O que é a vida?

Erwin Schrödinger · Capítulo 13 de 17

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O que é a vida?

3. O Princípio da Objetivação

 

Há nove anos, propus dois princípios gerais que form am a base do m étodo científico, o princípio da com preensibilidade da natureza e o princípio da obj etivação. Desde então, voltei a esse tem a vez por outra, a últim a vez em m eu pequeno livro Nature and the Greeks1 Desej o abordar aqui em detalhe o segundo, a obj etivação. Antes de dizer o que entendo por isso, gostaria de afastar um possível m al-entendido, em bora ache que o evitei desde o nascedouro. É sim plesm ente isto: algum as pessoas pareceram achar que m inha intenção era estabelecer os princípios fundam entais que deveriam estar na base do m étodo científico ou pelo m enos que estivessem j usta e legitim am ente na base da ciência e que deveriam ser m antidos a todo o custo. Longe disso, só defendi e defendo que estão - e, aliás, com o herança dos antigos gregos, de quem derivaram toda a nossa ciência e o pensam ento científico ocidental. O m al-entendido não surpreende m uito. Quando se ouve um cientista pronunciar os princípios básicos da ciência, enfatizando dois deles com o particularm ente fundam entais e há m uito estabelecidos, é natural pensar que ele é no m ínim o fortem ente favorável a eles e desej a im pô-los. Mas, por outro lado, vej am os senhores, a ciência nunca im põe nada, a ciência afirma. A ciência obj etiva nada m ais que criar afirm ações verdadeiras e adequadas sobre seu obj eto. O cientista im põe som ente duas coisas, a saber, verdade e sinceridade; ele as im põe sobre si m esm o e sobre outros cientistas. No presente caso, o obj eto é a própria ciência, com o ela se desenvolveu, se transform ou e é no presente, não com o deveria ser ou deveria se desenvolver no futuro. Voltem os agora a esses dois princípios. Quanto ao prim eiro, "que a natureza pode ser com preendida”, direi aqui apenas algum as palavras. O m ais surpreendente em relação a ele é que teve de ser inventado, que foi inteiram ente necessário inventá-lo. Ele vem da Escola Milésia, dos physiologoi. Desde então, m anteve-se intocado, em bora talvez nem sem pre incontam inado. A presente linha da física é possivelm ente um a contam inação bem grave. O princípio da incerteza, a alegada ausência de conexão causal estrita na natureza, pode representar um passo para longe dele, um abandono parcial. Seria interessante discutir isso, m as decidi que discutiria aqui o outro princípio, que cham ei de obj etivação. Por obj etivação, estou m e referindo àquilo que tam bém é frequentem ente cham ado de a "hipótese do m undo real" ao nosso redor. Defendo que equivale a um a certa sim plificação que adotam os para dom inar o problem a infinitam ente intricado da natureza. Sem estar ciente dele e sem ser rigorosam ente sistem ático com ele, excluím os o Sujeito Cognoscente do dom ínio da natureza que nos esforçam os por entender. Retrocedem os para o papel de um espectador que não pertence ao m undo, o qual, por esse m esm o procedim ento, torna-se um m undo obj etivo. Esse dispositivo é revelado pelas duas circunstâncias seguintes. Em prim eiro lugar, m eu próprio corpo (ao qual m inha atividade m ental está tão direta e intim am ente vinculada) form a parte do obj eto (o m undo real em torno de m im ) que construo a partir de m inhas sensações, percepções e m em órias. Em segundo, os corpos de outras pessoas form am parte desse m undo obj etivo. Bem , tenho ótim os m otivos para acreditar que esses outros corpos tam bém estão vinculados ou são, por assim dizer, os assentos das esferas da consciência. Não tenho nenhum a dúvida razoável sobre a existência ou algum a espécie de realidade dessas outras esferas de consciência; não obstante, não tenho qualquer acesso subj etivo direto a qualquer delas. Portanto, estou inclinado a tom á-las com o algo obj etivo, com o parte constitutiva do m undo real ao m eu redor. Além disso, por não haver nenhum a distinção entre eu m esm o e os outros, m as, pelo contrário, um a sim etria plena para todas as finalidades e propósitos, concluo que eu m esm o faço parte desse m undo m aterial real ao m eu redor. Coloco, por assim dizer, m eu próprio eu sensível (que havia construído esse m undo com o um produto m ental) de volta nele - com o pandem ônio de consequências lógicas desastrosas que fluem da cadeia supracitada de conclusões errôneas. Irem os abordá-las um a a um a; por ora, gostaria apenas de m encionar as duas antinom ias m ais conspícuas, devidas à nossa percepção do fato de que um quadro m oderadam ente satisfatório do m undo só foi alcançado pelo elevado preço de nos retirarm os a nós m esm os do quadro, decaindo para o papel de um observador desinteressado.

