O Morgado de Fafe Amoroso

Camilo Castelo Branco · Capítulo 1 de 75

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O Morgado de Fafe Amoroso

Acto I

 

Vista de sala com seis portas laterais e janelas

CENA I

JOÃO ALVARES e PÔNCIA

(João Alvares anda, pé ante pé, espreitando à fechadura das portas laterais. Traja um rob-de-chambre, e lenço branco atado à cabeça).

 

PÔNCIA, entrando por uma das portas da direita

Credo!... O Sr. João anda assim vestido à fresca! Isso é feitio! Olha que preparo!... Valha-o Deus! Suou três camisas, e pranta-se aí com o cadáver ao ar!...

 

JOÃO

Diz bem, tia Pôncia. Isto já não é senão um cadáver, lançado à margem, e exposto aos corvos e abutres das paixões carnívoras.

 

PÔNCIA

Que está aí a alanzoar o Sr. João? Vá-se vestir, ande! Agasalhe-me esse peito, que eu vou dizer ao estalajadeiro que lhe dê de almoçar. É preciso comer!... Leve o demo as paixões que o puseram na espinha!

 

JOÃO

Comer, tia Pôncia! O que é comer sobre a face da terra, quando a vida vegetal paralisou! O meu alimento é o absinto das lagrimas! Sou o Ugolino da fome do espirito, o Tântalo, o Prometeu devorado pelo incessante abutre!

 

PÔNCIA

Que bruto está aí a dizer! A apostar que lhe fizeram alguma os brutos cá da Foz! Eu sempre tive zanga a esta gente! Pois o estalajadeiro! Isso então é um roubar sem dó nem consciência!

 

JOÃO

Não me fale nas misérias da vida. Ouça o que eu lhe digo...

PÔNCIA, lançando-lhe aos ombros um xaile de baeta amarela

 

Pois, sim; mas agasalhe-se... Ora, diga lá. Bacoreja-me que temos patavinice de namoricos... Queira Deus que não esteja por aí alguma como a Felizarda do outro ano que lhe pós o sal na moleira...

 

JOÃO

Tia Pôncia! Há uma mulher que não pertence a este mundo.

 

PÔNCIA

Coitadinha! Foi por ela que tocaram ontem os sinos a defuntos? Então, rezemos-lhe por alma.

 

JOÃO

Não me corte o discurso! Esta mulher vive.

PÔNCIA

Ah! sim? Ainda bem; ainda bem!

 

JOÃO

E vossemecê a dar-lhe! Ouça, e fale quando dever responder. Esta mulher veio ontem à noite de Guimarães, com o morgado de Fafe, e deve estar num destes quartos.

 

PÔNCIA

Será ela a dona da cabra branca, que me não deixou dormir?!

 

JOÃO

É a mesma; é a dona da cabra branca. Que imensa poesia tem aquele amor à cabra! Se vossemecê a visse, como eu a vi, a contemplar as estrelas do céu...

 

PÔNCIA, benzendo-se

A cabra?! Credo!

 

JOÃO

A dona, mulher, a dona é que, à uma hora da noite, andava no terraço contemplando o céu.

 

PÔNCIA

À uma hora da noite uma menina no terraço a ver o Sete-Estrelo! isso é bruxedo! Cruzes, canhoto! Terá ela fadário?

 

JOÃO

Fadário tem vossemecê de toleima! Vive comigo há tantos anos, e parece que está cada vez mais tapada, tia Pôncia!

 

PÔNCIA

Tapada, eu! Eu tapada porque lhe digo as verdades, Sr. João! Não lhe disse eu que a Felizarda era uma trapalhona que lhe dava volta ao miolo? Quando o Sr. Joãozinho andava atrás da filha do letrado, não lhe disse eu que a rapariga, ás duas por três, se lhe aparecesse brasileiro, era como se nunca nos víssemos, passe por cá muito bem?! E agora queria que eu lhe dissesse mundos e fundos de uma tola que anda pelo mundo com uma cabra atrás dela, e vai à uma hora da noite pôr-se assim de boca aberta a olhar para os planetas? (Faz o gesto indicado nas palavras) Deixe-me benzer, e Deus me tenha da sua mão, e mais ao Sr. Joãozinho, que o vi nascer, e desde que anda por cá desencabrestado arranja sempre enguiço que o tolhe. Sabe que mais, Sr. João? Coma, e beba, e tome os seus banhos que é ao que veio; e mais, leve o diabo, Deus me perdoe, as mulheres, e, quando houver de casar, arranje filha de lavrador, que saiba amanhar a vida, e não olhe para estas fuinhas da cidade, que parecem mesmo o pecado!.. Uma raparigaça de uma vez é a fidalga de Amarante. Aquilo sim! Que cor de saúde, que braços, que ilhargas! E depois, disse-me a criada que lá em casa matam dez sevados cada ano! Porque não há de o menino perder o seu tempo com uma rapariga assim!... Dez cevados por ano! E é fidalga para além do mais! JOÃO

Cale-se, que me embrutece! Eu posso lá amar uma mulher que almoça presunto assado, e é estúpida como a couçoeira de uma porta?! O meu coração tem aspirações delicadas... Eu quero a mulher-espirito, a mulher-poesia, a mulher-génio, a mulher-sonho...

 

PÔNCIA, tirando do debrum do colete uma figa de azeviche

Ó Sr. Joãozinho, quer sim quer não, faça-me o favor de pendurar ao pescoço esta figa de azeviche! O menino tem coisa ruim no corpo!

 

VOZ, DE FORA

Ó João!

 

JOÃO

Entra, Bernardo.

 

PÔNCIA

Aí vem o extravagante!... Olhe se vem almoçar, menino, e não esteja a ouvir os conselhos do estroina. (Sai).