O Morgado de Fafe Amoroso

Camilo Castelo Branco · Capítulo 63 de 75

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O Morgado de Fafe Amoroso

Cena Vi

JOÃO e PÔNCIA

 

PÔNCIA

Menino, eu estava a ver se a Sra. D. Hermenegilda dava fé desta desordem por causa da Vicência!

 

JOÃO

E que tinha isso? que me importa a mim a Hermenegilda?

 

PÔNCIA

O senhor está a ler! Então não sabe que, se Deus e S. Gonçalo de Amarante nos ajudar, o menino está aqui, e está rico a não saber o que tem de seu?

JOÃO

Não entendo! Como é isso, tia Pôncia?

 

PÔNCIA

Cale-se, cale-se, que já tenho esperanças de morrer contente, deixando-o nos braços da sua mulher, com uma casa farta e cheia de tudo. Hermenegilda é sua mulher, ou eu não sou Pôncia do Rosário.

 

JOÃO

Que está a dizer a mulher?! Pois não sabe que Hermenegilda namora o meu amigo Bernardo de Castro?

 

PÔNCIA

Isso está desmanchado! Mau foi eu meter-me nisto!... Tanto se lhe dá ela do Bernardo como do Morgado. O que ela quer é casar com o Sr. Joãozinho.

JOÃO

Mas eu é que não sou capaz de atraiçoar o meu amigo. A minha principal riqueza é a honra. E de mais disso, Hermenegilda é muito estúpida.

 

PÔNCIA

É estúpida? As espertas é que são boas, não são? Olhe lá no que deu a esperteza da Vicência! Aquela é que lhe servia, sim? Ora, Sr. Joãozinho! sempre lhe digo que essa sua cabeça é uma abobora! Levou uma lição daquela casta, e não aprendeu nada! Pelos modos, o menino vai ver se encontra outra fidúcia que tenha uma cabra, e que ande pelos telhados a botar versos aos planetas! Valha-o Deus, que está cada vez mais tonto! Sr. João, tome o meu conselho: mulher para o arranjo da vida como a D. Hermenegilda, más maleitas me apanhem, se o senhor topar outra. Não quer? O senhor torcerá as orelhas. A culpa tenho-a eu de andar metida nestas balbúrdias. Que hei de eu agora dizer à pobre menina? para além do mais fiquei de arranjar com que o Sr. Joãozinho lhe falasse hoje para se declararem um ao outro, e vai agora...

 

JOÃO

Ó mulher, vossemecê é mentecapta! Pois pensa que, ainda mesmo que eu quisesse casar com Hermenegilda, o pai ma dava?

 

PÔNCIA

Isso deixe-o pela minha conta; eu arranjarei tudo.

 

JOÃO

De que modo? Explique-se.

 

PÔNCIA

Não tenho tempo agora. Quer ou não quer?

JOÃO

Eu não sei que faça!... Você está a tentar-me, Pôncia! Sinto que se está torcendo a minha vocação! Isto é um fenómeno! Por ventura, estarei eu também corrompido! A indignidade do coração humano será contagiosa?!

 

PÔNCIA

O senhor está aí a pregar? Isto é pão-pão, pedra-pedra. Vou busca-la?

 

JOÃO

Buscar o quê?

 

PÔNCIA

A noiva.

 

JOÃO

Por fim!...

 

PÔNCIA

Demore-se um migalho... Oh! com a breca!... Aí vem o Bernardo, empate-o!... (Sai.)