O Sári Vermelho

Javier Moro · Capítulo 4 de 6 · parte 6/7

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O Sári Vermelho

Ato Iii - a Solidão e o Poder

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

Na realidade, a m aioria dos problem as de Raj iv tinha a ver com sua inexperiência política e sua candura com o ser hum ano. Tinha dificuldade de fixar os lim ites entre a lealdade aos am igos e o bem público. O nom e dos irm ãos Bachchan, am igos de infância em cuj a casa Sônia havia m orado em seus prim eiros dias na índia, viu-se associado a obscuros escândalos financeiros. Um prim eiro- m inistro m ais prudente teria se distanciado deles. Mas Raj iv não o fez, ao contrário, m ostrava-se ressentido porque criticavam seus am igos. Sua m ãe dizia sem pre que em política não existem relações sociais, m as ele era m uito bom am igo para ser bom político. No início, negava-se a adm itir que seus am igos pudessem falhar com ele, e, preferia ver um a conspiração de seus adversários políticos que a verdade. Porém , m uitos am igos de confiança que havia nom eado com o conselheiros acabaram decepcionando-o. Um deles, um piloto, o encarregado de alertá-lo quando sua licença de voo expirasse e de cuidar dos assuntos de sua circunscrição de Am ethi, foi acusado pela im prensa de construir um a piscina de m árm ore im portado da Itália em sua casa. De novo Raj iv, em vez de se distanciar dele, defendeu-o e fez um com entário que lhe causou m ais prej uízo político que se realm ente houvesse com etido um erro de governo.

Disse que m uitos pilotos de aviação tinham casas com piscina, um a declaração que, dita em qualquer país do Ocidente por um chefe de Estado que, além de tudo, houvesse sido piloto de um a linha aérea, não causaria furor algum . Na índia sim . A oposição j ogou na sua cara sua falta de respeito para com a "sensibilidade indiana". Foi m uito criticado pelo costum e de tirar uns dias de férias no Ano Novo com sua fam ília em locais às vezes exóticos, com o as ilhas Lakshadeep, no Oceano Índico, ou nas ilhas Andam an, na baía de Bengala. No Ocidente teria parecido razoável que alguém que trabalhava tanto m erecesse um descanso, que os filhos que viviam enclausurados o ano todo pudessem desfrutar de uns dias de liberdade e segurança; m as, em um país pobre com o a índia, o fato de o m áxim o m andatário passar bem era m alvisto. Na realidade, Raj iv e Sônia seguiam o costum e de se reunir em fam ília no Natal e no Ano Novo, m as em 1988 deixaram de fazer isso na Itália. Em outubro desse ano, Stefano Maino havia m orrido fulm inado por um ataque cardíaco, e pensaram que era m elhor convidar a fam ília a ir a algum lugar que não lhes lem brasse as antigas reuniões ao redor do patriarca.

SÔNIA FOI A ORBASSANO PARA O ENTERRO, praticam ente incógnita, e quase não se m ostrou em público. Além dos problem as de segurança, havia um lógico sentim ento de profunda desolação e a vontade de estar em fam ília, com sua m ãe e suas irm ãs, relem brando, consolando-se m utuam ente. Ao ouvir o ruído da prim eira pá de terra que o coveiro j ogou sobre o caixão, Sônia estrem eceu. Um a parte de sua vida ficava sepultada para sem pre. Não m ais ouviria seus conselhos de sábio m ontanhês que, agora percebia, a haviam m arcado m ais do que sem pre acreditara.

De volta a casa, conversou com Danilo Quadra, o am igo de Stefano, que rem em orou os últim os m om entos da vida do velho pastor dos m ontes Asiago. Contou-lhe que estavam j ogando dom inó no bar do Nino, na praça de Orbassano, com o faziam diariam ente havia anos, e que, assim que voltou para casa, essa casa que para Stefano era o sím bolo de seu sucesso na vida, caiu fulm inado. Morreu sem sofrer. Uns dias depois, Danilo contou-lhe que Stefano estava irritado desde que soubera do recrudescim ento dos ataques contra Sônia na im prensa indiana. "Não gostam de m inha filha ali porque é daqui", disse ele. É verdade? Não acho - disse Sônia. - Os que não gostam de m im são os que estão contra m eu m arido. Ele se irritava porque, pelo fato de você ser italiana, o governo indiano evitava qualquer contrato com em presas daqui - continuou contando Danilo. - Uns dias antes de m orrer, ele m e disse que a Fiat havia feito um a oferta m uito boa de venda de tratores, m as que no fim o contrato havia ficado com os j aponeses... por m edo do governo de seu m arido de ser acusado de favorecer em presas italianas. Isso é verdade? - tornou a perguntar Danilo. Sônia olhou para ele com seus olhos pretos, inchados pelo cansaço e pela dor, e assentiu. Quando ficou sozinha e foi dorm ir naquele que havia sido seu quarto de solteira, perguntou-se, surpresa consigo m esm a: sou realm ente daqui? Seu pai teria se revirado no túm ulo se a ouvisse dizer algo assim , m as sentia um a indefinível sensação de estranheza, de não pertencer m ais a esse cenário que havia sido seu na j uventude. Com o se a m orte de seu pai houvesse precipitado o sentim ento de desarraigam ento.

Sônia tinha dificuldade de se reconhecer no país de sua infância. Sua m ente estava m uito longe das preocupações cotidianas das pessoas de Orbassano para que pudesse se identificar com elas. No fundo, havia vivido m ais anos na índia que na Itália, m ais anos em um am biente voltado aos problem as de governar um sexto da hum anidade que em um am biente orientado ao m ero bem -estar individual. Fazia tem po que seu coração deixara de oscilar entre os dois m undos. Era dali, e a m orte de seu pai veio lhe confirm ar, de um a m aneira secreta, com o se o desaparecim ento de que m m ais se opusera a seu desígnio a fizesse ver com m ais clareza de que lado estava realm ente.

