O que é a vida?
Fragmentos Autobiográficos
FRAG MENTOS AUTOBIOG RÁFICOS
Vivi longe de m eu m elhor am igo, na verdade o único am igo íntim o que j á tive, durante a m aior parte de m inha vida. (Talvez sej a por isso que m uitas vezes eu tenha sido acusado de ser um flertador e não um verdadeiro am igo.) Ele estudou biologia (botânica, para ser exato); eu, física. E m uitas noites vagueávam os para cá e para lá, entre a Gluckgasse e a Schlüsselgasse, entretidos em conversas filosóficas. Mal sabíam os, então, que aquilo que nos parecia original j á tinha ocupado grandes m entes por séculos. Não é verdade que os professores fazem sem pre o m áxim o para evitar esses tópicos, por tem erem que possam entrar em conflito com as doutrinas religiosas e suscitar perguntas inquietantes? Este é o principal m otivo por eu m e voltar contra a religião, que nunca m e fez nenhum m al.
Não tenho certeza se foi logo depois da Prim eira Guerra Mundial ou durante à época em que passei em Zurique (1921-1927) ou, m esm o, m ais tarde, em Berlim (1927-1933) que, um a vez m ais, Fränzel e eu passam os um a longa noite j untos. As prim eiras horas da m anhã, ainda nos encontrávam os conversando em um café na periferia de Viena. Ele parceria ter m udado m uito com os anos. Afinal, nossas cartas tinham sido poucas, distanciadas e de m uito pouca substância.
Eu deveria ter dito antes que tam bém passávam os nosso tem po j untos lendo Richard Sem on. Nunca antes ou além disso li com outra pessoa um livro sério. Richard Sem on foi logo banido pelos biólogos, pois seus pontos de vista, tais com o os biólogos os viam , eram baseados na herança de caracteres adquiridos. Assim , seu nom e foi esquecido. Anos depois, encontrei-o em um livro (Human Knowledge?) de Bertrand Russell, que dedicou um cuidadoso estudo a esse genial biólogo, destacando a im portância de sua teoria da Mnem e. Fränzel e eu não nos vim os novam ente até 1956. Dessa vez, foi um breve encontro em nosso apartam ento em Viena, Pasteurgasse 4, com outras pessoas presentes, de tal form a que esses 15 m inutos m al m erecem ser m encionados. Fränzel e sua esposa viviam além da fronteira, de nossa fronteira do norte, sem ser, ao que parece, incom odados pelas autoridades; ainda assim , deixar o país tornou-se m uito difícil. Nunca m ais nos encontram os: dois anos depois, ele m orreu subitam ente.
Hoj e, ainda m antenho am izade com seus sim páticos sobrinho e sobrinha, filhos de seu irm ão favorito, Sílvio. Este, o caçula da fam ília, era m édico em Krem s, onde fui visitá-lo, quando retornei à Áustria, em 1956. Ele devia j á estar m uito doente, pois m orreu pouco depois. Um dos irm ãos de Fränzel, E., ainda vive e é um respeitado cirurgião em Klagenfurt. Um a vez, E. m e levou para o Einser (Sextener Dolom ites) e, m ais, viu-m e voltar a salvo. Receio que tenham os perdido contato, dado nossas diferentes visões do m undo.
Logo depois de eu entrar para a Universidade de Viena, em 1906, a única universidade da qual j á fiz parte, o grande Ludwig Boltzm ann encontrou seu triste fim em Duíno. Até hoj e recordo as claras, precisas e, ainda assim entusiásticas palavras com que Fritz Hasenöhrl descreveu-nos o trabalho de Boltzm ann. O sucessor e pupilo de Boltzm ann deu sua aula inaugural, sem qualquer pom pa ou cerim ônia, no outono de 1907, no precário auditório do antigo prédio da Türkenstrasse. Fiquei m uito im pressionado com sua introdução e nenhum a percepção da física j am ais m e pareceu m ais im portante do que a de Boltzm ann, m esm o contando Planck e Einstein. Incidentalm ente, os prim eiros trabalhos de Einstein (antes de 1905) m ostram o quanto ele era fascinado com o trabalho de Boltzm ann. Ele foi o único a dar um passo adiante, ao inverter a equação de Boltzm ann S = k lg W. Nenhum outro ser hum ano teve tão grande influência sobre m im quanto Fritz Hasenöhrl, exceto m eu pai Rudolph, quem , durante os m uitos anos que vivem os j untos, introduziu-m e nas conversas acerca de seus variados interesses. Falarei acerca disso m ais tarde. Enquanto ainda era estudante, fiz am izade com Hans Thirring, o que se revelou ser um relacionam ento duradouro. Quando Hasenöhrl foi m orto em ação, em 1916, Hans Thirring tornou-se seu sucessor. Ele se aposentou aos 70, declinando do privilégio do ano honorário e deixando a cátedra de Boltzm ann para seu filho, Walter.
Depois de 1911, quando eu era assistente de Exner, conheci K. W. F. Kohlrausch e outra longa am izade com eçou. Kohlrausch fez seu nom e ao provar experim entalm ente as cham adas "Flutuações de Schweidle”. Um ano antes de estourar a Prim eira Guerra Mundial, trabalham os j untos na pesquisa sobre "radiações secundárias", que produziam - no m enor ângulo possível, em pequenas placas de diferentes m ateriais - um feixe (m isto) de raios gam a. Aprendi duas coisas nesses anos: prim eiro, que não sou afeito ao trabalho experim ental e, segundo, que m eu entorno, e as pessoas que faziam parte dele, j á não eram capazes de fazer progressos experim entais em grande escala. Havia m uitas razões para isso e um a delas era que, na velha e charm osa Viena, pessoas bem -intencionadas m as estúpidas eram colocadas, frequentem ente por idade, em posições-chave, im pedindo assim qualquer progresso. Se ao m enos se houvesse percebido que era necessário ter personalidades de grande capacidade intelectual, m esm o que tivessem de ser trazidas de longe! As teorias acerca da eletricidade atm osférica e da radiatividade foram am bas originalm ente desenvolvidas em Viena, m as qualquer um que quisesse se dedicar realm ente a seu trabalho devia seguir essas teorias onde quer que fossem . Lise Meitner, por exem plo, deixou Viena e foi para Berlim .
