O que é a vida?
5. Ciência e Religião
5. CIÊNCIA E RELIG IÃO
Poderá a ciência facultar inform ações sobre questões ligadas à religião? Poderão os resultados da pesquisa científica ser de algum a aj uda para se chegar a um a atitude razoável e satisfatória para com aquelas questões de m aior gravidade que de tem pos em tem pos afligem todo m undo? Alguns de nós; em particular a j uventude saudável e feliz, conseguem deixá-las de lado durante longos períodos; outros, na idade avançada, se convencem de que não existe resposta e, resignados, desistem de procurar um a resposta, enquanto outros, ainda, são assom brados durante toda sua vida por essa incongruência de nosso intelecto, assom brados tam bém pelos sérios tem ores levantados pela superstição popular, que o tem po tratou de dignificar. Refiro-m e principalm ente às questões relativas ao "outro m undo", à "vida após a m orte" e a tudo aquilo que se relaciona a elas. Reparem , por favor, que não deverei, é claro, tentar responder a estas questões, m as som ente àquela bem m ais m odesta, saber se a ciência pode dar algum a inform ação sobre esses problem as ou aj udar-nos a pensar sobre eles - o que para m uitos de nós é inevitável.
Para com eçar, de um a m aneira bem prim itiva, ela certam ente pode fazê-lo, e o vem fazendo sem m uita dificuldade. Lem bro-m e de ter visto antigos m apas geográficos do m undo, creio eu, que incluíam o inferno, o purgatório e o paraíso, o prim eiro sendo colocado nas profundezas do solo, o últim o no alto dos céus. Tais representações não eram puram ente alegóricas (com o poderiam vir a sê-lo nos períodos posteriores, por exem plo, no fam oso quadro Todos os Santos, de Dürer); testem unham um a prim itiva crença, bem popular na época. Hoj e, nenhum credo exige que os fiéis interpretem seus dogm as de um a m aneira m aterialista; iria antes desestim ular seriam ente tal atitude. Esse avanço certam ente foi aj udado pelo nosso conhecim ento do interior de nosso planeta (por m enor que sej a), da natureza dos vulcões, da com posição de nossa atm osfera, da história provável do sistem a solar e da estrutura da galáxia e do universo. Nenhum a pessoa culta esperaria encontrar essas fantasias dogm áticas em qualquer região daquela parte do espaço que é acessível à nossa investigação e, eu até diria, em nenhum a região contígua a esse espaço, m as inacessível à pesquisa; ela lhes daria, m esm o se convencida de sua realidade, um a postura espiritual. Não direi que com pessoas profundam ente religiosas tal esclarecim ento tenha precisado aguardar as descobertas supram encionadas da ciência, m as estas certam ente aj udaram a erradicar a superstição m aterialista nessas questões.
Contudo, isso se refere a um estado m ental bem prim itivo. Há pontos de m aior interesse. As contribuições m ais im portantes da ciência para superaras perguntas espinhosas “Quem realm ente som os? De onde vim e para onde vou?” - ou, pelo m enos, para tranquilizar nossas m entes - digo, a aj uda m ais vultosa que a ciência nos ofereceu para isso é, em m inha opinião, a gradual idealização do tem po. Ao pensar sobre isso, os nom es de três hom ens im põem -se-nos, em bora m uitos outros, inclusive não-cientistas, tenham seguindo a m esm a trilha, com o S. Agostinho de Hipona e Boécio; os três nom es a que aludi são Platão, Kant e Einstein.
