O Sári Vermelho

Javier Moro · Capítulo 4 de 6 · parte 2/7

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O Sári Vermelho

Ato Iii - a Solidão e o Poder

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

INDIRA VOLTOU A SORRIR. Sentiu que seu filho, que assum ia o papel de conselheiro pessoal com surpreendente eficácia, era a pessoa ideal para se encarregar de um am bicioso proj eto no qual o governo havia em barcado, ciente da necessidade de m elhorar a im agem do país. Tratava-se de organizar os Jogos Asiáticos, que deviam acontecer em Délhi dois anos depois. O proj eto contem plava a construção de hotéis, estradas, vários estádios e um bairro para aloj ar os atletas. A iniciativa seria aproveitada para am pliar a cobertura do sinal da tevê em cores, que só podia ser captado no centro das grandes cidades. Levar o proj eto a bom term o requeria um a m ente com capacidade de organização, em preendedora e im aginativa. Indira sentiu que era um desafio para se u filho, e que, caso ele se saísse bem , m elhoraria sua im agem e serviria para lançá-lo na política internacional. De repente, Raj iv viu-se coordenando arquitetos, em preiteiros e financistas e supervisionando um enorm e orçam ento.

Sônia não tinha am bição algum a de arranj ar um lugarzinho na vida pública - esse que Maneka de se j a va tanto - fosse com o voluntária em assuntos hum anitários ou com o anfitriã de personalidades. Contentava-se com sua posição à som bra de sua sogra e em penhava-se para que a casa da prim eira-m inistra funcionasse da form a m ais eficaz possível. Naqueles dias, Sônia esteve m ais próxim a que nunca de Indira. "Sabendo quão profundas eram suas feridas, Raj iv e eu tornam o- nos ainda m ais protetores com ela." Sua sogra estava profundam ente agradecida por tê-los por perto. Falava com m uito carinho e reconhecim ento da m aneira com o Raj iv "havia se oferecido para cuidar de algum as responsabilidades dela relativas ao trabalho no partido". Quando acabou o período de luto de um ano, no qual Indira só havia usado sáris brancos, pretos ou crem e, Sônia escolheu para ela um lindo sári dourado com bordados ao estilo da Caxem ira para a inauguração de um a im portante conferência de países asiáticos. Vej a, este sári com bina com a decoração da sala onde vai ser celebrada a conferência... Gosta? Adoro - disse Indira. - É perfeito para que vocês acom panhem o evento em suas tevês coloridas. Ao vê-la enrolada de novo em sáris coloridos, sua am iga Pupul lhe disse: Página 306

Fico feliz por estar superando.

Indira fez um a expressão de gravidade e não respondeu. Mas, no dia seguinte, m andou-lhe um a carta: "Você com entou que eu estaria superando m inha dor. Podem os superar o ódio, a invej a, a cobiça e tantas outras em oções negativas e autodestrutivas. Mas a dor é algo diferente. Não se pode esquecer nem superar. Tem os que aprender a viver com ela, integrada ao próprio ser, e fazer disso parte da vida".

A nota dissonante foi Maneka, que via desgostosa a herança do m arido ser-lhe arrebatada pelo cunhado, m as sabia perfeitam ente que ela não podia se candidatar por não ter a idade m ínim a requerida. Sem pre sentira um profundo desprezo por Raj iv, e agora com eçou a fazer declarações à im prensa cham ando-o de "cunhado indolente, incapaz de sair da cam a antes das dez". Im plícita estava a idéia de que ela, herdeira do sobrenom e Gandhi e m ãe do único filho de Sanj ay , era a m ais adequada para suceder Indira um dia. "Com o Raj iv pode assum ir o m anto de seu irm ão se nunca gostou de política e é casado com um a italiana?", dizia publicam ente. Maneka foi a prim eira a usar a origem estrangeira de Sônia contra a fam ília. Raj iv e Indira, que im ediatam ente sentiram o cheiro do perigo, pediram -lhe que concluísse os trâm ites para adquirir a nacionalidade indiana, à qual tinha direito por casam ento. Devia ter feito isso antes, m as sem pre o adiava por pura preguiça. Em sua ingenuidade, Sônia achava que bastava sentir-se indiana e atender aos costum es e ritos da sociedade para ser indiana. Já havia relegado suas saias, suas calças j ustas, seus j eans, suas regatas e seus vestidos decotados à escuridão dos arm ários. Só se vestia com o européia quando ia visitar sua fam ília na Itália. Na índia, só usava sáris ou a versão m uçulm ana do traj e nacional indiano, os salwar kam iz, calças largas de algodão ou seda cobertas por um a bata com m uitos botões. Mas isso não bastava, agora precisava da sanção oficial, da nacionalidade, do passaporte. De m odo que, certa m anhã, foi para o Ministério do Interior e passou várias horas preenchendo papéis e respondendo a perguntas de funcionários gentis.

Algum as sem anas depois, recebeu um a carta: "Pela presente, o governo da índia concede a Sônia Gandhi, nascida Maino, seu certificado de naturalização e declara que a supracitada tem direito a todos os privilégios, deveres e responsabilidades de um cidadão indiano...". A seguir, entre os papéis que acom panhavam o passaporte estava o núm ero e o endereço do gabinete eleitoral onde devia votar.

A única coisa que Maneka conseguiu com suas declarações insensatas foi irritar ainda m ais sua sogra. Quando a j ovem lhe m ostrou um prim eiro exem plar do livro que havia proj etado sobre seu falecido m arido, Indira ficou indignada, alegando que parte do texto e das legendas era perniciosa e distorcia a verdade. Assim , não podia ser publicado. Mas o lançam ento está previsto para daqui a três dias! Você devia ter m e m ostrado o boneco final antes, não no últim o instante. Terá que adiar o lançam ento para depois que as m udanças forem introduzidas. Não posso, j á está tudo organizado.

