O Reino de Deus Está em Vós
Capítulo 12
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Quando os olhos se abrem para essa terrível mentira, ficamos estupefatos ao ver os pregadores da religião cristã, da moral, os mestres da juventude ou simplesmente os bons pais inteligentes, que sempre se encontram em qualquer sociedade, pregar qualquer doutrina moral nessa sociedade em que se reconhece abertamente que a tortura e o homicídio constituem a condição indispensável da existência dos homens, e que dentre nós devem-se sempre encontrar seres especiais, prontos para matar seus irmãos, e aos quais cada um de nós pode se tornar semelhante.
Como, então, ensinar às crianças, aos adolescentes, a todos em geral, sem sequer falar da instrução cristã, de alguma doutrina moral, doutrina social que prega ser o assassinato necessário para manter-se o bem-estar geral e que, por isso mesmo, legitimamente, existem homens (entre os quais poderemos estar também nós) que são obrigados a violentar e matar os seus semelhantes, por vontade daqueles que detêm o poder? Se tal doutrina é possível, não há e não pode haver qualquer doutrina moral, não há senão o direito do mais forte. Na realidade, essa doutrina, justificada por alguns como teoria da luta pela existência, é dominante em nossa sociedade.
De fato, como pode uma doutrina moral admitir a necessidade do homicídio por um objetivo qualquer? Isto é tão absurdo quanto uma teoria matemática que admitisse que dois é igual a três. Reconhecer como sagrada a vida de cada homem é a primeira e a única base de qualquer moral.
A doutrina do olho por olho, dente por dente e vida por vida é exatamente anulada pelo cristianismo porque nada mais é do que a justificação da imoralidade e uma aparência de equidade sem sentido algum. A vida é um valor que não tem peso nem medida e não pode ser comparado a qualquer outro e, portanto, a destruição da vida pela vida não faz sentido algum. Ademais, toda lei social tem como objetivo a melhoria da existência. Como, então, a destruição da vida de alguns homens poderia melhorar a dos outros em geral? A destruição de uma vida não é um ato de melhoria, mas um suicídio.
Esse ato é semelhante ao que cometeria um homem que, desejando remediar a desgraça que lhe adveio de perder um braço, para ser justo cortasse também o outro.
Sem falar da mentira que permite considerar o crime mais terrível como uma obrigação; sem falar do estarrecedor abuso que se faz do nome e da autoridade de Cristo para legitimar uma ação por ele condenada; sem falar da tentação com que se mata não só o corpo, mas também a alma “dos pequeninos”; como podem os homens tolerar, ainda que para sua própria segurança, essa força estúpida, cruel e mortífera que representa todo governo organizado que se apoia no exército? A quadrilha dos mais ferozes bandidos oferece uma ordem menos terrível. O poder de todo chefe de bandidos é, por si mesmo, limitado pelo fato que aqueles que formam a quadrilha gozam ao menos de um pouco de liberdade e podem se opor ao cumprimento dos atos contrários à sua consciência. No entanto, graças ao apoio do exército, nenhum obstáculo incomoda os homens que fazem parte de um governo organizado – seja pela vontade de alguém como Boulanger, Napoleão ou Pugachev. Não existe delito que os homens pertencentes ao governo e ao exército não estejam prontos a cometer à mera ordem daquele que o acaso colocou no comando. Muitas vezes, quando se assiste à convocação de recrutas, aos exercícios militares, às manobras, ou quando se vê guardas com revólveres carregados, sentinelas com fuzis armados de baionetas, quando se ouve por dias inteiros (como ouço em Khamovniki, onde moro) o sibilo das balas e o barulho delas no alvo, e quando, no centro da cidade, onde qualquer tentativa de violência pessoal, de venda de munição, de comércio ilícito de medicamentos, de exercício da medicina sem diploma etc. é proibida, se veem milhares de homens disciplinados, submetidos a um único homem, exercitarem-se no homicídio, devemos nos perguntar: como podem os homens que prezam sua segurança admitir e suportar tudo isso com tranquilidade? Porque, sem falar da imoralidade, nada é mais perigoso. Que fazem então todos aqueles – não digo cristãos, pastores cristãos, filantropos, moralistas –, mas simplesmente aqueles que prezam sua vida, sua segurança, seu bem-estar? Essa organização social funcionará do mesmo modo nas mãos de um chefe de Estado moderado; mas amanhã ela pode passar para as mãos de alguém como Biron, Elisabeth, Catarina, Pugachev, Napoleão I ou Napoleão III. E até o chefe moderado que hoje detém nas mãos o poder pode, amanhã, transformar-se numa fera, ou pode ter como herdeiro um louco ou um extravagante, como o rei da Baviera ou Paulo I.
E não apenas o chefe de Estado, mas todos os pequenos déspotas que estão espalhados por toda parte, os governadores, os chefes de polícia, até os comissários, os chefes das companhias podem cometer os mais graves delitos antes que se tenha tempo de substituí-los. E isso realmente acontece!
Perguntamo-nos, então, a contragosto, como podem os homens tolerar tudo isso, mesmo prezando sua própria segurança?
Pode-se responder que essa situação não é tolerada por todos os homens (a maioria, enganada e submissa, nada tem a tolerar ou a proibir). É tolerada unicamente por aqueles que, em tal organização, ocupam uma posição vantajosa. E a toleram porque as desvantagens que lhes adviriam da presença de um louco à frente do governo e do exército são sempre menores do que as que para eles resultariam do desaparecimento da própria organização.
Um juiz, um comissário de polícia, um governador, um oficial, ocuparão indiferentemente sua posição numa monarquia ou numa república; mas a perderiam certamente se desaparecesse a ordem que a assegura. Por isso, todos esses indivíduos não receiam ver quem quer que seja à frente da organização da violência: serão bem acolhidos por todos. Por isso, sustentam sempre o governo e, muitas vezes, inconscientemente.