Os dois prim eiros não eram cientistas, m as sua forte devoção às questões filosóficas, seu interesse absorvente pelo m undo vieram da ciência. No caso de Platão, surgiu da m atem ática e da geom etria (o V estaria fora de lugar hoj e, m as não, penso eu, em seu tem po). O que dotou todo o trabalho de Platão com tal distinção insuperável, que brilha sem perda de esplendor depois de m ais de dois m il anos? De tudo que sabem os, nenhum a descoberta especial sobre núm eros ou figuras geom étricas é creditada a ele. Sua com preensão do m undo m aterial da física e da vida é ocasionalm ente fantástica e totalm ente inferior ao de outros (os sábios desde Tales até Dem ócrito), que viveram , alguns deles, m ais de um século antes de sua época; quanto ao conhecim ento da natureza, foi superado de longe por seu pupilo Aristóteles e por Teofrasto. Para todos, exceto seus ardentes adoradores, longas passagens em seus diálogos dão a im pressão de um a tergiversação gratuita sobre palavras, sem qualquer intenção de definir o significado de um a palavra, m as na crença de que a própria palavra exibirá seu conteúdo, caso ela sej a seguidam ente retorcida durante um tem po suficiente. Sua Utopia social e política, que falhou e'o colocou em grave perigo quando tentou prom ovê-la na prática, encontra poucos adm iradores em nossos dias; e estes tristem ente experim entaram algo parecido. O que então criou sua fam a? Em m inha opinião, foi isto: ele foi o prim eiro a prefigurar a ideia da existência intem poral e a enfatizá-la - contra a razão - com o realidade, m ais real que nossa experiência; esta, disse ele, nada m ais é que a som bra da prim eira, da qual toda a realidade sentida é em prestada. Estou falando da teoria das form as (ou ideias). Com o teve origem ? Não há dúvida de que surgiu quando ele entrou em contato com os ensinam entos de Parm ênides e dos eleatas. Mas é igualm ente óbvio que esses ensinam entos encontraram em Platão um a m ente congenial, estando bem alinhados com sua bela analogia de que aprender por m eio da razão consiste m ais em relem brar o conhecim ento, anteriorm ente possuído m as ora latente, m ais que descobrir verdades inteiram ente novas. Contudo, o Uno eterno, ubíquo e im utável de Parm ênides transform ou-se na m ente de Platão em um pensam ento m uito m ais poderoso, o Reino das Idéias, que apela para a im aginação, em bora perm aneça necessariam ente um m istério. Mas esse pensam ento brotou, acredito, de um a experiência bem real, a saber, de que ficou adm irado e m aravilhado com as revelações no reino dos núm eros e das figuras geom étricas - com o ficaram tam bém m uitos hom ens depois dele e os pitagóricos antes. Ele reconheceu e absorveu profundam ente em sua m ente a natureza dessas revelações, que se desdobram com o raciocínio lógico puro, que nos fam iliariza com relações verdadeiras cuj a verdade não é inexpugnável, m as está obviam ente lá, para sem pre; as relações valem e valerão quer as exam inem os ou não. Um a verdade m atem ática é intem poral, não ganha existência quando a descobrim os. Contudo, sua descoberta é um evento bem real, pode ser um a em oção, com o um grande presente de um a fada. As três alturas de um triângulo (ABC) cruzam -se num único ponto (O). (A altura é a perpendicular tirada de um vértice até o lado oposto a ele, ou até seu prolongam ento.) A prim eira vista, não se percebe por que razão elas se encontram ; três linhas quaisquer não se cruzam , geralm ente form am um triângulo. Desenhem os agora, a partir de cada vértice, a paralela ao lado oposto, para form ar um triângulo m aior A’B’C’. Este consiste de quatro triângulos congruentes. No triângulo m aior, as três alturas de ABC são as perpendiculares erguidas no m eio de seus lados, suas “linhas de sim etria". Agora, aquela erguida em C deve conter todos os pontos que estej am à m esm a distância tanto a partir de A’ como a partir de B’; aquela erguida em B' contém todos aqueles pontos que estej am à m esm a distância tanto a partir de A’ com o a partir de C’. O ponto onde essas duas perpendiculares se encontram está, portanto, à m esm a distância de todos os três vértices A’, B’, C’, e deve, portanto, tam bém estar situado na perpendicular erguida em A, pois esta contém todos os pontos que estão à m esm a distância de B’; e de C’. C.Q.D.
