O estranho

Camilla Läckberg · Capítulo 2 de 10

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O estranho

Capítulo 2

 

Obem havia superado o m al. Havia m esm o? Às vezes, à noite, quando se revirava na cam a com os pesadelos, ele não tinha m uita certeza disso. Mas agora, à luz do dia, ele estava absolutam ente certo de que o bem havia prevalecido. Sentia o m al som ente na form a de som bras à espreita pelos cantos, sem ousar m ostrar sua face horrenda. E isso estava bom para ele.

Am bos am aram -na. Incrivelm ente. Mas talvez ele tenha sido quem m ais a am ou. E talvez ela o tenha am ado m ais. Haviam tido algo especial. Nada poderia os separar. O que havia de feio e im undo bateu neles e escorreu, sem grudar.

Sua irm ã os respeitava sem ciúm e. Sabia que presenciava algo único. Algo com o qual ela não podia com petir. E eles a incluíam . Envolviam -na no am or deles, perm itiam que fizesse parte dele. Não havia m otivo para sentir ciúm e. Ter perm issão para entrar naquele tipo de am or era algo com que poucos eram agraciados.

Era porque ela os am ava tão infinitam ente que ela restringia seu m undo. E eles, gratos, deixavam -se ser confinados. Por que precisariam de qualquer outra pessoa? Por que seriam oprim idos com toda a sordidez que sabiam existir lá fora?

Ele não saberia lidar com o m undo externo. Era o que ela dizia. Ele era tão propenso a acidentes. Derrubava coisas a toda hora, esbarrava em outras, quebrava tudo. Se ela o deixasse sair, coisas terríveis poderiam acontecer. Alguém tão desastrado nunca conseguiria se virar. Mas ela sem pre dizia de form a tão am ável: “Meu desastrado”. “Meu pequeno desastrado.”

Seu am or bastava para ele. E bastava para sua irm ã. Pelo m enos, na m aior parte do tem po.

A coisa toda era um a droga. Jonna apaticam ente colocava as com pras na esteira rolante para passar os códigos. O Big Brother tinha sido um Festival de Hultsfred com parado a isso. Isso aqui era um a porcaria! Se bem que ela não podia reclam ar. Tinha visto as tem poradas anteriores do program a, então sabia que teria que m orar e trabalhar nesse lixo em que fora parar. Mas trabalhar na porra de um caixa de superm ercado! Por essa ela não esperava. Seu único consolo é que Barbie tam bém tinha parado lá. Estava no caixa atrás do de Jonna, com seus seios de silicone esprem idos naquele avental verm elho. E a m anhã toda Jonna tinha sido forçada a ouvir sua conversa estúpida com todos os fregueses, de adolescentes im aturos com vozes estridentes até velhos noj entos que tentaram convidar Barbie para sair. Será que não entendiam que não tinham que conversar com um a garota com o Barbie? Basta pagar uns drinques e pisar fundo no acelerador. Idiotas.

– Ah, vai ser tão legal te ver na TV. E nossa cidadezinha tam bém , é claro. Eu nunca im aginei que seríam os celebridades nacionais aqui em Tanum shede – a velhinha tola ficou ali se em pinando diante do caixa e de vez em quando dava um sorriso encantado para a câm era pendurada no teto. Era tão estúpida que não percebia que essa era a m elhor m aneira de não ser usada em nenhum dos segm entos. Olhar direto para a câm era era term inantem ente proibido.

– São trezentas e cinquenta coroas e cinquenta centavos – disse Jonna cansada, olhando para a senhora.

– Sim , estou vendo, aqui está m eu cartão – disse a m ulher viciada em TV, passando o cartão pelo leitor. – Ai, agora eu tenho que digitar a senha – cantarolou.

Jonna suspirou. Perguntou-se se conseguiria m atar o trabalho a partir de hoj e. Os produtores adoravam discutir com os diretores de elenco e coisas assim , m as talvez fosse m eio cedo para isso. Era m elhor apenas ranger os dentes por um a sem ana. Depois disso ela poderia até escapar com algum esquem a.

Im aginou se m am ãe e papai estariam sentados no sofá assistindo à TV na segunda-feira. Provavelm ente não. Eles nunca tiveram passatem pos tão triviais quanto assistir à TV. Eram m édicos, então seu tem po era m ais valioso que o dos outros. O tem po que passaram assistindo a Survivor – ou estando com ela – era um m om ento que poderiam passar fazendo um a cirurgia de ponte de safena ou um transplante de rim . Jonna estava sendo egoísta por não com preender isso. Papai até a levara ao hospital para que ela assistisse a um a cirurgia cardíaca num a criança de dez anos. Ele queria que ela com preendesse quão im portante eram seus em pregos, ele disse, e por que eles não podiam passar tanto tem po com ela quanto gostariam . Ele e m am ãe tinham um dom , o de poder aj udar outras pessoas, e era obrigação deles fazer bom uso disso.

Mas que m onte de besteira! Por que tiveram filhos se não tinham tem po para eles? Por que não m andaram para o inferno a ideia de ter filhos, assim poderiam passar vinte e quatro horas por dia com as m ãos enfiadas no peito de alguém ?

No dia seguinte à visita ao hospital, ela com eçou a se cortar. Foi tão legal. Assim que a faca fez o prim eiro corte em sua pele, ela sentiu a ansiedade dim inuir.

Parecia que havia sangrado do ferim ento em seu braço. Desapareceu com o sangue que pingava devagar, verm elho e quente. Ela adorava a visão do próprio sangue. Adorava a sensação da faca ou da lâm ina ou qualquer porcaria que estivesse ao alcance e pudesse cortar fora a aflição que se ancorava tão firm em ente em seu peito.

Ela tam bém descobriu que esse era o único m om ento em que reparavam nela. O sangue os fazia voltar sua atenção para ela e vê-la de verdade. Mas o barato vinha sendo cada vez m enos intenso. Com cada corte, cada cicatriz, o efeito em sua ansiedade dim inuía. E em vez de olhá-la com preocupação, com o faziam no início, agora seus pais só a olhavam com resignação. Eles haviam perdido o controle da situação e decidiram aj udar aqueles a quem podiam salvar. Pessoas com coração defeituoso e órgãos internos que haviam parado de funcionar e precisavam ser substituídos. Ela não tinha nada disso a oferecer. Era sua alm a que estava destruída e não havia nada que eles pudessem fazer com um bisturi para consertá-la. Então pararam de tentar.

O único am or disponível para ela agora vinha das câm eras e das pessoas que sentavam -se em frente à TV noite após noite para vê-la. Ver a Jonna real.

Ouviu atrás de si um cara perguntar a Barbie se podia tocar seus im plantes de silicone. Os espectadores iam am ar isso. Jonna deliberadam ente levantou os braços para as cicatrizes ficarem visíveis. Era o único j eito de com petir com aquilo.

– Aí, Martin, posso entrar por um m inuto? Precisam os conversar.

– Claro, entre, estou só term inando uns relatórios – ele acenou para Patrik entrar. – O que foi? Você parece preocupado.

– Bem , eu não sei o que pensar sobre isso. Recebem os o resultado da autópsia de Marit Kaspersen essa m anhã e devo dizer que algo parece realm ente estranho.

– O que é? – Martin se inclinou para a frente, interessado. Lem brou-se de que Patrik andou resm ungando algo nesse sentido no dia em que o acidente ocorreu, m as depois, ele sinceram ente havia esquecido o fato. Patrik tam bém não m encionara m ais nada.

– Bem , Pedersen anotou tudo o que encontrou e eu conversei com ele por telefone tam bém , m as há algo que não conseguim os resolver.

– Conte-m e – a curiosidade de Martin aum entava a cada segundo.

– Em prim eiro lugar, Marit não m orreu no m om ento do acidente. Ela j á estava m orta quando aconteceu.

– Que diabos! Com o? O que foi, um ataque cardíaco ou algo assim ?

– Não. Não exatam ente – Patrik coçou a cabeça enquanto estudava o relatório. – Ela m orreu de intoxicação por álcool. O nível de álcool no sangue era de 0,61.

– Está brincando? Ponto m eia um é o bastante para m atar um cavalo!

– Exatam ente. De acordo com Pedersen, ela deve ter bebido um a garrafa inteira de vodca. Em m uito pouco tem po.

– E aqueles que a conheciam disseram que ela nunca tocou em bebida alcoólica.

– Justam ente. Tam bém não havia sinal de abuso de álcool no corpo dela, o que provavelm ente significa que ela não tinha a m enor tolerância. De acordo com Pedersen, a reação deve ter sido im ediata.

– Então ela se em bebedou por algum a razão. É trágico, é claro, m as infelizm ente acontece de vez em quando – Martin disse, intrigado com a preocupação de Patrik.

