O Iluminado

Stephen King · Capítulo 4 de 9 · parte 4/4

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O Iluminado

Quarta parte: Presos pela neve

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Mas não precisava descansar no caminho do parquinho , porque era em descida. Menos de dez minutos depois que lutava para subir a enorme duna de neve que se acumulara na varanda da frente do Overlook, ele estava com as mãos enluvadas no escorrega. E sequer arquejava.

O parquinho parecia muito mais bonito no meio da neve do que no outono.

Parecia uma escultura de um reino de fadas. As correntes dos balanços tinham congelado em estranhas posições, os assentos dos balanços para crianças maiores descansavam sobre a camada de neve. O trepa-trepa parecia uma caverna de gelo guardada por gotas congeladas em forma de dentes. Só as chaminés da miniatura do Overlook emergiam da neve, (queria que o de verdade estivesse enterrado assim, só que sem a gente dentro) além dos topos dos tubos de concreto salientes em dois lugares, como os iglus dos esquimós. Danny vagueou por ali, se agachou e começou a cavar.

Em pouco tempo descobriu a boca escura de um deles e entrou no tubo frio.

Imaginava ser Patrick McGoohan, o Agente Secreto (as reprises desse programa passaram duas vezes na televisão de Burlington, e o pai nunca perdia; deixava de ir a uma festa para ficar em casa e assistir a Agente secreto ou Os Vingadores, e Danny sempre fizera companhia a ele), em busca dos agentes do KGB nas montanhas da Suíça. Ocorreram avalanches na região, e Slobbo, o famoso agente do KGB, matara a namorada dele com um dardo venenoso, mas em algum lugar ali perto poderia encontrar a máquina russa antigravidade. Talvez no fundo deste mesmo túnel. Apanhou sua pistola e passou pelo túnel de concreto, os olhos muito abertos e alertas, fumaça saindo pelo nariz.

A outra extremidade do tubo estava solidamente bloqueada pela neve.

Tentou escavar, mas ficou espantado — e um pouco inquieto — de ver como estava sólida, quase como gelo, graças ao peso frio e constante de mais neve em cima.

O jogo de faz de conta desmoronou ao redor dele, e Danny ficou subitamente consciente de que estava se sentindo preso e extremamente nervoso dentro daquele anel apertado de cimento. Podia ouvir a própria

respiração: era abafada, rápida e fraca. Ele estava debaixo da neve, e quase nenhuma luz se infiltrava pelo buraco que tinha feito para entrar ali. De repente, sentiu vontade de sair e ficar no sol, mais do que tudo. Lembrou que os pais estavam dormindo e não sabiam onde ele estava, e que, se o buraco que ele cavou desmoronasse, ele ficaria preso. E que o Overlook não gostava dele.

Danny deu meia-volta com alguma dificuldade e engatinhou pelo túnel, os sapatos de neve batendo atrás dele, as palmas de suas mãos esmagando as últimas folhas mortas do outono. Conseguiu chegar à entrada do túnel e ao gélido feixe de luz que vinha do alto, quando a neve acabou cedendo, causando uma pequena avalanche, suficiente para salpicar seu rosto e obstruir a abertura por onde ele tinha entrado e deixar o menino na escuridão.

Por um momento, seu cérebro paralisou em absoluto pânico, e ele não conseguia sequer pensar. Então, como que vindo de muito longe, ouviu a voz do pai dizendo que ele não deveria nunca brincar no lixão de Stovington, porque, às vezes, pessoas idiotas jogavam suas geladeiras velhas lá, sem tirar as portas. Se você entrasse numa e a porta fechasse, não conseguiria mais sair. Você morreria na escuridão.

(Não ia gostar que uma coisa assim acontecesse com você, não é, velhinho?)

(Não, papai.)

Mas tinha acontecido, sua mente frenética dizia, tinha acontecido, ele estava no escuro, estava fechado, e era tão frio quanto uma geladeira. E…

( tem alguma coisa aqui comigo. )

Com o susto, sua respiração cessou. Um pavor estonteante correu suas veias. Sim. Sim. Alguma coisa estava ali com ele, alguma coisa horrorosa que o Overlook guardara para uma oportunidade como esta. Talvez uma aranha imensa que tinha se escondido debaixo das folhas mortas, ou um rato… Ou talvez o cadáver de alguma criança que morrera ali no parquinho.

Não teria acontecido isso? Sim, pensou ele, talvez. Pensou na mulher na banheira. No sangue e nos miolos na parede da Suíte Presidencial. Em alguma criança com a cabeça partida num tombo de um balanço, engatinhando atrás dele no escuro, sorrindo, à procura de um colega, no seu parquinho interminável. Para sempre. A qualquer momento, ele a ouviria chegando.

Na outra extremidade do tubo de concreto, Danny ouviu o furtivo farfalhar das folhas mortas, como se alguma coisa se estivesse aproximando dele,

engatinhando. A qualquer momento, sentiria uma fria mão segurar seu tornozelo…

Aquele pensamento desfez sua paralisia. Ele estava cavando a extremidade do tubo, jogando a neve para trás aos bocados, por entre suas pernas, como um cachorro cavando à procura de um osso. Uma luz azul penetrava, vinda de cima, e Danny se atirou naquela direção como um mergulhador saindo de águas profundas. Arranhou as costas na beirada do tubo de concreto. Um dos sapatos ficou torcido atrás do outro. A neve caiu para dentro de sua máscara de esqui e pela gola da parca. Cavava a neve como se tivesse garras. A neve parecia tentar segurá-lo, sugá-lo de volta para dentro do tubo de cimento, onde estava aquela coisa desconhecida que amassava folhas, e mantê-lo ali.

Para sempre.

Então ele conseguiu sair, o rosto voltado para o sol, rastejando pela neve, rastejando para longe do tubo semienterrado, respirando com dificuldade, o rosto quase comicamente branco de neve — uma máscara de medo viva. Foi mancando até o trepa-trepa e se sentou para ajeitar os sapatos e descansar.