Não perm itirei que o livro saia do j eito que está agora. Maneka, encolerizada, saiu da sala batendo a porta.

Maneka!! - gritou Indira. - Venha aqui im ediatam ente! A j ovem voltou. Dessa vez, não parecia um cãozinho assustado. Tinha a atitude desafiadora de um a adolescente rebelde. Sustentou o olhar de sua sogra. As coisas não podem continuar assim , Maneka. Não posso consentir suas bobagens perante a im prensa nem que publique o que acha que deve sobre a fam ília. Maneka hesitava entre responder ou agüentar a bronca. Indira fez um blefe, intuindo que sua nora se am edrontaria:

Se quiser ir em bora desta casa, fique à vontade - disse com firm eza. Maneka hesitava diante da tentação de usar a única arm a que podia dar um golpe letal em Indira: tirar-lhe seu neto. Indira prosseguiu:

Se continuar assim , nossa relação no futuro será com o se nunca a houvesse conhecido. Você escolhe: isso, ou continuarm os am igas.

Maneka apertou os punhos e m ordeu a língua, talvez não fosse o m om ento de prescindir dessa relação tão prestigiosa. Baixou o olhar:

Está bem , vou adiar o lançam ento do livro, m udarei as legendas. Indira respirou aliviada. Tinha consciência de ter vencido um a batalha, m as certeza de que não seria a últim a. Por ora, havia evitado a crise.

BRIGUENTA E PERSISTENTE, Maneka tornou-se especialista em esticar a corda até o lim ite. Tinha certeza de duas coisas: um a, que não havia lugar para ela na estrutura de poder presidida por Indira, e outra, que poderia chegar a rivalizar com sua sogra. De m odo que decidiu, por um lado, redobrar sua atitude desafiadora e provocadora e, por outro, desenvolver sua própria base m obilizando os seguidores, agora destronados, de Sanj ay. Maneka havia aceitado ir fazer um discurso na cidade de Lucknow, capital do estado de Uttar Pradesh... diante de um grupo de dissidentes do Con-gress liderado por um antigo am igo de Sanj ay. Indira estava soltando fogo pelas ventas:

"Estã o m e desafiando com um a m inirrevolta", disse a Pupul depois de Maneka ter lhe com unicado que havia conseguido a adesão de um a centena de m em bros da assem bléia legislativa do estado de Uttar Pradesh leais a Sanj ay . Indira m andou-lhe um a m ensagem : "Se for a Lucknow, não volte para m inha casa". Maneka voltou atrás e se desculpou, m as j á parecia claro que um enfrentam ento era inevitável. Essa "m enininha" volúvel e teim osa que fazia sua vida im possível tirava Indira do sério de um m odo que seus poderosos adversários políticos, m uito m ais experim entados e m aquiavélicos, não conseguiam . Para tentar aj eitar as coisas, Indira levou-a para o Quênia com Rahul e Priy anka. Mas a viagem que realm ente Maneka teria gostado de fazer era a que Raj iv e Sônia fizeram , para Londres, para o casam ento do príncipe de Gales com Diana Spencer. Indira os havia m andado em seu nom e, para apresentar no exterior aquele que, com toda probabilidade, acabaria sucedendo-a. Essa sim era um a viagem com glam our, freqüentando o poder e a nata da sociedade m undial. Porém , para Maneka sobrava ir com as crianças "ver anim ais". Com eçou se queixando de que era a única da fam ília que não tinha passaporte diplom ático. Quase não falou com seus sobrinhos durante toda a viagem e m al respondia a sua sogra quando ela a cham ava ou tentava anim á-la. O tem po todo m anteve-se afastada, m urcha, porque no fundo não queria estar ali.

Quando, na em baixada em Nairobi, chegou o m om ento de cum prim entar os representantes da num erosa colônia indiana, foi fria, tanto que causava constrangim ento. Taciturna, não se sabia m uito bem se estava entediada ou sim plesm ente se nada a interessava. Ou se estava tram ando algum a coisa. Ou as três coisas ao m esm o tem po. Quem estava tram ando algo era sua m ãe. Algo explosivo. Estava negociando a venda da revista Sury a a um notório sim patizante do RSS (Rashtriy a Sway am sevak Sangh) pelas costas de Indira. Quando esta soube, ficou enlouquecida. O RSS era um a organização política hinduísta de extrem a direita com um a disciplina quase m ilitar, que estivera envolvido nos m assacres da Partição. Indira sem pre havia considerado o RSS a "m aior am eaça para a índia" por seu caráter hinduísta fanático e excludente.

Tinha certeza de que esse partido podia, um dia, levar o país à perdição. Um dos assassinos do Mahatm a Gandhi havia sido m em bro do RSS. Essa venda, que acabou acontecendo, era um a provocação declarada. A propriedade era de Maneka e de sua m ãe, m as Indira sabia m uito bem que a revista conseguira funcionar graças a seus contatos e influência. A tensão fam iliar chegou a um ponto crítico. Fazia m eses que Raj iv evitava encontrar-se com sua cunhada em casa. Agora estava claro que Maneka não poderia continuar m orando ali. Indira, que via que o conflito com sua nora a privaria do neto, ficou m uito deprim ida. De todas as traições que havia sofrido, sentia que essa era a m ais grave, a m ais daninha e a m ais cruel, porque vinha de dentro da fam ília, território sagrado, e afetava o filho de seu filho preferido. A im inência de um a nova crise, dessa vez definitiva, roubava sua energia e a fazia sentir-se esgotada. Por seu neto, fez um últim o esforço. Mandou seu velho professor de ioga e guru, Dhirendra Brahm achari, que continuava indo vê-la de vez em quando, a negociar a recom pra da revista, a qualquer preço, com os novos donos. Mas eles rej eitaram a oferta. Indira estava em um beco sem saída. Centenas de m ilhões de pessoas, o país inteiro, esperavam expectantes o desenlace dessa novela ao vivo, um reality show antes da época.