De volta a m eu caso: em retrospecto, fico feliz de, devido a m eu treinam ento com o oficial da reserva em 1910-1911, ter sido indicado para assistente de Fritz Exner e não de Hasenöhrl. Isso significou que eu pude fazer experiências com K. W. F. Kohlrausch e usar vários instrum entos m aravilhosos, levá-los para m inha sala, especialm ente os ópticos, e brincar com eles com o m e aprouvesse. Assim , pude aj ustar um interferôm etro, adm irar os espectros, m isturar cores etc. Foi assim que descobri - através da equação de Ray leigh - m eu daltonism o. Além disso, eu estava com prom etido com um longo curso prático e pude então aprender a apreciar a im portância de fazer m edições. Gostaria que houvesse m ais físicos teóricos que apreciassem tam bém isso. Em 1918, tivem os um a espécie de revolução. O im perador Karl abdicou e a Áustria se tornou um a república. Nosso dia-a-dia perm aneceu quase o m esm o. No entanto, m inha vida foi afetada pela queda do Im pério. Eu havia aceitado o posto de lente em física teórica em Czernowitz e tinha planej ado aproveitar todo m eu tem po livre na aquisição de um conhecim ento m ais profundo de filosofia, pois havia acabado de descobrir Schopenhauer, que m e introduziu na Teoria Unificada dos Upanixades.
Para nós, vienenses, a guerra e suas consequências queriam dizer que não m ais poderíam os satisfazer nossas necessidades básicas. A fom e foi a punição que a Entente vitoriosa escolheu em retaliação à guerra ilim itada dos U-boats de seus inim igos, um a guerra tão atroz que o sucessor do príncipe Bism arck só pôde superar em quantidade, m as não em qualidade, na Segunda Guerra Mundial. A fom e era a regra em todo o país, m enos nas fazendas, onde nossas pobres m ulheres eram m andadas para procurar por ovos, m anteiga e leite. A despeito dos bens com que pagavam - acessórios de crochê, belas com binações etc. -eram desprezadas e tratadas com o pedintes.
Em Viena, tornou-se virtualm ente im possível socializar-se e m anter am igos. Não havia nada o que oferecer e m esm o os m ais sim ples pratos eram reservados para o alm oço de dom ingo. Algum as vezes, essa carência de atividades sociais era com pensada pela visita diária às cozinhas com unais. As Cemeinschaftsküchen eram frequentem ente cham adas de Cemeinheitsküchen (Gemeinschaft = "com unidade”; Gemeinheit = "truque baixo”). Ali, nos encontrávam os para o alm oço. Tínham os de ser gratos àquelas m ulheres que consideravam sua a responsabilidade de criar refeições a partir do nada. Sem dúvida, é m ais fácil fazer isso para 30 ou 50 pessoas do que para três. Além disso, aliviar outros de um a carga é em si m esm o recom pensador.
Meus pais e eu conhecem os ali várias pessoas de interesses sem elhantes e alguns deles, os Radons, por exem plo, am bos m atem áticos, tornaram -se grandes am igos de nossa fam ília.
Acredito que, pelo m enos de um m odo, m eus pais e eu éram os particularm ente prej udicados. Naquela época, eu vivia em um grande apartam ento (de fato, dois transform ados em um ), no quinto andar de um edifício valorizado, que pertencia ao pai de m inha m ãe. Não tinha luz elétrica, em parte porque m eu avô não queria pagar para vê-la instalada e tam bém porque m eu pai, em particular, acostum ou-se de tal form a à excelente luz de gás em um a época na qual as lâm padas ainda eram m uito caras e ineficientes, que realm ente não víam os uso para elas. Nossos velhos aquecedores de telha haviam sido rem ovidos e substituídos por aquecedores a gás, com refletores de cobre, j á que era difícil arranj ar em pregados dom ésticos nessa época e queríam os tornar as coisas m ais sim ples para nós. Gás tam bém era usado para cozinhar, em bora ainda tivéssem os um enorm e e velho fogão a lenha na cozinha. Tudo estava m uito bem até o dia em que um órgão burocrático elevado, provavelm ente a Assem bléia Legislativa Municipal, decretou que o gás fosse racionado. Daquele dia em diante, toda casa tinha liberado apenas um m etro cúbico por dia, não im portando com o o com bustível fosse usado. Se alguém fosse flagrado usando m ais que isso, seu gás era sim plesm ente cortado. No verão de 1919, fom os para Millstadt, Caríntia, e m eu pai, com 62 anos, m ostrou os prim eiros sinais da idade e daquela que seria sua doença term inal, algo que então não percebem os. Onde quer que fôssem os cam inhar, ele ficava para trás, especialm ente nas ladeiras, e disfarçava interesses botânicos para esconder a exaustão. A partir de 1902, o principal interesse de papai era a botânica. Durante os m eses de verão, ele coletava m aterial para seus estudos, não para m ontar o próprio herbário, m as para fazer experiências com seu m icroscópio e m icrótom o. Ele se