Deve causar assombro ver homens livres, que não serão de modo algum obrigados – porquanto são a fina flor da sociedade –, tornarem-se militares na Rússia, na Inglaterra, na Alemanha, na Áustria e até mesmo na França, e desejarem ocasiões de massacre. Por que os pais, pessoas honestas, colocam seus filhos nas escolas militares? Por que as mães lhes compram, como brinquedos, capacetes, fuzis, espadas? (É preciso notar que os filhos dos camponeses nunca brincam de soldados.) Por que homens bons e até
mulheres que nada têm a ver com o militarismo, com os feitos de Skobelev 23 e outros, não param de falar quando começam a louvá-los? Por que homens que não são, de modo algum, obrigados, que não recebem por necessidade ordenado algum, como por exemplo os marechais da nobreza na Rússia, dedicam meses inteiros a um trabalho fisicamente penoso e moralmente doloroso, qual seja o recrutamento? Por que todos os imperadores e reis usam o traje militar? Por que são feitas manobras, revistas, distribuídas recompensas aos militares e erguidos monumentos aos generais e aos conquistadores? Por que homens livres, ricos, consideram uma honra as funções de lacaio junto aos soberanos, humilhando-se diante deles, adulando-os e fingindo acreditar em sua superioridade particular? Por que homens que há muito não creem em superstições religiosas da Idade Média fingem crer seriamente na cruel instituição da Igreja, e a sustentam? Por que não só os governos, mas também as classes superiores, procuram tão zelosamente manter os homens na ignorância? Por que os historiadores, os romancistas, os poetas, que nada podem obter em troca de suas lisonjas, pintam como heróis certos imperadores, reis, chefes militares há muito mortos? Por que homens que se dizem inteligentes dedicam vidas inteiras à criação de teorias segundo as quais a violência cometida contra o povo pelo poder é uma violência legítima, um direito?
Causa assombro ver uma senhora de alta classe, ou um artista, que não parecem se interessar pelas questões sociais ou militares, condenarem as greves dos operários, pregarem a guerra e sempre, sem hesitação, atacarem um campo e defenderem o outro.
Mas não causa assombro até o momento em que se compreenda que isso acontece apenas porque todos os membros das classes dirigentes sentem instintivamente o que mantém e o que destrói a organização graças à qual podem desfrutar de privilégios.
A senhora de alta classe nem sequer pensou que, se não existissem capitalistas ou exércitos para defendê-los, seu marido não teria dinheiro e ela não teria um salão e ricos vestidos; nem o pintor pensou nos capitalistas defendidos pelo exército, que lhe são necessários para a venda de seus quadros; mas o instinto, que nesse caso substitui o raciocínio, é o guia mais seguro. E é o mesmo instinto que guia, salvo raras exceções, todos os homens que sustentam as instituições políticas, religiosas, econômicas, por lhes serem estas úteis.
Mas podem, talvez, os homens das classes superiores realmente sustentar essa organização somente por nela estarem interessados? Eles não podem deixar de ver que essa organização é irracional, que não mais corresponde ao grau de desenvolvimento moral dos homens, da opinião pública, e que está repleta de perigos. Os homens das classes dirigentes, honestos, bons, inteligentes, não podem deixar de sofrer com essas contradições e de ver os perigos que os ameaçam. Podem, talvez, os milhões de homens das classes inferiores cometer, com a consciência tranquila, todos os atos evidentemente maus que cometem apenas por temor ao castigo? Na verdade, isto não poderia acontecer, nem uns nem outros poderiam deixar de ver a demência de seus atos, se os articuladores da organização social não a escondessem de seus olhos.
Tanto instigadores e cúmplices quanto indiferentes colaboram para cada um desses atos pelos quais ninguém se considera moralmente responsável.
Os assassinos obrigam todas as testemunhas do homicídio a ferir a vítima já morta, com o intuito de dividir a responsabilidade entre o maior número possível de pessoas. O mesmo acontece na ordem social quando se cometem todos os delitos sem os quais a mesma não poderia existir. Os governantes procuram sempre englobar o maior número de cidadãos na realização de todos os atos criminosos que têm interesse em cometer.
Nestes últimos tempos, este fato manifestou-se de um modo bastante evidente, com a convocação dos cidadãos aos tribunais na qualidade de jurados, ao exército na qualidade de soldados e à administração comunal ou legisladora na qualidade de eleitores ou eleitos.
Graças à organização governamental, como num cesto de vime onde as pontas estão tão bem escondidas que se torna difícil encontrá-las, as responsabilidades são tão bem dissimuladas que os homens, sem se aperceberem, cometem os mais terríveis atos.
Nos tempos antigos, acusavam-se os tiranos dos delitos cometidos, enquanto hoje cometem-se atrocidades, impossíveis na época de Nero, sem que se possa acusar alguém.
Uns pediram, outros propuseram, outros, ainda, relataram e assim, sucessivamente, os demais decidiram, confirmaram, ordenaram e, finalmente, executaram. Enforcam-se, açoitam-se até a morte mulheres, velhos, inocentes, como recentemente entre nós, na Rússia, na fábrica de Iusov – ou, como se faz por toda parte na Europa e nos Estados Unidos, na luta contra os anarquistas e outros revolucionários: fuzilam-se, matam-se centenas, milhares de homens; ou como se faz na guerra: massacram-se milhões de homens; ou, como se faz sempre: arruínam-se homens na cela solitária, com a desonestidade das casernas, e ninguém é responsável.
No mais baixo grau da escala social, os soldados, armados de fuzis, pistolas, espadas, violentam, matam e, com essas violências e assassinatos, obrigam os homens a entrar no serviço militar, e estão absolutamente certos de que a responsabilidade por esses atos cabe unicamente aos chefes que os comandam.
No grau mais alto, o rei, o presidente, os ministros, os Parlamentos, ordenam as violências, as mortes e o recrutamento, e estão absolutamente certos de que, tendo sido postos no poder pela graça de Deus, ou pela sociedade que governam e que lhes pede exatamente aquilo que ordenam, não podem ser responsáveis.
Entre uns e outros encontra-se uma classe intermediária que inspeciona a execução das violências e está absolutamente convencida de que sua responsabilidade é anulada, em parte, pela ordem dos superiores, em parte, pelo fato de que as ordens são solicitadas por todos aqueles que se situam no grau inferior da escala.
A autoridade que comanda e a autoridade que executa, situadas nas duas extremidades da ordem governamental, unem-se como as duas pontas de um elo: dependem uma da outra e mantêm-se reciprocamente.
Sem a convicção de que uma ou mais pessoas assumem a responsabilidade pelos atos cometidos, soldado algum ousaria erguer o braço para cometer uma violência. Sem a convicção de que isso é pedido por todo o povo, nenhum imperador, rei, presidente, nenhuma assembleia ousaria ordenar semelhantes violências. Sem a convicção de que existem superiores que assumem a responsabilidade por tais atos e inferiores que os pedem para seu bem, nenhum homem da classe intermediária ousaria cooperar com a execução dos atos de que é encarregado.
A organização governamental é tal que, em qualquer grau da escala social que se encontre, a responsabilidade de cada homem é sempre a mesma. Quanto mais alto está situado na escala, mais sofre a influência das exigências de baixo e menos é submetido à influência das ordens de cima.
