O estranho
Capítulo 8
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Ele não devia. Ele sabia disso. Mas não podia aguentar. Sua irm ã não gostava quando ele im plorava, quando suplicava por algo que era inacessível. Mas algo dentro dele o obrigava. Ele tinha que descobrir o que havia lá fora. O que havia além da floresta, além do cam po. Para onde ela ia todos os dias quando os deixava sozinhos em casa. Ele sim plesm ente tinha que descobrir com o era, a existência de que eram lem brados quando um avião passava sobre eles no céu ou quando ouviam o som de um carro bem longe.
De início ela recusara. Disse que estava fora de questão. O único lugar onde eles estavam a salvo, onde ele, seu pé-frio, estava seguro, era na casa, no santuário deles. Mas ele continuou pedindo. E a cada vez que pedia, achava que via sua resistência dim inuir. Sabia que soava insistente, com o o tom teim oso aparecia em sua voz toda vez que falava do desconhecido, que ele queria ver, pelo m enos um a vez.
Sua irm ã sem pre ficava calada ao seu lado. Olhando os dois, com um bicho de pelúcia nos braços e um dedo na boca. Ela nunca dizia nada sobre ter a m esm a sensação de nostalgia. E ela j am ais ousaria pedir. Mas às vezes ele via um lam pej o do m esm o desej o em seus olhos, quando ela se sentava no banco próxim o à j anela e olhava para a floresta que parecia não ter fim . Nessa hora ele podia ver que a vontade dela era tão forte quanto a sua.
Por isso continuava pedindo. Suplicava, im plorava. Ela o lem brava da história que tanto liam . Sobre os irm ãos curiosos que se perderam na floresta. Eles estavam sozinhos e assustados, m antidos presos por um a bruxa m á. Eles poderiam se perder lá fora. Era ela quem os protegia. Eles queriam se perder, por acaso? Queriam se arriscar a nunca encontrar o cam inho de casa? Afinal, ela j á os tinha salvado da bruxa m á um a vez… Sua voz era sem pre tão baixa, tão triste quando respondia suas súplicas com m ais perguntas. Mas algo dentro dele o obrigava a seguir pedindo, m esm o que a agonia despedaçasse seu peito quando a voz dela trem ia e as lágrim as enchiam seus olhos.
Mas a tentação de saber o que havia lá fora era forte dem ais.
– Bem -vindos! – Erling acenou para que eles entrassem no hall e endireitou a postura quando viu o operador de câm era seguindo-os.
– Viveca e eu acham os ótim o que você tenha concordado em vir a um j antarzinho de despedida. Aqui em nosso hum ilde lar – acrescentou para a câm era com um risinho. Os espectadores provavelm ente apreciariam essa espiadela na vida dos “ricos e fam osos”, com o dissera a Fredrik Rehn quando lhe apresentara a ideia. Fredrik, é claro, achou um a ideia de gênio convidar o elenco para um j antar de despedida na casa do hom em m ais rico da cidade. Era sem dúvida nenhum a incrivelm ente adequado.
– Entrem , entrem – disse Erling, levando-os para a sala. – Viveca j á virá para oferecer-lhes um a bebida e dar-lhes as boas-vindas. Ou será que vocês não bebem ? – ele disse com um a piscadinha, rindo profusam ente de sua própria piada. Satisfeito, im aginou que a audiência veria que ele não era um burocrata chato com um , num terno apertado dem ais. Não, ele sabia com o anim ar as coisas. Nas reuniões, ele sem pre era o cara que contava as m elhores histórias de quando estava na sauna com os am igos. Na verdade, ele era conhecido no m undo dos negócios com o um verdadeiro brincalhão. Um hom em de negócios im placável, m as divertido. – Vej am só, aí vem Viveca com os drinques – ele disse, apontando para sua esposa, que perm aneceu calada. Eles haviam conversado sobre isso antes de os convidados e a produção chegarem . Ela concordara em ficar em segundo plano e deixar que ele tivesse seu m om ento sob os holofotes. Afinal, era ele quem tornara tudo aquilo possível. – Achei que deviam saborear um a bebida de adulto, para variar – disse Erling, sorrindo. – Um genuíno Dry Martini, com o nós o cham am os em Estocolm o – riu novam ente, um pouco alto dem ais, m as queria ter certeza de que seria captado pela câm era. Os j ovens cheiraram suas bebidas, ressabiados, cada um deles com um a azeitona espetada por um palito.
– Tem os que com er a azeitona? – perguntou Uffe, franzindo o nariz em desagrado.
