O Iluminado

Stephen King · Capítulo 4 de 9 · parte 2/4

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O Iluminado

Quarta parte: Presos pela neve

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— Nunca encostei nele — Jack afirmou veemente. — Nunca, desde a noite em que quebrei seu braço. Nem sequer para dar uma palmada.

— Jack, isso agora não importa. O que importa é…

— Isso importa! — gritou. Esmurrou o bar, com força suficiente para fazer o pratinho vazio de amendoim saltar. — Importa, sim, merda, importa!

— Jack, temos que ir com ele para a cidade. Ele está…

Danny começou a se agitar. A expressão vaga de seu rosto começou a se desfazer como um bloco grosso de gelo. Os lábios se torciam, como se sentissem um gosto amargo. Os olhos se arregalaram. As mãos se erguiam como se fossem cobrir o rosto e caíam.

O menino enrijeceu abruptamente nos braços da mãe. As costas se curvaram, fazendo Wendy cambalear. E de repente ele começou a gritar, gritos loucos que saíam de sua garganta como uma flecha após a outra, ecoante e louca. O som parecia encher o andar vazio e voltar para eles.

Deveria haver ali cem Dannys gritando de uma vez.

— Jack! — exclamou ela aterrorizada. — Meu Deus, Jack, o que há de errado com ele?

Ele desceu do banco, dormente da cintura para baixo, mais apavorado do que nunca em sua vida. Em que buraco seu filho andara bisbilhotando? Que ninho escuro? E o que havia surgido para picá-lo?

— Danny! — berrou. — Danny!

Danny o viu. Livrou-se dos braços da mãe com uma força repentina e feroz, que não lhe deu chance de continuar segurando-o. Ela cambaleou para uma das mesas e quase caiu no banco.

— Papai! — gritou ele, correndo para Jack, os olhos imensos e assustados.

— Ah, papai, papai, foi ela! Ela! Ah, pa-paaaiii…

Danny se jogou nos braços de Jack como uma flecha cega, fazendo o pai balançar. Agarrou-se a ele com força, a princípio parecendo estar dando murros, como em uma luta, depois abraçando o pai na altura do cinto e soluçando junto à sua camisa. Jack sentia o rosto do filho, quente, encostado na barriga.

Papai, foi ela.

Jack olhou para Wendy. Seus olhos eram como pequenas moedas de prata.

— Wendy? — Voz macia, quase ronronando. — Wendy, o que foi que você fez com ele?

Wendy olhou de volta, fixamente, sem poder acreditar, o rosto pálido.

Sacudiu a cabeça.

— Ah, Jack, você sabe que…

Lá fora, começara a nevar de novo.

29

CONVERSA NA COZINHA

Jack levou Danny até a cozinha. O menino ainda estava soluçando muito e se recusava a tirar o rosto do peito de Jack. Na cozinha, devolveu Danny ao colo de Wendy, que ainda estava atordoada e incrédula.

— Jack, não sei do que ele está falando. Por favor, você precisa acreditar.

— Acredito — disse, apesar de, no fundo, admitir que sentia certo prazer em ver as posições invertidas, a uma velocidade tão grande e desorientadora.

Mas sua raiva por Wendy era superficial. No fundo, sabia que era mais fácil a esposa se encharcar de gasolina e riscar um fósforo do que machucar o filho.

A chaleira maior estava na boca de trás do fogão, borbulhando em fogo baixo. Jack jogou um saquinho de chá numa xícara grande de cerâmica, enchendo-a pela metade com água quente.

— Tem vinagre de xerez aqui, não tem? — perguntou a Wendy.

— O quê? Ah, sim. Duas ou três garrafas.

— Em qual armário?

Ela apontou, e Jack pegou uma das garrafas. Derramou uma boa quantidade na xícara de chá, terminou de enchê-la com leite e guardou a garrafa. Depois, acrescentou três colheres de açúcar e mexeu. Ofereceu a bebida para Danny, cujos soluços já se haviam se reduzido a fungadelas. Mas o menino ainda tremia todo, e seus olhos estavam arregalados e imóveis.

— Beba, velhinho — disse Jack. — Tem um gosto horrível, mas vai fazer você se sentir melhor. Pode beber, pelo papai?

Danny meneou a cabeça e segurou a xícara. Bebeu um pouco, fez uma careta e olhou indagador para Jack, que assentiu, e Danny tomou mais um gole. Wendy sentiu uma pontada familiar de ciúme, sabendo que, se fosse ela pedindo, o menino não beberia.

Foi acometida por um pensamento incômodo e assustador: Teria ela desejado culpar Jack? Seria tão ciumenta assim? Sua mãe teria pensado da mesma maneira, e isso era realmente horrível. Lembrou-se de um domingo, quando o pai a levou ao parque e ela caiu do segundo nível do trepa-trepa, machucando os dois joelhos. Quando o pai a trouxe de volta para casa, a mãe berrou: O que você fez? Por que você não estava vigiando ela? Que espécie de pai você é?

(Ela o perseguiu até o túmulo; quando se divorciaram, já era tarde demais.)

Ela nunca havia dado a Jack sequer o benefício da dúvida. Por menor que fosse. Wendy sentiu o rosto queimar, sabendo que, se tudo aquilo se repetisse, ela agiria e pensaria da mesma maneira. Carregava sempre consigo uma parte de sua mãe, fosse essa parte boa ou ruim.

— Jack… — ela começou, sem ter certeza se queria se desculpar ou se justificar. Qualquer uma das duas alternativas, ela sabia, seria inútil.

— Agora não — interrompeu ele.

Danny levou quinze minutos para beber metade da xícara e, a esta altura, já se mostrava visivelmente mais calmo. Os tremores haviam praticamente cessado.

Jack colocou as mãos solenemente sobre os ombros do filho.

— Danny, você acha que consegue contar pra gente exatamente o que aconteceu com você? É muito importante.

Danny passou os olhos de Jack para Wendy, de Wendy para Jack. O

silêncio fez com que o cenário e a situação dos três se tornassem bem evidentes: o assobio do vento lá fora, trazendo neve fresca do noroeste; o estalar e o gemido do velho hotel resistindo a mais uma tempestade. A percepção do isolamento veio a Wendy com uma força inesperada, como às vezes acontecia, semelhante a um aperto no coração.