INDIRA ESTAVA EM LONDRES INAUGURANDO O Ano da índia, um esforço colossal de seu governo para prom over o intercâm bio cultural, industrial e com ercial entre a índia e o Oc ide nte . Quis que Sônia fosse com ela. Um elenco num eroso de políticos, cientistas, personalidades do m undo da cultura, da aristocracia e dos m eios de com unicação com pareceu à festa de abertura. Indira viveu um m om ento com ovente quando Zubin Mehta, que, a propósito, era parse com o o m arido da prim eira-m inistra, dirigiu a orquestra, que tocou os hinos nacionais da índia e do Reino Unido e a audiência ficou em pé. Tinha um significado especial porque era a prim eira vez que o hino nacional indiano era tocado em público em Londres, antiga capital do Im pério. Até Sônia sentiu calafrios de em oção. Indira, sublim em ente vestida graças aos cuidados de sua nora, esteve radiante durante as diversas recepções e j antares que acom panharam a inauguração. Tanto que teria sido im possível perceber que por dentro estava agitada e ansiosa. As m ensagens que lhe chegavam de casa anunciavam que Maneka estava disposta a abandonar definitivam ente o lar da fam ília e que havia decidido desafiá-la abertam ente. Sônia se calava, expectante, diante do inexorável m om ento da ruptura. De fato, Maneka havia calculado a data com precaução, aproveitando que Indira e Sônia estavam viaj ando, e que Raj iv, m uito concentrado em seu trabalho, não pisava em casa para evitar encontrá- la. A j ovem não dera ouvidos a Indira e fora a Lucknow, onde, diante dos seguidores de seu m arido, pronunciou um discurso fervoroso, m as tendo o cuidado de não parecer desleal à prim eira-m inistra. "Longa vida a Indira Gandhi", "Sanj ay é im ortal!", rezavam os cartazes que organizadores do encontro haviam pendurado por todo lado. "Sem pre honrarei a disciplina e a reputação da grande fam ília Nehru-Gandhi à qual pertenço", concluíra Maneka. Mas essa falsa dem onstração de lealdade não abrandou Indira, que voltou de Londres na m anhã de 28 de m arço de 1982 decidida a se fazer respeitar. Quando Maneka foi cum prim entá-la, Indira cortou-a secam ente:

Conversam os j á, j á.

Maneka trancou-se em seu quarto e esperou m uito tem po, até que um em pregado bateu à porta: Entre - disse Maneka.

O hom em apareceu segurando um a bandej a com a com ida. O que é isso?

A senhora Gandhi m e incum biu de lhe dizer que não quer que a senhora se j unte ao resto da fam ília para o alm oço.

Pode levar. Não pretendo com er em m eu quarto porque ela quer. O hom em obedeceu. Um a hora depois, voltou:

A senhora prim eira-m inistra quer vê-la agora m esm o - disse obsequiosam ente. As pernas de Maneka trem iam ao atravessar o corredor. Havia chegado a hora da verdade, m as não havia ninguém na sala. Teve que esperar alguns m inutos que pareceram eternos, nos quais voltou a roer as unhas com o quando era pequena. De repente, ouviu um barulho e Indira surgiu fora de si, cam inhando descalça, acom panhada pelo guru Dhirendra Brahm achari e pelo secretário Dhawan, o engom adinho. Queria os dois com o testem unhas.

Em circunstâncias norm ais, Indira teria tratado esse assunto com sua costum eira habilidade, esperando o m om ento adequado para agir. Agora, talvez porque a idéia de se separar de seu neto obscurecia sua razão, Indira caiu na arm adilha que sua nora havia arm ado. Suas palavras m al se entendiam . Porém , foi ouvida alto e claro quando, apontando com seu dedo, gritou: Saia desta casa im ediatam ente!

Por quê? - replicou Maneka com ar inocente. - Que foi que eu fiz? Eu ouvi cada palavra do discurso que você pronunciou! Você o aprovou.

Maneka alegava que havia m andado o discurso a Indira para sua aprovação. De fato, Raj iv o havia enviado por telex a Londres. Sua m ãe o havia lido, m as não respondera. Decidira esperar a volta para se pronunciar.

Eu disse que não devia falar em Lucknow, m as você fez sua santa vontade e m e desobedeceu! Havia veneno em cada um a de suas palavras... Acha que não percebo? Vá em bora daqui! Vá em bora desta casa agora m esm o! - berrou. - Volte para a casa de sua m ãe! Não quero ir para a casa de m inha m ãe - respondeu Maneka desafiadora. Mas você vai. Já que confabularam com a escória deste país, a quem venderam a revista que abriram graças aos contatos que eu lhes proporcionei, não quero tornar a vê-las, nem a você nem a sua m ãe.

Maneka com eçou a chorar, m as acrescentou:

Preciso de tem po para arrum ar m inhas coisas. Voc ê teve todo o tem po do m undo. Partirá quando eu m andar. Suas coisas serão m andadas depois. Você e sua m ãe são escória! - disse Indira totalm ente descontrolada. Maneka foi se afastando para seu quarto gritando: Não perm itirei que insulte m inha m ãe!

Mas Indira estava resolvida a expulsá-la. Não podia se controlar, todos os agravos acum ulados desde que Maneka havia entrado naquela casa explodiam com o as com portas de um a represa.-Vá em bora! Sum a daqui agora m esm o! E não leve nada desta casa que não sej a sua roupa! Maneka trancou-se em seu quarto, de onde ligou para sua irm ã Am bika para contar-lhe o que havia acontecido, a fim de que avisasse a im prensa e pedisse aj uda. O escritor Kushwant Singh soube do que havia acontecido por um a ligação de Am bika, que pedia que fosse à casa da prim eira-m inistra.