Ficou trancada vários dias em casa, sem vontade de nada. Nem sequer teve forças de ir ver Pier Luigi; não queria falar com ninguém , dar explicações, contar sua vida... Era possível contá-la? Com o pretender que alguém entendesse a vida que levava? Só sua fam ília m ais próxim a podia entender, e agora nem sequer seu pai. Assaltaram -na pensam entos obscuros... "Devia ter sido m ais carinhosa com ele", dizia-se, "devia ter insistido para que fosse m ais vezes a Délhi, ter estado m ais próxim a dele, tê-lo levado ao m édico, e talvez pudessem ter evitado o infarto..." Era um a ladainha de censuras provocadas pela dor im ensa de ter perdido o hom em que, ao lado de Raj iv, m ais am ava. Quando fechava os olhos, lem brava das cócegas do bigode de seu pai em sua face, seu cheiro de sabonete, seu sorriso e seu cenho, suas palavras sem pre aj uizadas, im pregnadas de um bom senso m uito básico. Lem brava quando a levava a visitar um a obra acabada, e ele lhe m ostrava com orgulho o trabalho bem -feito. "Por que foi em bora tão rápido?" perguntava-se Sônia. Lem brou-se de Indira, que havia perdido seu m arido de um infarto, que é com o quando se apaga a luz de repente. Ou quando explode um a bom ba e deixa um a cratera. Dizem que é m elhor m orrer assim , m as Sônia teria gostado de se despedir dele, de lhe dizer quanto o am ava... m esm o que só um a vez. Achava tão estranho que seu pai não estivesse m ais ali que um a noite se levantou e foi ao cem itério rezar sobre seu túm ulo. Encontrou sua irm ã, que tivera a m esm a idéia. Queriam estar com ele, porque às vezes o inconsciente dem ora a aceitar o inevitável. Poucos dias depois, Sônia foi para Nova Délhi e nunca ninguém tornou a vê-la em Orbassano.

A história se repetia. Raj iv Gandhi não podia ser prim eiro-m inistro sem provocar a m esm a anim osidade que haviam suscitado anteriorm ente seu avô e sua m ãe. Em 1989, partidos de direita e esquerda aliaram -se com m em bros do antigo Partido Janata, a coalizão que havia nascido para derrotar Indira, com o obj etivo de se candidatar com um a frente com um às eleições gerais e atingir um a m esm a m eta: de novo tirar um Gandhi do poder. Durante a cam panha, um episódio de violência feroz no estado de Bihar entre m uçulm anos e hindus em baçou ainda m ais a j á desgastada im agem de Raj iv. Houve m ais de m il m ortos antes que Raj iv pudesse se encarregar de aplacar os distúrbios. Depois, continuou percorrendo o país ao estilo de sua m ãe, acum ulando com ícios e quilôm etros e vendendo as conquistas de seu governo. A diferença é que sua m ãe andava cercada de pouca proteção, o que lhe perm itia apertar m ãos, dar abraços e, enfim , estar em contato físico com o povo. Cada viagem de Raj iv, porém , im plicava a m obilização de uns trezentos agentes de segurança, que não lhe perm itiam se aproxim ar tanto, salvo em situações absolutam ente controladas. De vez em quando quebrava o protocolo, m esm o que tivesse que discutir com suas escoltas, m as, em geral, cada m ovim ento seu im plicava tanta logística que precisava pensar bem se valia a pena ou não. Sabia que tanta lim itação o fazia parecer um líder distante das m assas, e por isso lutava para se livrar da vigilância.

"Nunca tive m edo por m im ", declarou em um a entrevista. Com o sem pre, quem tinha m ais consciência do perigo era Sônia.

