O Sári Vermelho

Javier Moro · Capítulo 4 de 6 · parte 4/7

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O Sári Vermelho

Ato Iii - a Solidão e o Poder

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

"Talvez possam salvá-la!" Mas, por m ais esforços que o m otorista fizesse, era im possível vencer o trânsito. Esses condutores letárgicos não podiam im aginar que nesse Am bassador branco que nem sequer dispunha de sirene j azia o corpo da m ulher que regia seus destinos há m ais de vinte anos. Na m ente de Sônia atropelavam -se perguntas, em desordem , com o um vulcão em erupção: "Onde está Raj iv? Com o vou avisá-lo? Onde estão as crianças? Tenho que m andar buscá-las! Meu Deus, m am ãe, não m orra!". Havia sangue por todos os lados: no robe de Sônia as m anchas eram de um verm elho vivo, no belo sári de Indira haviam adquirido um tom m arrom . Os bancos forrados de veludo tam bém estavam ensopados, form a ndo um a enorm e m ancha preta. Mas, ainda assim , Sônia continuava se negando a acreditar que o pior havia acontecido, que tudo estava acabado para a m ulher que até esse dia havia sido o pilar de sua existência. No fundo, j á pressentia que as balas dos assassinos haviam feito outras vítim as: sua felicidade e a de sua fam ília.

À s 9h32, ou sej a, dezesseis m inutos depois do atentado, chegaram ao hospital. Mas ninguém havia ligado de casa para avisar que a prim eira-m inistra estava prestes a chegar. Quando os j ovens m édicos do pronto-socorro a reconheceram , entraram em pânico. Um deles teve a presença de espírito de cham ar um especialista em cardiologia, e m inutos depois um a equipe dos m é dic os m ais veteranos do hospital desceu para cuidar de Indira. Fizeram -lhe um a traqueostom ia para fazer o oxigênio chegar a seus pulm ões e colocaram -lhe vários tubos para um a transfusão de sangue. Decidiram levá-la ao centro cirúrgico do oitavo andar. Ali, o eletrocardiogram a m ostrou fracos sinais de batim entos cardíacos. Avisaram Sônia, que estava sozinha, na antessala. Um a tênue luz de esperança brilhou em seus olhos úm idos. Disseram -lhe que os m édicos estavam fazendo um a vigorosa m assagem cardíaca em Indira, m as abstiveram -se de explicar que estava claro, pela dilatação das pupilas, que o cérebro estava

irrem ediavelm ente com prom etido. As balas haviam perfurado o fígado, os pulm ões, vários ossos e a coluna vertebral da prim eira-m inistra. "É um a peneira", disse um m édico. Só o coração havia se salvado. Ainda assim , durante quatro horas, os m édicos tentaram fazer um m ilagre.

Sônia m al podia controlar seu trem or. A idéia de que o inim igo estava dentro de casa era aterrorizante. Em quem confiar? E se algum funcionário, algum em pregado, algum secretário estivesse m ancom unado? Era com o se todas as certezas da vida houvessem desm oronado de um a vez. De novo essa sensação de andar em areias m ovediças, onde nada é o que parece e tudo pode m udar de um m inuto para o outro! "Meu Deus, e as crianças?!" Não podia evitar pensar no assassinato de Sheikh Rahm an e de toda sua fam ília. O filho dele tinha a m esm a idade de Rahul. Será que alguém foi buscar as crianças no colégio? Se pelo m enos pudesse falar com sua irm ã! Mas Nadia não estava em Nova Délhi nesses dias.

Foi Pupul Jay akar, a m elhor am iga de Indira, quem chegou prim eiro e a acalm ou. As crianças estavam em casa, a salvo, e estavam tão serenas quanto se podia estar nessas circunstâncias. Pupul disse que a notícia ainda não havia vazado e que o m ovim ento na rua era norm al. "Encontrei Sônia em estado de choque" contaria m ais tarde. "Quase não conseguia falar. Com eçou a trem er, e eu não quis fazer perguntas." Pupul havia levado roupa para ela, e Sônia trocou o robe m anchado de sangue por um sári. Na hora seguinte, com eçaram a chegar outros am igos, m em bros do partido e do governo. Sônia teria gostado de expulsar todos da sala, todos m enos os am igos íntim os e os com panheiros que haviam m ostrado sua lealdade inquebrantável pa ra com Indira, tão poucos que podiam ser contados nos dedos de um a m ão. Mas isso era esquecer que Indira não era só m ãe de seu m arido, e sim de todo um povo. Seu assassinato se revestia de um a gravidade extrem a. O país estava sem cabeça, sem tim ão.

Ninguém ainda sabia se o atentado fora um a vingança pontual contra Indira ou se fazia parte de um com plô m ais am plo para acabar em golpe de Estado. Era disso que tratavam as conversas sussurradas nos corredores do hospital entre m em bros do governo e da oposição, enquanto o vice- presidente conversava com altos oficiais do governo em um quarto do andar inferior. Debatiam sobre o futuro do país, porque Indira j á era passado. Estava prestes a entrar na História. Às 14h22, cinco horas depois de ser alvej ada por hom ens cuj a m issão era proteger sua vida, os m édicos declararam que Indira Gandhi havia m orrido. Dez m inutos depois, a BBC dava a notícia ao m undo.

