O Morgado de Fafe Amoroso
Cena Vii
JOÃO e BERNARDO
BERNARDO
Ó João, podes emprestar-me duas libras até me chegar dinheiro de casa?
JOÃO
Donde vens tu, que te não vejo há dois dias?
BERNARDO
Da espelunca. Lá comi e dormi e larguei as últimas relíquias de vinte libras.
JOÃO
E a respeito de Hermenegilda?
BERNARDO
Nem mais me lembrou a parva criatura! Aquilo não me serve, porque há de ser difícil de mover o quadrupede paternal! Mas em quanto a ela, fazes lá ideia da selvagem que ali está! Cada palavra que diz são três asneiras das que gelam o mais vulcânico amor! Deixa-a ir pro morgado, que vai para onde a destinou a natureza.
JOÃO
Decididamente não queres mais nada da Hermenegilda?
BERNARDO
Queria-lhe o chapéu que ela trouxe de Amarante para me embarcar nele para a Califórnia, em perdendo a ultima jeira do património! Dá cá as duas libras, que me foge o palpite.
JOÃO
Faz-te desarranjo vir busca-las logo? A Pôncia é que tem o dinheiro; e, se eu lho vou pedir agora, a mulher sabe que é para ires jogar, e não mo dá.
BERNARDO
Então volto logo. Vou à praia ver uma Felizarda de Atei que é menos bocal que Hermenegilda, e não é menos rica. Até depois. (Sai).