Todo inteiro, exceto 1 e 2, está “no m eio de dois núm eros prim os ou é sua m édia aritm ética, por exem plo:
8 = 1/2 (5 + 11) = 1/2 (3 + 13)
17 = 1/2 (3 + 31) = 1/2 (29 + 5) = Vi (23 + 11)
20 = 1/2 (11 + 29) = 1/2 (3 + 37)
Com o veem , geralm ente existe m ais de um a solução. O teorem a se cham a teorem a de Goldbach e acredita-se que sej a verdadeiro, em bora não tenha sido dem onstrado.
Som ando os núm eros ím pares consecutivos, partindo, prim eiro, precisam ente do 1, depois 1 + 3 = 4, depois 1 + 3 + 5 = 9, depois 1 + 3 + 5 + 7 = 16, sem pre se obtém um núm ero quadrado; de fato, obtêm -se desta form a todos os núm eros quadrados, sem pre o quadrado do núm ero de núm eros ím pares som ados. Para apreender a generalidade desta relação, pode-se substituir na som a os com andos de cada par que estej a equidistante do m eio (portanto: o prim eiro e o últim o, depois o prim eiro após o prim eiro e o últim o m enos um etc.) por sua m édia aritm ética, que é, obviam ente, exatam ente igual ao núm ero de fatores; logo, no últim o dos exem plos acim a:
4+4+4+4=4x4
Voltem os agora a Kant. Tornou-se um lugar-com um dizer que ele ensinou a idealidade do espaço e do tem po e que isso era um a parte fundam ental, se não a m ais fundam ental, de seus ensinam entos. Com o a m aioria de suas ideias, essa idealidade não se pode verificar nem falsear, m as nem por isso perde o interesse (pelo contrário, ganha; se pudesse ser com provada ou refutada, seria trivial). Significa que ter extensão no espaço e acontecer num a ordem tem poral bem -definida de “antes e depois” não é um a qualidade do m undo que percebem os, m as é próprio da m ente perceptiva que, de algum a form a em sua presente situação, não consegue deixar de registrar o tudo que se lhe é oferecido, de acordo com estas duas chaves de classificação: o espaço e o tem po. Não significa que a m ente com preenda esses esquem as de ordem independentem ente e antes de qualquer experiência, m as que não consegue deixar de desenvolvê-los e aplicá-los à experiência quando esta acontece e, particularm ente, que esse fato não com prova nem sugere que espaço e tem po sej am um esquem a de ordem inerente àquela “coisa-em -si” que, com o acreditam alguns, causa nossa experiência.
Não é difícil construir um argum ento que m ostre que tal coisa é um em buste. Nenhum indivíduo pode fazer um a distinção entre o reino de suas percepções e o reino das coisas que as causam , um a vez que, por m ais detalhado que sej a o conhecim ento que porventura possa ter adquirido sobre todo o episódio, este está ocorrendo som ente um a vez, não duas. A duplicação é um a alegoria, sugerida principalm ente pela com unicação com outros seres hum anos e, m esm o, com anim ais; alegoria que m ostra que as percepções dos outros, na m esm a situação, parecem bem sem elhantes às suas próprias, exceto diferenças insignificantes de pontos de vista - no sentido literal de "ponto de proj eção”. Mas, m esm o supondo que isso nos force a considerar um m undo obj etivam ente existente com o a causa de nossas percepções, com o o faz a m aioria das pessoas, com o é que deveríam os decidir se um a característica com um de toda a nossa experiência se deve à constituição de nossa m ente e não a um a qualidade com partilhada por todas essas coisas obj etivam ente existentes? Nossas percepções sensoriais declaradam ente constituem nosso único conhecim ento sobre as coisas. O m undo obj etivo continua sendo um a hipótese, apesar de natural. Se de fato a adotarm os, não seria, sem dúvida, a coisa m ais natural atribuir àquele m undo externo, e não a nós m esm os, todas as características que nossas percepções sensoriais encontram nele? Contudo, a suprem a im portância da afirm ação de Kant não consiste sim plesm ente em distribuir entre eles, com equidade, papéis da m ente e de seu obj eto - o m undo - no processo pelo qual "a m ente form a um a ideia do m undo”, pois, com o acabei de ressaltar, dificilm ente