O Sári Vermelho
Ato Iii - a Solidão e o Poder
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
"Não posso desconfiar do hom em da rua. Tenho que viver a vida.".
QUEM NÃO VIVIA ERA SÔNIA. Foi ela quem notou, em um fim de sem ana que passaram na casa de cam po de Mehrauli, dois indivíduos que vigiavam a casa e que não eram os seguranças habituais. Contou a Raj iv, e ele saiu para lhes perguntar quem havia dado a ordem de vigiá-los, e assim descobriu que havia sido o chefe de governo local, um indivíduo que pertencia ao partido do novo prim eiro-m inistro. Irritado e desconcertado pelo que considerava um a inaceitável intrusão em sua vida privada, Raj iv ligou para o prim eiro-m inistro e exigiu que retirassem essa vigilância, bem com o a dem issão do chefe de governo que havia dado essa ordem . "Era um a questão de confiança", declarou Raj iv. "Eu havia depositado m inha confiança nesse hom em , e apoiam os seu governo. E agora descubro que colocam dois policiais vigiando nossa casa. O que significa isso?" O novo prim eiro-m inistro tentou m inim izar o assunto e aplacar os ânim os alterados de Raj iv, porque estava em um beco sem saída. Perante seu próprio partido, não podia despedir oficiais ou chefes de governo locais a pedido do líder do Congress. Por outro lado, se Raj iv retirasse seu apoio, perderia o controle do Parlam ento. Mas Raj iv insistiu em apurar responsabilidades. Com o o hom em não atendeu a seus pedidos, Raj iv am eaçou boicotar o Parlam ento.
De m odo que, quatro m eses depois de ter sido em possado, esse prim eiro-m inistro viu-se obrigado a apresentar sua dem issão ao presidente da República. Agora, sim , havia chegado o m om ento de celebrar novas eleições gerais, que a com issão eleitoral m arcou para 20, 23 e 26 de m aio de 1991. A índia estava em plena crise, o que podia facilitar a um partido de oposição com o o Congress voltar ao poder. Afora o auge do fundam entalism o hindu, a Caxem ira vivia um a escalada de violência.
Na econom ia, a gestão dos últim os governos havia sido desastrosa. A inflação, causada pelo aum ento do preço do petróleo e pela guerra do Golfo, estava descontrolada e am eaçava criar graves problem as sociais. Raj iv propôs um program a baseado na estabilidade e na reform a econôm ica, incluindo m ais privatizações e m enos controles à indústria e ao com ércio. O inim igo a bater nas urnas era o BJP, O partido hinduísta, que surgia com o um a organização no auge com um program a potencialm ente perigoso para a estabilidade do país. Os dem ais partidos, inclusive os da coalizão que estava saindo, só podiam aspirar a um núm ero lim itado de cadeiras. De novo Raj iv partiu em cam panha, certo de sua vitória. Assim era a política, com o um reflexo da própria vida, em que nada é perm anente e tudo m uda sem cessar, às vezes a um a velocidade vertiginosa. Quis iniciar a cam panha ao lado de Sônia, e ele m esm o pilotou o avião que em 11 de m aio de 1991 pousou em Am ethi. Era a prim eira de seiscentas escalas que devia fazer em vinte dias. Um a m ultidão os esperava ao descer do avião, dentre a qual m uitas m ulheres que foram dar as boas-vindas a Sônia.
Um a das razões de sua im ensa popularidade em Am ethi é que Sônia tinha um a m em ória prodigiosa e se lem brava dos nom es e dos rostos de m ulheres que talvez houvesse visto cinco m inutos em viagens anteriores. A italiana identificava-se plenam ente com aquelas cam ponesas que a tocavam com um a curiosidade quase infantil para com provar que era de carne e osso com o elas. Tinha a intenção de passar três sem anas acam pando na circunscrição de seu m arido, solicitando votos casa por casa, enquanto ele percorreria o subcontinente. Ao final do dia, antes de subir pela escadinha do avião, Raj iv dirigiu-se a seus eleitores e disse um a frase m uito sim ples, m as que se m ostrou profética: "Não acho que poderei voltar aqui de novo, m as Sônia fica para velar por vocês". Sônia sentiu um a pontada no coração. Não pelo fato de ficar sozinha, porque a doçura das pessoas e a atitude solícita dos m em bros locais do Congress faziam com que se sentisse em casa, m as porque era a prim eira vez em 23 anos de casados que iam passar tanto tem po separados, quase três sem anas.