– Não, não precisa. É m ais para decoração.
Uffe assentiu e virou a bebida, tom ando cuidado para driblar a azeitona.
Alguns dos outros seguiram seu exem plo. Erling, um pouco espantado e segurando seu copo para o alto, disse:
– Bem , eu tinha a intenção de fazer um brinde a vocês, m as alguns estão obviam ente com sede. Então, saúde! – ergueu seu copo m ais um pouco, recebeu um m urm úrio vago com o resposta e então bebeu um gole de seu Dry Martini.
– Posso beber m ais um ? – disse Uffe, estendendo o copo para Viveca. Ela olhou para Erling, que concordou. Tanto faz, as crianças precisavam se divertir.
Quando a sobrem esa foi servida, Erling W. Larson estava com eçando a se arrepender. Lem brava-se vagam ente de que Fredrik Rehn o havia alertado a não servir m uito álcool durante o j antar, m as ele estupidam ente decidira ignorar o conselho de Rehn. Se bem lem brava, Erling pensava que nada poderia ser pior que aquela vez em 1998, quando toda a equipe da gerência fez um a viagem de negócios a Moscou. O que acontecera lá era m eio nebuloso em sua m ente, m as ele podia se lem brar de im agens isoladas, que incluíam caviar russo, um a quantidade absurda de vodca e um bordel. O que Erling não considerou é que um a coisa era ficar chapado em um a viagem de negócios e outra bem diferente era ter cinco j ovens bêbados em sua própria casa. Até cardápio fora um desastre. Eles m al tocaram as torradas com ovas de peixe branco, e o risoto com coquilles Saint-Jacques foi recebido com sons im itando vôm ito, especialm ente por aquele bárbaro do Uffe. O clím ax da noite parecia estar acontecendo agora, quando ele podia ouvir sons de gente vom itando vindo do banheiro. Pensando que eles pelo m enos tinham com ido a sobrem esa, viu com horror com o a m usse de chocolate estava sendo regurgitada sobre o lindo e recém -instalado piso.
– Encontrei m ais vinho, Earl, m inha pérola – Uffe balbuciou, voltando triunfante da cozinha com um a garrafa de vinho aberta na m ão. Com um frio no estôm ago, Erling percebeu que Uffe decidira abrir um de seus m elhores e m ais caros vinhos vintage. Erling sentiu a raiva borbulhando por dentro, m as conteve-se quando notou que a câm era dava um zoom em seu rosto na esperança de captar aquela exata reação.
– Im agine só que sorte – ele disse com os dentes cerrados e um sorriso de crocodilo. E então olhou para Fredrik Rehn pedindo aj uda. Mas o produtor parecia pensar que o vereador havia pedido por isso e, em vez de aj udar, ergueu o copo vazio para Uffe.
– Me sirva um pouco, Uffe – ele disse, deliberadam ente ignorando Erling.
– Para m im tam bém – disse Viveca, que passara a noite toda em silêncio, m as agora olhava desafiadoram ente para seu m arido. Erling estava fervilhando por dentro. Isso era um m otim . Ele sorriu para a câm era.
Faltava m enos de um a sem ana para o casam ento. Erica estava com eçando a ficar nervosa, m as todas as providências tinham sido tom adas. Ela e Anna haviam trabalhado com o m aníacas para deixar tudo em ordem : flores, cartões indicando onde os convidados iriam ficar, tudo. Erica lançou um olhar preocupado para Patrik, que estava sentado diante dela à m esa do café da m anhã, m astigando apaticam ente. Ela havia preparado chocolate quente e pão com queij o e caviar, seu café da m anhã favorito. Aquilo norm alm ente a fazia ficar enj oada só de olhar. Agora ela estava preparada para fazer qualquer coisa para ele se alim entar. Pelo m enos ele não teria problem as para entrar no sm oking, ela pensou.
Ultim am ente, Patrik cam inhava pela casa com o um fantasm a. E vinha para casa para com er, cair na cam a e depois pegar o carro e ir para a delegacia bem cedo na m anhã seguinte. Seu rosto estava cinzento e abatido, m arcado pela fadiga e frustração, e ela até com eçara a sentir certo hum or depressivo. Um a sem ana atrás, ele havia dito a ela que devia haver outra vítim a em algum lugar. Eles fizeram outra notificação para todos os distritos no país, m as sem resultado. Com desespero na voz, ele tam bém lhe dissera que eles reexam inaram todo o m aterial que tinham um a, duas, três, várias vezes sem encontrar nada que fizesse a investigação seguir em frente. Gösta havia conversado com a m ãe de Rasm us pelo telefone, m as ela tam bém não reconhecia os nom es de Elsa Forsell e Börj e Knudsen. A investigação estava estagnada.