As TORMENTOSAS RELAÇÕES ENTRE SOGRA e nora fazem parte da cultura m ilenar da índia, a ponto de m uitas produções de Holly wood serem baseadas em histórias que recriam com riqueza de detalhes esses conflitos dom ésticos. O que aconteceu na casa da m ais alta autoridade do país expôs toda a fam ília ao escrutínio público de um a m aneira que os m ais experim entados produtores de cinem a nem sequer poderiam ter im aginado. Às 21h, um a m ultidão de fotógrafos e j ornalistas, incluindo um a grande representação de correspondentes estrangeiros, reuniu-se diante da grade de entrada da casa. A polícia, cuj os reforços estavam espalhados pelos arredores, não sabia m uito bem a quem deixar passar ou não. De m odo que Am bika e o irm ão de Maneka entraram sem dificuldade depois de oito anos sem aparecer. Encontraram a irm ã no quarto, desfeita em lágrim as, colocando em desordem tudo o que podia em um as m alas. De repente, quando estavam decidindo com o proceder, Indira irrom peu no quarto:

Vá em bora daqui j á! Eu disse para não levar nada! Am bika, cuj a língua viperina era bem conhecida de Indira, interveio: Ela não irá! Esta é a casa dela!

Esta não é a casa dela! - gritou Indira com olhos arregalados. - Esta é a casa da prim eira-m inistra da índia! - e apontando para Maneka, acrescentou: - Não se pode trazer gente aqui sem m inha perm issão.

Am bika ia falar, m as Indira a interrom peu.

De qualquer m aneira, Am bika Anand, não quero falar com você. A senhora não tem nenhum direito de falar assim com m inha irm ã! - disse Am bika, sem intenção algum a de se deixar am edrontar. - Esta é a casa de Sanj ay, e m inha irm ã é m ulher de Sanj ay ! De m odo que esta é a casa dela. Ninguém pode expulsá-la. Então, Indira enlouqueceu. O que seus inim igos m ais arraigados não haviam conseguido, aquelas duas irm ãs conseguiram . Os gritos de Indira alertaram Sônia, que correu a avisar Raj iv em seu escritório da Akbar Road. Raj iv tentou controlar a situação com a aj uda de um prim o que o aj udava em suas tarefas políticas. Pediram ao chefe de segurança, um sique alto e robusto, que fizesse o favor de expulsar as irm ãs de casa. O hom em , cauteloso, respondeu: Senhor, só posso cum prir essa ordem se a receber por escrito. Raj iv estava disposto a assinar um a ordem escrita, m as seu prim o interveio.

Não faça isso - disse. - Não assine nada que depois possa ser usado pela im prensa contra você ou sua fam ília. Gostando ou não, Maneka tem direito a estar nesta casa. Assinar um docum ento de expulsão só pode trazer-lhes problem as.

Raj iv olhou para o sique, que fez um gesto com a cabeça em total acordo com o que o prim o acabava de dizer.

Não é prudente - acrescentou seu prim o.

Está bem - disse Raj iv, j ogando a toalha e voltando os olhos para o fundo do corredor, de onde, de repente, surgiu um estrondo ensurdecedor.

As duas irm ãs, trancadas no quarto de Maneka, haviam posto no vídeo um film e de Holly wood a todo volum e para que Indira, que estava derrotada na sala contígua, entendesse que elas fariam o que quisessem Enquanto isso, planej aram sua estratégia e a hora exata em que sairiam O secretário Dhawan e o guru Dhirendra Brahm achari tiveram que atuar de m ensageiros. Cada vez que Dhawan entrava para rogar que fossem em bora, elas lhe faziam um novo pedido. Prim eiro pediram o j antar, que foi servido na sala. A seguir, disseram que os cães tam bém precisavam com er, e o secretário m andou alim entá-los, e por azar Sheba, o lebrel irlandês de Maneka, excitado pelo am biente de hostilidade que havia em casa, m ordeu-o levem ente no braço. Assim ficaram duas horas, até que as irm ãs m andaram retirar seus baús, m alas e pacotes. Quando elas j á estavam do lado de fora, chegou de novo Dhawan, dessa vez acom panhado pelo guru:

Lam ento, m as tem os ordens de revistar seus pertences. Muito bem - disse Maneka - se vai m e revistar, que sej a aqui fora, para que todo o m undo vej a. E com eçou a abrir os baús deliberadam ente, tirando roupa, sapatos, livros... De repente, o crepitar dos flashes dos fotógrafos, na grade, ilum inou a noite com o pequenos fogos de artifício. Indira apareceu na porta e disse a seu secretário que não insistisse na revista. Percebera que sua nora havia ganhado a partida e com eçou a ceder. Maneka havia dado um a lição para a sogra: "Deixe que os inim igos façam o que quiserem contra você, m as sem pre à luz pública, para que m ostrem sua pior cara." Quando o lam entável espetáculo da revista chegou ao fim , Maneka e sua irm ã voltaram para o quarto exigindo que fossem enviados antes a seu novo dom icílio seus pertences e seus cães. A últim a condição foi que não iriam em bora sem o pequeno Firoz Varun.

Nessa noite desastrosa, o pior erro de Indira foi tentar ficar com o neto de dois anos. Antes da briga, havia m andado que o levassem para seu quarto. Havia passado o dia com um pouco de febre. Quando os em pregados foram buscá-lo, Indira negou-se a entregá-lo. Meu neto fica com igo - disse em um ataque de obsessão irracional. Maneka m ostrou-lhe que, se não entregasse a criança, faria um protesto sentando-se na porta da casa até consegui-lo. Muito habilm ente, a j ovem viúva se dispunha a explorar seu papel de vítim a usando a arm a do Mahatm a Gandhi, a desobediência civil. A luta de Indira era desesperada. Mandou cham ar P. C. Alexander, seu principal secretário oficial, que, ao ser acordado em plena noite, pensou que havia estourado algum conflito internacional. "Nunca a vi tão aflita, tão preocupada, tão ansiosa, tão tensa com o naquela noite", diria o hom em . "Seu rosto refletia um a angústia indescritível."