A 3 MIL QUILÔMETROS DE DISTÂNCIA, o Am bassador de Raj iv corria o m ais rapidam ente possível por um a estrada estreita e cheia de rem endos do estado de Bengala, desviando de elefantes, carroças, m otos, cam inhões lotados de m ercadorias e gente, m uita gente. Queria chegar a Calcutá o m ais cedo possível para, dali, voar para Délhi e talvez chegar a tem po de se despedir de sua m ãe. Seu percurso de pré-cam panha eleitoral havia sido interrom pido quando, a 200 km ao sul de Calcutá, seu carro foi interceptado por um j ipe da polícia. Um agente entregou-lhe um bilhete: "Houve um acidente na casa da prim eira-m inistra. Cancele todos os com prom issos e volte im ediatam ente a Délhi". Pelo rádio do carro que circulava por um a paisagem de cintilantes arrozais e aldeias de adobe, Raj iv soube que sua m ãe havia sido baleada por seus seguranças e levada para o hospital, onde os m édicos tentavam salvá-la. Reagiu com aprum o e tranqüilidade, talvez porque ainda abrigava um a leve esperança de que ela sobrevivesse. Depois de duas horas e m eia de estrepitosa viagem , quando estavam a uns 50 km de Calcutá, um helicóptero da polícia interceptou seu carro. Raj iv entrou no aparelho, que o deixou no aeroporto, onde um Boeing da Indian Airlines o estava esperando para levá-lo para casa. Ele fez a viagem na cabine, com os pilotos, que estavam em contato por rádio com a capital. A ausência de notícias o fez sentir que não tornaria a vê-la viva. Foi por m eio de um a com unicação cheia de interferências que soube, por fim , que a m ãe havia falecido. Ficou quieto, sem falar, sem chorar. Os Nehru não choram em público quando são atacados, sem pre haviam lhe ensinado isso. Parecia que a notícia não o surpreendera, talvez porque certo sentido de fatalidade, parecido com o que sua m ãe tinha, o em bargava.

No hospital, depois do anúncio dos m édicos, Sônia pediu a Pupul que a acom panhasse até sua casa.

Queria pegar roupa para vestir Indira para sua últim a viagem . Além do m ais, Sônia queria ver seus filhos e sair desse hospital invadido de gente. Lá fora, a atividade das ruas parecia norm al. A notícia ainda não havia vazado. Quando chegou a sua casa e seus filhos lhe perguntaram : "Com o está a vovó?", Sônia desm oronou. Seus soluços sufocavam suas palavras. Mas eram necessárias palavras? Rahul agarrou-se a sua m ãe e Priy anka correu para dentro da casa e voltou com o inalador. Sônia não precisou dele, e pouco a pouco foi se acalm ando. A seguir, depois de lhes dar todas Página 351

as explicações, Pupul e Sônia foram ao quarto de Indira. Para sua viagem final, escolheram um de seus sáris favoritos, rosa antigo, e um corpete que lhe fora presenteado por um velho sábio que ela adm irava m uito.

As crianças não quiseram ficar em casa. Elas tam bém desej avam ver a avó pela últim a vez, e não queriam deixar sua m ãe nesse estado, de m odo que Sônia e Pupul as levaram na volta ao hospital. O am biente da rua havia m udado por com pleto. As loj as estavam fechando. "Víam os hom ens com rostos ansiosos pedalando com rapidez para voltar para casa", diria Pupul. A m edida que se aproxim aram do hospital, viram cada vez m ais gente cam inhar na m esm a direção. Tanta era a afluência que a polícia bloqueou a entrada principal, de m odo que tiveram que utilizar um a entrada de serviço.

Na m esm a hora, Raj iv aterrissava no aeroporto Palam com um nó no estôm ago. Nem Sônia nem seus filhos estavam lá para recebê-lo, os únicos que realm ente queria ver nesse m om ento. Porém , na pista, ao pé da escada, esperavam -no seus aj udantes, alguns am igos e, principalm ente, m uitos políticos do Congress. Já estavam ali. Raj iv logo soube o que queriam lhe pedir. Exigiam que, gostasse ou não, fosse o próxim o prim eiro-m inistro da índia. Uns am igos o levaram ao hospital. Eles tam bém estavam de acordo com a idéia de que ele devia suceder sua m ãe. Ninguém parecia discordar daquilo que se considerava um a lei de vida. Além do m ais, era a m elhor coisa que podia lhe acontecer, para sua segurança e de sua fam ília, porque disporia de todo o poder do Estado para protegê-los. Era um argum ento poderoso, que foi crescendo em Raj iv.

Mas quem tem que decidir isso é o partido e o presidente da República - obj etou. - O presidente é o encarregado, por lei, de escolher quem deve form ar o governo. Ele j á tom ou a decisão.

Mas ele não está em Délhi!

Já nos com unicou. Você tem que aceitar, Raj iv, é o m elhor para vocês.

No avião em que voltava de um a viagem oficial ao Iêm en, interrom pido pela notícia do assassinato de Indira, o presidente da República, velho am igo da fam ília Nehru, j á havia tom ado a decisão de pedir a Raj iv que fosse prim eiro-m inistro. E ainda, que assum isse o cargo im ediatam ente, agora m esm o, sem deixar passar m ais tem po. O m om ento era de extrem a im portância. A m orte de Indira pelas m ãos de pistoleiros siques fazia tem er um a explosão de violência entre com unidades, o pesadelo de todo dirigente indiano. Por isso, era urgente evitar o vazio do poder, para m anter o país unido diante de tal am eaça, que podia acabar com a ordem constitucional e, por fim , com a índia com o nação. Assim lhe disse o m em bro decano do partido, no aeroporto m esm o: "Não devem os deixar o trono vazio, é m uito perigoso". Quando, m ais tarde, o presidente da República explicou as razões de sua escolha, disse que devia escolher um novo prim eiro-m inistro do Congress porque era o partido com m aioria esm agadora no Parlam ento. E quem m elhor que Raj iv, que tinha um a reputação inatacável e era j ovem e inteligente? Existia outra razão, que não tinha nada a ver com os m éritos profissionais de Raj iv: é que essa era a escolha de que Indira teria gostado. "Eu conhecia sua m aneira de pensar e sabia o que ela queria", confessou o presidente, "m esm o que nunca tenham os discutido o assunto especificam ente. Sim plesm ente, eu sabia com o ela era." De m odo que Raj iv se viu em um beco sem saída. Do além , a voz de sua m ãe retum bava em seus ouvidos.