A prim eira dessas antinom ias é a surpresa de descobrir nosso quadro do m undo "incolor, frio, m udo”. Cor e som , calor e frio são nossas sensações im ediatas; não surpreende m uito que estej am ausentes de um m odelo de m undo do qual rem ovem os nossa própria pessoa m ental.

A segunda é nossa busca infrutífera do local onde nossa m ente atua sobre a m atéria ou vice-versa, busca tão conhecida da honesta exploração de sir Charles Sherrington, exposta de m aneira m agnífica em Man on his Nature: o m undo m aterial só foi construído ao preço de retirar dele o eu, isto é, a m ente; a m ente não faz parte dele; obviam ente, portanto, não pode atuar sobre ele nem sofrer a ação de nenhum a de suas partes. (Isto foi enunciado por Espinosa num a sentença sucinta e clara, ver p. 135-6.)

Desej o entrar em m ais detalhes sobre alguns dos pontos que considerei im portantes. Em -prim eiro lugar, gostaria de citar um a passagem do artigo de C. G. Jung que m e gratificou, pois ressalta o m esm o ponto num contexto bem diferente, em bora de um a m aneira fortem ente ultraj ante. Em bora eu continue a considerar a rem oção do Sujeito Cognoscénte do quadro do m undo obj etivo o alto preço pago por um a im agem razoavelm ente satisfatória, Jung dá um passo adiante e acusa-nos por pagarm os esse resgate que nos liberta de um a situação inextricavelm ente difícil. Diz ele:

Toda a ciência (Wissenschaft), contudo, é um a função da alm a, na qual

todo o conhecim ento está enraizado. A alm a é o m aior de todos os

m ilagres cósm icos, é a conditio sine qua non do m undo com o obj eto. É

extraordinariam ente surpreendente que o m undo ocidental (com

raríssim as exceções) pareça ter tão pequena percepção de que assim o

sej a. A torrente de obj etos externos de conhecim ento fez que o suj eito de

todo o conhecim ento se retirasse para o segundo plano, m uitas vezes para

um a aparente inexistência.2

É claro que Jung está inteiram ente certo. É tam bém claro que ele, estando engaj ado na ciência da psicologia, sej a m uito m ais sensível ao gam bito inicial em questão, m ais ainda que um físico ou fisiologista. Entretanto, eu diria que um a rápida retirada da posição m antida por m ais de dois m il anos é perigosa. Poderem os perder tudo sem ganhar m ais que um a certa liberdade em um dom ínio especial - em bora m uito im portante. Mas aqui o problem a se define. A ciência relativam ente nova da psicologia exige im perativam ente o espaço vivo, torna inevitável reconsiderar o gam bito inicial. É um a tarefa difícil e não devem os resolvê-la aqui e agora. Devem os ficar contentes de tê-la ressaltado. Em bora tenham os encontrado aqui o psicólogo Jung queixando-se da exclusão da m ente, da negligência da alm a, com o ele a denom ina, em nossa im agem do m undo, gostaria agora de aduzir, por contraste - ou talvez m ais com o suplem ento-, algum as citações de representantes em inentes das ciências m ais antigas e m ais hum ildes da física e da fisiologia, apenas enunciando o fato de que “o m undo da ciência" tornou-se tão horrivelm ente obj etivo que não deixou espaço para a m ente e suas sensações im ediatas.

