O Sári Vermelho
Ato Iii - a Solidão e o Poder
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
Enquanto esperava Raj iv, Sônia falou por telefone com sua fam ília em Orbassano. Desde a m orte de Indira, seus pais estavam m uito inquietos com o que pudesse acontecer e viviam m uito atentos aos noticiários. Qualquer som bra de orgulho que Paola, sua m ãe, pudesse sentir pelo fato de sua filha ser prim eira-dam a da índia ficava ensom brado pelo m edo de outro atentado. Sônia sem pre os acalm ava, m as sua m ãe era capaz de reconhecer o m edo em sua voz, a despeito da distância e das interferências. Nesse dia, Paola estava duplam ente preocupada. Sua filha Nadia havia anunciado sua volta à Itália.
Que sorte, m am ãe, vai ficar perto das m eninas... - disse Sônia. - Porém , eu vou sentir m uito a falta de Nadia.
Estou m uito triste. Não acha que podem se reconciliar? Não, m am ãe... às vezes é m elhor assim ... - respondeu Sônia, percebendo a angústia de sua m ãe. Seu cunhado espanhol continuava enganando sua irm ã, e ela, j á farta, havia decidido pedir o divórcio. Já não fazia sentido ficar na índia. Sônia ficava sozinha, em um m om ento delicado, em um am biente apocalíptico. Precisava ser valente, não havia alternativa.
RAJIV MANTEVE O SANGUE-FRIO E NÃO CEDEU à tentação de responder à violência com m ais violência, com o talvez sua m ãe houvesse feito. Concedeu ao Punj ab o uso exclusivo de Chandigarh, a cidade concebida por Le Cor- usier, com o sua capital, em troca de um com prom isso de lealdade por parte do partido m oderado sique, e anunciou m edidas econôm icas, com o construção de um a represa hidrelétrica para aliviar o problem a da falta de energia nesse estado. Queria apostar fundo e ganhar os m oderados. Mas, em 20 de agosto de 1985, tudo veio abaixo de novo. O líder do partido m oderado, que percorria os povoados e cidades do Punj ab pedindo o apoio das pessoas, "vendendo" aos seus o acordo com Raj iv, foi assassinado a tiros. De novo a tragédia, de novo o im passe. Os fanáticos im punham sua tirania boicotando qualquer solução negociada. No Parlam ento de Nova Délhi, com eçou-se a duvidar da habilidade de Raj iv para conseguir um a solução rápida para o problem a. Mas ele não se am edrontou e decidiu seguir adiante com as eleições no Punj ab. Da m esm a m aneira que o assassinato de sua m ãe o havia lançado ao poder, pensou que o assassinato do líder m oderado sique criaria um a onda de sim patia por esse partido. Estava certo. Pela prim eira vez na história do Punj ab, os m oderados arrasaram nas urnas. O resultado era um a c la r a vitória contra o extrem ism o. Mas os fanáticos siques não iam desaparecer sem dar trabalho. Em um a nova tentativa de criar tensão, voltaram a se entrincheirar no Akal Takht, o tem plo arrasado durante a Operação Blue Star que depois havia sido reconstruído. Alegavam , dessa vez, que a reconstrução havia profanado o tem plo; na realidade, qualquer pretexto era válido para recorrer à violência. De novo, recebiam arm as pelos corredores e túneis do com plexo. Do lado de fora do Tem plo de Ouro, j ovens extrem istas redobraram seus ataques contra hindus e contra tudo o que não fosse considerado suficientem ente devoto; por exem plo, os barbeiros e cabeleireiros, cuj a atividade batia de frente com o preceito sique de nunca cortar o cabelo, visto que o que Deus havia criado devia ser respeitado, inclusive os pelos. Foram tachados de inim igos do povo sique e, em conseqüência, alvo dos ataques dos m ais ortodoxos.
"Só cabe recorrer a um a ação m ilitar..." Ao ouvir essa frase, Sônia estrem eceu. Já a ouvira um a vez da boca de sua sogra. O resultado estava aí... O filho se encontrava, de repente, na m esm a encruzilhada. Seria necessário um novo sacrilégio, se o anterior não havia resolvido o problem a? Onde acabaria essa espiral de violência? Com o se fosse pouco, os acontecim entos se repetiam com m acabra sim ilaridade. Com o na ocupação anterior, um policial foi alvej ado perto do tem plo, pondo o governo contra a parede e forçando Raj iv a dar as cartas no assunto. O que você vai fazer? - perguntou-lhe Sônia, angustiada. Sitiá-los até que se rendam .
De seu escritório em Nova Délhi, dirigiu pessoalm ente a Operação Black Thunder. Deu ordens estritas ao Exército e à polícia de não entrar no tem plo em hipótese algum a e de selar o recinto, bloqueando todos os corredores secretos, bem com o as vias de entrada e saída de m ercadorias. A espera foi longa, eterna. Nos prim eiros dias, os terroristas atiravam para o ar e lançavam raj adas intim idadoras. Afora essas escaram uças, reinava no Tem plo de Ouro o m ais absoluto silêncio. As águas do tanque sagrado refletiam com o um espelho os tem plos vizinhos, e tudo estava tão im óve l que parecia que o tem po havia parado. Os terroristas esperavam um itaque, até o provocavam , m as só obtinham o eco de seus tiros com o resposta. O Exército e a polícia sem pre alim entavam a desconfiança de que os extrem istas pudessem se abastecer por algum canal que fugisse a seu controle, o que os m antinha em um estado de extrem a tensão. Do lado de fora, os habitantes do Punj ab rezavam em silêncio para que seus locais sagrados não fossem de novo profanados.