– O que está em pauta hoj e? – disse Erica, tentando m anter o tom neutro.
Patrik m ordiscava a borda da torrada com o um rato; nos últim os quinze m inutos ele não tinha conseguido com er nem m etade. Ele disse m al-hum orado:
– Esperar por um m ilagre.
– Mas você não pode aceitar aj uda de fora? Dos outros distritos envolvidos? Ou da... Polícia Crim inal Nacional ou coisa parecida?
– Estou em constante contato com Lund, Ny köping e Borås. Eles tam bém estão trabalhando duro. E quanto à PCN... Bem , eu tinha esperanças de que nós conseguíssem os sozinhos, m as estam os inclinados a pedir reforços – pensativo, ele deu m ais um a m inim ordida, e Erica esticou-se para acariciar seu rosto.
– Você ainda quer seguir com os planos para sábado?
Ele olhou para ela surpreso e depois sua expressão se suavizou. Ele pegou a m ão dela e deu um beij o bem na palm a.
– Querida, é claro que sim ! Nós vam os ter um dia fantástico no sábado, o m elhor de nossas vidas, exceto pelo dia em que Maj a nasceu, é claro. E eu prom eto estar feliz e anim ado e com pletam ente concentrado em você e no nosso dia. Não se preocupe. Eu não vej o a hora de m e casar com você.
Erica dirigiu-lhe um olhar inquisitivo, m as não viu nada a não ser sinceridade nos olhos dele.
– Tem certeza?
– Tenho certeza – Patrik sorriu. – E não pense que eu não vej o o enorm e esforço que você e Anna fizeram para planej ar tudo.
– Eu sei que você está com a cabeça cheia. E eu acho que isso fez bem a Anna – Erica disse olhando para a sala, onde Anna estava sentada com Em m a e Adrian vendo TV. Maj a ainda estava dorm indo e, apesar do hum or m elancólico de Patrik, era m aravilhoso tê-lo só para si por um m om ento.
– Eu só quero... – Erica parou.
Patrik pareceu ler seus pensam entos:
– Você gostaria que seus pais estivessem lá.
– Sim , ou não... Para ser bem sincera, eu queria que papai estivesse lá. Mam ãe provavelm ente estaria desinteressada com o sem pre esteve por tudo que Anna e eu fizéssem os.
– Você e Anna conversaram m ais sobre Elsy ? Sobre o porquê de ela ser com o era?
– Não – disse Erica, pensativa. – Mas eu pensei m uito nisso. É estranho que saibam os tão pouco sobre a vida dela antes de conhecer papai. A única coisa que ela disse é que os pais dela tinham m orrido havia m uito tem po – é tudo que Anna e eu sabem os. Nunca vim os nenhum a foto deles. Não é estranho?
Patrik concordou.
– Sim , definitivam ente é esquisito. Quem sabe você não devesse fazer um a pesquisa sobre sua genealogia? Você é boa em investigar essas coisas, desenterrar fatos. É só um a questão de com eçar assim que passar o casam ento.
– Passar? – disse Erica em tom agourento. – Você pensa no nosso casam ento com o algo pelo qual tem os que “passar”...
– Não – Patrik disse, m as não conseguia pensar em nada m elhor para dizer. Em vez disso, ele m ergulhou a torrada no chocolate quente. Sabia quando era m elhor se poupar. E deixar a com ida silenciar qualquer coisa que pudesse dizer.
– Bem , hoj e a diversão acaba.
Lars quis encontrá-los em condições m enos form ais que o norm al, então os convidou para um café e bolinhos no Café e Refeições do Pappa que, sem surpresa, ficava localizado na rua principal de Tanum shede.
– Vai ser m uito bom ir em bora daqui – disse Uffe, enfiando um doce na boca.
Jonna olhou para ele com noj o, m ordendo um a m açã.
– Que tipo de planos vocês fizeram ? – disse Lars, fazendo barulho para beber seu chá. Os m em bros do elenco haviam acom panhado, fascinados, ele m ergulhar seis cubos de açúcar em sua xícara.
– O de sem pre – disse Calle. – Ir para casa e ver m eus am igos. Sair e encher a cara. As gatas no Kharm a estão com saudade de m im – ele riu, m as seus olhos estavam em botados e cheios de desesperança.
Os olhos de Tina brilharam .
– Não é lá que a princesa Madeleine sem pre vai?