Se nunca a havia abandonado em vida, faria isso agora, na m orte? Já havia tom ado a decisão de entrar na política. O que o país lhe pedia era a lógica conseqüência disso. Nunca quisera ser prim eiro-m inistro, no m áxim o ter um cargo no governo, m as às vezes a vida se acelera e não perm ite escolher.

No traj eto pelos corredores do hospital, Raj iv foi encontrando um a série de personagens que haviam feito parte da vida de sua m ãe, incluindo um a chorosa Maneka, o inefável guru Dhirendra Brahm achari, que repetia que Indira o deveria ter ouvido para conj urar o perigo que rondava sua vida, m inistros e funcionários públicos, aj udantes e secretários que choravam em pequenas rodas. Os barões do partido estavam todos no hospital e aproveitaram sua chegada para lhe dizer que o queriam com o novo líder do Congress e, em conseqüência, novo líder da nação. Todos davam por certo que falavam com o futuro prim eiro-m inistro. "Você tem que aceitar", diziam -lhe. "Se não por você, faça isso por sua m ulher e seus filhos, por sua segurança. E por sua m ãe, pela m em ória de seu avô, pela fam ília, pela índia."

Eram 15h15 quando Raj iv chegou à sala adj unta ao centro cirúrgico. Fundiu-se em um abraço com Sônia, que rom peu em soluços. Talvez e lem brasse daquele prim eiro encontro com Indira em Londres, quando entrara em pânico. Quem pensaria, então, que a am aria tanto, e que ela os deixaria assim , sozinhos diante do abism o?

Depois Raj iv abraçou as crianças, que estavam m uito assustadas. A onda de terror que o atentado havia desatado propagara-se com o um a epidem ia. Um grupo de fanáticos, depois da Operação Blue Star, havia j urado exterm inar os descendentes de Indira até a centésim a geração. Quem se r ia o próxim o?"... Papai, m am ãe, nós?" Quem poderia saber se por trás de qualquer enferm eiro, de qualquer visitante, de qualquer um dos m uitos que percorriam os corredores desse hospital não se escondia outro terrorista assassino? Onde a fúria vingadora dos extrem istas siques se deteria?

Não teve m uito tem po de consolar sua fam ília porque as pessoas o solicitavam constantem ente. O país exigia sua atenção, sem sequer dar-lhe tem po de chorar a m orte de sua m ãe e acalm ar os seus. "Lem bro que senti a necessidade de estar a sós com ele, nem que fosse só por um instante", diria Sônia. Levou-o para um canto do centro cirúrgico, a poucos m etros de onde os m édicos estavam costurando o corpo de Indira. Cheirava a form ol e éter. A branca luz dos néons m ostrava, com toda sua crueza, as feições devastadas do rosto outrora suave de Raj iv.-Vão m e nom ear prim eiro-m inistro - disse a ela em um sussurro. Sônia fechou os olhos. Era a pior coisa que podia ter ouvido. Era com o o anúncio de um a segunda m orte no m esm o dia. Raj iv segurou as duas m ãos dela e continuou sussurrando as razões que o obrigavam a aceitar o cargo.

Sônia, essa é a m elhor m aneira de nos protegerm os, acredite. Disporem os da m áxim a proteção. Agora, é o que necessitam os.

-Vam os m orar em outro lugar...

E você acha que estarem os seguros em outro país? Estam os todos na lista negra dos extrem istas, e esses fanáticos são capazes de atacar em qualquer lugar. Não, Sônia, não nos resta outro rem édio senão viver protegidos constantem ente, pelo m enos até que a am eaça passe. Sônia chorava desconsoladam ente. Sabia o que isso significava. Significa ter que viver em um am biente claustrofóbico, que as crianças não poderiam desfrutar de um a vida norm al... Isso era viver? E a felicidade nisso tudo? Essa felicidade à qual tão com odam ente haviam se acostum ado? Eu suplico, Raj iv, não deixe que façam isso - pediu-lhe Sônia. Garanto que é para o nosso bem .

P a ra o nosso bem ? Mas esse sistem a de proteção de que você falou m ostrou ser totalm ente ineficaz. Um a prim eira-m inistra baleada em sua própria casa, e nem sequer a equipe de em ergência m ais básica à m ão... Você não percebe? Avisaram -na de que devia prescindir de seus guardas siques, m as ela não lhes deu ouvidos... O que quer dizer, que ela teve culpa?

Ela deveria ter ouvido o chefe da polícia e o da Inteligência. Estaria conosco agora se houvesse feito isso.

Ele a abraçou de novo. Ela prosseguiu:

Meu Deus, m atarão a você tam bém .

Não tenho escolha, vão m e m atar de qualquer m aneira, estej a ou não no poder... Por favor, não aceite, diga-lhes que não...

Não posso, m eu am or. Você se im agina vivendo sem pre com m edo, aqui, na Itália ou onde quer que estej a? É o que aconteceria se eu não aceitar. É assim que você precisa encarar. É m eu destino. Nosso destino... Há m om entos em que a vida não nos deixa escolher porque não há escolha possível. Aj ude-m e a aceitar isso.