Sônia acom panhava tudo de casa, em Nova Délhi e, cada vez que tocava o telefone, seu coração dava um salto. Por fim , depois de dez dias, a voz de Raj iv do outro lado da linha deu-lhe um a boa notícia:
- Eles se renderam , pronto, acabou. A estratégia funcionou. Não houve violência nem necessidade de entrar no tem plo.
Sônia suspirou, aliviada, m as não totalm ente relaxada. Viver sem tensão era um luxo fora de seu alcance. Os terroristas haviam fracassado na tentativa de provocar o governo. Com o sem pre, quando se quer repetir história, ela acaba em paródia de si m esm a. Dessa vez, saíram de sua guarida m orrendo de fom e e de sede. Mais de duzentos se renderam . A vitória de Raj iv ficou ainda m ais evidente quando a im prensa publicou fotos do interior do tem plo que m ostravam o pouco respeito dos terroristas por esse local tão sagrado. Havia restos de excrem entos por todo lado, m ontes de roupa, obj etos quebrados e m anchas de sangue, fruto de suas próprias brigas. O descrédito foi com pleto aos olhos de seus correligionários.
Os críticos de Raj iv, que o acusavam de falta de energia, tiveram de adm itir que suas qualidades de conciliador davam resultado. Sua grande vantagem era j ustam ente a diferença de estilo com sua m ãe e com a m aioria dos políticos indianos em geral. Trazia seiva nova. Acreditava que as políticas socialistas de sua m ãe e de seu avô dificultavam o funcionam ento e o desenvolvim ento da econom ia. Tinha certeza de que o License Raj , com o qual sua m ãe havia colaborado, sufocava o espírito em preendedor dos indianos e fom entava a corrupção. Agilizar perm issões só a pós um suborno era prática corrente entre os funcionários. Com o piloto de um a com panhia estatal durante catorze anos, Raj iv havia sofrido suas notórias incom petências e sabia do que estava falando. Seu esforço para tornar a adm inistração m ais eficaz e para relaxar os controles valeu-lhe a censura dos intelectuais de esquerda. Segundo eles, liberalizar o com ércio e relaxar os controles fariam da índia um país excessivam ente dependente do capital estrangeiro. Identificavam -no m ais com a crescente classe m édia que com a Índia profunda. Acusavam -no de ter nascido em berço de ouro, de falar m elhor inglês que híndi e até de levar sua fam ília de férias ao Parque Nacional de Ranthanbore. Tirar férias era m alvisto na Índia, principalm ente para um político.
Mas Raj iv quis convidar seu sogro para ver tigres no m esm o parque nacional onde havia passado a lua-de-m el com Sônia. Por fim Stefano Maino havia concordado em visitar sua filha preferida. Foram as prim eiras e únicas férias de sua vida, um a oportunidade que Raj iv não ia desperdiçar, por isso esm erou-se para recebê-lo. O velho am igo de Stefano, o m ecânico Danilo Quadra, tam bém fazia parte daquela viagem . Sônia estava feliz por poder receber seu pai depois de tantos anos. Intuía que seria sua única visita à índia, porque Stefano nunca havia sido am ante de viagens e agora sofria do coração e estava frágil.
- Ele sem pre tem m edo por você, desde antes do assassinato de sua sogra - confessou Danilo a Sônia.
Stefano tinha m edo desde antes de Sônia lhe escapar das m ãos, desde o dia distante em que havia com entado com sua m ulher: "Vão j ogá-la aos tigres". Tam bém sentia m edo por Raj iv, esse bravo ragazzo, com o o cham ava. Muito bravo para ser político em um lugar tão conturbado e pobre com o a índia, pensava Stefano. O espetáculo da m iséria o abalou, talvez porque lhe lem brava sua infância, quando era pastor de vacas e o tem po passava com exasperante lentidão e a barriga estava vazia. Parecia que as coisas não iam m elhorar nunca e que a escassez, o tédio e as lim itações seriam eternas, com o via refletido nos olhares dos j ovens nas aldeias indianas. Sônia o recrim inava constantem ente porque era m uito propenso a dar generosas esm olas: "Se continuar assim , logo vai ter todos os m endigos da índia atrás de você", dizia ela, recordando-lhe que a m aioria dos m endigos trabalhava para as m áfias e que m ais valia dar dinheiro diretam ente aos que cuidavam dos pobres. Mas esse hom em parco em palavras e que parecia tão duro não ligava, porque não podia resistir ao sorriso de um m enino que colocava a m ão pela j anela aberta do carro. No final da viagem , quando voltaram a Nova Délhi, seu am igo Danilo disse a Sônia, erguendo os om bros em sinal de im potência: "Não há o que fazer, ele gosta de dar dinheiro a todo o m undo". Stefano Maino foi sem pre fiel a sua própria m em ória.
RAJIV ERA MUITO "OCIDENTAL" PARA PODER disfarçar, e até m uito british em seus m odos e na m aneira de conter suas em oções. Um a vez, defendendo-se de um ataque da oposição, disse que esta queria fazer a Idade Média voltar à índia, o que era um argum ento pertencente à história européia, e não à indiana. Tam bém era verdade que seu grau de identificação com os pobres não era tão intenso quanto o de sua m ãe ou seu avô, m as pensava que, se a classe m édia urbana enriquecesse, isso acabaria beneficiando os pobres das aldeias. Os velhos dinossauros do partido lem bravam -lhe que o im portante era m anter a lealdade dos votantes, que na im ensa m aioria eram m iseravelm ente pobres. Qual o sentido de fazer um a política que não os beneficiasse em curto prazo? Por acaso Raj iv pretendia que o partido perdesse a s próxim as eleições? O j ovem prim eiro- m inistro estava preso entre dar m aior liberdade aos em presários para ganhar dinheiro e m anter a fidelidade da base, dos pobres. Esse era seu grande desafio, e sabia que não ia ser fácil ganhá-lo. Para lutar contra o rótulo de "prim eiro-m inistro dos privilegiados" que seus detratores queriam lhe atribuir, e que em um a dem ocracia de pobres era m uito prej udicial, fez o que sua m ãe teria feito: percorreu o país de m aneira exaustiva.