Naquela noite, enquanto tentava conciliar o sono deitada em um charpoi, um catre feito de corda trançada, dentro de um a tenda de cam panha lutando contra o calor e os m osquitos, Sônia se lem brou da últim a vez que estivera em Am ethi. Era fevereiro, m ês em que faziam aniversário de casam ento. Havia ido inaugurar um a cam panha de vacinação contra a pólio. Achava que não poderiam com em orar j untos o aniversário porque Raj iv tinha viagem m arcada para essa época a Teerã. Ia com a idéia de lançar um a iniciativa diplom ática para acabar com a guerra do Golfo. Mas num a noite com o aquela, só que m enos quente, chegara um bilhete de Raj iv pedindo-lhe que cancelasse seus com prom issos em Am ethi e que, por favor, voltasse rapidam ente a Nova Délhi para acom panhá-lo nessa viagem . "É que... que quero estar com você, só você e eu, sozinhos, sem centenas de pessoas a nossa volta com o sem pre", dizia a nota. Quando Sônia chegou a Nova Délhi, perto da m eia-noite, encontrou um Raj iv nervoso porque achava que não chegariam a tem po de pegar o voo. Descobriu que j á havia feito as m alas. Tudo estava pronto para a viagem . Em Teerã, depois dos com prom issos oficiais, foram j antar sozinhos em um restaurante. Fazia quanto tem po que não se perm itiam um luxo rom ântico desses? Nem se lem bravam m ais... Raj iv entregou-lhe um presente que havia trazido de Délhi, uns brincos lindos e sim ples com o ela gostava. Quando voltaram ao hotel, pegou sua câm era, com a qual sem pre viaj ava, e bateram um a foto com o disparador autom ático, algo que nunca haviam feito antes.- Madam e, m adam e!
Um a voz sussurrante fora da tenda interrom peu sua fantasia. Sônia se levantou, pôs um robe e saiu. Um hom em j ovem , um sim patizante do partido, entregou-lhe um envelope. Vinha de Nova Délhi, era de Raj iv. Sônia abriu-o e encontrou um a rosa com um bilhete escrito à m ão. Leu-o, sorriu m ostrando suas covinhas e voltou ao charpoí. "Era um a m ensagem de am or", confessaria m ais tarde.
PRIYANKA CHEGOU UNS DIAS DEPOIS a Am ethi para lhe fazer com panhia. Visitavam um a m édia de quinze aldeias por dia. Ouviam as queixas das pessoas por um a pensão que não chegava, um m enino cego que precisava de dinheiro para um a cirurgia ou um a anciã que reclam ava que, depois das eleições anteriores, o pessoal do Congress os ignorou. Sônia tom ava nota e dava instruções a seus assessores. "Tenham fé", dizia aos suplicantes, "eu vou m e encarregar de resolver isso."
Em um a das aldeias, Priy anka foi testem unha de um acontecim ento extraordinário, tendo em conta a aversão que sua m ãe tinha a falar em público. Sem que Raj iv lhe houvesse pedido, Sônia atreveu- se a fazer seu prim eiro discurso diante de um a m ultidão de vários m ilhares de pessoas. "Meu m arido trabalhou m uito pelo bem -estar de vocês, e eu trabalho para m eu m arido... Só o Congress pode representá-los dignam ente, apertem a m ão de m eu m arido..." Priy anka ria de vê-la exortar o povo a votar no Congress, e ainda por cim a com graça.
As frases em híndi com um leve sotaque saíam com facilidade, ela sorria e parecia gostar, talvez porque não havia j ornalistas, eram todos gente hum ilde que não a intim idava. O m ais notável era que havia feito isso por iniciativa própria, com o um ato de entrega a seu m arido.
Am bas retornaram a Nova Délhi no dia 17 de m aio, esgotadas, suadas e cobertas de pó, m as otim istas acerca do resultado final das eleições. Quando, na noite seguinte, Raj iv chegou de sua turnê e entrou pela porta principal, ficaram estupefatas. "Ele estava exausto. Quase não conseguia falar nem cam inhar. Não havia dorm ido nem com ido decentem ente durante sem anas. Fizera cam panha um as vinte horas por dia. Suas m ãos e seus braços estavam cheios de arranhões e m arcas. Todo seu corpo doía. Milhares de adm iradores o haviam tocado, apertado sua m ão, abraçado fraternalm ente e batido em suas costas. Fiquei com o coração partido de vê-lo nesse estado."
