobriu que seu palpite estava correto: eles eram m esm o um casal.

– Pelo que percebi, vocês têm um bom núm ero de inform ações sobre um de nossos casos de assassinato que nunca foram solucionados – Gerda sentou-se entre Konrad e seu m arido e nenhum deles pareceu se incom odar por ela assum ir o controle. – Fui eu quem conduziu a investigação da m orte de Elsa Forsell – disse ela, com o se lesse a m ente de Patrik. – Konrad e Rickard trabalharam com igo e nós dedicam os um bom tem po a essa investigação. Infelizm ente, chegam os a um ponto em que não conseguim os avançar. Até que sua notificação chegou, anteontem .

– Soubem os que seu caso estava conectado com o nosso no instante que lem os sobre a página do livro – disse Rickard, entrelaçando as m ãos sobre a m esa. Patrik se perguntou com o seria ter sua esposa com o chefe. Mesm o se considerando um hom em liberal, ele sabia que seria um problem a ter Erica com o sua superior. Por outro lado, ela tam bém não gostaria de tê-lo com o chefe.

– Rickard e eu nos casam os depois do fim da investigação. Desde então trabalham os em unidades diferentes – Gerda olhou para ele e Patrik se sentiu enrubescer. Por um m om ento ele se perguntou se ela realm ente podia ler sua m ente, m as logo percebeu que provavelm ente não era tão difícil adivinhar o que ele estava pensando. Sem dúvida Patrik não era o prim eiro.

– Onde a página do livro foi encontrada? – ele disse para m udar de assunto. Um sorrisinho brincava nos cantos da boca de Gerda, sinalizando que ela viu que ele com preendera a m ensagem , m as foi Konrad que falou em seguida.

– Estava enfiada num a Bíblia, ao lado dela.

– Onde ela foi encontrada?

– Em seu apartam ento. Por um dos m em bros da congregação.

– “Congregação”? – disse Patrik. – Que tipo de congregação?

– A Cruz da Virgem Maria – respondeu Gerda. – Um a congregação católica.

– Católica? – disse Martin. – Ela era de algum país m ais ao sul?

– Existem católicos na Escandinávia tam bém – disse Patrik, um pouco constrangido pela ignorância de Martin. – A religião é praticada no m undo todo e há alguns m ilhares de católicos aqui na Suécia.

– Exatam ente – disse Rickard. – Há na verdade m ais ou m enos cento e sessenta m il católicos na Suécia. Elsa era fiel havia m uitos anos, e a congregação era basicam ente sua fam ília.

– Ela não tinha nenhum parente? – perguntou Patrik.

– Não, não conseguim os encontrar ninguém próxim o a ela – disse Gerda. – Nós fizem os m uitas entrevistas com m em bros de sua congregação, para ver se havia algum cism a ali, algo que pudesse ter levado ao assassinato de Elsa. Mas não resultou em nada.

– Se quiséssem os conversar com alguém da congregação que fosse próxim o a Elsa, quem seria? – Martin em punhou sua caneta, pronto para tom ar notas.

– O padre, sem dúvida. Padre Silvio Mancini. E ele sim é do sul da Europa – Gerda deu um a piscadela para Martin, que enrubesceu.

– Ao que parece, a vítim a de Tanum shede tam bém apresentou indícios de ter sido am arrada? – Rickard dirigiu a pergunta a Patrik.

– Sim , é verdade. Nosso m édico legista encontrou sulcos deixados por corda nos braços e nos punhos. Isso foi um a das coisas que os levaram a determ inar a m orte de Elsa com o hom icídio j á de início?

– Sim – Gerda pegou um a foto e a deslizou até o outro lado da m esa, para Patrik e Martin. Eles olharam para ela por alguns segundos e viram que as m arcas de corda eram bem evidentes. Elsa Forsell havia, sem a m enor dúvida, fora am arrada. Patrik tam bém reconheceu as estranhas m arcas azuladas em torno da boca.

– Vocês tam bém encontraram traços de fita adesiva? – ele olhou para Gerda, que concordou.

– Sim , vestígios de fita adesiva m arrom com um – ela pigarreou. – Com o devem im aginar, nós estam os m uito interessados em ver todas as inform ações que vocês têm sobre esses dois hom icídios. Nós, é claro, vam os com partilhar tudo o que possuím os. Eu sei que às vezes existe um a certa rivalidade entre distritos de polícia, m as nós sinceram ente esperam os que possam os cooperar e m anter os canais abertos. – aquilo não era um pedido, m as um a afirm ação fria. Patrik concordou sem hesitar.

– É claro. Precisam os de toda a aj uda que conseguirm os. Incluindo a sua. Então, por favor, vam os com partilhar cópias de todo o m aterial que am bos tem os. E podem os m anter contato por telefone.

– Que bom – disse Gerda.

Patrik notou o olhar adm irado que ela recebeu de seu m arido. O respeito de Patrik por Rickard Svensson cresceu. Era preciso ser hom em o bastante para dar valor a ter um a esposa em posição hierárquica superior.

