O Morgado de Fafe Amoroso

Camilo Castelo Branco · Capítulo 29 de 75

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O Morgado de Fafe Amoroso

Tocador

Não sabe cachucha eu.

 

MORGADO E a Cana-verde? sabes? (Canta:)

A cana verde no mar;

A cana verde na arca.

Sabes isto?

 

TOCADOR

Cane? nó; cane?

 

MORGADO

Então que diabo sabes tu? Toca lá o que souberes. (O homem toca qualquer coisa. — Assoma na janela Hermenegilda, e Pôncia noutra janela).

MORGADO, que passeia radioso na cena

Gosta desta moda, priminha?

 

BERNARDO

Ele não sabe tocar o...

 

MORGADO, mandando parar o realejo pata ouvir

Que diz, amor?

 

BERNARDO

Ele não sabe tocar aquela moda: «Muito bem seja aparecido nesta função?»

 

MORGADO

Rapaz! Tu saber cantar esta coisa (Canta:) «Muito bem seja aparecido nesta função. Bate as palmas com o seu peixinho, com o seu peixinho, seu pechâo.»

 

TOCADOR

Peixon? no saper modas do peixon.

 

MORGADO

O bruto não sabe nada. Anda lá, vai tocando o que sabes. (Continua o realejo).

 

MORGADO, com os seus botões

Eu sei como se levam as mulheres! Estes janotas de agora não sabem vencer o coração das damas. Eu, com dois dedos de realejo, tenho feito mais que outros com muita papelada e palavreado. Agora é tempo de lhe falia r. {Paga ao tocador). Vai-te embora; e amanhã aparece à mesma hora.

PÔNCIA, fechando a janela

Com bem passe a noite, Sra. D. Hermenegilda. (Baixo). Daqui a bocado venho aqui; preciso muito de lhe falar para negócio. Não se deite, não?

 

BERNARDO

Pois, sim. Traga-me daqueles pastéis de ontem à noite, sim?

 

PÔNCIA

Já aqui os tenho. (Alto). Boas noites, Sr. Morgado.

 

MORGADO

Adeus, Pôncia.