Até participou de um a grande peregrinação para m elhorar sua im agem com as m assas. Segundo Sônia, que o acom panhava em m uitas de suas viagens, seu m arido era incansável. "Cam inhava tão rápido que precisava lhe pedir que dim inuísse o passo para que os outros o pudessem seguir. Com o havia se acostum ado a não dorm ir m ais de quatro ou cinco horas por dia, costum ava dar um a cochiladinha entre as diversas paradas, dando-m e instruções de acordá-lo se alguém o estivesse esperando. Às vezes, deixava-o dorm ir m ais alguns m inutos... Depois ele reclam ava, m as pelo m enos descansava." Sônia foi testem unha do sentim ento que despertava no povo. "O povo respondia m ais a seu encanto pessoal que ao posto que ocupava. Era igual encontrar-se em um a aldeia tribal do norte, em um a cidade em Tam il Nadu, no coração do Punj ab rural, ou nas favelas de Bom baim . Raj iv não pertencia a nenhum a casta, etnia ou grupo. Era indiano e todos o consideravam um dos seus." Guiava sua própria cam inhonete nas zonas rurais. Onde houvesse gente esperando por ele, parava para conversar. "Se nos atrasávam os", contaria Sônia, "ficavam esperando pacientem ente para falar com ele, para vê-lo. Em lugares distantes, j á bem avançada a noite, um cam ponês aproxim ava um a velha lam parina de óleo de seu rosto e eu via surgir um brilho em seus olhos ao reconhecer seu sorriso. Ele nos pedia que o acom panhássem os para nos apresentar a sua fam ília, dar nom e a seus recém -nascidos, desej ar boa sorte aos j ovens casais da aldeia." Com o parecia longe a vida de Nova Délhi nesses lugares tão afastados... nas choças onde com partilhavam sua pouca com ida, onde ouviam atentam ente a descrição de suas privações e onde lhes faziam perguntas para descobrir com o aj udá-los. "Vej o m uito am or nos olhos das pessoas", disse Raj iv, "e am izade, confiança, m as principalm ente esperança." Raj iv acreditava firm em ente que a tecnologia podia elim inar, ou pelo m enos m itigar a pobreza. Lem brava-se da m ãe e dos esforços dela para fazer a revolução verde, levando cientistas no cam po e organizando encontros com políticos locais e cam poneses. Quando o criticavam por destinar grandes som as de dinheiro do orçam ento do Estado a centenas de pesquisas científicas, defendia-se dizendo que os celeiros do Punj ab nunca teriam tido sucesso se não conseguissem acesso a cultivos de tecidos e à engenharia genética. "Podem os ter falhas se experim entarm os", dizia, "m as, se não o fizerm os, nunca chegarem os a lugar nenhum ." As contradições da índia eram im ensas: Com o era possível lançar satélites ao espaço e não ser capaz de fornecer água potável à população?
- perguntava-se. Foi descobrindo que não era por falta de tecnologia, e sim pela incapacidade de aplicar a tecnologia aos problem as dos pobres. Daí surgiu-lhe um a idéia que cham ou de Missões Tecnologias, um am bicioso program a de pesquisa em seis áreas que Raj iv, depois de suas viagens pelas zonas rurais, identificou com o prioritárias: água potável, alfabetização, im unização, produção de leite, telecom unicações e energias renováveis. Com o sem pre ocorre com alguém que sacode velhas estruturas e ideias, foi alvo de escárnio. Em Nova Délhi, cham avam -no de ingênuo, de querer pular do carro de bois ao telefone celular, algo que, porém , acabaria acontecendo graças a sua visão e a seu em penho nesses prim eiros anos de governo. Três décadas depois, a foto de um m ahut falando por im telefone celular do alto de um elefante que transporta troncos tornar-se-ia a im agem publicitária de um a em presa de telefonia indiana. Foi sob o governo de Raj iv Gandhi, e graças à intervenção de indianos que m oraram no exterior, principalm ente nos Estados Unidos, que foi im plantado um sistem a de telefonia interurbana e internacional que funciona via satélite e que levou o telefone a todos os lugares, tornando-o acessível a esses pobres que viviam no isolam ento m ais com pleto.
Tam bém na capital debochavam de seu slogan "Um com putador em cada colégio de aldeia no século XXI". Parecia o sonho de um filhinho de papai, porque, na verdade, m uitas escolas nas aldeias não dispunham nem de eletricidade ou de um a lousa. Mas a verdade é que Raj iv logo entendeu o potencial da inform ática, que anos depois serviria de locom otiva para econom ia indiana. Pensava que a revolução industrial havia conseguido fazer com que a Europa adquirisse sua posição proem inente, e não queria que a índia perdesse o bonde de outra revolução, a da eletrônica e da inform ática. Menos de um m ês depois de ser nom eado prim eiro-m inistro, reduziu a s taxas de im portação dos com ponentes eletrônicos e dos com putadores. A seguir, foi elim inando m uitos controles da indústria inform ática e prom oveu o uso de com putadores em colégios, bancos e escritórios, dando um forte estím ulo à indústria local. Sob seu m andato, a econom ia com eçou a se liberalizar: "Tem os que nos livrar dos controles sem abandonar o controle", dizia. A classe m édia viveu um a expansão desej ada durante m uito tem po. As pessoas puderam com prar televisores, rádios, câm eras fotográficas, relógios e eletrodom ésticos que antes eram inacessíveis devido aos altíssim os im postos, tão altos que a m aioria desses obj etos era adquirida de contrabando.