tornara um m orfogeneticista e filogeneticista, abandonando sua dedicação aos grandes pintores italianos e seus próprios. interesses artísticos, que consistiam em esboçar inúm eras paisagens. Sua am olada reação a nossos reclam os de "Oh, Rudolph, venha” e "Senhor Schrödinger, está ficando m uito tarde" não nos alarm avam . Estávam os acostum ados a ela e a consideram os resultado de sua concentração. Depois de nosso retorno a Viena, os sinais se tornaram m ais evidentes, m as ainda não os tom am os com o sinal sério: frequentes e fortes sangram entos em seu nariz e retinas e, finalm ente, fluido em suas pernas. Acho que ele sabia m uito antes de todos que seu fim estava próxim o. Infelizm ente, isso foi j ustam ente na época da calam idade do gás, de que falei antes. Adquirim os lâm padas de carvão e ele insistiu em cuidar delas ele m esm o. Um cheiro terrível se espalhou a partir de sua bela biblioteca, que se havia transform ado em um laboratório de carburetos. Vinte anos antes, ele havia aprendido a gravar com Schm utzer e usava a sala para m ergulhar suas placas de cobre e zinco em ácidos e água clorada. Eu ainda frequentava a escola nessa época e m ostrava grande interesse nessas atividades. Mas agora eu o deixava com suas coisas. Fiquei feliz em voltar para m eu am ado instituto de física, depois de servir na guerra por quase quatro anos. Além disso, no outono de 1919, eu m e com prom eti com um a m oça que j á há quarenta anos é m inha esposa. Não sei se m eu pai recebia tratam ento m édico adequado, m as sei que eu devia ter cuidado m elhor dele. Devia ter ido a Richard von Wettstein, que, afinal, era um bom am igo seu, para procurar aj uda na faculdade de m edicina. Será que um aconselham ento m ais preciso teria desacelerado sua arteriosclerose? E, em caso afirm ativo, teria sido isso bom para um hom em doente? Só papai estava plenam ente consciente de nossa situação financeira depois do fecham ento da loj a de tecidos im perm eáveis e linóleo, na Stephanplatz, em 1917 (por falta de estoque).
Ele m orreu tranquilam ente na véspera de Natal, em 1919, em sua velha poltrona. O ano seguinte foi de inflação galopante, o que significou depreciação da j á m agra conta bancária de papai que, de qualquer form a, nunca teria conseguido evitar prej uízos. O resultado da venda (com m eu consentim ento!) de tapetes persas dissolveu-se em nada; perdidos para sem pre tam bém foram os m icroscópios, o m icrótom o e boa parte de sua biblioteca, da qual m e desfiz por quase nada, pouco depois de sua m orte. Sua m aior preocupação durante seus últim os m eses de vida era que eu, j á na boa idade de 32 anos, ganhava praticam ente nada: 1.000 coroas austríacas (sem descontar os im postos, pois estou certo de que ele os listava em sua declaração de renda, a não ser quando fui oficial durante a guerra). O único sucesso de seu filho que ele viveu para ver foi que a m im ofereceram (e eu aceitei) um posto m ais bem pago de lente privado e assistente de Max Wien, em Jena.
Minha esposa e eu nos m udam os para Jena em abril de 1920, deixando m inha m ãe sozinha, algo de que hoj e não fico nem um pouco orgulhoso. Ela tinha de arcar com o trabalho de encaixotar e esvaziar o apartam ento. Com o éram os cegos, então! Seu pai, que era dono da casa, estava m uito preocupado, depois da m orte de m eu pai, a respeito de quem pagaria o aluguel. Nós não tínham os com o fazê-lo e m am ãe teve de ceder lugar para um inquilino m ais rico. Meu futuro sogro gentilm ente apareceu com o hom em , um negociante j udeu que trabalhava para a Phoenix, um a próspera com panhia de seguros. Então, m am ãe teve de partir. Para onde, não sei. Não fôssem os nós tão cegos e teríam os previsto - e m ilhares de casos sem elhantes nos dariam razão - quão excelente fonte de dinheiro para m inha m ãe, tivesse ela vivido m ais, seria um grande e bem m obiliado apartam ento. Ela m orreu no outono de 1921, de câncer na coluna vertebral, depois do que havíam os acreditado ter sido um a bem -sucedida cirurgia de seu câncer de m am a, em 1917.
Raram ente m e lem bro de sonhos e poucas vezes os tive m aus, exceto em m inha prim eira infância. Por m uito tem po, depois da m orte de m eu pai, no entanto, um pesadelo se m anteve recorrente: m eu pai ainda estava vivo e eu sabia que havia m e desfeito de todos seus belos livros e instrum entos de botânica. O que ele poderia fazer agora que eu im prudente e irrecuperavelm ente destruíra a base de sua vida intelectual? Estou seguro de que foi m inha consciência culpada a causadora do sonho, j á que tão pouco olhei por m eus pais entre 1919 e 1921. Essa é a única explicação, j á que não sou norm alm ente incom odado sej a por pesadelos ou culpa.