– Ah, sim , Maddie – disse Calle, casualm ente. – Ela saiu com um dos m eus am igos.
– Saiu? – disse Tina, im pressionada. Pela prim eira vez em um m ês, ela olhou para Calle com algum respeito.
– É, m as ele term inou com ela. Mam ãe e papai ficavam se m etendo dem ais.
– Mam ãe e... Ahhhhh! – disse Tina e seus olhos se arregalaram m ais ainda. – Legal.
– E o que você vai fazer? – Lars perguntou para Tina. Ela estalou o pescoço.
– Vou sair em turnê.
– Em turnê? – Uffe debochou, pegando outro doce. – Você vai sair com o Boozer e talvez cante um a m úsica ou duas e depois fique m ofando no bar. Eu não cham aria isso de turnê.
– Sabe, tem um m onte de clubes ligando pra m e convidar para cantar “I want to be y our little bunny ” – Tina disse. – Boozer disse que várias gravadoras vão ligar tam bém .
– Claro, e o que Boozer diz é sem pre verdade – Uffe bufou, revirando os olhos.
– Porra, vai ser ótim o m e livrar de você. Você é tão... negativo o tem po todo! – Tina vociferou para Uffe e deu-lhe as costas. Os dem ais estavam curtindo a cena.
– E quanto a você, Mehm et?
Todos se viraram para olhar para Mehm et, que não tinha aberto a boca desde que entraram no café.
– Eu vou ficar aqui – ele disse, esperando de m aneira desafiadora por um a reação. Eles não o decepcionaram .
Cinco pares de olhos incrédulos voltaram -se para ele.
– O quê?
– Você vai ficar? Aqui? – Calle olhava com o se Mehm et tivesse se transform ado em um sapo diante de seus olhos.
– Sim , eu vou trabalhar na padaria. Vou alugar m eu apartam ento por uns tem pos.
– E onde você vai m orar? Com Sim on ou coisa assim ?
As palavras de Tina ressoaram no café, e o silêncio de Mehm et fez os olhares chocados se espalharem por toda a m esa.
– Vai m esm o? Qual é o esquem a, vocês dois são um casal ou o quê?
– Não, não som os! – Mehm et retorquiu. – Não que sej a da sua conta. Nós som os só... am igos.
– Sim on e Mehm et, sentados num a árvore, se BEI-JAN-DO – Uffe cantou e ria tanto que quase caiu da cadeira.
– Corta essa, deixa o Mehm et em paz – disse Jonna quase num sussurro, que estranham ente fez os outros se calarem . – Eu acho que é um a decisão coraj osa, Mehm et. Você é m elhor que todos nós!
– O que quer dizer com isso, Jonna? – disse Lars, gentilm ente, virando a cabeça para o lado. – De que m odo Mehm et é m elhor?
– Ele sim plesm ente é – disse Jonna, puxando as m angas para baixo. – Ele é bom . Gentil e atencioso.
– E você não é boa? – Lars perguntou. A pergunta parecia ter m uita am biguidade.
– Não – Jonna disse num fio de voz. Em sua m ente, ela repassava a cena do lado de fora do centro com unitário e o ódio que ela sentiu de Barbie. Com o ficara m agoada com o que Barbie dissera a seu respeito e quanto ela quis m agoá-la tam bém . Ela havia sentido verdadeira satisfação no instante em que cortou a pele de Barbie com a faca. Um a pessoa boa não teria feito isso. Mas ela não disse nada. Preferiu olhar pela j anela o tráfego que passava. Os câm eras j á tinham feito as m alas e ido em bora. Era o que ela tinha que fazer tam bém . Ir para casa. Para um apartam ento enorm e e vazio. Para os bilhetes na m esa da cozinha lhe dizendo para não esperar acordada. Para as apostilas sobre vários cursos de form ação profissional que eram deixadas de propósito na m esa de centro. Para o silêncio.
– E o que você vai fazer agora? – Uffe perguntou para Lars em tom um pouco sarcástico. – Agora que não tem que nos m im ar?
– Eu vou achar um j eito de m e m anter ocupado – disse Lars, dando um gole em seu chá doce. – Vou trabalhar no m eu livro, talvez abrir m eu próprio consultório. E quanto a você, Uffe? Você não disse o que vai fazer.
Com inocência estudada, Uffe deu de om bros.