Mas, além dos homens interligados pela ordem governamental, atribuem-se mutuamente a responsabilidade dos atos cometidos – o camponês, alistado como soldado, às ordens de nobres e às ordens de negociantes saídos das escolas como oficiais; o oficial, às ordens do nobre que ocupa o cargo de governador; o governador, às ordens do ministro; o ministro, às ordens do soberano; o soberano, por sua vez, às de todos: funcionários, nobres, negociantes, camponeses. Perdem todos a consciência de sua responsabilidade, até porque, formando-se numa organização governamental, convencem-se mutuamente e convencem aos outros, por tanto tempo e de forma tão constante, de que não são iguais entre si, e acabam eles mesmos acreditando sinceramente nisso. Assim, garante-se a uns que são homens especiais, que devem ser especialmente honrados; a outros sugere-se por todos os meios possíveis que estão abaixo de todos os outros homens e que, portanto, devem se submeter, sem reclamar, às ordens dos superiores.
Sobre essa desigualdade, sobre a elevação de uns e a humilhação de outros, baseia-se, sobretudo, a faculdade dos homens de não se aperceberem da loucura da vida atual, de sua crueldade e das mentiras que cometem uns e de que são vítimas, outros.
Uns – aqueles a quem foi sugerido estarem empossados de uma grandeza e importância especiais – estão a tal ponto inebriados com essa grandeza imaginária que não veem sua responsabilidade nos atos que cometem; outros – aqueles a quem, ao contrário, faz-se acreditar que são seres inferiores que a tudo devem se submeter e, por consequência, sofrem uma humilhação constante – caem num estranho estado de servilismo embrutecido e, sob a influência desse embrutecimento, sequer veem a importância de seus atos e perdem a consciência da responsabilidade. A classe intermediária, em parte submissa aos superiores, em parte considerando-se ela própria superior, está simultaneamente inebriada pelo poder e pelo servilismo e, em consequência, perde a consciência de sua responsabilidade.
Basta lançar um olhar, durante uma revista, ao comandante superior, todo orgulhoso de sua importância, acompanhado de seu séquito em cavalos magníficos e paramentados, todos os oficiais em esplêndidos uniformes, ornados de condecorações, quando, ao som das trombetas harmoniosas e solenes, esse comandante passa diante das tropas que, petrificadas de servilismo, apresentam-lhe as armas, basta ver tudo isso para compreender que, naquele momento, encontrando-se naquele estado de embriaguez máximo, o comandante, os oficiais e os soldados podem cometer atos tais que jamais teriam ousado em outras circunstâncias.
A embriaguez que experimentam os homens sob influência dessas excitantes revistas, paradas militares, solenidades religiosas, coroações é um estado agudo e provisório, mas existem outros estados de embriaguez crônica: o dos homens que detêm uma partícula qualquer do poder, do soberano ao mais humilde policial, e o dos homens que se submetem ao poder e que estão tão embrutecidos pelo servilismo que, para justificar esse estado, atribuem sempre, como todos os escravos, a maior importância e a mais alta dignidade àqueles a quem obedecem.
Repousa principalmente sobre esta mentira, da desigualdade entre os homens, e sobre a embriaguez do poder e do servilismo que dela resulta, a capacidade dos homens, constituídos em organização social, de cometerem sem remorso atos contrários à sua consciência.
Sob a influência dessa embriaguez, os homens acreditam-se seres especiais – nobres, comerciantes, governadores, juízes, oficiais, soberanos, ministros, soldados – que não mais têm deveres humanos ordinários mas, antes de tudo, os deveres da classe à qual pertencem.
Assim, aquele latifundiário, que abriu o processo relativo à floresta, agiu porque não se acreditava mais um homem comum como os camponeses, seus vizinhos, com os mesmos direitos de viver, mas um grande proprietário, um membro da nobreza e, então, sob a influência da embriaguez do poder, sentia-se ofendido com a resistência dos camponeses. Foi unicamente por este motivo que, não obstante as possíveis consequências, apresentou o pedido de reintegração de seus supostos direitos. Assim, também os juízes, que atribuíram injustamente a propriedade da floresta ao latifundiário, fizeram-no apenas porque não se consideram homens como os outros, que se devem deixar guiar unicamente pela verdade, mas, sob a influência da embriaguez do poder, acreditam-se representantes de uma justiça que não se pode enganar e, simultaneamente, sob a influência do servilismo, sentem-se obrigados a aplicar determinados textos de um certo livro chamado Código. Assim, também, todas as outras pessoas que participaram desse caso, dos representantes das autoridades superiores ao último soldado pronto a disparar contra seus irmãos, também eles se consideram personagens convencionais. Nenhum deles se pergunta se deve ou não participar de um ato que sua consciência reprova, mas cada um se acredita investido de uma missão especial; um, czar, ungido pelo Senhor, ser excepcional chamado a velar pela felicidade de cem milhões de homens; outro, representante da nobreza; outro, padre, que recebeu a graça pela ordenação; outro, soldado, obrigado pelo juramento a fazer sem raciocinar tudo que lhe é ordenado.
As posições convencionais, estabelecidas há centenas de anos, reconhecidas há séculos, indicadas por nomes e trajes especiais e sancionadas por diferentes solenidades, impõem-se a tal ponto aos homens que estes, esquecendo as condições normais da vida, não julgam suas ações e as dos outros senão do ponto de vista convencional.
Deste modo, um homem absolutamente são de espírito e já velho, pelo único fato de que lhe penduram alguns berloques, ou lhe fazem vestir um traje ridículo, no qual se colocam chaves, ou sobre o peito um cordão azul, como conviria somente a uma mocinha vaidosa, e lhe dizem que é general, dignitário da corte, cavaleiro de Santo André, ou outra bobagem semelhante, torna-se subitamente orgulhoso, arrogante e todo contente; e, ao contrário, se perde ou não obtém o berloque ou a designação esperados, torna-se melancólico e infeliz, até a ponto de adoecer. Ou, ainda mais surpreendente, um jovem de mente sã, livre e inteiramente a salvo das necessidades, pelo simples fato de que o nomearam juiz instrutor, prende uma pobre viúva, separa-a dos seus filhinhos, que ficam abandonados – e por quê? Porque aquela infeliz vendia vinho escondido e frustrava assim o Tesouro de uma renda de 25 rublos; e ele não sente remorso algum. Ou, então, o que é ainda espantoso, um homem honesto e dócil em todas as outras situações, pelo único fato de estar vestido com um uniforme, ou porque traz ao peito uma medalha, ou porque disseram-lhe que é guarda campestre ou guarda alfandegário, põe-se a disparar contra as pessoas; e aqueles que o rodeiam não só não o responsabilizam, mas até o considerariam culpado se não atirasse. E tudo isso sem falar dos juízes e dos jurados que condenam à morte, e dos militares que matam milhares de homens sem o menor remorso, apenas porque lhes foi sugerido não serem mais simplesmente homens, mas jurados, juízes, generais, soldados. Esse estado anormal e estranho exprime-se com as seguintes palavras: “Como homem, ele causa-me piedade; como guarda campestre, juiz, general, governador, soberano, soldado, devo matá-lo ou martirizá-lo.”