será possível discrim inar um do outro. O ponto essencial foi form ar a ideia de que esta coisa - m ente ou m undo -bem poderá ser capaz de assum ir outras form as que não podem os com preender e que não im plicam as noções de espaço e tem po. Isso significa um a m om entosa libertação de nosso inveterado preconceito. Existem , provavelm ente, outras ordens de aparência além das espaço-tem porais. Foi Schopenhauer, acredito, quem prim eiro interpretou Kant desse m odo. Essa liberação abre cam inho para a crença, no sentido religioso, sem gastar todo o tem po contra os resultados que a experiência do m undo tal com o o conhecem os e o pensam ento direto inequivocadam ente enunciam . Por exem plo - para falar do exem plo m ais im portante -, a experiência, com o a conhecem os, indubitavelm ente força a convicção de que não pode sobreviver à destruição do corpo, a cuj a vida, com o a conhecem os, está inseparavelm ente ligada. Então, não deverá existir nada após a vida? Não. Não da m aneira da experiência que conhecem os, que, necessariam ente, ocorre no espaço e no tem po. Mas, num a ordem de aparência em que o tem po não desem penhe nenhum papel, esta noção de "depois” não tem qualquer significado. O pensam ento puro não pode, é claro, oferecer-nos um a garantia de que exista esse tipo de coisa, m as pode rem over os evidentes obstáculos para que o concebam os com o possível. E isso o que Kant fez com sua análise e é aí, em m inha opinião, que reside a sua im portância filosófica. Passo agora a falar sobre Einstein, no m esm o contexto. A atitude de Kant em relação à ciência era incrivelm ente ingênua, com o todos concordarão se folhearem seu livro Fundam entos m etafísicos da ciência (Metaphysische Anfangsgründe der Naturwissenschaft). Ele aceitava a ciência física, na form a que ela tinha atingido em seu tem po de vida (1724-1804), com o algo m ais ou m enos definitivo, e se ocupou em j ustificar filosoficam ente suas sentenças. Ter acontecido algo desse tipo a um grande gênio deve servir de advertência a todos os filósofos posteriores. Ele m ostraria cabalm ente que o espaço era necessariam ente infinito e acreditava firm em ente que cabia à natureza da m ente hum ana dotá-lo de duas propriedades geom étricas resum idas por Euclides. Nesse espaço euclidiano, um m olusco de m atéria se m ovia, isto é, alterava sua configuração com o passar do tem po. Para Kant, com o para qualquer físico de sua época, espaço e tem po eram duas concepções inteiram ente diferentes e, portanto, ele não tinha escrúpulos em denom inar o prim eiro a form a de nossa intuição externa e o tem po, a form a de nossa intuição interna (Anschauung). O reconhecim ento de que o espaço infinito euclidiano não é um a m aneira inevitável de enxergar o m undo de nossa experiência e que seria m elhor considerar espaço e tem po com o um continuum de quatro dim ensões pareceu despedaçar o fundam ento de Kant - m as de fato não trouxe nenhum dano à parte de m aior valor de sua filosofia.
Tal reconhecim ento coube a Einstein (e a vários outros, H. A. Lorentz, Poincaré, Minkowski, por exem plo). O violento im pacto de suas descobertas sobre os filósofos, sobre os hom ens com uns e as senhoras da sociedade deve-se ao fato de eles o terem trazido para o prim eiro plano: m esm o no dom ínio de nossa experiência, as relações espaço-tem porais são m uito m ais intricadas do que Kant sonhava que fossem , sendo acom panhado nisso por todos os físicos, hom ens com uns e senhoras da sociedade.
A nova visão tem seu m ais forte im pacto sobre a noção de tem po que existia anteriorm ente. Tem po é a noção de "antes e depois". A nova atitude surge das duas raízes que seguem :
(1) A noção de "antes e depois" reside na relação de "causa e efeito".
Sabem os, ou pelo m enos form am os a ideia, que um evento A pode causar
ou pelo m enos m odificar um outro evento B, de tal form a que se A não
ocorresse, então B não ocorreria, pelo m enos não na form a m odificada.