– Sim , é o que parece. Mas Pedersen encontrou algo m ais, que torna a coisa toda um pouquinho m ais com plicada – Patrik cruzou as pernas e folheou o relatório para encontrar o trecho certo. – Aqui está. Vou tentar traduzir para a com preensão de um leigo. Tudo o que Pedersen escreve é com o se fosse um código secreto. Parece que ela tinha um ferim ento estranho em volta da boca. Tam bém há sinais de traum a no interior da boca e na garganta.

– Então, o que isso quer dizer?

– Eu não sei – Patrik suspirou. – Não havia provas suficientes para Pedersen tirar conclusões definitivas. Ele não pode afirm ar com toda a certeza que ela não se em bebedou no carro com um a garrafa inteira, m orreu de intoxicação por álcool e então saiu da estrada.

– Mas ela j á devia estar m uito louca antes do acidente acontecer. Tem os algum a denúncia de alguém dirigindo de form a irregular na noite de dom ingo?

– Não que eu tenha encontrado. O que só contribui para o fato de isso tudo estar m uito estranho. Por outro lado, não havia m uito trânsito àquela hora da noite, então talvez os dem ais m otoristas só tiveram a sorte de não estar no cam inho dela – Patrik disse, pensativo. – Mas Pedersen não conseguiu encontrar razão para o traum a dentro e em torno da boca, então acho que é m otivo suficiente para investigarm os a coisa toda m ais a fundo. Pode ser um caso com um de alguém dirigindo em briagado, m as pode não ser. O que acha?

Martin parou por um m om ento.

– Você disse que estava com um pressentim ento desde o com eço. Acha que Mellberg vai concordar com isso?

Patrik olhou para ele e Martin riu.

– Depende só de com o eu vou apresentar o caso, não acha? – disse Patrik.

– Nisso você está certo. Tudo depende da apresentação.

Patrik riu com ele e levantou-se. E ficou sério novam ente.

– Acha que estou com etendo um erro? Que estou fazendo tem pestade em copo d’água? Pedersen não encontrou nada de concreto que indique que não foi um acidente. Mas... – ele disse, chacoalhando o fax do relatório da autópsia – ao m esm o tem po, há algo aqui que m e cham a a atenção. Porém , j uro pela m inha vida que não consigo... – Patrik passou as m ãos pelos cabelos novam ente.

– Vam os lá – disse Martin. – Vam os com eçar perguntando por aí e j untar m ais detalhes e ver aonde isso tudo nos leva. Talvez isso dê um estalo na sua m em ória ou o que quer que estej a te incom odando.

– Ótim a ideia. Vou prim eiro falar com Mellberg. Por que não conversam os de novo com a com panheira de Marit, m ais tarde?

– Por m im , tudo bem – disse Martin, voltando aos relatórios que estava escrevendo. – Venha m e buscar quando estiver pronto.

– Ok – Patrik j á estava saindo quando Martin o cham ou.

– Espere um segundo – disse hesitante. – Eu estava pra te perguntar com o vão as coisas em casa. Com sua cunhada e tal.

Patrik sorriu de onde estava, à porta.

– Estam os com eçando a ficar m ais esperançosos, na verdade. Anna parece estar saindo do abism o. Graças ao Dan.

– Dan? – Martin disse, surpreso. – O Dan de Erica?

– Me desculpe, m as o que quer dizer com “o Dan de Erica”? Ele é o “nosso Dan” agora.

– Está bem , está bem – Martin riu. – O “seu” Dan. Mas o que ele tem a ver com isso?

– Bem , na segunda-feira Erica teve a brilhante ideia de pedir a ele que viesse até nossa casa para conversar com Anna. E funcionou. Eles com eçaram a fazer longas cam inhadas j untos, só para conversar e isso pareceu ser exatam ente do que Anna precisava. Ela se transform ou em um a m ulher com pletam ente diferente em poucos dias. As crianças estão encantadas.

– Isso é ótim o – Martin disse com sinceridade.

– É, certam ente é – disse Patrik, dando um tapa no batente da porta. – Olhe, eu vou até lá ver Mellberg e acabar de vez com isso. Conversam os m ais tarde.

– Está bem – disse Martin, voltando aos relatórios. Aquela papelada toda... Ele podia viver sem esse lado da profissão.

* * *

Os dias se arrastavam . Parecia que sexta-feira e seu encontro para o j antar nunca chegariam . Era estranho pensar nesses term os na sua idade. Mesm o não sendo um encontro de verdade, ainda assim era um convite para j antar. Quando Mellberg ligou para Rose-Marie, não tinha planej ado nada, por isso ficou surpreso consigo m esm o quando sugeriu que j antassem em um restaurante chique. Seu bolso ia ficar ainda m ais surpreso. Ele sim plesm ente não conseguia entender o que estava acontecendo com ele. Antes, sair para com er em um restaurante tão caro quanto aquele j am ais teria passado por sua cabeça. O fato de que agora estava preparado para pagar para dois definitivam ente não lhe era com um . E ainda assim , ele não parecia nem um pouco preocupado. Para falar a verdade, estava até ansioso. Sentia-se feliz por ter convidado Rose-Marie para um bom j antar, assim poderia olhar para o rosto dela do outro lado da m esa, à luz de velas, enquanto pratos deliciosos eram colocados à sua frente.

Mellberg sacudiu a cabeça espantado, e o ninho que era seu cabelo escorregou por cim a de um a das orelhas. Não sabia m esm o o que estava acontecendo com ele. Estaria doente? Penteou o cabelo de volta ao topo da cabeça e sentiu a tem peratura na testa, m as não, estava fresca e não dem onstrava nenhum sinal de febre. Mas algo estava acontecendo, ele tinha um a sensação estranha. Talvez um docinho aj udasse.

Sua m ão j á estava quase alcançando um a das balas de coco na últim a gaveta da escrivaninha quando ouviu um a batida na porta.

– Sim – gritou, irritado.

Patrik entrou em seu escritório.

– Com licença, estou interrom pendo algo?

– De m aneira nenhum a – disse Mellberg com um suspiro, dando um a últim a olhada para a gaveta da escrivaninha. – Entre.

Ele esperou enquanto Patrik se sentava. Com o sem pre, Mellberg tinha sentim entos conflituosos por esse detetive, que era j ovem dem ais na sua opinião. Decidiu ignorar que Patrik estava quase chegando aos quarenta. Por um lado, Patrik sem pre fora m uito eficiente nas investigações de hom icídios que haviam aparecido nos últim os anos. Seu desem penho espetacular em serviço dava a Mellberg um a m aravilhosa publicidade nos j ornais. Mas por outro, ele sem pre tinha a sensação de que Patrik se considerava superior a ele. Não era nada específico, j á que Patrik sem pre se com portara com o respeito exigido de um subordinado; era m ais um a sensação. Bem , ele ia deixar para lá, enquanto Hedström fizesse seu trabalho e ele aparecesse na m ídia com o o excelente chefe de polícia que era. Mas iria ficar de olho no detetive.

– Recebem os o relatório do acidente de segunda-feira.

– Sim ? – Mellberg disse, soando entediado. Acidentes de trânsito faziam parte da rotina.

– Bem , parece que há coisas que precisam ser esclarecidas.

– Esclarecidas? – agora o interesse de Mellberg havia sido estim ulado.

– Sim – disse Patrik, olhando novam ente para os papéis que segurava. – A vítim a tinha ferim entos que não têm ligação com o acidente em si. Além disso, Marit na verdade estava m orta antes do choque. Intoxicação por álcool. Ela apresentava um nível de 0,61 no sangue.

– Ponto m eia um ? Está brincando?

– Não, tem o que não.

– E os ferim entos? De que tipo são? – disse Mellberg, inclinando-se para a frente.

Patrik fez um a pausa.

– Há sinais de traum a dentro e em torno de sua boca.

– Em torno da boca? – Mellberg disse, incrédulo.

– Sim – Patrik disse, na defensiva. – Sei que não é m uita coisa, m as j untando isso ao fato de que todos disseram que ela j am ais bebeu álcool e que ela tinha um nível absurdam ente alto de álcool no sangue, isso tudo m e parece m eio suspeito.

– “Meio suspeito”? Está m e pedindo para iniciar um a investigação porque acha que algo parece “m eio suspeito”? – Mellberg ergueu um a sobrancelha e encarou Patrik. Ele não gostava nada disso; parecia vago dem ais. Por outro lado, a intuição de Patrik j á havia funcionado antes, então talvez ele devesse prestar atenção. Pensou em tudo aquilo durante um m inuto inteiro, enquanto Patrik o encarava, tenso.– Está bem – ele disse, afinal. – Dedique algum as horas a isso. Se vocês dois, im agino que vá levar Molin com você, encontrarem algo que indique que as coisas não são com o deveriam ser, então podem seguir em frente. Mas se não encontrarem nada de errado, aí não quero vocês desperdiçando m ais tem po nisso. Entendido?