– Ah, nada especial. Deve rolar um a turnê pelos bares por um tem po. Eu sem dúvida vou ter de escutar aquela m aldita “I want to be y our little bunny ” até ela escorrer pelos m eus ouvidos – ele encarou Tina. – E depois, bem , sei lá. Eu dou um j eito – por um m om ento, a incerteza era visível por trás da m áscara de durão. Logo ela se foi e ele riu. – Vej am só o que eu faço! – ele pegou a colher de café e pendurou em seu nariz. Ele não ia perder tem po se preocupando com o futuro, de j eito nenhum . Caras que conseguem equilibrar colheres na ponta do nariz sem pre se viram .
Quando saíram do café e se dirigiam até o ônibus que os esperava para levá-los de Tanum Shede, Jonna parou por um m om ento. Durante um instante, ela pensou ter visto Barbie sentada entre eles. Com aqueles cabelos loiros longos e as unhas postiças que a im pediam de fazer quase tudo. Rindo, com aquela expressão dela suave e doce. Todos apontavam isso com o um sinal de fraqueza, m as Jonna agora percebia que estavam errados. Não era só Mehm et. Barbie tam bém era boa. Pela prim eira vez, ela parava para pensar naquela sexta-feira em que tudo deu errado. Sobre quem havia dito o que na verdade. Sobre quem estivera espalhando aquelas histórias, que Jonna agora sabia serem m entiras. Sobre quem os m anipulara com o m arionetes. Algo estava rem oendo no fundo de sua m ente, m as, antes que o pensam ento em ergisse com pletam ente, o ônibus deixou Tanum shede. Ela olhou pela j anela. O assento ao lado do seu estava notavelm ente vazio.
* * *
Lá pelas dez da m anhã, Patrik com eçava a se arrepender de não ter se esforçado para com er m ais no café da m anhã. Seu estôm ago roncava, então ele foi à sala de descanso procurar algo com estível. Estava com sorte. Havia um a solitária rosca de canela em um saco sobre a m esa, e ele a enfiou vorazm ente na boca. Não era o m elhor lanche do m undo, m as ia servir. Voltou para seu escritório, ainda de boca cheia, quando o telefone tocou. Viu que era Annika e tentou engolir o últim o pedaço, m as ficou entalado em sua garganta.
– Alô? – ele disse tossindo.
– Patrik?
Ele engoliu algum as vezes e conseguiu deglutir o resto da rosca.
– Sim , sou eu.
– Tem alguém aqui para te ver – Annika disse e pelo tom de sua voz, ele percebeu que era im portante.
– Quem é?
– Sofie Kaspersen.
Ele sentiu um a faísca de interesse. A filha de Marit? O que ela poderia querer?
– Mande-a entrar – ele disse e foi para o corredor esperar por Sofie. Ela estava pálida e abatida e ele lem brou-se vagam ente de Gösta ter dito que ela estava ruim do estôm ago quando eles visitaram Ola e a garota.
– Soube que esteve doente. Está se sentindo m elhor agora? – ele disse, conduzindo-a a seu escritório.
Ela balançou a cabeça.
– Sim , tive um a febre estom acal. Mas j á estou m elhor. Perdi alguns quilos, só isso – ela disse com um sorriso irônico.
– Ah, então eu devia pegar isso aí tam bém – ele disse rindo, de form a a suavizar o clim a. Houve um a pausa constrangedora. Patrik esperou que ela falasse.
– Você encontrou m ais algum a coisa... sobre a m inha m ãe? – ela disse finalm ente.
– Não, dem os com a cara na parede.
– Então vocês não sabem qual é a conexão entre ela... e os outros?
– Não – Patrik disse novam ente, perguntando-se aonde ela queria chegar. Prosseguiu com cuidado. – Há algo que nós obviam ente não descobrim os ainda. Algo que não sabem os... sobre sua m ãe e os outros.
– Hum m – foi tudo que Sofie disse.
– É im portante que saibam os de tudo, para poderm os encontrar quem tirou sua m ãe de você – ele podia ouvir a súplica em sua voz, m as tam bém via que Sofie queria dizer algo a ele. Algo sobre sua m ãe.
Após um a longa pausa, a m ão dela tocou gentilm ente a m anga de seu paletó. Com os olhos baixos, ela tirou um a folha de papel e entregou a Patrik. Ela ergueu os olhos novam ente quando ele com eçou a ler, estudando-o com atenção.
– Onde encontrou isso? – Patrik disse quando term inou de ler. Sentia seu estôm ago form igar.
– Num a gaveta. No quarto do m eu pai. Mas estava com as coisas que m am ãe tinha guardado. Estava com algum as fotos e outras coisas.
– Seu pai sabe que você encontrou isso?