Madam e - disse Alexander - a senhora teve que enfrentar tantas crises na vida, tantas batalhas políticas, a m orte de seu filho. Por que está assim agora? Alexander, essa garota quer tirar Firoz Varun de m im . Você conhece m inha relação com o filho de Sanj ay . É m eu neto. Querem tirá-lo de m im . Indira continuava fora de si. O sofrim ento que lhe causava a perda do neto turvava seu j uízo. Não havia m aneira de fazê-la entender, de convencê-la de que o direito estava do lado de sua nora. Por m ais prim eira-m inistra que fosse, não podia nada contra o fato de que Maneka era a m ãe do m enino. Na índia reinava a rule oflaw, o estado de direito. Os advogados que m andou cham ar no m eio da noite para ver com o ficar com o m enino estavam de acordo; não havia nada a fazer. Senhora - disse por fim um de seus advogados - se ficar com o m enino, sua nora apresentará um a denúncia e a senhora será obrigada a entregá-lo à polícia, que, por sua vez, o devolverá à m ãe. Eu sugiro que poupe toda essa confusão. A batalha estava perdida. Indira foi para seu quarto e ficou olhando para o m enino, que dorm ia no berço com um a respiração com passada e bem audível. A m ulher era um m ar de lágrim as. Raras vezes na vida a viram chorar tanto, tão arrasada. Para ela, isso era com o a segunda m orte de seu filho. Quando a babá ia levar o m enino, Indira fez um gesto com a m ão, tirou-o do berço e estreitou- o em seus braços, longam ente, consciente de que era a últim a vez que o veria. A seguir, entregou-o, arrasada por dentro, secando as lágrim as do rosto com a ponta de seu sári. Eram m ais de onze horas da noite quando Maneka, levando o desconcertado e sem iadorm ecido Firoz Varun no colo, finalm ente saiu da casa e entrou em um carro acom panhada de sua irm ã. Um a explosão de flashes ilum inou toda a seqüência de sua partida. Fotos em conform idade com a im agem que ela queria passar, de um a nora leal tratada cruelm ente por sua poderosa e autoritária sogra. "Maneka saudando os j ornalistas no carro", dizia a legenda da foto que saiu na m anhã seguinte em todos os j ornais da índia e parte do exterior. O j ornal Indian Express publicou um artigo com parando os esforços da prim eira-m inistra de expulsar a Maneka com o ato de "m atar um a vespa a m achadada". Indira havia perdido, e sabia disso. A alm a de Sônia se partia de vê-la tão arrasada. Ela tam bém sofreu com aquele desenlace, apesar de esperá-lo talvez com m ais lucidez que a própria Indira. Sofreu porque havia cuidado um longo tem po do m enino, desde seu nascim ento. Havia sido um a segunda m ãe para ele. A chegada ao m undo do bebê evocava lem branças de um a felicidade fam iliar reencontrada depois dos sobressaltos da Em ergency . A harm onia havia durado pouco, só até a m orte de Sanj ay, m as deixara um a profunda im pressão em todos os m em bros da fam ília. Priy anka e Rahul tam bém haviam se acostum ado à presença desse prim inho, tão próxim o que o consideravam m ais um irm ão. Durante os dias seguintes, a todos que chegavam para vê-la, Indira dizia: "Sabe de um a coisa? Maneka e Firoz Varun foram em bora de casa", com o se houvesse sido a decisão consensual de dois adultos. O país inteiro sabia, com riqueza de detalhes, o que havia acontecido.

Pintar. Concentrar-se em cada pincelada, sem deixar o pulso trem er. Misturar e tornar a m isturar a tinta na paleta, achar o tom correto, a cor exata. Tirar os óculos e tornar a pô-los. Avançar devagar, passinho a passinho. Raspar com a espátula, alisar, lim par, m anchar com cor, recom eçar... Para Sônia, os cursos de restauração de pinturas antigas a óleo no Museu Nacional eram com o um a terapia que lhe perm itia esquecer durante algum as horas o m ovim ento de seu lar. Esses m om entos roubados proporcionavam -lhe um a intensa e íntim a satisfação, e agora tinha certeza de que essa teria sido sua vocação real se a vida não a houvesse levado por outro cam inho.

E r a um a atividade que lhe perm itia desenvolver seu potencial, seu caráter de m ulher perfeccionista que gostava de arrum ar, reabilitar, rem endar. Para restaurar, tinha que se fazer invisível. Não se tratava de inventar, e sim de interpretar a intenção do artista original. Não era para rebeldes que desej avam im por seu critério. Era para personalidades com o a sua, m aleáveis, pouco am antes da confrontação e dóceis, que acabavam sem pre se adaptando da m elhor m aneira e tirando o m elhor partido do que havia. Agora podia se dedicar a sua paixão porque seu lar voltara a ser um rem anso de paz, com o antes de Maneka entrar nele. E essa paz aj udou Indira a se acalm ar, pouco a pouco, cercada pelo afeto dos netos que restavam e com a certeza de que Sônia cuidava da casa, o que im plicava, por exem plo, organizar um j antar para Mitterrand e seu séquito, ou um a recepção para dirigentes m uçulm anos ao m eio-dia e outra para chefes do partido à noite.