— Vou… contar tudo a vocês — começou Danny. — Queria ter contado antes. — Segurou a xícara, como que se confortando com o calor.

— Por que não contou, filho? — Jack passou a mão no cabelo suado e grudado sobre a testa de Danny.

— Porque o tio Al arranjou o emprego para você. E eu não podia entender como este lugar podia ser bom e ao mesmo tempo ruim para você. Foi… —

Olhou para os pais pedindo ajuda. Não tinha a palavra necessária.

— Um dilema? — Wendy perguntou gentil. — Quando nenhuma das opções parece boa?

— Isso mesmo. — Balançou a cabeça, aliviado.

— No dia em que você foi podar os arbustos — falou Wendy —, Danny e eu tivemos uma conversa no caminhão. No dia da primeira nevasca de verdade. Lembra?

Jack assentiu com a cabeça. Aquele dia estava muito claro em sua mente.

Wendy suspirou.

— Acho que não conversamos o suficiente, não foi, velhinho?

Danny, a angústia personificada, concordou.

— Sobre o que conversaram exatamente? — perguntou Jack. — Não sei se

gosto de ver minha mulher e meu filho…

— … conversando sobre o quanto amam você?

— Seja lá o que for, não entendo. É como eu tivesse chegado ao cinema no meio do filme.

— Falamos sobre você — respondeu Wendy, com calma. — E talvez não tenhamos dito tudo o que queríamos em palavras, mas nós dois sabíamos. Eu porque sou sua esposa, e Danny porque ele… simplesmente porque entende coisas.

Jack estava calado.

— Danny se expressou muito bem. O hotel parecia bom para você, pois ficaria longe das pressões que deixavam você tão infeliz em Stovington. Seria seu próprio patrão, trabalhando com as mãos para poupar a mente… toda a mente… para poder escrever à noite. Depois… não sei bem quando… O

lugar começou a parecer ruim para você. Passando aquele tempo todo lá embaixo no porão, revirando aqueles papéis velhos, toda aquela história antiga. Falando enquanto dorme…

— Enquanto durmo? — perguntou Jack. Seu rosto tinha uma expressão cautelosa e espantada. — Eu falo dormindo?

— A maior parte é bobagem. Uma noite eu levantei para ir ao banheiro e você falou: “Para o inferno com isso, tragam pelo menos os caça-níqueis, ninguém vai saber, ninguém nunca vai saber”. Outra vez você me acordou, praticamente gritando: “Retirem as máscaras, Retirem as máscaras, retirem as máscaras”.

— Jesus Cristo — exclamou Jack, passando a mão no rosto. Parecia doente.

— E seus velhos hábitos de quando bebia também voltaram. Mastigar Excedrin. Esfregar a boca o tempo todo. Acordar mal-humorado. Você ainda não conseguiu terminar a peça, não é?

— Não. Ainda não, mas é só uma questão de tempo. Tenho pensado em outra coisa… um novo projeto…

— O hotel. Foi pra falar sobre isso que Al Shockley telefonou. Ele queria que você esquecesse.

— Como sabe? — vociferou Jack. — Estava escutando a conversa?

Você…

— Não — respondeu ela. — Não poderia escutar, mesmo que quisesse, e você sabe disso. Danny e eu estávamos lá embaixo aquela noite. A mesa do telefone estava desligada. O telefone lá de cima era o único do hotel que

estava funcionando, porque estava ligado na linha direta. Você mesmo tinha me contado.

— Então como sabe o que Al me disse?

— Danny me contou. Danny sabia. Da mesma forma que, às vezes, sabe quando as coisas estão fora do lugar, ou quando as pessoas estão pensando em divórcio.

— O médico disse…

Ela balançou a cabeça, impaciente.

— O médico estava falando bobagem, e nós sabemos disso. Sempre soubemos. Lembra quando Danny disse que queria ver os caminhões do corpo de bombeiros? Isso não foi intuição. Ele era apenas um bebê. Ele sabe coisas. E agora tenho medo… — Olhou para os machucados no pescoço de Danny.

— Você realmente sabia por que o tio Al ligou para mim, Danny?

Danny assentiu.

— Ele estava com raiva mesmo, papai. Porque você ligou para o sr.

Ullman, e o sr. Ullman ligou para ele. O tio Al não queria que você escrevesse nada sobre o hotel.

— Jesus — disse Jack. — Os hematomas, Danny. Quem tentou machucar você?

O rosto de Danny escureceu.

— Ela! — exclamou. — A mulher daquele apartamento. O 217. A mulher morta. — Seus lábios voltaram a tremer. Ele pegou a xícara de chá e bebeu.

Jack e Wendy se entreolharam sobre a cabeça inclinada de Danny.

— Sabe alguma coisa sobre isso? — perguntou ele.

Ela balançou a cabeça.

— Não.

— Danny? — Jack levantou o rosto amedrontado do menino. — Tente, filho. Estamos aqui.

— Eu sabia que aqui era ruim — comentou Danny, baixinho. — Desde Boulder. Porque Tony me fez sonhar sobre isso.

— Sonhar o quê?

— Não consigo lembrar tudo. Ele me mostrou o Overlook de noite, com uma caveira e ossos cruzados na frente. E eu ouvia barulhos de batidas.

Alguma coisa… não lembro o que era… me perseguindo. Um monstro. Tony me mostrou redrum.

— O que é isso, velhinho? — perguntou Wendy.

O garoto balançou a cabeça.

— Não sei.

— Rum, como garrafa de rum? — perguntou Jack.

Danny balançou a cabeça novamente.

— Não sei. Então, nós chegamos aqui, e o sr. Hallorann conversou comigo no carro. Porque ele é iluminado também.

— Iluminado?

— É… — Danny fez um gesto com as mãos. — É quem é capaz de entender coisas. Saber coisas. Às vezes, a gente vê coisas. Como eu soube que o tio Al ligou. E como o sr. Hallorann soube que vocês me chamam de velhinho. O sr. Hallorann, ele estava descascando batatas no Exército, quando ficou sabendo que o irmão dele tinha morrido num acidente de trem.

Quando telefonou para casa, era verdade.

— Santo Deus — sussurrou Jack. — Você está inventando isso tudo, não está, Dan?

Danny sacudiu a cabeça com violência.