Foram anos bons para os consum idores e os negócios. Pela prim eira vez desde a independência, a criação de riqueza não era considerada um crim e ou um pecado. A repercussão dessas m edidas na vida de Sônia foi im ediata, facilitando seu trabalho de prim eira- dam a. Para elaborar os j antares oficiais, j á não precisava partir em peregrinação pelos m ercados de Nova Délhi para conseguir queij o, por exem plo, ou azeite de oliva ou um a batedeira. Pouco a pouco, o m undo externo com eçava a entrar na índia m ilenar, e ela, por sua vez, a se abrir para o m undo.
Mas, nos anos 1980, o país continuava sendo um fervedouro de conflitos, e o trabalho de prim eiro- m inistro podia ser com parado ao de um bom beiro apagando incêndios. Depois do Punj ab, dedicou- se a pacificar a região de Assam , alterada pelo influxo de refugiados m uçulm anos que continuavam chegando de Bangladesh quinze anos depois da guerra em busca de trabalho; e a conseguir a paz com as com unidades tribais do nordeste, com o os bodos, os gurkhas e os m izos, em um a série de acordos que conseguiram dim inuir e até deter a violência secessionista. Nessas visitas, não se opunha a usar aparatosos chapéus ou a vestir traj es locais m uito coloridos em sím bolo de am izade, exatam ente com o teria feito Indira. Ria de si m esm o ao ver-se assim , e agüentava m uito esportivam ente que caçoassem dele. Nunca perdia o senso de hum or, e ficava perplexo quando alguém não captava suas gracinhas. Quando Raj iv voltava para casa, corria a m ostrar a Sônia e às crianças os obj etos que lhe haviam dado nessas viagens, quer fosse um velho cachim bo de m ulher dos m izos, um cesto de vim e ou um a concha esculpida, e depois guardava-os em seu escritório com o verdadeiros tesouros. Em seu foro íntim o, sabia que conseguir a paz e a segurança dos diferentes povos da índia significava, tam bém , consegui-las pa ra sua fam ília, ou pelo m enos nisso acreditava até 2 de outubro de 1986, quando o conflito sique fez seu últim o m ovim ento.
Nesse dia, enquanto assistiam a um a cerim ônia de com em oração do centésim o-décim o-sétim o aniversário do nascim ento do Mahatm a Gandhi no m ausoléu dedicado a sua m em ória em Nova Délhi, ouviram nitidam ente um a explosão.
- É o barulho de um ciclom otor - disse m uito seguro um m em bro do Special Protection Group. Raj iv e Sônia sentaram -se no chão enquanto os sacerdotes recitavam as orações em m em ória ao pai da nação. Quando a cerim ônia acabou e se levantaram para sair, ouviram m ais explosões. O guarda m ais próxim o a Sônia foi ferido na testa. O pânico se espalhou. A m ultidão gritava enquanto se dispersava. Raj iv protegia sua m ulher com seu corpo quando outros policiais os cercaram e os afastaram do local. "Um ciclom otor, hein?" repetia Sônia indignada. O frustrado assassino foi im ediatam ente capturado.
Er a um sique, que havia atirado do alto de um a árvore. Não houve feridos, m as para Sônia a tentativa era um a lem brança de que não podiam baixar a guarda nem um segundo. Voltou m uito alterada para casa, com um a enorm e vontade de abraçar seus filhos para com provar que eles tam bém estavam bem , porque sem pre restava a possibilidade de que o atentado fizesse parte de um a conspiração m ais am pla. Mas, dessa vez, isso não aconteceu, o sique havia agido sozinho.
De repente, parecia que Raj iv havia engordado. Será que são os penne ali'arrabbiata de Sônia de que tanto gostava os responsáveis por essa proem inente barriga? - perguntavam -se seus am igos com ironia. Não, a culpa desse tronco volum oso sob um a cam isa de algodão era a espessura de um colete à prova de balas que foi obrigado a usar desde a últim a tentativa de atentado. A partir de então, fazia suas viagens em um dos dois grupos de carros idênticos, para que ninguém soubesse em qual viaj ava.
E, cada vez que saía, centenas de policiais patrulhavam a cidade em estado de alerta. As crianças só viam um grupo reduzido de filhos de am igos de seus pais da vida inteira, que, a despeito de serem conhecidos dos guardas de segurança, deviam se subm eter a revistas m inuciosas antes de e ntr a r na "fortaleza", com o cham avam a residência fam iliar. Sônia abandonou as aulas de restauração no Museu Nacional, que havia retom ado no pouco tem po livre que tinha, e com eçou a reunir as cartas entre Nehru e Indira com a idéia de publicá-las um dia. Era um trabalho que podia fazer em casa e que, ainda, podia servir a seu m arido, sem pre em busca de boas frases e idéias para seus discursos. Mergulhando na m em ória fam iliar, reconheceu m uitos dos conflitos e problem as que seu m arido enfrentava, porque, de outra m aneira e em outro tem po, Nehru e Indir a tam bém tiveram que lidar com eles: com o controlar o poder da burocracia, com o apaziguar as tensões regionais, com o tirar o país da pobreza... O desprezo à segurança pessoal parecia ser um traço com um na fam ília. Nehru, Indira e Raj iv não sentiam m uito respeito pela "segurança" em geral, porque os distanciava do povo e os fazia pensar m ais em um a ditadura que em um a dem ocracia. Pensavam que, se alguém realm ente os quisesse m atar, sem pre encontraria um m odo de fazê-lo. Sônia não tinha certeza. Estava percebendo que, se Raj iv não houvesse acabado com o prim eiro-m inistro, com todo o poder do Estado protegendo-os, talvez agora estivessem todos m ortos. Suava frio só de pensar nisso. As circunstâncias da vida haviam posto sua fam ília em um a espiral que os obrigava a fugir para fre nte . Com o não existia a possibilidade de parar nem de retroceder, Sônia não teve m ais rem édio senão m udar, aceitar seu papel e dar um j eito de se adaptar e tirar proveito do que essa vida lhe oferecia.