Sônia procurava sem pre aj ustar seus horários e seus com prom issos para coincidir com os m om entos livres de Raj iv e de sua sogra. Sentia que am bos, talvez para com pensar a aspereza da vida política e para se curar da com oção que representou a luta com Maneka, precisavam agora, m ais do que nunca, da estabilidade, da intim idade e das relações diretas e francas que encontravam no universo fam iliar. Entre as quatro paredes do lar, nem Raj iv nem Indira tinham que m edir suas palavras, nem se preocupar com o que diziam ou a quem diziam . Sônia cuidava de um santuário para que se protegessem da confusão da política. Para que desfrutassem do repouso do guerreiro.

"Eu m e dedicava a m eu m arido com um am or incondicional", diria. O m esm o poderia ter dito de Indira. Raj iv era profundam ente grato a ela por ter aceitado dar o passo e m udar de vida, e dem onstrou-lhe: "Com o diz a tradição hindu, um hom em é só m eia pessoa, e sua m ulher é a outra m etade. Com você, sinto-m e exatam ente assim ", deixou escrito um dia em um bilhete antes de ir trabalhar. Naquela época, Nadia, a irm ã m ais nova de Sônia, foi m orar em Nova Délhi com seu m arido, diplom ata espanhol. Era um a garota de traços finos, m orena, com um a inegável distinção natural. Introvertida, gostava de ler, e a influência de seu m arido fez com que se apaixonasse pela literatura espanhola. Sua am bição era ser tradutora de italiano para espanhol. Agora estava m uito ocupada com suas filhas pequenas, m as deixava para o futuro... Para Sônia, era m aravilhoso tê-la tão perto, poder organizar passeios de fim de sem ana com as crianças dos dois casais ou ir a j antares de am igos, onde se reuniam indianos cosm opolitas e europeus residentes na cidade. Nadia e seu m arido tinham um a vida social m uito m ais intensa que a de Ra j iv e Sônia, porque faziam parte do circuito diplom ático na capital da índia. Alm oços, coquetéis, recepções, inaugurações de exposições, lançam entos de livros, concertos, partidas de polo etc, participavam de m uitos atos e nada pressagiava as diferenças que estavam surgindo no casal. Sônia ouvia alguns rum ores, m as, com o sua irm ã não lhe havia dito nada, não lhes deu im portância. Estaria louca se confiasse na boataria local. Mas, um dia, Nadia foi vê-la cedo, enquanto acabava de se arrum ar.

Com o estou? - perguntou Sônia, aludindo ao sári que usava. Está lindíssim a - disse sua irm ã com voz apagada. Aqui só uso sáris, eles nos atacam por eu ser italiana, sabia? Na verdade, sinto-m e confortável das duas m aneiras, da européia ou da oriental. Voc ê pode passar perfeitam ente por um a indiana, não fosse por suas j óias tão discretas, ao contrário das m ulheres daqui... Porém , se eu visto um sári, pareço um a turista vestida de indiana. Um a vez, a m ulher de um político aproxim ou-se de m im para ver a cruz que uso no pescoço e perguntou-m e por que usava um a correntinha tão fina se podia usar um a correntona m ais visível... Aqui valorizam a ostentação, e em um país com tanta pobreza... Sônia sorriu ao lem brar a cena, e quando se voltou, depois de colocar o sári, encontrou sua irm ã chorando.

Mas o que aconteceu?

Nadia não se atrevia a dizer nada. Balbuciava. Sônia teve que usar toda sua habilidade para descobrir o que estava acontecendo. O m arido a enganava. O boato corria no m undinho de Nova Délhi, o que acrescentava hum ilhação à dor.

"Com o pode ser tão irresponsável?", perguntou-se Sônia, furiosa. O diplom ata havia se m ostrado um tanto frívolo. Nem sequer se esforçava para disfarçar seus e nrosc os. O m ais recente, com um a diplom ata da em baixada dinam arquesa, fez Nadia desm oronar.

Ele m e prom eteu que vai rom per, m as não sei se devo acreditar. Para Sônia, foi um golpe vê-la assim . Pediu-lhe que tivesse paciência, que lhe desse um a nova oportunidade, j á que ele havia prom etido. Havia se acostum ado a tê-los em Nova Délhi e lam entava que tivessem que ir em bora. Quem dera a situação com o m arido se arranj asse. Decididam ente, nem todos eram com o Raj iv. Com eçou a sentir raiva do cunhado espanhol.

COMO O CASO DE NADIA COM O MARIDO, a vida é feita de pequenos sofrim entos. No início de 1982, a fam ília viveu a separação de Rahul. Seguindo o costum e herdado dos ingleses, foi m andado para um internato que ficava nas faldas do Him alaia. Fundada por um professor inglês que se tornara diretor depois da independência, a Doon School era um a instituição de excelente reputação, criada à im agem e sem elhança dos colégios britânicos, onde os filhos e netos das classes privilegiadas estudavam . No início, Sônia havia se oposto à idéia. Separar-se de seu filho aos onze anos não faz parte da tradição italiana, m as Raj iv lhe recordou que seus próprios pais a haviam m andado para a escola de freiras de Giaveno.

Sim , m as isso foi a 20 km de casa.

A Doon School ficava a sete horas de Délhi, o que, em escala indiana, era um a curta distância. Ainda assim , foi duro separar-se do m enino. Era o m esm o sofrim ento por que haviam passado o bisavô Motilal e o avô Nehru. Na época, as fam ílias ricas m andavam seus filhos para a Inglaterra quando estes com pletavam sete anos. Raj iv estava tão convencido quanto seu bisavô de que se separar de seu filho, por m ais doloroso que fosse, era um a experiência que aj udaria o m enino a crescer, a ser m ais forte e independente. O que o preocupava, tanto quanto a Sônia, era que Rahul fosse suficientem ente m aduro para se proteger dos ataques e da sanha de seus colegas.