– Sim , senhor – disse Patrik, obviam ente aliviado.

– Ótim o, ao trabalho – Mellberg disse com um aceno com a m ão direita. A esquerda j á estava a cam inho da últim a gaveta da escrivaninha.

Sofie entrou com cuidado.

– Olá? Kerstin, está em casa?

O apartam ento estava vazio. Ela j á havia verificado, e Kerstin não estava em seu trabalho, na Extra Film . Ela telefonara avisando que estava doente. Sem surpresa nenhum a, deram a Sofie uns dias de folga da escola em vista das circunstâncias. Mas onde estaria Kerstin? Sofie foi andando pelo apartam ento. De repente foi dom inada pelas lágrim as. Soltou sua m ochila no chão e sentou-se bem no m eio do tapete da sala. Fechou os olhos para aguçar todas as im pressões sensoriais que a invadiam . Por todos os lados havia coisas que lem bravam Marit. As cortinas que ela costurou, a tinta que com praram quando Marit se m udou para o apartam ento, as alm ofadas que Sofie nunca afofava depois de ter se deitado nelas, algo de que Marit sem pre reclam ava. Todas as coisas triviais, cotidianas e tristes que agora ecoavam no vazio. Sofie sem pre ficava tão irritada e gritava, porque sua m ãe fazia exigências e ditava regras. Mas ela secretam ente ficava satisfeita. Todas as brigas e bate-bocas em casa haviam feito Sofie ansiar por estabilidade e regras claras. E apesar de sua rebeldia adolescente, ela sem pre se sentia segura por saber que sua m ãe estava ali se precisasse dela. Mam ãe. Marit. Agora só restava o papai.

Um a m ão em seu om bro fez Sofie se sobressaltar. Virou a cabeça e olhou para cim a.

– Kerstin. Você estava em casa?

– Sim , estava tirando um cochilo – Kerstin disse, agachando-se ao lado de Sofie. – Com o você está?

– Oh, Kerstin... – foi tudo o que Sofie conseguiu dizer, enterrando o rosto em seu om bro. Kerstin a abraçou desaj eitadam ente. Elas não estavam acostum adas a ter m uito contato físico. Sofie j á havia passado da fase de gostar de abraços na época em que Marit foi m orar com Kerstin. Mas dessa vez o em baraço desapareceu rapidam ente. Sofie inalou com avidez o perfum e do suéter de Kerstin, que era um dos preferidos de sua m ãe. A fragrância de seu perfum e ainda estava im pregnada na lã. O odor fam iliar a fez soluçar m ais profundam ente e ela sentiu seu nariz escorrer no om bro de Kerstin. Afastou-se.

– Desculpe, estou te cobrindo de ranho.

– Não tem problem a – disse Kerstin, lim pando as lágrim as de Sofie com os polegares. – Pode chorar quanto quiser... a blusa é da sua m ãe.

– Eu sei – disse Sofie, rindo. – E ela m e m ataria se visse que eu a suj ei de rím el.

– Lã de carneiro não pode ser lavada em água acim a de trinta graus centígrados – as duas falaram ao m esm o tem po, o que as fez rir.

– Venha, vam os nos sentar na m esa da cozinha – disse Kerstin, aj udando Sofie a se levantar. Só agora Sofie reparava que o rosto de Kerstin estava encovado e vários tons m ais pálido que o norm al.

– E você, com o está? – Sofie perguntou, preocupada. Kerstin sem pre fora tão... segura. Dava m edo ver suas m ãos trem endo enquanto ela enchia a chaleira e a colocava sobre o fogão.

– Bem , eu acho – disse Kerstin, incapaz de im pedir que as lágrim as brotassem de seus olhos. Havia chorado tanto nos últim os dias que ficava adm irada por ainda ter lágrim as. Então tom ou um a decisão.– Sabe, Sofie, sua m ãe e eu... Há algo que... – ela parou, sem saber com o continuar. Sem saber sequer se deveria continuar. Mas, para seu espanto, viu Sofie com eçar a rir.

– Qual é, Kerstin, espero que não vá m e contar sobre seu relacionam ento com m am ãe com o se fosse algum a novidade.

– Com o assim , nosso relacionam ento? – disse Kerstin ansiosa.

– Que vocês eram um casal e tal. A quem acham que enganavam ? – ela riu de novo. – Que teatrinho vocês faziam . Mam ãe ficava levando as coisas dela de lá pra cá dependendo de eu estar aqui ou não, e vocês ficavam de m ãos dadas escondido quando achavam que eu não estava olhando. Meu Deus, que ridículo. Quero dizer, todo m undo é hom o ou bi hoj e em dia. Está tão na m oda.

Kerstin olhou para ela com total perplexidade.

– Mas por que não disse nada? Já que sabia de tudo?

– Porque era tão legal. Só de olhar vocês duas interpretando seus papéis. Entretenim ento fantástico!

– Maldita criança – disse Kerstin, com um a risada gostosa. Depois dos últim os dias de dor e lágrim as, era um alívio rir tão alto a ponto de ecoar pela cozinha. – Marit teria torcido seu pescoço se descobrisse que você sabia esse tem po todo e nunca contou.

– É, provavelm ente – disse Sofie, rindo com ela. – Vocês precisavam se ver. Se escondendo na cozinha pra se beij ar, devolvendo as coisas ao lugar assim que eu ia pra casa do papai. Não percebiam a farsa que era?

– Sim , entendi, eu sei o que quer dizer. Mas era com o Marit queria – Kerstin ficou séria. A chaleira apitou e ela agradeceu por poder usar isso com o desculpa para se levantar e virar as costas para Sofie. Pegou duas xícaras, colocou folhas de chá em dois coadores e despej ou a água quente.

– A água precisa esfriar um pouco prim eiro – disse Sofie, e Kerstin precisou rir outra vez.

– Eu estava pensando a m esm a coisa. Ela nos adestrou bem , sua m ãe.

Sofie sorriu.

– É, adestrou m esm o. Se bem que ela provavelm ente gostaria de ter m e adestrado m elhor. – Seu sorriso era triste, testem unhava todas as prom essas que ela agora j am ais poderia cum prir, todas as expectativas que ela j am ais teria chance de fazer j us.

– Sabe, Marit tinha m uito orgulho de você – Kerstin sentou-se novam ente e ofereceu um a das xícaras a Sofie. – Devia ter ouvido com o ela se gabava de você. Mesm o quando vocês brigavam pra valer, ela dizia: “Coraj osa, essa m enina”.

– Ela dizia isso? Está brincando? Ela tinha m esm o orgulho de m im ? Mas eu sem pre fui tão teim osa.

– Ah, Marit sem pre dizia que você só estava fazendo seu trabalho. Era seu trabalho rom per com ela. E... – ela fez um a pausa – considerando tudo o que aconteceu entre sua m ãe e Ola, ela achava que era ainda m ais im portante que você fosse independente. Kerstin tom ou um gole de chá, m as queim ou a língua. Tinha que esperar esfriar um pouco prim eiro. – Ela estava m uito preocupada com isso, sabe? Ela achava que o divórcio e toda a porcaria que veio depois poderia... te ferir de algum a form a. Acim a de tudo, ela estava preocupada que você não entendesse por que ela foi forçada a term inar o casam ento. Foi tanto para o seu bem quanto para o dela.

– É, eu não entendia isso antes, m as, agora que estou m ais velha, eu entendo.

– Desde que fez quinze anos, você quer dizer – Kerstin provocou. – Aos quinze, você recebe o m anual com todas as respostas, tudo sobre a vida, a m orte e a eternidade, certo? Posso pegar em prestado, um a hora dessas?

– Qual é! – Sofie riu. – Não foi isso que eu quis dizer. É só que talvez eu tenha com eçado a ver m am ãe e papai m ais com o pessoas e m enos com o apenas pais. E provavelm ente não sou m ais a garotinha do papai, tam bém – acrescentou, triste.

Por um m om ento, Kerstin considerou se contava a Sofie sobre todo o resto, todas as coisas das quais tentaram poupá-la. Mas o m om ento se foi e ela deixou que passasse.

Em vez disso, elas beberam seu chá e falaram sobre Marit. Riram e choraram . Mas acim a de tudo, conversaram sobre a m ulher que am bas am aram , cada um a a seu m odo.

– Olá, garotas! O que vai ser hoj e? Um a baguete de Uffe, talvez? Risinhos encantados das garotas que form avam um grupo grande dentro da padaria revelaram que o com entário havia surtido o efeito desej ado. Isso incentivou Uffe a ir com tudo e pegar um a das baguetes da padaria e tentar m ostrar o que tinha a oferecer, balançando-a à sua frente, na altura dos quadris. Os risinhos se transform aram em gritinhos de alegria disfarçados de escândalo, que fizeram Uffe com eçar a estocar os quadris na direção das garotas.

