O que é a vida?

Erwin Schrödinger · Capítulo 12 de 17

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O que é a vida?

2. O Futuro da Compreensão1

 

Um beco sem saída biológico?

Acredito que podem os considerar com o extrem am ente im provável que. nossa com preensão do m undo represente qualquer estágio definitivo ou final, um m áxim o ou ótim o sob qualquer aspecto. Com isso, não estou querendo sim plesm ente dizer que a continuação de nossa pesquisa nas várias ciências, nossos estudos filosóficos e intento religioso provavelm ente irão aperfeiçoar e m elhorar nossa perspectiva presente. O que provavelm ente ganharem os dessa m aneira, digam os, nos próxim os dois m ilênios e m eio - estim ando a partir dos progressos que conquistam os desde Protágoras, Dem ócrito e Antístenes - é insignificante em com paração com aquilo a que estou aludindo. Não há nenhum m otivo para acreditar que nosso cérebro sej a o suprem o nec plus ultra de um órgão de pensam ento no qual o m undo se reflete. É m ais provável que um a espécie possa adquirir um a engenhoca sem elhante cuj a im agem correspondente estej a em relação à nossa, assim com o a nossa está para a do cão, ou a deste para a de um a lesm a.

Se assim for, então - em bora, em princípio, não sej a relevante - interessa-nos saber, ainda que por razões pessoais, se algum a coisa desse tipo pode ser conseguida em nosso m undo por nossa própria descendência ou pela descendência de alguns de nós. Está tudo certo com a Terra. É um a boa e j ovem locação, que ainda deve ser dirigida sob condições aceitáveis de vida durante aproxim adam ente o m esm o que levam os (digam os, 1.000 m ilhões de anos) para evoluir desde os prim órdios até aquilo que som os hoj e. E quanto a nós m esm os? Está tudo certo conosco? Caso se aceite a presente teoria da evolução - e não tem os nenhum a m elhor - poderia parecer que estaríam os praticam ente im pedidos de ter um futuro desenvolvim ento. Existiria ainda um a evolução física a ser esperada para o hom em , ou sej a, m udanças relevantes em nossa constituição física que se tornem gradualm ente fixas com o feições herdadas -alterações genotípicas, para usar o term o técnico do biólogo? A pergunta é difícil de responder. Podem os estar nos aproxim ando de um beco sem saída, podem os até tê-lo j á alcançado. Esse não seria um evento excepcional e não significaria que, m uito em breve, nossa espécie teria de se extinguir. Dos registros geológicos sabem os que algum as espécies ou m esm o grandes grupos parecem ter atingido o fim de suas possibilidades evolutivas há m uito tem po e, não obstante, não pereceram , m as perm aneceram inalterados, ou sem m udanças significativas, durante m uitos m ilhões de anos. As tartarugas, por exem plo, e os crocodilos são, nesse sentido, grupos m uito antigos, relíquias de um passado m uito rem oto; dizem -nos tam bém que toda a grande classe dos insetos está m ais ou m enos no m esm o barco - e eles abrangem um núm ero bem m aior de espécies distintas do que todo o restante do reino anim al com o um todo. Mas eles alteraram -se m uito pouco em m ilhões de anos, enquanto o restante da superfície viva da Terra sofreu, durante esse tem po, m udanças nem todas reconhecidas. O que im pediu um a evolução adicional nos insetos foi provavelm ente isto - eles adotaram o plano (não interpretem erroneam ente essa expressão figurativa - eles adotaram o plano de vestir seu esqueleto por fora, e não por dentro, com o nós o fizem os. Tal arm adura externa, em bora assegure proteção que se som a à estabilidade m ecânica, não pode crescer com o o fazem os ossos de um m am ífero entre o nascim ento e a m aturidade. Essa circunstância está fadada a tornar m uito difíceis as m udanças adaptativas graduais na história de vida do indivíduo. No caso do hom em , vários argum entos parecem m ilitar contra um a evolução adicional. As m udanças espontâneas herdáveis - agora denom inadas m utações -a partir das quais, de acordo com a teoria de Darwin, as "vantaj osas" são autom aticam ente selecionadas, são, via de regra, apenas pequenas etapas evolutivas, propiciando, quando m uito, apenas um a pequena vantagem . É por isso que, nas deduções de Darwin, um a parte im portante é atribuída à geralm ente im ensa abundância da prole, da qual som ente um a pequena fração tem a possibilidade de sobreviver. Pois som ente assim é que um a pequena m elhora na chance de sobrevivência parece ter um a probabilidade razoável de ser realizada. Todo esse m ecanism o parece estar bloqueado no hom em civilizado - e, em alguns aspectos, até invertido. Não estam os, genericam ente falando, dispostos a ver as criaturas que são nossos sem elhantes sofrer e perecer e, portanto, introduzim os gradualm ente as instituições legais e sociais que, por um lado, protegem a vida, condenam o infanticídio sistem ático, tentam aj udar os m uito enferm os ou frágeis seres hum anos a sobreviver, ao passo que, por outro, têm de substituir a elim inação natural dos m enos aptos m antendo a prole dentro dos lim ites do m odo de vida disponível. Isso é, em parte, obtido de um a m aneira direta, pelo controle da natalidade, em parte im pedindo que um a proporção considerável da população fem inina acasale. Ocasionalm ente - com o esta geração o sabe bem dem ais - a insanidade da guerra e todos os desastres e as confusões que lhe seguem dão a sua contribuição para o equilíbrio. Milhões de adultos e crianças de am bos os sexos m orrem de fom e, de frio, de epidem ias. Em bora no passado bem rem oto a guerra entre pequenas tribos ou clãs supostam ente tivesse tido um valor seletivo positivo, parece duvidoso que o tenha tido em tem pos históricos, e indubitavelm ente a guerra no presente não tem nenhum . Representa um a m atança indiscrim inada, da m esm a form a que os avanços na m edicina e cirurgia resultaram num salvam ento indiscrim inado de vidas. Em bora em nossa estim a estej am , com razão, em cam pos diam etralm ente opostos, a guerra e a arte m édica parecem não ter nenhum tipo de valor seletivo.