— Não, juro por Deus. — Em seguida, com uma pontinha de orgulho, acrescentou: — O sr. Hallorann disse que eu sou a pessoa mais iluminada que ele já conheceu. A gente conversou praticamente sem precisar falar.

Os pais se entreolharam novamente, completamente atordoados.

— O sr. Hallorann quis ficar sozinho comigo porque estava preocupado —

prosseguiu Danny. — Ele disse que aqui era um lugar ruim para os iluminados. Falou que viu coisas. Eu vi coisas também. Logo depois que conversei com ele. Quando o sr. Ullman estava mostrando o hotel para nós.

— O que foi? — perguntou Jack.

— Na Suíte Presidencial. Na parede perto da porta que dá para o quarto.

Uma porção de sangue e outras coisas. Coisa espirrada. Acho… que eram miolos.

— Meu Deus! — exclamou Jack.

Wendy estava agora muito pálida, os lábios quase cinzentos.

— Este lugar — continuou Jack. — Alguns caras malvados foram donos do hotel há algum tempo. Gente da Máfia de Las Vegas.

— Vigaristas? — perguntou Danny.

— Sim, vigaristas. — Olhou para Wendy. — Em 1966, um grandão chamado Vito Gienelli foi assassinado lá, junto com dois guarda-costas. Saiu uma reportagem com uma fotografia no jornal. Danny acabou de descrever a fotografia.

— O sr. Hallorann disse que viu outras coisas — falou Danny. — Uma vez foi no parquinho. E outra vez foi no apartamento 217. Uma empregada viu e perdeu o emprego, porque falou nisso. Aí, o sr. Hallorann subiu e viu também. Mas não contou nada para ninguém, porque ele não queria perder o emprego. Mas falou para eu nunca ir lá. Mas eu fui. Porque acreditei quando ele disse que as coisas que a gente vê aqui não podem ferir. — A última frase foi quase sussurrada, numa voz baixa e rouca, e Danny tocou os ferimentos inchados do pescoço. — E o parquinho? — perguntou Jack, com uma voz estranha e casual.

— Não sei. O parque foi ele quem disse. Os arbustos em forma de animais.

Jack se sobressaltou um pouco, e Wendy olhou sem entender.

— Você viu alguma coisa por lá, Jack?

— Não — negou ele. — Nada.

Danny estava olhando para o pai.

— Nada — repetiu, com mais calma. E era verdade. Ele tinha sido vítima de uma alucinação. Foi só.

— Danny, temos que saber mais sobre essa mulher — pediu Wendy, gentilmente.

Danny contou a eles. Suas palavras, no entanto, saíam aos borbotões, às vezes quase incompreensíveis, na pressa de vomitar tudo e se livrar do assunto. Enquanto falava, Danny se espremia cada vez mais de encontro ao peito da mãe.

— Entrei — começou o garoto. — Roubei a chave mestra e entrei. Era como se eu não pudesse me controlar. Eu precisava saber. E ela… a mulher… estava na banheira. Ela estava morta. Toda inchada. Ela estava pelada… não vestia nada. — Olhou desconsoladamente para a mãe. — E ela começou a se levantar, e ela me queria. Eu sei que sim, porque eu sentia. Ela não estava nem pensando do jeito que você e papai pensam. Era feio… era pensamento mau… como… como as vespas aquela noite no meu quarto! Só querendo machucar. Como as vespas.

Ele engoliu em seco e por um momento o silêncio dominou o espaço, tudo quieto enquanto a imagem das vespas se afundava dentro deles.

— Aí eu corri — continuou Danny. — Corri, mas a porta estava fechada.

Deixei aberta, mas estava fechada. Não pensei em simplesmente abrir de novo e sair correndo. Eu estava com medo. Então eu só… me encostei na porta e fechei meus olhos e pensei sobre o que o sr. Hallorann tinha falado, que essas coisas eram como desenhos de um livro, e se eu… ficasse dizendo

para mim mesmo… você não está aí, vá embora, você não está aí… a mulher iria embora. Mas ela não foi.

Sua voz começou a aumentar histericamente.

— Ela me agarrou… me virou para ela… e eu vi os olhos dela… Os olhos dela eram… e ela começou a me estrangular… eu sentia o cheiro dela…

Sentia o cheiro de como ela estava morta…

— Pare agora, shhh — interrompeu Wendy, alarmada. — Pare, Danny.

Está tudo bem. É…

Já ia começar a murmurar. Wendy Torrance, a murmuradora para todas as ocasiões. Patente pendente.

— Deixe ele terminar — disse Jack com firmeza.

— Não tem mais nada — falou Danny. — Eu desmaiei. Ou porque ela estava me estrangulando ou porque eu estava com medo. Quando voltei a mim, estava sonhando que você e mamãe estavam brigando por minha causa, e que você queria fazer a Coisa Feia de novo, papai. Aí fiquei sabendo que não era um sonho… e que eu estava acordado… e… e fiz xixi na calça.

Molhei minha calça como um bebê. — Sua cabeça caiu sobre o suéter de Wendy, e o garoto começou a chorar com uma fraqueza terrível, suas mãos largadas, caídas sobre as pernas.

Jack se levantou.

— Fica aqui tomando conta dele.

— O que você vai fazer? — O rosto de Wendy estava cheio de medo.

— Vou subir até aquele quarto, o que você pensou que eu ia fazer? Tomar um cafezinho?

— Não, Jack. Não vá, por favor, não vá!

— Wendy, precisamos saber se tem mais alguém no hotel.

— Não se atreva a nos deixar aqui sozinhos! — gritou ela, chegando a cuspir, tão forte era o grito.

— Wendy, isso foi uma imitação perfeita de sua mãe.

Ela então começou a chorar, sem poder cobrir o rosto, porque Danny estava em seu colo.

— Sinto muito — falou Jack. — Mas tenho que ir, e você sabe. Sou a droga do zelador. Sou pago para isso.

Ela simplesmente chorou mais. Ele os deixou ali assim, saindo da cozinha, esfregando a boca com o lenço, deixando a porta balançar atrás de si.

— Não se preocupe, mamãe. Vai ficar tudo bem com ele. Ele não é iluminado. Nada por aqui pode machucar ele.

Em meio às lágrimas, ela disse:

— Não, não acredito nisso.