Mehm et suspirou. Uffe era tão m açante. Mehm et se deu m al quando o colocaram para trabalhar com Uffe na padaria. Fora isso, não havia nada de errado com o trabalho. Ele adorava cozinhar e estava ansioso para aprender m ais sobre panificação, m as não conseguia sequer im aginar com o conseguiria suportar cinco sem anas com aquele idiota do Uffe.

– Ei, Mehm et, por que não m ostra a sua baguete pra elas? Acho que as garotas vão gostar de ver a baguete ensebada de verdade.

– Ah, cai fora! – disse Mehm et, e continuou colocando bolos battenberg próxim os à bandej a de m acarons.

– Achei que você gostasse de m ulher. E tenho certeza de que elas nunca viram um ensebado aqui. Já viram , m eninas? Já viram um ensebado antes? Uffe levantou os braços dram aticam ente em direção a Mehm et, com o se o apresentasse num palco. Mehm et estava com eçando a se zangar. Pôde m ais sentir do que ver as câm eras penduradas no teto dando um zoom nele. Estavam esperando um a reação sua, ansiando por sua resposta. Cada nuance seria captada pelo cabo e iria direto para a sala das pessoas. A falta de reações e em oções significava baixa audiência. Ele sabia disso, sabia com o se j ogava o j ogo depois de chegar à final no The Farm. Mas de algum a form a ele deixou pra lá, reprim iu. Senão, por que ele concordaria em participar desse program a? Por cinco sem anas lhe seria perm itido viver em um am biente protegido. Um a bolha no tem po. Nenhum a responsabilidade, sem exigências para fazer m ais que ser ele m esm o e reagir. Nada de ser escravizado em um trabalhinho de m erda, entediado até a m orte, só para conseguir pagar o aluguel em um apartam ento escuro. Nenhum a obrigação diária para roubar sua vida dia após dia, sem nada acontecer de verdade. Sem decepções porque não estava fazendo o que era esperado dele. Isso era o principal m otivo para estar fugindo. A decepção que via constantem ente nos olhos dos pais. Eles haviam depositado tantas de suas esperanças nele. Educação, educação, educação. Foi o m antra que escutou durante toda a sua infância. “Mehm et, você precisa estudar. Precisa aproveitar as oportunidades neste país excelente. Na Suécia, qualquer um pode ir para a universidade. Você precisa estudar.” Seu pai ficava repetindo a m esm a coisa desde que ele era pequeno. E Mehm et tentou, só Deus sabe com o tentou. Mas ele não era do tipo que gosta de estudar. As letras e os núm eros não entravam em sua cabeça. Ele deveria se tornar professor. Ou engenheiro. Ou, em últim o caso, conseguir se graduar em adm inistração. Seus pais estavam irredutíveis. Suas quatro irm ãs m ais velhas exerciam essas três profissões. Duas delas eram m édicas, um a engenheira e outra era adm inistradora. Mas ele era o filho m ais novo e, de algum a form a, acabou se tornando a ovelha negra da fam ília. E nem The Farm nem Sodding Tanum haviam m elhorado sua im agem diante da fam ília. Não que ele pensasse que isso fosse acontecer. Ele j am ais considerou ficar bêbado na TV um a alternativa a ser m édico.

– Mostra sua baguete ensebada pra gente, m ostra sua baguete ensebada pra gente! – Uffe continuava zom bando, tentando fazer seu risonho público j uvenil j untar-se a ele. Mehm et sentiu a raiva prestes a transbordar. Parou o que estava fazendo e cam inhou até Uffe.

– Eu disse pra parar, Uffe.

Sim on apareceu do interior da padaria, carregando um a enorm e bandej a com pãezinhos saídos do forno. Uffe lançou a ele um olhar obstinado e considerou obedecer ou não. Sim on estendeu a bandej a para ele.

– Aqui, dê às garotas uns pãezinhos saídos do forno em vez disso.

Uffe hesitou, m as finalm ente pegou a bandej a. A form a com o franziu o canto da boca denunciou que suas m ãos não estavam acostum adas com o as de Sim on a segurar bandej as quentes, m as não tinha outra opção a não ser ranger os dentes e oferecer a bandej a às m eninas.

– Bem , vocês ouviram o cara. Uffe está oferecendo pães grátis. Será que vocês não podem agradecê-lo com um beij inho?

Sim on revirou os olhos para Mehm et, que sorriu de volta, grato. Ele gostava de Sim on. Era o proprietário da padaria, e os dois se deram bem na hora, desde o prim eiro dia de trabalho. Havia algo especial em Sim on. Um a conexão que tornava possível aos dois entender apenas com um olhar o que o outro queria dizer. Era incrível, na verdade.

Mehm et observou Sim on enquanto ele voltava às m assas e a assar bolos.

* * *

O verde em ergindo do galho do lado de fora da j anela despertava um a saudade dolorosa em Gösta. Cada botão trazia consigo a prom essa de dezoito buracos e Big Bertha. Logo logo, nada ficaria entre um hom em e seus tacos de golfe.

– Já conseguiu passar do quinto buraco? – um a voz fem inina veio da porta e Gösta rápida e culposam ente fechou o j ogo de com putador. Droga, norm alm ente ele conseguia ouvir quando alguém se aproxim ava. Sem pre ficava de ouvidos atentos enquanto j ogava, infelizm ente às vezes em detrim ento de sua concentração.

– Eu... eu só estava fazendo um a pausa – Gösta gaguej ou, constrangido. Sabia que seus colegas não punham m ais m uita fé na sua capacidade de trabalhar, m as gostava de Hanna e esperava gozar de sua confiança pelo m enos por m ais um tem pinho.

– Ei, não se preocupe – Hanna riu, sentando-se a seu lado. – Eu adoro esse j ogo de golfe. Meu m arido, Lars, tam bém adora e às vezes nós tem os que brigar pelo com putador. Mas esse quinto buraco é um terror. Já conseguiu passar por ele? Se não, eu posso te m ostrar o truque. Levei horas para descobrir – sem esperar por um a resposta, ela m oveu a cadeira para m ais perto da dele.

Gösta m al acreditou no que ouvia, m as clicou para abrir o j ogo de novo e disse, atento:

– Estou penando com o quinto buraco desde sem ana passada. Não im porta o que eu tente, ou faço um hook ou um slice. Não consigo descobrir o que estou fazendo de errado.

– Aqui, deixe-m e m ostrar – disse Hanna, pegando o m ouse dele. Ela clicou para a frente, com destreza, no lugar certo, fez algum as m anobras no com putador e a bola se m oveu adiante e aterrissou no green, em posição perfeita para ele enterrar a bola em sua próxim a tacada.

– Uau, então é assim que se faz! Obrigado! – Gösta estava profundam ente im pressionado. Seus olhos brilharam com o havia m uitos anos não acontecia.

– É, esse j ogo não é para crianças – Hanna riu, em purrando a cadeira de volta para afastar-se um pouco dele.

– Você e seu m arido j ogam golfe de verdade tam bém ? – Gösta perguntou com entusiasm o renovado. – Talvez possam os j ogar um a rodada j untos.

– Não, sinto m uito – disse Hanna com um a expressão pesarosa que Gösta considerou sim pática. Pessoalm ente, considerava um dos grandes m istérios da vida que todas as pessoas não am assem o golfe com tanta intensidade quanto ele.

– Mas j á pensam os em com eçar. Só nunca encontram os tem po – ela disse, encolhendo os om bros. Gösta adorava m ais ela a cada m inuto que se passava. Tinha que adm itir que, com o Mellberg, estava um pouco cético quando ouviu que sua nova colega seria do sexo oposto. Devia ser algo na com binação entre seios e farda de policial que parecia, bem , um tanto bizarra, para dizer o m ínim o. Mas Hanna Kruse apagara todos os seus preconceitos. Ela parecia ser um a m ulher m uito prática, e ele esperava que Mellberg se desse conta disso e não tornasse a vida dela ali tão difícil.

– O que seu m arido faz? – perguntou Gösta. – Ele conseguiu encontrar um em prego aqui?

– Sim e não – disse Hanna, tirando fiapos invisíveis da cam isa de seu uniform e. – Ele deu sorte de conseguir pelo m enos um trabalho tem porário, então vam os ter que ver com o as coisas ficam .

Gösta ergueu as sobrancelhas, intrigado. Hanna riu.

– Ele é psicólogo. E sim , você adivinhou. Ele vai trabalhar com os participantes enquanto durarem as gravações. De Sodding Tanum, digo.

Gösta sacudiu a cabeça.

– Bem , alguns devem estar m uito velhos para entender por que aquele espetáculo é considerado engraçado. Rebolar debaixo das cobertas e cam balear de tanto beber e fazer chacota de si m esm os diante de toda a Suécia. E por vontade própria. Não, eu não entendo a razão desse tipo de coisa. Na m inha época, a gente assistia a program as com o Hyland’s Corner e as produções de teatro de Nils Poppe. Um pouco m ais apropriados, se m e perm ite.