A aparente melancolia do darwinismo

Estas considerações sugerem que, com o um a espécie em desenvolvim ento, chegam os a um a paralisação e tem os poucas perspectivas de avanço biológico futuro. Mesm o que assim o fosse, isso não precisa nos aborrecer. Podem os sobreviver sem nenhum a m udança biológica por m ilhões de anos, com o os crocodilos e vários insetos. Ainda assim , de um certo ponto de vista filosófico, a ideia é deprim ente, e eu gostaria de defender o ponto de vista contrário. Para isso, preciso adentrar-m e num certo aspecto da teoria da evolução, para o que encontro apoio no conhecido livro sobre Evolução2 do professor Julian Huxley, aspecto esse que, de acordo com ele, nem sem pre é suficientem ente valorizado por evolucionistas recentes.

As exposições populares da teoria de Darwin são propensas a nos levar a um a visão depressiva e desanim adora por conta da aparente passividade do organism o no processo da evolução. As m utações ocorrem espontaneam ente no genom a - a "substância hereditária". Tem os razão para acreditar que se devam principalm ente àquilo que os físicos cham am de um a flutuação term odinâm ica -em outras palavras, ao puro acaso. O indivíduo não tem a m enor influência sobre o tesouro hereditário que recebe de seus pais, nem sobre aquele que deixa à sua descendência. As m utações ocorridas sofrem a ação da "seleção natural do m ais apto". Um a vez m ais, isso parece significar puro acaso, j á que significa que um a m utação favorável aum enta a perspectiva de o indivíduo sobreviver e gerar a descendência, para a qual transm ite a m utação em questão. Além disso, a atividade durante sua existência parece ser biologicam ente irrelevante, pois nada disso tem influência sobre a descendência: propriedades adquiridas não são herdadas. Toda habilidade ou treinam ento é perdido, não deixa nenhum registro, m orre com o indivíduo, não é transm itido. Um ser inteligente nessa situação acharia que a natureza, por assim dizer, recusa sua colaboração - ela faz tudo sozinha, condena o indivíduo à inatividade, de fato, ao niilism o. Com o sabem os, a teoria de Darwin não foi a prim eira teoria sistem ática da evolução. Foi precedida pela teoria de Lam arck, que se apoia inteiram ente na suposição de que quaisquer novas características que um indivíduo tenha adquirido na sua relação com o am biente circundante específico ou por m eio de seu com portam ento específico durante sua existência antes da procriação podem ser, e geralm ente são, passadas à sua progénie, se não inteiram ente, pelo m enos deixando alguns traços. Assim , se um anim al, por ter vivido sobre solo rochoso ou arenoso, produzisse calos protetores nas plantas de seus pés, sua calosidade tom ar-se-ia gradualm ente hereditária, de tal form a que as gerações posteriores a receberiam com o um presente gratuito, sem o esforço de adquiri-la. Da m esm a m aneira, a força, a habilidade ou, m esm o, a adaptação substancial produzida em qualquer órgão por ser usado continuam ente para determ inadas finalidades não será perdida, m as transm itida, pelo m enos em parte, à descendência. Tal ponto de vista não apenas propicia um a com preensão bem sim ples do conceito assom brosam ente elaborado e específico de adaptação ao m eio am biente, tão característica de todas as criaturas vivas. É tam bém belo, j ubiloso, estim ulante e vivificante. E infinitam ente m ais atraente que o depressivo aspecto de passividade aparentem ente oferecido pelo darwinism o. Um ser inteligente que se considera um a ligação na longa cadeia da evolução, segundo a teoria de Lam arck, pode estar confiante de que seu em penho e esforços para m elhorar suas capacidades, tanto físicas com o m entais, não serão perdidos, no sentido biológico; serão parte pequena, m as integrante do em penho da espécie rum o a um a m aior e sem pre m aior perfeição.