Nã o era fácil, porque a atípica situação da fam ília lhes criava problem as inesperados. Por exem plo, Rahul e Priy anka estavam chegando à idade em que deviam entrar em um college. Para onde m andá-los? Sônia dava por certo que não estariam m ais a salvo da vingança sique no exterior que na índia, de m aneira que o problem a se transform ou em fonte de grande ansiedade. Foi quando Raj iv sugeriu m andá-los para o Am erican College de Moscou. De todos os países, a URSS era dos m ais seguros, e, além disso, não havia com unidade sique lá. Sônia não achou a idéia boa, de m odo que, de m om ento, descartaram -na. Com o prim eira-dam a, Sônia acom panhava seu m arido ao exterior. Viaj avam a bordo de um Boeing 747 especialm ente configurado para acom odar o séquito do prim eiro-m inistro, com posto de assessores, m inistros, j ornalistas e, evidentem ente, de um a unidade de agentes do Special Protection Group. Durante os vôos longos, Sônia entretinha-se na leitura de um livro, sua grande paixão desde a infância, enquanto Raj iv revisava discursos com seus assessores, acrescentando toques de últim a hora ou algum a sugestão inspirada por algum as das cartas de Nehru ou de sua m ãe. Raj iv gostava dessas viagens, quando dorm ia pouco e trabalhava m uito. Dava a im pressão de que ficava m ais à vontade no exterior que em casa. "É bom estar entre am igos", disse a Margaret Thatcher assim que chegou a Londres. Sônia procurava se tornar o m ais invisível possível. Não era fácil negar-se a com parecer a recepções nas quais sua presença era requerida, ou evitar fazer discursos. "É um a m ulher m uito reservada, que não gosta de ser o foco das atenções", explicava seu m arido, escusando-a. Existia outra razão: não era bom , em face da política interna, que se falasse de Sônia, porque autom aticam ente viria à baila sua origem estrangeira, ponto fraco que Maneka prim eiro, e a direita fundam entalista hindu depois, estavam usando para desacreditar o prim eiro-m inistro. Mas Raj iv sentia-se m uito bem entre estadistas internacionais. No fundo, havia sido criado entre eles e falavam a m esm a linguagem . Não passava a im agem de um obscuro político do Terceiro Mundo, e sim de um hom em m oderno e progressista com idéias próprias capaz de se com parar com qualquer líder m undial. Era respaldado por suas conquistas nos prim eiros dois anos de m andato, que som avam m ais que as de nenhum outro prim eiro-m inistro em um período de tem po com parável. Quando o criticavam porque sua política de abertura econôm ica o aproxim ava dos Estados Unidos ou vice-versa, quando no Ocidente o acusavam de que a índia se inclinava para a União Soviética, ele gostava de repetir um a frase de sua m ãe: "Nós nos m antem os retos, não pendem os para nenhum lado". Raj iv conseguiu que o presidente Ronald Reagan fizesse um a exceção em sua política de não vender à índia tecnologia que pudesse ser desviada para países do Leste. Queria um supercom putador am ericano para aj udar a predizer a evolução das m onções com um alto grau de precisão, algo que pensou que seria de inestim ável aj uda para os cam poneses. Reagan com preendeu e atendeu ao pedido.
Para Raj iv, essas viagens im plicavam participar de interm ináveis m esas-redondas, cerim ônias, conferências e assinaturas de acordos. Gostava principalm ente de visitar laboratórios e em presas de ponta que produziam os últim os avanços tecnológicos e perguntava-se sem pre com o poderiam ser aplicados na índia para aliviar a pobreza.
No Japão, Raj iv elogiou o "prim eiro país asiático a assim ilar o conhecim ento científico" e ressaltou as conquistas de seu próprio país: "Em 1947, nem sequer produzíam os tornos; hoj e, c onstr uím os nossos reatores atôm icos e lançam os nossos satélites no espaço". Estava especialm ente satisfeito por ter se saído bem naquilo que considerava o m aior desafio de seu m andato: a seca de 1987, catalogada com o a m ais severa do século XX e que afetou 258 m ilhões de pessoas e 168 m ilhões de cabeças de gado. Pegou o assunto firm em ente nas m ãos, m antendo um estreito contato com funcionários locais responsáveis pelos program as de desenvolvim ento e de socorro, assegurando-se de que os excedentes de reserva fossem apropriadam ente distribuídos e de que os gastos com a aj uda de urgência se transform assem em investim entos para o desenvolvim ento - por exem plo, aj udando a cavar poços de água e fazendo obras de irrigação. Sua dedicação e o planej am ento quase m ilitar, que lem brava a m uitos a capacidade organizativa de sua m ãe, fez com que o país não tivesse que im portar grãos e, pela prim eira vez na história, a índia saía de um a seca em escala nacional sem fom e, sem epidem ias, sem m ortos e com um produto nacional bruto positivo. "Foi um a grande satisfação para ele!" diria Sônia.
EM OUTRAS FRENTES, os RESULTADOS NÃO ERAM tão alentadores. Em política externa, Raj iv havia herdado um a situação viciada no Sri Lanka, criada em parte por sua m ãe. A antiga ilha do Ceilão era um país povoado por 17 m ilhões de habitantes, a m aioria de cultura cingalesa e religião budista, exceto um a m inoria no norte, de 2,5 m ilhões de tâm eis, de religião hindu, que tinham fortes vínculos raciais e lingüísticos com os 55 m ilhões de tâm eis que povoavam o estado indiano de Tam il Nadu.
