O Iluminado

Stephen King · Capítulo 4 de 9 · parte 3/4

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O Iluminado

Quarta parte: Presos pela neve

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

vê?… coisas que não entende. Se esses transes intuitivos são possíveis, eles provavelmente são funções do subconsciente. Freud afirmou que o subconsciente nunca fala em linguagem literal. Apenas através de símbolos.

Se você sonha que está numa padaria onde ninguém fala sua língua, pode ser por causa das suas preocupações em sustentar a família. Ou talvez simplesmente porque ninguém te entende. Já li que sonhar que se está caindo

significa insegurança. Como se fossem pequenos jogos: o consciente de um lado da rede, o subconsciente do outro, arremessando uma imagem infantil, tola, para lá e para cá. O mesmo em relação a doenças mentais, clarividência, tudo isso. Por que a intuição seria diferente? Talvez Danny realmente tenha visto sangue nas paredes da Suíte Presidencial. Para um menino de sua idade, a visão de sangue e o conceito de morte estão interligados. Para as crianças, a imagem é sempre mais acessível que o conceito, de qualquer forma. William Carlos Williams sabia disso, ele era pediatra. Quando crescemos, os conceitos acabam se tornando mais fáceis e deixamos as imagens para os poetas… e eu estou no blá-blá-blá.

— Gosto de seu blá-blá-blá.

— Foi ela que disse isso, minha gente; vocês ouviram, não?

— As marcas no pescoço, Jack. Elas são reais.

— Sim.

Permaneceram em silêncio por muito tempo. Wendy achava que Jack tinha adormecido, e ela mesma já estava meio zonza, quando ele falou:

— Tenho duas explicações para isso. E nenhuma das duas envolve uma quarta pessoa no hotel.

— Quais? — Wendy se apoiou num cotovelo.

— Estigmas, talvez.

— Estigmas? Isso não é quando as pessoas sangram na Sexta-Feira Santa ou coisa parecida?

— Sim. Às vezes, pessoas que acreditam ardorosamente na divindade de Cristo apresentam marcas que sangram nas mãos e nos pés durante a Semana Santa. Era mais comum na Idade Média do que agora. Naquela época, essas pessoas eram consideradas abençoadas por Deus. Não acredito que a Igreja católica tenha considerado qualquer uma delas inteiramente como milagres, o que foi muito inteligente da parte deles. Os estigmas não são muito diferentes de algumas coisas que os iogues fazem. Só que agora são mais bem compreendidos, só isso. As pessoas que entendem da interação entre mente e corpo… Quero dizer, estudam o assunto, porque entender, mesmo, ninguém entende… Acredite, temos muito mais controle sobre nossas funções involuntárias do que imaginamos. Podemos diminuir os batimentos cardíacos, se concentrarmos nosso pensamento. Podemos acelerar nosso próprio metabolismo. Podemos suar mais. Ou fazer sangrar.

— Você acha que Danny pensou para aqueles ferimentos aparecerem no pescoço? Jack, simplesmente não posso acreditar nisso.

— Acredito que seja possível, apesar de não me parecer provável. A melhor hipótese é que ele mesmo tenha feito isso.

— Nele mesmo?

— Ele já entrou nesses “transes” e se machucou outras vezes. Você se lembra daquele dia na mesa do jantar? Mais ou menos há dois anos, eu acho.

Estávamos furiosos um com o outro. Ninguém conversava muito. Então, de repente, os olhos dele se reviraram, e ele meteu a cara direto em cima do prato. E depois caiu. Lembra?

— Sim — ela afirmou. — Claro que sim. Pensei que ele estivesse tendo uma convulsão.

— Outra vez estávamos no parque — continuou Jack. — Só Danny e eu.

Sábado à tarde. Ele estava sentado num balanço, brincando. Caiu no chão.

Era como se tivesse levado um tiro. Corri, o peguei no colo e de repente ele voltou a si. Piscou para mim e disse: “Machuquei a barriga. Diga a mamãe para fechar as janelas do quarto, se chover”. E naquela noite choveu à beça.

— Sim, mas…

— E ele aparece sempre com cortes e cotovelos esfolados. Suas canelas parecem um campo de batalha. E, se você pergunta onde foi que ele arranjou esse ou aquele machucado, ele simplesmente responde: “Ah, eu estava brincando, e isso foi o final da brincadeira”. — Jack, mas toda criança se arrebenta e se machuca. Com meninos pequenos é muito comum, desde a fase em que estão aprendendo a andar, até os doze ou treze anos.

— Tenho certeza de que Danny também faz das suas — respondeu Jack.

— É um menino ativo. Mas me lembro daquele dia no parque e daquela noite na mesa de jantar. E me pergunto se algumas quedas e machucados de nosso filho vieram simplesmente de desmaios. Isso que o dr. Edmonds disse que Danny teve no consultório, pelo amor de Deus!

— Sim. Mas as marcas no pescoço eram dedos. Eu juraria. Isso não pode ter vindo de nenhum tombo.

— Ele entra em transe — explicou Jack. — Talvez ele tenha visto alguma coisa que aconteceu naquele quarto. Uma briga. Talvez um suicídio.

Emoções violentas. Não é a mesma coisa que assistir a um filme; ele está num estado altamente sugestionável. Está bem no meio da cena. Talvez seu subconsciente esteja visualizando, o que quer que tenha acontecido, de maneira simbólica… como uma mulher morta que ressuscitou, um zumbi, uma assombração, espírito maléfico, pode escolher o termo.

— Está me deixando arrepiada — falou Wendy, com a voz abafada.

— Também estou. Não sou psiquiatra, mas tudo se encaixa muito bem. A mulher morta andando, como um símbolo de emoções mortas, vidas mortas, que simplesmente não desistem, não desaparecem… mas, devido ao fato de ela ser uma imagem do seu subconsciente, ela também é ele. No estado de transe, o Danny consciente está submerso. A imagem do subconsciente está agindo. Portanto, Danny colocou as mãos em volta do pescoço e…

— Pare — interrompeu ela. — Entendi a ideia. Acho que isso parece mais preocupante do que ver um estranho se arrastando pelos corredores, Jack.

Você pode fugir de um estranho, mas não pode fugir de si mesmo. Está falando de esquizofrenia.