Por exem plo, quando um a granada explode, ela m ata o hom em que
estava sentado sobre ela; além disso, a explosão é ouvida em lugares
distantes. A m orte pode ser sim ultânea à explosão, o ouvir do som num
local distante será posterior; m as, certam ente, nenhum dos efeitos pode
ser anterior. Essa é um a noção básica, de fato é a única pela qual,
tam bém na vida cotidiana, é decidida a questão sobre qual de dois eventos
foi posterior ou, no m ínim o, não foi anterior. A distinção repousa
inteiram ente na ideia de que o efeito não pode preceder a causa. Se
tiverm os razões para achar que B foi causado por A, ou que pelo m enos
exibe vestígios de A, ou m esm o se (a partir de um a evidência
circunstancial) for concebível que exiba vestígios, então considera-se que
B não é anterior a A.
(2) Lem brem -se disso. A segunda raiz é a evidência experim ental e
observacional de que os efeitos não se dissem inam com um a velocidade
arbitrariam ente alta. Existe um lim ite superior que, incidentalm ente, é a
velocidade da luz no espaço vazio. Na escala hum ana, considera-se um
valor m uito alto, pois daria para dar a volta ao equador cerca de sete
vezes em um segundo. Bem alto, m as não infinito; cham em o-lo c.
Aceitem os isso com o um fato fundam ental da natureza. Segue-se então
que a m encionada discrim inação entre “antes e depois" ou “m ais cedo e
m ais tarde" (baseada na relação de causa e efeito) não é universalm ente
aplicável, falhando algum as vezes. Isso não é tão facilm ente explicável
em linguagem não-m atem ática. Não que o esquem a m atem ático sej a tão
com plicado. Mas a linguagem cotidiana é prej udicial, pois está de tal
form a im buída da noção de tem po - não se pode usar um verbo (verbum,
“a” palavra; em alem ão, Zeitwort) sem em pregá-lo em algum a
conj ugação.
Segue-se a consideração m ais sim ples, m as que se m ostrará não totalm ente adequada. Sej a um evento A. Contem plem os, em algum m om ento posterior, um evento B fora da esfera de raio ct em volta de A. Logo, B não pode exibir qualquer vestígio de A; nem , é claro, A de B. Portanto, nosso critério falha. Pela linguagem que em pregam os supusem os, é claro, que B é posterior. Mas estaríam os certos quanto a isso, j á que o critério falha de qualquer m odo? Contem plem os, em um m om ento anterior (através t), um evento B’ fora daquela m esm a esfera. Nesse caso, exatam ente com o antes, nenhum vestígio de B’ pode ter atingido A (e, claro, nenhum vestígio de A pode ser exibido em B’). Assim , em am bos os casos, existe a m esm a relação de não-interferência m útua. Não existe diferença conceitual entre as classes B e B’ com respeito à sua relação causa-efeito com A. Assim , se quiserm os fazer dessa relação, e não de um preconceito linguístico, a base do “antes e depois”, então B e B’ form arão um a classe de eventos que não é anterior e nem posterior a A. A região do espaço-tem po ocupada por essa classe é cham ada região de “sim ultaneidade potencial” (com respeito ao evento A). Essa expressão é em pregada porque sem pre é possível adotar um a estrutura de espaço-tem po que torne A sim ultâneo de um B ou um B’ particular selecionado. Essa foi a descoberta de Einstein (que recebe o nom e de Teoria da Relatividade Restrita, de 1905). Hoj e em dia, essas coisas se tornaram realidade m uito concreta para nós, físicos; nós as usam os no trabalho diário, da m esm a form a que em pregam os a tabuada de m ultiplicar ou o teorem a de Pitágoras sobre os triângulos retângulos. As vezes, fico m e perguntando por que elas teriam provocado tanto alvoroço entre leigos e filósofos. Suponho que sej a porque representou a destronização do tem po com o um tirano rígido im posto a nós a partir de fora, representou um a libertação da inquebrantável regra do “antes e depois”. Pois é verdade que o tem po é nosso m ais severo m estre, por restringir ostensivam ente a existência de cada um de nós a lim ites m uito estreitos - setenta ou oitenta anos, conform e o Pentateuco. Poder brincar com um m agistral program a tido com o indevassável, brincar com ele, ainda que de form a tím ida, parece ser um grande alívio, parece encoraj ar a ideia de que toda a “cronologia” não é provavelm ente tão séria quanto parecia antes. E esse pensam ento é um pensam ento religioso, e talvez eu devesse cham á-lo de o pensam ento religioso.