Em cam panha, Raj iv viaj ava em um Boeing do Exército, custeado pelo partido, que decolava de Nova Délhi antes do am anhecer e lhe perm itia visitar três ou quatro estados em um dia. Para chegar a lugares rem otos, utilizava helicópteros que na véspera da viagem haviam treinado a aterrissagem em pistas im provisadas. Term inava a j ornada depois da m eia-noite e dorm ia algum as horas no avião ou em um aloj am ento do governo. Só alguém com a resistência e o senso esportivo da vida de Raj iv podia suportar um ritm o com o esse. Sem dúvida, os indianos não professavam por ele a m esm a adoração que sentiam para com seu avô, nem o respeito quase reverencial com que cercavam Indira, m as apreciavam esse hom em decente que lutava para se m ostrar digno da carga dinástica que havia herdado. Em várias ocasiões, seu filho Rahul, um adolescente de óculos que se parecia m uito com ele, acom panhou-o. Para o j ovem , foi o batism o de m ultidões. As pessoas queriam tocá-lo, com o se fazendo isso se contagiassem da m agia e do poder de um Gandhi. Priy anka não seria m enos que seu irm ão, e insistiu para que ela e sua m ãe fossem à circunscrição de Am ethi, da qual Raj iv era deputado. Priy anka gostava m uito de fazer cam panha j unto com sua m ãe. Am bas eram m uito populares e m uito queridas entre o m ilhão e m eio de habitantes de Am ethi, que desfrutavam agora da prosperidade que Raj iv havia prom etido em sua prim eira cam panha. Am ethi podia alardear, agora, que tinha todas as estradas asfaltadas; quase todas as suas aldeias tinham eletricidade e água potável e um pequeno boom industrial havia reduzido drasticam ente o desem prego. Essas e ra m as vantagens de ter seu deputado com o prim eiro-m inistro. Mãe e filha foram recebidas c om m uito carinho e efusividade. Sônia era a atração principal dos cam poneses, desej osos de colocar um a guirlanda de flores ao redor do pescoço dessa estrangeira que os intrigava porque sem pre usava sári e falava híndi com fluência. "Pode ser que sej a filha da Itália, m as sou nora de Am ethi", dizia-lhes para explicar sua origem , e seu sorriso m ostrava suas graciosas covinhas. Com o Sônia não gostava de falar em público, preferia ir de casa em casa, ou de choça em choça, e estim ular as pessoas a votarem em seu m arido. Tam bém m ãe e filha im provisavam com ícios de beira de estrada, onde explicavam o m esm o que Raj iv e Rahul explicavam a m ilhares de quilôm etros dali a outros cam poneses ainda m ais pobres. Distribuíam adesivos e insígnias aos j ovens, e às m ulheres uns binais (o ponto no m eio dos olhos) adesivos com o logo do Congress, a palm a da m ão aberta. "Só quero que percebam quanto m elhorou a situação de suas aldeias desde que Raj iv foi eleito parlam entar, há oito anos...", dizia Sônia, antes de acrescentar. "Irm ãos e irm ãs, se quiserem que continuem os trabalhando, votem em m eu m arido." Seu m arido j á não era o político um tanto im aturo de cinco anos atrás. A adulação não fazia nele o m esm o efeito, não se envergonhava das canções que lhe dedicavam nem dos floridos adj etivos com que o descreviam . Estava im paciente por fazer entender os avanços conseguidos, as novas políticas e as inovadoras iniciativas em preendidas. Esgoelava-se explicando com o havia solucionado grande parte dos conflitos herdados em 1984 e com o havia conseguido colocar a econom ia na trilha de um crescim ento de 6%, quatro pontos a m ais que quando sua m ãe governava, m as tinha a im pressão de que perdera o poder de persuasão e que suas palavras eram levadas pelo vento. Irritava-o sentir que havia agido bem , m as, ao m esm o tem po, ter que se defender constantem ente de ataques e insinuações m alévolas. A verdade é que sua im agem passara de "filho valente que assum ia o m anto de sua m ãe" a "boy zinho europeu que vivia à custa do povo". Era inevitável que, depois de aplacar antigos conflitos, surgissem novos, m as o im portante era que a índia perm anecia unida, era um país respeitado internacionalm ente e a econom ia estava decolando. Porém , a oposição o atacava com um a avalanche de calúnias. Sônia era o alvo favorito das críticas: um a estrangeira m anipuladora que desviava recursos dos pobres indianos para paraísos capitalistas com a aj uda de am igos e fam iliares no m ais puro estilo m afioso, tão próprio de seu país. O problem a de sua nacionalidade era tão espinhoso que a aconselharam a não ir receber o papa em sua escala em Nova Délhi. Não se considerava politicam ente correto que m ilhões de indianos a vissem fazer reverência e beij ar o anel do m áxim o pontífice da Igrej a católica. Na realidade, nem os políticos, nem as m assas nem os m eios de com unicação estavam acostum ados ao glam our de um casal no m ais alto posto de governo. Não existia, na índia, a tradição dos Kennedy, dos Blair, porque todos os prim eiros- m inistros anteriores haviam sido viúvos, com eçando pelo avô Nehru.

Ao fim da cam panha, Raj iv estava escaldado e decepcionado. Com eçou a ter dúvidas de que seu trabalho e a sinceridade de seus propósitos acabariam se im pondo, com o pensava no início. "O m undo real é um a selva", escreveu a sua filha Priy anka, "m as nem sequer a lei da selva funciona quando se está na vida pública." Seu aspecto refletia seu desalento. Não tinha m ais o rosto sereno e a expressão descontraída do passado. Com a idade, suas feições haviam se crispado, seu andar era m ais pesado, sua voz perdeu firm eza, m as continuava sendo caloroso, porque ele era um hom em afável.

Na oposição, um a exultante Maneka Gandhi tam bém punha em prática, a sua m aneira, tudo o que havia aprendido com sua sogra. Fazia cam panha em um a circunscrição vizinha à de Raj iv com todo o vigor de sua j uventude e sua vontade de desforra. Indira deve ter se escandalizado no além ao descobrir que sua nora se tornara um a das secretárias-gerais de um a nova versão da coalizão Janata, sigla que a havia vencido e levado à prisão. Além do m ais, Maneka atuava com o j ornalista e repórter especializada em assuntos am bientais, principalm ente a proteção dos anim ais, um tem a m uito afim com a ideologia da direita hindu, sem pre m uito preocupada em proteger a vaca sagrada. A influente revista índia Today descrevia assim seu estilo de fazer cam panha: "Esta é a Maneka real: m adura, confiante, um a incansável política que sabe exatam ente com o conquistar

o coração rural. Usa sáris com as cores açafrão e verde de seu partido e a cabeça sem pre coberta; a perfeita im agem de um a viúva recatada, m as decidida". Não tinha escrúpulo algum em usar seu vínculo com a fam ília para apoiar o partido contrário. Os slogans, escritos em paredes e m uros de adobe, ofereciam um curioso panegírico da "cunhadíssim a": "A tem pestade da revolução: Maneka Gandhi" ou "A valente nora de Indira dará seu sangue pela nação", com o se sua relação com a fam ília bastasse para torná-la m ártir em potencial.