Seus dedos estavam tão inchados pela quantidade de apertos de m ão que tivera de tirar a aliança. Mas estava contente, o coração pleno de tantas provas de afeto, de tanto entusiasm o. Seu deficiente serviço de segurança lhe havia perm itido ir ao encontro do que seu avô e sua m ãe cham avam de "o am or do povo", e voltava em ocionado porque o povo respondia. "Em Kerala e em Tam il Nadu, eles têm o costum e de beliscar o rosto, por isso o m eu está tão verm elho e inchado", contava a Sônia enquanto ela lhe colocava um banquinho para que pudesse esticar as pernas. "E, às vezes, em áreas m uçulm anas, dão beij os, você sabe, um , dois, três beij os, e depois esse abraço especial que quebra as costas... Meu corpo todo dói, m as não faz m al." Ficaram conversando tranqüilam ente durante um bom tem po, trocando im pressões sobre suas experiências m útuas. Raj iv estava satisfeito porque conseguira m ostrar que se im portava com as pessoas. Mas não tinha certeza de ganhar: "Vai ser um a luta dura", confessou. Nessa noite dorm iu cinco horas, um luxo, antes de ir para Bhopal, onde, em 19 de m aio, fez um com ício diante de 100 m il pessoas. A cidade continuava traum atizada pela catástrofe de 1984.
A m ultinacional responsável pelo acidente havia chegado a um acordo para pagar um a som a de com pensação às vítim as, m as o dinheiro não chegava às m ãos dos necessitados. Era desviado por funcionários corruptos e interm ediários. De novo o sistem a falhava.
Depois de Bhopal só restava o sul, "território am igo", com o diziam os m em bros do Congress. Voltou prim eiro para casa, e estava tão cansado que adorm eceu na sala, aliviado de pensar que a cam panha estava chegando ao fim . Mais três dias e estariam todos reunidos ali m esm o, porque Rahul viria passar as férias de verão. Devia
chegar em 23 de m aio. Sônia e Priy anka tam bém estavam contentes. Tinham m ais certeza que Raj iv de que ele ganharia as eleições por um a am pla m argem . A fam ília inteira se esforçara para voltar a pôr um Gandhi e o Congress à frente do país. Indira teria se sentido orgulhosa de todos eles: isso era "fazer fam ília".
Em 20 de m aio, Raj iv e Sônia saíram de casa às 7h30 para votar. A essa hora, a tem peratura ainda era suportável. As gralhas pareciam cum prim entá-los nos galhos das árvores com seus grasnidos am argos. Raj iv, usando um a kurta branca e um lenço tricolor em volta do pescoço, dirigiu seu carro pelas largas avenidas, que estavam quase desertas, m as à entrada do colégio eleitoral esperava-o um bando de gente e um a equipe de televisão. Sônia estava m aravilhosa em um salwar kam iz verm elho. Cum prim entaram a todos j untando as palm as da m ão à altura do peito e Raj iv deu alguns autógrafos enquanto esperavam que o colégio abrisse. Atrás, a fila ia crescendo.
Um j ovem voluntário do partido aproxim ou-se de Raj iv com um a bandej a com incenso, açúcar e pétalas de flor, com a intenção de fazer ali m esm o um a puj a (oferenda) para com eçar o dia com um a nota auspiciosa em sua hom enagem . Sônia, sem pre que estava com seu m arido em um lugar público, observava atentam ente todos que se aproxim avam , tentando adivinhar algum a intenção oculta, um vulto suspeito, um gesto incom um . A paranóia não lhe dava trégua. Talvez por isso se assustou tanto quando o hom em da bandej a, intim idado por Raj iv, deixou-a cair com um estrépito que fez todos se sobressaltarem . Sônia crispou-se, e a seguir com eçou a transpirar copiosam ente. Raj iv notou o m al-estar de sua m ulher e pediu que lhe levassem um copo com água. Quando foi sua vez de votar, estava tão alterada que não encontrava a cédula com o sím bolo do Congress. Por um m om ento, pensou que iria em bora sem votar. Na saída, indo em direção ao carro, contou a Raj iv, que ria. "Ele pegou m inha m ão", recordaria Sônia, "com esse toque doce e tranquilizador que sem pre aj udava a dissipar qualquer ansiedade." Essa foi, talvez, a últim a ocasião em que Raj iv esteve presente para acalm ar sua m ulher, porque, depois de deixá-la em casa, foi para sua turnê seguinte. À tarde pretendia voltar a Nova Délhi para m udar do helicóptero para um avião e partir com destino ao sul, onde as eleições aconteceriam dois dias depois.
Mas, essa tarde, Raj iv fez a elas a surpresa de passar por casa. Sônia e Priy anka estavam felizes de vê-lo m esm o que por pouco tem po. Raj iv tom ou um banho rápido, com eu algum a coisa e ligou para seu filho nos Estados Unidos: "Estou ligando para lhe desej ar bons exam es, Rahul, e para dizer-lhe com o estou contente por você voltar logo... Vai ser um bom verão... Am o você... Tchau". A seguir, deu um beij o em Priy anka. De novo devia ir, m as o bom é que aquela seria a últim a escala da turnê eleitoral.