Alguns leitores poderão lem brar-se das “duas escrivaninhas" de A. S. Eddington; a prim eira é um a antiga peça fam iliar da m obília à qual ele está sentado, repousando seus braços, a outra é o corpo físico científico que não som ente carece de todas as qualidades sensoriais, m as, adicionalm ente, está crivada de buracos; de longe, a m aior parte dela é o espaço vazio, sim plesm ente o nada, disperso entre as dim inutas e inum eráveis m anchas de algum a coisa, os elétrons e os núcleos girando, m as sem pre separados por distâncias de pelo m enos 100.000 vezes seu próprio tam anho. Depois de ter contrastado as duas em seu estilo plástico m aravilhoso, ele então resum e:

No m undo da física, exam inam os o espetáculo do teatro de som bras da

vida fam iliar. A som bra de m eu cotovelo repousa sobre a m esa-som bra,

assim com o a tinta-som bra flui sobre o papel-som bra ... A franca

percepção de que a ciência física relaciona-se com um m undo de

som bras é um dos avanços recentes m ais significativos.3

Dem ócrito de Abdera e m esm o antes, m as não estávam os cientes disso; achávam os que estávam os lidando com o próprio m undo; expressões com o m odelo ou quadro para os construtos conceituais de ciência vieram na segunda m etade do século XIX, e não antes, até onde eu saiba. Não m uito depois, sir Charles Sherrington publicou seu m onum ental Man on his Nature. 4 O livro é permeado pela busca honesta de evidência objetiva da interação entre m atéria e m ente. Enfatizo o epíteto “honesta” pois é realm ente necessário um em penho m uito sério e sincero para procurar por algo quando se está profundam ente convencido de antem ão que ele não pode ser encontrado, porque (em oposição à crença popular) não existe. Um breve resum o do resultado dessa pesquisa encontra-se à página 357:

O espírito, tanto quanto a percepção pode apreender, m ove-se portanto

em nosso m undo espacial de m aneira m ais fantasm agórica que um

fantasm a. Invisível, intangível, é algo sem nem m esm o um contorno; não

é um a “coisa”. Perm anece sem confirm ação sensorial e perm anece sem

ela eternam ente.

Em m inhas próprias palavras, expressaria da seguinte m aneira: o espírito erigiu o m undo externo obj etivo do filósofo natural para fora de sua própria substância. A m ente não poderia dar conta dessa tarefa gigantesca de outra form a senão pelo estratagem a sim plificador de se excluir - retirando-se de sua criação conceituai. Logo, a últim a não contém seu criador.

Não sou capaz de expressar a grandeza do livro im ortal de Sherrington pela citação de sentenças; é necessário lê-lo. Ainda assim , m enciono algum as das m ais particularm ente características.

A ciência física... confronta-nos com o im passe de que a m ente per se não

pode tocar o piano - a m ente per se não pode m over um dedo da m ão

(p.222).

Então chega-nos o im passe. O vazio do “com o” da alavanca da m ente

sobre a m atéria. A inconsequência nos desconcerta. Será um m al-

entendido? (p.232).

Com parem os essas conclusões tiradas por um fisiologista experim ental do século XX com a sim ples afirm ação do m aior filósofo do século XVII: B. Espinosa (Ética, Pt. III, Prop. 2):

Nec corpus mentem ad cogitandum, nec mens corpus ad motum, neque ad

quietem, nec ad aliquidi (si quid est) aliud determinare potest. [Nem pode

o corpo determ inar que a m ente pense, nem a m ente pode determ inar

que o corpo m ova ou repouse ou qualquer outra coisa (se tal houver).]

O im passe é um im passe. Não seríam os nós, portanto, os agentes de nossos feitos? Não obstante, sentim o-nos responsáveis por eles, som os punidos ou elogiados por eles, conform e o caso. E um a antinom ia horrível. Defendo que não pode ser solucionada no nível da ciência de hoj e, que ainda está inteiram ente m ergulhada no “princípio da exclusão” - sem sabê-lo - daí a antinom ia. Perceber isso é im portante, m as não resolve o problem a. Não se pode rem over o “princípio da exclusão” por um a lei do Parlam ento, por assim dizer. A atitude científica teria de ser reconstruída, seria necessário criar um a nova ciência. E necessário cuidado.