Enquanto os ajeitava e amarrava novamente, não tirava os olhos do buraco do fundo do tubo. Esperou para ver se alguma coisa sairia. Nada aconteceu e, em três ou quatro minutos, Danny voltou a respirar com mais calma.

Independentemente do que fosse, essa coisa não suportava o sol. Estava engaiolada ali dentro, talvez só podendo sair quando escurecesse… Ou quando as duas saídas de sua prisão circular estivessem bloqueadas pela neve.

( mas estou seguro agora estou seguro vou voltar porque agora estou) Alguma coisa bateu de leve atrás dele.

Ele se virou em direção ao hotel e olhou. Mas, mesmo antes de olhar, ( Está vendo os índios neste desenho? )

sabia o que veria, porque sabia o que era aquela leve batida. Era o ruído de um pedaço grande de neve caindo, o mesmo ruído que havia quando a neve escorregava do telhado do hotel e caía no chão.

( Está vendo…? )

Sim. Via. A neve tinha caído do arbusto em forma de cachorro. Quando chegara ao chão, era apenas um amontoado inofensivo de neve. Agora estava ali descoberto, um pedaço de verde deslocado na brancura da neve. O cão estava sentado, como que pedindo um docinho ou alguma sobra.

Mas desta vez Danny não iria se apavorar, não se entregaria. Pelo menos não estava preso num buraco escuro. Estava sob a luz do sol. E aquilo era

apenas um cachorro. O dia hoje está bonito, pensou com esperança. O sol simplesmente derreteu a neve de cima do velho cão, e o resto caiu em pedaços. Talvez seja só isso.

( Não se aproxime daquele lugar… mantenha-se afastado.) As fivelas dos sapatos estavam tão apertadas quanto poderiam estar. Ele se levantou e olhou fixamente para o tubo de concreto, quase totalmente submerso na neve, e o que viu no fundo de onde saíra congelou seu coração.

Havia um círculo escuro, uma sombra que marcava o buraco que cavara para entrar. Agora, apesar do brilho refletido da neve, pensou estar vendo alguma coisa ali dentro. Alguma coisa se mexendo. Uma mão. O aceno de uma criança infeliz desesperada, uma mão acenando, suplicando, afogada.

( Socorro. Ah, por favor, me ajude. Se não pode me salvar, pelo menos venha brincar comigo… Para sempre. Para sempre. Para sempre. )

— Não — sussurrou Danny, rouco. A palavra saiu murcha e simples de sua boca, que estava seca. Sentia sua mente hesitando, tentando ir embora, como fizera quando a mulher no quarto tinha… não, melhor não pensar nisso.

Agarrou os cordões da realidade, segurando-os com força. Precisava sair dali, manter-se concentrado nisso. Ficar calmo. Agir como o Agente Secreto.

Patrick McGoohan choraria e urinaria nas calças como um bebezinho?

E seu pai, faria isso?

Esse pensamento o acalmou um pouco.

Atrás dele, ouviu novamente aquele baque surdo de neve caindo. Ao se virar, viu agora a cabeça de um dos leões fora da neve, rosnando para ele.

Estava mais próximo do que devia, quase no portão do parquinho.

O terror tentou tomar conta dele, mas Danny o dominou. Era o Agente Secreto, e escaparia.

Começou a sair do parquinho, tomando o mesmo atalho que o pai tomara no dia em que a neve começou. Manteve o foco nos sapatos. Passos lentos e pisando reto. Não levante muito os pés ou perderá o equilíbrio. Gire o tornozelo e tire a neve da tela da sola. Parecia tão lento. Chegou ao canto do parquinho . A neve estava alta aqui, e ele pôde passar por cima da cerca. Na metade da travessia o sapato ficou preso em um dos mourões da cerca, e ele quase caiu. Girou os braços para manter o equilíbrio, lembrando que, se caísse no chão, seria muito difícil levantar.

À direita, ouviu o ruído novamente, pedaços de neve caindo. Olhou e viu os outros dois leões, sem neve em cima, agora sobre as quatro patas, lado a lado, a vinte metros de distância. As depressões verdes, que eram os olhos,

estavam fixas nele. O cachorro havia virado a cabeça.

( Só acontece quando você não está olhando. )

— Ahn, ei…

Tropeçou e caiu para a frente, na neve, os braços sacudindo inutilmente.

Mais neve entrou no capuz, pelo pescoço e pelo cano das botas. Lutou para se levantar e colocou os sapatos no chão, o coração batendo forte (Agente Secreto, lembre-se que você é o Agente Secreto) e se desequilibrou para trás. Por um momento, ficou ali deitado, olhando para o céu, pensando que seria mais simples desistir.

Pensou então na coisa dentro do túnel de concreto, sabendo que não devia.

Conseguiu se levantar e olhou para a topiaria. Os três leões estavam agrupados, a menos de quinze metros de distância. O cachorro havia se posicionado à esquerda deles, como se para impedir a fuga de Danny.

Estavam livres da neve, a não ser por alguns flocos em volta do pescoço e do focinho. Todos olhavam fixamente para Danny.

Sua respiração estava acelerada, e o pânico era como um rato em sua testa, correndo e roendo. Lutava contra o pânico e contra os sapatos.

( A voz do pai: Não, não lute contra eles, velhinho. Pise neles como se fossem seus pés. Caminhe com eles. ) ( Sim, papai. )

Começou a andar novamente, tentando readquirir o ritmo tranquilo que praticara com o pai. Aos poucos foi conseguindo, mas com o ritmo veio a consciência do cansaço, do quanto o medo o deixara esgotado. Os tendões das coxas, das panturrilhas e dos tornozelos estavam trêmulos e quentes.

Adiante podia ver o Overlook, parecendo zombar ao longe, olhar para ele com suas muitas janelas, como se isso fosse uma espécie de concurso no qual estava pouco interessado.

Danny olhou por cima dos ombros; sua respiração acelerada ficou calma por um momento, e em seguida continuou ainda mais apressada. O leão mais próximo estava agora apenas a seis metros de distância, enfrentando a neve como um cachorro nadando numa lagoa. Os dois outros estavam à direita e à esquerda dele. Eram como um pelotão do Exército em patrulha, o cachorro, ainda à esquerda, o batedor. O leão mais próximo estava com a cabeça baixa.