Estava tranqüilo, ia para o sul, território seguro, não com o o norte, tão agitado e perigoso. Não pode parar j á? - pediu-lhe Sônia. - Essa viagem não m udará os resultados... Eu sei, m as j á está tudo organizado... Coragem , um últim o em purrãozinho e serem os vencedores... Só m ais dois dias e j untos de novo - disse a Sônia com seu sorriso cativante. "Despedim o-nos com ternura...", lem braria Sônia, "e ele foi em bora. Fiquei olhando pelas frestas da persiana e o vi afastar-se, até que o perdi de vista... Dessa vez, para sem pre."
No dia seguinte, 21 de m aio de 1991, Raj iv em barcou em um helicóptero para visitar várias cidades do estado de Orissa, no leste do país. Foi um a j ornada extenuante, e à noite estava tão cansado que pensou em recuperar um pouco de sono atrasado e cancelar a últim a visita, que era para um povoado do estado vizinho, Tam il Nadu, cham ado Sriperum budur. Além do m ais, um inform e do Serviço de Inteligência do governo central o havia aconselhado expressam ente a não pa rtic ipa r dos com ícios em Tam il Nadu depois do anoitecer, porque os Tigres Tâm eis dispunham , nesse estado, de um apoio considerável da população. Estava fam into, e a líder local do partido, um a j ovem profissional que ele havia recrutado para o Congress, convidou-o a j antar em sua casa, m as ele ficou pensando nos que o estavam esperando em Sriperum budur, em todo o esforço que seus com panheiros de partido haviam investido em organizar o com ício, e não os quis decepcionar, de m odo que declinou o convite para o j antar. O partido bem que m erecia um últim o esforço. Logo dorm irei à vontade com Rahul, Priy anka e Sônia a m eu lado - disse a seu acom panhante. Então você não vai dar ouvidos ao inform e do Serviço de Inteligência? Se eu desse ouvidos a todos esses inform es, teria abandonado a cam panha há m uito tem po. Além do m ais - acrescentou - a violência política é pouco com um no sul da índia, isso todo o m undo sabe. Aqui, as eleições parecem m ais um a festa que um acontecim ento político sério. Ao entrar no avião, encontrou um a agradável surpresa: a líder local lhe havia m andado pizza e um as em panadinhas. Mal havia dado um a prim eira m ordida em seu j antar quando lhe avisaram que o aparelho não podia decolar devido a um problem a técnico. "Melhor assim ", pensou Raj iv, que só queria dar um a cochilada. "Ficam os aqui." Desceu do avião e entrou em um Am bassador, que o levou ao aloj am ento do governo. Mas, a cam inho, um carro oficial o alcançou. Senhor - disse um policial pela j anela do carro - a avaria j á foi solucionada, o avião está pronto para decolar.
Dura nte um a fração de segundo, Raj iv hesitou se devia seguir cam inho ou voltar para o aeroporto. Por fim , deixou-se levar pelos acontecim entos e disse ao m otorista que desse m eia-volta. De novo no avião, sentou-se, fechou o cinto de segurança e, quando o aparelho estava com eçando a rodar pela pista, percebeu que havia esquecido a com ida no carro. Chegou a Madras às 20h30, participou de um a curta entrevista coletiva, bebeu um refresco e seguiu viagem pela estrada. Estava sentado na frente, ao lado do m otorista, com a j anela aberta. No painel do Am bassador havia um a pequena luz fluorescente que ilum inava seu rosto para que as pessoas o pudessem ver na escuridão da noite. Parou em um povoado, onde fez um com ício de vinte m inutos, e às 21h30 j á estava em outro fazendo um novo discurso. No traj eto, aproveitava para conversar com j ornalistas. Nesse dia, estava acom panhado por Barbara Crossette, correspondente do The New York Tim es e especialista em assuntos asiáticos. Ao cruzar as aldeias, o carro abria lentam ente cam inho por e ntr e a m ultidão, e o povo, com expressão de frenética alegria no rosto, j ogava flores. "Esperam os bons resultados nesta área", disse Raj iv aos j ornalistas. Assim que saiu do carro, seus seguidores com eçaram a lutar para colocar guir-landas em seu pescoço, enquanto outros lhe davam lenços e xales. Em um dado m om ento, parou para cum prim entar um a m ulher que estava sendo esprem ida pela m ultidão. Colocou-lhe um cachecol de seda no pescoço e disse-lhe um as palavras.
A m ulher cobriu o rosto com as m ãos e apertou o cachecol contra seu peito. Barbara Crossette surpreendeu-se com a pouca proteção de que dispunha: "Mais de cem vezes, qualquer um a das m ãos que haviam se enfiado no carro para tocar seu braço ou dar-lhe a m ão poderiam tê-lo apunhalado ou atirado nele".
