O Morgado de Fafe Amoroso
Cena Iv
O morgado de Fafe, D. Vicência Pimentel, com a cabra, D.
Hermenegilda Falcão, Heitor Falcão
HEITOR Falcão, como se viessem conversando de fora
Grande alegria me deu a sua vinda, primo morgado!... Esta senhora é que eu não conhecia. (As duas senhoras estão afagando a cabritinha).
MORGADO, ao ouvido de Heitor
Tem grande pancada na mola!
HEITOR, o mesmo
Também me quer parecer.
MORGADO, alto
O primo Heitor Falcão havia de conhecer o doutor Pimentel da casa das Lagariças?
HEITOR
Ouvi falar desse doutor.
MORGADO
Pois a Sra. D. Vicência é viúva do tal doutor, e veio de Guimarães na minha honrosa companhia.
D. VICÊNCIA, à parte a D. Hermenegilda
Na honrosa companhia dele!... O homem é parvo!...
BERNARDO, com ar estúpido
Quem? o primo morgado de Fafe?
D. VICÊNCIA, à parte
Ela é tão parva como ele!... Com que gente eu estou relacionada!... (Vai fazer festa a cabra).
MORGADO, à parte a Heitor
O demónio da cabra deu-nos um trabalhão! Imagine o primo, aquela bruta dentro da diligência a dar marradas nos joelhos da gente!..
HEITOR
Então a mulher é doida! Pois ela vinha a dar cabeçadas?!... seria com sono...
MORGADO
Eu falo da cabra, não é da viúva.
HEITOR
Ah! já percebo! Pois pudera! A cabra na diligência!
D. VICÊNCIA, a um criado que avista tio corredor
Ó homem! dê-me de almoçar à Dejhali: sopinhas de leite, ouviu? leve com modo a Dejhali. (O criado leva a cabra).
HEITOR
O quê? como diz ela à cabra?
MORGADO
Acho que é deixa-a ali. Eu pergunto-lhe. A Sra. D. Vicência, como é que a Sra. diz à cabrita?
D. VICÊNCIA
Dejhali.
MORGADO, a Heitor
Vê? Deixa-a ali.
D. VICÊNCIA
Deixa-a ali, não, De-jha-li. Ainda que eu lhes queira explicar o nome, os senhores decerto não leram a Notre Dame de Victor Hugo. (Os dois encaram-se com ar de estúpida zombaria).
MORGADO, a meia voz
Ainda a quer mais atolambada?
HEITOR, o mesmo
É daquela casta!
D. VICÊNCIA, a D. Hermenegilda
A menina sabe francês?
BERNARDO, com o seu permanente ar de lorpa
Eu!... eu sei cá isso!
D. VICÊNCIA, a Heitor
Porque não manda ensinar francês a sua filha?
HEITOR, rindo boçalmente
De que serve isso? Os meus avós morreram muito velhos sem saber francês. Que leve o diabo os franceses! Quando estiveram em Amarante, no tempo do Silveira, arrasaram-me a casa. E a senhora sabe falar francês?
D. VICÊNCIA
Sei, e falava sempre francês com o meu marido.
MORGADO, a Heitor, espantado Nilo se admire que lá em Lisboa, onde eu estive há quatro anos, as famílias, falavam em francês como se estivessem em França. Eu ia lá a casa de um barão, que me quis impingir a filha, e tanto ela como a mãe, ás duas por três, começavam a taramelar em francês. E olhe que eu ainda andei a estudar um bocado de tal língua; mas a falar-lhe a verdade, nem para traz nem para diante. Ó Sra. D. Vicência, fale lá um todo-nada de francês para o primo Heitor ouvir. É língua levada da breca! Ora vá lá, diga alguma coisa...
D. VICÊNCIA, rindo
Que hei de eu dizer?... Vous etes un sot, et votre cousin est un sot pareil, n’est ce pas vrai?
HEITOR
É verdade: tem deanho o tal palavreado! Com efeito!
MORGADO
Eu não lhe disse, primo? Ora diga lá isso em português? (A D. Vicência).
D. VICÊNCIA, que continua a rir
Eu disse que v. exa. e o seu primo são dois cavalheiros estimáveis.
MORGADO, com desconfiança
Isso são favores.
HEITOR, à parte ao morgado
Olhe que ela está a gozar connosco.
MORGADO
Também me parece.
D. VICÊNCIA, a Hermenegilda Então a menina não estudou nada?
BERNARDO
Eu sei ler nos livros.
D. VICÊNCIA Ah! A menina tem livros?
BERNARDO
Tenho alguns.
D. VICÊNCIA
Romances da Biblioteca económica, talvez...
HEITOR
Não, senhora, ela não tem disso. A minha filha não lê romances. É peste que me não entra em casa. Lá na Amarante as cabras não tem nomes estrangeiros.
MORGADO
Chamam-se cabras.
HEITOR
Sem tirar nem pôr: é como diz.
D. VICÊNCIA, sorrindo
Mas os romances não servem somente para dar nomes ás cabras.
HEITOR
Então de que servem? De estragar a mocidade. A minha amiga, mulher que lê novelas, diz lá o doutor da Portela de baixo, que não dá boa saída.