Os ombros juntos poderosamente sobre o pescoço. A cauda levantada como se, no instante anterior em que se voltara para olhar, ela estivesse balançando para lá e para cá. Achou que ele lembrava um grande gato doméstico que se divertia, brincando com o rato antes de matá-lo.

( … caindo…)

Não, se caísse estaria morto. Nunca deixariam que ele se levantasse. Eles o atacariam. Girou os braços como louco e se lançou para a frente, com o centro de gravidade dançando logo diante do nariz. Manteve o equilíbrio e correu, dando rápidas olhadas para trás. O ar saía e entrava pela garganta seca, cortando como vidro quente.

O mundo se resumia na neve brilhante, nos arbustos verdes e no ruído sussurrante de seus sapatos de neve. E em outro som: um barulho suave e abafado de patas na neve. Tentou andar mais depressa, mas não conseguiu.

Caminhava sobre a pista para carros que estava soterrada, um menininho com o rosto quase escondido na sombra do capuz da parca. A tarde estava calma e brilhante.

Quando olhou novamente para trás, o leão da frente estava apenas a um metro e meio de distância. Sorrindo. A boca estava aberta, o dorso tenso como uma mola de relógio. Atrás dele e dos outros podia ver o coelho, a cabeça agora saindo da neve, verde-clara, como se tivesse virado a cara sem expressão para assistir ao fim da caçada.

Agora, no gramado da frente do Overlook, entre a pista circular para carros e a varanda, Danny deixou o pânico tomar conta dele e começou a correr desajeitado nos sapatos de neve, sem se atrever a olhar para trás, cada vez mais inclinado para a frente, os braços esticados como um cego tateando obstáculos. O capuz caiu para trás, descobrindo a pele branca e a face corada, os olhos arregalados de pavor. A varanda estava muito próxima agora.

Atrás dele ouvia o repentino esmagar de neve, como se alguma coisa tivesse dado um salto.

Danny caiu nos degraus da varanda, gritando sem voz, e os subiu apoiado nas mãos e nos joelhos, os sapatos batendo no chão, virados para o lado errado.

Um ruído cortou o ar e de repente ele sentiu uma dor na perna. Barulho de roupa sendo rasgada. Mais uma coisa que devia — tinha — que ser em sua mente.

Um urro, um rugido zangado.

Cheiro de sangue e folhagem.

Caiu na varanda, soluçando rouco, um forte gosto de cobre na boca. O

coração batendo forte no peito. Havia um fio de sangue saindo do nariz.

Danny não teve noção do tempo que ficou ali deitado até que as portas do saguão se abriram e Jack saiu correndo, só de jeans e chinelos. Wendy estava

atrás dele.

— Danny! — gritou ela.

— Velhinho! Danny, pelo amor de Deus! O que houve? O que aconteceu?

O pai o ajudou a se levantar. Abaixo do joelho, a calça de neve estava rasgada. Por baixo, a meia de lã também tinha sido rasgada, e a panturrilha estava superficialmente arranhada… como se ele tivesse tentado trepar num cipreste muito denso e se machucado com os galhos.

Olhou para trás. Lá embaixo, depois do gramado, estavam alguns amontoados de neve. Os animais. Entre eles e o parquinho . Entre eles e a estrada.

Suas pernas fraquejaram, e ele caiu nos braços de Jack. Danny começou a chorar.

35

O SAGUÃO

Danny contou tudo aos pais, omitindo apenas o que acontecera quando a neve bloqueou a saída do anel de concreto. Não conseguia repetir aquilo. E não encontrava as palavras certas para expressar a crescente e exaustiva onda de terror que tinha sentido quando ouviu as folhas mortas de álamo estalarem furtivamente na escuridão fria. Mas contou a eles sobre o ruído surdo da neve caindo em montes. Sobre o leão com a cabeça e os ombros juntos, lutando contra a neve para persegui-lo. Falou até mesmo sobre o coelho virando a cabeça para assistir ao final.

Os três estavam no saguão. Jack tinha acendido um fogo alto na lareira.

Danny estava enrolado em um cobertor no pequeno sofá, onde, certa vez, há dez milhões de anos, três freiras sentaram, rindo como meninas, enquanto esperavam a fila na recepção diminuir. O menino bebericava sopa de macarrão numa caneca. Wendy estava a seu lado, fazendo carinho em seus cabelos. Jack, sentado no chão, ficava com o rosto cada vez mais circunspecto à medida que Danny contava a história. Por duas vezes, Jack puxou o lenço do bolso de trás e esfregou o lábio ferido.

— Então, eles me perseguiram — concluiu o garoto. Jack se levantou e caminhou até a janela de costas para eles. Danny olhou para a mãe. — Eles me seguiram o tempo todo, até a varanda. — Lutava para manter a voz calma, porque, se mantivesse a calma, talvez acreditassem nele. O sr. Stenger não tinha ficado calmo; começara a chorar e não tinha conseguido parar, então OS HOMENS DE JALECO BRANCO o levaram, porque, se alguém não pudesse parar de chorar, isso significava que estava com os PARAFUSOS FROUXOS, e quando voltaria? NINGUÉM

SABE. Seu capuz, calças e sapatos encharcados estavam sobre o tapete junto às grandes portas da frente.

( Não vou chorar não vou me permitir chorar)

E achava que conseguiria, mas não conseguia parar de tremer. Olhava para o fogo e esperava que o pai dissesse alguma coisa. Chamas altas amarelas na lareira de pedra escura. Um pedaço de lenha estourou e as faíscas correram para a chaminé da lareira.

— Danny, vem cá. — Jack se virou para eles. Seu rosto ainda tinha aquela expressão aflita e mortiça. Danny não gostava de olhar.

— Jack…

— Só quero que ele venha aqui um minuto.

Danny desceu do sofá e foi para junto do pai.

— Ótimo. O que você está vendo agora?