Infelizm ente, o lam arckism o é insustentável. A suposição fundam ental sobre a qual se apoia, a saber, que as propriedades adquiridas podem ser herdadas, está errada. Até onde sabem os, elas não podem . Os sim ples passos da evolução são aquelas m utações espontâneas e fortuitas, que nada têm a ver com o com portam ento do indivíduo durante sua existência. Portanto, parece que fom os lançados de volta ao aspecto m elancólico do darwinism o, de que falei acim a.

O comportamento influencia a seleção

Desej o agora m ostrar-lhes que não é bem assim . Sem alterar nenhum a das suposições básicas do darwinism o, podem os ver que o com portam ento do indivíduo, o m odo com o faz uso de suas faculdades inatas, desem penha um papel relevante, e não som ente isso, desem penha o papel m ais relevante na evolução. Existe um núcleo central bem verdadeiro no ponto de vista de Lam arck, a saber, que existe um a conexão causal indissolúvel entre o funcionam ento (o aproveitam ento de um a característica - um órgão, qualquer propriedade, capacidade ou característica corporal) e o fato de ele ter se desenvolvido com o passar das gerações e gradualm ente se aperfeiçoado para as finalidades para as quais é utilizado proveitosam ente. Essa conexão, eu dizia, entre ser usado e ser m elhorado, constituía um a interpretação m uito correta da teoria de Lam arck e subsiste em nossa atual perspectiva darwiniana, m as é rapidam ente negligenciada ao se exam inar o darwinism o de form a superficial. O curso dos eventos seria praticam ente o m esm o se o lam arckism o estivesse correto; apenas o "m ecanism o" pelo qual as coisas acontecem é m ais com plicado que aquele im aginado por Lam arck. A questão não é m uito fácil de explicar ou apreender e, portanto, poderia ser útil resum ir de antem ão o resultado. Para evitar a im precisão, pensem os em um órgão, conquanto a característica em questão pudesse ser qualquer propriedade, hábito, dispositivo, com portam ento ou, m esm o, qualquer pequena adição a, ou m odificação de tal característica. Lam arck supôs que o órgão (a) é usado, (b) é portanto m elhorado, e (c) a m elhoria é transm itida à descendência. Isso está errado. Tem os de pensar que o órgão (a) sofre variações ao acaso, (b) aqueles usados proveitosam ente são acum ulados ou pelo m enos acentuados pela seleção, (c) isso continua de geração a geração, com as m utações selecionadas constituindo um a m elhoria duradoura. A sim ulação m ais notável do lam arckism o ocorre - de acordo com Julian Huxley- quando as variações iniciais que inauguram o processo não são m utações verdadeiras, pelo m enos não do tipo hereditária. Ainda assim , se proveitosas, poderão ser acentuadas por aquilo que ele denom ina seleção orgânica e, por assim dizer, pavim entam o cam inho para as verdadeiras m utações que serão im ediatam ente incorporadas quando acontecer de estarem voltadas para a direção "desej ável".