Minha infância e adolescência (1887-1910, m ais ou m enos) foi principalm ente influenciada por m eu pai, m as não da m aneira educacional usual e sim de form a m ais com um . Isso se deveu a ele passar m ais tem po em casa do que a m aioria dos hom ens que trabalham para viver e tam bém ao fato de eu ficar em casa. Em m eus prim eiros anos de aprendizado, fui ensinado por um professor particular que vinha m e ver duas vezes por sem ana e, na escola secundária, tínham os ainda a abençoada tradição de lá perm anecer 25 horas por sem ana, apenas pela m anhã. (Em duas tardes apenas, tínham os educação religiosa protestante.) Aprendi m uito nessas ocasiões, em bora o resultado nem sem pre se relacionasse com religião. Menos tem po com com prom issos escolares é um a grande vantagem . Se um aluno se sente inclinado, ele tem tem po para pensar e pode tam bém ter aulas particulares sobre os assuntos que não façam parte do currículo. Só consigo encontrar palavras gratas para m inha velha escola (Akadem isches Gy m nasium ): eu raram ente m e entediava e, quando isso acontecia (nosso curso preparatório de filosofia era realm ente ruim ), voltava m inha atenção para outro assunto, para m inha tradução do francês, por exem plo. Nesta altura, gostaria de fazer um a observação de caráter m ais geral. A descoberta de que os crom ossom os são fatores decisivos na hereditariedade parece ter dado à sociedade o direito de m enosprezar outros fatores bem conhecidos, m as igualm ente im portantes, tais com o com unicação, educação e tradição. Tom a-se por suposto que eles não sej am assim tão im portantes, j á que, do ponto de vista genético, não são suficientem ente estáveis. Isso é verdade. No entanto, existem casos com o o de Kaspar Hauser, por exem plo, e o de um pequeno grupo de crianças tasm anianas “da Idade da Pedra” que só recentem ente foram trazidas para a Inglaterra, onde lhes foi garantida um a criação inglesa de prim eira classe, cuj o efeito foi de que elas atingiram o nível educacional de ingleses de classe superior. Isso não deveria provar que são necessários tanto um código de crom ossom os com o um am biente hum ano civilizado para produzir pessoas com o nós? Em outras palavras, o nível intelectual de um indivíduo é m oldado pela “natureza" e pela “criação". As escolas são, assim (não com o nossa im peratriz Maria Theresa gostava de vê-las), fundam entais para guiar o hom em e m uito m enos im portantes no que tange a propósitos políticos. E um a sólida base fam iliar é não m enos im portante para preparar o solo onde crescerá a sem ente que as escolas sem earão. Esse é um fato infelizm ente m enosprezado por aqueles que afirm am que apenas as crianças vindas dos m enos educados devem ir a um externato em busca de educação superior (será que suas crianças serão excluídas pelas m esm as razões?) e tam bém pela alta sociedade inglesa, que vê com o sinal de classe superior a substituição da vida em fam ília pelo colégio interno e considera nobre deixar a casa m ais cedo. Assim , m esm o a atual rainha teve de rom per com seu prim ogênito e m andá-lo para tal instituição. Nada disso é, estritam ente falando, m eu assunto. Apenas veio à m inha m ente quando novam ente percebi o quanto ganhei com o tem po em que fiquei com m eu pai quando era pequeno e quão pouco eu teria aproveitado da escola se ele não estivesse ali. Ele na verdade sabia m uito m ais do que a escola tinha para oferecer, não porque fora forçado a estudar trinta anos antes, m as porque ainda m antinha vivo seu interesse. Se entrasse em detalhes aqui, acabaria tendo de contar um a longa história. Mais tarde, quando ele com eçou com a botânica e eu praticam ente devorei A origem das espécies, nossas discussões tom aram um caráter diferente, certam ente diferente daquele apresentado na escola, onde a teoria da evolução ainda perm anecia banida de nossas aulas de biologia e os professores de educação religiosa eram aconselhados a cham á-la de heresia. Claro que logo m e tornei um ardente seguidor do darwinism o (e ainda sou), enquanto papai, influenciado por am igos, sugeria cautela. A ligação entre seleção natural e sobrevivência do m ais apto, por um lado, e a Lei de Mendel e a teoria da m utação de De Vries, por outro, ainda precisava ser com pletam ente revelada. Mesm o hoj e, não entendo por que os zoólogos sem pre tenderam a j urar por Darwin, enquanto os botânicos parecem ser bem m ais reticentes. No entanto, em um ponto todos concordam os - e, quando digo "todos", lem bro-m e particularm ente de Hofrat Anton Handlisch, que foi zoólogo no m useu de história natural e a quem m elhor conheci e de quem m ais gostei entre os am igos de m eu pai: som os unânim es em considerar que a base da teoria evolucionista era causal e não finalista e que nenhum a lei especial da natureza, tal com o vis viva, ou um a enteléquia ou um a força de ortogênese etc. atuava nos organism os vivos para cancelar ou contrariar as leis universais da m atéria inanim ada. Meu professor de religião não teria ficado feliz com esse ponto de vista, m as ele, de qualquer form a, não m e im porta.
Nossa fam ília estava acostum ada a viaj ar no verão. Isso não apenas abrilhantou m inha vida, m as tam bém aj udou a estim ular m eu apetite intelectual. Lem bro-m e de um a visita à Inglaterra, um ano antes de ter com eçado a escola interm ediária (Mittelschule), quando fiquei com parentes de m inha m ãe, em Ram sgate. A longa e larga praia era ideal para passeios em lom bo de burro e para aprender a andar de bicicleta. As fortes m udanças de m aré exigiam m inha total atenção. Pequenas cabines de banho sobre rodas eram colocadas ao longo da praia e um hom em e seu cavalo estavam sem pre ocupados m ovim entando essas cabines para frente e para trás, conform e a m aré. No Canal, notei pela prim eira vez que se podia perceber um funil de fum aça de navios distantes m uito antes que os próprios aparecessem , o que é resultado da curvatura da superfície da água.