– Sabem onde podem os encontrar o padre Mancini? – disse Martin enquanto se levantavam para ir em bora.

– A congregação católica fica no centro da cidade – Konrad rabiscou o endereço e deu o pedaço de papel a Martin. Ele tam bém explicou o cam inho. – Depois que conversarem com padre Silvio, vocês podem voltar e pegar um pacote com todo o m aterial na recepção – disse Gerda enquanto cum prim entava Patrik. – Eu vou providenciar que cópias de tudo sej am feitas para vocês.

– Obrigado por sua aj uda – disse Patrik, e era m esm o com o se sentia. A cooperação entre distritos não era, com o Gerda observara, um a coisa m uito com um na polícia, por isso ele estava m uito contente que essa investigação teria um rum o diferente.

– Quando você vai parar com essa estupidez?

Jonna fechou os olhos. A voz de sua m ãe ao telefone era sem pre tão dura, tão acusatória.

– Papai e eu conversam os e nós realm ente acham os que é irresponsável de sua parte desperdiçar sua vida assim . E nós tem os que pensar tam bém em nossa reputação no hospital; você precisa entender que nos faz passar vergonha!

– Eu sabia que isso tinha algum a coisa a ver com o hospital – Jonna m urm urou.

– O que você disse? Você precisa falar alto para eu poder ouvir o que você está dizendo, Jonna. Você j á tem dezenove anos e precisa aprender a articular as palavras da m aneira correta. E eu tenho que dizer que esses artigos recentes nos j ornais têm nos chateado especialm ente, a seu pai e a m im . As pessoas estão com eçando a se perguntar que tipo de pais nós som os. E nós fizem os nosso m elhor, posso te assegurar. Mas papai e eu tem os um trabalho im portante e você j á tem idade suficiente, Jonna, para entender isso. Você precisa m ostrar um pouco de respeito pelo que nós fazem os. Sabe, ontem eu fiz um a cirurgia em um m enino russo, que veio até aqui em busca de tratam ento para curar um defeito grave no coração. Ele não conseguiu fazer a cirurgia em sua terra natal, m as eu pude aj udá-lo! Graças a m im , ele vai sobreviver e ter um a vida útil! Eu acho que você deve m ostrar um pouco m ais de hum ildade para com a vida, Jonna. Tudo foi sem pre tão fácil para você. Algum a vez j á te negam os algum a coisa? Você sem pre teve roupas, um teto, com ida na m esa. Pense em todas as crianças que não têm nem m etade disso, não, nem um décim o de tudo o que você recebeu. Eles agradeceriam se estivessem no seu lugar. E eles definitivam ente não fariam idiotices nem feririam a si m esm os. Não, eu acho que você está sendo egoísta, Jonna. Está m ais do que na hora de você crescer! Papai e eu acham os que...

Jonna desligou o telefone e deslizou lentam ente até sentar-se no chão, com as costas contra a parede. A ansiedade cresceu m ais e m ais até parecer querer j orrar garganta afora. Consum ia cada parte de seu corpo, fazendo-a sentir que ia explodir. A sensação de não ter para onde ir, para onde fugir, a subj ugava agora com o j á acontecera várias vezes. Com as m ãos trêm ulas, ela pegou a lâm ina que sem pre guardava na carteira. Seus dedos trem iam tanto que ela derrubou a lâm ina e com um palavrão tentou pegá-la do chão. Cortou os dedos várias vezes, m as conseguiu pegá-la e então a passou lentam ente pela parte de baixo de seu antebraço direito. Profundam ente concentrada, olhava para a lâm ina enquanto a baixava contra a pele coberta de cicatrizes, que parecia um a paisagem lunar, alternando pele branca e rosada, com sulcos verm elhos precisos, com o rios m inúsculos. Quando a prim eira gota de sangue pingou, ela sentiu a ansiedade dim inuir. Pressionou m ais e o pequeno riacho transform ou-se em um rio, verm elho e pulsante. Jonna assistiu com alívio escrito por todo o seu rosto. Ergueu a lâm ina e desenhou um novo rio entre as cicatrizes. E então levantou a cabeça e sorriu para a câm era. Parecia quase em êxtase.

– Estam os procurando o padre Silvio Mancini – Patrik m ostrou seu distintivo para a m ulher que abriu a porta. Ela deu um passo para o lado e cham ou:

– Silvio! A polícia está aqui a respeito de algum a coisa!

Um hom em de cabelos brancos, vestindo j eans e um suéter veio até eles. Patrik esperava que aparecesse com toda a indum entária de clérigo, não em roupas casuais. Ele sabia que o padre não andava de batina o tem po todo, m as m esm o assim levou um segundo para se recuperar da surpresa.

– Eu sou Patrik Hedström e esse é Martin Molin – ele disse, apontando para o colega. O padre balançou a cabeça e m ostrou-lhes um j ogo de sofás. O santuário era pequeno, m as bem cuidado e havia vários dos atributos que Patrik, com seus conhecim entos de leigo, associava ao catolicism o, com o im agens da Virgem Maria e um crucifixo grande. A m ulher que abrira a porta para eles trouxe café e bolo. O padre Silvio agradeceu carinhosam ente. Ela sorriu em resposta, m as retirou-se logo em seguida. O padre Silvio voltou sua atenção a eles e perguntou em sueco perfeito, m as com inconfundível sotaque italiano:

– Sim , o que posso fazer pela polícia?