Entrem os agora em alguns detalhes. O ponto m ais im portante é enxergar que um a característica, ou m odificação de um a característica, adquirida por variação, por m utação ou por m utação m ais um a pequena seleção, poderá facilm ente levar o organism o, em relação a seu am biente, a um a atividade que tende a aum entar a utilidade dessa característica e, portanto, a "garra" da seleção sobre ela. Com a posse da nova característica ou da característica m odificada, o indivíduo poderá alterar seu am biente - sej a realm ente transform ando-o, ou por m igração - ou alterar seu com portam ento em relação ao am biente, tudo isso de um a m aneira tão poderosa que reforça a utilidade da nova característica e, portanto, acelera sua m elhoria seletiva posterior na m esm a direção. Essa asserção pode chocar pela ousadia, j á que parece exigir um propósito por parte do indivíduo e, m esm o, um elevado grau de inteligência. Mas desej o defender que m inha afirm ativa, em bora inclua, é claro, com portam ento inteligente e intencional dos anim ais superiores, de form a algum a se restringe a isso. Vam os dar alguns exem plos.

Nem todos os indivíduos de um a população têm exatam ente o m esm o am biente. Algum as das flores de espécies silvestres crescem à som bra, outras, em locais ensolarados, outras, em locais m ais elevados da encosta de um a m ontanha alta e outras, ainda, em regiões m ais baixas ou no vale. Um a m utação - digam os, a folhagem peluda - que é benéfica em altitudes elevadas, será favorecida pela seleção nos lim ites m ais altos, m as será "perdida" no vale. Verificar-se-ia o m esm o se m utantes com pelos tivessem m igrado rum o a um am biente que favorecesse m utações adicionais que ocorressem na m esm a direção. Outro exem plo: a capacidade de voar perm ite que os pássaros construam seus ninhos no alto das árvores, onde seus filhos estão m ais resguardados do ataque de alguns de seus inim igos. Inicialm ente, aqueles que adotaram aquele tipo de ninho dem onstraram possuir um a vantagem seletiva. O segundo passo é que esse tipo de m oradia estava predestinada a selecionar voadores proficientes entre os j ovens. Assim , um a certa capacidade de voar produz um a m udança de am biente, ou com portam ento para com o am biente, que favorece um a acum ulação da m esm a habilidade.

A característica m ais notável entre os seres vivos é que estão divididos em espécies que são, m uitas delas, incrivelm ente especializadas em desem penhos particulares, m uitas vezes com plicados, dos quais particularm ente dependem para a sobrevivência. Um j ardim zoológico é quase um a exposição de curiosidades e seria ainda m ais se pudesse incluir um a panorâm ica da história da vida dos insetos. A não-especialização é a exceção. A regra é a especialização em truques peculiares deliberados nos quais "ninguém teria pensado se a natureza não o tivesse feito". É difícil de acreditar que todos eles resultaram da "acum ulação casual" darwiniana. Quer queiram os ou não, ficam os com a im pressão de que forças ou tendências nos afastam do "puro e sim ples" em certas direções rum o ao com plicado. O "puro e sim ples" parece representar um estado de coisas instável. Afastar-se dele - assim parece - provoca forças que favorecem m aior afastam ento e na m esm a direção. Isso seria difícil de entender se o desenvolvim ento de um determ inado dispositivo, m ecanism o, órgão, com portam ento útil, fosse produzido por um a longa cadeia de eventos casuais, independentes entre si, com o estam os acostum ados a pensar em term os da concepção original de Darwin. Na verdade, acredito, som ente o prim eiro e pequeno início "num a direção certa" tem tal estrutura. Ele produz circunstâncias que "m artelam o m aterial plástico" - por seleção - m ais e m ais sistem aticam ente na direção da vantagem conquistada no ponto de partida. Num a linguagem m etafórica, poderíam os dizer: a espécie descobriu para que direção está voltado seu acaso na vida e persegue esse cam inho.