30

217 REVISITADO

Jack entrou no elevador, e era estranho, porque nenhum deles o usara desde que foram morar lá. Fechou a grade de metal, que rangeu e sacudiu loucamente enquanto o elevador subia. Ele sabia que Wendy sentia uma terrível claustrofobia no elevador; ela visualizava os três presos entre os andares, enquanto a tempestade se enraivecia lá fora. Podia imaginá-los cada vez mais magros, mais fracos, morrendo de inanição. Ou talvez devorando-se uns aos outros, como aqueles jogadores de rúgbi fizeram. Ele se lembrou de um adesivo que tinha visto em um carro em Boulder, JOGADORES DE RÚGBI COMEM SEUS PRÓPRIOS

MORTOS.

Pensava em outros. VOCÊ É AQUILO QUE COME. Ou frases de cardápio. Bem-vindo ao Restaurante do Overlook, o Orgulho das Montanhas Rochosas. Coma sob o esplendor do Terraço do Mundo. Coxa Humana Grelhada com Fósforos, La Spécialité de la Maison. O sorriso desdenhoso brilhou mais uma vez em seu rosto.

Quando o número 2 apareceu na parede do poço, Jack empurrou a alavanca de latão para sua posição original, e o elevador parou com um rangido. Tirou a caixa de Excedrin do bolso, jogou três na palma da mão e abriu a porta do elevador. Nada no Overlook o assustava. Sentia que ele e o hotel eram amigáveis.

Caminhou pelo corredor, jogando os Excedrin na boca e mastigando um a um. Dobrou em direção ao corredor menor. A porta do apartamento 217

estava entreaberta, a chave mestra pendurada na fechadura.

Franziu as sobrancelhas, sentindo uma onda de irritação e genuína raiva.

Independentemente do que tivesse acontecido, o menino tinha violado uma ordem expressa. Havia sido informado, e de maneira muito taxativa, de que algumas áreas do hotel estavam fora dos seus limites: o depósito, o porão e todos os quartos de hóspedes. Conversaria com Danny sobre isso, assim que o filho se acalmasse. Conversaria com ele ponderada, mas severamente.

Muitos pais fariam mais do que simplesmente conversar. Dariam umas boas palmadas, e talvez fosse disso que Danny precisava. Se o menino tinha levado um bom susto, não merecia um castigo à altura?

Caminhou até a porta, retirou a chave mestra, guardou-a no bolso e entrou.

A luz estava acesa. Olhou a cama, viu que não estava desarrumada e então

seguiu direto para o banheiro. Uma curiosa certeza crescia dentro dele.

Apesar de Watson não ter mencionado nomes, nem números de apartamentos, Jack teve a certeza de que este era o apartamento que a esposa do advogado tinha compartilhado com o garanhão, e que este era o banheiro onde ela foi encontrada morta, cheia de barbitúricos e de álcool.

Abriu a porta espelhada do banheiro e entrou. A luz estava apagada. Ao acendê-la, observou de imediato que aquele cômodo parecia um vagão de trem. Era mobiliado no estilo distinto do início do século XIX e remodelado no estilo do século XX. A decoração parecia ser comum a todos os banheiros do Overlook, excluindo os do terceiro andar — esses eram bizantinos, adequados à realeza, aos políticos, às estrelas de cinema e aos mafiosos que haviam se hospedado lá no decorrer dos anos.

A cortina do chuveiro, cor-de-rosa, estava fechada protetoramente em volta da banheira com pés.

(no entanto, eles se moveram)

E, pela primeira vez, percebeu que a nova sensação de segurança (quase insolência), que se apossara dele quando Danny foi a seu encontro gritando Foi ela! Foi ela! , o abandonava. Um dedo frio pressionou levemente a base de sua espinha, fazendo sua temperatura cair dez graus. De repente, sentiu outros dedos subindo por suas costas até a omoplata, tocando sua espinha como um instrumento selvagem.

A raiva que sentia de Danny desapareceu e, enquanto dava um passo à frente e abria a cortina, sentiu sua boca seca e teve apenas pena do filho e medo.

A banheira estava seca e vazia.

Alívio e irritação foram expelidos num repentino “Porra!” que escapou de seus lábios comprimidos, como uma pequena explosão. A banheira tinha sido limpa e esfregada no fim da temporada; exceto a mancha de ferrugem debaixo das torneiras, tudo reluzia. Havia um cheiro de desinfetante, distante mas definido, do tipo que, uma vez aplicado, pode irritar o nariz durante semanas, até meses.

Jack se abaixou e passou os dedos pelo fundo da banheira. Sequinha da silva. Nem um sinal de umidade. O menino tinha sofrido uma alucinação ou um pesadelo. Sentiu raiva de novo. Foi quando o tapete do banheiro atraiu sua atenção. Ele se inclinou para olhar. O que um tapete estava fazendo ali?

Devia estar lá embaixo, no armário de roupas de cama e banho. A roupa toda estava lá. Nem as camas estavam realmente feitas nos quartos de hóspedes;

os colchões estavam forrados com capas de plástico e cobertos com colchas.

Pensou que Danny poderia ter descido e apanhado — a chave mestra também abria o armário — mas... por quê? Passou a ponta dos dedos em toda a extensão do tapete. Estava seco.

Voltou à porta do banheiro e ficou parado ali. Tudo em ordem. O menino tinha sonhado. Não havia nada fora do lugar. Estava confuso com a presença do tapete de banheiro, mas a explicação lógica era que alguma camareira, apressada como louca no último dia de temporada, simplesmente tivesse esquecido de retirá-lo dali. A não ser por isso, tudo estava…

Suas narinas se dilataram um pouco. Desinfetante, aquele cheiro peculiar, desinfetante. E…

Sabonete?

Certamente não. Uma vez identificado, porém, o cheiro era muito claro para não se reconhecer. Sabonete. Não um daqueles sabonetes comuns em barra, que a gente recebe nos hotéis. Este odor era leve e perfumado, um sabonete feminino. Tinha um cheiro floral. Camay ou Lowila, a marca que Wendy sempre usara em Stovington.

