O Morgado de Fafe Amoroso

Camilo Castelo Branco · Capítulo 5 de 75

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O Morgado de Fafe Amoroso

Cena Iv

O morgado de Fafe, D. Vicência Pimentel, com a cabra, D.

Hermenegilda Falcão, Heitor Falcão

 

HEITOR Falcão, como se viessem conversando de fora

Grande alegria me deu a sua vinda, primo morgado!... Esta senhora é que eu não conhecia. (As duas senhoras estão afagando a cabritinha).

 

MORGADO, ao ouvido de Heitor

Tem grande pancada na mola!

 

HEITOR, o mesmo

Também me quer parecer.

MORGADO, alto

O primo Heitor Falcão havia de conhecer o doutor Pimentel da casa das Lagariças?

 

HEITOR

Ouvi falar desse doutor.

 

MORGADO

Pois a Sra. D. Vicência é viúva do tal doutor, e veio de Guimarães na minha honrosa companhia.

 

D. VICÊNCIA, à parte a D. Hermenegilda

Na honrosa companhia dele!... O homem é parvo!...

 

BERNARDO, com ar estúpido

Quem? o primo morgado de Fafe?

D. VICÊNCIA, à parte

Ela é tão parva como ele!... Com que gente eu estou relacionada!... (Vai fazer festa a cabra).

 

MORGADO, à parte a Heitor

O demónio da cabra deu-nos um trabalhão! Imagine o primo, aquela bruta dentro da diligência a dar marradas nos joelhos da gente!..

 

HEITOR

Então a mulher é doida! Pois ela vinha a dar cabeçadas?!... seria com sono...

 

MORGADO

Eu falo da cabra, não é da viúva.

 

HEITOR

Ah! já percebo! Pois pudera! A cabra na diligência!

 

D. VICÊNCIA, a um criado que avista tio corredor

Ó homem! dê-me de almoçar à Dejhali: sopinhas de leite, ouviu? leve com modo a Dejhali. (O criado leva a cabra).

 

HEITOR

O quê? como diz ela à cabra?

 

MORGADO

Acho que é deixa-a ali. Eu pergunto-lhe. A Sra. D. Vicência, como é que a Sra. diz à cabrita?

 

D. VICÊNCIA

Dejhali.

MORGADO, a Heitor

Vê? Deixa-a ali.

 

D. VICÊNCIA

Deixa-a ali, não, De-jha-li. Ainda que eu lhes queira explicar o nome, os senhores decerto não leram a Notre Dame de Victor Hugo. (Os dois encaram-se com ar de estúpida zombaria).

 

MORGADO, a meia voz

Ainda a quer mais atolambada?

 

HEITOR, o mesmo

É daquela casta!

 

D. VICÊNCIA, a D. Hermenegilda

A menina sabe francês?

BERNARDO, com o seu permanente ar de lorpa

Eu!... eu sei cá isso!

 

D. VICÊNCIA, a Heitor

Porque não manda ensinar francês a sua filha?

 

HEITOR, rindo boçalmente

De que serve isso? Os meus avós morreram muito velhos sem saber francês. Que leve o diabo os franceses! Quando estiveram em Amarante, no tempo do Silveira, arrasaram-me a casa. E a senhora sabe falar francês?

 

D. VICÊNCIA

Sei, e falava sempre francês com o meu marido.

 

MORGADO, a Heitor, espantado Nilo se admire que lá em Lisboa, onde eu estive há quatro anos, as famílias, falavam em francês como se estivessem em França. Eu ia lá a casa de um barão, que me quis impingir a filha, e tanto ela como a mãe, ás duas por três, começavam a taramelar em francês. E olhe que eu ainda andei a estudar um bocado de tal língua; mas a falar-lhe a verdade, nem para traz nem para diante. Ó Sra. D. Vicência, fale lá um todo-nada de francês para o primo Heitor ouvir. É língua levada da breca! Ora vá lá, diga alguma coisa...

 

D. VICÊNCIA, rindo

Que hei de eu dizer?... Vous etes un sot, et votre cousin est un sot pareil, n’est ce pas vrai?

 

HEITOR

É verdade: tem deanho o tal palavreado! Com efeito!

 

MORGADO

Eu não lhe disse, primo? Ora diga lá isso em português? (A D. Vicência).

 

D. VICÊNCIA, que continua a rir

Eu disse que v. exa. e o seu primo são dois cavalheiros estimáveis.

 

MORGADO, com desconfiança

Isso são favores.

 

HEITOR, à parte ao morgado

Olhe que ela está a gozar connosco.

 

MORGADO

Também me parece.

 

D. VICÊNCIA, a Hermenegilda Então a menina não estudou nada?

 

BERNARDO

Eu sei ler nos livros.

 

D. VICÊNCIA Ah! A menina tem livros?

 

BERNARDO

Tenho alguns.

 

D. VICÊNCIA

Romances da Biblioteca económica, talvez...

 

HEITOR

Não, senhora, ela não tem disso. A minha filha não lê romances. É peste que me não entra em casa. Lá na Amarante as cabras não tem nomes estrangeiros.

 

MORGADO

Chamam-se cabras.

 

HEITOR

Sem tirar nem pôr: é como diz.

 

D. VICÊNCIA, sorrindo

Mas os romances não servem somente para dar nomes ás cabras.

 

HEITOR

Então de que servem? De estragar a mocidade. A minha amiga, mulher que lê novelas, diz lá o doutor da Portela de baixo, que não dá boa saída.