— De um tipo muito raro — acrescentou Jack, um pouco contrariado. — E

de natureza muito especial. Porque ele parece capaz de ler pensamentos e também realmente parece capaz, de tempos em tempos, de prever os fatos.

Não acho que isso seja uma doença mental, por mais que eu tente. De qualquer forma, todos nós temos traços de esquizofrenia. Acho que, à medida que Danny for crescendo, vai saber controlar isso.

— Se você estiver certo, então é essencial sairmos daqui. Seja lá o que for que ele tiver, este hotel o está deixando pior.

— Eu não diria isso — objetou ele. — Se fosse obediente, em primeiro lugar, não teria subido àquele quarto. Isso nunca teria acontecido.

— Meu Deus, Jack! Você quer dizer então que o fato de quase ter sido estrangulado foi um… castigo justo por ter passado dos limites?

— Não… não. Claro que não. Mas…

— Nada de mas — interrompeu Wendy, sacudindo violentamente a cabeça. — A verdade é que estamos fazendo suposições. Não temos a menor ideia de quando ele vai dobrar um corredor e se deparar com um daqueles…

filmes de terror, sei lá. Temos que ir embora daqui. — Riu um pouco na escuridão. — Daqui a pouco, nós também estaremos vendo coisas.

— Não diga besteira — desconversou Jack, e na escuridão do quarto viu os leões se agrupando na alameda, não mais na posição original, mas em posição de guarda, leões famintos de novembro. Um suor frio brotou de sua testa.

— Você não viu nada mesmo, né? — questionou ela. — Digo, quando subiu até o quarto. Não viu nada?

Os leões haviam desaparecido. Agora ele via uma cortina de chuveiro corde-rosa com uma sombra por trás. A porta fechada. Aquele baque amortecido

e apressado, ruídos que poderiam ser passos. Seus terríveis batimentos cardíacos, enquanto ele lutava com a chave mestra.

— Nada — respondeu, e era verdade. Estava confuso, sem ter certeza do que estava acontecendo. Não havia tido oportunidade de analisar seus pensamentos em busca de uma explicação razoável sobre as marcas no pescoço do filho. Ele mesmo tinha estado bastante sugestionável.

Alucinações, às vezes, podiam ser contagiosas.

— E não mudou de ideia? Com relação ao snowmobile?

As mãos dele subitamente se fecharam em punhos

( Pare de me irritar! )

a seu lado.

— Eu disse que vou consertar, não disse? Pois então vou mesmo. Agora vamos dormir. Foi um dia muito longo e muito duro.

— E como — concordou Wendy. Ela se virou para ele, fazendo um ruído com os lençóis, e beijou seu ombro. — Amo você, Jack.

— Eu também amo você — respondeu ele, mas estava somente repetindo palavras. Os punhos continuavam cerrados. Eram como pedras nas pontas dos braços. A testa latejava. Ela não havia dito uma palavra sobre o que aconteceria a eles depois que saíssem, quando a brincadeira terminasse. Nem uma palavra. Era tudo porque Danny isso, Danny aquilo, e Jack, tenho tanto medo. Ah, sim, ela tinha medo de uma porção de bichos-papões imaginários e sombras, muito medo. Mas também havia os verdadeiros. Quando chegassem a Sidewinder, teriam sessenta dólares e a roupa do corpo. Não teriam sequer um carro. Mesmo que Sidewinder tivesse uma casa de penhores, o que não era o caso, eles não possuíam nada para empenhar, só o anel de noivado de brilhante de Wendy e o rádio Sony AM/FM. Um avaliador poderia dar vinte dólares. Um avaliador bonzinho. Jack não teria emprego, nem temporário, talvez só como limpador de neve, por três dólares o serviço.

A imagem de Jack Torrance, trinta anos, que já publicara na Esquire e que alimentava sonhos (em hipótese alguma sonhos descabíveis, ele sentia) de se tornar um importante escritor na década seguinte, levando uma pá nos ombros, batendo de porta em porta… aquele quadro de repente ficou mais claro do que os leões, e ele apertou ainda mais as mãos, sentindo as unhas enfiadas nas palmas e fazendo o sangue sair em místicas meias-luas. Jack Torrance, na fila para trocar os seus sessenta dólares por vales-alimentação; mais uma vez na fila, agora da Igreja Metodista de Sidewinder para receber donativos e olhares maldosos dos moradores. Jack Torrance explicando a Al

que eles simplesmente tinham que partir, tinham que desligar a caldeira, tinham que abandonar o Overlook e deixar tudo exposto aos vândalos ou ladrões em snowmobiles , porque, veja, Al, attendez-vous, Al, há fantasmas por lá, e estão atrás de meu filho. Adeus, Al. Pensamentos do capítulo IV: Chega a Primavera de Jack Torrance. O que mais? Seja o que for? Talvez conseguissem chegar até a Costa Oeste no fusca, ele supunha. Uma bomba nova de gasolina resolveria o problema. Oitenta quilômetros a oeste e tudo em declive, com certeza dava para deixar o carro em ponto morto e ir até Utah. Seguiriam até a ensolarada Califórnia, terra das laranjas e das oportunidades. Um homem com um excelente antecedente de alcoolismo, espancador de aluno e caçador de fantasmas poderia, sem dúvida, se fazer por lá. Como preferir. Engenharia de manutenção: limpar ônibus interestadual; negócios automobilísticos: lavar carros vestindo macacão de borracha; artes gastronômicas, talvez: lavar pratos num restaurante. Possivelmente, uma posição mais responsável, num posto de gasolina. Um trabalho que, inclusive, continha estímulos intelectuais em devolver o troco e preencher notas fiscais. Só posso pagar um salário mínimo. Não era uma boa notícia para um ano em que um pão custava sessenta centavos.

O sangue começou a escorrer das palmas das mãos. Como estigmas, ah, sim. Apertou mais, martirizando-se com a dor. A esposa dormia a seu lado, por que não? Não havia problemas. Concordara em levar Danny e ela para longe dos bichos-papões e não havia problemas. Então você veja, Al, achei que a melhor coisa a fazer seria…

(matá-la. )

O pensamento surgiu do nada, cru e sem adornos. Uma necessidade de empurrar Wendy da cama, nua, desnorteada, acabando de acordar; de dar socos nela, agarrar seu pescoço como o caule verde de uma árvore e estrangular a esposa, os polegares na traqueia, os dedos apertados no topo da espinha, sacudindo e batendo sua cabeça contra o chão, uma vez atrás da outra, batendo, batendo, amassando, quebrando. Agite e balance, meu bem.