Lamarckismo dissimulado

Devem os tentar com preender de um m odo geral e form ular de um a m aneira não-anim ística os term os em que um a m utação casual, que dá ao indivíduo um a certa vantagem e favorece sua sobrevivência em um dado am biente, deveria tender a fazer m ais que isso, ou sej a, aum entar as oportunidades de fazer um uso proveitoso deste, de m aneira a concentrar em si m esm o, por assim dizer, a influência seletiva do am biente.

Para revelar esse m ecanism o, esquem atizem os a descrição do am biente com o um conj unto de circunstâncias favoráveis e desfavoráveis. Entre as prim eiras, estão a com ida, a bebida, o abrigo, a luz do sol e m uitas outras; entre as últim as, estão os perigos trazidos por outros seres vivos (inim igos), os venenos e a rudeza dos elem entos da natureza. Em prol da concisão, irem os nos referir à prim eira categoria com o “necessidades" e, à segunda, com o “adversidades". Nem toda necessidade pode ser satisfeita, nem toda adversidade pode ser evitada. Mas um a espécie viva precisa ter adquirido um com portam ento que aceite um com prom isso de evitar as adversidades m ais m ortais e satisfazer as necessidades m ais urgentes a partir das fontes de m ais fácil acesso, para que de fato sobreviva. Um a m utação favorável facilita o acesso a certas fontes ou reduz o perigo de determ inadas adversidades, ou am bas as coisas. Aum enta, portanto, a chance de sobrevivência dos indivíduos que a possuem , m as, adicionalm ente, m uda o com prom isso m ais favorável, pois altera os pesos relativos daquelas necessidades ou adversidades nas quais se apoia. Os indivíduos que - por acaso ou inteligência -m udam seu com portam ento de acordo com isso serão os m ais favorecidos e, portanto, selecionados. Essa m udança de com portam ento não é transm itida à geração seguinte pelo genom a, nem por herança direta, o que não quer dizer que não sej a transm itida. O exem plo m ais sim ples e m ais prim itivo é dado por nossa espécie de flores (com um hábitat ao longo de um a extensa encosta na m ontanha) que desenvolve um m utante com pelos. Os m utantes com pelos, favorecidos principalm ente nas regiões altas, dispersam suas sem entes nessas áreas, de tal m odo que a geração seguinte de “peludas", tom ada com o um todo, “subiu a encosta", por assim dizer, “para fazer m elhor uso de sua m utação favorável".

Em tudo isso, é necessário lem brar que, com o regra, a situação com o um todo é extrem am ente dinâm ica, a luta é m uito dura-. Num a população razoavelm ente prolífica que, no m om ento, sobrevive sem crescim ento apreciável, as adversidades geralm ente sobrepuj am as necessidades - a sobrevivência individual é exceção. Além disso, as adversidades e necessidades frequentem ente estão acopladas, de form a que um a necessidade coercitiva só pode ser satisfeita enfrentando um a certa adversidade. (Por exem plo, o antílope precisa ir até o rio para beber, m as o leão conhece o local tão bem quanto ele.) Adversidades e necessidades se entrelaçam form ando um padrão global extrem am ente com plexo. Assim , a leve redução de um determ inado perigo por um a dada m utação pode fazer um a considerável diferença para aqueles m utantes que enfrentam tal perigo e, dessa form a, evitam outros. Isso pode resultar em um a seleção perceptível não apenas da característica genética em questão, m as tam bém no tocante à habilidade (intencional ou fortuita) de utilizá-la. Esse tipo de com portam ento é transm itido à descendência pelo exem plo, pelo aprendizado, num sentido generalizado do torno. A m udança de com portam ento, por sua vez, am plifica o valor seletivo de qualquer m utação adicional na m esm a direção.