Assim , som os confrontados com a incrível situação a seguir. Em bora a substância de que nosso quadro do m undo é construído sej a produzida exclusivam ente a partir dos órgãos do sentido com o órgãos da m ente, de tal form a que o quadro do m undo de todo hom em sej a e sem pre perm aneça um construto de sua m ente e não se possa com provar que tenha qualquer outra existência, ainda assim a própria m ente consciente perm anece um a estranha dentro desse construto, não tem espaço vivo dentro dele, não é possível identificá-la em nenhum lugar no espaço. Norm alm ente, não percebem os tal fato, pois nos entregam os inteiram ente ao pensam ento de que a personalidade de um ser hum ano ou, nesse aspecto, tam bém de um anim al, estej a localizada no interior de seu corpo. Aprender que ela não pode ser realm ente encontrada lá é tão atordoante que suscita dúvida e hesitação, sendo adm itido só com grande relutância. Nós nos acostum am os a localizar a personalidade consciente dentro da cabeça de um a pessoa - eu diria um a ou duas polegadas atrás do ponto m édio entre os olhos. Dali, ela nos dá, conform e o caso, com preensão, am or ou ternura - ou olhares suspeitos ou raivosos. Eu m e pergunto se alguém algum a vez reparou que o olho é o único órgão dos sentidos cuj o caráter puram ente receptivo não conseguim os reconhecer no pensam ento ingênuo. Invertendo o atual estado de coisas, som os bem m ais inclinados a pensar em “raios de visão”, em itidos a partir do olho, em vez dos “raios de luz” vindos de fora e que atingem os olhos. E frequente encontrarm os tal “raio de visão” representado num desenho, num texto côm ico, ou m esm o em alguns esboços esquem áticos m ais antigos cuj a finalidade era ilustrar um instrum ento ou lei óptica, um linha pontilhada em ergindo do olho e apontando para o obj eto, com a direção sendo indicada por um a seta na extrem idade. - Caro leitor, ou m elhor ainda, cara leitora, lem bre-se dos olhares brilhantes e felizes que seu filho lança em sua direção quando a senhora lhe traz'um novo brinquedo e então deixe que o físico lhe diga que, na realidade, nada em erge desses olhos; na realidade, sua única função detectável obj etivam ente é ser continuam ente atingido e receber continuam ente quanta de luz. Na realidade! Que estranha realidade! Parece estar faltando algum a coisa aí. E m uito difícil fazerm os um a apreciação do fato de a localização da personalidade, da m ente consciente, dentro do corpo, ser som ente sim bólica, sim plesm ente um auxílio de uso prático. Vam os, com todo o conhecim ento que tem os sobre isso, seguir tal "olhar terno" dentro do corpo. De fato, dam os de frente com um a azáfam a, ou se preferir, um a m aquinaria suprem am ente interessante. Encontram os m ilhões de células de construção bem especializada num arranj o que é inescrutavelm ente intricado, m as que obviam ente serve a um a com unicação e colaboração m útua de enorm e alcance e de elevada qualidade; um m artelar incessante de pulsos eletroquím icos regulares que, contudo, m udam rapidam ente de configuração, sendo conduzidos de célula nervosa a célula nervosa, dezenas de m ilhares de contatos sendo abertos e bloqueados em cada fração de segundo, transform ações quím icas sendo induzidas e talvez outras m udanças ainda não descobertas. Encontram os tudo isso e, com o avanço da ciência da fisiologia, podem os acreditar que deverem os vir a saber m ais e m ais sobre o assunto. Mas, agora, tom em os por hipótese que, num caso particular, acabem os por observar vários feixes eferentes de correntes pulsantes, que são em itidos do cérebro e atravessam as longas protrusões celulares (fibras nervosas m otoras), que são conduzidos até determ inados m úsculos do braço que, com o consequência, m ove um a m ão trêm ula, hesitante, num gesto de despedida - um a dem orada separação de partir o coração; ao m esm o tem po, poderem os descobrir que alguns outros feixes pulsantes produzem um a certa secreção glandular com o propósito de cobrir o pobre olho triste com um véu de lágrim as. Mas em nenhum lugar ao longo desse cam inho desde o olho, passando pelo órgão central e até os m úsculos do braço e as glândulas lacrim ais - em nenhum lugar, os senhores podem ter certeza, por m aiores que sej am os avanços da fisiologia, encontrarem os algum dia a personalidade, encontrarem os a terrível dor, a confusa preocupação dentro dessa alm a, em bora sua realidade nos sej a tão certa com o se nós m esm os a tivéssem os sofrido -com o de fato sofrem os! A im agem que a análise fisiológica nos concede de qualquer outro ser hum ano, m esm o que sej a o nosso am igo m ais íntim o, surpreendentem ente m e faz lem brar o conto m agistral de Edgar Allan Poe, "A m áscara da m orte rubra". Um principezinho e seu séquito se retiraram para um castelo isolado, para escapar da pestilência da m orte rubra que assola o país. Depois de cerca de um a sem ana de isolam ento, organizam um grande banquete dançante com fantasias e m áscaras. Um a das m áscaras, alta, cobrindo tudo, toda em verm elho e evidentem ente com o propósito de representar alegoricam ente a peste, provoca um estrem ecim ento em todos, tanto pela insensatez da escolha com o pela suspeita de que poderia ser um intruso. Finalm ente, um ousado j ovem se aproxim a da m áscara rubra e com um gesto súbito arranca o véu e o adorno de cabeça. Está vazia.