– Gostaríam os de fazer algum as perguntas sobre Elsa Forsell.

Padre Silvio suspirou.

– Eu tinha esperança de que m ais cedo ou m ais tarde a polícia encontrasse algum tipo de pista. Mesm o acreditando piam ente no fogo do purgatório, prefiro que o assassino receba a punição ainda em vida – ele sorriu, dem onstrando bom hum or e com paixão ao m esm o tem po. Patrik teve a im pressão de que ele e Elsa eram próxim os, o que se confirm ou pelo com entário seguinte de padre Silvio.

– Elsa foi um a boa am iga por m uitos e m uitos anos. Era m uito envolvida com os assuntos da congregação, e eu era tam bém seu confessor.

– Elsa nasceu católica?

– Não, não nasceu – padre Silvio disse, rindo. – Poucos nascem católicos na Suécia, a não ser os que vêm de fam ília que tenha im igrado de um país católico. Mas ela veio a um a de nossas m issas e, sim , eu acredito que ela sentiu ter encontrado um lar. Elsa era... o que você pode cham ar de um a alm a perdida. Ela estava procurando algum a coisa e sentia que havia encontrado isso conosco.

– E o que ela procurava? – disse Patrik. Todo o com portam ento do padre era um testem unho do fato de que ele era um hom em de grande com paixão, um hom em que irradiava calm a e paz. Um verdadeiro hom em de Deus.

Padre Silvio levou um tem po para responder. Parecia querer pesar as palavras, m as finalm ente olhou bem nos olhos de Patrik e disse:

– Perdão.

– Perdão? – perguntou Martin.

– Perdão – o padre Silvio repetiu calm am ente. – É o que todos nós buscam os, a m aioria sem saber. Perdão por nossos pecados, por nossas falhas, por nossas deficiências e erros. Perdão por coisas que fizem os... e por coisas que não fizem os.

– E Elsa Forsell buscava perdão pelo quê? – Patrik perguntou baixinho, olhando atentam ente para o padre. Por um m om ento pareceu que padre Silvio estava a ponto de dizer-lhes algo. Então baixou os olhos e disse:

– A confissão é um sacram ento. E o que im porta? Todos nós tem os algo pelo que ser perdoados.

Patrik intuiu que havia algo m ais por trás daquelas palavras, m as conhecia o bastante sobre o voto de silêncio de um padre para tentar pressionar o clérigo.

– Por quanto tem po Elsa foi m em bro de sua igrej a? – perguntou.

– Por dezoito anos – disse o padre Silvio. – Com o eu disse, nos tornam os grandes am igos ao longo dos anos.

– Sabe se Elsa tinha algum inim igo? Alguém poderia querer fazer m al a ela?

Novam ente o padre hesitou, depois sacudiu a cabeça.

– Não, não sei nada sobre isso. Elsa não tinha m ais ninguém a não ser nós, am igo ou inim igo. Nós éram os a fam ília dela.

– Isso é com um ? – perguntou Martin, e não conseguia esconder um tom cético.

– Sei no que está pensando – o hom em de cabelos brancos disse calm am ente. – Mas nós não tem os princípio de não adm issibilidade nem restrições com relação a nossos devotos. A m aior parte deles tem fam ília e am igos, com o em qualquer congregação cristã. Mas Elsa só tinha a nós.

– Com relação ao m odo com o ela m orreu – disse Patrik –, alguém forçou um a grande quantidade de álcool garganta abaixo. Qual era a opinião de Elsa no que dizia respeito ao álcool?

Mais um a vez, Patrik pensou ter sentido certa hesitação, um a relutância para falar, m as em vez disso o padre disse, rindo:

– Elsa era provavelm ente com o a m aioria nesse ponto. Ela poderia beber um a taça de vinho ou duas em um sábado à noite, às vezes. Mas nunca em excesso. Não, eu diria que ela tinha um com portam ento norm al no tocante ao álcool. Eu a ensinei a apreciar vinhos italianos, a propósito, e nós ocasionalm ente fazíam os degustações aqui. Isso era com um .

Patrik ergueu um a sobrancelha. O padre católico estava verdadeiram ente o surpreendendo.

Após um a pausa para considerar se tinha m ais algum a coisa a perguntar, Patrik colocou seu cartão sobre a m esa diante deles.

– Se lem brar de m ais algum a coisa, por favor, ligue para nós.

– Tanum shede – disse o padre Silvio, lendo o cartão. – Onde é isso?

– Na costa oeste – disse Patrik, levantando-se. – Entre Ström stad e Uddevalla.

Patrik observou com espanto toda a cor se esvair do rosto de padre Silvio. Por um m om ento, ele parecia tão pálido quanto Martin estivera durante a viagem para Lund, no dia anterior. E então o padre se recom pôs e concordou com um gesto breve. Atônitos, Patrik e Martin se despediram , am bos com a sensação de que padre Silvio sabia m uito m ais do que estava dizendo.