Essa m inoria havia se sentido sem pre m arginalizada pela m aioria cingalesa. Sentiam -se tratados com o cidadãos de segunda classe, principalm ente desde que o governo, nos anos 1950, declarara o cingalês idiom a oficial da ilha. Anos de ressentim ento desem bocaram no surgim ento de um a guerrilha, os Tigres Tâm eis, que queria a independência de seu território na ponta nordeste da ilha. Durante anos, os Tigres contaram com o apoio discreto da índia. O chefe do governo do estado indiano de Tam il Nadu, um ex-ator de cinem a de Tam il convertido ao populism o, fornecia arm as, dinheiro e refúgio a eles. Indira fazia vistas grossas por questões de estratégia política interna, visto que esse hom em era seu único aliado no sul, e ela precisava de seu apoio político.
Em 1983, os Tigres eram tão fortes que intensificaram a luta arm ada. O governo do Sri Lanka reagiu com todos os m eios a seu alcance e de m aneira brutal, de form a que o conflito entrou em um a espiral de terrorism o e repressão que reforçou ainda m ais o desej o de independência dos tâm eis. As altíssim as cotas de selvageria e de crueldade de am bos os lados ofereciam um contraste sangrento com a beleza paradisíaca da ilha.
A expressão serena dos budas esculpidos em pedra pelos antigos m oradores da ilha parecia, de repente, fora de lugar.
Quando Raj iv chegou ao poder, encontrou o problem a de um a avalanche de refugiados cruzando para a índia, fugindo da ofensiva do exército da ilha. Afora o problem a logístico que representava alim entar e aloj ar m ilhares de pessoas, existia o risco de que o descontentam ento dos tâm eis da ilha contagiasse os do subcontinente, alim entando o desej o de independência do estado indiano de Tam il Nadu, um dos estados com personalidade própria m uito acentuada, criando m ais tensões secessionistas na índia - com o se não houvesse o bastante. Voc ê m e lem bra de sua m ãe, quando teve que enfrentar a prim eira onda de refugiados de Bangladesh - disse Sônia. - No início, ela não sabia m uito bem o que fazer. O que se deve fazer é corrigir o problem a na origem , é o que ela teria pensado. Não devem os dar razões aos tâm eis do Sri Lanka para que venham . O problem a tem que ser solucionado em Colom bo. Com o m inha m ãe, que teve que solucioná-lo em Bangladesh. Raj iv despachou um a série de enviados especiais ao Sri Lanka, cuj a m issão era convencer o governo da ilha a conceder certo grau de autonom ia aos tâm eis, dando a entender que, se o governo fizesse as pazes com os tâm eis, a índia se com prom eteria a cortar totalm ente a aj uda à guerrilha. Mas o governo do Sri Lanka, em barcando em um a solução m ilitar, fez ouvidos m oucos. Prosseguiu com sua ofensiva e im pôs um bloqueio à península de Jaffna, território dos tâm eis no nordeste da ilha. Com bustível, alim entos e rem édios com eçaram a faltar. Não nos ouvem . Eles devem entender que a índia não pode ficar de braços cruzados. Se não nos convidarem a colaborar com a solução de um problem a que nos am eaça diretam ente, terem os que intervir sem perm issão.
Outra guerra? - disse Sônia. - Pense bem .
Raj iv planej ou bem a j ogada. Viu no bloqueio a oportunidade para a índia se im por de um a vez por todas. Decidiu m andar cinco aviões de carga escoltados por caças à península de Jaffna para socorrer a população, lançando quarenta toneladas de arroz, rem édios e várias outras coisas. Era um gesto m ovido por um verdadeiro m otivo hum anitário e, ao m esm o tem po, pela vontade da índia de se afirm ar com o poder regional.
A pressão funcionou. O presidente do Sri Lanka acabou assinando um acordo com Raj iv, segundo o qual o governo cingalês concedia um a am pla autonom ia aos tâm eis. O acordo tam bém estipulava que um a força de paz indiana seria transferida para a ilha. O exército do Sri Lanka voltaria a seus barracões, e os m ilitantes dos Tigres Tâm eis seriam persuadidos - ou forçados - a depor as arm as.
"Este acordo não só acaba com o conflito", declarou Raj iv, "com o tam bém traz paz e faz j ustiça às com unidades m inoritárias da ilha."
Sua m ãe ficaria orgulhosa de você - disse Sônia. Mas não era com o a vitória de Indira em Bangladesh. Raj iv havia vendido a pele antes de caçar o urso.
A MAIORIA CINGALESA, TEMEROSA DE QUE SEUS interesses fossem prej udicados pelas concessões feitas aos tâm eis, reagiu de m aneira violenta aos term os do acordo. Quando Raj iv foi a Colom bo no fim do m ês de j ulho de 1987 para ratificá-lo, os agentes do Special Protection Group que o acom panhavam tentaram dissuadi-lo de passar revista à guarda de honra com o requeria o protocolo. "Pode ser perigoso", disseram . "Pode haver elem entos infiltrados, há m uita tensão na ilha..."
Com o? Estam os aqui para assinar um acordo que garanta a paz e a segurança deles... e vocês vão lhes dizer que tenho m edo de saudar a guarda de honra? Seus seguranças, que sabiam quão teim oso seu chefe podia ser, não insistiram . Pouco tem po antes, um deles havia sofrido a ira do prim eiro-m inistro na própria carne. Havia ousado se queixar de que Raj iv dirigia m uito rápido seu próprio Range Rover, presente do rei Hussein da Jordânia, com o qual gostava de ir de sua casa até seu escritório no Parlam ento, e que não o podia seguir pelas ruas de Nova Délhi. Raj iv considerou-o m uito insolente e pedira sua transferência. A pressão do cargo fazia surgir em Raj iv traços de teim osia e determ inação que lem bravam seu irm ão e sua m ãe.