Sofie balançou a cabeça. Seus cabelos lisos e escuros dançaram em torno de seu rosto.
– Não, e ele não vai ficar feliz com isso. Mas os detetives que vieram em casa sem ana passada disseram para entrar em contato se soubéssem os de algo e eu achei que tinha que te dizer. Pelo bem de m am ãe – ela acrescentou e voltou a estudar suas cutículas.
– Você fez a coisa certa – disse Patrik. – Nós precisávam os dessa inform ação, e eu acredito que você nos deu a chave – ele não conseguia esconder a excitação. Tantas coisas se encaixavam agora. Outras peças do quebra-cabeça rodavam em sua m ente: a ficha crim inal de Börj e, os ferim entos de Rasm us, a culpa de Elsa – tudo fazia sentido.
– Posso ficar com isso? – ele agitou o papel.
– Poderia fazer um a cópia? – Sofie disse.
– Certam ente. E se seu pai arm ar confusão, diga para ele m e ligar. Você fez a coisa certa.
Ele tirou um a cópia na m áquina no corredor, devolveu o original a Sofie e a levou até a porta. Ficou olhando enquanto ela cam inhava penosam ente pela rua, com as m ãos enfiadas nos bolsos. Parecia estar indo na direção da casa de Kerstin. Ele esperava que sim . Aquelas duas precisavam um a da outra m ais do que podiam im aginar.
Com triunfo nos olhos, ele voltou para dentro, a fim de colocar tudo em m ovim ento. Depois de m uito tem po, finalm ente tinham um progresso!
* * *
A últim a sem ana havia sido a m elhor na vida de Bertil Mellberg. Ele m al podia acreditar no que estava acontecendo. Rose-Marie tinha passado a noite lá m ais duas vezes e, m esm o que suas atividades noturnas estivessem com eçando a deixar suas m arcas em form a de olheiras, valia a pena. Ele se pegou andando e cantarolando e até deu um pulinho de alegria. Mas só quando ninguém estava olhando.
Ela era fantástica. Ele não acreditava na sorte que teve. Era incrível com o essa beleza de m ulher o havia elegido com o seu escolhido. Não, ele não entendia. E eles j á com eçavam a falar no futuro. Haviam concordado tim idam ente que tinham m esm o um futuro j untos. Disso não havia dúvida. Mellberg, que sem pre tivera um a relutância sadia por assum ir um relacionam ento longo, agora m al podia se conter.
Eles tinham falado m uito sobre o passado tam bém . Ele havia contado a ela sobre Sim on e orgulhosam ente m ostrara a ela um a foto do filho que havia entrado tão tarde em sua vida. Rose-Marie com entara com o ele era bonito, tão parecido com seu pai; disse que não via a hora de conhecê-lo. Ela tinha um a filha que m orava no norte, em Kiruna, e outra nos Estados Unidos. Tão longe, as duas, ela disse com tristeza na voz e m ostrou a ele fotografias de seus dois netos que viviam na Am érica. Talvez pudessem viaj ar para lá no verão seguinte, Rose-Marie sugeriu e ele concordou prontam ente. Am érica – ele nunca havia sonhado em viaj ar para tão longe. Para falar a verdade, ele nunca havia atravessado as fronteiras da Suécia. Um a viagem breve atravessando a ponte para Svinesund, na Noruega, m al contava com o excursão internacional. Mas Rose-Marie estava abrindo todo um novo m undo para ele. Ela estava com eçando a pensar em com prar um a casa com partilhada na Espanha, com o ela lhe disse um a noite, enquanto deitava em seus braços. Um a casa de estuque branco com um a varanda, vista para o Mediterrâneo, piscina particular e buganvílias subindo ao longo da fachada, tão perfum adas no clim a quente. Mellberg podia im aginar. Com o ele e Rose-Marie se sentariam na varanda em um a noite quente de verão, abraçados, bebericando drinques gelados. Um pensam ento lhe ocorreu e recusou-se a ir em bora. Na escuridão do quarto, ele virara o rosto para encará-la e solenem ente sugeriu que eles com prassem a casa j untos. Esperou nervosam ente por um a reação dela; de início Rose-Marie não ficara tão entusiasm ada quanto ele esperava. Parecia um pouco desconfortável. Então eles conversaram sobre providenciar docum entos de tudo, para não haver discussões sobre dinheiro. Com certeza, aquilo não seria o suficiente. Ele sorriu e beij ou a ponta de seu nariz. Ela ficava tão linda preocupada. Mas finalm ente eles concordaram em fazê-lo.