Seguiram cam inho. Ao longo da estrada, havia luzes coloridas e cartazes dando-lhe as boas-vindas. De vez em quando, Raj iv dizia ao m otorista que fosse m ais devagar ou que parasse o carro para sair e apertar m ais m ãos enquanto pedia votos para o Congress. O curioso é que dizia isso em inglês, porque não falava tâm il. Quando tinha que explicar algo m ais longo, um intérprete fazia a tarefa. Colocava os bilhetes e cartas que ia recebendo das pessoas em um a bolsa cinza que sem pre levava consigo. Barbara Crossette fez sua últim a entrevista. Perguntou-lhe se não tom ava suplem entos vitam ínicos ou se seguia um a dieta especial para agüentar esse desgaste de energia, tendo em conta o calor de 40 graus e a dureza das estradas... Raj iv caiu na gargalhada. "Esses am ericanos!", deve ter pensado. "Na m aior parte do tem po não com o nada. Mantenho-m e com isto...", respondeu, apontando para duas garrafas térm icas, um a de café e outra de chá. Disse que a única concessão ao conforto eram os tênis brancos que usava. A seguir, debateu sobre seus tem as favoritos: "O povo está frustrado porque o sistem a não é eficaz, não alim enta suas aspirações. Precisam os m elhorá-lo drasticam ente. Mas, principalm ente, estou decidido a acabar com todas as controvérsias sobre a religião. Querem os um a separação com pleta entre religião e política. A m istura é explosiva, não só aqui, com o em todo o m undo".
Às 22h, os líderes locais de Sriperum budur, um aldeiazinha agrícola sem m aior interesse, anunciaram a chegada do líder. O povo estava vendo um espetáculo de dança típica da região, m uito colorido e barulhento, algo norm al nos com ícios eleitorais, visto que os candidatos im portantes nunca eram pontuais. As duas horas de atraso não dim inuíam a vontade do povo de gritar e lançar roj ões para com em orar sua chegada. Raj iv assustou-se ao ouvir as prim eiras explosões, m as explicaram -lhe que era a m aneira habitual de receber um dignitário im portante e m Tam il Nadu. Em geral, em um ato assim no norte, haveria um arco detector de m etais à entrada do recinto.
Mas ali não existia nada parecido, exceto os esforços do fiel segurança Pradip Gupta de afastar o povo e evitar que tocassem seu protegido. Raj iv parou em frente a um a estátua de sua m ãe e c oloc ou- lhe cerim oniosam ente um a guirlanda de cravos. A m ultidão era com posta principalm ente de hom ens de aspecto cordial, usando longhis, uns tecidos enrolados ao redor da cintura, e niquis ou kurtas sem gola. Depois da hom enagem a Indira, Raj iv cam inhou sobre um tapete verm elho rum o ao palanque, onde o esperavam os líderes locais do partido, sentados ao redor de um a longa m esa. Aceitava com seu eterno sorriso as guirlandas que iam colocando, parava para dar um aperto de m ãos, respondia ao cum prim ento de um , tirava as guirlandas am ontoadas no pescoço e as j ogava às m ulheres, discutia com os policiais locais que tentavam m anter a m ultidão afastada, ria e brincava com todos. Tirava sua incrível energia do contato com as pessoas, seguindo, desse m odo, o exem plo de seu avô e de sua m ãe.
Entre a m ultidão havia duas m ulheres de uns trinta anos. Um a delas era baixinha, de pele escura e óculos. Cham ava-se Dhanu. Usava um a j aqueta sobre um traj e panj abi cor de laranj a que consistia em um a saia longa sobre calças largas, ao contrário do resto das m ulheres do sul, que costum am usar sáris. Parecia estar grávida. Ninguém suspeitava que sua corpulência se devia ao fa to de ter sob a j aqueta, colados ao corpo, um a bateria de nove volts, um detonador e seis granadas com m etralha envolvidas em um m aterial explosivo plástico. A outra garota cham ava-se Kokila, e era filha de um m em bro do partido. Raj iv pôs carinhosam ente o braço em seu om bro enquanto ela recitava um poem a em sua hom enagem . Dhanu, com um a guirlanda na m ão, conseguiu abrir cam inho e colocar- se atrás de Kokila. Quando a garota acabou o poem a, foi a vez de Dhanu, m as j usto quando ia entregar sua guirlanda a Raj iv, um a policial a deteve com o braço. Raj iv sorriu para ela. "Deixe que cada um tenha sua vez...
Não se preocupe, calm a." A policial desistiu e se afastou, sem suspeitar que dessa m aneira estava salvando sua vida. Então Dhanu aproxim ou-se de Raj iv para colocar-lhe um a guirlanda de m adeira de sândalo, esculpida em form a em pétalas de flor, no pescoço. Raj iv agradeceu-lhe com seu lindo sorriso e, seguindo a tradição, tirou a guirlanda para entregá-la a um com panheiro do partido que estava atrás dele. Enquanto isso, Dhanu agachou-se para tocar-lhe os pés. Raj iv tam bém o fez, para m ostrar hum ildade, com o querendo dizer que ele não era digno dessa saudação. Mas a m ulher o enganou: não estava tocando-lhe os pés em sinal de veneração, e sim puxando um a corda que ativou o detonador.