Sacuda, chocalhe e balance. Faria com que ela tomasse o remédio. Até a última gota. A última e amarga gota.

Ouviu um ruído abafado vindo de algum lugar, um ruído que não pertencia ao seu secreto mundo interior. Olhou para o outro lado do quarto e viu Danny se mexendo novamente, virando na cama, revolvendo os cobertores. O

menino gemia, um som tenso, baixo e abafado. Qual seria o pesadelo? Uma mulher roxa, morta há muito tempo, cambaleando atrás dele, correndo pelos

corredores do hotel? De alguma forma não achava que pudesse ser isso.

Outra coisa perseguia Danny em seus sonhos. Algo pior.

O cadeado amargo de suas emoções estava quebrado. Jack se levantou da cama e caminhou em direção ao menino, enjoado e envergonhado de si mesmo. Era no filho que tinha que pensar, não em Wendy, ou em si próprio.

Somente em Danny. E não importa como os fatos se contradiziam, sabia no fundo do coração que Danny precisava ser levado dali. Ajeitou os cobertores do menino e colocou por cima dele o acolchoado que estava nos pés da cama.

Danny ficou calmo novamente. Jack tocou sua testa

(que monstros brincavam por trás daquele crânio?)

e achou que ela estava quente, mas não muito. Danny dormia em paz novamente. Estranho.

Voltou para a cama e tentou dormir. Ilusão.

Era tão injusto as coisas terem ficado assim… a má sorte parecia persegui-los. Não puderam se afastar dela simplesmente vindo para cá. Quando chegassem a Sidewinder amanhã à tarde, a oportunidade dourada teria evaporado — desaparecido como fumaça, como diria um velho colega seu.

Considere o que aconteceria se não descessem, se pudessem de alguma forma superar a situação. Concluiria a peça. De um jeito ou de outro arranjaria um fim para ela. Sua própria dúvida sobre os personagens poderia acrescentar um toque de ambiguidade atraente, em um desfecho original. Talvez até conseguisse algum dinheiro com ela, não era impossível. Mesmo se não conseguisse, Al poderia muito bem convencer o Conselho de Stovington a contratá-lo de novo. Ficaria em experiência, claro, talvez por até três anos, mas, se pudesse se manter sóbrio e escrevesse, talvez não precisasse passar três anos em Stovington. Claro que não ligava muito para Stovington antes, sentia-se sufocado, enterrado vivo, mas essa reação havia sido imatura. Além do mais, como é que um ser humano podia ter prazer lecionando, quando passava as três primeiras aulas com uma dor de cabeça de estourar os miolos?

Não seria assim novamente. Conseguiria manter sua responsabilidade. Tinha certeza.

Em algum lugar no meio daquele pensamento, as imagens começavam a se partir e ele adormeceu. Seu último pensamento o acompanhou como o soar de um sino.

Parecia possível que ele encontrasse paz aqui. Finalmente. Se pelo menos deixassem.

Quando acordou, estava parado no banheiro do 217.

(sonâmbulo de novo — por quê? — nenhum rádio para quebrar aqui) A luz do banheiro estava acesa, e o quarto atrás dele na escuridão. A cortina do chuveiro estava fechada em volta da banheira, e o tapete ao lado estava amassado e molhado.

Começou a sentir medo, mas as próprias características de pesadelo neste medo diziam que aquilo não era real. Ainda assim, o pensamento não era capaz de conter o medo que sentia. Tantas coisas no Overlook pareciam pesadelos.

Caminhou em direção à banheira, involuntariamente, incapaz de dar as costas e sair.

Abriu a cortina.

Deitado na banheira, nu, refestelado com leveza na água, estava George Hatfield. Uma faca enfiada em seu peito. A água, ao seu redor, era rosada. Os olhos de George estavam fechados. Seu pênis flutuava frouxo, como alga marinha.

— George — Jack se ouviu dizendo.

Com a palavra, os olhos de George se abriram. Eram prateados, não eram de maneira alguma olhos humanos. As mãos de George, brancas, encontraram as bordas da banheira, e ele se levantou, ficando sentado. A faca estava enfiada no tórax, exatamente entre os dois mamilos. A ferida não tinha bordas.

— Você adiantou o cronômetro — George Olhos de Prata acusou.

— Não, George, não adiantei. Eu…

— Eu não sou gago.

George agora estava de pé, ainda com aquele olhar inumano e prateado fixado em Jack, mas a boca se repuxava num horrível sorriso de cadáver.

Jogou uma perna para fora da banheira de porcelana. Um pé branco e enrugado pisou no tapete.

— Primeiro, você tentou me atropelar quando eu estava na bicicleta, depois adiantou o cronômetro, depois tentou me esfaquear até a morte, mas eu, mesmo assim, não gaguejo. — George vinha em sua direção, as mãos estendidas para a frente, os dedos ligeiramente dobrados. Cheirava a mofo e umidade, como folhas molhadas pela chuva.

— Foi para seu próprio bem — respondeu Jack, dando passos para trás. —

Adiantei o cronômetro para seu próprio bem. Além do mais, eu sei que você colou no exame final.

— Eu não colo… eu não gaguejo.

As mãos de George tocaram seu pescoço.

Jack deu as costas e correu, correu com a lentidão flutuante e sem peso, tão comum aos sonhos.

— Foi sim! Você colou! — ele gritava de pavor e raiva, enquanto atravessava o quarto escuro. — Vou provar!

As mãos de George estavam em seu pescoço novamente. O coração de Jack inchou de medo até ele ter certeza de que iria explodir. E então, finalmente, suas mãos envolveram a maçaneta, ela girou e ele abriu a porta.

Saiu, não para o corredor do segundo andar, mas para o porão, depois do arco. A lâmpada cheia de teias estava acesa. Sua cadeira, inflexível e geométrica, ao lado. E tudo ao redor era uma miniatura de montanhas, com caixas e caixotes, pacotes amarrados de notas e planilhas, e Deus sabe o que mais. Sentiu-se aliviado.