Danny sabia o que iria ver, mesmo antes de chegar à janela. Abaixo das confusas pegadas de botas, marcas de trenó e de sapatos de neve, que demarcavam a área normal de movimentação deles, o campo de neve que cobria os jardins do Overlook descia até os arbustos e o parquinho, mais adiante. E estava marcado apenas por dois conjuntos de pegadas, um deles em linha reta, da varanda ao parque , o outro uma longa curva que subia.

— Só minhas pegadas, papai. Mas…

— E os arbustos, Danny?

Os lábios de Danny começaram a tremer. Ia chorar. E se não conseguisse parar?

( não vou chorar não vou chorar não vou não vou NÃO VOU)

— Estão cobertas de neve — sussurrou. — Mas, papai…

— O quê? Não ouvi!

— Jack, isto é um interrogatório! Não vê que ele está triste, que ele está…

— Cale a boca! Então, Danny?

— Eles me arranharam, papai. Minha perna…

— Você deve ter cortado a perna na crosta de neve.

Então, Wendy se meteu entre eles, o rosto pálido e zangado.

— O que você quer que ele faça? — perguntou. — Confesse um assassinato? Qual é o seu problema?

A estranheza dos olhos de Jack pareceu se romper.

— Estou tentando ajudar Danny a entender a diferença entre uma coisa real e uma alucinação, só isso. — Jack se agachou ao lado do filho, para que pudessem ficar da mesma altura, e então o abraçou apertado. — Danny, não

aconteceu de verdade. O.k.? Foi como aqueles transes que você às vezes tem.

Só isso.

— Papai?

— Que foi, Dan?

— Não cortei a perna numa crosta. Não tem nenhuma crosta. A neve ainda está macia. Nem fica grudada para a gente fazer bolas de neve. Lembra que a gente tentou fazer uma guerra de bola de neve e não conseguiu?

O menino sentiu o pai se enrijecendo ao seu lado.

— Então se cortou no degrau da varanda?

Danny se afastou do pai. De repente, teve a certeza. Sua mente se iluminou repentinamente, como às vezes acontecia, como tinha acontecido com a mulher que queria se meter na calça cinza do homem. Olhou o pai com os olhos cada vez mais arregalados.

— Você sabe que estou dizendo a verdade — murmurou o garoto, chocado.

— Danny… — O rosto de Jack ficou tenso.

— Você sabe porque também viu…

O som da palma aberta de Jack atingindo o rosto de Danny foi abafado, nem um pouco dramático. A cabeça do menino foi jogada para trás, o formato da mão do pai impresso em vermelho na bochecha, como uma marca de gado.

Wendy gemeu.

Ficaram imóveis por um momento, os três, e então Jack agarrou o braço do filho e disse:

— Danny, me desculpe. Você está bem, velhinho?

— Você bateu nele, seu filho da puta! — gritou Wendy. — Seu filho da puta imundo!

Ela agarrou a outra mão do filho e, por um momento, Danny ficou sendo puxado pelos dois.

— Ai, por favor, parem de me puxar! — gritou, e havia tanta agonia em sua voz que os dois o soltaram. Então as lágrimas tiveram que cair e ele desabou, aos prantos, entre o sofá e a janela. Os pais o olhavam, sem poder fazer nada, como crianças que observam um brinquedo que quebrou depois de uma briga furiosa. Na lareira, outro pedaço de lenha estourou como uma granada, assustando os três.

Wendy deu uma aspirina infantil para Danny, e Jack o colocou na cama de dobrar. Sem protestos, o menino adormeceu rapidamente, com o polegar na

boca.

— Não gosto disso — falou ela. — É uma regressão.

Jack não respondeu. Ficou apenas olhando para o filho, com calma, sem raiva, sem também sorrir.

— Quer que eu me desculpe por ter chamado você de filho da puta? Tudo bem, peço desculpa. Perdão. Mas ainda acho que não devia ter batido nele.

— Eu sei — murmurou Jack. — Sei disso. Não sei que diabo foi que aconteceu comigo.

— Você prometeu que nunca mais bateria nele.

Ele a olhou furioso, mas a fúria logo arrefeceu. De repente, com pena e pavor, ela viu como Jack seria quando ficasse velho. Nunca o tinha visto assim antes.

(assim como?)

Derrotado, ela mesma respondeu. Ele parece vencido.

— Sempre pensei que pudesse cumprir minhas promessas — comentou Jack.

Ela foi até ele e colocou as mãos sobre seu braço.

— Bem, está terminado. Quando o guarda-florestal vier para nos ver, vamos dizer que queremos descer. Certo?

— Certo — respondeu ele; e naquele momento, pelo menos, estava sendo sincero. Da mesma forma que sempre havia sido sincero nas manhãs seguintes, olhando o rosto pálido e selvagem no espelho do banheiro. Vou parar, vou largar tudo de vez. Mas a manhã dava lugar à tarde, e à tarde ele se sentia um pouco melhor. E a tarde dava lugar à noite. Como diria um grande pensador do século XX, a noite precisa vir.

Desejava que Wendy perguntasse sobre os arbustos, sobre o que Danny quis dizer com Você sabe porque também viu… Se ela perguntasse, ele contaria tudo. Tudo. Os arbustos, a mulher no quarto, falaria até sobre a mangueira do extintor de incêndio que pareceu ter mudado de posição. Mas até onde iria a confissão? Poderia dizer que tinha jogado o magneto fora?

Que todos poderiam estar em Sidewinder agora, se não tivesse feito aquilo?

Mas o que ela disse foi:

— Quer chá?

— Quero. Uma xícara de chá cairia bem.

Ela caminhou até a porta e parou, esfregando os braços por cima do suéter.

— A culpa é tanto minha quanto sua — afirmou. — O que estávamos fazendo enquanto ele passava por aquele… sonho, ou seja lá o que for?

— Wendy…

— Estávamos dormindo — completou ela. — Dormindo como um casal de adolescentes que deram uma rapidinha.

— Pare com isso. Já passou.

— Não — respondeu Wendy, dando um sorriso estranho e inquieto. —

Não passou.

