O Sári Vermelho
Ato Iii - a Solidão e o Poder
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
A essas sangrentas provocações som avam -se listas negras publicadas por Brindanwale nos j ornais com o nom e dos adversários que pretendia elim inar. E cum pria suas am eaças. O filho do dono da rede de j ornais assassinado tam bém foi abatido, o que sem eou o terror nos m eios de com unicação e na população em geral. Os siques que se atreviam a criticá-lo eram alvo de seus ataques. Voltou à prisão, m as suas hostes continuaram m atando opositores. Quando saiu, ele e seu exército entrincheiraram -se no com plexo do Tem plo de Ouro, em Am ritsar, cidade santa dos siques.
CONSTRUÍDO NO MEIO DAS ÁGUAS BRILHANTES de um am plo tanque ritualístico cortado por um a ponte, o Tem plo de Ouro é um edifício de m árm ore branco coberto de adornos de cobre, prata e ouro. A cúpula, inteiram ente recoberta de painéis de ouro, abriga o m anuscrito original do Livro Santo dos siques, o Granth Sahib. Em volta do tanque circulam fiéis, sem pre no sentido horário; cam inham com os pés descalços sobre o m árm ore reluzente, usam a cabeça coberta com turbantes coloridos e longas barbas e grossos bigodes. As hostes de Brindanwale ocuparam esse local de paz. Entraram nos edifícios anexos ao tem plo, de onde saíam as ordens aos com andos terroristas para que assassinassem , pilhassem , profanassem e incendiassem nas aldeias do Punj ab. Enquanto Indira continuava sem saber com o lidar com essa criação grotesca de Sanj ay, Brindanwale recebia equipes de televisão do m undo inteiro, que o tratavam com o um a verdadeira estrela da m ídia. A polícia, que estava com a m oral no chão devido ao aum ento da delinqüência e da violência, não se atrevia a entrar em um lugar tão sagrado.Outros surtos de violência em Caxem ira e em Assam davam a im pressão de que a nação ia direto para o caos e a desintegração.
O assassinato de um inspetor de polícia enquanto rezava no Tem plo de Ouro, em 23 de abril de 1983, pelos tiros dos hom ens de Brindanwale, escondidos atrás das grades das j anelas, obrigou Indir a a tom ar um a decisão. Mas qual? Assaltar o tem plo com o Exército e arriscar-se a provocar a fúria dos outros siques? Sitiar o tem plo até que os terroristas não tivessem m ais rem édio senão se render? Indira tentou negociar com líderes do partido Nacionalista m oderado, enquanto a pilhagem e os assassinatos continuaram , m as qualquer acordo que não contem plasse a plena independência do Khalistan era vetado sistem aticam ente por Brindanwale. Ele, por sua vez, encoraj ado pela indecisão do governo central e pelo fato de o assassinato do inspetor de polícia ficar im pune, entrincheirou-se no Akal Iakht, o segundo edifício m ais sagrado do com plexo. Conseguiu arm am ento sofisticado pago por siques do exterior e transform ou o tem plo em um a verdadeira fortaleza. Indira, Raj iv e seus conselheiros esperavam pacientem ente que os líderes m ais m oderados que Brindanwale acabassem se im pondo ou se distanciassem do pregador fanático. Pensavam que o tem po j ogaria a seu favor, m as passaram -se dois anos e os terroristas continuavam entrincheirados.
O Exército pode assaltar o tem plo sem causar m uitos estragos? - perguntou Indira ao chefe do Exército, general Sundarj i, que havia substituído seu velho am igo Sam Manekshaw. O general pôs em cim a da m esa um as fotos aéreas batidas na véspera m ostrando que todas as j anelas, portas e dem ais aberturas do edifício estavam protegidas por sacos de terra ou haviam sido fechadas com tapum es. Explicou-lhe que os terroristas conseguiam se abastecer de arm as, alim entos e m unições por m eio de um labirinto de túneis que os ligava com o exterior. Assim , podiam se m anter por tem po indeterm inado.
As possibilidades de causar danos extensos é m uito alta - sentenciou o general. Conscientes de que a suscetibilidade religiosa no país com m ais religiões do m undo podia explodir com o um arsenal o frágil equilíbrio da nação, os pais da independência haviam estabelecido um a c or do tácito pelo qual os locais sagrados eram todos intocáveis. Por trás desse acordo entrincheirava-se Brindanwale, certo de que o Exército nunca se atreveria a intervir. Contra ele havia um a m ulher cansada, tem erosa, com a alm a ferida, desgastada pelo poder, sem o aprum o e o ardor guerreiro que a fizeram triunfar no conflito de Bangladesh. Sentir-se refém de terroristas que não deixavam a m enor m argem para negociação desesperava-a. Com um a crescente angústia, Indira percebia que a única solução para esse desafio era o uso da força. A situação lem brava a crise de Bangladesh, quando tam bém soube que acabaria tendo que declarar guerra.
Só que então não existia problem a interno religioso algum . O inim igo era externo e podiam m edir m elhor as conseqüências. Agora, eram im previsíveis. Quando sua am iga Pupul, vendo-a tão abatida, perguntou-lhe se tudo isso não era dem ais para ela, Indira no início não respondeu, m as a seguir disse: "Não tenho saída. É m inha responsabilidade".