* * *

Havia um ar de expectativa na delegacia. Todos estavam ansiosos para ouvir o que Patrik e Martin tinham encontrado durante sua excursão no fim de sem ana. Patrik dirigiu diretam ente para a delegacia quando voltaram de Ny köping e passara algum as horas se preparando para a reunião. Por isso as paredes de seu escritório estavam cobertas de fotografias e anotações, e ele havia rabiscado lem bretes e desenhado flechas aqui e ali. Parecia caótico, m as ele logo poria ordem na confusão.

O local ficou apertado quando todos se reuniram em seu escritório, m as ele não quis colocar o m aterial da investigação em nenhum outro lugar, então era ali que teriam de se encontrar. Martin chegou prim eiro e sentou-se no fundo, depois Annika, Gösta, Hanna e Mellberg se apresentaram . Ninguém disse um a palavra enquanto inspecionavam o m aterial colado nas paredes. Cada um deles tentava encontrar o fio da m eada que os levaria a um assassino.

– Com o sabem , Martin e eu visitam os duas cidades nesse fim de sem ana, Lund e Ny köping. Am bas as delegacias haviam nos contatado porque tinham casos que se encaixavam no critério que levantam os com base nos assassinatos de Marit Kaspersen e Rasm us Olsson. A vítim a de Lund – ele virou-se e apontou para um a fotografia na parede – era Börj e Knudsen. Ele tinha cinquenta e dois anos e era um conhecido alcoólatra. Foi encontrado em seu apartam ento. Já estava m orto havia tanto tem po que infelizm ente foi im possível distinguir quaisquer traços dos tipos de ferim ento que docum entam os nas outras vítim as. Por outro lado – Patrik fez um a pausa para beber um gole d’água de um copo que estava sobre sua m esa –, ele tinha isso na m ão – ele apontou para um saco plástico preso na parede por um percevej o, ao lado da fotografia, contendo a página do livro infantil.

Mellberg levantou a m ão.

– Tivem os resposta do LNC se há algum a im pressão digital nas páginas que encontram os ao lado de Marit e Rasm us?

Patrik estava surpreso por seu chefe estar tão alerta.

– Sim , tivem os resposta e as páginas foram devolvidas – ele apontou para as páginas penduradas ao lado das fotos de Marit e Rasm us. – Infelizm ente não havia digitais nelas. A página encontrada com Börj e nunca foi exam inada, por isso vai para o LNC hoj e. Entretanto, a página do livro encontrada com a vítim a de Ny köping, Elsa Forsell, foi exam inada durante a investigação. Com resultado negativo.

Mellberg assentiu para indicar que estava satisfeito com a resposta.

Patrik prosseguiu:

– O caso de Börj e foi classificado com o acidente; eles acreditavam que ele sim plesm ente tinha bebido até m orrer. A m orte de Elsa Forsell, no entanto, foi investigada por nossos colegas de Ny köping com o um hom icídio, m as eles nunca encontraram o crim inoso.

– Eles tinham algum suspeito? – perguntou Hanna. Ela parecia resoluta e concentrada, m as um tanto pálida. Patrik ficou preocupado que ela pudesse estar ficando doente. Ele não podia se dar ao luxo de perder ninguém nessa situação.

– Não, não havia suspeitos. Ela só tinha contato com os m em bros de sua congregação católica e ninguém parecia ter nada contra ela. Ela tam bém foi m orta em seu apartam ento – ele apontou para a fotografia tirada na cena do crim e – e enfiada em sua Bíblia, ao lado do corpo eles encontraram isto – ele m oveu seu dedo para apontar para a página de João e Maria.

– Que tipo de doente é essa pessoa? – disse Gösta, incrédulo. – O que esse conto de fadas tem a ver com qualquer coisa?

– Não tenho ideia, m as sinto que é a chave para toda a investigação.

– Tem os que torcer para a im prensa não descobrir isso – Gösta m urm urou. – Senão, isso vai se transform ar em “O Assassino de João e Maria”, considerando quanto eles gostam de dar apelidos a crim inosos.

– Bem , eu não preciso enfatizar a im portância de que isso não vaze para a im prensa – disse Patrik, evitando cuidadosam ente olhar para Mellberg. Apesar de ser o chefe, ele era um língua solta. Mas m esm o Mellberg parecia estar farto da atenção da im prensa nas últim as sem anas, porque concordou.

– Você teve algum a intuição de qual seria o ponto em com um entre os assassinatos? – disse Hanna.

Patrik olhou para Martin, que disse:

– Não, infelizm ente voltam os à estaca zero. Börj e definitivam ente não era abstêm io e Elsa parecia ter um com portam ento norm al quanto ao álcool, nem abstêm ia nem consum idora exagerada.

– Então não tem os nenhum a ideia de com o os assassinatos estão relacionados? – Hanna disse, parecendo preocupada.