As ELEIÇÕES OCORRERAM DE 22 A 24 DE NOVEMBRO DE 1989. A m aior m obilização voluntária no m undo de hom ens, m ulheres e m aterial com um único obj etivo culm inou com poucas interrupções e poucos distúrbios. Três m ilhões e m eio de funcionários públicos

supervisionaram

589.449 colégios eleitorais para que 500 m ilhões de pessoas depositassem suas cédulas nas urnas. Todo o processo, que foi vivido com o um a grande festa, era m otivo de orgulho para a m aioria da população, que encontrava na dem ocracia um novo Deus que a unia acim a de suas diferenças de casta, raça ou religião. Raj iv tornou a ganhar em Am ethi, m as o Congress, pela prim eira vez em sua história, não obteve a m aioria absoluta no Parlam ento nacional. Os analistas estavam de acordo em afirm ar que o assunto Bofors tivera um papel im portante nos resultados. Aquelas eleições m arcaram o final do que se cham ava "sistem a de partido dom inante", porque nunca m ais nenhum partido tornou a conseguir a m aioria absoluta no Parlam ento. Havia corrido o rum or de que Raj iv tinha um voo reservado para a Itália em caso de derrota, m as não era verdade. Pouco antes das eleições, um am igo íntim o, tam bém apaixonado pela m úsica, havia lhe perguntado:

-Vam os supor que você perca as eleições...

P a ra m im , seria a paz - respondeu Raj iv. - Vou m e sentar e ouvir m úsica com as crianças. Retom arei m inhas velhas paixões, com o o radioam adorism o e a fotografia. Mas falara por falar, levado pelo cansaço e pelo desgaste. Tanto ele quanto sua fam ília, depois de todo o esforço realizado, estavam desiludidos. Priy anka, que herdara o caráter lutador de Indira, não se dava por vencida.

P apai - dizia - se o Congress conseguiu o m aior núm ero de cadeiras, tem direito de form ar governo... Por que não faz isso?

De fato, Raj iv tinha direito de form ar governo, m as decidiu abster-se. Mesm o que houvesse recebido apoio suficiente nos partidos m inoritários, pensou que não era m om ento de continuar. Acho que é m elhor m e m anter de fora - disse a ela. - Vou renunciar, agora é a vez de os novos se preocuparem . Interpreto os resultados com o um a m ostra de que o povo não está tão satisfeito com o deveria estar. É lógico que, depois de tantas expectativas no início, agora tenha existido um a reação contra...

Afastado do poder pelo pêndulo da dem ocracia, Raj iv sentia um a grande frustração. Não pelo ve re dito do povo, m as por não ter podido fazer tudo o que havia se proposto, e por sua incapacidade de se m over no ninho de cobras da política indiana. Agora que sabia com o era difícil construir algum a coisa, m udar conceitos e idéias, sentia vertigem ao pensar na facilidade com que seu trabalho dos últim os anos podia ser destruído. Talvez sua visão da índia houvesse pecado por inocente: em cinco anos, quis que sua velha nação, tão resistente às m udanças e ao m esm o tem po tão desej osa delas, em preendesse um a viagem de vários séculos rum o ao futuro. Não era pedir m uito a esse velho elefante indiano? Por um m om ento, Sônia pensou que ele talvez abandonasse a política, m as, ao vê-lo tão angustiado, foi ela quem o estim ulou a continuar. Raj iv respondeu de bom hum or a um j ornalista que lhe perguntou a se finalm ente havia aceitado a política com o profissão:

Sim , só que às vezes gosto de tirar um a folga. Acho que é algo m uito hum ano. Sônia sabia que era im possível voltar à vida de antes. Quando seu m arido olhava para trás, era com saudade, m as assum indo que aquilo era passado: "Sou o m esm o de sem pre", disse em um a entrevista para a televisão, "o que m udou é todo o resto. Eu tinha um a vida m uito confortável, um a fam ília pequena, um trabalho bem pago com m uito tem po livre... m as tudo isso acabou." Raj iv estava im buído de um sentim ento de fatalidade que o fazia pensar que um hom em não renega seu destino. Os últim os anos o fizeram crescer em um a direção que o colocara em um plano diferente na vida. Agora, os desafios eram m uito m aiores e as expectativas eram diferentes. Acim a de tudo, a responsabilidade de m elhorar a vida de 800 m ilhões de pessoas havia se transform ado em algo prioritário para ele. "Essa responsabilidade pesa tanto que m uda tudo o que eu fazia e o que faço agora. O que não vai m udar é m eu com prom isso com o povo da índia para m elhorar sua vida, e para que a nação tenha seu lugar no m undo." A derrota não havia alterado sua fé. Sabia que seu nom e era, para seu partido - abalado por várias derrotas em diversos estados - o único recurso.

S e u plano era continuar reform ando-o para transform á-lo em um a organização m ais dem ocrática, com o nos tem pos de seu avô. Um partido aconfessional capaz de abarcar todas as tendências e as crenças. Um a casa com um que seria o m elhor antídoto contra o crescente facciosism o religioso que o país vivia. Para fazer esse trabalho, era m elhor estar na oposição.

Com esta coalizão entre com unistas e a direita fundam entalista hindu - disse a sua filha, sem pre m uito interessada no dia-a-dia da vida política - ocorrerá o que aconteceu com a vovó e o Janata... Cairá por seu próprio peso. É apenas questão de tem po antes que seus líderes briguem pelo poder, você vai ver.

Raj iv renunciou em 29 de novem bro de 1989: "As eleições se ganham e se perdem ... o trabalho de um a nação nunca acaba. Quero agradecer ao povo da índia o afeto que m e dispensou com tanta generosidade". Eram palavras que evocavam as do testam ento de seu avô, no qual Nehru havia afirm ado sentir-se com ovido pelo carinho que todas as classes de indianos lhe haviam professado. Eram palavras que soavam a despedida. O encontro que Raj iv Gandhi tinha com o destino aproxim ava-se inexoravelm ente.