Assim, por exemplo, no caso atual, certos homens, que vão violentar e matar os famintos, reconhecem que, no conflito entre os camponeses e o latifundiário, são os primeiros que têm razão (todos os chefes assim me confirmaram). Eles sabem que os camponeses são infelizes, pobres, famintos e que o proprietário é rico e não inspira a menor simpatia. E todos aqueles homens vão, ainda assim, matar os camponeses para assegurar ao latifundiário a posse de três mil rublos, só porque aqueles homens se acreditavam, naquele momento, já não homens, mas governadores, funcionários, generais de polícia, oficiais, soldados, e porque consideram seu dever obedecer, não às exigências eternas da consciência, mas a solicitações temporárias, ocasionais, de sua posição.
Por mais estranho que possa parecer, a única explicação para esses fenômenos surpreendentes é que esses homens se encontram no mesmo estado daqueles que são hipnotizados e que acreditam estar na posição sugerida pelo hipnotizador. Como, por exemplo, se fosse sugerido ao hipnotizado que é coxo e ele começasse a mancar, que é cego e ele não mais enxergasse, que é uma fera e ele começasse a morder, na mesma posição estão todos aqueles que cumprem seus deveres sociais e governamentais antes e em detrimento dos deveres humanos.
A diferença entre os hipnotizados por métodos usuais e aqueles que se encontram sob a influência da sujeição governamental está em que, de repente, aos primeiros é sugerida uma posição imaginária, por uma só pessoa e por pouquíssimo tempo, e que, por conseguinte, essa posição se nos apresenta de uma forma que nos surpreende por sua rapidez brusca; enquanto a sujeição governamental se desenvolve pouco a pouco, insensivelmente, desde a infância, e algumas vezes não apenas durante anos, mas durante várias gerações, e não por meio de uma só pessoa, mas por meio de todos aqueles que nos rodeiam.
Mas, se poderá objetar, sempre, em todas as sociedades, que a maioria dos homens, todos os jovens, todas as mulheres, absortas nos deveres e nos cuidados da maternidade, toda a grande massa de trabalhadores, absortos em seu trabalho, todos os seres de mente fraca, anormais, todos os enfraquecidos intoxicados pela nicotina, pelo álcool, pelo ópio e por outras causas encontram-se, todos, na condição de não poderem pensar com independência e submetem-se àqueles que ocupam um grau intelectual mais alto, ou, continuando sob a influência das tradições domésticas e sociais, sujeitam-se ao que se chama de opinião pública, e nada existe de anormal e de contraditório nessa submissão.
E, de fato, nada há de anormal nisso: a tendência dos homens, que pouco raciocinam, para se submeterem às indicações daqueles com um grau mais alto de consciência, é um fenômeno constante e necessário à vida em sociedade. Uns – a minoria – sujeitam-se constantemente aos princípios racionais, sempre os mesmos, em consequência de sua concordância com a razão; outros – a maioria – submetem-se aos mesmos princípios, inconscientemente, apenas porque a opinião pública o exige.
Tal submissão à opinião pública, por parte de homens que raciocinam pouco, não oferece nenhum caráter anormal, enquanto a opinião pública não se divide em duas. Mas chega um momento em que a consciência de uma verdade mais alta, após ter sido revelada a algumas pessoas, impõe-se gradativamente a um número tão grande de homens que a antiga opinião pública começa a vacilar para dar lugar à nova, já pronta para se estabelecer. Chega um momento em que os homens começam a ponderar seus atos, segundo os novos princípios, enquanto, na vida geral, por inércia, por tradição, continuam a aplicar os princípios que nos tempos antigos formavam o grau superior da consciência pensante, mas que, hoje, já se encontram em evidente contradição com ela.
Daí resulta uma situação anormal para todos, pertençam às classes superiores, privilegiadas, ou às classes inferiores, submetidas a todas as ordens.
Os homens das classes dirigentes, não tendo mais a explicação sensata para seus privilégios, são obrigados, para conservá-los, a sufocar dentro deles os sentimentos superiores de amor e a reconhecer a necessidade de suas condições excepcionais, pois aqueles das classes trabalhadoras, oprimidas pelo trabalho e propositadamente embrutecidas, permanecem sob a constante influência das classes superiores.
Só assim se explica o surpreendente fenômeno do qual fui testemunha naquele dia 9 de setembro: homens honestos e pacatos, viajando em perfeita paz de espírito, para ir cometer o delito mais atroz, mais estúpido, mais vil.
Isto não significa que neles haja a total ausência de consciência que os proíba de fazer o mal que se preparam para cometer; não, a consciência existe, mas está somente adormecida nos chefes, por aquilo que os psicólogos chamam de autossugestão, e nos executores e nos soldados, pelo hipnotismo das classes superiores.
Por mais adormecida que esteja, a consciência manifesta-se também por meio da autossugestão, e a sugestão começa a falar e, dentro em pouco, despertará a consciência.
Todos aqueles homens encontram-se na situação de um hipnotizado ao qual fosse ordenado um ato contrário a suas noções do bem e da justiça, como, por exemplo, matar sua mãe ou seu filho; sentindo-se vinculado à sugestão, parece-lhe que não pode parar, mas, por outro lado, quanto mais se aproxima do momento e do lugar da execução, mais a voz da consciência sufocada nele desperta e mais procura reagir, acordar. E não se pode dizer antecipadamente se cometerá ou não o ato sugerido; não se pode saber se vencerá a consciência racional ou a sugestão irracional: tudo depende da força relativa de uma e de outra.
Este é, exatamente, o caso dos homens do trem para Tula e dos homens em geral que agem de forma violenta nos nossos dias.