De m odo que prosseguiu com seu program a e acom panhou o presidente do Sri Lanka na revista à guarda de honra, com m úsica de um a banda m ilitar, saudações m arciais e toda a parafernália. De repente, um soldado, vestindo o uniform e branco da Marinha rom peu a fila e j ogou-se sobre ele com a intenção de acertá-lo na cabeça com a culatra de um rifle. Raj iv percebeu o ataque e agachou-se bem a tem po de se esquivar do golpe que teria arrebentado sua cabeça e que acertou em cheio seu om bro. Tudo ocorreu tão rapidam ente que os presentes não notaram o que havia acontecido. Raj iv quis m inim izar o incidente e rej eitou ser atendido pelos m édicos. Perm aneceu ouvindo o hino nacional, agüentando a dor, e continuou seu program a, im passível. Enquanto não entrou no avião para a viagem de volta não se deixou tratar por seu m édico. Gostaria de ter contado a Sônia pessoalm ente, para que não se assustasse, m as a televisão havia transm itido as im agens para o m undo inteiro. Sônia e seus filhos as haviam visto na sala de casa e estavam de novo com o coração na boca. Outro pequeno incidente os fazia lem brar o perigo constante em que viviam . "Durante m uito tem po", contaria Sônia, "não conseguiu m exer o om bro nem dorm ir sobre o lado esquerdo."
Raj iv ainda não havia aterrissado em Nova Délhi quando o governo do Sri Lanka solicitou pôr em prática a cláusula de assistência m ilitar. Um a força de paz de vários m ilhares de soldados indianos foi despachada à ilha com a intenção de supervisionar o cessar-fogo e o desarm e da guerrilha, e, um a vez cum prido o obj etivo, voltar. Mas as tropas foram vistas com receio por am bos os lados, pela m aioria cingalesa que as acusava de violar a soberania, e pelos Tigres, que até então haviam pensado que a índia estava do seu lado. Quando os soldados da força de paz lhes pediram que depusessem as arm as, os tâm eis acrescentaram , de repente, condições im possíveis, j ogando o acordo por terra. Retornaram à selva, de onde faziam violentos ataques contra a força de paz. Tendo que se defender, os indianos acabaram ainda m ais im plicados na contenda, assum indo o papel que o exército do Sri Lanka tinha anteriorm ente. Raj iv chegou a enviar quase 70 m il soldados, o que espalhou pânico no Parlam ento de Nova Délhi:
- O prim eiro-m inistro está transform ando o Sri Lanka no Vietnã da índia! - acusou a bancada da oposição.
Raj iv havia sido m uito ingênuo ao pensar que os tâm eis j ogariam lim po. "Descum priram cada com prom isso que haviam assum ido conosco", declararia Raj iv. "Deliberadam ente destruíram o acordo porque ou não eram capazes, ou não queriam fazer a transição da luta arm ada a um processo dem ocrático." Raj iv havia apostado tudo em um a carta, m as os tâm eis o deixaram na m ão. Ao retirar deles o apoio de que sem pre haviam desfrutado na índia, viram -no com o um traidor de sua causa.
FRUSTRAÇÃO, DESENGANO E EXASPERAÇÃO eram tam bém o dote de um prim eiro-m inistro, principalm ente quando os resultados de eleições regionais pareciam confirm ar as previsões dos falcões de seu partido, que o haviam posto em guarda contra um a política que não desse resultados im ediatos aos pobres. Em 1987, o Congress perdeu em vários estados, provocando um aum ento do descontentam ento na velha guarda, que com eçou a questionar a liderança de Raj iv à frente do partido. Além do problem a do Sri Lanka e da derrota eleitoral, houve um escândalo que causou um dano irreparável a sua im agem de Mr. Clean. Em 16 de abril de 1987, a rádio sueca anunciou que m ilhões de dólares haviam sido pagos em com issões a funcionários indianos e a m em bros do Congress pela em presa arm am entista sueca Bofors em conexão com um contrato para a venda de 410 m orteiros às forças arm adas indianas. O contrato havia sido o resultado da decisão de Raj iv de m elhorar o equipam ento do Exército indiano, o quarto m aior do m undo depois dos Estados Unidos, União Soviética e China. Raj iv e seu governo reagiram ferozm ente contra as alegações da rádio sueca, desm entindo várias vezes que houvessem sido pagas com issões. A oposição percebeu o m edo nas filas do governo e lançou um ataque contra o prim eiro-m inistro com todos os m eios a seu alcance. A im prensa chegou a acusá-lo veladam ente de ter recebido um a c om issã o por m eio da fam ília de Sônia, aludindo à proxim idade entre Turim e Genebra, deixando a entender que haviam utilizado contas suíças m anipuladas pela fam ília ou am igos da fam ília. Houve até j ornalistas que ligaram para os pais de Sônia em Orbassano, e o pobre Stefano Maino viu-se, de repente, envolvido em um a suposta tram a de tráfico de arm as e de cobrança de com issões! A única coisa que aquelas ligações fizeram foi alarm á-los ainda m ais, porque a distância exacerba a angústia, e o m edo do que pudesse acontecer com sua filha e seus netos j á era grande. Escavando o assunto, a im prensa indiana trouxe à baila o nom e de um hom em de negócios que estivera envolvido em vários contratos de venda de helicópteros e arm am ento de em presas italianas para o Estado indiano. Ottavio Quattrochi, o exuberante am igo que havia anos pertencia ao círculo íntim o de Raj iv e Sônia, tinha recebido, com certeza, um a suculenta com issão no assunto Bofors. Daí a insinuar que Quattrochi havia passado parte dessa com issão no exterior a eles era só um passo, que os j ornalistas deram alegrem ente. Que escândalo m ais apetitoso!