— Vou encontrar! — pôde ouvir a própria voz gritando. Apanhou uma caixa de papelão; ela se partiu ao meio em suas mãos, esparramando uma cascata de folhas finas amarelas. — Está por aqui em algum lugar! Vou encontrar! — Do fundo do amontoado de documentos, com uma das mãos retirou um ninho de vespas feito de papel e, com a outra, um cronômetro. O

cronômetro corria. Colado atrás havia um fio elétrico comprido e, na outra extremidade, várias bananas de dinamite. — Aqui! — gritou. — Aqui, tome!

Triunfou de alívio. Tinha feito mais do que fugir de George; tinha sido vitorioso. Com estes talismãs nas mãos, George nunca encostaria nele novamente. George voaria de medo.

Começou a virar para se confrontar com George, e foi então que as mãos do rapaz se colocaram em volta de seu pescoço, apertando, sufocando, obstruindo inteiramente sua respiração após um suspiro final.

— Não sou gago — sussurrou George, por trás dele.

Deixou o ninho de vespas cair no chão, e os insetos se agitaram para fora numa furiosa nuvem marrom e amarela. Seus pulmões se incendiavam. Seu olhar hesitante caiu sobre o cronômetro, e Jack recuperou a sensação de triunfo, acompanhada de uma forte onda de ira justificada. Em vez de ligar o cronômetro à dinamite, o fio se conectou à empunhadura dourada de uma bengala negra e pesada, igual à que seu pai carregava depois do acidente com o caminhão de leite.

Jack agarrou a bengala, e o fio se partiu. Sentiu a bengala em suas mãos e a sacudiu no ar. Ela esbarrou no fio do qual pendia a lâmpada, e esta começou a balançar, fazendo monstruosas sombras se agitarem no chão e nas paredes

do cômodo. Ao baixar, a bengala bateu em algo muito mais duro. George gritou. A força das mãos no pescoço de Jack diminuíra.

Conseguiu se desvencilhar de George, que estava de joelhos, as mãos entrelaçadas sobre a cabeça inclinada. Sangue jorrava por seus dedos.

— Por favor — sussurrou George. — Pega leve comigo, sr. Torrance.

— Agora você vai tomar seu remédio — resmungou Jack. — Ora, por Deus, como vai. Fedelho. Vira-lata. Agora, por Deus, agora mesmo. Cada gota. Cada maldita gota!

Enquanto a luz balançava sobre ele e as sombras dançavam e se agitavam, começou a sacudir a bengala, para cima e para baixo consecutivamente, seu braço se movendo como uma máquina. Os dedos sangrentos que George usava para se proteger largaram a cabeça, e Jack bateu com a bengala seguidas vezes sobre o pescoço, ombros, costas e braços do rapaz. Mas a bengala já não era mais uma bengala; parecia um taco com uma espécie de cabo brilhante e listrado. Um taco com um lado duro e outro macio. A extremidade usada estava pegajosa com sangue e cabelo. E o ruído surdo e imenso do taco contra a pele tinha sido substituído por um estrondo oco, que ecoava e reverberava. Sua própria voz adquirira esta mesma qualidade, berrando, sem corpo. E ainda assim, paradoxalmente, soava mais fraca, arrastada, petulante… como se ele estivesse bêbado.

O vulto a seus pés ergueu a cabeça devagar, como que suplicando. Não tinha exatamente um rosto, apenas uma máscara de sangue através da qual emergiam os olhos. Jack baixou o taco para um último golpe e depois de arremessado viu que aquele rosto abaixo dele não era o de George, mas o de Danny. Era o rosto do filho.

— Papai…

E então o taco estalou, atingindo Danny e fechando seus olhos para sempre. E, em algum lugar, parecia ouvir uma risada…

( Não! )

Jack voltou a si, parado, nu, junto à cama de Danny, as mãos vazias, o corpo suado. Seu grito final tinha sido apenas em sua mente. Ele repetiu as palavras, desta vez num sussurro.

— Não. Não, Danny. Nunca.

Voltou à cama sobre pernas que pareciam ser de borracha. Wendy dormia profundamente. O relógio na mesa de cabeceira marcava quinze para as cinco. Permaneceu deitado sem conseguir dormir até as sete, quando Danny acordou. Ele se levantou e começou a se vestir. Era hora de descer e verificar

a caldeira.

33

O SNOWMOBILE

Pouco depois da meia-noite, enquanto os três dormiam inquietos, a neve parou de cair após ter deixado mais vinte centímetros de uma camada nova e fresquinha. As nuvens se dissiparam, sendo varridas por um vento gelado, e agora de manhã Jack estava no meio de um feixe empoeirado de sol, que penetrava pela janela suja do lado leste do galpão de equipamentos.

O lugar era quase tão comprido e alto quanto um vagão de cargas.

Cheirava a graxa, óleo, gasolina e a um leve e nostálgico odor de grama.

Quatro cortadores de grama elétricos estavam enfileirados como soldados em formação, encostados na parede do lado sul; dois deles lembravam pequenos tratores, do tipo que se pode dirigir. À esquerda deles ficavam as cavadeiras, pás redondas e cortantes para cirurgia dos gramados de golfe, uma motosserra, o cortador de arbustos e um mastro fino de aço longo com uma bandeira vermelha no topo. Caddie, se você conseguir trazer a bola em dez segundos, ganhará vinte e cinco centavos de recompensa. Sim, senhor.

Na parede leste, onde o sol batia com mais intensidade, três mesas de pingue-pongue estavam empilhadas uma sobre a outra, como um castelo de cartas. As redes tinham sido removidas e estavam dependuradas da prateleira.

No canto, havia uma pilha de discos para shuffleboard, e um conjunto de equipamento de roque… Os arcos, amarrados com pedaços de arame, bolas pintadas de cores vivas dentro de uma espécie de caixa de ovos (que galinhas estranhas você tem por aqui, Watson… sim, e precisava ver os animais lá no jardim da frente, ha-ha!), e os tacos, dois conjuntos, de pé, em seus cavaletes.