Em Leam ington, encontrei m inha bisavó em Madeira Villa. Ela se cham ava Russell, e com o a rua em que m orava tam bém era "Russell", convenci-m e de que a rua ganhara o nom e devido a m eu bisavô. Um a tia de m inha m ãe tam bém vivia ali com seu m arido, Alfred Kirk, e seis gatos angorás. (Anos m ais tarde, dizia-se que chegavam a vinte.) Além disso, ela tinha um gato ordinário que frequentem ente voltava para casa de suas aventuras noturnas em um estado lam entável, de tal form a que ganhou o nom e de Thom as Becket (referindo-se ao arcebispo de Canterbury que foi m orto em exercício por ordem do rei Henrique II); não que isso significasse m uito para m im então, nem era m uito apropriado. Foi graças a m inha tia Minnie, a irm ã caçula de m am ãe, que se m udou de Leam ington para Viena quando eu tinha cinco anos, que aprendi a falar fluentem ente o inglês m uito antes de que soubesse escrever em alem ão, e m uito m enos em inglês. Quando fui finalm ente introduzido à ortografia e leitura da língua que eu achava que sabia tão bem , fiquei surpreso. Foi graças a m inha m ãe que com ecei a ter m eio período de prática de inglês. Na época, isso não m e agradou m uito. Nós cam inhávam os j untos de Weiherburg em direção à bela e na época ainda pequena e quieta Innsbruck e m am ãe dizia: "Agora vam os falar inglês entre nós por todo o cam inho; nem um a palavra em alem ão". E era isso exatam ente o que fazíam os. Só m ais tarde percebi o quanto ganhei dessa época. Em bora forçado a sair de m eu país natal, nunca m e senti um estranho no estrangeiro.
Parece que m e lem bro de visitar Kenilworth e Warwick em nossas andanças de bicicleta em torno de Leam ington. E de volta a Innsbruck, vindos da Inglaterra, lem bro-m e de ver Bruges, Cplônia, Coblenz – um vapor nos levou Reno acim a -, lem bro-m e de Rüdesheim , Frankfurt e Munique, acho; depois, Innsbruck. Posso m e lem brar da pequena hospedaria que pertencia a Richard Attlm ay r. Dali, fui pela prim eira vez para a escola, em St. Nikolaus, onde tinha aulas particulares, pois m eus pais receavam que eu tivesse m e esquecido do ABC e da aritm ética durante as férias e não passasse no exam e de adm issão de outono. Nos anos seguintes, nós quase sem pre íam os ao Tirol Sul ou a Caríntia e, de vez em quando, a Veneza, por uns poucos dias de setem bro. Não existe fim para a lista de coisas belas que tive a oportunidade de ver nesses dias, coisas que não m ais existem por causa do autom óvel, do “desenvolvim ento” e das novas fronteiras. Acho que poucas pessoas na época, e hoj e m uito m enos, tiveram um a infância e um a adolescência tão felizes quanto a que tive, m esm o sendo filho único. Todos eram am áveis com igo e nos dávam os bem entre nós. Se pelo m enos todos os professores, incluindo os pais, tom assem a sério a necessidade de com preensão m útua! Sem ela, não podem os ter qualquer influência duradoura sobre aqueles que nos são confiados.
Talvez eu deva dizer algum a coisa sobre m eus anos na universidade, entre 1906 e 1910, j á que não terei outra oportunidade para isso m ais tarde. Já m encionei que Hasenöhrl e seu cuidadosam ente concebido curso de quatro anos (cinco horas por sem ana!) m e influenciou m ais que qualquer outra coisa. Infelizm ente, perdi o últim o ano (1910- 1911), um a vez que não m ais podia adiar m eu serviço m ilitar. Afinal de contas, isso não foi tão desagradável quanto eu supunha, j á que fui m andado para a bela e antiga cidade de Cracóvia e pude passar um m em orável verão próxim o à fronteira da Caríntia (perto de Malborghet). Além das aulas de Hasenöhrl, assisti a todas as outras aulas de m atem ática que pude. Gustav Kohn deu as suas sobre geom etria proj etiva. Seu estilo, tão severo e claro, deixou-m e duradoura im pressão. Kohn alternou de um m étodo puram ente sintético, em um ano - sem quaisquer fórm ulas - para um enfoque analítico, no ano seguinte. Não existe, de fato, nenhum exem plo m elhor da existência de sistem as axiom áticos. Através dele, a dualidade, em particular, m ostrou-se um fenôm eno em polgante, diferindo um pouco entre as geom etrias bi e tridim ensional. Ele tam bém nos provou a profunda influência da teoria dos grupos de Felix Klein sobre o desenvolvim ento da m atem ática. O fato de que a existência de um quarto elem ento harm ônico tivesse de ser aceita em um a estrutura bidim ensional enquanto podia ser facilm ente dem onstrada em um a tridim ensional era para ele a m ais sim ples ilustração do grande teorem a de Goedel. Houve tantas coisas que aprendi com Kohn, coisas que eu j am ais teria tem po para aprender m ais tarde.
Assisti às palestras de Jerusalém sobre Espinosa - um a experiência m em orável para quantos o ouviram . Ele discorria sobre tantos assuntos, sobre o
("A m orte não é
inim iga do hom em ”) e ("adm irar-se de
nada”), de Epicuro, m áxim as que este sem pre tinha em m ente ao filosofar. Em m eu prim eiro ano, fiz tam bém quím ica analítica qualitativa e certam ente ganhei m uito com isso. As aulas de Skraup sobre quím ica inorgânica analítica eram bastante boas; j á as de quím ica orgânica analítica, que acom panhei durante o verão, eram inferiores, em com paração. Elas poderiam ter sido dez vezes m elhores e ainda assim não teriam m elhorado m inha com preensão acerca de ácidos nucléicos, enzim as, anticorpos e assem elhados. Da form a com o eram dadas, eu m e sentia m uito à frente, guiado pela intuição, o que era, apesar de tudo, produtivo.