Já tiveram que lidar com esse tipo de problem a quando freqüentavam a escola em Délhi, e tanto Rahul quanto Priy anka eram vítim as das brincadeiras de algum as crianças que debochavam da fam ília. Só que, então, os pais estavam perto para oferecer-lhes seu apoio. "Quando se m eterem com eles lá longe, quem os consolará?", perguntava-se Sônia, inquieta. "Algum as vezes dirão todo tipo de disparates nos j ornais sobre a vovó, sobre m am ãe ou sobre m im ", escreveu Raj iv a seu filho para dar-lhe segurança, "m as você não deve se preocupar. Talvez encontre alguns garotos no colégio que usarão isso para se m eter com você, m as vai descobrir que a m aioria dessas coisas não é verdade... Você tem que aprender a lidar com essas provocações... a não dar ouvidos ao que o possa irritar, a não se deixar afetar."

O m enino ficava sabendo pelos j ornais das inúm eras viagens que seus pais faziam . Naquela época, Indira viaj ava m uito, e sem pre que podia ia acom panhada de seu filho e de Sônia. Juntos foram para Nova York, onde Indira viveu a alegria de reencontrar sua velha am iga Dorothy Norm an, que a descreveu assim : "Lá estava a m ulher que liderava um a sociedade altam ente com plexa de m ais de 700 m ilhões de pessoas, a m aioria pobre enfrentando problem as de todo tipo; um a m ulher ainda ferida pela dor de haver perdido seu filho, m ais triste que antes...".- Sim , estou m ais tranqüila, m ais triste - confirm ou Indira. - Mas seria j usto pedir m ais? A vida foi m aravilhosa com igo, tanto em felicidade quanto em dor. Com o se pode apreciar um a sem a outra?

Dorothy lem braria de Raj iv e Sônia com m uito carinho pela m aneira com o se portavam com ela. Notou Indira m uito orgulhosa de seu filho: "Raj iv fez um trabalho m agnífico com os Jogos Asiáticos", contou-lhe. Os j ogos, inaugurados em 19 de novem bro de 1982, dia em que Indira com pletava 65 anos, haviam sido um a proeza de organização.

Seis estádios, três hotéis de luxo e um bairro inteiro com aloj am entos para os atletas haviam sido erguidos em tem po recorde. A fisionom ia do sul de Délhi m udou para sem pre. Raj iv havia se saído bem em sua prim eira prova, com um a im agem de líder eficaz, m oderno, e de bom gestor, m as a im prensa denunciou as condições de vida dos trabalhadores, na m aioria im igrantes do sul, esquálidos hom ens e m ulheres de pele escura que foram cruelm ente explorados pela legião de interm ediários, em preiteiros, m estres-de-obras, construtores, fabricantes de tij olos, de cim ento e de aço que m anipulavam o orçam ento. Não era tarefa fácil m odernizar a índia. Sim , erguiam -se edifícios vanguardistas, m as quem fazia isso era um a sociedade m edieval, onde as crianças trabalhavam de sol a sol por um a quantidade de dinheiro que lhes era roubada por aqueles que as contratavam . Raj iv havia percebido que o desafio era m udar essa estrutura social carcom ida pela corrupção. Um desafio im enso, porque a sociedade indiana arrastava m ilhares e m ilhares de anos de vícios, de exploração de um as castas por outras, de um as classes por outras. Se em um orçam ento se atribuía um salário de cem rupias por dia a um trabalhador, todos sabiam que acabaria recebendo trinta rupias, na m elhor das hipóteses. O resto ficava com o em preiteiro ou com os interm ediários.

Logo surgiu um detalhe revelador da pobreza do país. Grande parte dos exam es de sangue efetuados em atletas indianos indicava presença de anem ia. Com o pretendiam com petir com j aponeses, coreanos, m alásios? Por tudo isso, os j ogos haviam sido um a vitória agridoce para Raj iv.

RAJIV NEM SEMPRE PODIA ACOMPANHAR SUA MÃE, m as Sônia o fazia cada vez que Indira lhe pedia. Nunca viaj ou tanto: percorreu vários países do Leste, Indonésia, as ilhas Fij i, Tonga, Austrália, Filipinas, bem com o outros lugares da Am érica do Sul. Quando a viagem era para a Europa, aproveitava para dar um pulinho em Orbassano e abraçar os seus. Sônia sem pre evitava as câm eras e não gostava que os funcionários oficiais a tratassem com um a deferência especial por ser nora da prim eira-m inistra, o que costum ava agradar tanto à delegação indiana quanto aos hóspedes estrangeiros. Em Washington, Sônia pôde com provar que Indira continuava sem conexão com os presidentes norte-am ericanos. Dessa vez tratava-se de Ronald Reagan, em quem Indira não conseguia prestar atenção m ais de alguns m inutos, com o se os estragos da doença que m ais tarde o atacaria j á houvessem com eçado. "Percebe?", com entou com sua nora depois da escala em Moscou e de ter se reunido com Brej nev. "O futuro da raça hum ana está nas m ãos de dois idosos, firm es em suas posições, sem flexibilidade nem vontade de iniciar um diálogo." Mas, nesse m om ento, Sônia se preocupava m ais com a saúde de Indira que com o porvir do m undo. Havia notado que sua sogra, quando estava cansada, tinha um tique no olho e suas pálpebras com eçavam a trem er ininterruptam ente. E dorm ia m uito m al. De repente, dizia coisas estranhas: "Quando fecho os olhos, vej o um a velha deform ada que quer m e fazer m al".

De volta a Nova Délhi, Indira disse a sua am iga Pupul: Recebi relatórios secretos dizendo que alguém está realizando ritos tântricos e de m agia negra para m e destruir. Pupul, você acha que existem forças m alignas que podem ser libertadas por m eio de ritos tântricos?