Patrik suspirou e virou-se para deixar os olhos varrerem o m aterial pendurado nas paredes.

– Não – ele disse. – Tudo que sabem os é que provavelm ente a m esm a pessoa com eteu todos os crim es; fora isso não há nenhum ponto em com um entre eles. Não há nada que indique que Elsa e Börge tivessem qualquer conexão com Marit ou Rasm us ou com os lugares onde viviam . Mas é claro que terem os que voltar a conversar com os parentes de Marit e Rasm us para ver se eles reconhecem o nom e de Börj e ou Elsa ou se sabem se Marit ou Rasm us j á m oraram em Lund ou Ny köping. No m om ento, estam os tateando no escuro, m as deve haver um a conexão. Tem de haver! – disse Patrik, frustrado.

– Você pode m arcar os locais no m apa? – disse Gösta, apontando o m apa da Suécia que havia nos fundos da sala.

– Claro! É um a boa ideia – disse Patrik, pegando alguns percevej os coloridos de um a caixa na gaveta de sua escrivaninha. Cuidadosam ente, fixou os quatro percevej os no m apa: um em Tanum shede, um em Borås, um em Lund e um em Ny köping.

– O assassino pelo m enos está se concentrando na região sul da Suécia. Isso de algum a form a reduz a área de busca – disse Gösta, azedo.

– Sim , dam os graças ao m ínim o que conseguim os – disse Mellberg com um risinho, m as se conteve quando ninguém pareceu achar seu com entário engraçado.

– Então, tem os m uito a fazer agora – disse Patrik, sério. – E não podem os perder o foco no caso Persson tam bém . Gösta, conseguiu algo com a lista de criadores de cães?

– Está pronta. Consegui localizar cento e sessenta criadores. Deve haver alguns que não estão incluídos em nenhum a lista oficial. Mas é o m ais perto que conseguim os chegar.

– Siga com esses que você tem , com pare com a lista de endereços e vej a se algum pode estar ligado a essa região.

– Com certeza – disse Gösta.

– Pensei em ver se é possível conseguir m ais inform ações com as páginas do livro – disse Patrik. – Martin e Hanna, vocês podem falar com Ola e Kerstin novam ente e ver se eles reconhecem o nom e de Börj e ou Elsa? Falem tam bém com Eva, a m ãe de Rasm us Olsson. Mas façam isso por telefone, pois preciso de vocês aqui.

Gösta levantou a m ão, hesitante.

– Acha que devo conversar com Ola Kaspersen outra vez? Hanna e eu falam os com ele na sexta-feira e eu tive a sensação de que ele não disse tudo o que sabe.

Hanna olhou para Gösta.

– Eu não notei isso – ela disse, insinuando que Gösta estava falando besteira.

– Mas você deve ter notado quando... – Gösta virou-se para discutir com Hanna, m as Patrik o interrom peu:

– Vocês dois vão a Fj ällbacka e falem com Ola. Annika pode cuidar da lista de criadores de cães. Eu gostaria de ver a lista, então deixe-a na m inha m esa quando estiver pronta.

Annika concordou e fez um a anotação.

– Martin, você assiste à gravação da noite em que Barbie m orreu. Podem os ter deixado algo passar ali, então vej a os registros quadro a quadro.

– Pode deixar – disse Martin.

– Então, m ãos à obra – disse Patrik, colocando as m ãos na cintura. Todos se levantaram e saíram . Sozinho na sala, Patrik olhou em volta novam ente. A tarefa era um desafio assustador. Com o iriam encontrar um a conexão no m eio de tudo aquilo?

Ele tirou da parede as quatro páginas arrancadas e teve um branco m ental. Com o ele tiraria qualquer inform ação adicional daquelas páginas? Um a ideia lhe ocorreu. Patrik vestiu o paletó, colocou cuidadosam ente as páginas em um a pasta e saiu rapidam ente da delegacia.

Martin colocou os pés sobre a m esa, com o controle rem oto na m ão. Estava ficando cansado daquilo tudo. Fora tudo m uito árduo, difícil, tenso nas últim as sem anas. Acim a de tudo, havia tido pouco descanso e passado pouquíssim o tem po com Pia e a “alm azinha”, que era o nom e do proj eto em andam ento dos dois.

Apertou “play ” e deixou a fita iniciar para depois passar para câm era lenta. Já tinha visto o vídeo um a vez e questionava a utilidade de assistir a ele novam ente. Com o podiam saber se o assassino ou algum a pista havia sido captada em vídeo? Aparentem ente Lillem or encontrou sua m orte depois de fugir do centro com unitário. Mas Martin estava acostum ado a fazer o que lhe pediam e não estava preparado para discutir com Patrik.