Mesm o que nenhum a publicação pudesse fornecer provas, o m al estava feito e a ingenuidade e f a lta de experiência de Raj iv só fizeram agravá-lo. Em vez de ignorar acusações sem fundam ento, foi se defender no Parlam ento: "Declaro categoricam ente neste alto foro da dem ocracia que nem m inha fam ília nem eu recebem os com issão algum a nessas transações da Bofors. Essa é a verdade". Mas a verdade j á não im portava. O im portante para os adversários de Raj iv era que ele havia m ordido a isca, que em vez de ignorar a alegação desde o início, reagira com tanto ím peto que abrira a caixa de Pandora das insinuações e falsas suspeitas. Desm entiu de novo que houvessem sido pagas com issões ou que qualquer cidadão indiano tivesse se beneficiado com esse contrato, e, ao fazer isso, afundou-se ainda m ais no lodo do escândalo. Em um país onde até um carteiro dá um a pequena m ordida para entregar a correspondência ao pobre de um a favela, onde a prática do interm ediário existe em todas as facetas da vida e é tão antiga quanto a própria cultura, era difícil acreditar que em um contrato de um bilhão de dólares ninguém tivesse recebido um centavo. A despeito de um com itê parlam entar conj unto concluir que o processo de elaboração e avaliação fora obj etivo e correto, que a decisão de atribuí-lo à Bofors havia se baseado só no m érito e que não existia evidência de interm ediários no m om ento em que foi assinado o contrato, Raj iv j á era subm etido a um veredito público, e esse veredito o acusava de estar escondendo algum a coisa. "Talvez sej a verdade que Raj iv não estava envolvido na corrupção", reconheceu a im prensa. "Mas deve estar envolvido na cam uflagem da corrupção!", proclam ava a seguir. Quando um j ornalista do índia Today perguntou por que Raj iv não respondia a essa últim a alegação, este respondeu irritado: "Tenho que responder a qualquer cão que ladra?".
Mais tarde, Raj iv reconheceu que nem ele nem seu gabinete haviam sabido lidar com o problem a. Na realidade, havia reagido com o um hom em decente. Não reagira com o um político experiente procurando um bode expiatório e atribuindo-lhe a culpa. Não contou com o fato de que se m ovim entava no m undo suj o da política, em que a verdade não era im portante, e sim sua m anipulação para sem ear dúvidas e arrasar a im agem do adversário. Sônia estava triste por ele e furiosa por ter sido im plicada em tam anho despropósito de m aneira tão ridícula, m as tão destrutiva, por m eio de sua fam ília e dos Quattrochi. Percebeu que havia se transform ado em alvo de todas as críticas e que nem sequer na intim idade era livre. Acabaram -se os brunches de dom ingo. Nem Maria nem Ottavio Quattrochi, nem nenhum dos hom ens de negócios ou diplom atas que conheciam voltaram à residência do prim eiro-m inistro. Que inj usto, pensava Sônia. Principalm ente porque ela havia sido testem unha de prim eira m ão dos term os gerais da negociação. Foram traçados em volta de um a lasanha que ela fizera pessoalm ente para a ocasião. Era j aneiro de 1986, e o prim eiro-m inistro sueco Olof Palm e, em visita a Nova Délhi, fora j antar em sua casa. Ele e Raj iv haviam se tornado am igos durante um as conferências sobre desarm am ento na sede da ONU em Nova York. Rahul e Priy anka tam bém estiveram presentes nesse j antar, quando am bos os estadistas discutiram abertam ente os term os do contrato e Raj iv insistiu em seu veto aos interm ediários, j ustam ente para baratear o custo da transação.
Com o Sônia poderia esquecer de Olof Palm e, tão com prom etido com os problem as do Terceiro Mundo, que dividia com Raj iv tantos pontos de vista, com o a oposição ao regim e do apartheid ou o apoio aos países não-alinhados? Menos de um m ês depois daquele j antar, Sônia ficou gelada ao saber pela televisão, em 18 de fevereiro de 1986, do assassinato do líder sueco, em plena rua, quando saía do cinem a com sua m ulher. Meu Deus! Será que j á não existe nenhum lugar seguro no
m undo? Se algo assim ocorre na Suécia, o que pode acontecer conosco aqui na índia?
O assunto Bofors transform ou-se em um a cruzada que a oposição usou para tirar Raj iv de seu posto, m as os j ornalistas e os editores de im prensa sentiam -se frustrados por sua própria incapacidade de fornecer um a prova definitiva de m alversação por parte do governo. Ninguém parecia saber quem recebera propina da em presa sueca, nem m esm o o governo, e m enos ainda Raj iv. Mas todos j á adm itiam que a cláusula do contrato que vetava os interm ediários havia sido violada. Teriam sido m em bros do Congress desvinculados do governo que receberam o dinheiro e o encam inharam para os cofres do partido? Teria sido Ottavio Quattrochi, usando sua proxim idade do poder? Isso era possível sem que o m áxim o responsável, ou sej a, o prim eiro-m inistro, soubesse? Raj iv afirm ou sem pre que não, m as a dúvida pesava com o um a lápide. O clim a de incerteza pulverizou sua credibilidade. Durante os prim eiros dois anos de seu m andato, havia desfrutado de um a im prensa favorável e parecia incapaz de fazer algo de errado. Até a oposição tinha dificuldade de criticar suas ações, lim itando-se a criticar seu estilo: "A política indiana j á não cheira a pobre com o nos tem pos do Mahatm a Gandhi", declarara um fam oso j ornalista de um partido rival. "Agora, com Raj iv, tem cheiro de after shave". "No início, nada do que eu fazia estava errado", diria Raj iv. "De repente, nada do que eu fazia estava certo. Evidentem ente, nenhum a das duas coisas eram certas." De Mr. Clean, passaram a cham á-lo pej orativam ente de the boy, com a intenção de com pará-lo desfavoravelm ente a sua m ãe. "Será que the boy conseguirá estar à altura?" era o tem a do editorial de um j ornal.