( Não é nada. É sua imaginação. )

(assim como os arbustos; no entanto, eles se moveram) ( Não se moveram! )

Jack caminhou até a porta que dava para o corredor, sentindo a dor de cabeça começar em suas têmporas. Muita coisa tinha acontecido hoje, coisas demais. Não daria palmadas no menino, nem o chacoalharia. Apenas conversaria com ele, mas, por Deus, não podia acrescentar o apartamento 217

à sua lista de problemas. Não com base num tapete de banheiro seco e num cheiro de sabonete Lowila. Ele…

Ouviu um som metálico vindo de trás dele. Surgiu assim que suas mãos se fecharam em volta da maçaneta, e um observador poderia pensar que o aço da maçaneta continha uma carga elétrica. Jack estremeceu violentamente, olhos arregalados, os músculos faciais se contorcendo, fazendo caretas.

Em seguida, controlando-se um pouco, soltou a maçaneta e se virou com cuidado. Suas articulações estalaram. Começou a andar de volta ao banheiro, passo a passo.

A cortina do chuveiro, que ele havia aberto para olhar dentro da banheira, estava agora fechada. O som metálico, que parecera o movimento de ossos numa cripta, tinha sido dos anéis da cortina, no trilho. Jack olhou fixamente para a cortina. Seu rosto estava pálido, como se tivesse sido encerado, mas

por dentro sentia um calor de medo. O mesmo que sentira no parque .

Alguma coisa estava atrás da cortina de plástico cor-de-rosa. Havia alguma coisa na banheira.

Podia sentir, indefinido e turvo, através do plástico, um contorno quase sem definição. Poderia ser qualquer coisa. Uma ilusão de ótica. A sombra do chuveiro. Uma mulher morta, reclinada em seu banho, um sabonete Lowila em uma das mãos inchadas, enquanto esperava pacientemente por qualquer amante que aparecesse.

Jack ordenou a si mesmo que desse um passo à frente, com coragem, e abrisse a cortina. Precisava ver o que quer que pudesse estar ali. Em vez disso, virou-se de costas, tremendo, o coração batendo amedrontado dentro do peito, e a passos largos voltou ao quarto.

A porta para o corredor estava fechada.

Olhou imobilizado para ela durante um longo segundo. Agora sentia o gosto do terror no fundo da garganta, como o sabor de cerejas podres.

Caminhou até a porta com os mesmos passos largos e trêmulos e forçou a maçaneta.

( Não vai abrir. )

Mas abriu.

Apagou a luz com um gesto desajeitado, pisou no corredor e fechou a porta sem olhar para trás. Parecia ouvir o ruído de alguma coisa molhada lá de dentro, longe, difícil de distinguir. Era como se alguém tivesse acabado de se arrastar da banheira, com pressa, para saudar um visitante, concluindo que o visitante estava indo embora antes que as amenidades sociais tivessem sido concluídas, por isso corria para a porta, toda roxa e sorridente, para convidar o visitante a entrar novamente. Talvez para sempre.

Passos se aproximavam da porta ou seria apenas o bater de seu coração nos ouvidos?

Apalpou a chave mestra. Parecia escorregadia, incapaz de girar na fechadura. Segurou-a firme. Trancou a porta e deu alguns passos para trás, encostando na parede em frente. Soltou um suspiro de alívio. Fechou os olhos, e todas aquelas velhas frases começaram a desfilar por sua mente.

Parecia haver centenas delas,

(ficando doido com um parafuso solto o cara ficou maluco ficou tantã enlouqueceu endoidou biruta maluco)

todas com o mesmo significado: ficando louco.

— Não — choramingou, pouco consciente de que estava reduzido a isto: a

choramingar com os olhos fechados, como uma criança. — Ai não, Deus. Por favor, Deus, não.

Mas, debaixo da confusão de seus pensamentos caóticos, debaixo do martelo mecânico em que seu coração havia se transformado, podia ouvir o ruído leve e furtivo da maçaneta sendo virada para um lado e para o outro.

Era como se alguma coisa trancada lá dentro tentasse inutilmente sair, alguma coisa querendo encontrá-lo, alguma coisa que gostaria de ser apresentada a sua família, enquanto a tempestade sacudia em torno deles, e a clara luz do dia tornava-se noite escura. Se Jack abrisse os olhos e visse aquela maçaneta se mexendo, ficaria louco. Portanto, manteve-os fechados e, depois de algum tempo, houve calma.

Jack fez um esforço para abrir os olhos, quase convencido de que, quando abrisse, ela estaria diante dele. Mas o corredor estava vazio.

Sentiu mesmo assim que estava sendo observado.

Virou para o olho mágico no centro da porta e imaginou o que aconteceria se por acaso se aproximasse e olhasse para dentro. Com que se defrontaria?

Seus pés se moviam

( pés, não me falhem agora)

antes que percebesse. Afastou-se da porta e caminhou pelo corredor principal, seus pés deslizando na mata azul e negra do tapete. Parou na metade do caminho para as escadas e olhou para o extintor de incêndio.

Percebeu que as dobras da mangueira estavam ajeitadas de forma um pouco diferente. E tinha quase certeza de que, quando havia chegado ao corredor, o bocal de metal estava virado de frente para o elevador. Agora estava virado para o outro lado.

— Não vi nada disso — falou para si, muito claramente. Seu rosto estava branco e desfigurado, e continuava tentando sorrir.

Mas Jack não desceu pelo elevador. Aquilo se parecia muito com uma boca aberta. Demasiadamente. Decidiu ir pela escada.

31

O VEREDICTO

Entrou na cozinha e olhou para os dois, jogando a chave mestra para o alto com a mão esquerda e pegando-a no ar. Danny estava pálido e cansado.

Notou que Wendy tinha chorado; os olhos dela estavam vermelhos e com olheiras. Jack sentiu uma súbita explosão de alegria por isso: não estava sofrendo sozinho, isto era certo.

Wendy e Danny olharam para ele, em silêncio.

— Nada por lá — afirmou ele, surpreso com a sinceridade de sua voz. —

Absolutamente nada.

Continuou jogando a chave mestra para cima e sorriu para eles, confiante.

Observou o ar aliviado em seus rostos e pensou que jamais em sua vida tinha sentido tanta vontade de beber quanto agora.