Sentiu-se sonolento pela posição em que se encontrava e por estar olhando para a TV. O avançar lento só aum entou sua fadiga e teve que forçar suas pálpebras a perm anecerem abertas. Nada novo apareceu na tela. Prim eiro veio a discussão entre Uffe e Lillem or. Ele m udou para velocidade norm al a fim de poder ouvir o áudio e m ais um a vez achou que a briga havia sido horrível. Uffe acusava Lillem or de falar m entiras sobre ele, de ter dito aos outros que ele era estúpido, burro, um “Neandertal”. E Lillem or se defendia com lágrim as nos olhos, dizendo que não havia falado nada daquilo a ninguém , que era m entira, que alguém estava arm ando para ela. Uffe parecia não acreditar nela, e a altercação tornou-se m ais física. Nessa hora Martin viu a si m esm o e Hanna entrar em quadro e separar a briga. A câm era ocasionalm ente fechava o foco em seus rostos e ele viu que aparentavam estar tão determ inados quanto de fato se m ostravam no m om ento.

Depois vieram quase quarenta e cinco m inutos de gravação em que nada aconteceu. Martin tentou prestar o m áxim o de atenção que pôde, procurando encontrar coisas que pudesse ter deixado passar da prim eira vez, talvez algo que tenha sido dito, algo sobre outras pessoas. Mas nada era particularm ente interessante. Não havia nada de novo. E o sono constantem ente am eaçava fechar seus olhos. Ele pausou e foi pegar um a xícara de café. Precisava de toda aj uda possível para se m anter acordado. Depois de apertar “play ” outra vez, sentou-se bem ereto e continuou a ver a fita. Um a briga com eçou entre Tina, Calle, Jonna, Mehm et e Lillem or. Ele ouviu deles as m esm as acusações que escutara de Uffe. Eles gritavam com Lillem or, em purrando-a e perguntando que porra de ideia era aquela de ela sair falando m al de todos. Viu Jonna atacá-la com violência. Lillem or defendeu-se novam ente, chorando tanto que a m aquiagem corria por seu rosto, com o riachos escuros. Martin sentiu-se tocado pela form a com o de repente ela parecia pequena, indefesa e j ovem por trás daqueles cabelos, m aquiagem e silicone. Era só um a garotinha. Ele bebeu um gole do café e viu na tela com o ele e Hanna intercederam para separar a briga. A câm era às vezes seguia Hanna, que conduziu Lillem or para um canto e às vezes o seguia. Com expressão furiosa no rosto, ele deu um a bronca nos participantes. Então a câm era virou para o estacionam ento e ele viu Lillem or correndo na direção do centro da cidade. A câm era aproxim ou o foco de suas costas enquanto ela se afastava, depois em Hanna falando ao telefone e então em Martin, que ainda parecia enfurecido, enquanto via Lillem or fugir.

Depois de m ais um a hora, ele vira nada m ais que j ovens bêbados e o elenco participando ativam ente da festa. Lá pelas três da m anhã, o últim o convidado foi em bora, e as câm eras pararam de film ar. Martin ficou ali, olhando através da tela escura, enquanto voltava a fita. Não poderia dizer que encontrara nada de novo, que pudesse ser um passo adiante. Mas algo rem oía em seu subconsciente, com o um cisco em seu olho. Olhou para a tela escura e apertou “play ” outra vez.

– Eu só tenho um a hora para o alm oço – disse Ola, pouco am istoso, quando abriu a porta. – Então, sej am rápidos – Gösta e Hanna entraram e tiraram os sapatos. Nunca tinham estado na casa de Ola, m as não ficaram surpresos em ver quão organizada e lim pa era. Tinham visto seu escritório, afinal.

– Eu vou com er enquanto conversam os – disse Ola, apontando para um prato com arroz, filé de frango e ervilhas. Sem m olho, Gösta notou, ele que j am ais pensaria em com er um a refeição sem m olho. Por outro lado, ele era abençoado por ter um m etabolism o que evitava o ganho de peso. Ele ainda não tinha barriga, apesar de sua dieta altam ente calórica. Talvez Ola não tivesse essa sorte.

– O que querem agora? – disse Ola, espetando cuidadosam ente algum as ervilhas com o garfo. Gösta observou fascinado com o Ola parecia ter aversão por m isturar diferentes tipos de alim ento na m esm a garfada. Ele com ia m eticulosam ente as ervilhas, depois o arroz e depois o frango, separadam ente.

– Nós obtivem os algum as inform ações novas desde a últim a vez – Gösta disse, seco. – Os nom es Börj e Knudsen ou Elsa Forsell soam fam iliares?

Ola franziu a testa e virou-se quando ouviu um som atrás de si. Sofie entrou no recinto e olhou intrigada para Gösta e Hanna.

– O que está fazendo em casa? – disse Ola furioso, encarando a filha.

– Eu... eu não m e sinto bem – ela disse. Ela parecia m esm o estar doente.

– O que há com você? – Ola disse nem um pouco convencido.

– Eu passei m al. Vom itei – e suas m ãos trêm ulas, com binadas com um a cam ada fina de suor em sua pele, pareceram convencer seu pai.

– Vá se deitar, então – ele disse em um tom de voz ligeiram ente m ais doce. Mas Sofie sacudiu a cabeça, negativam ente.

– Não, eu quero m e sentar aqui com você.