Jack caminhou até eles, passando por cima de uma bateria de carro (que, tempos atrás, ficara debaixo da capota do caminhão do hotel, sem dúvida), um carregador de bateria e um par de cabos para carregar bateria. Tirou um dos tacos curtos do cavalete e o ergueu diante do rosto, como um cavaleiro pronto para a batalha, saudando seu rei.

Fragmentos de seu sonho (agora confuso, desvanecido) voltaram. Havia sido algo sobre George Hatfield e a bengala de seu pai, o suficiente para deixar Jack inquieto e, por mais absurdo que pareça, um pouco culpado por segurar um taco de roque . Não que roque ainda fosse um jogo de grama tão comum; seu primo mais moderno, o croquet, era muito mais popular agora…

e era também uma versão infantil do jogo. Roque, no entanto… deve ter sido um senhor jogo. Jack encontrara um livro de instruções mofado no porão, do

início da década de 1920, quando o Overlook sediou um Torneio Norte-Americano de Roque. Um senhor jogo.

( esquizofrênico)

Franziu as sobrancelhas e então sorriu. Sim, era uma espécie de jogo esquizofrênico. O taco expressava isso perfeitamente: uma extremidade dura de um lado e macia do outro. Um jogo de finesse e pontaria, e um jogo de pura força de tacadas.

Sacudiu o taco no ar… vuuup. Sorriu com o poderoso som de assobio que fazia. Em seguida, guardou o objeto no cavalete e virou-se para a esquerda. O

que viu fez sua testa se franzir novamente.

O snowmobile estava quase no meio do depósito. O equipamento era razoavelmente novo, e Jack não gostou nem um pouco de sua aparência.

Bombardier Ski-Doo estava escrito ao lado do capô, de frente para ele, em letras pretas, muito inclinadas, provavelmente para sugerir velocidade. Os esquis protuberantes também eram pretos, e havia um friso negro dos dois lados do motor, equivalentes a listras de corrida num carro esportivo. Mas a pintura principal era um amarelo brilhante e zombeteiro, e era disso que ele não gostava. Parado ali naquele feixe de sol matinal, todo amarelo e com frisos, esquis negros e estofamento negros, sem capota, o veículo parecia uma monstruosa vespa mecânica. Quando estivesse em movimento, devia fazer o mesmo ruído. Zumbindo, lamuriosa, pronta para picar. Pensando bem, com que mais poderia se parecer? Pelo menos, não escondia suas intenções.

Porque, depois do snowmobile ter executado seu trabalho, eles estariam bem machucados. Todos eles. Por volta da primavera, a família Torrance estaria tão machucada, que o que aquelas vespas tinham feito com a mão de Danny pareceria beijos de mãe.

Ele puxou o lenço do bolso de trás, esfregou os lábios com ele e caminhou até o Ski-Doo. Ficou parado, olhando, a testa agora muito tensa. Então enfiou o lenço de volta no bolso. Lá fora, uma rajada repentina de vento bateu contra o depósito, que balançou fazendo estalos. Olhou pela janela e viu o vento carregar uma cortina de reluzentes cristais de neve para trás do hotel, rodopiando alto no céu azul.

O vento abrandou e Jack voltou a olhar a máquina. Era realmente nojenta.

Podia-se praticamente esperar que um ferrão longo e flexível saísse pela traseira. Nunca gostou desses malditos snowmobiles . Eles estremeciam o silêncio sepulcral do inverno em milhões de fragmentos tagarelas.

Espantavam os animais. Expeliam imensas nuvens poluentes de fumaça azul

de óleo — cof, cof, engasgo, engasgo, não consigo respirar. Talvez o último brinquedo grotesco do final da era do petróleo, dado como presente de Natal a crianças de dez anos.

Ele se lembrou de um artigo de jornal que tinha lido em Stovington, sobre uma história que aconteceu no Maine. Um menino num snowmobile estava correndo numa estrada que nunca havia percorrido antes, a mais de cinquenta quilômetros por hora. Noite. Faróis apagados. Uma pesada corrente esticada entre dois postes com uma placa PARE pendurada no meio. Testemunhas afirmaram que o garoto não deve ter visto a placa. Uma nuvem deve ter encoberto a lua. A corrente o decapitou. Ao ler a história, Jack quase se sentiu feliz, e agora, olhando esta máquina, a sensação voltava.

(Se não fosse por Danny, eu teria imenso prazer em pegar um daqueles tacos, abrir o capô e esmurrar o snowmobile até)

Jack deixou escapar o ar preso nos pulmões. Wendy estava certa. Não importa o que fosse acontecer, se tivesse que entrar na fila da Previdência Social, Wendy estava certa. Esmurrar esta máquina até ela morrer seria de uma enorme insensatez, não importa quão agradável essa insensatez pudesse ser. Seria quase o equivalente a esmurrar o filho até matá-lo.

— Porra de ludita — falou em voz alta.

Foi até a traseira do veículo e desatarraxou a tampa do tanque de gasolina.

Encontrou uma vareta medidora em uma das prateleiras que percorriam as paredes à altura de seu peito e a pegou. Três milímetros saíram molhados.

Não era muito, mas o suficiente para ver se a maldita funcionaria. Depois, poderia tirar mais combustível do fusca e do caminhão do hotel.

Tampou novamente o tanque e abriu o capô. Sem velas e sem bateria.

Voltou à prateleira e começou a remexer, pondo de lado chaves de fenda e chaves inglesas, o carburador de um cortador de grama antigo, caixas plásticas de parafusos, pregos e porcas de vários tamanhos. A prateleira estava coberta de graxa velha, e os anos de acumulação de poeira tinham formado uma desagradável crosta.

Encontrou uma caixinha manchada de óleo com a abreviatura Skid, laconicamente escrita a lápis. Ao ser chacoalhada, alguma coisa sacudiu lá dentro. Velas. Examinou uma contra a luz, tentando determinar a abertura, sem procurar pelo regulador. Foda-se, pensou chateado, e jogou a vela de volta na caixa. Se estiver desregulada, azar. Ela que se fodesse.

Encontrou um banquinho atrás da porta, que usou para se sentar e instalar as quatro velas. Em seguida, encaixou as capinhas de borracha sobre cada

uma. Feito isso, deixou os dedos brincarem com o magneto.