Houve um tempo em que os homens, partindo com um objetivo de violência e de morte, para dar um exemplo, não retornavam senão após ter cumprido essa missão, sem remorsos ou dúvidas, mas tranquilamente; e, depois de desferidos os golpes, retornavam a suas famílias, acariciavam as crianças, brincavam, riam, abandonavam-se a todas as alegrias puras do aconchego doméstico. Naquele tempo, os homens que se beneficiavam de tais violências, os proprietários de terra e os capitalistas, sequer suspeitavam que seus interesses tivessem uma ligação direta com essas crueldades. Hoje, os homens já sabem, ou estão perto de saber o que fazem e com que finalidade. Podem fechar os olhos e fazer calar a consciência, mas uma vez abertos os olhos e a consciência liberta, não mais podem – nem aqueles que dão as ordens – deixar de ver a importância dos atos cometidos. Acontece que os homens não compreendem a importância do que fizeram senão depois de tê-lo feito; pode também acontecer que o compreendam imediatamente antes de fazê-lo. Assim, os homens que ordenaram as violências de Nijni-Novgorod, de Saratov, de Orel, da fábrica de Iusov, não compreenderam o significado de seus atos senão após tê-los cometido, e atualmente se envergonham deles, diante da opinião pública e diante de sua consciência, tanto os homens que deram quanto os que executaram as ordens. Falei sobre isso com alguns soldados, que se apressavam a mudar de assunto ou só falavam a respeito com repugnância.
Mas há casos em que os homens recuperam a noção exata dos fatos, imediatamente antes de cometer o ato. Conheço o caso de um sargento que havia sido espancado por dois mujiques durante a repressão de desordens e que fizera seu relatório; mas na manhã seguinte, quando viu como eram maltratados outros camponeses, suplicou ao chefe de sua companhia que rasgasse o relatório e pusesse em liberdade os mujiques que o haviam espancado. Conheço um caso em que alguns soldados, designados para uma execução militar, recusaram-se a obedecer, e conheço muitos casos de oficiais que se recusaram a comandar execuções.
Os homens que viajavam no trem, em 9 de setembro, encaminhavam-se para matar e violentar seus irmãos, mas ninguém sabia se o fariam ou não. Por mais oculta que estivesse para cada um a sua cota de responsabilidade nesse fato, por mais fortes que fossem suas convicções de que não eram homens, mas funcionários ou soldados, e que, como tais, podiam violar todas as obrigações humanas, quanto mais se aproximavam do lugar da execução, mais devem ter hesitado.
O governador poderia deter-se no momento de dar a ordem decisiva. Sabia que a atitude do governador de Orel havia provocado a indignação dos homens mais honrados e, já ele próprio, sob a influência da opinião pública, havia mais de uma vez expressado sua desaprovação a propósito. Sabia que o procurador que deveria ter vindo também havia se recusado a ir porque considerava a ação vergonhosa; sabia, ainda, que, nas esferas governamentais, podem ocorrer mudanças, e que aqueles que podiam fazê-lo progredir ontem podem se tornar amanhã uma causa de desgraça; sabia que existe uma imprensa, senão na Rússia, pelo menos no exterior, que poderia falar desse caso e desonrá-lo para toda a vida. Já pressentia uma mudança na opinião pública condenando o que antes era glorificado. Ademais, ele não podia estar absolutamente certo da obediência, no último momento, de seus subordinados. Hesitava e não lhe era possível saber de que modo agiria.
Todos os funcionários ou oficiais que o acompanhavam experimentavam mais ou menos os mesmos sentimentos; sabiam todos, em seus corações, que o ato que iam cometer era vergonhoso, degradante aos olhos de certos homens cuja opinião respeitavam; sabiam que se sente vergonha de se apresentar à própria noiva ou à mulher amada, depois de haver cometido um homicídio ou violentado homens sem defesa; enfim, como o governador, duvidavam da obediência absoluta dos soldados. Como tudo isso difere da desenvoltura com que passeavam todas as autoridades na esplanada e nas salas da estação! No fundo, eles não só sofriam, mas hesitavam. Entretanto, assumiam um tom desenvolto e seguro para acalmar sua hesitação interna. E esse sentimento aumentava à medida que se aproximava o local da ação.
E, por imperceptível que fosse, por estranho que pareça, todos aqueles jovens soldados, que pareciam tão submissos, encontravam-se nas mesmas condições de ânimo.
Não são mais os antigos soldados que haviam abandonado a vida natural do trabalho, para dedicar suas existências à orgia, à rapina, ao homicídio, como os legionários romanos ou os combatentes da Guerra dos Trinta Anos, ou mesmo os soldados mais recentes que deviam cumprir 25 anos de serviço. Os de hoje são, em sua maioria, homens há pouco arrancados a suas famílias, ainda cheios de recordações da vida boa, natural, racional, da qual foram tirados. Todos aqueles jovens, em sua maioria camponeses, sabem o que vão fazer; sabem que os proprietários de terra exploram sempre seus irmãos camponeses e que, também dessa vez, o mesmo fato é provável. Ademais, a maioria dentre eles já sabe ler e os livros que leem nem sempre tecem elogios ao militarismo; alguns, aliás, demonstram toda a sua imoralidade. Entre eles encontram-se com frequência camaradas livres-pensadores, alistados voluntários e jovens oficiais liberais, e a semente da dúvida quanto à legitimidade absoluta e ao mérito do que irão fazer já está aninhada em sua consciência.
É verdade que todos passaram pela educação hábil, terrível, elaborada durante séculos, que mata qualquer iniciativa, e que eles estão a tal ponto habituados à obediência mecânica que, ao comando: “Fogo em toda a linha!... Fogo! ...”, seus fuzis se erguem sozinhos e os gestos habituais são gerados. Mas esse “fogo” não mais significará atirar contra os pais, contra os irmãos esgotados, explorados, que eles veem na multidão, junto com mulheres, e crianças, gritando não se sabe o quê, gesticulando. Ei-los, uns
de 24 25 cáftan todo remendado, laptos nos pés, barbicha rala, retrato do pai deixado no vilarejo, em Kazan ou Riazan; outros, com os ombros curvados, apoiados num longo bastão, a barba toda branca, o retrato do avô; o jovem de botas e camisa vermelha é o retrato do que ele próprio era há um ano, do
soldado que agora deve disparar contra eles. Eis até a mulher de 26 laptos e paneva , o retrato da mãe...
E deve-se disparar contra eles!
E Deus sabe o que fará cada soldado naquele momento supremo. Uma só palavra, uma alusão bastaria para detê-lo.
