O Morgado de Fafe Amoroso
Cena X
OS MESMOS e UM SUJEITO
(Abre-se de repente a porta, e assoma um sujeita embrulhado num
cobertor, e barrete de dormir)
O SUJEITO
Que alarve é este que anda a incomodar quem dorme?!
MORGADO
Fui eu que me enganei... perdoará... Procuro a Sra. D. Vicência.
O SUJEITO
Eu não sou D. Vicência.
MORGADO
Bem vejo; por isso pode-se deitar Vossa Senhoria mas olhe que sito dez horas e meia.
O SUJEITO
Quem lhe pergunta ao estúpido personagem que horas são?
MORGADO
Veja lá com quem falia, ó menino? Olhe que eu sou
António dos Amarais Tinoco Valadares, morgado de Fafe.
O SUJEITO
Que me importa a mim isso? E eu sou Bonifácio da Silva.
MORGADO
Pois, Sr. Bonifrates da Silva, recolha-se, que eu já não estou bom. Ponha cobro na língua, e deite-se, que eu ás duas por três, se me fazem cócegas, costumo... sim, isto é um modo de falar... (Faz o trejeito de quem volta um homem de pernas ao ar). Se o senhor quer saber quem eu sou, vá pergunta-lo a Lisboa.
O SUJEITO
O senhor ameaça-me?! (Sai fora do limiar da porta).
MORGADO
O senhor não tem vergonha de aparecer assim embrulhado num cobertor diante daquela menina? Tape os olhos, prima! (D. Hermenegilda tapa o rosto com a mão).
O SUJEITO
Acordar-me, e insultar-me, é de mais.
MORGADO
Podia, ser mais... vá-se para sua cama, na graça de Deus, vá, vá, que eu já não regulo bem do toitiço... (Leva-o com bons modos entre as mãos até o meter ao quarto). Se aqui não está esta inocente… (Indicando Hermenegilda) e eu não receasse que o cobertor lhe caísse, pespegava-o como uma obreia acolá no teto. Onde diabo está metida a senhora da cabra?
JOÃO
Creio que o seu quarto é aquele, Sr. morgado.
MORGADO
Este? (Bate). D. Vicência!
Voz de D. Vicência
Que quer?
MORGADO
Ela cá está. (Alto). Quer vir dar uma passeata? (Voz dentro que não se entende). Fale alto, que não se ouve nada na plateia.
D. VICÊNCIA, dentro
Não posso sair por ora, que está a cabrinha a dormir.
MORGADO, para fora
Está a cabrinha a dormir!... Isto só com um tirapé!... (Alto). A senhora está maluca?
D. VICÊNCIA
Não me incomode, que me acorda a Dejhali.
MORGADO
Vamos embora. Ó amigo João, uma doida assim à perna é que eu
lhe queria!... (Sai com Hermenegilda e Heitor).