Tal com o previra, os dois líderes m ais im portantes da nova coalizão envolveram -se em um a briga pela designação do novo prim eiro-m inistro. Era um m au com eço que pressagiava um a singradura tem pestuosa. Mas entre os novos m em bros do governo encontrava-se um a pessoa especialm ente eufórica que havia feito parte da dinastia fam iliar dos Nehru. Ao ser nom eada m inistra do Meio Am biente e Bosques, Maneka Gandhi viu por fim realizado seu velho sonho. Estava no poder. Havia conseguido a desforra, e pretendia levá-la m uito longe. Foi um a hum ilhação a m ais para Raj iv, m as estava vacinado contra os m eandros da política e nada desse m undo o surpreendia. Para o resto da fam ília, que havia visto Maneka usar seu sobrenom e com total falta de escrúpulo, foi um a am arga pílula que só a certeza de que esse governo seria flor de um dia conseguiu adoçar.

Para Sônia, perder as eleições significava um a nova m udança, dessa vez a últim a. Tiveram que abandonar a residência oficial do prim eiro-m inistro e ocuparam outra vila branca de estilo colonial, de um único andar e cercada por um am plo j ardim . Ficava no núm ero 10 da avenida Janpath, a antiga Queen's Way, um a das grandes artérias de Nova Délhi m argeada de flam boy ants e de carquej as, árvores com galhos m uito abertos e frondosos, e cuj as folhas am argas, segundo a crença popular, "curam tudo". Talvez sua som bra protetora fosse responsável por curar a m elancolia causada pela derrota, porque, assim que se m udaram , o am biente em casa se anim ou. A vida se fez um pouco m ais tranqüila, m ais leve, com o se houvessem tirado um peso das costas: o peso do poder. Raj iv continuava m uito atarefado com seu trabalho no Parlam ento e no partido, m as a um ritm o m ais tolerável. "Estava descontraído", escreveria Sônia, "quase aliviado. De novo desfrutava de pra ze re s sim ples e cotidianos com o refeições não interrom pidas, conversar conosco depois, assistir de vez em quando a um vídeo em vez de se trancar em seu escritório para trabalhar." O chef do requintado restaurante indiano Bukhara, onde outrora costum avam ir com a fam ília ao bufê dos sábados, recebeu-os de braços abertos quando tornou a vê-los depois de tão longa interrupção. Foram ali com em orar o aniversário de Rahul e sua im inente partida para os Estados Unidos. As crianças j á não eram crianças, e sim j ovens adultos devoradores de j ornais e m uito interessados em tudo o que acontecia a sua volta. Com o não podiam continuar estudando em casa porque j á haviam term inado o equivalente ao ensino m édio, Raj iv e Sônia decidiram m andar o filho à universidade de Harvard, acabando, assim , com a tradição de educar os filhos na Inglaterra, com o fizeram três gerações dos Nehru. Priy anka preferiu ficar em Nova Délhi, estudando Psicologia no Jesus and Mary College. Sua obsessão pela política preocupava tanto a seu pai que ele com entou com Benazir Bhutto quando se encontraram pela últim a vez em Paris, convidados pelo presidente Mitterrand a assistir às com em orações do bicentenário da Revolução Francesa.

- Por favor - disse Raj iv - quando a vir, tente convencê-la a não se m eter nisso. Se ouvisse a alguém , sabia que sua filha ouviria Benazir, cuj o próprio pai havia sido assassinado depois de um a paródia de j ulgam ento sob as ordens de um ditador m ilitar. Era outro exem plo, próxim o e terrível, do destino que esperava aqueles que se deixavam seduzir pela política. "Ela não percebe com o isso é perigoso", insistiu Raj iv diante de Benazir. Pensou que, estando fora do poder, a am eaça que pesava sobre ele e seus filhos dim inuiria, m as os inform es que chegavam sobre sua segurança m antinham -no sem pre preocupado. As am eaças contra sua vida haviam se m ultiplicado. Em 1984, era o prim eiro na lista de três grupos terroristas. Cinco anos depois, de um a dúzia de organizações, inclusive os Tigres Tâm eis. O problem a do Punj ab parecia ter sido solucionado, m as havia outros conflitos, especialm ente entre hindus e m uçulm anos, potencialm ente perigosos da m esm a form a. "Vocês dois viveram em circunstâncias m uito difíceis durante m uito tem po, cinco anos em um espaço lim itado à casa e ao j ardim ", escrevera Raj iv a seus filhos em um a ocasião. "Foi a poça de sua vida em que deveriam ter tido liberdade, conhecido gente e sua idade, descoberto o m undo com o realm ente é. Infelizm ente, as circunstâncias não nos perm itiram lhes oferecer um a vida norm al." Aquela carta exalava um sentim ento de culpa e, ao m esm o tem po, de fatalidade. Raj iv tinha consciência de que não era dono de seu destino. O que o havia lançado à política fora um acidente, e depois um atentado o levara ao m ais alto cargo do governo da nação; e, finalm ente, o escândalo Bofors o colocara na oposição. Não pudera m udar o rum o dos acontecim entos, e nessa carta parecia desculpar-se pelo sofrim ento que isso ocasionou a seus filhos.