Em 31 de j ulho de 1914, m eu pai apareceu em m inha sala na Boltzm anngasse para dar a notícia de que eu havia sido convocado. O Predilsattel, em Caríntia, deveria ser m eu prim eiro destino. Saím os para com prar duas arm as, um a pequena e outra grande. Felizm ente, nunca tive de usá-las, sej a contra hom ens ou anim ais e, em 1938, durante um a revista em m eu apartam ento em Graz, eu as entreguei ao sim pático oficial, só por desencargo de consciência. Um as poucas palavras sobre a guerra: em m eu prim eiro posto, em Predilsattel, nada ocorreu. Um a vez, em todo caso, tivem os um alarm e falso. Nosso oficial-com andante, o capitão Reindl, fez um arranj o com pessoas de confiança para que, no caso de tropas italianas avançarem pelo largo vale em direção ao lago (Raiblersee), nós seríam os avisados por sinais de fum aça. Aconteceu de alguém estar assando batatas ou queim ando m ato perto da fronteira. Fom os encarregados de m onitorar os dois postos de observação e eu fiquei com o da esquerda. Ficam os dez dias lá até que alguém se lem brasse de nos cham ar de volta. Lá em cim a, aprendi que tábuas de chão (com apenas um saco de dorm ir e um cobertor) são m uito m ais confortáveis para dorm ir que um chão duro. Minha outra observação foi de natureza bem diferente, algo que eu nunca vira e nunca voltaria a ver. Um a noite, a sentinela do turno m e acordou para dizer que via algum as luzes que se m oviam na colina oposta a nós, claram ente vindo em nossa direção. (Incidentalm ente, essa parte da m ontanha (Seekopf) não tinha nenhum a trilha.) Saí de m eu saco de dorm ir e fui pela passagem que chegava ao posto de observação a fim de ver m elhor. A sentinela estava certa a respeito das luzes, m as se tratava de fogos de santelm o no topo de nossas barricadas de aram e, a dois m etros de nós, e o deslocam ento contra o fundo era devido apenas a efeito de paralaxe. Isso se devia ao fato de o próprio observador estar se m ovendo. Quando à noite saí de nosso espaçoso abrigo subterrâneo, pude ver esses pequenos fogos nas pontas das ervas que cobriam o teto. Foi a única vez que observei o fenôm eno.
Depois de m uito tem po ocioso ali, fui destacado para Franzenfeste, depois para Krem s e, então, para Kom orn. Por um curto período, tive de servir no fronte. Reuni-m e a um a pequena unidade, prim eiro em Gorizia e, depois, em Duíno. Eles estavam equipados com um singular canhão naval. Com o tem po, retiram o-nos para Sistiana, e dali fui m andado para um tedioso m as m uito bonito posto de observação perto de Prosecco, 900 pés acim a de Trieste, onde tínham os um canhão ainda m ais estranho. Minha futura esposa, Annem arie, veio m e ver ali e, em um a ocasião, o príncipe Sixto de Bourbon, irm ão da im peratriz Zita, visitou nossa posição. Ele não estava de uniform e e, depois, soube que era nosso inim igo, j á que servia no Exército belga. O m otivo para isso era que os franceses não perm itiam que qualquer m em bro da fam ília Bourbon servisse em seu Exército. Na época, o propósito dessa visita era o de criar um acordo de paz em separado entre a Austria-Fiungria e a Entente Cordiale, o que, evidentem ente, significava alta traição contra a Alem anha. Infelizm ente, seu plano nunca se m aterializou. Meu prim eiro encontro com a teoria de Einstein de 1916 foi em Prosecco. Eu tinha m uito tem po disponível, m as ainda assim tinha grande dificuldade para entendê-la. Mesm o assim , algum as notas m arginais que então fiz ainda m e parecem razoavelm ente inteligentes, m esm o hoj e. Com o regra, Einstein apresentava um a nova teoria de um a form a desnecessariam ente com plicada, m as nunca tanto com o em 1945, quando ele introduziu a assim cham ada teoria unitária “assim étrica" do cam po. Mas talvez isso não sej a característico apenas desse grande hom em , pois quase sem pre ocorre quando alguém postula um a nova ideia. No caso da teoria m encionada, Pauli lhe disse algum as vezes que era desnecessário introduzir quantidades com plexas, porque cada um a de suas equações tensoriais consistia, em um a parte assim étrica e outra perfeitam ente sim étrica. Só em 1952, em um artigo escrito em conj unto com a senhora B. Kaufm an para um volum e dedicado ao sexagésim o aniversário de Louis de Broglie, ele concordou com m inha m uito m ais sim ples versão, ao excluir engenhosam ente a assim cham ada versão “forte". Esse foi, na verdade, um passo m uito im portante.
Passei o últim o ano da guerra com o “m eteorologista”, prim eiro em Viena, depois em Villach, depois em Wiener Neustadt e, por fim , em Viena novam ente. Isso foi ótim o para m im , pois fui poupado da retirada de nossas desconj untadas linhas de frente.