Oh, não, m eu Deus, não!... - m urm urava Sônia im ersa em um m ar de lágrim as. - Vão m atá-lo, vão m atá-lo... - repetia enquanto o secretário oficial de Indira, P. C. Alexander, os interrom pia. A roda da sucessão não podia esperar. Era urgente pô-la em m archa. Tom ou Raj iv pelo braço. Tem os que organizar a posse - disse em voz baixa. Vou para casa trocar de roupa - respondeu Raj iv. - Estarei antes das seis no palácio do presidente da República.

Então, Sônia soube que não havia nada a fazer, que novam ente tinha que se render a forças que eram m ais fortes que ela e que nunca poderia controlar. Que podia ela fazer contra um país que ficara órfão e exigia a cabeça do filho? Quando Raj iv lhe deu um beij o na testa e se lentam ente dela, Sônia, vítim a de um a indefinível sensação de m elancolia, sentiu um rasgo nas entranhas, c om o quando estava no Am bassador segurando a cabeça de um a Indira m oribunda em seus braços.

À NOITE DESSE MESMO DIA CELEBROU-SE a cerim ônia de posse de Raj iv Gan-dhi com o sexto prim eiro-m inistro da índia, no salão Ashoka do Palácio do Presidente da República, o m esm o lugar onde seu avô e sua m ãe haviam sido investidos no m esm o cargo. Dos seis prim eiros- m inistros, três haviam pertencido à m esm a fam ília e os outros três haviam sido m uito breves. Em 36 anos de independência, os Nehru haviam sido prim eiros-m inistros durante 33 anos. Indira havia sido a terceira a m orrer no cargo, m as a prim eira de um a m orte violenta. Não foi um a cerim ônia anim ada, com o caberia em circunstâncias norm ais. Lá estava um hom em j ovem , a quem não haviam dado tem po de assim ilar a m orte de sua m ãe e sua repercussão na nação, obrigado a aceitar o papel m ais difícil e exigente a que qualquer cidadão da índia podia aspirar. Sem querer nem desej ar.

Antes de aceitar, Raj iv havia deixado claro que m anteria o governo anterior, sem m em bros novos nem m udanças de cargos. A seguir, celebrou seu prim eiro conselho de m inistros, e o debate girou em torno aos funerais de Indira. Decidiram instalar a câm ara-ardente na Teen Murti House, antiga residência de Nehru, o palacete onde Raj iv havia passado sua infância.

Usha, a fiel secretária, foi um a das prim eiras a chegar, e assim descreveu sua antiga chefe, estendida no féretro, o corpo am ortalhado, m as o rosto descoberto: "Seu rosto estava inchado e sem cor. Melhor que não tenha se visto assim , porque não teria gostado, ela que sem pre andava tão bem arrum ada e que cuidava tanto de sua aparência". O m esm o deve ter pensado Sônia. A televisão captou um m om ento curto e intenso, um gesto que ficou gravado na m em ória de m ilhões de indianos e que falava, m ais que qualquer declaração escrita ou expressa oralm ente, do vínculo que unia as duas m ulheres. Sônia, serena, passou um lenço pelo canto dos lábios de Indira para secar o brilho da pele. Com o se, em vez de m orta, estivesse viva e continuasse precisando de seus cuidados. Assim , a lealdade sobrevivia à m orte.

Passadas as 23h, o novo prim eiro-m inistro apareceu na televisão, em discurso que foi transm itido por rádio ao m undo inteiro. Sônia estava no estúdio de gravação, o coração partido ao ver que o poder seqüestrara seu m arido, usando sem escrúpulos os sobrenom es Nehru-Gandhi para m anter o país unido em tem pos de crise. Não era um a crueldade ter pedido a alguém com tão pouca experiência em política com o seu m arido que aceitasse um cargo que precisava de tanta experiência, pelo m enos nesses tem pos tão difíceis? "Indira Gandhi foi assassinada", Raj iv com eçou dizendo diante das câm eras. "Sabem quão perto de seu coração estava o sonho de um a índia próspera, unida e em paz. Por causa de sua m orte prem atura, seu trabalho foi interrom pido. Cabe a nós concluí-lo." Seu discurso e o tom de em oção contida com que o pronunciou recordaram a m uitos o discurso que Nehru, seu avô, havia feito após o assassinato de Gandhi. Na época, Nehru teve m edo que os m uçulm anos fossem culpados pelo m agnicídio, por isso apressou-se a dizer alto e claro que o culpado havia sido um fanático hindu. Trinta e seis anos depois, Raj iv Gandhi não fez referência algum a aos assassinos de sua m ãe, ou a seus m otivos. Aludiu à natureza religiosa do assassinato quando fez um apelo à calm a e à unidade, dizendo que nada doeria m ais à alm a de Indira Gandhi que um surto de violência em qualquer lugar do país.

Mas a violência j á havia explodido. Prim eiro com eçou nos arredores do hospital, quando vários táxis conduzidos por siques foram apedrej ados e um tem plo sique incendiado. Qualquer hom em de turbante parecia suspeito de repente. Os siques tiraram suas crianças das ruas, trancaram -se em casa, baixaram as persianas e apagaram a luz, tentando se fazer invisíveis. As m ulheres olhavam espantadas por entre as frestas. Um ou outro sique corria para buscar refúgio. Para outros, não havia refúgio. Sabiam que o assassinato de Indira Gandhi os transform ara em alvo da ira do povo. Ao cair da noite, form aram -se grupos nos becos, a m aioria hindu, alguns com paus na m ão, outros incitando a caça aos siques. Foi um a noite negra, ainda m ais escura pela onda de ódio e terror que se abateu sobre a cidade, que m al dorm iu. A intensidade dos m assacres aum entava à m edida que surgiam rum ores de que os siques haviam envenenado os depósitos de água potável da capital, ou que um trem cheio de hindus que vinham do Punj ab fora atacado. Não era verdade, m as as pessoas acreditavam . Bandos de desordeiros, que no início destruíam casas e com ércios de propriedade sique, a seguir tiraram de seus lares hom ens e crianças com turbante para despedaçá-los a m achadadas diante de suas m ulheres horrorizadas. Nas ruas, grupos de hom ens caíam sobre os siques, surravam -nos até a m orte ou encharcavam -nos de gasolina para atear fogo. Fam ílias inteiras foram esfaqueadas em trens e ônibus.