– Nils quem ? – disse Hanna, o que fez Gösta parecer triste.

– Nils Poppe – ele disse. – Ele apresentava no verão um repertório de peças de teatro que... – ele parou quando viu que Hanna ria.

– Gösta, eu sei quem é Nils Poppe. E Lennart Hy land tam bém . Não precisa ficar tão aflito.

– Obrigado por essa – disse Gösta. – De repente m e senti com cem anos de idade. Um a verdadeira relíquia.

– Gösta, ninguém poderia estar m ais longe de ser um a relíquia que você –

Hanna riu, levantando-se. – Continue j ogando, agora que eu te m ostrei com o passar pelo quinto buraco. Você m erece descansar um pouco.

Ele deu-lhe um sorriso caloroso e agradecido. Que m ulher!

E então voltou a tentar dom inar o sexto buraco. Um par três. Fácil.

* * *

– Erica, falou com o hotel sobre o cardápio? Quando vam os fazer a degustação? – Anna segurava Maj a no colo, fazendo-a galopar. Olhou com urgência para Erica.

– Merda, eu esqueci – Erica deu um tapa na própria testa.

– E quanto ao vestido? Está planej ando se casar usando suas roupas de ginástica ou o quê? E talvez Patrik possa usar o terno da form atura para o casam ento. Se for o caso, ele provavelm ente vai precisar costurar m ais tecido dos lados e colocar elástico entre os botões do paletó – Anna riu com vontade.

– Ha ha, m uito engraçado – disse Erica, que não conseguia, porém , deixar de se sentir satisfeita quando olhava para a irm ã. Anna era um a nova m ulher. Conversava, ria, tinha apetite e, sim , até tirava sarro de sua irm ã m ais velha. – Quando é que vou encontrar tem po para fazer tudo?

– Olá, você está olhando nesse m om ento para a babá núm ero um dessa cidade! Quero dizer, Em m a e Adrian estão na creche o dia todo, então não é problem a para m im cuidar dessa senhorita.

– Hum m , você tem razão – disse Erica, sentindo-se um pouco tola. – Eu só não achei que... – calou-se.

– Não se preocupe. Eu entendo. Você não pôde contar com igo por algum tem po, m as agora eu estou de volta. O puck está em j ogo. Eu acabo de sair do banco de reservas.

– Dá pra perceber que alguém tem passado tem po dem ais com o Dan – Erica riu com gosto e percebeu que era exatam ente o que Anna queria. Sem dúvida que os eventos dos últim os m eses tam bém haviam afetado Erica. O estresse a havia feito viver de om bros tensos e só agora ela sentia que podia com eçar a relaxar. O único problem a é que no m om ento sentia um pavor crescente, porque o casam ento seria em m enos de seis sem anas. E ela e Patrik estavam irrem ediavelm ente atrasados no planej am ento.

– Está bem , vam os fazer o seguinte – Anna disse com firm eza, pondo Maj a no chão. – Um a lista do que ainda falta. E então dividirem os as tarefas entre você, Patrik e m im . Talvez Kristina pudesse aj udar com algum a coisa tam bém – Anna lançou um olhar de dúvida para Erica, m as quando viu sua expressão estarrecida, com pletou. – Ou talvez não.

– Não, pelo am or de Deus, m antenha a sogra o m ais longe possível. Se eu deixasse por sua conta, ela trataria esse casam ento com o se fosse sua festa particular. Se eu te contasse todas as ideias que ela j á deu, “com a m elhor das intenções”, com o ela insiste em lem brar todas as vezes. Sabe o que ela disse quando contam os a ela sobre o casam ento?

– Não. O quê? – perguntou Anna.

– Ela nem com eçou dizendo “que lindo, parabéns” ou algo assim . Ela enum erou cinco coisas que ela j á considerava erradas nesse casam ento.

– Incrível – Anna riu. – Isso é a cara da Kristina. E quais eram suas reclam ações?

Erica foi pegar Maj a, que j á tinha com eçado a subir as escadas, resoluta. Eles ainda não haviam conseguido com prar um portão.

– Bem – disse Erica –, em prim eiro lugar, que era cedo dem ais fazer um a cerim ônia no Pentecostes, nós precisaríam os de pelo m enos um ano para planej ar tudo. Daí ela não gostou de quererm os um casam ento bem íntim o, talvez para não m ais que sessenta convidados, porque assim a tia Agda e a tia Berta e a tia Ruth, ou sei lá quais são os nom es, não poderiam ir. E tenha em m ente que essas não são tias do Patrik, m as de Kristina! Patrik provavelm ente só as viu um a vez na vida e isso quando ele tinha uns cinco anos.

Agora Anna ria tanto que tinha que segurar o estôm ago. Maj a olhava de um a para a outra, com o se perguntando o que era tão engraçado. Mas decidiu que não im portava do que estavam rindo, então soltou um a risada alta e gostosa.

– Ok, são duas coisas. O que m ais? – Anna arfava, entre ataques de riso.

– E então ela com eçou a falar da disposição dos convidados nas m esas e a se preocupar se Bittan ia se sentar m uito perto de nós. Em circunstância nenhum a, seria perm itido a ela sentar-se com os convidados de honra, porque Kristina e Lars são os pais de Patrik, afinal de contas. Meros conhecidos não poderiam ter prioridade se tivéssem os um a lista de convidados reduzida.

Nessa hora Anna teve que se sentar no chão de tanto rir. Estava praticam ente sem ar quando disse:

– E a “m era conhecida” é a m ulher com quem Lars vive há m ais de vinte anos.

– Exato. E reclam ação núm ero quatro é que eu não queria usar o vestido de noiva dela.

– Mas você j á falou sobre o vestido de noiva dela antes? – Anna encarava Erica com os olhos arregalados.

– Nós nunca nem chegam os perto de m encionar o vestido dela. Mas eu cheguei a vê-lo em um a foto do casam ento de Lars e Kristina e achei que era um daqueles vestidos bem anos sessenta de algum tipo de m alha que vai até logo abaixo do traseiro. Tenho razões suficientes para não estar nem um pouco interessada em usá-lo. Assim com o Patrik não estaria interessado em ter as fartas costeletas e o bigode do pai, naquela m esm a foto.

– Ela é totalm ente m aluca – disse Anna, que j á havia ultrapassado a fase do riso para o total assom bro.

– E o núm ero cinco, tchan-nan! – disse Erica, im itando um a fanfarra de trom bones. – A razão núm ero cinco é que ela exigiu que o sobrinho dela cuidasse do entretenim ento. É o prim o de Patrik.

– E? O que há de errado nisso?

Erica fez um a pausa de efeito.

– Ele toca viola de roda.

– Nãããão, você só pode estar brincando – agora Anna parecia estar ficando realm ente preocupada. – Está falando sério? – e os risos voltaram . – Ah, eu posso até ver. Um casam ento gigante, com todas as tias de Kristina em seus andadores, você num a m inissaia de m alha, Patrik em seu traj e de form atura com costeletas e por últim o, m as não m enos im portante, aquele instrum ento tão festivo, a viola de roda. Meu Deus, que fantástico. Eu pagaria qualquer preço para ver isso.

– Pode rir – disse Erica –, m as do j eito que as coisas estão agora, não vai haver casam ento algum , j á que estam os tão atrasados com o planej am ento.

– Está certo, então – Anna disse resoluta, sentando-se à m esa da cozinha com papel e caneta a postos. – Vam os fazer um a lista e partirem os daí. E não deixe Patrik sequer pensar em escapar de fazer sua parte. Você é a única a se casar ou são vocês dois?

– É, bem , provavelm ente a segunda opção – disse Erica, cética em libertar Patrik da ilusão de que ela era tanto a líder do proj eto quanto o soldado raso quando a questão era fazer esse casam ento acontecer. Ele parecia achar que, depois de pedir sua m ão, todas as obrigações práticas tinham acabado; tudo que ele precisaria fazer seria aparecer na igrej a no horário m arcado.

– Contratar um a banda para a recepção, hum m ... vam os ver... Patrik – Anna decidiu, alegre. Escreveu o nom e dele com determ inação, e Erica estava gostando de não estar na direção um a vez na vida.

– Agendar horário para a degustação do cardápio da cerim ônia... Patrik.

– Olhe, isso está indo... – Erica com eçou a dizer, m as Anna fingiu não ouvir.

– Vestido de noiva. Bem , esse provavelm ente vai ser você, Erica. Você precisa com eçar a fazer um esforço. O que diz de nós três irm os procurar um m odelo am anhã?