Em m arço/abril de 1920, Annem arie e eu nos casam os. Logo depois, m udam o-nos para Jena, onde conseguim os um a habitação m obiliada. Esperava-se que eu adicionasse um pouco de física teórica recente às aulas do professor Auerbach. Apreciam os m uito a cordialidade e am izade dos Auerbachs, que eram j udeus, e de m eu chefe, Max Wien e sua esposa (eles eram anti-sem itas por tradição, m as não eram pessoas m ás). Foi de grande aj uda para m im estar tão bem com eles todos. Em 1933, ouvi dizer que os Auerbachs não encontraram outro m eio de escapar da opressão e hum ilhação prom ovida por Hitler (Machtergreifung) senão o suicídio. Eberhard Buchwald, um j ovem físico que havia acabado de perder a esposa, e um casal cham ado Eller, com seus dois filhos, figuravam tam bém entre nossos am igos em Jena. A senhora Eller veio ver-m e em Alpbach no últim o verão (1959); um a pobre e solitária m ulher, cuj os três hom ens perderam a vida lutando por um a causa na qual não acreditavam . Um a exposição cronológica da vida de alguém é um a das coisas m ais tediosas que consigo im aginar. Estej a você relem brando incidentes de sua própria vida ou da de outra pessoa qualquer, raram ente encontrará m ais que experiências ocasionais ou observações dignas de nota, m esm o que a ordem histórica dos eventos tenha então lhe parecido im portante. Esse é o m otivo pelo qual vou lhes dar um pequeno sum ário dos períodos de m inha vida, para que depois eu possa m e referir a eles sem precisar m e ater à ordem cronológica. O prim eiro período (1887-1920) term ina com m eu casam ento com Annem arie e a saída da Alem anha. Vou cham á-lo de m eu prim eiro período vienense. Cham arei o segundo período (1920-1927) de “Meus Prim eiros Anos de Nom adism o”, j á que fui para Jena, Stuttgart,Breslau e finalm ente para Zurique (em 1921). Esse período term ina com m inha convocação para Berlim , com o sucessor de Max Planck. Descobri a m ecânica ondulatória durante m inha estada em Arosa, em 1925. Meu artigo foi publicado em 1926. Com isso, viaj ei para a Am érica do Norte para dois m eses de palestras, um a vez que a proibição para isso j á havia felizm ente caducado. O terceiro período (1927-1933) foi ótim o. Vou cham á-lo de “Meu Professorado e Aprendizado”. Term inou com a tom ada do poder por Hitler, a então cham ada Machtergreifung, em 1933. Enquanto term inava o período de verão daquele ano, eu j á estava ocupado m andando m eus pertences para a Suíça. No fim de j ulho, saí de Berlim para passar as férias no Tirol Sul. Essa região havia se tornado parte da Itália peio tratado de St. Cerm ain e, assim , estava ainda acessível para nós, com nossos passaportes alem ães, enquanto a Áustria j á não estava. O grande sucessor do príncipe Bism arck conseguiu im por um bloqueio à Áustria que se tornou conhecido por Tausendmarksjyerre. (Minha esposa, por exem plo, não pôde visitar sua m ãe, por ocasião de seu septuagésim o aniversário. As autoridades de Sua Excelência não lhe deram perm issão.) Não retornei a Berlim depois do verão. Em vez disso, rem eti m inha dem issão, que perm aneceu por m uito tem po sem resposta. De fato, eles na época negaram tê-la recebido e, quando souberam que eu havia ganho o prêm io Nobel de física, sim plesm ente recusaram -se a aceitá-la. Vou cham ar o quarto período (1933-1939) de “Meus Últim os Anos de Nom adism o". Já na prim avera de 1933, F. A. Lindem ann (que depois seria lorde Cherwell) oferecera-m e um “m eio de vida" em Oxford. Isso foi na época de sua prim eira visita a Berlim , quando eu expressei m eu desgosto com a situação de então. Ele fielm ente m anteve sua palavra. E, assim , m inha esposa e eu pegam os a estrada em um pequeno BMW com prado para a ocasião. Deixam os Malcesine e, via Bérgam o, Lecco, St. Gotthard, Zurique e Paris, chegam os a Bruxelas, onde estava acontecendo um Congresso Solvay. Daí, seguim os para Oxford. Não viaj am os j untos. Lindem ann j á havia cum prido os passos necessários para m e fazer fellow do Magdalen College, e assim recebi a m aior parte de m eu pagam ento via ICI.
Quando, em 1936, recebi ofertas de cadeiras nas universidades de Edim burgo e de Graz, escolhi a últim a, algo extrem am ente tolo. Tanto a escolha com o o resultado foram sem precedentes, em bora o resultado tenha sido feliz. Claro que eu estava m ais ou m enos visado pelos nazistas, em 1938, m as na época eu j á havia aceitado um convite para ir a Dublin, onde De Valera estava para fundar o Instituto de Estudos Avançados. A lealdade com sua própria universidade j am ais teria perm itido que o professor de Edim burgo E. T. Whittaker, antigo professor de De Valera, m e sugerisse para o posto, tivesse eu ido para Edim burgo, em 1936. Max Bom teria sido designado e não eu. Dublin m ostrou-se cem vezes m elhor para m im . Não apenas o trabalho em Edim burgo teria sido um grande fardo, m as tam bém o seria a posição de inim igo estrangeiro dentro da Grã-Bretanha durante a guerra.