NA REALIDADE, A DERROTA NAS ELEIÇÕES foi um a bênção para Sônia. Em agosto, foram passar uns dias em Mussorie, nas m ontanhas, e Raj iv dirigiu seu próprio carro. Era sua prim eira escapada j untos em dezenove m eses, e ali, com a cordilheira do Him alaia ao fundo, celebraram o que seria o últim o aniversário dele. Depois, no Natal, quando Rahul voltou de Harvard, toda a fam ília foi passar um a sem ana de férias na casa de cam po de Mehrauli, aquela que Firoz Gandhi havia com prado com a idéia de passar seus últim os anos tranqüilo com Indira. Nunca puderam estrear essa casa antes, cuj os detalhes de construção Raj iv havia supervisionado durante anos e custeado com suas econom ias. "Foi a prim eira vez que m oram os em um a casa que era inteiram ente nossa", escreveria Sônia. Raj iv encarregou-se de prepará-la. Seus filhos aj udaram a tirar os m óveis de j ardim e a lim par o vetusto interior enquanto ele preparava algo para beliscar, porque preferia isso às refeições form ais. Eles escondiam o chocolate de que tanto gostava porque achavam que, desde que havia deixado o poder, ganhara peso. Lem braram as festas de Holi que haviam passado ali na infância, j ogando pós coloridos uns nos outros. Jogaram baám ington e scrabble e Sônia com eçou a tirar o m ato de um a parte do j ardim com a idéia de plantar um a hortinha.

O cam po a atraía, desde sem pre, desde sua infância em Lusiana. Com o teria gostado que seu pai estivesse com eles nessas férias! Com o ele teria gostado dessa casa! Lem brava-se m uito dele. Em suas ligações sem anais para a m ãe em Orbassano, quase se deixou levar pelo reflexo de perguntar por seu pai.

"Desfrutam os m uito de cada m inuto dos seis dias que passam os ali", lem braria Sônia. "Trazia-nos lem branças de nossa vida tal com o era no início, e o sabor da que poderíam os ter tido se pudéssem os escolher por nossa conta." Muitos am igos se surpreendiam por continuarem tão rom anticam ente apaixonados com o no prim eiro dia. "Eu não m e surpreendia porque sem pre se am aram m uito", lem braria Christian von Stieglitz, o am igo com um que os havia apresentado em Cam bridge e que foi visitá-los durante aqueles dias na casa de Mehrauli. "Por questões de trabalho, eu ia m uito a Délhi naquela época, e era um prazer vê-los sem pre tão dengosos depois de tantos anos de casam ento. Em particular, não paravam de se beij ar e de segurar a m ão um do outro." Em 9 de dezem bro de 1990, dia de seu aniversário, Sônia recebeu um presente de Raj iv c om um bilhete: "Para Sônia, que não m uda com o tem po, que é ainda m ais linda hoj e que quando a vi pela prim eira vez sentada em um canto do restaurante Varsity, naquele dia tão bonito...".

Mas, com o sem pre, o parêntese de felicidade foi fechado pelos acontecim entos políticos, que se precipitavam m ais rapidam ente do que Raj iv esperava. A índia deslizava por um a ladeira perigosa, em purrada por um dos partidos da coalizão no poder, o BJP (Bharatiy a Janata Party ), a antiga direita fundam entalista hindu que tanto fustigara Indira. O partido havia crescido até se transform ar no adversário m ais perigoso do Congress e um perigo potencial para a unidade do país. Apoiado pelo RSS, um a organização m ilitante extrem ista, o BJP exigia um a "índia hindu", onde as m inorias teriam que viver subj ugadas à m aioria, e não em pé de igualdade. Sua filosofia era diam etralm ente oposta à de Nehru e do Congress, porque renegava o princípio fundador da índia m oderna, ou sej a, a aconfessionalidade que apregoava a separação de Estado e religião, e a igualdade de todas as religiões perante a lei. O auge do BJP coincidiu com o recrudescim ento da violência religiosa no norte do país. Eram distúrbios que não se aplacavam sozinhos, que duravam até que as forças policiais os esm agavam . A origem desses distúrbios era sem pre a m esm a, e costum avam ser desencadeados por um detalhe ínfim o, com o um a disputa pelos lim ites de um terreno, por um espaço em um a calçada, por um porco urinando no m uro de um a m esquita ou um a vaca m orta encontrada perto de um tem plo hindu. Em qualquer caso, assim que saltava a chispa a violência se propagava de m aneira fulgurante, alim entada por rum ores, sem pre falsos, que aum entavam o incidente original, transform ando um sim ples confronto entre dois indivíduos e m um a guerra santa entre religiões. As organizações com unitárias e os políticos que se identificavam com um a ou outra facção alim entavam o fogo da discórdia, de m aneira que das palavras se passava aos socos, a seguir à faca, e assim até os coquetéis m olotov e os tiros. Na índia, os conflitos de casta e religião com eçaram a se retroalim entar a partir dos anos 1980, especificam ente depois de toda a população de um a aldeia de intocáveis em Tam il Nadu tom ar a decisão de se converter ao islam ism o para fugir do rígido sistem a hindu das castas. Aqueles pobres m udaram até o nom e da aldeia, que de Menashkipuram passou a se cham ar Rehm atnagar. Os fundam entalistas hindus ficaram indignados - "O hinduísm o está em perigo!" -e acusaram os países do Golfo de financiar os m uçulm anos da índia. A realidade era que os intocáveis finalm ente reagiam a séculos de opressão nas m ãos dos latifundiários, que nessa região eram hindus da casta alta.