– Bem ... – Erica disse, hesitante. Experim entar roupas era a últim a coisa que queria fazer nesse m om ento. O peso que ganhou durante a gravidez de Maj a sim plesm ente não desaparecia, e ela até j á havia ganhado m ais um tanto desde então. O estresse nos últim os m eses tornara im possível para ela pensar no que estava enfiando na boca. Interrom peu o gesto de sua m ão quando estava a ponto de devorar um pão e colocou-o de volta na bandej a. Anna tirou os olhos da lista e olhou para ela.

– Sabe, se você parar de com er carboidratos até o casam ento, todo esse peso vai desaparecer.

– Anna, os quilos nunca sum iram de m im em grande velocidade – Erica disse, m elancólica. Um a coisa era ela pensar nisso consigo m esm a, m as outra com plem ente diferente era outra pessoa apontar que ela precisava perder peso. Mas Anna estava certa. Ela tinha que fazer algum a coisa se quisesse se sentir bonita no dia de seu casam ento.

– Está bem , eu vou tentar. Nada de roscas e bolos, nada de doces, de pão, nem de m acarrão feito de farinha branca, nada disso.

– Mas ainda assim você tem que com eçar a procurar um vestido agora. Se necessário, ele pode ser aj ustado logo antes da cerim ônia.

– Só vou acreditar quando ver – Erica disse, aborrecida. – Mas você está certa, então am anhã podem os ir pela m anhã, assim que deixarm os Em m a e Adrian. E aí verem os. Do contrário, eu realm ente vou ter que m e casar nas m inhas roupas de ginástica – ela disse, im aginando-se com um expressão triste.

– Mais algum a coisa? – ela apontou para a lista de Anna. Sua irm ã prosseguia escrevendo tarefas e as dividindo em duas colunas. Erica de repente se sentiu m uito, m uito cansada. Isso nunca ia funcionar.

* * *

Eles não tinham pressa ao atravessar a rua. Apenas quatro dias antes, Patrik e Martin haviam feito o m esm o cam inho e estavam inseguros sobre o que iriam encontrar. Quatro dias atrás, Kerstin soubera da notícia de que sua com panheira havia m orrido. Quatro dias que certam ente devem ter parecido um a eternidade. Patrik olhou para Martin e tocou a cam painha. Com o se tivessem ensaiado, am bos respiraram profundam ente e expiraram um pouco da tensão que se form ava dentro deles. De certa form a, parecia egoísm o estarem tão angustiados por ver pessoas nas profundezas do luto. Egoísm o por sentir o m enor desconforto, quando as coisas eram im ensuravelm ente m ais fáceis para eles que para a pessoa que estava lam entando a m orte de um ente querido. Mas o desconforto baseava-se no m edo de dizer algo errado, dar um passo em falso e possivelm ente piorar as coisas. Mas o bom -senso lhes dizia que nada do que pudessem dizer ou fazer tornaria pior a dor que j á era quase insuportável.

Ouviram passos se aproxim ando e a porta se abriu. Encontraram não Kerstin, com o esperavam , m as Sofie.

– Olá – ela disse em tom suave e eles podiam ver traços inequívocos de vários dias de choro. Ela não se m oveu e Patrik pigarreou.

– Olá, Sofie. Você se lem bra de nós, não? Patrik Hedström e Martin Molin – ele olhou para Martin, m as logo voltou-se para Sofie. – Kerstin está em casa? Nós gostaríam os de falar um pouco com ela.

Sofie deu um passo para o lado. Entrou no apartam ento para cham ar Kerstin, enquanto Patrik e Martin esperavam na entrada.

– Kerstin, a polícia está aqui. Querem falar com você.

Kerstin apareceu com seu rosto verm elho de tanto chorar tam bém . Ela parou a um a pequena distância deles sem dizer um a palavra e nem Patrik nem Martin sabiam com o abordar o assunto que vinham tratar com ela. Finalm ente, Kerstin disse:

– Não querem entrar?

Eles concordaram , tiraram os sapatos e seguiram -na até a cozinha. Sofie pareceu querer segui-los, m as Kerstin sentiu instintivam ente que o que eles tinham para dizer não era para os ouvidos da m enina, porque ela negou com a cabeça quase im perceptivelm ente. Por um segundo, Sofie deu a im pressão de que iria ignorar a rej eição, m as então deu de om bros, foi para seu quarto e fechou a porta. No m om ento certo ela saberia de tudo, m as agora Patrik e Martin queriam conversar com Kerstin em particular.

Patrik foi direto ao assunto assim que todos se sentaram .

– Nós encontram os algum as... irregularidades em relação ao acidente de Marit.

– Irregularidades? – disse Kerstin, olhando de um para o outro.

– Sim – disse Martin. – Há certos... ferim entos que talvez não possam ser atribuídos ao acidente.

– Podem não ser? – Kerstin disse. – Vocês não sabem ?

– Não, não tem os certeza ainda – Patrik adm itiu. – Saberem os m ais detalhes quando o relatório final do m édico legista sair. Mas j á há perguntas o bastante para nos fazer querer ter outra conversa com você. Descobrir se há algum a razão para acreditar que alguém quisesse fazer m al a Marit.

Patrik viu Kerstin se encolher. Sentiu um pensam ento passar por sua m ente, o qual ele rej eitou na hora. Mas ele tinha que descobrir o que era, não podia ignorar.

– Se sabe de alguém que pudesse querer ferir Marit, você precisa nos dizer. Pelo m enos para excluir essa pessoa dos suspeitos – Patrik e Martin a observavam , tensos. Ela parecia lutar contra algo, então eles perm aneceram quietos, dando tem po a ela para form ular o que queria dizer.

– Nós recebem os algum as cartas – as palavras vinham devagar e relutantem ente.

– Cartas? – disse Martin, querendo saber m ais.

– Sim – Kerstin não parava de m exer no anel de ouro que usava no dedo anelar da m ão esquerda. – Recebem os cartas por quatro anos.

– Sobre o que eram as cartas?

– Am eaças, obscenidades, coisas a respeito de m eu relacionam ento com Marit.

– Alguém que escrevia por causa da... – Patrik fez um a pausa, sem saber com o form ar a frase – por causa da natureza do relacionam ento?

– Sim – Kerstin adm itiu. – Alguém que percebeu ou suspeitou que éram os m ais que am igas e que estava... – agora era sua vez de procurar palavras. Decidiu-se por “ofendido”.

– Que tipo de am eaças eram ? Quão ofensivas? – Martin agora anotava tudo. Isso não contradizia em nada os indícios que apontavam para a m orte de Marit com o algo m ais que um acidente.

– Bastante ofensivas. Diziam que pessoas com o nós éram os noj entas, que íam os contra a natureza. Que pessoas com o nós tinham que m orrer.

– Com que frequência recebiam essas cartas?

Kerstin pensou. Continuava m exer no anel nervosam ente.

– Recebem os um as três ou quatro por ano. Às vezes m ais, às vezes m enos. Não havia um padrão definido. Era m ais com o se a pessoa m andasse um a quando tinha vontade, se entende o que eu quero dizer.

– Por que não fez um a denúncia? – Martin desviou o olhar de seu bloco de notas e olhou para ela.

Kerstin deu-lhe um sorriso torto.

– Marit não quis. Tinha m edo que isso piorasse as coisas. Que isso tom asse um a proporção m aior e nosso… relacionam ento viesse a público.

– E ela não queria que isso acontecesse? – perguntou Patrik, lem brando-se em seguida de que foi j ustam ente por esse m otivo que Kerstin e Marit haviam discutido antes de Marit pegar o carro e sair naquela noite. Na noite em que ela não voltou para casa.

– Não, ela não queria – Kerstin disse, apática. – Mas nós guardam os as cartas. Para algum a eventualidade. – Ela levantou-se..

Patrik e Martin se entreolharam , atônitos. Nem haviam pensado em perguntar por algo nesse sentido. Era m ais do que ousavam esperar. Agora talvez encontrassem algum a evidência física que os pudesse levar à pessoa que escreveu as cartas.

Kerstin voltou com um a grossa pilha de cartas em um saco plástico. Despej ou-as sobre a m esa. Patrik tinha m edo de danificar qualquer prova m ais do que j á havia sido feito com o m anuseio na postagem e por Kerstin e Marit. Então ele cutucou cautelosam ente as cartas com sua caneta. Estavam em seus envelopes e ele sentiu o coração acelerar ao pensar que ainda poderia haver resíduos de DNA nos selos lam bidos.

– Podem os levar conosco? – Martin perguntou, tam bém observando com ansiedade a pilha de cartas.

– Sim , levem -nas – Kerstin disse, exausta. – Levem e queim em essa m erda toda.

– Mas vocês nunca receberam outras am eaças, fora as cartas?

Kerstin sentou-se e pensou por um instante.