A polícia não se atrevia a intervir, por pura indolência e tam bém porque, no fundo, estavam de acordo em se vingar dessa turbulenta m inoria. Durante três dias, enquanto m ilhares de pessoas desfilavam diante do corpo de Indira Gandhi, dentre os quais se encontravam estrelas de cinem a, chefes de Estado, líderes políticos, am igos, fam iliares e m ilhares de cidadãos que nunca haviam conhecido Indira, m as que sentiam profundam ente sua perda, a orgia de violência continuou se estendendo. Mais de 2 m il carros, cam inhões e táxis foram queim ados, bem com o um a enorm idade de fábricas de propriedade de fam ílias siques, com o a de Cam pa Cola, a resposta indiana à Coca- Cola, que pertencia a um velho am igo de Sanj ay que os havia aj udado em tem pos de penúria. Os j ornalistas docum entaram um episódio particularm ente atroz em um bairro da m argem direita do rio Yam una, onde um grupo bem organizado m atou, de m aneira sistem ática, todos os siques, diante da passividade da polícia. Nem sequer lhes davam a oportunidade de se salvar, porque ateavam fogo às casas com seus habitantes dentro. Um a das j ornalistas que foi testem unha do acontecido ligou para Pupul: "Por favor, faça algum a coisa, a situação é trágica", disse com voz assustada.

Pupul ficou perplexa. Até m uito pouco tem po, teria sabido o que fazer. Pegaria o telefone e ligaria para sua am iga Indira, que teria agido im ediatam ente. Mas, agora, não sabia a quem se dirigir. De m odo que ligou para o m inistro do Interior, que casualm ente estava reunido com Raj iv no núm ero 1 da Safdarj ung Road. Falou-lhe sobre os m assacres, os estupros, o horror que estava acontecendo a m enos de 10 km de onde se encontravam . "Fale com o prim eiro-m inistro", disse e le , e ato contínuo passou para Raj iv. Pupul repetiu o que j á havia contado. "Era difícil, para m im , dirigir-m e a Raj iv com o prim eiro-m inistro, era difícil entender que o enorm e poder e a m aciça autoridade de Indira agora recaíam sobre ele." Raj iv pediu-lhe que fosse a sua casa, onde Pupul contou com m ais detalhes tudo o que sabia. O prim eiro-m inistro parecia desconcertado e indeciso.

O que faço, Pupul? - perguntou-lhe.

Não m e cabe dizer o que o prim eiro-m inistro deve fazer - respondeu ela. - Eu posso lhe dizer o que sua m ãe faria. Cham aria o Exército e m anteria a ordem a todo custo. Apareceria na televisão e, com todo o prestígio de seu cargo, deixaria bem claro que em hipótese algum a consentiria os m assacres.

Aj ude -m e a redigir um discurso com o os que m inha m ãe faria - pediu Raj iv enquanto a acom panhava até a porta. - Por favor, faça isso j á, é urgente. Pupul fez, m as, quando se sentou em frente à tevê, não foi Raj iv quem apareceu, e sim o Ministro do Interior. Pupul pensou que Raj iv não era um a presença suficientem ente contundente para acalm ar os ânim os. Pareceu-lhe que o discurso não tinha a angústia do filho e da autoridade de um prim eiro-m inistro. De fato, o Exército não foi cham ado a intervir essa noite por m edo de inflam ar ainda m ais os ânim os, de m odo que o terror e a barbárie continuaram . Essa indecisão foi atribuída por m uitos à inexperiência de Raj iv. Mas a verdade é que estava intim idado pelos acontecim entos, ainda sob o traum a da perda da m ãe e de encontrar-se com as rédeas do poder sem saber com o esse poder funcionava.

Havia tanto pânico entre os siques que pela prim eira vez na vida m uitos deles tiraram o turbante e cortaram a barba e o cabelo para se salvar. Uns 100 m il fugiram da capital. O escritor Kushwant Singh refugiou-se com sua m ulher na em baixada da Suécia: "O que as turbas queriam eram os bens dos siques, os aparelhos de tevê e as geladeiras, porque som os m ais prósperos que os outros. Matar e queim ar gente viva só era parte da diversão". Ao anoitecer, grupos de siques se dispersavam pela cidade buscando refúgio. Dois deles chegaram à casa de Pupul e surpreenderam a m ulher do dhobi, o lavadeiro, que a essa hora devia estar participando dos distúrbios.

Diante dos gritos de susto da m ulher, os siques saíram correndo, m as Pupul teria lhes dado abrigo por essa noite, com o fizeram tam bém m uitas fam ílias hindus. Da m esm a m aneira que m uito poucos siques haviam sido seguidores de Brindanwale, m uito poucos hindus queriam se vingar dos siques. Mas aqueles que o fizeram foram de um a crueldade que lem brava os tem pos da Partição. Em três dias, cerca de 3 m il foram m assacrados.