Nossos crânios não estão vazios. Mas o que lá encontram os, a despeito do ardente interesse que provoca, não é verdadeiram ente nada quando com parado à vida e às em oções da alm a.

Tornar-se ciente disso pode, num prim eiro m om ento, ser desconcertante. A m im parece, num pensam ento m ais profundo, sem dúvida um consolo. Se tiverm os de enfrentar o corpo de um am igo m orto, cuj a ausência nos é dolorosa, não é reconfortante perceber que esse corpo nunca foi realm ente o sustentáculo de sua personalidade, m as som ente o assento sim bólico, "para referência prática"? Com o apêndice a essas considerações, aqueles com um forte interesse nas ciências físicas poderão desej ar que eu m e pronuncie sobre um a linha de ideias, referente a suj eito e obj eto, que recebeu grande destaque pela escola predom inante de pensam ento na física quântica, cuj os protagonistas são Niels Bohr, Werner Heisenberg, Max Bom e outros. Perm itam -m e oferecer-lhes um a descrição bem sucinta de suas ideias. E m ais ou m enos o seguinte:5 Não podem os fazer nenhum a afirm ação factual sobre um dado obj eto natural (ou sistem a físico) sem "entrar em contato" com ele. Esse "contato" é um a verdadeira interação física. Mesm o que consista som ente em nosso "olhar o obj eto", este últim o deverá ser atingido por raios lum inosos e refleti-los dentro do olho, ou em algum instrum ento de observação. Não se pode obter qualquer conhecim ento sobre um obj eto e, ao m esm o tem po, deixá-lo estritam ente isolado. A teoria prossegue sustentando que essa perturbação não é irrelevante nem com pletam ente perscrutável. Assim , depois de certo núm ero de observações trabalhosas, o obj eto é deixado num estado do qual algum as características (as últim as observadas) são conhecidas, m as outras (aquelas que sofreram a interferência da últim a observação) não são conhecidas, ou não conhecidas com precisão. Esse estado de coisas é oferecido com o um a explicação de por que nunca é possível nenhum a descrição com pleta e sem lacunas de qualquer obj eto físico.