32

O QUARTO

À tardinha, Jack pegou uma cama dobrável no depósito do primeiro andar e a colocou no canto de seu quarto. Wendy imaginava que o filho não fosse dormir bem à noite, mas, antes de Os Waltons terminarem, Danny já estava cochilando, e, quinze minutos depois de o cobrirem, ele dormia profundamente, imóvel, com uma das mãos sob a bochecha. Wendy ficou sentada, olhando para ele, marcando o livro de bolso com o dedo.

Jack estava sentado à escrivaninha, lendo sua peça.

— Merda.

Wendy desviou o olhar de contemplação a Danny.

— Que foi?

— Nada — respondeu ele.

Jack baixou os olhos para a peça, mal-humorado. Como pôde ter achado isso bom? Era pueril. Tinha sido reescrita milhares de vezes. E, pior, não tinha ideia de como ia terminá-la. Parecia simples. Denker, num acesso de cólera, agarra o espeto junto da lareira e bate em Gary até vê-lo morto. Em seguida, parado de pernas abertas sobre o corpo, com o espeto sujo de sangue em uma das mãos, grita para o público: “Está por aqui, em algum lugar, e eu vou encontrar!”. Então, ao apagar das luzes e ao cair do pano, o público vê o corpo de Gary, de bruços, na frente do palco, enquanto Denker caminha a passos largos para a estante. Freneticamente, começa a arrancar os livros das prateleiras, olhando e jogando um por um para o lado.

Jack achava que era algo antiquado o suficiente para parecer novo; uma peça cuja originalidade já seria o bastante para sustentar uma carreira bem-sucedida na Broadway: uma tragédia em cinco atos.

Mas, além de sua repentina mudança de interesse para a história do Overlook, outra coisa havia acontecido: Jack desenvolvera sentimentos opostos com relação a seus personagens. Era algo muito recente. Em geral, gostava de todos os seus personagens, os bons e os maus. Ficava contente por isso. Isso permitia que ele visse todos os ângulos de cada um deles, e tentasse compreender mais claramente suas motivações. Sua obra favorita, vendida para uma pequena revista ao sul do Maine chamada Contraband, era uma peça chamada Eis aqui o Macaco, Paul DeLong. Contava a história de um pedófilo prestes a cometer suicídio em seu quarto. O nome do pedófilo era Paul DeLong, Macaco, para os íntimos. Jack gostava muito desse personagem. Sentia pena de suas necessidades bizarras, sabendo que ele não havia sido o único culpado pelos três crimes de estupro, no passado. Seus pais eram maus: o pai o espancava, exatamente como o pais de Jack, a mãe era fraca e tola, também como havia sido a sua. Macaco tivera uma experiência homossexual no primário. Sofrera humilhação em público.

Experiências piores no secundário e na universidade. Havia sido preso e enviado a um estabelecimento para doentes mentais, depois de se exibir para duas menininhas que desciam do ônibus escolar. E o pior: recebera alta, ficando largado pelas ruas, porque o diretor havia concluído que ele estava bem. O nome deste diretor era Grimmer. Grimmer sabia que Macaco DeLong apresentava sintomas anormais, mas escrevera um relatório bom e promissor e o soltara de qualquer forma. Jack também gostava de Grimmer e simpatizava com ele. Grimmer precisava dirigir uma instituição sem uma equipe competente e sem orçamento, e tentava manter o local à custa de saliva, cercas de arame e pequenos donativos, verbas concedidas pelo governo estadual, que tinha que se defrontar com os eleitores. Grimmer sabia que Macaco era capaz de se relacionar com outras pessoas, que não sujava a calça nem tentava apunhalar seus companheiros com uma tesoura. Não pensava que era Napoleão. O psiquiatra que cuidava do caso de Macaco achava que suas chances seriam bem melhores em liberdade, e ambos sabiam que, quanto mais tempo um indivíduo permanece dentro de um hospital psiquiátrico, mais se torna dependente daquele ambiente fechado, como um viciado em drogas. Além disso, havia uma demanda fora de série: paranoicos, esquizoides, ciclotímicos, semicatatônicos, homens que afirmavam ter ido ao céu em discos voadores, mulheres que haviam queimado a genitália dos filhos com isqueiros, alcoólatras, piromaníacos, cleptomaníacos, maníaco-depressivos, suicidas. Mundo cão, meu amigo. Se você não estiver muito bem regulado, vai sacudir, espernear e rolar antes de completar trinta anos. Jack compreendia as dificuldades de Grimmer. Entendia os pais das vítimas assassinadas. Tinha pena das próprias crianças mortas, claro. E de Macaco DeLong. Deixe que o leitor o culpe. Naquela época, não queria julgar. O

manto de moralista não ficava bem sobre os ombros dele.

Iniciara A pequena escola com a mesma veia otimista. Mas ultimamente

começara a tomar partido e, pior ainda, chegara a detestar seu herói, Gary Benson. A princípio concebido como um menino inteligente, mais amaldiçoado do que abençoado pelo dinheiro, Gary Benson queria acima de tudo colecionar notas altas para poder ingressar numa boa universidade por merecimento, e não porque o pai mexera os pauzinhos. Aquele menino havia se tornado, para Jack, uma espécie de pudico, um seminarista diante do altar de conhecimentos. Não era, apesar disso, um acólito sincero, um modelo visível das virtudes dos escoteiros, mas um cínico por dentro, cheio não de inteligência (como tinha sido idealizado, a princípio), mas apenas de uma dissimulada esperteza animal. Durante toda a peça, tratava Denker infalivelmente como “senhor”, exatamente como Jack havia ensinado o próprio filho a se dirigir às pessoas mais velhas e de mais autoridade. Achava que Danny usava a palavra com muita sinceridade, e Gary Benson também.

Mas, assim que começara o Ato V, era cada vez mais forte a ideia de que Gary usava a palavra de maneira satírica, exteriormente um cara correto, enquanto em seu íntimo fazia caretas e olhava de esguelha para Denker. Denker, que jamais possuíra qualquer uma das coisas que Gary tinha. Denker, que trabalhara a vida inteira, apenas para se tornar diretor de uma única escolinha.