– Eu não tenho m uita certeza – disse. – Às vezes o telefone tocava, m as quando atendíam os a pessoa não dizia nada, só ficava lá, em silêncio, até a gente desligar. Na verdade, nós tentam os rastrear a ligação um a vez, m as aparentem ente era de um celular pré-pago. Então foi im possível descobrir quem era.

– Quando foi a últim a vez que receberam um a cham ada assim ? – Martin aguardou, tenso, com a caneta a postos sobre o bloco de notas.

– Bem , deixe-m e ver – disse Kerstin. – Há duas sem anas, talvez? – m exeu nervosam ente no anel outra vez.

– Mas não houve nada além disso? Ninguém que quisesse fazer m al a Marit? Com o era seu relacionam ento com o ex-m arido, por exem plo?

Kerstin não teve pressa para responder. Após dar um a olhada na direção do corredor para ver se a porta de Sofie continuava fechada, disse finalm ente:

– Ele nos im portunou no início, por um bom tem po, na verdade. Mas no últim o ano as coisas se acalm aram .

– O que exatam ente quer dizer por im portunar? – perguntou Patrik, enquanto Martin tom ava nota.

– Ele não conseguia aceitar que Marit o deixara. Estavam j untos desde que eram m uito j ovens. Mas, de acordo com Marit, não vinha sendo um bom relacionam ento havia anos, se é que um dia o fora. Para dizer a verdade, ela ficou surpresa com a força com que Ola reagiu quando ela disse que estava indo em bora. Mas Ola... – ela hesitou. – Ola era um controlador. Tudo tinha que estar em perfeita ordem , e quando Marit o deixou, essa ordem foi corrom pida. Isso foi provavelm ente o que m ais o incom odou, não o fato de que a havia perdido.

– Houve algum a agressão física?

– Não exatam ente – Kerstin disse, com hesitação. Olhou m ais um a vez para a porta de Sofie. – Mas acho que depende do que você define por agressão. Não acho que ele tenha chegado a bater nela, m as sei que a arrastou pelo abraço e a em purrou algum as vezes, coisas assim .

– E qual era o acordo com relação a Sofie?

– Bem , essa foi um a das coisas que causaram m uito transtorno no início. Marit veio m orar com igo im ediatam ente e m esm o que o relacionam ento que tínham os não fosse explícito, ele provavelm ente desconfiava. Ele se opunha firm em ente à presença de Sofie aqui. Tentou sabotar coisas quando ela ficava conosco, vindo buscá-la m uito antes do horário com binado e coisas assim .

– Mas as coisas se acalm aram depois? – perguntou Martin.

– Sim , graças a Deus. Marit estava inflexível nesse ponto e ele finalm ente percebeu que era inútil. Ela am eaçou ligar para as autoridades e todo esse tipo de coisa e então Ola cedeu. Mas ele nunca ficou feliz com a vinda de Sofie para cá.

– E Marit algum a vez contou a ele que tipo de relacionam ento vocês m antinham ?

– Não – Kerstin negou veem entem ente. – Ela era tão teim osa quanto a isso. Dizia que não dizia respeito a ninguém . Não queria contar nem para Sofie – Kerstin sorriu e balançou a cabeça de novo, m as com m enos convicção. – Apesar de Sofie ser m uito m ais esperta do que Marit acreditava. Hoj e ela m e disse que nem por um m inuto foi enganada por nossas tentativas de esconder tudo. Meu Deus, nós ficávam os levando as coisas de Marit de lá pra cá e tentando nos beij ar discretam ente na cozinha com o um casal de adolescentes – ela riu e Patrik ficou adm irado com o isso suavizava seu rosto. E então ela ficou séria outra vez.

– Mas eu ainda acho difícil acreditar que Ola tenha algo a ver com a m orte de Marit. Já fazia um tem po que não brigavam feio e bem , eu sei lá. Só parece inacreditável.

– E a pessoa que escreveu as cartas e telefonou para vocês? Tem algum a ideia de quem possa ser? Marit j á com entou de algum cliente na loj a que tenha se com portado de m aneira estranha ou algo assim ?

Kerstin pensou bastante, m as então negou com a cabeça.

– Não, não consigo pensar em ninguém . Mas talvez vocês tenham m ais sorte – ela apontou com a cabeça para pilha de cartas.

– Sim , esperem os que sim – disse Patrik, colocando as cartas de volta no saco plástico. Martin e ele levantaram -se. – Tem certeza de que está tudo bem se levarm os estas cartas?

– Sim , claro. Eu nunca m ais quero ver essas cartas de novo – Kerstin os seguiu até a porta e despediu-se deles com um aperto de m ão. – Me avisem se encontrarem algo definitivo sobre... – ela deixou a frase inacabada.

Patrik assentiu.

– Sim , prom eto que entrarem os em contato com você assim que souberm os de algo. Obrigado por conversar conosco nesse... m om ento difícil.

Ela apenas acenou com a cabeça e fechou a porta atrás deles. Patrik olhou para o saco em suas m ãos.

– O que acha de m andarm os hoj e um pacotinho para o Laboratório Nacional do Crim e?

– Parece um a excelente ideia – disse Martin, partindo em direção à delegacia. Agora eles pelo m enos tinham um ponto de partida.

– Sim , tem os m uita esperança nesse proj eto. Você com eça a transm itir na segunda-feira?

– Certam ente, está tudo pronto – disse Fredrik, dando a Erling um sorriso largo.

Estavam sentados no espaçoso escritório da Câm ara Municipal, na área onde algum as poltronas foram colocadas em torno de um a m esa. Aquilo havia sido um dos prim eiros itens na lista de m udanças de Erling. Substituir a m obília m unicipal sem graça por algo um pouco m elhor. Peças de classe e qualidade. Não foi problem a algum fazer o pedido chegar discretam ente à contabilidade; eles estavam sem pre precisando de m óveis de escritório.

O couro fez um ruído quando Fredrik m udou de posição na poltrona e prosseguiu:

– Estam os m uito satisfeitos com as gravações que tem os até agora. Talvez não tenha havido m uita atenção, m as tem os um bom m aterial para apresentar os participantes, dar o tom do program as, se é que m e entende. E então ficará por nossa conta que as intrigas se desenvolvam de form a a term os bons diálogos. Ouvi dizer que vai haver algum tipo de entretenim ento noturno am anhã e isso pode ser um bom com eço. Se conheço bem m eus participantes, eles certam ente vão dar vida a essa festa.

– Bem , nós querem os que Tanum shede im pressione a m ídia tanto quanto Åm ål e Töreboda – Erling soltou a fum aça do charuto e encarou o produtor através da névoa.

– Tem certeza de que não quer um charuto? – apontou para a caixa sobre a m esa. O hum idor, com o sem pre o cham ava, colocando um a forte ênfase no “o”. Aquilo era im portante. Só am adores m antinham seus charutos num a caixa qualquer. Conhecedores de verdade tinham um hum idor.

Fredrik Rehn balançou a cabeça.

– Não, obrigado. Prefiro ficar com os pregos habituais do m eu caixão – puxou um m aço de Marlboro de seu bolso e acendeu um cigarro. Um a fum aça espessa com eçava a pairar sobre a m esa.

– Não posso enfatizar o bastante com o é im portante que façam os m uito sucesso nas próxim as sem anas – Erling deu outra baforada. – Åm ål foi notícia pelo m enos um a vez por sem ana durante as gravações, e Töreboda não ficou atrás. Estou esperando a m esm a cobertura para nós – ele apontava com o charuto.

O produtor não se intim idou; estava acostum ado a lidar com chefes narcisistas de TV e não tinha m edo do m inipapa de sua Lilliput, que um dia havia sido alguém .

– As m anchetes virão, confie em m im . Se tiver um início preguiçoso, nós só terem os que esquentar um pouquinho. Acredite em m im , sabem os exatam ente onde provocar quando o assunto são essas pessoas. Eles não são lá m uito sofisticados – ele riu e Erlig se j untou a ele. Fredrik prosseguiu:– A equação é bastante sim ples, na verdade. Juntam os alguns j ovens com plicados e loucos por atenção da m ídia, um m onte de álcool e colocam os câm eras em volta deles, film ando ininterruptam ente. Eles dorm em m uito pouco, com em m al e o tem po todo sentem a pressão de se apresentar bem e serem vistos por telespectadores. Se não se derem bem assim , podem frequentar bares, furar a fila na entrada de casas noturnas, conseguir um m onte de garotas ou ganhar dinheiro posando para revistas. Acredite, eles estão m otivados a gerar m anchetes e elevar os índices de audiência, e nós tem os as ferram entas certas para fazê-los canalizar essa energia.

– Bem , parece que você sabe o que está fazendo – Erling se inclinou para a frente e bateu um a longa coluna de cinzas no cinzeiro. – Devo dizer, no entanto, que não entendo a fascinação por esses program as. Eu j am ais m e im portaria em assistir, se não tivéssem os um interesse especial neste aqui. Pelo contrário, prefiro os program as que eram feitos antigam ente. Aquilo era televisão de qualidade. Program as com charadas, os de entrevista. Não se fazem m ais apresentadores com o antes.