No momento de agir, todos aqueles homens encontram-se na mesma situação do hipnotizado a quem se sugere partir ao meio uma trave e que, já tendo se aproximado do objeto que lhe foi indicado como trave e já tendo erguido o machado, percebe que não é uma trave, mas o seu irmão adormecido. Ele pode cometer o ato que lhe foi ordenado, mas pode acordar no momento de fazê-lo. Do mesmo modo, todos aqueles homens podem recuperar os sentidos ou ir até o fim. Se forem até o fim, o ato terrível será realizado, como em Orel, e, então, a sugestão que conduz à submissão estará mais forte do que nunca em todos os outros homens; se param, não só esse ato terrível não será executado, como também muitos daqueles que tiverem consciência se libertarão da sugestão sob cuja influência se encontram ou, ao menos, pensarão em libertar-se.
Se somente alguns se detêm e exprimem audaciosamente aos outros o que há de criminoso naquela ação, a influência desses poucos homens pode levar os outros a despertarem da sugestão sob cuja influência agem, e o ato criminoso não será cometido.
Melhor ainda, imaginemos que alguns homens, mesmo dentre os que não colaboram para esse ato, mas que são simples testemunhas dos preparativos, ou que, tendo conhecimento de fatos similares, não permanecem indiferentes e exprimem franca e audaciosamente toda a aversão que sentem por aqueles que deles participaram; isso exercerá uma influência salutar.
Foi o que aconteceu em Tula. Bastou que algumas pessoas exprimissem sua repugnância em participar do ato, bastou que uma passageira e outras pessoas manifestassem, na estação, sua indignação, bastou que um dos comandantes aos quais haviam sido pedidas tropas para reprimir a desordem dissesse que os militares não são carrascos, para que, graças a estes pequenos fatos e a outras influências que parecem de pouca importância, o caso tomasse outro rumo e as tropas, reunidas em seu posto, não cometessem violências e se limitassem a cortar a madeira e a entregá-la ao proprietário.
Se a consciência do que é ruim não existisse em certos homens, e se, então, não houvesse, neste sentido, a influência de uns sobre os outros, o que aconteceu em Orel poderia ter ocorrido novamente. Se essa consciência tivesse sido ainda mais forte, é muito provável que o governador e as tropas não tivessem sequer tomado a decisão de cortar a madeira e entregá-la ao proprietário, ou que o governador não tivesse sequer se dirigido ao palco dos acontecimentos, que o ministro não houvesse tomado tal decisão e que o soberano não a tivesse confirmado.
Tudo, portanto, depende do grau de consciência da verdade cristã.
A ação de todos os homens de nosso tempo, que afirmam desejar o bem-estar humano, deveria, portanto, estar voltada para o desenvolvimento dessa consciência.
Mas, que estranho! Exatamente os homens que falam mais do que os outros sobre as melhorias das condições de vida, e que são considerados como os exploradores de opinião pública, afirmam que não é necessário fazer precisamente isso, e que não existem outros meios mais eficazes para melhorar a condição dos homens. Afirmam que a melhoria das condições da vida humana não é o resultado de esforços morais isolados, nem da propagação da verdade, mas de progressivas modificações das condições gerais e materiais da vida e que, portanto, os esforços de cada indivíduo isolado devem ser dirigidos nesse sentido, enquanto cada confissão individual da verdade contrária à ordem de coisas vigentes, longe de ser útil, é nociva, porque provoca por parte do poder uma oposição que impede que o indivíduo isolado continue sua ação útil à sociedade. Segundo esta tese, todas as modificações da vida humana produzem-se por meio das mesmas leis que regem a vida dos animais.
Desta teoria resultaria que todos os fundadores de religião, como Moisés e os profetas, Confúcio, Lao-Tsé, Buda, Cristo e outros, pregaram suas doutrinas e que seus seguidores as aceitaram não porque amassem a verdade, mas porque as condições políticas, sociais e, sobretudo, econômicas dos povos em meio dos quais essas doutrinas floresceram eram favoráveis a sua manifestação e a seu desenvolvimento.
A ação do homem que deseja servir à sociedade e melhorar as condições da vida não deve, portanto, segundo essa tese, estar voltada para a apuração e a observância da verdade, mas para a melhoria das condições externas, políticas, sociais e, sobretudo, econômicas. E a modificação dessas condições é feita, em parte, servindo-se o governo e introduzindo-se na administração princípios de liberalismo e progresso, em parte, favorecendo o desenvolvimento da indústria e propagando as ideias socialistas e, principalmente, colaborando para a propagação da ciência.
O que importa, segundo essa doutrina, não é professar a verdade revelada e, em consequência, aplicá-la à vida ou, ao menos, não cometer atos que lhes sejam contrários: servir o governo, apoiar o poder se for nocivo, aproveitar-se da organização do capital se for ruim, demonstrar respeito em relação a determinadas cerimônias se forem consideradas supersticiosas, sentar nos tribunais se suas leis forem falsas, servir o exército, jurar, mentir, humilhar-se em geral; mas o que importa é, sem mudar as formas atuais da vida e a elas submetendo-se contrariamente às próprias convicções, introduzir o liberalismo nas instituições existentes. Segundo essa teoria, é possível, permanecendo proprietário, negociante, dono de fábrica, juiz, funcionário público, oficial, soldado, ser, ao mesmo tempo, não só humano, mas também socialista e revolucionário.
A hipocrisia que, antes, era apenas religiosa, com a doutrina do pecado original, da redenção e da Igreja, transformou-se, por intermédio dessa nova doutrina científica, e prendeu, em suas redes, todos os homens cujo desenvolvimento intelectual não mais permitia apoiarem-se na hipocrisia religiosa. Como, outrora, o homem que professava a doutrina religiosa oficial podia, mesmo acreditando-se isento de qualquer pecado, participar de todos os delitos do Estado e deles se beneficiar, desde que cumprisse as práticas externas de sua religião, os homens que, atualmente, não creem no cristianismo oficial, encontram na ciência as mesmas razões para considerarem-se puros e até de elevado grau de moralidade, apesar de suas participações nos delitos governamentais e das vantagens que dele obtêm.