Defrontava-se com a própria ruína por causa de um menino rico, bonito e aparentemente inocente, que com sagacidade colava nas provas finais. Jack via Denker, o diretor, não muito diferente de como via os pavoneantes pequenos césares sul-americanos nos seus impérios de bananas, enfileirando os dissidentes contra o paredão da quadra mais próxima de tênis ou handball, um superfanático numa poça d’água relativamente pequena, um homem cujos caprichos se transformam numa cruzada. No início, queria usar a peça como um microcosmo para dizer alguma coisa sobre o abuso do poder. Agora, tinha uma tendência sempre maior de ver Denker como um sr. Chips, e a tragédia não era uma tortura intelectual de Gary Benson, mas a destruição de um professor e diretor velho, incapaz de ver através do cínico embuste desse monstro mascarado de menino.

Jack não havia conseguido terminar a peça.

Agora estava sentado olhando para ela, irritado, imaginando se havia algum modo de salvar a situação. Na verdade, não acreditava que houvesse.

Começara uma peça que de alguma forma tinha se transformado em outra.

Abracadabra. Bem, que merda. De qualquer forma, ela já tinha sido feita antes. De qualquer maneira, era uma grande merda. E por que ele estava enlouquecendo por causa dela, hoje à noite? Depois do dia que tinha passado,

não se admirava por não conseguir raciocinar.

— … descer com ele?

Levantou os olhos, tentando afastar as teias de aranha mentais.

— Hein?

— Eu disse, como vamos descer com ele? Temos que sair daqui, Jack.

Por um momento, seu raciocínio ficou tão disperso, que ele sequer tinha certeza sobre o que a esposa estava falando. Então ele compreendeu, dando uma gargalhada.

— Você diz isso como se fosse muito fácil.

— Não quis dizer…

— Sem problemas, Wendy. Vou só trocar de roupa naquela cabine telefônica do saguão e sair voando com ele em minhas costas até Denver.

Super-homem Jack Torrance, era assim que me chamavam nos velhos tempos.

O rosto de Wendy demonstrou uma leve mágoa.

— Eu entendo a situação, Jack. O rádio está quebrado. A neve… mas você precisa entender o problema de Danny. Meu Deus, será que você não entende? Ele quase ficou catatônico, Jack! E se ele não tivesse melhorado?

— Mas melhorou — respondeu Jack, um pouco brusco demais. Ele também tinha ficado assustado com os olhos inexpressivos, sem emoção, de Danny, claro que tinha. A princípio. Mas, quanto mais pensava no assunto, mais imaginava se não teria sido um fingimento para se livrar do castigo.

Afinal de contas ele havia desobedecido a uma ordem que tinha sido expressamente dada.

— Mesmo assim — insistiu ela. Wendy foi até ele, sentando-se na ponta da cama junto da escrivaninha. Seu rosto estava preocupado e surpreso. —

Jack, os ferimentos no pescoço dele! Foi alguma coisa! Preciso que ele fique longe disso!

— Não grite. Minha cabeça está doendo, Wendy. Estou tão preocupado quanto você, então, por favor… não… grite.

— Está bem — concordou ela, baixando a voz. — Não vou gritar. Mas não estou entendendo você, Jack. Tem alguém aqui conosco. E não é alguém muito legal. Precisamos descer até Sidewinder, não apenas Danny, mas todos nós. Logo. E você… você fica aí sentado lendo sua peça!

— Precisamos descer, precisamos descer… você só fica dizendo isso.

Acho que você pensa que eu realmente sou um super-homem.

— Acho que você é meu marido — Wendy respondeu com calma,

baixando o olhar para suas mãos.

As têmporas de Jack latejavam. Ele bateu o original da peça contra a mesa, desalinhando a pilha de papel e amassando as folhas de baixo.

— Está na hora de você ouvir algumas verdades, Wendy. Parece que você não assimilou os fatos, como dizem os sociólogos. Está tudo solto em sua cabeça, como uma porção de bolas de bilhar. Você precisa aceitar a verdade.

Precisa entender que estamos presos pela neve.

Danny, de repente, ficou agitado na cama. Ainda dormindo, começou a virar de um lado para o outro. Da mesma maneira que sempre ficava quando brigamos, pensou Wendy, sombria. E estamos brigando de novo.

— Não o acorde, Jack. Por favor.

Ele olhou para Danny e ficou um pouco pálido.

— Certo. Desculpe. Desculpe se pareci irritado, Wendy. Não é por sua causa. Mas eu quebrei o rádio. Se a culpa é de alguém, tem que ser minha.

Era nosso grande meio de comunicação com o mundo exterior. Acabei com a brincadeira. Por favor, venha nos buscar sr. Guarda-Florestal, não podemos ficar até tão tarde.

— Não — disse ela, colocando a mão no ombro de Jack. Ele encostou a cabeça na mão dela. Com a outra mão, ela ajeitou o cabelo dele. — Acho que tem direito de se irritar, depois que acusei você. Às vezes, ajo como minha mãe. Posso ser uma vaca. Mas você precisa entender que algumas coisas…

são difíceis de superar. Tem que entender isso.

— Você quer dizer o braço dele? — Seus lábios se apertaram.

— Sim — confirmou Wendy, e rapidamente continuou: — Mas não é só isso. Eu me preocupo quando ele vai brincar lá fora. Me preocupo com o fato de ele querer uma bicicleta no ano que vem, mesmo sendo uma com rodinhas. Me preocupo com seus dentes, sua visão e com essa coisa que ele chama de iluminação. Eu me preocupo. Porque ele é pequeno, e parece tão indefeso, e porque… porque alguma coisa neste hotel parece desejar Danny.

E vai passar por cima de nós para conseguir pegar nosso filho, se for preciso.

É por isso que temos que sair daqui, Jack. Sei disso! Sinto isso! Temos que sair daqui!

Agitada, suas mãos apertaram dolorosamente os ombros do marido, mas ele permaneceu imóvel. Uma de suas mãos foi ao encontro do seio esquerdo da mulher, e ele começou a acariciá-lo por cima da blusa.

— Wendy — disse e parou. Ela esperou que ele reestruturasse o que ia dizer. Era gostoso e apaziguador sentir a mão forte de Jack sobre seu seio. —

Eu poderia descer com ele usando sapatos de neve. Ele poderia caminhar sozinho metade do caminho, mas eu teria que carregá-lo a maior parte do tempo. Significaria ter que acampar uma, duas ou três noites. Isso implicaria ter que montar uma mochila para carregar os utensílios e os colchonetes.

