O Morgado de Fafe Amoroso
Tocador
Não sabe cachucha eu.
MORGADO E a Cana-verde? sabes? (Canta:)
A cana verde no mar;
A cana verde na arca.
Sabes isto?
TOCADOR
Cane? nó; cane?
MORGADO
Então que diabo sabes tu? Toca lá o que souberes. (O homem toca qualquer coisa. — Assoma na janela Hermenegilda, e Pôncia noutra janela).
MORGADO, que passeia radioso na cena
Gosta desta moda, priminha?
BERNARDO
Ele não sabe tocar o...
MORGADO, mandando parar o realejo pata ouvir
Que diz, amor?
BERNARDO
Ele não sabe tocar aquela moda: «Muito bem seja aparecido nesta função?»
MORGADO
Rapaz! Tu saber cantar esta coisa (Canta:) «Muito bem seja aparecido nesta função. Bate as palmas com o seu peixinho, com o seu peixinho, seu pechâo.»
TOCADOR
Peixon? no saper modas do peixon.
MORGADO
O bruto não sabe nada. Anda lá, vai tocando o que sabes. (Continua o realejo).
MORGADO, com os seus botões
Eu sei como se levam as mulheres! Estes janotas de agora não sabem vencer o coração das damas. Eu, com dois dedos de realejo, tenho feito mais que outros com muita papelada e palavreado. Agora é tempo de lhe falia r. {Paga ao tocador). Vai-te embora; e amanhã aparece à mesma hora.
PÔNCIA, fechando a janela
Com bem passe a noite, Sra. D. Hermenegilda. (Baixo). Daqui a bocado venho aqui; preciso muito de lhe falar para negócio. Não se deite, não?
BERNARDO
Pois, sim. Traga-me daqueles pastéis de ontem à noite, sim?
PÔNCIA
Já aqui os tenho. (Alto). Boas noites, Sr. Morgado.
MORGADO
Adeus, Pôncia.