Enquanto Mellberg ficava ali, sentado na poltrona de seu escritório, de olhos fechados, ele quase podia sentir a brisa m orna em seu rosto. O perfum e de óleo bronzeador e pêssegos frescos. As cortinas flutuando com o vento que trazia o cheiro do m ar. Ele se viu inclinando-se sobre Rose-Marie, levantando a aba de seu chapéu de sol e... Um a batida na porta o acordou de seu sonho.
– Entre – ele disse, contrariado, tirando rapidam ente os pés da m esa e m exendo nos papéis que estavam espalhados diante dele. – Espero que sej a im portante, estou m uito ocupado – ele disse a Hedström , que entrava.
Patrik assentiu e sentou-se.
– É m uito im portante – ele disse, colocando a cópia do papel de Sofie na m esa.
Mellberg leu. E dessa vez concordou.
Havia algo na prim avera que sem pre deixava Annika triste. Ela ia para o trabalho, fazia o que tinha que fazer, voltava para casa, ficava com Lennart e os cachorros e depois ia para a cam a. A m esm a rotina que nas outras estações, m as na prim avera ela tinha a sensação de que nada fazia sentido. Ela tinha um a vida m uito boa, na verdade. Ela e Lennart tinham um casam ento m elhor e m ais estável que a m aior parte das pessoas que ela conhecia; os cães eram m em bros am ados da fam ília e ela e seu m arido eram fanáticos por corridas de arrancada, o que os levava para todos os cantos da Suécia, para com petições em vários locais. Tam bém os levaram a fazer m uitos am igos. No verão, no outono e no inverno isso bastava. Mas por algum a razão, ela sem pre sentia que algo faltava na prim avera. Era a época em que seu desej o por ter filhos vinha com força total. Ela não sabia por quê. Talvez porque seu prim eiro aborto natural tivesse ocorrido na prim avera. Dia 3 de abril, um a data que sem pre ficaria gravada em seu coração. Mesm o tendo sido m ais de quinze anos atrás. Oito outros abortos naturais se seguiram , incontáveis visitas ao m édico, exam es, tratam entos. Mas nada adiantara. E finalm ente eles aceitaram a situação e tentaram viver o m elhor possível. Claro que discutiram sobre adoção tam bém , m as nunca conseguiram fazer acontecer. Todos aqueles anos de cálculos errados e decepções os fizeram sentir-se vulneráveis e inseguros. Eles não ousaram arriscar-se novam ente. E apesar do fato de Annika sentir que tinha um a boa vida durante boa parte do ano, ela sem pre tinha saudade de seus filhos não nascidos na prim avera. Seus garotinhos e suas garotinhas, que por algum a razão não estavam preparados para a vida, tanto em seu ventre quanto fora dele. Às vezes ela os im aginava em sua m ente com o anj inhos, pessoas pequeninas flutuando em torno dela com o prom essas. Dias com o aquele eram difíceis. E hoj e era um desses dias.
Annika piscou para afastar as lágrim as e tentou se concentrar na tabela do Excel em seu com putador. Ninguém na delegacia conhecia nada sobre sua tragédia pessoal. Tudo o que sabiam era que Annika e Lennart nunca tiveram filhos, e ela não se prestaria à vergonha de choram ingar no m eio da recepção. Apertou os olhos para tentar com binar as inform ações nas células diante dela. O nom e do criador de cães à esquerda e o endereço à direita. Aquilo havia tom ado m ais tem po do que ela presum ira, m as agora tinha todos os endereços cadastrados na lista. Ela salvou o arquivo em um CD e tirou-o do com putador. Os querubins pairavam em torno dela, perguntando quais seriam seus nom es, que brincadeiras eles teriam feito j untos, o que seriam quando crescessem . Annika sentiu os soluços chegando novam ente e olhou para o relógio. Onze e m eia; hoj e ela ia para casa alm oçar. Sentia que precisava de m ais paz e quietude, sozinha. Mas prim eiro tinha que levar o CD para Patrik. Sabia que ele queria todas as inform ações o m ais rápido possível.
No corredor, ela encontrou Hanna e viu um a oportunidade de evitar o olhar penetrante de Patrik.
– Olá, Hanna – ela disse. – Pode dar isso aqui para Patrik? É um a lista com os criadores e seus endereços. Eu... eu tenho que ir para casa alm oçar hoj e.
– O que houve? Você não está se sentindo bem ? – Hanna disse com preocupação, pegando o CD.
Anna forçou um sorriso.
– Eu estou bem . Só gostaria de com er um a refeição caseira hoj e.