Se isso tiver de ser dado com o certo - e possivelm ente tem - então desafia abertam ente o princípio da com preensibilidade da natureza. Tal coisa não é, por si só, um opróbrio. Eu lhes disse no início que m eus dois princípios não têm com o obj etivo estar suj eitos à ciência, que só expressam aquilo que realm ente m antivem os na ciência física durante m uitos e m uitos séculos e que não é fácil de ser m udado. Pessoalm ente, não tenho certeza de que nosso conhecim ento presente j ustifique a m udança. Considero possível que nossos m odelos possam ser m odificados de tal m aneira que não exibam em nenhum m om ento propriedades que não possam ser, em princípio, observadas sim ultaneam ente -m odelos m ais pobres nas propriedades sim ultâneas, m as m ais ricos na adaptabilidade a m udanças no am biente. Contudo, essa é um a questão interna da física, não para ser decidida aqui e agora. Mas a partir da teoria com o explicada antes, a partir da interferência inevitável e inescrutável dos dispositivos de m edição sobre o obj eto sob observação, as consequências sublim es de um a natureza epistem ológica foram puxadas e trazidas para o prim eiro plano, no tocante à relação entre suj eito e obj eto. Afirm a-se que as recentes descobertas na física avançaram até a m isteriosa fronteira entre o suj eito e o obj eto. Essa fronteira, assim nos dizem , não é um a fronteira nítida de fato. Som os levados a entender que nunca observam os um obj eto sem que ele sej a m odificado ou tingido por nossa própria atividade ao observá-lo. Som os levados a entender que, sob o im pacto de nossos refinados m étodos de observação e de pensam ento sobre os resultados de nossos experim entos, aquela m isteriosa fronteira entre suj eito e obj eto foi derrubada.

Para criticar essas contendas, perm itam que eu aceite inicialm ente a distinção ou discrim inação entre obj eto e suj eito consagrada pelo tem po, que m uitos pensadores dos tem pos antigos aceitaram e que nos tem pos recentes ainda a aceitam . Entre os filósofos que a aceitaram - desde Dem ócrito de Abdera até o “Velho Hom em de Königsberg" - houve poucos, se tanto, que não enfatizaram que todas as nossas sensações, percepções e observações têm um forte m atiz pessoal, subj etivo, e que não transm item a natureza da “coisa-em -si", para usar o term o de Kant. Em bora alguns desses pensadores possam ter em m ente som ente um a distorção m ais ou m enos forte ou discreta, Kant nos incutiu um a com pleta resignação: nunca saber nada de fato sobre a “coisa-em -si". Assim , a ideia de subj etividade, ao que tudo indica, é bem antiga e fam iliar. O que é novo no cenário atual é o seguinte: que não som ente as im pressões que obtem os de nosso am biente dependeriam em grande parte da natureza e do estado contingente de nosso sensório, m as, inversam ente, o próprio am biente que desej am os apreender é m odificado por nós, notavelm ente pelos dispositivos que estabelecem os para observá-lo.

Talvez isso sej a assim - e, até certo ponto, certam ente é. Pode ser que, a partir das leis recém -descobertas da física quântica, essa m odificação não possa ser reduzida abaixo de certos lim ites bem averiguados. Ainda assim , gostaria de não denom iná-la um a influência direta do suj eito sobre o obj eto, pois o suj eito, se tanto, é a coisa que sente e pensa. As sensações e pensam entos não pertencem ao “m undo de energia", não podem produzir nenhum a alteração neste m undo de energia tal com o conhecem os a partir de Espinosa e de sir Charles Sherrington. Tudo isso foi dito do ponto de vista de que aceitam os a discrim inação consagrada pelo tem po entre suj eito e obj eto. Em bora tenham os de aceitá-la na vida cotidiana “para referência prática", devem os, acredito eu, abandoná-la no pensam ento filosófico. Sua rígida consequência lógica foi revelada por Kant: a ideia sublim e, conquanto vazia, da “coisa-em -si" sobre a qual nunca saberem os nada.

São os m esm os elem entos que vão com por m inha m ente e o m undo. Tal situação é igual para toda m ente e seu m undo, a despeito da insondável abundância das “referências cruzadas" entre eles. O m undo m e é dado som ente um a vez, não um a vez com o existente e outra vez com o percebido. Suj eito e obj eto são apenas um . Não se pode dizer que a barreira entre eles foi derrubada com o resultado da experiência recente nas ciências físicas, pois essa barreira não existe.

 

Notas

1 Cam bridge University Press, 1954.

2 Eranos Jahrbuch, 1946, p. 398.

3 The Nature of the Phy sical World, Cam bridge University Press, 1928, "Introduction".

4 Cam bridge University Press, 1940.

5 Vej a o m eu Science and Hum anism , Cam bridge University Press, 1951, p. 49.