De volta às prateleiras. Desta vez não conseguiu achar o que queria, uma pequena bateria. Em três ou quatro nichos, encontrou chaves de caixa, um estojo cheio de brocas e puas, sacos de fertilizante e Vigoro para os canteiros de flores, mas nenhuma bateria de snowmobile. Isso não o incomodava em nada. Na verdade, ficava contente. Estava aliviado. Fiz o que pude, capitão, mas não consegui. Está bem, filho. Vou recomendá-lo para as condecorações Estrela de Prata e o Snowmobile Púrpura. Você é um orgulho para meu regimento. Obrigado, senhor. Eu realmente tentei.

Começou a assobiar “Red River Valley” em ritmo acelerado, enquanto procurava nos últimos sessenta ou noventa centímetros de prateleira. As notas do assobio saíam levantando pequenas nuvens brancas. Ele já havia percorrido o circuito completo do depósito, e a bateria não estava lá. Talvez alguém tivesse levado lá para cima. Talvez Watson tivesse uma. Deu uma gargalhada. Aquela velha história de roubar o escritório. Alguns clipes, algumas resmas de papel, ninguém vai sentir falta desta toalha de mesa ou deste talher, e o que me diz desta boa bateria de snowmobile? Sim, é fácil de carregar. Jogue na mala. Um furto inocente. Todo mundo tem dedos leves.

Desconto debaixo do pano, costumávamos dizer quando éramos crianças.

Voltou ao snowmobile e deu um belo chute em sua lateral. Bem, era o fim de tudo. Teria de dizer a Wendy que sentia muito, mas…

… Havia uma caixa junto à porta. O banco estivera bem em cima. Escrito nela, a lápis: Skid.

Olhou para a caixa, com o sorriso desaparecendo dos lábios. Olhe, senhor, é a cavalaria. Parece que seus sinais de fumaça funcionaram, no fim das contas.

Não era justo.

Alguma coisa — sorte, destino, providência — estava tentando salvá-lo.

Algum outro tipo de sorte. Sorte mesmo. E, no último momento, a velha falta de sorte voltara. A última cartada azarada ainda não havia sido dada.

Uma onda cinzenta e silenciosa de ressentimento brotou de sua garganta.

As mãos se fecharam.

( Injusto, merda, injusto! )

Por que não olhou para outro lugar? Qualquer lugar! Por que não teve um torcicolo, uma coceira no nariz, necessidade de piscar? Só uma dessas coisinhas, e nunca teria visto a caixa.

Bem, não tinha visto. Pronto. Era uma alucinação, em nada diferente do que acontecera ontem no corredor do segundo andar ou no maldito zoológico de arbusto. Um cansaço momentâneo, só isso. Bacana, pensei que tivesse visto uma bateria de snowmobile naquele canto. Agora não está lá. Fadiga de combate, eu acho, senhor. Perdão. Levante a cabeça, filho. Acontece com todos nós, mais cedo ou mais tarde.

Abriu a porta com força bastante para estalar as dobradiças e trouxe para dentro seus sapatos de neve. Estavam cobertos de neve, e ele os bateu no chão com força para limpar um pouco. Calçou o pé esquerdo… e parou.

Danny estava lá fora, junto à plataforma onde faziam as entregas de leite.

Tentando fazer um boneco de neve, pelo visto. Mas não tinha muita sorte: a neve estava muito fria para poder juntar um pedaço no outro. Ainda assim ele tentava, lá fora na manhã de sol, um menininho agasalhado sobre a neve brilhante, sob o céu brilhante. Com o boné na cabeça virado ao contrário.

( Pelo amor de Deus, no que você estava pensando? ) A resposta veio sem interrupção.

( Em mim. Estava pensando em mim. )

De repente, lembrou-se da noite anterior, deitado na cama e, em seguida, contemplando o assassinato da mulher.

Naquele instante, ajoelhado ali, tudo ficou claro para ele. O Overlook não estava afetando apenas Danny. Estava afetando a ele também. Não era Danny o elo fraco, era ele. Ele era o vulnerável, aquele que podia ser dobrado e torcido até se partir.

(até eu fraquejar e dormir… e quando fizer isso, se fizer) Olhou para as janelas enfileiradas, e o sol batendo naquelas muitas superfícies envidraçadas lançava um brilho intenso, que ofuscava seus olhos. Mas ele olhou assim mesmo. Pela primeira vez, percebeu como elas se pareciam com olhos. Refletiam o sol e retinham em seu interior sua própria escuridão. Não olhavam para Danny. Olhavam para Jack.

Nesses poucos segundos, entendeu tudo. Lembrou-se de uma fotografia em preto e branco que vira quando criança, numa aula de catecismo. A freira mostrara a fotografia num cavalete, afirmando se tratar de um milagre de Deus. A turma olhou inexpressivamente para ela, vendo nada mais do que uma bagunça de pretos e brancos, sem sentido e sem um padrão. Então, uma das crianças na terceira fileira falou num sobressalto: “É Jesus!”, e ganhou uma Bíblia novinha em folha e um calendário, por ter sido a primeira a enxergar o que havia na foto. Os outros olharam mais fixamente, entre eles Jack Torrance. Um por um os meninos foram tendo sobressaltos semelhantes.

Uma menininha, quase em êxtase, deu um grito estridente: “Eu estou vendo!

Eu estou vendo! ”. Ela também foi premiada com uma Bíblia. Finalmente, todos viram o rosto de Jesus naquela mistura de preto e branco, menos Jacky.