Einstein não contradisse - com o algum as vezes ouvim os dizer - os profundos pensam entos de Kant sobre a idealização do espaço e do tem po; pelo contrário, deu um grande passo em direção a seu aperfeiçoam ento. Falei do im pacto de Platão, Kant e de Einstein sobre a perspectiva filosófica e religiosa. Mas, entre Kant e Einstein, cerca de um a geração antes do últim o, a ciência física testem unhou um evento m arcante, que parece ter sido calculado para alvoroçar o pensam ento de filósofos, hom ens com uns e senhoras da sociedade, tanto quanto o fez a teoria da relatividade, senão m ais. Isso só não aconteceu, acredito, devido ao fato de que essa m udança de visão é ainda m ais difícil de entender, e foi, portanto, percebida por m uito poucos entre essas três categorias de pessoas e, no m áxim o, por um ou outro filósofo. O evento está ligado aos nom es do norte-am ericano Willard Gibbs e do austríaco Ludwig Boltzm ann. Vou agora falar um pouco a respeito disso. Com bem poucas exceções (que realm ente são exceções), o curso dos eventos na natureza é irreversível. Se tentarm os im aginar um a sequência tem poral de fenôm enos exatam ente oposta àquela que está de fato sendo observada - com o um film e cinem atográfico passado em ordem invertida -, tal sequência invertida, em bora possa ser facilm ente im aginada, quase sem pre estaria em franca contradição com leis bem estabelecidas da ciência física. O “direcionam ento" geral de todos os acontecim entos foi explicado pela teoria m ecânica ou estatística do calor, e essa explicação foi com j ustiça saudada com o sua m ais adm irável conquista. Não posso aqui entrar em detalhes da teoria física, e isso não é necessário para com preender o ponto central da explicação. Esta teria sido bem pobre, caso a irreversibilidade tivesse ficado restrita a um a propriedade fundam ental do m ecanism o m icroscópico de átom os e de m oléculas. Isso não teria sido m elhor que m uitas explicações m edievais de caráter puram ente verbal, tais com o: o fogo é quente dada a sua qualidade ígnea. Não. De acordo com Boltzm ann, estam os frente a frente com um a tendência natural de qualquer estado ordenado de se transform ar em um estado m enos ordenado, m as não o contrário. Tom em os com o analogia um conj unto de cartas arranj adas cuidadosam ente, com eçando por 7, 8, 9, 10, valete, dam a, rei e ás de copas, então o m esm o para ouros etc. Se esse conj unto bem ordenado for em baralhado um a, duas ou três vezes, ele gradualm ente se transform ará em um conj unto aleatório. Mas isso não é um a propriedade intrínseca ao processo de em baralhar. Dado o conj unto desordenado resultante, é perfeitam ente im aginável um processo de baralham ento que cancelaria exatam ente o efeito do prim eiro ato de em baralhar e restauraria a ordem original. Ainda assim , todos esperam que o prim eiro curso ocorra, e ninguém , o segundo. De fato, teríam os de esperar m uito para que ele ocorresse por acaso. Agora, vem o ponto central da explicação de Boltzm ann sobre o caráter unidirecional de tudo o que acontece na natureza (incluindo, é claro, a história de vida de um organism o desde o nascim ento até a m orte). Sua grande virtude está em que a "seta do tem po" (tal com o Eddington a cham ou) não está nos m ecanism os de interação, representados em nossa analogia pelo ato m ecânico de em baralhar. Esse ato, esse m ecanism o é tão inocente quanto qualquer noção de passado e de futuro, é em si m esm o com pletam ente reversível e a "seta" - a noção m esm a de passado e de futuro - resulta de considerações estatísticas. Em nossa analogia das cartas, o ponto é que existe apenas um , ou alguns poucos, arranj os bem ordenados de cartas, m as bilhões de bilhões de desordenados. Mesm o assim , a teoria tem recebido continuada oposição, ocasionalm ente por pessoas m uito capazes. A oposição se resum e a: afirm a-se que a teoria é inconsistente do ponto de vista lógico. Pois, assim se afirm a, se os m ecanism os básicos não distinguem entre duas direções do tem po, funcionando de form a perfeitam ente sim étrica a esse respeito, com o pode a partir de sua cooperação resultar o com portam ento do todo, um com portam ento integrado, fortem ente tendente a um a direção? Sej a o que for que valha para essa direção, deve valer igualm ente bem para a oposta.