– Eu disse para ir se deitar – a voz de Ola era firm e, m as o olhar de sua filha era ainda m ais teim oso. Sem responder, ela se sentou em um a cadeira na ponta m ais distante. Mesm o parecendo obviam ente desconfortável por tê-la ali, Ola não disse nada, porém com eu m ais um a garfada de arroz.

– O que você estava perguntando? Quais eram os nom es m esm o? – perguntou Sofie, dirigindo a Gösta e Hanna um olhar vazio. Ela parecia ter febre.

– Estávam os perguntando se seu pai, ou você, j á ouviram os nom es Börj e Knudsen ou Elsa Forsell.

Sofie pareceu pensar por um m om ento, depois balançou a cabeça negativam ente e olhou para o pai inquisitiva.

– Pai, reconhece esses nom es?

– Não – disse Ola. – Nunca ouvi esses nom es. Quem são?

– Outras duas vítim as de hom icídio – disse Hanna, baixinho.

Ola teve um sobressalto e parou com o garfo na m etade do cam inho em direção à boca.

– O que você disse?

– Duas pessoas que foram vítim as do m esm o assassino que m atou sua ex-esposa. E sua m ãe – Hanna acrescentou suavem ente sem olhar para Sofie.

– Que diabos estão dizendo? Prim eiro vocês vêm aqui e perguntam daquele tal Rasm us. E agora aparecem com m ais dois? O que a polícia está fazendo, afinal?

– Estam os trabalhando dia e noite – disse Gösta, ácido. Havia algo naquele cara que realm ente o aborrecia. Respirou fundo e disse: – As vítim as viviam em Lund e Ny köping. Marit tinha algum a ligação com essas cidades?

– Quantas vezes vou ter que te dizer? – Ola vociferou. – Marit e eu nos conhecem os na Noruega, nos m udam os para cá j untos para trabalhar quando tínham os dezoito anos. E não vivem os em outro lugar senão aqui desde então! Você é retardado ou o quê?

– Papai, acalm e-se – disse Sofie, pondo a m ão no braço dele. Aquilo pareceu aj udar e ele disse calm am ente com a voz gélida:

– Eu acho que vocês deviam fazer seu trabalho em vez de correr até aqui para nos interrogar. Nós não sabem os de nada!

– Talvez você não saiba que sabe de algo – disse Gösta. – É nosso trabalho descobrir tudo o que puderm os.

– Acha que sabem os algo sobre por que m inha m ãe foi m orta? – Sofie disse com tristeza na voz. Pelo canto do olho, Gösta viu Hanna virar a cabeça. Apesar de sua aparência durona, parecia atorm entá-la falar com os parentes. Um a característica penosa, porém de algum a form a positiva para um policial ter. Gösta m esm o sentia que tinha ficado m eio endurecido em tantos anos na polícia. Em um m om ento de clareza, percebeu que talvez fosse esse o porquê de sua repulsa em relação ao trabalho nos anos m ais recentes. Sua cota de m iséria estava preenchida e psicologicam ente ele sim plesm ente se fechara.

– Não podem os discutir isso agora – ele disse a Sofie, que realm ente aparentava estar passando m al. Ele torceu para que não fosse contagioso. Aparecer na delegacia com um a gastroenterocolite nesse m om ento e deixar todo m undo doente não o tornaria m uito popular.

– Não há nada, nada m esm o, que você não tenha nos contado sobre Marit? Algo que queira nos dizer agora? Algo que sej a útil para encontrar um a conexão entre Marit e as outras vítim as? – Gösta olhou fixam ente para Ola. Estava com a m esm a sensação que teve quando conversaram com ele na em presa. Havia algo que ele não queria contar.

No entanto, sem piscar, Ola disse com os dentes cerrados:

– Nós-não-sabem os-de-nada! Vá lá e fale com aquela sapatão, talvez ela saiba de algo!

– Eu… eu… – Sofie gaguej ou, olhando incerta para seu pai. Ela parecia querer form ar palavras, m as não sabia com o. – Eu... – ela com eçou novam ente, m as um olhar de Ola a fez calar-se. Então ela saiu correndo da cozinha, cobrindo a boca com a m ão. Do banheiro, ouviu-se o som dela vom itando.

– Minha filha está doente. Eu gostaria que vocês fossem em bora agora.

Gösta olhou para Hanna e ela deu de om bros. Eles dirigiram -se para a porta. Ele se perguntou o que Sofie tentou dizer a eles.

A biblioteca estava calm a e silenciosa na m anhã de segunda-feira. Antes, ela ficava localizada a um a distância confortável para ir à pé da delegacia, m as agora que havia se m udado para um novo edifício, Patrik tinha que ir de carro. Não havia ninguém atrás do balcão quando ele entrou, m as depois que ele disse um cauteloso “Olá”, a bibliotecária de Tanum shede surgiu por trás de um a das prateleiras.

– Oi, o que está fazendo aqui? – disse Jessica, surpresa, erguendo um a sobrancelha. Patrik percebeu que fazia um tem po que não punha os pés na biblioteca. Desde o ensino m édio, m ais ou m enos. Quantos anos fazia? Ele não quis pensar nisso. Definitivam ente não desde quando Jessica tornou-se a bibliotecária, de qualquer form a, j á que ela tinha a m esm a idade que ele.