O efeito de tal dem onstração pode guardar um a grande sim ilaridade com o m ecanism o descrito por Lam arck. Em bora nem um com portam ento adquirido, nem quaisquer alterações físicas que ele acarreta sej am transm itidos diretam ente à descendência, ainda assim o com portam ento tem um a. im portante influência no processo. Mas a relação causal não é aquilo que Lam arck achava que era, m as exatam ente o oposto. Não é que o com portam ento m ude o físico dos pais e, por herança física, o da descendência. E a m udança física nos pais que m odifica - direta ou indiretam ente, por seleção - seu com portam ento; e essa alteração de com portam ento, pelo exem plo, pelo ensino ou m esm o m ais prim itivam ente, é transm itida à progénie, j untam ente com a alteração física transferida pelo genom a. Mais ainda, m esm o que a m udança física ainda não tenha j á caráter hereditário, a transm issão do com portam ento induzido "pelo ensino" pode ser um fator evolutivo altam ente eficiente, pois escancara a porta para receber futuras m utações hereditárias com um a prontidão preparada para fazer o m elhor uso delas e, portanto, suj eitá-las a um a intensa seleção.

Fixação genética de hábitos e habilidades

Poder-se-ia obj etar que aquilo que aqui descrevem os poderia acontecer ocasionalm ente, m as não poderia continuar indefinidam ente, para form ar o m ecanism o essencial da evolução adaptativa, pois a própria m udança do com portam ento não é transm itida por herança física, nem pela substância hereditária, os crom ossom os. Inicialm ente, portanto, não é fixada geneticam ente e é difícil ver com o poderia chegar a ser incorporada no tesouro hereditário. Esse é um problem a im portante, por si só, pois de fato sabem os que os hábitos são herdados, com o, por exem plo, os hábitos de nidificação dos pássaros, os vários hábitos de higiene que observam os nos nossos cães e gatos, para m encionar alguns exem plos óbvios. Se isso não pudesse ser com preendido segundo as linhas darwinianas ortodoxas, o darwinism o teria de ser abandonado. A questão ganha um significado singular em sua aplicação ao hom em , um a vez que desej am os inferir que o em penho e o labor de um hom em durante sua existência constituem um a contribuição integrante para o desenvolvim ento da espécie, no verdadeiro sentido biológico. Acredito que a situação sej a a descrita sucintam ente a seguir. De acordo com nossas suposições, as m udanças de com portam ento equiparam -se às alterações físicas, prim eiro, com o um a consequência de um a m udança casual do últim o m as, logo depois, direcionando o m ecanism o de seleção adicional para canais definidos pois, um a vez que o com portam ento tenha se aproveitado dos prim eiros benefícios rudim entares, som ente m utações adicionais na m esm a direção têm algum valor seletivo. Mas à m edida que (perm itam -m e a expressão) o novo órgão se desenvolve, o com portam ento se torna m ais e m ais vinculado à sua m era posse. O com portam ento e o físico fundem -se e se transform am em um . Você não pode sim plesm ente possuir m ãos espertas sem usá-las para alcançar os obj etivos, eles passariam a constituir um em pecilho (com o frequentem ente acontece para um am ador no palco, pois ele só tem obj etivos fictícios). Não se pode ter asas eficientes sem tentar voar. Não se pode ter um aparelho fonador sem tentar im itar os ruídos ouvidos ao redor. Diferenciar entre posse de um órgão e a necessidade de usá-lo e aum entar sua aptidão pela prática, considerá-los duas características diferentes do organism o em questão, seria um a distinção artificial, tornada possível por um a linguagem abstrata, m as sem um a contrapartida na natureza. Não devem os, é claro, pensar que, no final de contas o "com portam ento" invade e penetra gradualm ente a estrutura do crom ossom o (ou que não) e lá adquire loci. São os próprios órgãos novos (e eles de fato se tornam geneticam ente fixados) que trazem consigo o hábito e o m odo de os usar. A seleção seria im potente para "produzir" um novo órgão se não fosse auxiliada o tem po todo pelo fato de o organism o fazer um uso apropriado desse novo órgãos. E isso é essencial. Dessa form a, as duas coisas cam inham quase paralelam ente e em últim a instância, ou de fato, em cada estágio, são fixadas geneticam ente com o um a única coisa: um órgão usado - com o se Lam arck estivesse certo.