Ele se esforçava cada vez mais, agora com medo, uma parte dele cinicamente pensando que os outros todos estavam fingindo para agradar a Irmã Beatrice, outra parte convencida secretamente de que ele não estava vendo porque Deus decidira que ele era o maior pecador da classe. “Você não está vendo, Jacky?”, Irmã Beatrice perguntou com seu jeito meigo e triste. Estou vendo suas tetas, pensara ele desesperadamente. Começou a sacudir a cabeça e fingiu alegria dizendo: “Sim, estou! Ah! É Jesus! ”. E todos na classe sorriram e o aplaudiram, fazendo Jack se sentir triunfante, envergonhado e amedrontado. Mais tarde, quando todos haviam subido do porão da igreja para a rua, ele ficou para trás, olhando aquela mistura preta e branca sem sentido, que Irmã Beatrice deixara no cavalete. Sentiu ódio da foto. Era uma farsa. “Merda-inferno-merda”, sussurrou entre os lábios, e, quando virou as costas, com o rabo do olho viu o rosto de Jesus, triste e sábio. Virou-se novamente, o coração na boca. Tudo havia ficado claro, e ele olhara a fotografia maravilhado, sem poder acreditar que não tinha visto antes. Os olhos, o zigue-zague da sombra na sobrancelha, o nariz afilado, os lábios compadecidos. Olhando para Jacky Torrance. O que era uma coisa sem significado havia se transformado num desenho completo do rosto de Nosso Senhor Jesus Cristo. O encantamento foi transformado em terror. Ele tinha blasfemado diante da fotografia de Jesus. Seria amaldiçoado. Ficaria no inferno com os pecadores. O rosto de Cristo estivera na fotografia o tempo inteiro. O tempo inteiro.

Agora, ajoelhado ao sol e observando o filho brincar na sombra do hotel, sabia que era tudo verdade. O hotel queria Danny, talvez todos eles, mas Danny com certeza. Os arbustos realmente tinham se movido. Havia uma mulher morta no 217, uma mulher que talvez fosse apenas um fantasma, e inofensivo em quase todas as circunstâncias, mas uma mulher que agora constituía um perigo. Como um malévolo brinquedo de corda posto para funcionar pela própria cabeça estranha de Danny… e pela sua própria cabeça.

Foi Watson quem lhe contou que um homem caíra morto de um derrame, um dia, na quadra de roque? Ou tinha sido Ullman? Não importava. Um assassinato tinha sido cometido no terceiro andar. Quantas brigas, suicídios e derrames? Quantos assassinatos? Será que Grady estava à espreita, em algum lugar na ala oeste, com seu machado, esperando apenas que Danny o

provocasse para ele poder aparecer?

Os hematomas inchados em volta do pescoço de Danny.

O brilho das garrafas semivisíveis no salão vazio.

O rádio.

Os sonhos.

O álbum de recortes encontrado no porão.

( Medoc, está aqui? Voltei a ser sonâmbula, meu querido…) De repente Jack se levantou, jogando os sapatos novamente para fora.

Tremia. Bateu a porta e pegou a caixa da bateria, mas ela escorregou de seus dedos trêmulos

( ai, Deus, será que quebrou? )

e bateu no chão, de lado. Ele abriu as dobras do papelão e retirou a bateria, sem prestar atenção ao ácido que poderia escorrer se ela se tivesse quebrado.

Mas não tinha. Estava inteira. Um pequeno suspiro escapou de sua boca.

Ele a segurou com cuidado, foi até o Ski-Doo e a pousou na plataforma à frente do motor. Encontrou uma pequena chave inglesa em uma das prateleiras e ligou os cabos rapidamente, sem dificuldades. A bateria estava carregada; não havia necessidade de usar o carregador. Quando colocou o cabo positivo em seu lugar, uma faísca saiu, soltando um cheiro fraco de ozônio. Executado o trabalho, ele se afastou, limpando as mãos nervosamente na jaqueta de brim desbotado. Pronto. Deveria funcionar. Não havia por que não. Nenhuma razão, a não ser o fato de que fazia parte do Overlook, e o Overlook realmente não queria que eles saíssem dali. Em hipótese alguma. O

Overlook estava se divertindo pra valer. Tinha um menininho para amedrontar, um homem e sua mulher para instigar e, se jogasse as cartas corretamente, os três terminariam voando pelos corredores do Overlook como sombras de um romance de Shirley Jackson. Você poderia caminhar pela Casa da Colina sozinho, mas não ficaria sozinho no Overlook, não mesmo, aqui teria bastante companhia. Mas não havia realmente nenhuma razão para o snowmobile não funcionar. A não ser, claro, ( A não ser o fato de que Jack, na realidade, não queria ir. ) sim, a não ser isso. Ficou parado olhando o Ski-Doo, soltando pequenas nuvens brancas pelo nariz. Queria que fosse como antes. Quando entrou no galpão, ele não tinha dúvidas. Descer seria a decisão errada. Wendy estava apenas com medo do bicho-papão criado por um simples menininho histérico. Agora, de repente, ele via o ponto de vista dela. Era como a sua peça, sua maldita peça. Não

sabia mais de que lado estava ou como as coisas ficariam. Depois que você vê o rosto de Jesus naquela mancha de preto e branco, era o fim da brincadeira… não conseguiria mais deixar de vê-lo. Alguns podiam rir e dizer que não era nada, simplesmente uma porção de borrões sem significado, melhor ficar com um livro de colorir, mas você sempre veria o rosto de Nosso Senhor Jesus Cristo olhando para você. Você o viu num único salto de gestalt, o consciente e o inconsciente se unindo naquele momento chocante de compreensão. Você sempre o veria. Tinha sido condenado a vê-lo sempre.

( Voltei a ser sonâmbula, meu querido…)

Tudo estava bem, até que viu Danny brincando na neve. A culpa foi de Danny. Era tudo culpa de Danny. Era ele o iluminado ou coisa que o valha.

Não era uma luz, era uma praga. Se ele e Wendy estivessem ali sozinhos, passariam o inverno muito bem. Sem dor, sem peso na cabeça.

( Não quero ir? Não posso? )

O Overlook não queria que fossem, e ele também não queria sair. Nem Danny. Talvez ele fosse parte do hotel agora. O Overlook era uma espécie de grande e errante Samuel Johnson, e talvez escolhesse Jack para ser seu Boswell. Você me diz que o novo zelador escreve? Muito bem, pode contratá-lo. Está na hora de divulgar nossa história. No entanto, vamos antes nos livrar da mulher e do filho mimado. Não queremos que ele seja perturbado. Nós não…

Estava parado ao lado do banco do snowmobile, a cabeça começando a doer novamente. Qual era a questão básica? Ir ou ficar. Muito simples. Não complique. Devemos ir ou ficar?