– É, oi. Eu gostaria de saber se você pode m e aj udar com um a coisa – Patrik colocou a pasta sobre a m esa em frente ao balcão de saída de livros e tirou com cuidado os sacos plásticos com as páginas do livro. Jessica veio até ele para olhar o que ele colocava à sua frente. Ela era alta e m agra e tinha, na altura dos om bros, cabelos loiros cor de m el, que estavam presos em um prático rabo de cavalo. Um par de óculos descansava sobre a ponta de seu nariz, e Patrik pensou se usar óculos era um pré-requisito para entrar no curso de Biblioteconom ia.

– Claro, basta m e dizer com o que você precisa de aj uda.

– Eu tenho algum as páginas de um livro infantil aqui – disse Patrik, apontando para as páginas arrancadas. – Gostaria de saber se é possível dizer de que livro vieram ou, m ais precisam ente, qual é a ordem correta delas.

Jessica colocou os óculos no lugar e cuidadosam ente pegou os sacos plásticos e com eçou a estudá-los. Posicionou-os em um a linha reta e depois os m oveu para lá e para cá.

– Agora estão em ordem – ela disse, satisfeita.

Patrik inclinou-se e olhou. Sim , ela estava certa. Agora a história se desenrolava com o devia, a com eçar pela página que estava na Bíblia de Elsa Forsell. Aquela tinha sido um a ideia brilhante, a sua. As páginas agora estavam na m esm a ordem dos assassinatos. Prim eiro vinha a página de Elsa Forsell, depois a de Börj e Knudsen, depois a de Rasm us Olsson e finalm ente a que haviam encontrado ao lado de Marit Kaspersen no carro. Ele dirigiu a Jessica um olhar agradecido.

– Você j á m e aj udou – ele disse, estudando as páginas novam ente. – Pode m e dizer algo sobre o livro? De onde vem ?

A bibliotecária pensou por um m om ento e então deu a volta no balcão e com eçou a digitar algo no com putador.

– Eu acho que o livro parece bem antigo. Provavelm ente j á foi publicado há um bom tem po. Dá para ver pelo estilo das ilustrações e pela form a com o o sueco soa no texto.

– Que idade você diria que tem ? – Patrik não conseguia esconder a ansiedade na voz.

Jessica olhou para ele por sobre os aros dos óculos. Por um m om ento, pensou que ela tinha um a incrível sem elhança com Annika. Então ela disse:

– É isso que estou tentando descobrir. Se pelo m enos eu conseguisse um pouco de silêncio por um m inuto.

Patrik sentiu-se com o um m enino após tom ar um a bronca na escola. Manteve a boca fechada enquanto olhava os dedos de Jessica voando sobre o teclado.

Depois de um tem po, que pareceu um a eternidade para Patrik, ela disse:

– A história de João e Maria foi publicada em várias edições aqui na Suécia ao longo dos anos. Mas eu ignorei todas as que vieram depois de 1950, então elas são em núm ero consideravelm ente m enor. Antes de 1950, vej o dez edições. Eu diria que essa é um a das edições dos anos 1920. Vou ver se consigo localizá-la em um site de sebo e encontrar um a boa im agem dessas edições – ela digitou m ais um pouco e Patrik teve que im pedir a si m esm o de bater o pé no chão de im paciência.

Finalm ente ela disse:

– Vej a. Essa im agem lhe parece fam iliar?

Ele dirigiu-se para o lado dela e sorriu de satisfação quando viu um a im agem de capa que era definitivam ente desenhada no m esm o estilo que as ilustrações das páginas que eles haviam encontrado ao lado das vítim as.

– Essa é a boa notícia – disse Jessica. – A m á é que ele não é um livro único. Saiu em 1924 e m il cópias foram im pressas. E não há garantia de quem quer que o possuísse o tenha com prado ou ganhado de presente quando foi lançado. Ele ou ela pode tê-lo encontrado em um sebo qualquer. Na busca em sites que listam os livros em estoque, encontrei dez cópias à venda em diferentes partes do país hoj e.

Patrik sentiu seu hum or despencar. Sabia que era um tiro no escuro, m as ainda alim entava um a m ínim a esperança de encontrar um a pista por m eio do livro. Voltou para o balcão e olhou com raiva para as páginas dispostas sobre a m esa. O que m ais queria era despedaçá-las por pura frustração, m as se conteve.

– Notou que falta um a página? – Jessica perguntou, indo para o lado dele. Patrik olhou para ela, atônito.

– Não, eu não pensei nisso.

– Dá para ver pela num eração das páginas – ela apontou para um a das folhas. – A prim eira folha que você tem são as páginas cinco e seis e daí pula para nove e dez, e onze e doze e a últim a é treze e catorze. Então a folha com as páginas sete, e oito, está faltando.

Os pensam entos de Patrik rodavam . Ele entendeu com a velocidade de um relâm pago o que aquilo significava. Em algum lugar, havia outra vítim a.