Um rico latifundiário, seja russo, francês, inglês, alemão ou norte-americano, vive para os tributos, dízimos que subtrai aos homens que vivem em sua terra, a maioria miserável e de quem ele toma tudo o que pode. Seu direito de propriedade está assegurado pelo fato de que, a cada tentativa dos oprimidos de desfrutar, sem seu consentimento, das terras que acreditam suas, chegam as tropas e submetem-nos a todo tipo de violência. Deveria parecer evidente que o homem que assim vive é um ser cruel, egoísta e, de modo algum, pode ser considerado cristão ou liberal. Deveria parecer evidente que a primeira coisa a fazer caso se deseje, de alguma maneira, adequar-se ao espírito do cristianismo e do liberalismo, seria parar de espoliar e arruinar os homens com o auxílio das violências governamentais que asseguram o direito sobre a terra. Isso de fato ocorreria se não existisse uma metafísica hipócrita, que afirma que, do ponto de vista da religião, a posse ou não posse da terra é indiferente para a salvação e, do ponto de vista científico, que o abandono da terra seria um sacrifício individual inútil, visto que a melhoria do bem-estar dos homens é realizada não desse modo, mas pelas modificações progressivas das formas exteriores da vida. E, portanto, esse homem, sem a menor inquietação e a menor dúvida, organizando uma exposição agrícola, fundando uma sociedade comedida, ou enviando, por sua mulher e seus filhos, cobertores e sopa a três anciãs, prega audaciosamente, na família, nos salões, nos comitês e na imprensa, o amor evangélico ou humanitário ao próximo em geral, e, em particular, aos trabalhadores agrícolas, que não param de ser explorados e oprimidos. E os homens que ocupam a mesma posição nele acreditam, louvam-no e examinam seriamente, com ele, outros métodos de melhoria do destino do povo trabalhador, métodos de livrá-lo da exploração, inventando para tanto diferentes formas de proceder, salvo esta, a única, sem a qual qualquer melhoria das condições do povo é impossível, ou seja: parar de tomar-lhe a terra necessária à sua existência. (Como exemplo notável dessa hipocrisia podem ser citados os cuidados dos latifundiários russos durante o último ano de carestia, a luta contra essa carestia gerada por eles próprios, e da qual se aproveitaram vendendo aos camponeses não só o pão a um preço mais elevado, mas também as folhas das batatas à razão de cinco rublos por cerca de um hectare, como combustível.)
Um negociante, cujo comércio – como aliás qualquer comércio – baseia-se inteiramente numa série de trapaças, aproveita-se da ignorância ou da necessidade: ele compra as mercadorias abaixo de seu valor e revende-as muito acima. Seria natural que o homem, cuja atividade é inteiramente alicerçada no que ele mesmo chama de trapaça, devesse se envergonhar de sua posição e não mais pudesse, continuando seu comércio, dizer-se cristão ou liberal. Mas a metafísica da hipocrisia lhe diz que ele pode passar por um homem virtuoso e continuar sua ação perniciosa: o homem religioso deve somente crer, o liberal deve somente ajudar a mudança das condições externas, o progresso da indústria. E, portanto, aquele comerciante (que, além de tudo, vende mercadoria ruim, engana quanto ao peso, quanto à medida, ou vende produtos nocivos à saúde, como o álcool, o ópio) considera-se e é pelos outros considerado, contanto que não engane seus colegas, como um modelo de honestidade e integridade. E se gasta apenas a milésima parte do dinheiro roubado com qualquer instituição pública – um hospital, um museu, uma escola –, é considerado um benfeitor do povo, o qual explora, e de onde tira toda a sua riqueza; e, se dá uma pequena parte do dinheiro roubado às Igrejas e aos pobres, é ainda mais um cristão exemplar.
Um dono de fábrica é um homem cuja renda é toda constituída do salário extorquido dos operários e cuja ação é inteiramente fundamentada no trabalho forçado e anormal que consome gerações inteiras. Seria natural que, se professa princípios cristãos ou liberais, devesse, antes de tudo, parar de arruinar, em seu benefício, vidas humanas; mas, segundo a teoria vigente, ele colabora para o progresso da indústria, e não deve deixar de agir dessa forma, porque isso seria prejudicial à sociedade. E, então, esse homem, esse rude senhor de escravos, após ter construído para os operários mutilados em sua fábrica casinholas com quintaizinhos de 2 metros, um fundo de pensões e um hospital, está absolutamente certo de ter pago, com esses sacrifícios, por um valor mais alto do que real, as vidas humanas que arruinou física e moralmente, e continua a viver tranquilo, orgulhoso de sua obra.
Um funcionário, civil, religioso ou militar, que serve o Estado para satisfazer sua ambição ou, como acontece com maior frequência, por um ordenado retirado do produto do trabalho do povo, ou, ainda, o que não é bastante raro, que rouba também, diretamente, o dinheiro do Tesouro, considera-se e é considerado por seus semelhantes o membro mais útil e mais virtuoso da sociedade.
Um juiz, um procurador, que sabe que, por sua decisão ou solicitação, centenas e milhares de infelizes, arrancados a suas famílias, são encerrados em prisões, calabouços e enlouquecem, ou se matam com pedaços de vidro, ou se deixam morrer de fome; que sabe terem eles, também, mães, mulheres, filhos desolados pela separação, desonrados mendicantes inúteis do perdão ou mesmo da melhoria da sorte de seus pais, filhos, maridos, irmãos; esse juiz, esse procurador, está tão inebriado de hipocrisia que ele próprio e seus semelhantes, suas mulheres e seus amigos estão absolutamente certos de que são, apesar de tudo, pessoas boníssimas e sensíveis. Segundo a metafísica da hipocrisia, eles cumprem uma missão social muito útil. E esses homens, causa da perda de milhares de outros, com a crença no bem e com a fé em Deus, vão à igreja com ar radiante, ouvem o Evangelho, pronunciam discursos humanitários, acariciam seus filhos, pregam-lhes a moralidade e enternecem-se a propósito de sofrimentos imaginários.
Todos esses homens e aqueles que vivem a seu redor, suas mulheres, seus filhos, professores, cozinheiros, atores, nutrem-se do sangue que, deste ou daquele modo, como um ou outro tipo de sanguessuga, chupam das veias do trabalhador, e cada um de seus dias de prazer custa milhares de dias de trabalho. Veem as privações e sofrimentos desses operários, de seus filhos, de suas mulheres, de seus velhos, de seus doentes; sabem a que punições se expõem aqueles que querem resistir a essa espoliação organizada, e não só não diminuem seus luxos, não só não o dissimulam, como ostentam-no indecorosamente diante dos operários oprimidos, pelos quais são odiados, como se fosse para deliberadamente excitá-los. E, por outro lado, continuam a acreditar e a fazer acreditar que se interessam muito pelo bem-estar do povo que continuam pisoteando e, aos domingos, cobertos de trajes ricos, dirigem-se, em carruagens luxuosas, à casa de Cristo, erguida pela hipocrisia, e lá escutam os homens, instruídos para essa mentira, a pregar o amor que todos renegam com toda a sua existência. E aqueles homens desempenham tão bem seus papéis que acabam acreditando, eles mesmos, na sinceridade de suas atitudes.