Se formos, quanto tempo levará até encontrar um buraco em Sidewinder?, perguntou uma voz, lá no fundo. Um lugar escuro com uma droga de uma tevê colorida, onde os homens, desempregados e com a barba por fazer, passam o dia assistindo a jogos? Onde o cheiro de urina no banheiro masculino data de dois mil anos, e há sempre uma ponta de cigarro Camel se desmanchando na privada? Onde a cerveja custa trinta centavos o copo, e você a bebe misturada com sal, ouvindo músicas caipiras de setenta anos que tocam na vitrola automática?

Quanto tempo? Deus do céu, ele temia que não fosse levar muito tempo.

— Não posso vencer — disse ele baixinho. Basicamente isso. Era como tentar jogar paciência faltando um ás no baralho.

Abruptamente, Jack se debruçou sobre o motor do Ski-Doo e arrancou o magneto. Saiu com extrema facilidade. Ficou olhando para ele por um

momento e, em seguida, foi até os fundos do galpão e abriu a porta.

Daqui, a vista das montanhas não era obstruída. À luz da manhã, tinha um belo cartão-postal. Um vasto campo de neve ia até os pinheiros, a um quilômetro de distância. Arremessou o magneto na neve, o mais longe que pôde. Foi muito mais longe do que devia. Quando caiu, fez a neve subir ligeiramente. A brisa leve carregou os grânulos para outros lugares.

Dissipem-se, eu ordeno. Mais nada para ver. Está tudo acabado. Disperso.

Sentiu-se em paz.

Ficou parado ali, por muito tempo, respirando o ar puro da montanha, e então fechou a porta com força e saiu pela da frente para informar a Wendy que teriam de ficar. No caminho, parou e brincou de atirar neve com Danny.

34

OS ARBUSTOS

Era a tarde de 29 de novembro, três dias depois do dia de Ação de Graças. A última semana havia sido boa, e a ceia, a melhor que já tinham passado em família. Wendy assou o peru que Dick Hallorann deixara e, apesar de comerem até se fartar, a bela ave tinha ficado quase inteira. Jack deu um suspiro, dizendo que comeriam peru pelo resto do inverno: peru com molho, sanduíche de peru, peru com macarrão, surpresa de peru.

— Não — Wendy respondeu com um sorriso. — Só até o Natal. Depois comeremos o capão.

Jack e Danny resmungaram juntos.

Os hematomas no pescoço de Danny haviam desaparecido, e seus pavores pareciam ter sumido junto. Naquele dia de Ação de Graças, Wendy ficara puxando Danny no trenó enquanto Jack trabalhava na peça, que estava quase pronta.

— Ainda está com medo, velhinho? — perguntou ela, sem saber como indagar isso de uma maneira mais branda.

— Sim — respondeu o garoto simplesmente. — Mas agora eu fico nos lugares seguros.

— Seu pai falou que mais cedo ou mais tarde os guardas-florestais vão perceber que não nos comunicamos mais pelo rádio e vão vir até aqui para ver se alguma coisa está errada. Então, pode ser que a gente vá embora. Você e eu. E seu pai fique até o fim do inverno. Ele tem boas razões para querer que seja assim. De certo modo, velhinho… eu sei que isto é duro para você entender… estamos com as mãos atadas.

— Sim — Danny falou, com reservas.

A tarde estava ensolarada, os pais se encontravam no andar de cima, e Danny sabia que tinham feito amor. Agora cochilavam. Estavam felizes, ele sabia. Sua mãe ainda sentia um pouco de medo, mas a atitude do pai era estranha. Era a sensação de haver feito alguma coisa muito difícil e bem-feita.

Mas Danny não parecia ver exatamente o que era essa coisa. O pai guardava essa informação com cuidado até mesmo em sua mente. Seria possível, Danny se questionou, ficar feliz por ter feito algo e ao mesmo tempo ficar tão envergonhado dessa coisa, a ponto de tentar não pensar nela? A pergunta era complicada. Não achava que isso fosse possível… numa cabeça normal. Suas investigações mais sérias em relação ao pai trouxeram apenas o retrato obscuro de algum objeto parecido com um polvo, girando no céu azul. E, nas duas ocasiões em que se concentrara profundamente para chegar à questão, o pai de repente ficou olhando fixamente para ele, como se soubesse o que Danny estava fazendo.

Danny agora estava no saguão, se arrumando para ir para fora. Saía muito, levando o trenó ou seus sapatos de neve. Gostava de sair do hotel. Quando estava ao sol, era como se tivesse tirado um peso dos ombros.

Puxou uma cadeira, subiu nela e do armário do salão tirou a parca e a calça de neve. Então se sentou para vesti-las. As botas estavam guardadas numa caixa, e após retirá-las ele as enfiou nos pés, concentrado, com a língua de fora no canto da boca enquanto as amarrava. Colocou as luvas e a máscara de esqui, e estava pronto.

Passou pela cozinha em direção à porta dos fundos e então parou. Estava cansado de brincar nos fundos do hotel, e a esta hora do dia o local onde brincava já estava coberto de sombra. Também não gostava de ficar sob a sombra do Overlook. Resolveu pegar os sapatos de neve para ir brincar no parquinho. Dick Hallorann havia avisado para se manter afastado da topiaria, mas os animais de arbusto não o incomodavam tanto. Estavam soterrados na neve, e não dava para ver nada, a não ser uma ligeira elevação que era a cabeça do coelho e as caudas dos leões. Saindo da neve como estavam, as caudas pareciam mais absurdas do que assustadoras.

Danny abriu a porta dos fundos e tirou os sapatos de neve da plataforma onde deixavam o leite. Cinco minutos depois, estava na varanda da frente, calçando-os. O pai havia comentado que ele (Danny) levava jeito para usar os sapatos — os passos largos e lentos, a virada de tornozelos para sacudir a neve das fivelas, exatamente antes de bater a bota de volta ao chão — e o mais importante era que ele desenvolveria os músculos das coxas, barriga das

pernas e tornozelos. Danny descobriu que seus tornozelos se cansavam primeiro. Andar pela neve era quase tão duro para os tornozelos quanto patinar, porque é preciso ficar limpando as fivelas o tempo todo. A cada cinco minutos ele tinha que parar com as pernas abertas, os sapatos planos na neve, para descansar.

Continuar: parte 4 de 4