Na tarde de 2 de novem bro, Raj iv finalm ente apareceu na tevê exigindo o fim da violência. "O que aconteceu em Délhi desde a m orte de Indira Gandhi é um insulto a tudo o que ela defendia", disse claram ente. No dia seguinte, m andou o Exército intervir. Im pôs o toque de recolher e entrou com tanques nos bairros m ais conflituosos com ordem de disparar contra todo aquele que fosse surpreendido em flagrante delito de agressão. Em 3 de novem bro, enquanto a paz era im posta pela força, celebrava-se a crem ação de Indira m uito perto de onde havia sido a de Nehru e a de Sanj ay , na m argem do rio. Raj iv deu sete voltas na pira funerária de sua m ãe antes de colocar um a tocha entre os troncos de sândalo. As cham as foram se espalhando enquanto o sol tingia o céu de laranj a, verm elho e ouro. Um im pressionante elenco de personalidades estava presente, dentre as quais se encontravam George Bush pai, Madre Teresa, m em bros da realeza européia, artistas e escritores, m agnatas dos negócios, cientistas e chefes de Estado. Para um a elegante senhora vestida de preto, esses funerais tinham um a im portância m uito particular. Margaret Thatcher lem brava as ardentes palavras de Indira quando, poucas sem anas atrás, havia ligado depois do atentado do IRA.

"Tem os que fazer algo contra o terrorism o..." havia dito. A silhueta de Raj iv entre as cham as que devoravam o corpo de sua m ãe ficou gravada para sem pre nos olhos de todo o povo com o um a tocha de esperança. "Tudo era caos a sua volta", e sc re ve u um conhecido j ornalista, "m as ele passava um a im agem de confiança, parecia controlar a situação." A Dam a de Ferro britânica com entou: "Vi em Raj iv o m esm o auto-controle que a senhora Gandhi tinha...". Mas Sônia estava absolutam ente desconsolada, e não escondia. "Se alguém houvesse pintado a cena", disse Margaret Thatcher, "sua própria dor teria bastado para transm itir o sentim ento geral." Paradoxalm ente, não havia um a enorm e m ultidão de gente hum ilde, dos m ilhões que haviam venerado Indira com o um a deusa. O m edo dos ataques e a atm osfera de violência que reinava na cidade dissuadiram m uitos de ir lhe prestar a últim a hom enagem .

FIEL ÀS INSTRUÇÕES QUE HAVIA recebido de sua m ãe pouco tem po antes, certa m anhã Raj iv pegou a urna de bronze que continha as cinzas e em barcou em um avião da Força Aérea indiana. Depois de um a hora de voo, sobrevoava a cordilheira do Him alaia, um a crista de picos brancos que se estendia até onde a vista alcança. Abriram -lhe um a com porta no piso do avião, que deixou entrar um ar gelado. Raj iv, usando um gorro de astracã, um a j aqueta de couro, grossas luvas forradas e um a m áscara de oxigênio, pegou a urna, tam bém envolvida em um saco de couro para que seu conteúdo não se congelasse, abriu-a e deixou cair as cinzas sobre as m ontanhas, com o m anda o ritual, para que a m orte voltasse à vida, treze dias depois de Indira Gandhi ter entrado para a História.

Raj iv não teve um m inuto para parar e cuidar de sua própria dor. A vida política continuava e os chefes do partido aconselharam -no a antecipar as eleições gerais. Queriam capitalizar o voto de sim patia que o assassinato de Indira podia provocar. Raj iv entendeu que essas eleições eram m uito im portantes para ele, porque serviriam para adquirir legitim idade popular e não parecer som ente que havia sido designado pelos seguidores de sua m ãe. De m odo que m arcou a data de votação para 26 de dezem bro de 1984. Quis que Sônia o acom panhasse de novo para fazer cam panha na circunscrição de Am ethi, onde Maneka, com seu filhinho no colo, era a candidata rival. Sônia era, agora, a prim eira-dam a do país, e só de pensar lhe dava vertigem . O destino não podia ter escolhido alguém m enos disposto a assum ir esse papel. Um papel que teria enchido de orgulho e satisfação a m aioria das m ulheres, m as que nela causava m elancolia, porque a fazia sentir saudade de sua antiga vida. Que luxo era viver com segurança! Que luxo era poder se dedicar à restauração de quadros, sair com as am igas, ser livre e levar um a vida anônim a! Ainda estavam tão traum atizados que antes da viagem a Am ethi, que coincidia com o sexagésim o-oitavo aniversário de ndira, Raj iv e ela redigiram instruções:

"No caso de m inha m orte ou de m inha m ulher Sônia em acidente, dentro ou fora da índia, nossos corpos devem ser repatriados a Délhi e queim ados j untos, segundo o ritual hindu, em um lugar a céu aberto. Sob nenhum a circunstância nossos corpos serão queim ados em um crem atório elétrico. Segundo nosso costum e, nosso filho Rahul deverá acender a pira... É m eu desej o que nossas cinzas sej am j ogadas no Ganges, em Allahabad, onde foram j ogadas as cinzas de m eus antepassados". Não dizia o ditado que a cobra sem pre m orde duas vezes? Ou sej a, que um a desgraça nunca vem sozinha?Sônia, usando sáris brancos, com o cabia ao luto por sua sogra, descobriu que agora se sentia m uito m ais à vontade entre a m ultidão de Am ethi. "Eu m e tornei assídua freqüentadora desse local", escreveria m ais tarde. "Conhecia as pessoas e seus problem as, e j á não m e sentia um a estranha entre eles." Mas a ausência de Indira se fazia sentir cruelm ente. Ela havia sido o centro do universo fam iliar, um a personalidade forte, confiável, sem pre presente para guiar, aconselhar, anim ar e cercar os seus. O vazio era abism al. Raj iv havia ficado órfão, sem a últim a pessoa de sua fam ília. Um dia, Sônia o estava procurando em casa, m as ninguém parecia saber onde havia se m etido. Por fim o encontrou no antigo estúdio de Indira, observando obj etos e fotos de sua m ãe com o se estivesse rastreando sua m arca.