E esclarecedor com parar esse processo natural com a construção de um instrum ento pelo hom em . A prim eira vista, parece existir um contraste m arcante. Se fabricássem os um m ecanism o delicado, na m aioria dos casos iríam os estragá-lo se fôssem os im pacientes e tentássem os usá-lo seguidam ente m uito antes que estivesse term inado. A natureza, som os inclinados a dizer, procede de m aneira diferente. Ela só pode produzir um novo organism o e seus órgãos enquanto estiverem sendo continuam ente usados, testados, exam inados quanto a sua eficiência. Mas, na verdade, esse paralelo está errado. A construção de um m ero instrum ento pelo hom em corresponde à ontogênese, isto é, ao crescim ento de um indivíduo isolado desde a sem ente até a m aturidade. Aqui tam bém a inferência não é bem -vinda. Os j ovens precisam ser protegidos, não devem ser colocados a trabalhar antes que tenham adquirido a força e a aptidão total de sua espécie. O verdadeiro paralelo do desenvolvim ento evolutivo dos organism os poderia ser ilustrado, por exem plo, por um a exposição histórica de bicicletas, m ostrando com o essa m áquina m udou gradualm ente de ano a ano, de década a década ou, da m esm a m aneira, de locom otivas, autom óveis, aeroplanos, m áquinas de escrever etc. Aqui, com o no processo natural, é obviam ente essencial que a m áquina em questão deva ser continuam ente usada e portanto m elhorada; não literalm ente m elhorada pelo uso, m as pela experiência obtida e alterações sugeridas. A bicicleta, por sinal, ilustra o caso, m encionado anteriorm ente, de um velho organism o, que atingiu a perfeição possível e, portanto, praticam ente cessou de sofrer novas m udanças. Ainda assim , não está em vias de se extinguir!

Perigos para a evolução intelectual

Retom em os ao início deste capítulo. Com eçam os com a pergunta: seria provável um desenvolvim ento biológico adicional no hom em ? Acredito que nossa discussão trouxe para o prim eiro plano dois pontos relevantes. O prim eiro é a im portância biológica do com portam ento. Ao se conform ar às faculdades inatas bem com o ao am biente e ao se adaptar às m udanças nesses dois fatores, o com portam ento, em bora não herdado, pode contudo acelerar o processo de evolução em ordens de m agnitude. Em bora nas plantas e nas esferas inferiores do reino anim al o com portam ento adequado sej a ocasionado pelo lento processo de seleção, em outras palavras, por tentativa e erro, a alta inteligência do hom em o capacita a escolher seu com portam ento. Essa incalculável vantagem pode facilm ente suplantar sua desvantagem da propagação lenta e com parativam ente escassa, que é reduzida ainda m ais pelo cuidado biologicam ente perigoso de não deixar que nossa descendência exceda o volum e para o qual a subsistência possa ser assegurada. O segundo ponto, referente à questão de se ainda devem os esperar um desenvolvim ento biológico no hom em , está intim am ente conectado ao prim eiro. De certa form a, obtem os a resposta inteira, ou sej a, isso dependerá de nós e de nossas ações. Não devem os aguardar que as coisas aconteçam , acreditando que elas são decididas pelo destino irrescindível. Se quiserm os algo, deverem os fazer algo a respeito. Se não, não. Da m esm a form a que o desenvolvim ento político e social e a sequência de eventos históricos em geral não são lançados sobre nós pelo fiar das Parcas, m as dependem em grande parte de nossa ação, tam bém nosso futuro biológico, que nada m ais é que história em grande escala, não deve ser considerado um destino inalterável que é decidido de antem ão por qualquer Lei da Natureza. De qualquer form a, para nós, que som os os suj eitos que atuam na peça, não é, m esm o que para um ser superior, que nos observe com o observam os os pássaros e as form igas, pudesse parecer que sim . O m otivo pelo qual o hom em tende a ver a história, no sentido m ais estrito e m ais am plo, com o um acontecim ento predestinado, controlado por regras e leis que ele não pode m udar, é bem óbvio. E porque todo indivíduo isolado sente que, por si só, tem m uito pouco a dizer sobre a questão, a m enos que possa expressar suas opiniões para m uitos outros e persuadi-los a regular seu com portam ento de acordo com elas.