A hipocrisia geral penetrou a tal ponto no corpo e na alma de todas as classes da sociedade atual, que nada mais pode indignar quem quer que seja. Não é à toa que a hipocrisia, em seu sentido próprio, significa representar um papel: e representar um papel, qualquer que seja, é sempre possível. Fatos como estes: ver os representantes de Cristo abençoar os assassinos que se enfileiram, armados contra seus irmãos, apresentando os fuzis para a bênção; ver os padres de todos os credos cristãos participarem, necessariamente, como carrascos, das execuções capitais, reconhecerem, com sua presença, que o homicídio é conciliável com o cristianismo (um pastor assistiu à experiência da execução pela eletricidade), nenhum destes fatos surpreende mais ninguém.
Uma exposição internacional penitenciária aconteceu, recentemente, em Petersburgo. Estavam ali expostos os instrumentos de tortura, as correntes, os modelos de prisões celulares, ou seja, instrumentos de suplício ainda piores que o knut e os açoites, e senhoras e senhores sensíveis iam ver tudo aquilo, e divertiam-se.
Ninguém mais se surpreende sequer com o fato de que a ciência liberal, mesmo reconhecendo a igualdade, a fraternidade e a liberdade, demonstra a necessidade do exército, das execuções capitais, das alfândegas, da censura, da prostituição, da expulsão dos operários estrangeiros que aviltam os salários, da proibição da emigração, da colonização baseada no envenenamento, do saque, do extermínio de raças inteiras de homens chamados selvagens etc.
Fala-se do que acontecerá quando todos os homens professarem o que chamam de cristianismo (ou seja, diferentes crenças, hostis, umas às outras) e quando todos puderem se vestir e comer à saciedade, quando todos os habitantes da Terra estiverem unidos entre si por meio do telégrafo, do telefone, e viajarem em balões, quando todos os operários estiverem imbuídos das teorias socialistas e as sociedades operárias reunirem milhões de adeptos e possuírem milhões de rublos, quando todos forem instruídos, lerem os jornais e conhecerem todas as ciências.
Mas o que de bom e útil pode resultar de todos esses aperfeiçoamentos se os homens não dizem e não fazem o que consideram verdade?
A desventura dos homens provém da desunião, e a desunião provém do fato de que eles não seguem a verdade, que é única, e sim a mentira, que é múltipla.
O único meio de união é, portanto, unir-se na verdade. Por isso, quanto mais os homens procuram sinceramente a verdade, mais se aproximam da união.
Mas como podem se unir os homens na verdade ou dela se aproximarem, quando não só não exprimem a verdade que conhecem, mas consideram-na inútil e fingem reconhecer como verdade o que sabem ser uma mentira?
Assim, nenhuma melhoria será possível na condição dos homens enquanto eles ocultarem de si mesmos a verdade, enquanto não reconhecerem que sua união e, por conseguinte, a felicidade, não é possível sem a verdade, e enquanto não colocarem, acima de tudo, o reconhecimento e a prática da verdade que lhes é revelada.
Todos os aperfeiçoamentos externos com que podem sonhar os homens religiosos ou os homens de ciência realizam-se então; todos os homens convertem-se ao cristianismo e todas as melhorias desejadas por Bellamy e por Richet confirmam-se além de seus desejos: se subsistir a hipocrisia que hoje reina, se os homens não professarem a verdade que conhecem, mas continuarem a simular a crença no que não creem, a estima no que não estimam, sua condição não só permanecerá a mesma, como se tornará pior. Quanto mais os homens estiverem a salvo das necessidades, mais aumentarão os telégrafos, os telefones, os livros, os jornais, as revistas; mais crescerão os meios de propagação das mentiras e hipocrisias contraditórias, e mais os homens serão desunidos, portanto, infelizes, como acontece no presente.
Ocorram, então, todas essas modificações materiais e a situação da humanidade não será, com isso, melhorada. Que todo homem, na medida de suas forças, siga pessoalmente a verdade que conhece ou, ao menos, não defenda a mentira, e já agora, neste mesmo ano de 1893, acontecerão mudanças com que não ousamos sonhar em cem anos: a libertação dos homens e o estabelecimento da verdade sobre a Terra.
Não sem razão a única palavra dura e ameaçadora de Cristo foi dirigida aos hipócritas. Não é o furto, o saque, o homicídio, o adultério, a falsidade, mas a mentira, a mentira especial da hipocrisia, que cancela na consciência dos homens a distinção entre o bem e o mal, os corrompe, os torna maus e semelhantes às feras, os impede de fugir do mal e procurar o bem, lhes tira o que constitui o sentido da verdadeira vida humana e, portanto, bloqueia-lhes o caminho da perfeição.
Os homens que ignoram a verdade e fazem o mal provocam nos outros a piedade para com suas vítimas e a repugnância para com eles mesmos; fazem o mal unicamente àqueles a quem atacam; mas os homens que conhecem a verdade e fazem o mal sob o véu da hipocrisia fazem-no a si mesmos e a suas vítimas, e a milhares e milhares de outros homens, tentados pela mentira que oculta esse mal.
Os ladrões, os assassinos, os enganadores, que cometem atos considerados maus por eles mesmos e por todos os outros homens, são o exemplo do que não se deve fazer e causam repulsa a todos. Ao contrário, aqueles que cometem os mesmos furtos, violências, homicídios, dissimulando-os com justificativas religiosas ou científicas, como fazem todos os proprietários, comerciantes, donos de fábrica e funcionários, provocam a imitação e fazem mal não somente aos que sofrem diretamente, mas também a milhares e milhões de homens que se pervertem e se perdem, fazendo desaparecer qualquer distinção entre o bem e o mal.
Um único patrimônio conquistado com o comércio de produtos necessários ao povo ou de produtos que o corrompem, ou conquistado com operações de Bolsa, ou com a compra, a preço aviltado, da terra que aumenta de valor devido às necessidades do povo, ou com uma indústria que arruína a saúde e compromete a vida, ou com o serviço civil ou militar ao Estado, ou com alguma ocupação que encoraje os maus instintos – um patrimônio assim conquistado, não só com a autorização, mas também com a aprovação dos governantes, e mascarado por uma filantropia ostensiva –, perverte os homens incomparavelmente mais do que milhões de furtos, trapaças, saques cometidos contra as leis estabelecidas e contra os quais se procede criminalmente.
Uma única execução capital, cometida por homens cultos com o pretexto da necessidade e não sob o impulso da paixão, com a aprovação e a participação dos padres cristãos, e levada adiante como algo necessário e até justo, perverte e torna ferozes os homens, mais do que podem fazê-lo centenas e milhares de homicídios cometidos por ignorantes e muitas vezes sob o ímpeto da paixão. A execução