A explosão foi apocalíptica. "Quando m e voltei", contou Sum an Dubey, aj udante de Raj iv e velho am igo da fam ília, "vi as pessoas voando pelos ares com o em câm era lenta." Barbara Crossette, que havia ficado para trás, viu "um a explosão m uito intensa... e a seguir as pessoas caindo em volta, em círculo, com o as pétalas de um a flor. No lugar onde se supunha que Raj iv estava havia um buraco na terra". A m etralha havia acabado com a vida da assassina, de Raj iv e de m ais dezessete pessoas. O pânico apoderou-se da m ultidão e dos policiais, que não sabiam se aquela seria um a explosão isolada ou se haveria m ais. O pó e a fum aça se dissiparam para deixar exposto o espetáculo do m assacre: corpos desm em brados, terra preta e fum egante, obj etos calcinados. Curiosam ente, o palanque continuava em pé; o que voou em pedaços foram as pessoas.
" E u estava procurando algo branco", contaria Sum an Dubey, "porque Raj iv sem pre usava branco. Mas tudo o que via era preto, m atéria calcinada." Outros com panheiros de partido foram se aproxim ando e encontraram Pradip Gupta, o fiel segurança de Raj iv. Estava vivo, deitado e com os olhos arregalados, sofrendo na própria carne a previsão que havia feito a Sônia: "Se algo acontecer a Raj iv, será por cim a de m eu cadáver...". Morreu alguns segundos depois. Debaixo de seu corpo alguém encontrou um tênis branco. Era de Raj iv. Um colega do partido tentou virar o que restava do corpo, m as não conseguiu porque se desfazia. Raj iv havia sido literalm ente eviscerado pela explosão, a cabeça estava fraturada e havia perdido quase toda a m assa cerebral. Morrera no ato. Quinze m inutos depois da explosão, tocou o telefone no núm ero 10 da Janpath.
Quem atendeu ao telefone foi o secretário de Raj iv, que trabalhava no escritório privado de seu chefe, em um a ala afastada da casa. A fam ília estava dorm indo. Em seu dorm itório, Sônia ouviu o telefone em m eio aos sonhos e lhe pareceu com o um grito. Senhor, houve um atentado a bom ba - disse um a voz entrecor-tada, salpicada de interferências. Quem fala?
Sou do Serviço de Inteligência. Estou ligando de Sriperum budur. O secretário sentiu um nó na garganta.
Com o está Raj iv? - perguntou.
O hom em não respondeu. O secretário ouviu seu interlocutor pigarrear para lim par a garganta antes de voltar a falar.
Senhor, é que... - com eçou dizendo, sem term inar sua frase. Nervoso, o secretário incitou-o: Por que não m e diz de um a vez com o está Raj iv? Senhor, ele faleceu - soltou o hom em então, e logo a seguir desligou o telefone. O secretário ficou com o fone na m ão, o olhar perdido, tentando assim ilar o que acabara de ouvir. A leve esperança de que fosse um a falsa notícia evaporou-se quando, assim que pôs o fone no gancho, o telefone voltou a tocar. Um m em bro do Congress de Tam il Nadu confirm ou-lhe a notícia. Já não havia dúvida. Logo as outras linhas com eçaram a vibrar, em um a cacofonia insuportável. O secretário saiu apressado.
Madam e, m adam e...
Encontrou Sônia no corredor, saindo de seu quarto am arrando o robe. Quase não podia abrir os olhos. Seu cabelo estava revirado. Sabia que um a ligação no m eio da noite não anunciava nada de bom . Tinha gravada em sua m em ória a que havia recebido um a noite na casa de Orbassano anunciando o acidente de Sanj ay. Agora, estava presa de um sentim ento sim ilar e sentiu um nó no estôm ago. Mas o que a deixou gelada foi o ar assustado, quase histérico do secretário, um hom em habitualm ente sóbrio e com edido.
Madam e, foi um a bom ba... - balbuciou.
Sônia lançou-lhe um olhar severo. Seu rosto estava inchado de sono. Ele está vivo?
O secretário foi incapaz de responder. As palavras não saíam . Tam bém não eram necessárias, Sônia j á não o ouvia m ais. Todo seu corpo se contraiu com o se houvesse recebido um a descarga elétrica, e do m ais fundo de sua alm a m ortalm ente ferida surgiu um grito gutural, rouco. Sete anos depois da conversa que tivera com Raj iv no centro cirúrgico do hospital onde estavam costurando o corpo de Indira, quando lhe suplicou que não aceitasse o posto que sua m ãe havia deixado vago porque o m atariam , a previsão havia se cum prido. Nããããooooo!