– Está bem – disse Hanna. – Eu vou deixar o CD com Patrik. Nos vem os m ais tarde.
– Até m ais – disse Annika, se apressando em direção à porta. Os querubins a seguiram até sua casa.
Patrik ergueu os olhos quando Hanna entrou.
– Aqui, um CD de Annika. Os criadores de cães – ela deu o disquete a ele e Patrik o colocou em cim a da m esa.
– Sente-se um pouco – ele disse, apontando para um a cadeira. Ela sentou-se e Patrik deu-lhe um olhar inquisitivo.
– Com o está sendo seu prim eiro m ês? Está gostando de trabalhar aqui? Um pouco caótico no início talvez? – ele sorriu e ganhou um sorriso de volta. Para ser com pletam ente honesto, ele andava m eio preocupado com sua nova colega. Ela parecia exausta. Claro, todos eles estavam com o m esm o aspecto depois das últim as sem anas, m as havia algo m ais. Algo em seu rosto, algo além de exaustão norm al. Seus cabelos loiros estavam penteados para trás em um rabo de cavalo com o sem pre, m as não tinham brilho nenhum e ela carregava olheiras profundas.
– As coisas estão indo m uito bem – ela disse alegre, sem parecer perceber que ele a estava escrutinando. – Eu estou aproveitando m uito e gosto de estar ocupada – ela olhou em volta para todos os docum entos e fotografias pendurados nas paredes e fez um a pausa. – Isso soou insensível. Mas você entende o que eu quero dizer.
– Eu sei – disse Patrik, sorrindo. – E Mellberg? Ele está... – ele procurou a palavra correta – ele tem se com portado bem ?
Hanna riu e por um m om ento seu rosto se suavizou e Patrik reconheceu a m ulher que com eçara a trabalhar com eles cinco sem anas atrás.
– Eu m al o vi, para dizer a verdade, então sim , pode-se dizer que ele se com portou bem . Se há algo que eu aprendi nessas sem anas, é que todos aqui veem você com o quem está no com ando. E que você faz j us ao posto.
Patrik sentiu-se enrubescer. Não era sem pre que recebia um elogio e não sabia com o lidar com isso, na verdade.
– Obrigado – ele resm ungou e rapidam ente m udou de assunto. – Vou fazer um a repassagem em um a hora. Pensei em nos reunirm os na sala de descanso. Aqui é m uito apertado.
– Você tem algo novo? – Hanna disse, sentando-se m ais ereta na cadeira.
– Sim , pode-se dizer que sim – disse Patrik e não conseguiu reprim ir um sorriso. – Podem os ter encontrado a chave que conecta os casos – seu sorriso cresceu.
Hanna sentou-se m ais ereta ainda.
– A conexão? Você encontrou?
– Bem , não fui eu. Ela chegou até m im , poderia se dizer. Mas prim eiro eu tenho que fazer dois telefonem as para confirm ar algum as coisas, então não quero dizer nada antes da reunião. Até agora eu só contei a Mellberg.
– Está bem . Então te vej o em um a hora – disse Hanna, levantando-se para sair.
Patrik não conseguia se livrar da sensação de que algo estava errado. Mas ela provavelm ente lhe contaria no m om ento certo. Pegou o telefone e discou o prim eiro núm ero.
– Encontram os a conexão que procurávam os – Patrik olhou em volta, desfrutando o efeito de seu anúncio. Seus olhos pararam por um m om ento em Annika e ele viu que ela tinha os olhos verm elhos. Isso não era norm al. Annika era sem pre alegre e positiva em todas as situações e ele fez um a nota m ental de conversar com ela depois da reunião para ouvir com o ela estava. – A peça crucial do quebra-cabeça foi trazida hoj e por Sofie Kaspersen. Ela encontrou um artigo de j ornal antigo entre as coisas de sua m ãe e decidiu entregá-lo para nós. Gösta e Hanna visitaram Sofie e seu pai sem ana passada e aparentem ente causaram boa im pressão nela, o que a levou a tom ar a decisão de entrar em contato conosco. Bom trabalho! – ele disse, com um gesto de aprovação para os dois. – O artigo... – ele não resistiu e fez um a pausa de efeito enquanto sentia a tensão crescendo no recinto. – O artigo trata do fato de que, vinte anos atrás, Marit esteve envolvida em um acidente de carro que resultou em um a m orte. O carro dela colidiu com o de um a senhora, que faleceu. Quando a polícia chegou à cena, Marit apresentava um alto nível de álcool no sangue. Ela foi sentenciada à prisão por onze m eses.