Foi fazer o chá e o deixou tomando conta do filho.

36

O ELEVADOR

Jack acordou de um sono leve e inquieto, onde figuras enormes e indefinidas o perseguiam por intermináveis campos de neve até chegar ao que pensou ser outro sonho: escuridão, uma repentina mistura de sons mecânicos — cliques e estalos, zumbidos, chacoalhares, pancadas e sopros.

Então, Wendy se sentou ao seu lado, e ele percebeu que não era um sonho.

— Que barulho foi esse? — a mão dela, fria, segurou seu pulso. Ele reprimiu a vontade de se esquivar… como é que ele podia saber o que era aquilo? O relógio iluminado na mesa de cabeceira marcava cinco para meia-noite.

O ruído novamente. Alto e constante, com pouquíssima variação. O

zumbido parou, dando lugar a um estalo metálico. Uma pancada sacolejante.

Um baque. Então, o zumbido recomeçou.

Era o elevador.

Danny estava sentado na cama.

— Papai? Papai? — Sua voz estava sonolenta e assustada.

— Estou aqui, velhinho — disse Jack. — Venha para cá. Sua mãe também está acordada.

Ouviram o ruído dos lençóis sendo remexidos, enquanto Danny subia na cama para ficar entre eles.

— É o elevador — sussurrou o garoto.

— É sim — confirmou Jack. — Só o elevador.

— Como assim só? — perguntou Wendy. Havia uma camada de histeria em sua voz. — Estamos no meio da noite. Quem está operando ele?

Zummmm. Clink/Clank. Acima deles agora. O chacoalhar da grade se abrindo, a batida das portas se abrindo e fechando. Em seguida, o ruído do motor e dos cabos novamente.

Danny começou a chorar.

Jack pôs os pés no chão.

— Talvez seja um curto-circuito. Vou dar uma olhada.

— Não se atreva a sair deste quarto!

— Não seja estúpida — respondeu ele, vestindo o roupão. — É o meu trabalho.

Pouco depois ela mesma havia saído da cama, tendo Danny a seu lado.

— Nós vamos também.

— Wendy…

— Qual é o problema? — perguntou Danny sombriamente. — Qual é o problema, papai?

Em vez de responder, Jack deu as costas, o rosto zangado e duro. Fechou o roupão, abriu a porta e saiu pelo corredor escuro.

Wendy hesitou por um momento, e na verdade foi Danny que começou a andar primeiro. Ela foi atrás dele rapidamente, e todos saíram juntos.

Jack não se importou com a escuridão. Wendy tateou à procura do interruptor que acendia as quatro lâmpadas do espaço que levava ao corredor principal. Adiante, Jack quase sumia de vista. Então Danny encontrou os interruptores e acionou os três de uma vez. O corredor que levava às escadas e ao elevador se iluminou.

Jack estava parado diante da porta do elevador, que era ladeada por bancos e cinzeiros de pé. Estava imóvel em frente à porta fechada. No roupão xadrez desbotado, chinelos de couro marrom com saltos gastos e o cabelo todo despenteado, ele parecia um absurdo Hamlet do século XX, uma figura indecisa, tão hipnotizada pela tragédia que se aproximava que se sentia incapaz de desviar ou alterar seu curso.

( deus pare de pensar como louca…)

As mãos de Danny estavam muito apertadas às da mãe. Ele olhava atentamente para ela, o rosto tenso e ansioso. Estava tentando captar meus pensamentos, concluiu Wendy. Era impossível saber o quanto ele estava captando dos dois, mas ela ruborizou, como se tivesse sido flagrada se masturbando.

— Venha — disse ela, e caminharam no corredor em direção a Jack.

O barulho ali era mais alto, aterrorizante de uma maneira distante e paralisante. Jack olhava fixamente para a porta. Pela janelinha de vidro, no centro, Wendy pensou que poderia enxergar os cabos vibrando um pouco. O

elevador retiniu parando abaixo deles, no saguão. Ouviram as portas abrirem.

E…

( festa)

Por que ela pensou em festa? A palavra simplesmente saltara em sua cabeça sem qualquer razão. O silêncio no Overlook era completo e intenso, com exceção dos ruídos estranhos que vinham do poço do elevador.

(deve ter sido uma baita festa)

( QUE FESTA??? )

Por um momento, a mente de Wendy se encheu com uma imagem tão real, que parecia ser uma lembrança… não qualquer lembrança, mas uma daquelas que você considera preciosa, uma daquelas que você guarda para ocasiões muito especiais e raramente fala nela. Luzes… centenas, talvez milhares delas. Luzes e cores, o estourar das rolhas de champanhe, uma orquestra de quarenta pessoas tocando “In the Mood”, de Glenn Miller. Mas Glenn Miller tinha morrido numa queda de avião antes de ela ter nascido, como ela poderia ter uma memória do músico?

Olhou para Danny e viu sua cabeça inclinada para o lado, como se ele estivesse ouvindo algo que ela não ouvia. O rosto estava pálido.

Um solavanco.

A porta se fechou lá embaixo. Um gemido zumbiu conforme o elevador começou a subir. Ela viu o motor em cima do carro pela janelinha de vidro, depois o interior do carro por trás dos losangos formados pela grade. A luz amarela pálida do teto do carro. Estava vazio. O carro estava vazio. Estava vazio, mas

(nas noites de festa eles devem ter entrado às dúzias, devem ter enchido o carro do elevador além dos seus limites de segurança, mas naturalmente ele era novo nessa época, e todos usando máscaras)

( QUE MÁSCARAS??? )

O elevador parou no andar de cima, terceiro andar. Ela olhou para Danny.

Seu rosto eram só olhos. A boca apertada, amedrontada e branca. Acima deles, a grade abrindo. A porta do elevador aberta num baque, aberta num baque porque era hora, a hora era chegada, era hora de dizer ( Boa noite… boa noite… sim, foi maravilhoso… não, realmente não posso ficar para a retirada das máscaras… cedo para a cama, cedo para levantar… ah, aquela era Sheila?… O monge?… puxa, não é engraçado, Sheila vestida de monge?… sim, boa noite… boa) Solavanco.