Se esse argum ento é válido, parece ser fatal. Pois se dirige ao ponto considerado a principal virtude da teoria: a derivação de eventos irreversíveis a partir de m ecanism os básicos reversíveis.
O argum ento é perfeitam ente válido, em bora não fatal. Ele é legítim o ao afirm ar que o que vale para um a direção deve tam bém valer para a direção oposta do tem po, que desde o início é introduzido com o um a variável perfeitam ente sim étrica. Mas não se deve saltar para a conclusão de que ele vale em geral para am bas as direções. Em um a expressão m ais cautelosa, deve-se dizer que em qualquer caso particular ele vale para um a ou para outra direção. Deve-se ainda dizer: no caso particular do m undo tal com o o conhecem os, o "depauperam ento progressivo" (para usar um a expressão que tem sido ocasionalm ente adotada) acontece em um a direção, e é essa que cham am os a direção do passado para o futuro. Em outras palavras, deve-se deixar que a teoria estatística do calor decida sozinha por seu próprio arbítrio, por sua própria definição, em que direção o tem po flui. (Isto tem um a consequência m arcante para a m etodologia do físico. Ele j am ais deve introduzir qualquer coisa que decida independentem ente sobre a seta do tem po, pois senão o belo edifício de Boltzm ann desm orona.) Poder-se-ia tem er que em sistem as físicos diferentes a definição estatística do tem po nem sem pre resultasse na m esm a direção do tem po. Boltzm ann enfrentou coraj osam ente essa possibilidade: m anteve que se o universo for suficientem ente extenso e/ou existir por um período suficientem ente longo, o tem po poderá realm ente correr na direção oposta, zonas rem otas dele. Esse ponto tem sido disputado, m as não vale a pena continuar m ais. Boltzm ann não sabia, o que para nós é extrem am ente provável, a saber, que o universo, com o o conhecem os, não é nem grande nem velho o suficiente para dar lugar a essas reversões em larga escala. Peço que m e perm itam adicionar, sem explicações m ais detalhadas, que em um a escala m uito pequena, tanto no espaço com o no tem po, tais reversões têm sido observadas (o m ovim ento browniano, Sm oluchowski). Em m eu ponto de vista, a “teoria estatística do tem po" tem um im pacto ainda m ais forte sobre a filosofia do tem po do que o da teoria da relatividade. Esta, por m ais que sej a revolucionária, deixa intocado o fluxo não-direcional do tem po, o qual ela pressupõe, enquanto a teoria estatística o constrói a partir da ordem dos eventos. Isso significa um a libertação da tirania do velho Cronos. Aquilo que construím os em nossa m ente não pode, assim penso, ter um poder ditatorial sobre ela, sej a o poder de fazê-la prevalecer ou de aniquilá-la. Mas alguns dos senhores, estou certo, cham arão a isto m isticism o. Assim , com o devido reconhecim ento do fato de que a teoria física é sem pre relativa, j á que depende de certas suposições básicas, podem os, ou pelo m enos assim acredito, afirm ar que a teoria física em seu estágio atual sugere fortem ente a indestrutibilidade da Mente pelo Tem po.