Seu grito acordou Priy anka, que apareceu no corredor, tam bém enrolada em um robe, o aspecto cansado, o olhar atônito. Ficou m uda, incrédula, lívida. Agarrou sua m ãe e levou-a para a sala com o pôde. Nunca em seus dezenove anos de vida a havia visto nesse estado de desespero. Nunca ninguém a vira chorar dessa m aneira. Duraram tanto e tão fortes eram os soluços que os prim eiros com panheiros de partido que m ais tarde com eçaram a chegar à casa os ouviram da rua.
Priy anka não a conseguia confortar. De repente, Sônia com eçou a tossir e a sufocar de tal m aneira que o secretário tem eu que perdesse a consciência. É um ataque de asm a - disse Priy anka. Foi tão violento que ela se assustou m uito. Já volto! - disse.
Correu para o banheiro de sua m ãe e procurou o inalador e os anti-histam ínicos. Quando voltou à sala, viu-a sentada em um a poltrona com os olhos quase virados, a boca aberta e a cabeça j ogada para trás, buscando ar com o um peixe fora d'água. Pensou que ia m orrer. Na realidade, um a parte dela havia m orrido com seu m arido. Os rem édios fizeram efeito e conseguiram deter a tosse, m as não os soluços. Por m ais que sua filha a tentasse acalm ar, Sônia estava inconsolável. Seu pranto crescia sobre si m esm o, insistente e regular com o as ondas batendo na praia. Priy anka dirigiu-se ao secretário: Onde está o corpo de m eu pai? - perguntou.
Neste m om ento, estão levando-o a Madras.
Por favor, aj ude-m e a fazer o necessário para que possam os ir até lá - pediu-lhe. Priy anka assum iu a situação, dem onstrando m aturidade, sangue-frio e senso de organização adm iráveis. Conversou com os prim eiros am igos de seu pai e líderes do Congress que chegavam com ar perplexo e desolado, alguns chorando sem se conter. Até falou com o presidente da República por telefone. Pediu-lhe que pusesse um avião à disposição da fam ília. No fundo, algo dentro dela a im pedia de acreditar que seu pai estava m orto. Era com o um reflexo que protege da dor e perm ite agir. Inconscientem ente, custava-lhe aceitar algo tão catastrófico sem se certificar, por isso precisava ver seu pai o quanto antes. Acha que é prudente irem até lá? - disse o presidente da República. Por favor, presidente, eu insisto. Minha m ãe e eu tem os a firm e intenção de ir esta m esm a noite a Madras.
Está bem , falarei com o Exército para pôr a sua disposição um avião da Força Aérea. Logo passarei por sua residência para lhes dar os pêsam es. Obrigada, nós o esperarem os.
Agora lhe cabia dar a notícia a seu irm ão, que estava em Harvard. Lá, era hora do alm oço. Conseguiu que um colega lhe transm itisse o recado de que devia ligar para casa urgentem ente. Um a hora m ais tarde, sua irm ã e sua m ãe lhe deram a pior notícia de sua vida. Eu sabia, eu sabia! - disse o rapaz chorando e m ordendo o lábio. Sabia que isso ia acontecer. Esse sentim ento de frustração e im potência acentuava a dor de toda fam ília. Fizem os o que pudem os...
Acha m esm o?
Claro que sim .
Disseram -lhe que voltasse no prim eiro voo, que estavam com eçando a organizar os funerais, que o esperavam .
ERAM MAIS OU MENOS 23H e a notícia j á havia corrido por Nova Délhi. Um a m ultidão estava se congregando diante do portão da casa. De dentro, Priy anka e Sônia ouviam gritos histéricos e lam entos. Continuavam chegando am igos da fam ília, com panheiros, m inistros, policiais etc. Um a invasão. A im prensa tom ava posições no portão e na rua. As pessoas ainda não sabiam contra quem dirigir sua raiva: contra os siques, os fundam entalistas m uçulm anos ou hindus, os Tigres Tâm eis, os assam eses...