Som metálico. Motor engatado. O carro começou a descer.

— Jack — sussurrou ela. — O que é isso? O que está acontecendo?

— Um curto-circuito — respondeu Jack. Seu rosto estava rígido como

madeira. — Eu falei que era um curto-circuito.

— Fico ouvindo vozes em minha cabeça! — gritou Wendy. — O que é? O

que está acontecendo? Sinto como se estivesse ficando louca!

— Que vozes? — Jack olhou para ela de uma maneira mortalmente imperturbável.

Ela se virou para Danny.

— Você ouviu…?

Danny assentiu lentamente com a cabeça.

— Sim. E música. De muito tempo atrás. Na minha cabeça.

O elevador parou novamente. O hotel estava silencioso, estalando, deserto.

Lá fora o vento gemia na escuridão.

— Talvez vocês dois estejam ficando loucos — afirmou Jack com naturalidade. — Não escuto absolutamente nada, só mesmo o elevador passando por um caso de soluço elétrico. Se vocês dois querem formar um dueto histérico, tudo bem. Mas não contem comigo.

O elevador estava descendo de novo.

Jack deu um passo à direita, onde uma caixa com a frente de vidro estava instalada à altura do peito. Ele socou o vidro com o punho nu. O vidro quebrou, caindo para dentro. O sangue escorria dos nós dos dedos. De dentro, tirou uma chave com uma haste comprida e lisa.

— Jack, não. Não.

— Vou fazer meu trabalho. Agora me deixe sozinho, Wendy!

Ela tentou segurá-lo pelo braço, mas ele a empurrou para trás. Seus pés tropeçaram na barra do roupão e ela caiu no tapete com um tombo desajeitado. Danny deu um grito estridente e caiu de joelhos ao lado dela.

Jack se virou para o elevador e enfiou a chave no buraco.

Os cabos do elevador desapareceram, e o piso do carro surgiu na pequena janela. Um segundo depois, Jack girou a chave com força. Escutou um rangido e um chiado enquanto o elevador parava. Por um momento, o motor desembrenhado, no porão, fez ainda mais barulho, e então o disjuntor o desligou, deixando o Overlook em silêncio. O vento da noite lá fora, em comparação, parecia muito alto. Jack olhou estupidamente para a porta cinza de metal do elevador. Havia três manchas grandes de sangue embaixo da fechadura, dos seus nós dos dedos dilacerados.

Ele se voltou para Wendy e Danny. Ela estava sentada, e Danny tinha o braço a sua volta. Os dois o olhavam fixamente, como se ele fosse um estranho, possivelmente um estranho perigoso. Ele abriu a boca sem ter

certeza do que ia sair.

— É… Wendy, é o meu trabalho.

— Foda-se o seu trabalho — respondeu ela com clareza.

Ele se virou novamente para o elevador, enfiou os dedos na fenda que corria no lado direito da porta e a abriu um pouco. Depois, conseguiu pôr todo seu peso na porta e a abriu por completo.

O carro havia parado na metade, o piso na altura do peito de Jack. A luz calorosa se derramou para fora, contrastando com a escuridão oleosa do poço embaixo.

Jack olhou para dentro, durante o que pareceu um longo tempo.

— Está vazio — afirmou ele. — Um curto-circuito, como eu tinha dito. —

Enganchou os dedos na fenda atrás da porta e começou a fechá-la… Em seguida, as mãos dela pousaram sobre seu ombro, com surpreendente força, afastando Jack para o lado.

— Wendy! — gritou ele. Mas ela já havia se jogado sobre o piso do elevador e dado um pulo, para olhar o interior do carro. Em seguida, fazendo força com os ombros e a barriga, se impulsionou para cima. Por um momento, ficou pendurada. Seus pés balançavam sobre a escuridão do poço, e um chinelo cor-de-rosa caiu do pé e desapareceu.

— Mamãe! — gritou Danny.

Então, ela estava suspensa, as bochechas rubras, a testa tão pálida e iluminada como uma lamparina.

— O que é isto, Jack? É um curto-circuito? — Jogou alguma coisa e, de repente, o corredor estava cheio de confetes vermelhos, brancos, azuis e amarelos. — É? — Uma serpentina verde, desbotada com o tempo em um tom pastel claro. — E isto? — Atirou o objeto, que pousou no tapete azul: uma máscara de seda negra, enfeitada de lantejoulas no canto das têmporas.

— Isto parece um curto-circuito, Jack? — gritou para o marido.

Jack se afastou devagar, sacudindo a cabeça mecanicamente. A máscara olhava perdida para o teto, pousada sobre o tapete do corredor coberto de confete.

37

O SALÃO DE BAILE

Era 1o de dezembro.

Danny estava no salão de baile da ala leste, sentado em uma poltrona estofada e de espaldar alto. Observava o relógio que ficava no centro, na prateleira acima da lareira, ladeada por dois grandes elefantes de marfim.

Quase esperava que os elefantes começassem a se mexer e tentassem espetá-lo com suas presas, mas eles permaneciam imóveis. Eram “seguros”. Desde a noite do elevador, dividia todos os elementos no Overlook em duas categorias. O elevador, o porão, o parquinho, o apartamento 217 e a Suíte Presidencial (era Suíte, era assim que se escrevia; tinha visto numa planilha de contabilidade que o pai estava lendo no jantar na noite anterior e memorizara com cuidado)… estes lugares eram “inseguros”. Seus alojamentos, o saguão e a varanda eram “seguros”. Aparentemente o salão de baile também era.

(Os elefantes pelo menos são.)

Não estava certo quanto aos outros lugares e, portanto, em geral os evitava.

Olhou para o relógio dentro da redoma de vidro. Ficava sob o vidro porque toda a sua engrenagem estava exposta. Um sulco cromado ou de aço contornava estes trabalhos, e bem abaixo do mostrador havia uma barra com um par de rodas dentadas em cada extremidade. Os ponteiros estavam parados quinze minutos depois das onze, e, apesar de não conhecer algarismos romanos, Danny podia adivinhar, pela configuração dos ponteiros, a que horas o relógio tinha parado. O relógio repousava sobre uma base de veludo. Em frente, um pouco distorcida pela curva da redoma, estava uma chave de prata, cuidadosamente trabalhada.