A seguir, um acontecim ento aparentem ente inofensivo inflam ou ainda m ais os ânim os dos fundam entalistas hindus: a transm issão, em 1987, de um a série baseada no Ram ay ana, a epopéia hindu m ais popular, o m ais parecido que os hindus têm às escrituras sagradas. A adaptação para a televisão, um a m istura de novela e m itologia, constava de 104 episódios transm itidos aos dom ingos pela m anhã. O sucesso foi tão grande que a televisão estatal encom endou a outro produtor de Holly wood a realização da epopéia do Mahabharata. As duas séries foram as novelas de m aior audiência no m undo inteiro. Oitenta e cinco por cento dos telespectadores indianos viram todos os episódios, um núm ero único na história da televisão. Quando passavam as séries, a atividade do país inteiro se paralisava. Táxis, bicicletas e riquixás desapareciam das ruas. Os telefones paravam de tocar. As orações e os ritos de crem ação eram adiados. Funcionários públicos, donas de casa, loj istas, prostitutas, m endigos, vendedores de água, varredores, crianças, pobres que reviravam lixo... todos abandonavam seus afazeres para ficar em frente a um televisor na casa de alguém , em um a loj a, na praça da aldeia, ou olhando sorrateiram ente pelas j anelas das casas das fam ílias que tinham o privilégio de contar com essa invenção extraordinária. Muitos espectadores acreditavam piam ente no que estavam vendo, c om o se os deuses que saíam na tela habitassem o m undo dos hom ens. Quando o deus Ram a aparecia na série, acendiam um a lam parina de óleo e com eçavam a rezar ali m esm o.

Na índia, as cam adas m ais desfavorecidas da população são indiferentes à distinção ocidental entre história passada e atualidade, entre verdade e m ito. Para eles, tudo é verdade. Os políticos m ais experim entados, com eçando por Indira, sem pre souberam usar a seu favor essa tênue fronteira entre pessoas e deuses.

As séries desencadearam um a verdadeira m aré de fervor hinduísta. Na realidade, o fervor sem pre havia existido, e se exacerbara com a independência, com o um a reação a tantos séculos de dom inação pelos m ongóis e depois pelos ingleses. Nehru e Gandhi, m uito conscientes do perigo desse tipo de fundam entalism o - parecido ao dos siques ou dos m uçulm anos, ou dos cristãos em outras partes do m undo, m as m ais perigoso ainda na índia porque era a religião m aj oritária - esforçaram -se em pregar as virtudes da aconfessionalidade e em enfatizar a unidade entre hindus e m uçulm anos. O Mahatm a Gandhi pagou com sua vida: foi assassinado por m ilitantes do KSS, organização que m ais tarde se afiliou ao BJP. Indira, m uito ciente do problem a, no início de seu m andato enfrentou com firm eza centenas de ascetas nus que exigiam , às portas do Parlam ento, a proibição de m atar vacas. Raj iv e outros m em bros do Congress eram testem unhas de com o o BJP explorava com fins políticos o sentim ento religioso criado pela transm issão das séries. Em 1987, o BJP, de com um acordo com duas poderosas organizações sociais e param ilitares ideologicam ente afins, iniciou um a cam panha que cham aram de "desagravo histórico". O obj etivo era derrubar um a velha m esquita construída na antiga capital hindu de Ay odhy a por um general do im perador m ongol Babar em 1528. Alegavam que a m esquita havia sido construída onde nascera o deus Ram a.

Para os m uçulm anos indianos, a cam panha do BJP e seus aliados era um ataque direto a seus direitos e a sua religião. Im pedir que as hordas hindus destruíssem a m esquita tornou-se sím bolo de sua sobrevivência. Os ingredientes para um conflito com plicado e violento estavam servidos. Em 1989, depois das eleições que custaram o cargo a Raj iv, outra organização fundam entalista hindu associada ao BJP lançou um a cam panha nacional para que cada aldeia de m ais de dois m il habitantes oferecesse um tij olo destinado à construção de um tem plo a Ram a a m enos de 30 m da m esquita. Era um a provocação aos m uçulm anos. No Parlam ento, Raj iv insistiu com o governo para assum ir as rédeas do assunto. O novo prim eiro-m inistro m andou as forças da ordem interrom perem a construção do tem plo, m as não conseguiu sentar em um a m esm a m esa os diferentes líderes para negociar um a solução pacífica para o conflito. Por sua vez, Raj iv foi visitar um asceta hindu m uito venerado que vivia às m argens do Ganges, um hom em que achava firm em ente que a índia era o lar com um de m uitas religiões, e que devia continuar sendo assim . Um ano m ais tarde, o BJP hinduísta fez m ais um a provocação. Um de seus líderes, um indivíduo alto, sério e carism ático cham ado L. K. Advani, fez um apelo para que m ilhares de voluntários de todo o país convergissem para Ay odhy a com a idéia de sensibilizar o espírito chauvinista dos hindus. Ele m esm o encabeçou um a peregrinação que saiu de um a pequena cidade de Guj arat, e fez isso a bordo de um a carruagem m otorizada que exibia grandes retratos dos deuses e cuj os alto- falantes recitavam versos do Ram ay ana. Os cam poneses esfregavam os olhos, incrédulos, ao ver passar esse cortej o seguido de voluntários vestidos exatam ente do m esm o m odo que os heróis das séries que haviam visto na televisão. Aquela m archa elevou tanto a tem peratura da tensão com unal que o governo, de início reticente a intervir contra um dos m em bros de sua coalizão, m andou interrom per a procissão de Advani antes que chegasse a seu destino.

Com o represália, m ilhares de voluntários do BJP assaltaram a m esquita de Ay odhy a arm ados de arcos e flechas. Um calafrio de pânico percorreu o país inteiro. O que aconteceria se em cada bairro, em cada aldeia, em cada cidade do subcontinente com eçasse um a guerra de religiões? Já não havia sido suficiente a violência desencadeada durante a Partição para vacinar a índia contra enfrentam entos baseados na religião? As conseqüências podiam ser tão terríveis que dava m edo im aginar: atrocidades contra pessoas inocentes, o desm em bram ento do país, talvez um a guerra civil. Mas o líder do partido hinduísta parecia im une ao bom senso. Tudo valia a fim de ganhar votos, inclusive colocar um a nação de 850 m ilhões de habitantes à beira do abism o. A polícia não teve outro rem édio senão agir para proteger a m esquita da destruição. Houve um a dúzia de m ortos entre m ilitantes e policiais.