Não faltavam agravos nesse país tão heterogêneo. Por ora, dirigiram -na contra as equipes de televisão nacional e internacionais. As pessoas ali reunidas com eçaram a insultá-las. Alguns am igos, que ao volante de seus carros ultrapassavam o portão, foram recebidos m al: Ottavio e Maria Quattrochi foram vaiados e levaram um a ou outra pedrada, e o m esm o aconteceu com os líderes da oposição que iam apresentar suas condolências. A fúria da m ultidão estendeu-se para todos os adversários de Raj iv. Um a turba tentou assaltar a casa vizinha, de um de seus críticos m ais ferozes quando estava no governo, um líder de um a casta de intocáveis. Tal era o am biente nas ruas que o presidente da República não conseguiu chegar até a casa. Encontrou um a m ultidão frenética e desesperada. O povo se j ogava sobre o capô de seu carro chorando e soluçando.-Vam os dispersá-los? - perguntou o oficial de segurança ao presidente. Não, vam os dar m eia-volta. Não quero que os ânim os se inflam em m ais. De volta a sua residência no antigo palácio do vice-rei, o presidente ligou para Sônia. Ela estava um pouco m ais tranqüila e conseguiu agradecer suas condolências e as facilidades que havia preparado para essa singular viagem .
Usando um salwar kam iz branco, o cabelo penteado para trás e preso com um laço, assim que desligou saiu de casa com Priy anka. Lá fora um carro esperava para levá-las ao aeroporto. Tio Kaul, aquele que tanto esforço havia feito para convencer Raj iv a seguir os passos de seu irm ão, dirigia. O carro abriu cam inho com dificuldade por entre a m ultidão que se aglom erava em volta da casa. As ruas estavam cada vez m ais agitadas. Grupos de gente se am ontoavam nas esquinas e nos largos, em um estado de ânim o que oscilava entre a raiva e a dor. Espero que o governo aj a prontam ente e não perm ita o que aconteceu depois da m orte de Indira- com entou tio Kaul.
O VOO DUROU TRÊS HORAS E MEIA, o tem po que um j ato leva para atravessar o subcontinente de norte a sul. Em baixo, nessa negra extensão de terra salpicada de pontinhos de luz que indicavam as cidades e os povoados, a índia dorm ia. Dentro de algum as horas ia acordar com a tragédia de outro assassinato político. Dentro de algum as horas, pensaram , o país estaria m ergulhado na aflição. Ninguém falou durante o voo. Só se ouviam os soluços de Sônia. ERA NOITE AINDA QUANDO ATERRISSARAM em Madras, às 4h30 da m adrugada. O avião rodou até o velho term inal, ilum inado e cercado por um a m ultidão im ensa. Lá estava o corpo de Raj iv. Por indicação do presidente da República, havia sido levado até lá para evitar que Sônia e Priy anka tivessem que se deslocar de carro até a cidade.
Um ar úm ido e pegaj oso envolveu-as assim que saíram do avião. Estavam m uito nervosas porque o m om ento se aproxim ava. O m om ento de vê-lo pela últim a vez. O que iriam encontrar? Estavam preparadas para isso? Suportariam ? Faziam -se essas perguntas enquanto desciam a escadinha e cum prim entavam as personalidades que haviam ido recebê-las. Tam bém ali as autoridades tem iam que estourassem distúrbios, disse o governador. A m ultidão procurava um bode expiatório e os ânim os na cidade estavam m uito alterados.
Por isso, haviam tom ado as m edidas necessárias para que o voo decolasse antes do am anhecer. Quando reconheceu Sum an Dubey , velho e leal am igo de Raj iv que havia saído m ilagrosam ente ileso do atentado, Sônia com eçou a chorar em seus braços. Mas não viram Raj iv. Não podiam . Disseram -lhes que seu corpo estava tão destruído que havia sido im possível em balsam á-lo. Só viram dois caixões. Um continha os restos de Raj iv e o outro de seu guarda-costas, o bondoso Pradip Gupta. A partir de então, tudo foi m uito rápido. Agarradas um a à outra, m ãe e filha viram colocá-los dentro do avião. Elas tornaram a subir pela escadinha. Lá dentro, Sônia pediu que colocassem o caixão a seu lado. Com um a m ão, pôs um a guirlanda de flores sobre o féretro, enquanto com a outra cobriu o rosto com um xale para enxugar suas lágrim as. Priy anka, ao ver o caixão am arrado assim , teve de adm itir o que seu subconsciente se negava a aceitar: que nessa caixa estava seu pai, ou m elhor, o que restava dele. Então, não pôde m ais se conter e desm oronou. De repente, percebeu que não o tornaria a ver nunca m ais, que nunca m ais se deixaria em balar pelo afeto e doçura de seu pai. Abraçou-se ao caixão e ficou soluçando por m uito tem po.
O avião j á rodava pela pista. Sum an Dubey e Sônia a acalm aram , fizeram -na se sentar e fecharam o cinto. Nesse m om ento, Sônia teve um gesto que sem dúvida Raj iv teria apreciado. Ao perceber que o caixão do guarda-costas Pradip Gupta estava sem nada, foi colocar-lhe um a guirlanda de j asm ins. Era dia quando o avião decolou, de volta à capital indiana. Com eçava a últim a viagem de Raj iv Gandhi.