Temos o rádio AM/FM e poderíamos escolher um dia em que a previsão do tempo anunciasse três dias de estiagem. Mas se a previsão estiver errada —

concluiu, a voz macia e comedida —, acho que poderíamos morrer.

O rosto dela empalidecera. Parecia brilhante, quase fantasmagórico. Ele continuava a acariciar seu seio, esfregando a ponta do polegar no mamilo.

Ela emitiu um gemido suave… por causa das palavras do marido ou da carícia em seu seio, ele não sabia. Jack levantou um pouco a mão e desabotoou o primeiro botão de sua blusa. Wendy mexeu um pouco as pernas. De repente seus jeans pareciam muito apertados, quase irritantes, mas de uma forma agradável.

— Significaria ter que deixá-la sozinha, porque você, em matéria de caminhar na neve, não vale um tostão. Seriam três dias ao deus-dará. É isso o que você quer? — Sua mão desceu ao segundo botão e o abriu, deixando à mostra o espaço entre os dois seios.

— Não — respondeu ela com uma voz um pouco abafada. Olhou para Danny. Tinha parado de se virar de um lado para outro. O polegar voltara à boca. Estava tudo bem. Mas Jack estava omitindo alguma coisa. Tudo era desanimador demais. Haveria alguma coisa a mais… O quê?

— Se ficarmos — continuou Jack, desabotoando o terceiro e o quarto botões com aquela mesma lentidão deliberada —, um guarda-florestal ou um fiscal de caça virá aqui para dar uma olhada e saber como estamos. Nós simplesmente diremos que queremos descer. Ele vai dar um jeito. — Ele liberou os seios nus dela pelo V da blusa aberta, curvou-se e encaixou os lábios em um mamilo. Estava duro e excitado. Deslizou a língua devagar de um lado para outro, do jeito que sabia que ela gostava. Wendy gemeu um pouco e arqueou as costas.

( Alguma coisa que eu esqueci? )

— Amor? — ela perguntou. Suas mãos buscavam a cabeça do marido.

Quando ele respondeu, a voz estava abafada na pele da esposa. — Como é que o guarda-florestal nos levaria?

Ele levantou um pouco a cabeça para responder e então levou a boca ao outro mamilo.

— Se não puderem vir de helicóptero, acho que teria que ser em um

snowmobile.

(!!!)

— Mas temos um desses! Ullman disse que tínhamos!

A boca de Jack ficou paralisada no seio dela por um momento, e então ele se sentou. O rosto de Wendy estava vermelho, os olhos faiscando. Os de Jack, no entanto, estavam calmos como se ele estivesse lendo um livro sem graça, e não envolvido nas preliminares sexuais com a mulher.

— Se temos um snowmobile , não há problema — continuou Wendy animada. — Podemos descer os três juntos.

— Wendy, nunca dirigi um snowmobile na minha vida.

— Não pode ser tão difícil de aprender. Lá em Vermont, a gente vê crianças de dez anos pilotando essas motos pelos campos… apesar de eu não saber o que se passa pela cabeça dos pais dessas crianças. E você tinha uma moto quando nos conhecemos. — Jack tinha uma Honda 350 cc, que trocou por um Saab pouco depois que Wendy e ele foram viver juntos.

— Acho que poderia — disse ele devagar. — Mas imagino em que condições a manutenção deve estar. Ullman e Watson… eles dirigem este lugar de maio a outubro. Só pensam no verão. Certamente não tem gasolina nele. Pode estar sem velas e bateria. Não quero que você alimente esperanças vãs, Wendy.

Ela estava totalmente empolgada agora, inclinada sobre ele, com os seios para fora da blusa. Jack teve o desejo súbito de agarrar um deles e torcê-lo até ela gritar, talvez assim ela aprendesse a calar a boca.

— Quanto à gasolina, esse não será o problema — Wendy afirmou. —

Tanto nosso carro quanto o caminhão do hotel estão com o tanque cheio.

Também temos gasolina para o gerador de emergência lá embaixo. E deve ter algum latão de gasolina naquele depósito, para você poder levar um pouco mais como reserva.

— Sim — disse ele. — Tem, sim. — Na realidade, havia dois latões, um com vinte e outro com dez litros.

— Aposto como as velas e a bateria estão lá também. Ninguém guardaria um snowmobile num lugar e as velas e baterias em outro, né?

— Não parece provável, não acha? — Ele se levantou e caminhou até onde Danny dormia. Uma mecha de cabelo caíra sobre a testa do menino, e Jack a ajeitou delicadamente. Danny nem se mexia.

— Se conseguir consertá-lo, você nos leva embora? — perguntou Wendy, por trás dele. — No primeiro dia em que o rádio informar bom tempo?

Por um momento, ele não respondeu. Ficou parado olhando o filho, e seus sentimentos se dissolveram numa onda de amor. Danny era como Wendy dissera, vulnerável e frágil. As marcas no pescoço estavam salientes.

— Sim — respondeu. — Vou consertá-lo e vamos dar o fora o mais depressa possível.

— Graças a Deus!

Ele se virou. Wendy tinha tirado a blusa e deitado na cama, a barriga lisa, os seios apontados para o teto. Brincava com eles, preguiçosamente, mexendo nos mamilos.

— Depressa, senhores — disse ela baixinho. — Está na hora.

Mais tarde, sem nenhuma luz acesa no quarto a não ser o abajur que Danny trouxera do seu, ela se aconchegou nos braços do marido, sentindo-se deliciosamente em paz. Achava difícil acreditar que dividiam o Overlook com um assassino clandestino.

— Jack?

— Hum?

— Como ele se machucou?

Jack não respondeu diretamente.

— Ele realmente tem alguma coisa. Algum talento que não existe no resto de nós. Na maioria de nós, quero dizer. E talvez o Overlook tenha algo também.

— Fantasmas?

— Não sei. Não como nos livros de Algernon Blackwood, com certeza.

Seria mais como resíduos de sensações das pessoas que aqui ficaram.

Sensações boas e ruins. Neste sentido, acho que todo grande hotel tenha seus fantasmas. Especialmente os velhos.

— Mas uma mulher morta na banheira… Jack, será que ele está ficando louco?

Jack puxou Wendy para mais perto.

— A gente sabe que de vez em quando ele entra… bem, em transes, na falta de uma palavra melhor… E que, quando está em transe, ele às vezes…

Continuar: parte 3 de 4