Mesm o que isso sej a verdade - respondeu sua am iga - por que reage assim ? Fazendo isso, só consegue que essas forças se tornem m ais poderosas... Tenho, então, que ignorar esses relatórios que recebo a cada dia? O que devo fazer? Pupul e Sônia estavam perplexas. Será que esse com portam ento era fruto da solidão interna que, no fundo, nunca a havia abandonado desde m enina, desde que esperava sozinha em casa que seus pais voltassem da prisão ou do sanatório? Não via seu neto Firoz Varun havia quase dois anos, e tanto Sônia quanto Pupul percebiam que a dor da separação fazia estragos no coração de Indira. Mantinha sua com postura estoica, m as no fundo estava tão ferida que talvez estivesse enlouquecendo.

Sônia não acreditava nisso. Atribuía as loucuras de Indira à influência nefasta do guru Dhirendra Brahm achari, que continuava rondando pela casa, sem pre usando kurtas cor de laranj a. Era com o um a m osca, que, por m ais que se tentasse afastar, sem pre voltava. Estava m ais gordo, o cabelo cinza e desgrenhado caía sobre seus om bros e deixara a unha do dedo m ínim o crescer, e estava tão com prida e dura com o um a navalha, dando a Sônia um noj o difícil de disfarçar. Todos sabiam que o guru assustava Indira com esses supostos "relatórios secretos", m as ninguém sabia o que fazer para evitar. Era incrível: a prim eira-m inistra da índia acreditava com m ais força nesses "relatórios" que nos do Departam ento de Estatística do governo. A verdade era que em seus m om entos de depressão, cada vez m ais freqüentes e intensos, o sobrenatural adquiria um a im portância preocupante.

Havia outra razão que explicava por que utilizava os serviços do guru; é que outro asceta, um sique cham ado Brindanwale, de trinta anos, havia lançado o desafio político m ais grave de sua vida. Aquele hom em era um sim ples pregador, um fundam entalista que pretendia purificar o siquism o, devolvê-lo a sua antiga ortodoxia e lutar por um a pátria sique. O conflito com os siques rem ontava à Partição, que, com toda sua coleção de horrores e m assacres, causou um traum a na consciência dessa com unidade nascida no século XV para lutar contra a idolatria e o dogm a das duas religiões dom inantes na época, o hinduísm o e o islam ism o. Em 1947, a Partição dividiu a pátria dos siques, o Punj ab, "o país dos cinco rios", um a das regiões m ais belas e férteis da Índia, um a paisagem de cam pos dourados de trigo e cevada atravessada por rios de águas prateadas. A fronteira entre o Paquistão e a índia traçada pelos ingleses cortou seu território pela m etade. O Punj ab ocidental tornou-se parte do Paquistão; o Punj ab oriental perm aneceu na índia, com um a população m etade sique m etade hindu. Com o reação, um forte sentim ento separatista cresceu na população sique.

O curioso de Brindanwale é que havia sido descoberto por Sanj ay . Preocupado com o avanço do partido nacionalista m oderado que tirava m uitos votos do Congress em Punj ab, Sanj ay pensou que, ao apoiar e prom over Brindanwale, conseguiria dividir e debilitar o nacionalism o sique. O problem a, que ninguém soube prever, é que Brindanwale se tornou incontrolável e acabou se transform ando em um m onstro que agora am eaçava sua m ãe.

Parecia um asceta saído diretam ente da Idade Média, com um a barba preta, longa e sedosa que chegava até a cintura. Tinha penetrantes olhinhos escuros, nariz aquilino, rosto severo e seco, e usava sem pre um turbante. Vestia um a longa túnica azul e exibia com orgulho seu kirpan (sabre) de um m etro de com prim ento na cintura. Com seus dois m etros de altura, sua presença era im pressionante. Seus discursos, im pregnados de um ardor fanático, entusiasm avam m uitos siques que sonhavam com um a independência dos dem ais indianos. Havia abandonado sua m ulher e filhos para liderar um a legião de seguidores, tão extrem istas quanto ele. Sanj ay não contara com o fato de que, crescendo sua influência e reunindo m ais gente a sua volta, tam bém cresceria a am bição de Brindanwale e seu desej o de autonom ia. Pouco depois das eleições de 1980, em que participou ativam ente da cam panha apoiando o Congress e até dividiu o palanque com Indira em um a ocasião, o asceta decidiu que não queria ser m ais um a m arionete dos Gandhi E rom peu seus vínculos com o partido. Com o tem po, ele e seus seguidores acabaram exigindo a criação de um Estado soberano cham ado Khalistan, "o país dos puros". O país dos siques. O problem a é que fizeram isso utilizando a violência com o m eio de intim idação e de pressão. Em 1981, Brindanwale foi acusado de ordenar o assassinato do dono de um a rede de j ornais do Punj ab cuj a linha editorial era m uito crítica com suas atividades e seu ideário. Mas sua prisão provocou um a onda de m anifestações tão violentas e destrutivas que o governo central interveio. Hesitante, sem saber realm ente que rum o seguir, a própria Indira ordenou ao m inistro do Interior que o libertasse depois de apenas três sem anas. Fez isso j ustam ente para não transform ar Brindanwale em um m ártir, m as j á era tarde dem ais. Havia entrado na prisão com o um fanático pre ga dor de províncias e saíra com o herói nacional. Fez um a turnê pelas grandes cidades provando sua im ensa popularidade entre os siques da diáspora. Mas sua volta ao Punj ab coincidiu com um aum ento da violência Todo dia apareciam nos becos de Am ritsar ou lallandar corpos de hindus ou m uçulm anos degolados. Em vários tem plos, fiéis hindus descobriram , horrorizados, cabeças de seu anim al sagrado, a vaca, j ogadas aos pés dos altares.

Continuar: parte 3 de 7