No tocante ao com portam ento concreto necessário para assegurar nosso futuro biológico, só m encionarei um único ponto genérico que considero de im portância básica. Acredito que, no m om ento, estam os em grande perigo de perder o "cam inho da perfeição". De tudo o que foi dito, a seleção é um requisito indispensável para o desenvolvim ento biológico. Se for inteiram ente descartada, o desenvolvim ento será interrom pido, pior ainda, poderá ser revertido. Recorrendo às palavras de Julian Huxley : “a preponderância da m utação degenerativa (perda) resultará na degeneração de um órgão quando ele se tornar inútil, e a seleção, em conform idade com isso, não m ais estará agindo sobre ele para m anter sua adequação".

Acredito que a crescente m ecanização e “estupidificação" da m aioria dos processos de m anufatura envolvem o grave perigo de um a degeneração geral de nosso órgão da inteligência. Quanto m ais as oportunidades de vida do trabalhador inteligente e do apático se equipararem pela repressão das habilidades m anuais e dissem inação do trabalho m açante e enfadonho na linha de m ontagem , m ais um bom cérebro, m ãos habilidosas e um olho aguçado se tornarão supérfluos. De fato, o hom em sem inteligência, que naturalm ente acha m ais fácil se subm eter à labuta enfadonha, será favorecido; é provável que ele ache m ais fácil prosperar, estabelecer-se e gerar a descendência. O resultado poderá facilm ente elevar-se até a um a seleção negativa no tocante aos talentos e dons. As agruras da vida industrial m oderna levaram ao planej am ento de determ inadas instituições para m itiga-las, com o a proteção dos trabalhadores contra a exploração e o desem prego, e m uitas outras m edidas de bem -estar e segurança. São devidam ente consideradas benéficas e tornaram -se indispensáveis. Ainda assim , não podem os fechar nossos olhos para o fato de que, ao aliviar a responsabilidade do indivíduo cuidar de si próprio e ao nivelar as oportunidades de todo hom em , tam bém tendem a descartar a com petição de talentos e, consequentem ente, a colocar um eficiente freio na evolução biológica. Percebo que esse ponto em particular é altam ente controverso. E possível defender fortem ente a posição de que o cuidado para com o nosso presente bem -estar deveria se sobrepor às preocupações com o nosso futuro evolutivo. Mas felizm ente, acredito eu, eles cam inham j untos, de acordo com m eu argum ento principal. Ao lado da necessidade, o tédio tornou-se o pior flagelo de nossas vidas. Em lugar de perm itir que a engenhosa m aquinaria que inventam os produza um a quantidade crescente de luxo supérfluo, precisam os planej ar seu desenvolvim ento no sentido de aliviar os seres hum anos de todo m anuseio não-inteligente, m ecânico, “m aquinal". A m áquina deve assum ir a labuta para a qual o hom em é bom dem ais, não o hom em assum ir o trabalho para o qual a m áquina sej a dem asiado dispendiosa, com o costum a acontecer com grande frequência. Isso não tenderá a tornar a produção m ais barata, m as m ais felizes aqueles engaj ados nela. Há um a pequena esperança em realizar isso desde que prevaleça a com petição entre grandes firm as e em presas em todo o m undo. Mas esse tipo de com petição é tão desinteressante quanto biologicam ente inútil. Nossa m eta deveria ser reafirm ar em seu lugar a com petição interessante e inteligente de seres hum anos individuais.

 

Notas

1 O m aterial deste capítulo foi transm itido pela prim eira vez num a série de três palestrasno Serviço Europeu da BBC, em setem bro de 1950, e subsequentem ente incluído em What is Life? and other essays, Anchor Book A 88, Doubleday and Co, New York.

2 Evolution: A Modern Symthesis, Ceorge Allen and Unwin, 1942.