O Morgado de Fafe Amoroso

Camilo Castelo Branco · Capítulo 14 de 75

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O Morgado de Fafe Amoroso

Cena X

 

OS MESMOS e UM SUJEITO

(Abre-se de repente a porta, e assoma um sujeita embrulhado num

cobertor, e barrete de dormir)

 

O SUJEITO

Que alarve é este que anda a incomodar quem dorme?!

 

MORGADO

Fui eu que me enganei... perdoará... Procuro a Sra. D. Vicência.

 

O SUJEITO

Eu não sou D. Vicência.

 

MORGADO

Bem vejo; por isso pode-se deitar Vossa Senhoria mas olhe que sito dez horas e meia.

 

O SUJEITO

Quem lhe pergunta ao estúpido personagem que horas são?

 

MORGADO

Veja lá com quem falia, ó menino? Olhe que eu sou

António dos Amarais Tinoco Valadares, morgado de Fafe.

 

O SUJEITO

Que me importa a mim isso? E eu sou Bonifácio da Silva.

 

MORGADO

Pois, Sr. Bonifrates da Silva, recolha-se, que eu já não estou bom. Ponha cobro na língua, e deite-se, que eu ás duas por três, se me fazem cócegas, costumo... sim, isto é um modo de falar... (Faz o trejeito de quem volta um homem de pernas ao ar). Se o senhor quer saber quem eu sou, vá pergunta-lo a Lisboa.

 

O SUJEITO

O senhor ameaça-me?! (Sai fora do limiar da porta).

 

MORGADO

O senhor não tem vergonha de aparecer assim embrulhado num cobertor diante daquela menina? Tape os olhos, prima! (D. Hermenegilda tapa o rosto com a mão).

 

O SUJEITO

Acordar-me, e insultar-me, é de mais.

 

MORGADO

Podia, ser mais... vá-se para sua cama, na graça de Deus, vá, vá, que eu já não regulo bem do toitiço... (Leva-o com bons modos entre as mãos até o meter ao quarto). Se aqui não está esta inocente… (Indicando Hermenegilda) e eu não receasse que o cobertor lhe caísse, pespegava-o como uma obreia acolá no teto. Onde diabo está metida a senhora da cabra?

 

JOÃO

Creio que o seu quarto é aquele, Sr. morgado.

 

MORGADO

Este? (Bate). D. Vicência!

 

Voz de D. Vicência

Que quer?

 

MORGADO

Ela cá está. (Alto). Quer vir dar uma passeata? (Voz dentro que não se entende). Fale alto, que não se ouve nada na plateia.

D. VICÊNCIA, dentro

 

Não posso sair por ora, que está a cabrinha a dormir.

 

MORGADO, para fora

Está a cabrinha a dormir!... Isto só com um tirapé!... (Alto). A senhora está maluca?

 

D. VICÊNCIA

Não me incomode, que me acorda a Dejhali.

 

MORGADO

Vamos embora. Ó amigo João, uma doida assim à perna é que eu

lhe queria!... (Sai com Hermenegilda e Heitor).