Ele supôs que o relógio era um dos objetos em que ele não devia tocar, assim como os atiçadores decorativos da lareira, que ficavam no armário torneado de bronze junto à lareira do saguão, ou a alta cômoda de louças no fundo do restaurante.

Uma sensação de injustiça e de revolta cresceram nele e ( não se incomode com o que não posso tocar, simplesmente não se incomode; me tocou, não tocou? brincou comigo, não brincou? ) Era verdade. Além disso, as coisas não tinham tomado cuidado para não machucar Danny. Danny estendeu as mãos, pegou a redoma de vidro, a levantou e a acomodou do lado. Por um momento, deixou um dedo brincar sobre o interior do relógio, a ponta do indicador acompanhando os dentes da engrenagem, percorrendo de leve as rodas. Pegou a chave de prata. Para um adulto, seria desconfortavelmente pequena, mas cabia perfeitamente entre seus dedos. Ele a encaixou no buraco, no centro do mostrador. Ela se encaixou firmemente em seu lugar, com um pequeno clique, mais sentido do que ouvido. Girava para a direita, claro: sentido horário.

Danny girou a chave até que ela ficasse travada e então a retirou. O relógio

começou a bater. Os dentes giravam. Uma grande roda balançava de um lado para outro, em semicírculos. Os ponteiros se mexiam. Se a pessoa mantivesse a cabeça imóvel e os olhos bem abertos, poderia ver o ponteiro dos minutos caminhando para, daqui a quarenta e cinco minutos, se encontrar com o ponteiro das horas. Às doze.

( E a Morte Rubra dominava tudo. )

Ele franziu a testa e afastou o pensamento. Era um pensamento sem significado, sem referência para ele.

Estendeu o dedo indicador mais uma vez e empurrou o ponteiro dos minutos até o das horas, curioso com o que poderia acontecer. Obviamente, não era um relógio de cuco, mas aquele trilho de metal provavelmente tinha algum propósito.

Ouviu uma pequena série de cliques, e então o relógio começou a tocar

“Danúbio Azul”, de Strauss. Um rolo de tecido perfurado, com aproximadamente cinco centímetros de largura, começou a se desenrolar.

Uma pequena série de martelinhos subia e descia. Atrás do mostrador, duas figuras deslizaram para a frente pelo trilho de aço. Bailarinos. À esquerda, uma jovem com uma saia de tule e meias brancas; à direita, um rapaz de malha negra e sapatilhas. Os braços deles estavam erguidos em arco sobre suas cabeças. No centro do relógio, em frente ao seis, eles se encontravam.

Danny viu pequenos sulcos nas laterais dos bailarinos, exatamente na altura das axilas. Uma barra entrou por esses sulcos, e ele ouviu outro pequeno clique. As rodas dentadas dos dois lados da barra começaram a girar. O “Danúbio Azul” continuava soando. Os braços dos bailarinos desceram e se entrelaçaram. O rapaz levantou a moça acima da cabeça e em seguida rodopiou sobre a barra. Agora estavam deitados de bruços, a cabeça do rapaz mergulhada por baixo da saia curta de balé da moça, o rosto dela apertado no meio da malha do rapaz. Contorciam-se num frenesi mecânico.

O nariz de Danny franziu. Estavam beijando os pipis um do outro. Aquilo o deixou enjoado.

Minutos depois, os movimentos começaram a retroceder. O rapaz rodopiou sobre a barra e ergueu a moça para uma posição vertical. Pareciam se cumprimentar com a cabeça, enquanto os braços formavam o arco sobre suas cabeças. Saíram da mesma maneira como chegaram, desaparecendo assim que o “Danúbio Azul” terminou. O relógio começou a repicar os carrilhões de prata.

( Meia-noite! Está batendo meia-noite! )

( Retirem as máscaras! )

Danny rodopiou na poltrona, quase caindo. O salão de baile estava vazio.

À frente do janelão, via neve fresca começando a cair. O imenso tapete do salão (que só era usado durante o baile, claro), com um bordado opulento, dourado e vermelho, repousava tranquilo sobre o chão. Espalhadas ao redor, estavam pequenas mesas para dois, as cadeiras viradas para baixo, com as pernas apontando para o teto.

O salão todo estava vazio.

Mas não estava realmente vazio. Porque aqui, no Overlook, as coisas simplesmente pareciam não terminar. Houve uma noite interminável em agosto de 1945, com alegria e bebida, alguns poucos escolhidos subindo e descendo no elevador, bebendo champanhe e soprando língua de sogra na cara um do outro. Ainda não era de manhã, em junho, vinte anos depois, e os mafiosos dispararam inúmeros tiros de escopeta nos corpos dilacerados e sangrentos de três homens, que viviam uma infindável agonia. Num quarto do segundo andar, uma mulher boiava na banheira, esperando visita.

No Overlook, tudo tinha uma espécie de vida. Era como se algo tivesse dado corda no prédio inteiro, com uma chave de prata. O relógio batia. O

relógio batia.

Ele era aquela chave, pensou Danny, triste. Tony havia dado o aviso, mas Danny simplesmente deixou que as coisas prosseguissem.

( Só tenho cinco anos! )

Gritou para uma presença que conseguia sentir naquele aposento.

( Não faz diferença nenhuma eu ter só cinco anos? ) Não houve resposta.

Relutante, ele se virou para o relógio.

O menino vinha adiando aquele momento, na esperança de que alguma coisa acontecesse e o ajudasse a não chamar Tony novamente. Que um guarda-florestal chegasse, ou um helicóptero, ou uma equipe de salvamento.