Nossa segunda “escapada" nos levou de Graz, via Rom a, Genebra e Zurique, para Oxford, onde nossos queridos am igos, os Whiteheads, nos abrigaram por dois m eses. Dessa vez, tivem os de deixar para trás nosso pequeno e eficiente BMW, o "Grauling", pois ele seria m uito lento e, além disso, eu j á não tinha m ais um a licença de m otorista. O Instituto em Dublin ainda não estava "no ponto", e assim m inha esposa, Hilde, Ruth e eu fom os para a Bélgica, em dezem bro de 1938. Prim eiro, dei palestras (em alem ão!) na Universidade de Ghent, com o professor convidado; isso foi para o "Fondation Franqui-Sem inar". Depois, ficam os cerca de quatro m eses em Lapanne, à beira-m ar. Foi um tem po delicioso, apesar das águas-vivas. Foi tam bém a única vez que vi a fosforescência do m ar. Em setem bro de 1939, o prim eiro m ês da Segunda Guerra Mundial, fom os para Dublin, via Inglaterra. Com nossos passaportes alem ães, ainda éram os inim igos estrangeiros para os ingleses, m as, obviam ente graças às cartas de referência de De Valera, nosso trânsito foi garantido. Talvez tam bém Lindem ann tenha m exido alguns pauzinhos então, a despeito do bem desagradável encontro que tivéram os no ano anterior. Afinal de contas, ele era um hom em m uito decente, e estou convencido de que, com o conselheiro para assuntos de física, assim com o seu am igo Winston, ele se m ostrou indispensável para a defesa da Grã-Bretanha durante a guerra. Vou cham ar o quinto período (1939-1956) de "Meu Longo Exílio", m as sem as am argas associações que a palavra suscita, pois foi na verdade um período m aravilhoso. De outra form a, eu j am ais teria conhecido esta rem ota e linda ilha. Em nenhum outro lugar poderíam os ter passado pela guerra sem ser tocados pelos nazistas, o que chega a ser vexatório. Não posso im aginar passar dezessete anos em Graz "flutuando", com ou sem os nazistas, com ou sem a guerra. As vezes, dizíam os baixinho entre nós: "Wir danken;s unserem Führer" ("Devem os isso ao nosso Führer").
O sexto período (1956-?) cham arei "Meu Ultim o Período Vienense". Já em 1946, eu havia recebido a oferta de um a cátedra na Áustria, novam ente. Quando disse isso a De Valera, ele m e aconselhou veem entem ente contra, argum entando com a instável situação política da Europa Central. Ele estava certo quanto a isso. Mas, em bora ele estivesse tão gentilm ente disposto a m eu respeito, não dem onstrou qualquer preocupação acerca do futuro de m inha esposa caso algum a coisa m e acontecesse. Tudo o que ele dizia era que, com respeito à própria esposa, ele tam bém não sabia o que poderia acontecer. Assim , eu disse às pessoas em Viena que estava inclinado a retornar, m as queria esperar que tudo voltasse ao norm al. Disse-lhes que, por causa dos nazistas, fui forçado duas vezes a interrom per m eu trabalho e reiniciá-lo noutro lugar; um a terceira vez seria o fim de tudo. Em retrospecto, vej o que m inha decisão foi correta. A pobre Áustria fora arrasada e era então um péssim o lugar para viver. Minha petição às autoridades austríacas para que dessem um a pensão a m inha esposa com o form a de reparação foi inútil, em bora eles parecessem dispostos a fazer reparos. A pobreza era m uito grande então (e é ainda hoj e, em 1960) para perm itir concessões a alguns indivíduos e negá-las a quase todos os outros. Assim , fiquei m ais dez anos em Dublin, o que se m ostrou excelente para m im . Escrevi vários pequenos livros em inglês (publicados pela Cam bridge University Press) e continuei m eus estudos sobre a teoria geral "assim étrica" da gravitação, que parece ser desapontadora. E por últim o, m as não m enos im portante, houve duas cirurgias bem -sucedidas, em 1948 e em 1949, nas quais o doutor Werner retirou cataratas de m eus dois olhos. No tem po certo, a Áustria generosam ente recolocou-m e em m inha antiga posição. Tam bém recebi um a nova indicação para a Universidade de Viena (extra status), em bora em m inha idade eu só pudesse pretender dois anos e m eio de exercício. Devo tudo isso principalm ente a m eu am igo Hans Thirring e ao m inistro da Educação, doutor Drim m el. Na m esm a época, m eu colega Robracher teve sucesso em fazer aprovar a lei para o status de professor em érito, e assim , deu apoio a m eu caso.
E neste ponto que m eu sum ário cronológico term ina. Espero acrescentar aqui e ali um as poucas ideias e detalhes que não sej am m uito tediosos. Devo abster-m e de esboçar um quadro com pleto de m inha vida, j á que não sou um bom contador de histórias. Além disso, eu teria de deixar de fora um a parte m uito substancial desse retrato, isto é, o que diz respeito às m inhas relações com as m ulheres. Antes de tudo, isso fom entaria m exericos; em segundo lugar, dificilm ente seria interessante para outros e, por últim o, m as não m enos im portante, não acredito que alguém possa ou queira ser verdadeiro nesses assuntos. Este resum o foi escrito no início deste ano. Agora, dá-m e prazer olhá-lo de vez em quando. Mas decidi não continuar - não haveria sentido.
Novem bro de 1960 E. S.
SOBRE O LIVRO
Coleção: UNESP/Cam bridge
Formato: 14 x 21 cm
Mancha: 24 x 42;5 paicas
Tipologia: Schneidler Light 10/12
Pólen Soft 80 g/m 2 (m iolo)
Cartão Suprem o 250 g/m 2 (capa)
1ª edição: 1997
EQ UIPE DE REALIZAÇÃO
Produção Gráfica
Edson Francisco dos Santos (Assistente)
Edição de Texto
Fábio Gonçalves (Assistente Editorial)
Carlos Wagner Fernandes dos Santos (Preparação de Original) Ana Maria Lisboa Pedrosa,
Luicy Caetano de Oliveira e
Bernadete dos Santos Abreu (Revisão)
Editoração Eletrônica
Lourdes Guacira da Silva Sim onelli (Supervisão) Celso Carram enha Linck (Edição de Im agens) Edm ilson Gonçalves (Diagram ação)
Projeto Visual
Lourdes Guacira da Silva Sim onelli
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Erwin Schrödinger
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