O partido hinduísta atribuiu à polícia o desenlace violento, e seu líder, Advani, anunciou que retiraria seu apoio ao governo. Muito antes do que Raj iv havia previsto, caía o prim eiro governo que o havia substituído.

Você vai pedir que convoquem eleições? - perguntou-lhe sua filha. Nã o, o partido ainda não está pronto. Não acho que conseguiríam os m ais votos agora que nas eleições anteriores. Prefiro esperar.

Raj iv, líder do partido com m aior representação no Parlam ento, estava de novo em um a posição- chave. Um líder rival do prim eiro-m inistro que acabava de cair solicitou seu apoio para form ar governo. Raj iv aceitou dá-lo, m as de fora, sem fazer parte do novo gabinete. Um a m anobra astuta, que lhe proporcionava controle sem assum ir a responsabilidade pelo que os m em bros da nova coalizão governante faziam . A verdade é que Raj iv não confiava m uito nesse líder, nem em seus m inistros, dentre os quais se encontrava Maneka Gandhi, e não queria ser associado a sua gestão, que previa que seria um desastre. Tinha certeza de que, em questão de m eses, o povo pediria desesperadam ente a volta do Congress ao poder. Então, seria o m om ento de convocar eleições.

As previsões de Raj iv tornaram -se realidade. O gabinete constituído pelo novo prim eiro-m inistro oferecia um a coleção de velhacos bastante deprim ente até para os padrões do Terceiro Mundo: "Um a extraordinária coleção dos m ais desapiedados e im orais oportunistas que j am ais entraram na arena política indiana", segundo a descrição do escritor inglês radicado em Nova Délhi, William Dalry m ple.

A ruptura não tardou a chegar, e aconteceu de m aneira um tanto estranha. Sônia estava de novo m uito obcecada com o tem a da segurança porque, ao perder as eleições, o novo governo havia retirado suas escoltas altam ente adestradas do Special Protection Group, com o se o fato de Raj iv não estar no governo fizesse as am eaças desaparecerem .

A m udança havia sido tão drástica que Sônia e Priy anka viviam em um estado de m edo perpétuo cada vez que Raj iv viaj ava. Depois de ser protegido por centenas de agentes em cada viagem , agora saía de casa acom panhado de um único segurança, um bom hom em , fiel e prestativo, cham ado Pradip Gupta: "Se algo acontecer a Raj iv, será por cim a do m eu cadáver", disse um a ve z a Sônia ao vê-la tão desassossegada. Mas era um pobre consolo. Rahul dividia a m esm a angústia. Ligava sem pre dos Estados Unidos para se certificar de que nada havia acontecido com seu pai. Estava tão preocupado com os detalhes que sua m ãe lhe contava sobre as parcas m edidas de segurança que insistiu m uito em ir passar as férias da Páscoa em casa, em m arço de 1991. Acom panhou seu pai em um a viagem pelo estado de Bihar e ficou pasm o ao com provar por si m esm o a ausência de preparo, a falta de m eios e quão exposto estava Raj iv a qualquer agressão. Às vezes, os policiais estavam afastando um a m ultidão e o deixavam sozinho no carro, outras vezes não se antecipavam o suficiente e Raj iv ficava de novo exposto. Antes de em barcar de novo para os Estados Unidos, Rahul disse a sua m ãe um as palavras em que no fundo não queria acreditar, m as que acabaram se m ostrando prem onitórias: "Se não fizerem algo a respeito, receio que da próxim a vez que voltar sej a para o funeral de papai".

O problem a não era só a falta de apoio do governo, m as tam bém o fato de Raj iv estar obcecado com a idéia de se m anter próxim o ao povo. Disseram a ele que perdera as eleições porque passara a im agem de alguém distante e quase altivo. A presença de guarda-costas era um im pedim ento para criar um a im agem de político acessível, que era o que procurava. "Viver sob um a am eaça terrorista ou um a am eaça de m orte nunca m e preocupou", declarara. "Nunca deixei que isso interferisse em m inha m aneira de pensar. Sim , causou-m e problem as, por todos os incôm odos que a segurança im plica... m as, se tivesse que m orrer pelo que acredito, não hesitaria." Christian von Stieglitz esteve uns dias com eles naquela época, j unto com Pilar, sua m ulher espanhola. "Pilar não conhecia Nova Délhi, de m odo que Raj iv nos levou a dar um a volta. Subim os em um pequeno Suzuki que ele m esm o dirigia e saím os a toda velocidade, seus seguranças seguindo-o com o podiam em um Am bassador branco, até que os conseguiu despistar. Não devia ser fácil ser segurança de Raj iv Gandhi! Eu não podia deixar de pensar que ele se arriscava m uito. Lem bro que um a tarde fom os ao Qutub Minar, o m onum ento m ais alto da cidade. Raj iv estava entre m inha m ulher e eu conversando conosco enquanto cam inhávam os pelas ruínas. Em dado m om ento, voltei-m e e vi que um as m il pessoas nos seguiam , a certa distância, sem se atrever a se aproxim ar m uito. Estavam m uitos surpresos de ver Raj iv passeando com o um turista qualquer. Continuam os cam inhando e de repente Raj iv se abaixou e pegou do chão duas florzinhas brancas. Aproxim ou-se da m ultidão e entregou-as a um a m enina que olhava boquiaberta para ele com grandes olhos pretos." Quando Christian fez um com entário sobre os riscos que assum ia, Raj iv respondeu:

Continuar: parte 7 de 7