Fredrik reprim iu o im pulso de revirar os olhos. Esses velhotes sem pre tinham que com entar com o os antigos program as de TV eram m uito m elhores. Mas se você os sentasse diante de um bloco com um apresentador daquela época, eles dorm iriam em segundos. Que gente m ais chata! Mas ele apenas sorriu para Erling, com o se concordasse totalm ente. Era im portante cultivar a cooperação dele.

– Mas é claro que não querem os que ninguém se m achuque – Erling prosseguiu com um a carranca de preocupação. Fez bom uso daquela careta em sua época com o diretor executivo. Depois de m uita prática, hoj e ele parecia quase genuíno.

– Claro que não – disse o produtor, tam bém esforçando-se para parecer preocupado e ansioso. – Vam os ficar de olho nos sentim entos do elenco e tam bém contratam os alguém para fazer aconselham ento profissional durante a perm anência aqui.

– Quem você contratou? – perguntou Erling, abandonando a bituca de seu charuto.

– Tivem os a sorte de conseguir o contato de um psicólogo que acabou de se m udou para Tanum shede. Sua esposa foi recentem ente contratada pela delegacia local. Ele tem sólida experiência profissional, então estam os m uito felizes por tê-lo encontrado. Ele vai conversar com os participantes tanto individualm ente com o em sessões em grupo duas vezes por sem ana.

– Bom , bom – disse Erling, assentindo. – Fazem os questão de que todos estej am em boas condições de saúde – deu a Fredrik um sorriso paternal.

– Nesse ponto estam os em total acordo. – O produtor retribuiu o sorriso, apesar de não exatam ente com a m esm a expressão paternal.

* * *

Calle Stj ernfelt observou com desgosto os restos de com ida nos pratos. Perdido, ficou ali com seu m icrofone em um a das m ãos e um prato na outra.

– Droga, isso é repulsivo – disse, sem conseguir desviar o olhar dos pedaços de batata, m olho e carne que estavam m isturados em um a gororoba irreconhecível.

– Ei, Tina, quando é m esm o a hora de trocarm os de lugar? – ele disse frustrado, olhando-a fixam ente, enquanto ela vinha da cozinha carregando dois pratos de com ida belam ente arrum ada.

– Nunca, se eu tiver escolha – ela exclam ou, em purrando com o quadril a porta vaivém .

– Merda, eu odeio isso! – Calle gritou, lançando o prato na pia. Um a voz atrás de si o fez pular.

– Ei, se quebrar algum a coisa, o valor sai do seu salário – Günther, o chef do restaurante de Tanum shede, lançou-lhe um olhar penetrante.

– Se acha que estou aqui por causa de seu ótim o salário, está m uito enganado – Calle rosnou. – Só pra você saber, em Estocolm o eu ganho m ais em um a noite do que você em um m ês – ele pegou outro prato de form a explícita e j ogou-o na pia. A louça se quebrou e seu olhar atrevido desafiava Günther a fazer algo quanto àquilo. Por um segundo, o chef fez m enção de abrir a boca e gritar com ele, m as então olhou para as câm eras e foi em bora resm ungando, decidindo-se por m exer a com ida que fum egava no balcão de banho-m aria.

Calle riu. As coisas eram iguais em qualquer lugar. Tanum shede ou Stureplan, em Estocolm o. Não havia diferença nenhum a. O dinheiro falava. Todos seguiam o dinheiro. Ele crescera nessa ordem m undial e aprendera a viver com isso e apreciar o fato. Por que não? A coisa toda j ogava a seu favor, afinal de contas. E ele não podia fazer nada se havia nascido em um m undo onde o dinheiro dita as regras. O único lugar em que essas regras não se aplicavam era na ilha. Um a som bra passou por seu rosto ao pensar nisso. Calle havia feito o teste para o Survivor com enorm e expectativa. Estava acostum ado a vencer. Claro que não seria problem a nenhum para ele se livrar de um bando de caipiras idiotas. Sabia que tipo de gente ia para o program a. Os desem pregados, estivadores e cabeleireiros. Seria sopa para um cara com o ele sair vitorioso. Mas a realidade havia sido um choque. Sem poder dar carteirada ou se exibir, outras coisas se m ostraram im portantes. Quando a com ida acabou e a suj eira e as pulgas de areia tom aram conta, ele rapidam ente se reduziu a zero, a um zé-ninguém . Foi um a péssim a experiência. Ele foi o quinto a ser votado para sair da ilha, não chegando nem ao m om ento da fusão. De repente foi forçado a reconhecer que as pessoas não gostavam dele. Não que fosse o cara m ais am ado de Estocolm o, m as lá as pessoas pelo m enos dem onstravam algum respeito e adm iração. E gostavam de puxar seu saco tam bém , assim podiam estar em sua com panhia, com o cham panhe rolando solto e as garotas que viviam em volta dele. Na ilha, aquele m undo parecia estar tão longe, e um zero à esquerda venceu. Um carpinteiro estúpido por quem todos suspiravam , porque era tão genuíno, tão honesto, tão sim ples. Malditos idiotas. Não, a ilha era um a experiência que ele queria esquecer assim que possível.

Mas aqui seria diferente. Aqui ele estava m ais em seu habitat. Bem , não exatam ente com o um lavador de pratos, m as ele tinha a chance de m ostrar que era alguém . Seu sotaque e seus cabelos em um penteado clássico todo para trás e suas roupas caras significavam algum a coisa aqui. Ele não precisaria correr sem inu com o um selvagem e tentar se apoiar em algum a “personalidade” de m erda. Aqui ele poderia dom inar. Relutantem ente ele pegou um prato suj o do tabuleiro e com eçou a lavar. Ele iria falar com a produção sobre trocar de lugar com Tina. Esse trabalho sim plesm ente não com binava com sua im agem .

Com o em resposta ao seu pensam ento, Tina voltou pela porta vaivém . Encostou-se na parede, tirou os sapatos e acendeu um cigarro.

– Quer um ? – ela lhe ofereceu o m aço.

– Porra, se quero – ele disse, encostando-se na parede tam bém .

– Nós não podem os fum ar aqui, certo? – ela disse, soprando um anel de fum aça.

– Não – disse Calle, soltando outro anel, que foi ao encontro do dela.

– O que vai fazer hoj e? – ela olhou para ele.

– Vou para a danceteria ou que porra eles cham em aqui. Você tam bém vai?

– Claro, parece bom – ela riu. – Acho que não vou a um a “danceteria” desde que estava no com eço do ginásio – ela m oveu os dedos dos pés, que estavam doloridos por estar enfiados num par de saltos altos há horas.

– Vai ser legal, sem dúvida. Nós m andam os nessa cidade. As pessoas vão aparecer só pra nos ver. É legal ou não é?

– Bem , eu pensei em pedir ao Fredrik se ele conseguia arranj ar de eu cantar.

Calle riu.

– Está falando sério?

Tina olhou-o, m agoada.

– Acha que estou aqui só porque é legal pra caralho? Tenho que aproveitar essa oportunidade. Venho fazendo aulas de canto há m eses e apareceu um m onte de interessados de gravadoras depois do The Bar.

– Então j á tem um contrato para gravar? – Calle provocou-a, dando um a tragada profunda em seu cigarro.

– Não... Foi tudo por água abaixo, sei lá com o. Mas o m om ento foi errado, é o que diz m eu em presário. E nós tem os que achar um a m úsica boa para a m inha im agem . E ele está tentando arranj ar que aquele Bingo Rim ér faça m inhas fotos de divulgação tam bém .

– Você? – Calle deu um a gargalha bruta. – Barbie tem m ais chance. Você não tem os... – deixou os olhos percorrerem o corpo de Tina. – atributos necessários.

– O que quer dizer? Meu corpo é pelo m enos tão sexy quanto o daquela loira burra. Meus seios são um pouco m enores, só isso – Tina j ogou o cigarro no chão e o esm agou com o salto. – E eu estou econom izando para com prar novos – ela acrescentou, olhando para Calle com olhar desafiador. – Mais dez m il coroas e eu poderei pagar uns belos tam anho G.

– Certo. Boa sorte – disse Calle esm agando o cigarro no chão.

Exatam ente no m om ento em que Günther voltava. Seu rosto assum iu um tom ainda m ais escuro de verm elho do que j á tinha por conta do vapor que subia das panelas.

– Está fum ando aqui? É proibido, totalm ente proibido, absolutam ente proibido – agitou os braços com vontade e Tina e Calle olharam um para o outro e vaiaram . Ele era um a caricatura. Com relutância, voltaram ao trabalho. As câm eras captaram tudo.