"Parecia m uito perdido e m uito sozinho", escreveria Sônia. "Muito am iúde, sentia intensam ente sua ausência." Era inevitável. Onde quer que fosse, m esm o nos confins m ais rem otos do subcontinente, via cartazes com o rosto de sua m ãe, sem pre arrum ada, com sua m echa de cabelo branco bem visível e saudando com a palm a da m ão para cim a. Sem pre alguém lhe falava dela, da últim a visita que havia feito ali, do que havia feito por essa com unidade, das crianças que abençoara e até do oficial que repreendera. Indira deixara sua m arca em todo o país, e para Raj iv, às vezes, parecia que continuava viva, que estava prestes a aparecer para reconfortá-lo e dar-lhe ânim o. Não lhe restava outro rem édio senão reunir suas reservas de coragem e força m ental para enfrentar com estoicism o a lem brança de sua m ãe. A turnê eleitoral de Raj iv por todo o país teria sido triunfal não fosse por um grave acidente na cidade de Bhopal, no centro da índia, quando um vazam ento de gás venenoso de um a fábrica de pesticidas, propriedade da m ultinacional norte-am ericana Union Carbide, espalhou-se pelos bairros m ais pobres da cidade, causando m ilhares de m ortos e feridos. Considerado o m aior acidente industrial da História, a tragédia de Bhopal, bem no início de sua carreira, foi vista por m uitos com o um m au augúrio para o hom em que queria a todo custo desenvolver o país e estreitar laços com a elite dos negócios. Raj iv decidiu im ediatam ente visitar a cidade sinistrada.

Preferia que Sônia ficasse em casa, caso o veneno ainda estivesse flutuando pelo ar, m as ela se n e g o u e foi com ele. Assim que chegou, ficaram im pressionados com os efeitos do envenenam ento. Os hospitais estavam lotados de gente que havia perdido a visão, de m ães que choravam a m orte dos filhos, de crianças órfãs e de hom ens desesperados pela aniquilação de suas fam ílias. Diante de tam anha tragédia, m as diatribes sobre a industrialização da índia e seu apelo à preparação do país para o século XXI pareciam palavras vazias. Raj iv percebeu os problem as que o próprio desenvolvim ento era capaz de engendrar. De m om ento, fez a única coisa que podia:

liberou aj uda urgente para as vítim as e prom eteu que o governo lhes daria um a com pensação j usta. Mas isso nunca se conseguiu.

RAJIV ARRASOU NAS ELEIÇÕES de dezem bro de 1984, com um resultado m elhor do que j am ais seu avô ou sua m ãe haviam conseguido. Sônia felicitou-o efusivam ente, a despeito de intuir que essa notícia os aproxim ava um pouco m ais da beira do precipício. Durante os três últim os anos, seu m arido havia sido deputado do Parlam ento responsável som ente por m ethi, e um dos secretários-gerais do partido. Agora, tinha a seu cargo 344 circunscrições e a responsabilidade de governar um im enso, volátil, às vezes ingovernável país m anietado por um gigantesco aparato de Estado. Já escrevera um político inglês: a cordilheira do Him alaia parece pequena com parada com a carga que um prim eiro-m inistro da índia suporta em suas costas. A dinastia havia recebido o m andato do povo, um m andato em escala nacional, m as Raj iv não se iludia sobre as razões de seu sucesso: "Foi sobretudo pela m orte de m inha m ãe... Ninguém m e conhecia realm ente, o que fizeram foi proj etar em m im as expectativas que tinham nela. Eu m e transform ei em sím bolo de suas esperanças."

Quem perdeu estrepitosam ente foi Maneka, a despeito de ter feito um a cam panha m uito dinâm ica. A onda de sim patia por Raj iv, e talvez o fato de ela ser filha de um a fam ília de origem sique, varreram -na do m apa da política, pelo m enos m om entaneam ente. Agora ficava claro quem era o verdadeiro herdeiro do m anto dos Nehru-Gandhi.

P a ra Sônia e as crianças foi ainda m ais difícil lutar para se recuperar do traum a da m orte violenta de Indira, porque, depois de quinze anos vivendo na m esm a casa, tiveram que deixá-la e se m udar para outra considerada m ais segura e m ais apropriada para ser a residência oficial do prim eiro-m inistro, na Race Course Road. Agora que o terrorism o havia se transform ado em um a realidade ineludível da vida política indiana, a fam ília via-se cercada 24 horas por dia por um a im pressionante tropa

de forças de segurança. Em parte, tratava-se de um alarde desnecessário, feito para com pensar todas as falhas com etidas com Indira. A responsabilidade de proteger o prim eiro-m inistro j á não recaía em um a força param ilitar, e sim em um grupo profissional especializado, o Special Pro-tection Group, criado depois do recente m agnicídio. "Sua presença pôs fim ao que restava de nossa privacidade e liberdade", disse Sônia. Certo dia, levou um susto quando estava no j ardim com sua tesoura de podar na m ão e viu no galho de um a árvore um a espécie de m arciano, totalm ente vestido de preto, de gorro, colete à prova de balas e m inim etralhadora em riste. "Estou de guarda", disse o hom em . Em outra ocasião, quando precisou sair com pressa para com prar algum a coisa no arm azém am ericano, outro m arciano, na porta, im pediu-a. Senhora, não pode sair agora.

Com o não posso? Preciso ir à em baixada am ericana, tenho convidados esta noite... Senhora, deve se acostum ar a nos avisar com um pouco de antecedência. Não podem os reagir de m aneira im provisada. Há uns trezentos agentes encarregados da proteção de sua fam ília neste m om ento.