Sempre chegavam na hora certa nos programas de televisão, e as pessoas eram salvas. Na televisão, os guardas, a SWAT e o pessoal da equipe médica eram uma força amistosa, que contrabalançavam o mal que ele percebia no mundo; quando as pessoas estavam em apuros, eram socorridas. Eles não precisavam lutar para sair sozinhos.

( Por favor? )

Não houve resposta.

Nenhuma resposta, e se Tony aparecesse, seria o mesmo pesadelo? A voz

exuberante, rouca e petulante, o tapete preto e azul como cobras? Redrum?

Mas o que mais?

( Por favor ah por favor)

Nenhuma resposta.

Com um suspiro trêmulo, Danny olhou para o mostrador do relógio. Rodas dentadas giravam e se encaixavam umas nas outras. Uma outra balançava hipnoticamente de um lado para outro. E, se você mantivesse a cabeça imóvel, poderia ver o ponteiro dos minutos caindo de doze para cinco. Se você mantivesse a cabeça imóvel, poderia ver que…

O mostrador desapareceu. Em seu lugar, surgiu um buraco negro e redondo. Levava para o além. Começou a aumentar. O relógio desapareceu.

O salão atrás dele. Danny cambaleou e caiu na escuridão que o tempo inteiro estivera atrás do mostrador.

O pequeno menino na poltrona subitamente desabou e ficou deitado nela num ângulo torto e errado, com a cabeça jogada para trás, os olhos arregalados e perdidos em direção ao teto alto do salão.

Descendo, descendo, descendo, descendo para…

… o corredor, agachado no corredor, e dobrara para o lado errado, tentando voltar às escadas, dobrara para o lado errado e agora E AGORA…

… viu que estava num corredor curto, sem saída, que levava apenas à Suíte Presidencial, e o estrondo se aproximava, o taco de roque assobiando brutalmente pelo ar, enterrando as extremidades na parede, cortando o papel de seda, fazendo cair pequenos pedaços de gesso.

( Merda, venha aqui! Tome seu)

Mas havia outro vulto no corredor. Relaxado com indiferença contra a parede atrás dele. Como um fantasma.

Não, não era um fantasma. Estava todo vestido de branco, vestido de branco.

( Vou achar você, seu fedelho maldito)

Danny se encolheu de medo. Subindo pelo corredor principal do terceiro andar. Logo o dono daquela voz apareceria dobrando o corredor.

( Venha cá! Venha aqui, seu merdinha! )

A figura de branco se ajeitou um pouco, tirou o cigarro do canto da boca e puxou um pedaço de fumo do lábio inferior. Danny viu que era Hallorann.

Vestido com o uniforme branco de cozinheiro, em vez do casaco azul que estava usando no último dia.

— Se houver problemas — dissera Hallorann —, dê um sinal. Um

chamado forte como o que você deu minutos atrás. Pode ser que eu o escute até mesmo lá da Flórida. E se isso acontecer, virei correndo. Virei correndo.

Virei correndo…

( Venha agora então! Venha agora, venha AGORA! Ah, Dick, preciso de você, nós todos precisamos)

— … correr. Perdão, mas tenho que correr. Perdão, Danny amigão, mas tenho que correr. Foi muito divertido, seu danado, mas tenho que ir depressa, tenho que correr.

( Não! )

Mas enquanto observava, Dick Hallorann se virou, pôs o cigarro de volta no canto da boca e passou indiferente através da parede.

Deixando Danny sozinho.

E foi quando a sombra dobrou o corredor, imensa na escuridão, apenas deixando claro o vermelho dos olhos.

( Aí está você! Te peguei, seu bosta! Agora vou te ensinar! ) A figura se lançou bruscamente na direção de Danny, cambaleando, o taco de roque balançando para cima e para cima e para cima. Danny caminhou para trás, gritando, e de repente passou através da parede, caindo, rolando pelo buraco, pelo buraco do coelho para uma terra cheia de extravagâncias.

Tony estava muito abaixo, também caindo.

( Não posso mais vir, Danny… ele não vai me deixar chegar perto de você… nenhum deles vai deixar eu chegar perto de você… chame o Dick…

chame o Dick…)

— Tony! — gritou.

Mas Tony desapareceu e, de repente, Danny estava numa sala escura. Mas não totalmente escura. Uma luz muito fraca vinha de algum lugar. Era o quarto dos pais. Via a escrivaninha do pai. Mas o quarto parecia um terrível campo de batalha. Já estivera aqui antes. O toca-discos da mãe derrubado no chão. Seus discos espalhados pelo tapete. O colchão com a metade fora da cama. Quadros arrancados das paredes. A cama tombada como um cachorro morto, o Violento Volkswagen Violeta reduzido a pedaços de plástico roxo.

A luz vinha da porta do banheiro, entreaberta. Por trás dela, uma mão flácida balançava, o sangue pingando das pontas dos dedos. E, no espelho do armário de remédios, a palavra REDRUM acendendo e apagando.

De repente, um imenso relógio dentro de uma redoma de vidro se materializou na sua frente. Estava sem os ponteiros e sem números no mostrador, apenas com uma data escrita em vermelho: 2 DE DEZEMBRO. E, então,

olhos arregalados de pavor, Danny viu a palavra REDRUM refletida vagamente na redoma de vidro, agora refletida duas vezes. E viu que formava MURDER.

Assassinato.

Danny Torrance gritou sentindo um intenso terror. A data desaparecera do mostrador. O próprio mostrador desaparecera, substituído por um buraco escuro que crescia, crescia como uma pupila dilatada. Apagava tudo, e ele tombou para a frente, começando a cair, caindo, ele estava…

… caindo da poltrona.

Por um momento, ficou deitando no chão do salão, ofegante.

REDRUM.

MURDER.

REDRUM.

MURDER.

( E a Morte Rubra dominava tudo! )

(Retirem as máscaras! Retirem as máscaras! ) E, por trás de cada máscara cintilante e bela, o rosto, até então escondido, com a forma da sombra que o perseguira nos corredores escuros, os olhos vermelhos e grandes, vagos e homicidas.

Ah, ele tinha medo do rosto que poderia aparecer, quando finalmente chegasse a hora da retirada das máscaras.

(DICK!)