"Agora, não é?", pensou Sônia, que não teve outro rem édio a não ser ligar para sua irm ã Nadia e lhe pedir o favor de com prar o que precisava e levá-lo a sua casa. Em bora fosse desesperador viver assim , o j eito era se acostum ar. Os agentes de segurança quiseram im pedir Raj iv de m anter o costum e herdado de sua m ãe e de seu avô de receber centenas de visitantes bem cedo pela m anhã, que lhe faziam perguntas e o ouviam sentados no gram ado. Mas ele insistiu em m antê-lo, nem que só três dias por sem ana. Era im portante que pudesse m edir o pulso do povo. E tam bém aproveitava para aperfeiçoar seu híndi, que falava com erros de sintaxe e às vezes de pronúncia.

Em casa, acordavam às seis da m anhã com o m orning tea, que era servido em um a bandej a. Às 8h30, toda a fam ília estava reunida para tom ar o café-da-m anhã. Raj iv partia a seguir e Sônia ficava organizando a casa e, quando tinha tem po, lendo e recortando os j ornais. Seus filhos haviam deixado de ir ao colégio no dia do assassinato da avó. Segundo a polícia, era m uito perigoso que fossem a um lugar onde um hom em arm ado pudesse entrar com facilidade. De m odo que agora professores particulares chegavam às dez para lhes dar aula em casa. Sônia aproveitava esse m om ento para sair e fazer com pras ou ir a algum a exposição, andava sem pre im aculadam ente vestida, porque tinha consciência de que sua pessoa era subm etida a um im placável escrutínio público. "Ela tem m ais sáris que Im elda Marcos tem sapatos", dizia um rum or.

O que tinha era a coleção de sáris e de xales de Indira, na m aioria presentes que, na qualidade de prim eira-m inistra, havia acum ulado em todas as suas viagens pela índia. Sônia os havia herdado. À tarde ficava com as crianças e buscavam m aneiras de se distrair sem sair, por exem plo, vendo film es de vídeo. Aos dom ingos, quis m anter o costum e de convidar seus am igos íntim os para o brunch, m as Raj iv raras vezes podia com parecer, de tão ocupado que estava. Mas lhe parecia im portante m anter a aparência de norm alidade. Todos os visitantes, inclusive sua irm ã Nadia e o casal Quattrochi, tinham que ser revistados e passar por um a tripla barreira de detectores de m etais antes de entrar.

Reuniam -se no j ardim e conversavam alegrem ente em italiano, francês, inglês e espanhol enquanto degustavam delícias indianas servidas em thas, típicos pratinhos de latão. Sônia surpreendia com alguns pratos difíceis de preparar na índia, com o lagostins em m olho de alho, que se tornou o favorito dos dom ingos.

Afora esses m om entos roubados, a norm alidade era um a quim era, qualquer pequeno atraso de Raj iv, que se esforçava em fazer as refeições em fam ília sem pre que podia, provocava grandes sustos. Os únicos m om entos de vida norm al eram quando iam passar férias na Itália, no verão e no Natal. Tam bém ali havia vigilância, m as não tão sufocante. Em Nova Délhi, viviam com o prisioneiros. O que Raj iv teve que abandonar totalm ente foram suas paixões, especialm ente a fotografia, na qual havia conseguido um bom conhecim ento. Não tinha tem po de ouvir suas canções preferidas nem de assistir a algum concerto de m úsica clássica indiana com Sônia e seus filhos. Mas estava decidido a continuar sendo um piloto com petente, porque era sua paixão e porque lhe dava certa segurança diante da incerteza da política. Pediu a um colega que o avisasse quando sua licença de voo estivesse prestes a caducar para renová-la acum ulando as horas necessá ria s, o que sem pre podia fazer pilotando ele m esm o os aviões em que viaj ava percorrendo o país. Mas acabou-se o tem po para o que não fosse sua atividade de prim eiro-m inistro: "Para m im , só havia tem po para a ação. Em penhei-m e em restaurar a confiança, a a m iza de e a fraternidade entre com unidades que haviam vivido j untas durante séculos", declarou.

Raj iv havia recebido de sua m ãe um a herança envenenada, o problem a sique. Era fundam ental solucioná-lo para recuperar a convivência geral. Pensou que prim eiro devia dim inuir a tensão, de m odo que com eçou suavizando: declarou que estava aberto a qualquer com prom isso para solucionar o problem a desde que não constituísse um a am eaça à integridade da nação; libertou os extrem istas presos durante os últim os m eses do regim e de sua m ãe e com prom eteu-se a iniciar um a investigação sobre os m assacres de siques em Délhi. O líder do partido sique m oderado, tão desej oso de conseguir a paz quanto o prim eiro-m inistro, acabou assinando os prolegôm enos de um acordo.

Im ediatam ente após, Raj iv anunciou eleições no Punj ab para setem bro de 1985, a fim de transferir a adm inistração desse estado aos siques m oderados e torná-los responsáveis por lidar c o m os extrem istas. Mas o terrorism o continuou, com pequenas bom bas em Délhi e nos arredores, e principalm ente com a explosão de um Boeing 747 da Indian Airlines em pleno voo de Toronto a Délhi. O atentado, que custou a vida dos 325 passageiros a bordo, foi atribuído a dois grupos extrem istas siques. Nessa noite, Raj iv se reuniu com seu governo, e Sônia o esperou acordada até as quatro da m anhã. Tinha m uita consciência da m agnitude da am eaça que recaía sobre seu m arido, e tanto ela quanto seus filhos viviam aterrorizados. Viam os m em bros do Special Protection Group com ceticism o. É verdade, estavam sem pre presentes, talvez dem ais, m as, diante da audácia dos terroristas siques... seriam realm ente eficazes?

Continuar: parte 5 de 7