Em 1983, um ano depois de Rahul entrar na Doon School, foi a vez de Priy anka ir para o equivalente fem inino da escola de seu irm ão, Welham School, tam bém nas m ontanhas, a uns 200 km de Délhi. De repente, Sônia viu-se com m ais tem po livre do que j am ais tivera, m as tam bém não o pôde dedicar a si m esm a. Teve que acom panhar seu m arido a Am ethi, sua circunscrição eleitoral. Maneka havia decidido, agora que atingira a idade m ínim a legal, arrebatar-lhe o posto nas eleições seguintes, na circunscrição que havia sido de seu m arido. Um desafio aberto. Ter desaparecido de casa não significava que a cunhada havia desaparecido do m apa. Em seus percursos pela região, apresentava-se com o a viúva expulsa de casa com um bebê no colo e obrigada a ganhar a vida por seu m alvado cunhado e sua esposa estrangeira. Não era verdade, m as lem brava essas histórias sim ples e dom ésticas de inj ustiça e invej a fam iliares de que tanto o povo gosta. Foi apresentada pelos seus em Am ethi com o "um triunfo da coragem ". Agora que não tem ia enfrentar pessoalm ente Indira, seu com portam ento se tornou ainda m ais agressivo. Pôs em circulação cartas da fam ília críticas a Raj iv e, em um discurso, Maneka com parou Indira à deusa fCali, "a bebedora de sangue", disse textualm ente, levando ao paroxism o as habituais relações ruins entre um a sogra e sua nora. Vingava-se, assim , por ser excluída pela fam ília de todas as com em orações oficiais.
Tam bém não foi convidada ao segundo aniversário da m orte de Sanj ay. E reagiu convocando um com ício de viúvas e organizando um a distribuição gratuita de roupas. A audácia de Maneka era, para a prim eira-m inistra, tão deprim ente ou m ais que o desafio, m uito m ais perigoso, do louco Brin- danwale. Mas doía m ais, porque envolvia a intim idade da fam ília. "Mam ãe tam bém vem para Am ethi com igo", escreveu Raj iv a seu filho. "Vai ser difícil para ela, porque no início será alvo de todos os olhares e se sentirá incom odada até se acostum ar. Ela é m uito valente." Pela prim eira vez, Sônia percebeu o que era a vida de um político indiano em cam panha. Percorrer um sem -fim de quilôm etros por estradas cheias de buracos, dentro de autom óveis de suspensão duríssim a, agüentar o calor, o pó e as m oscas nas diversas aldeias, ser obrigada a aceitar um chá, e depois outro, e m ais outro para não ferir a suscetibilidade das pessoas... O bom é que agora falava híndi com desenvoltura e podia conversar com os cam poneses, que lhe perguntavam por seus filhos, sua sogra e por tudo que tivesse a ver com a turbulenta história fam iliar: "Será que Indira tornará a ver seu neto?", perguntavam as m ulheres; ou "É verdade que Maneka não tem nem para com er?". Mas os cam poneses não achavam que Maneka fosse a genuína herdeira da dinastia Nehru-Gandhi, com o m ostraram os resultados nas urnas. De novo, venceu Raj iv.
NO INÍCIO DE 1984, RAJIV SURGIA com o um político no auge. Sua gestão dos Jogos Asiáticos, som ada à eficácia dem onstrada em seu cargo de secretário-geral do Congress, granj earam -lhe um respeito genuíno, independentem ente de sua linhagem política. Seu gabinete era um m odelo de boa organização, um canto criado a sua im agem e sem elhança. Com parado com os velhos dinossauros do partido, na m aioria corruptos aduladores, Raj iv era um poço de virtudes, sobretudo de eficácia e integridade. Rom pera com os indivíduos turvos que pululavam a o redor de seu irm ão, e cercava-se de tecnocratas, de j ovens com m aletas e ternos de executivo, exem plos de um a geração m oderna que acreditava na tecnologia, nas estatísticas e nos com putadores. Muitos haviam sido seus colegas de classe na Doon School, outros em Cam bridge, e todos sentiam -se m elhor falando inglês que híndi. Viviam o presente, não eram intelectuais, e sim pragm áticos e totalm ente alheios a tudo que tivesse a ver com religião, ideologia ou superstição.
Tanto eles quanto Raj iv opunham -se à atitude passiva de Indira no assunto Punj ab. A prim eira-m inistra, seguindo os conselhos de seu guru Dhiren-dra Brahm achari, havia com eçado a fazer oferendas com a esperança de que algum m ilagre pudesse resolver a crise do Tem plo de Ouro. Tem os que afastá-lo de casa para sem pre - disse Raj iv a Sônia, falando do guru. Indira não precisava de m ais doses de esoterism o nem de m ais tem ores agregados aos negros pensam entos que povoavam sua m ente. Ao contrário, precisava da cabeça bem fria e da visão lúcida. Continuava m ergulhada em um a profunda depressão. Muitos desafios, m uito cansaço. Sanj ay havia cultivado a am izade com o guru não porque acreditasse em seus poderes ocultos, e sim porque lhe era útil. O "asceta voador" havia conseguido com prar aviões, traficar arm as, contratar sicários e lavar dinheiro, e isso eram habilidades que Sanj ay adm irava e utilizava quando achava necessário. Raj iv, direto e honesto, era a antítese tanto de seu irm ão quanto do m ago, um indivíduo perspicaz, vago, astuto, desonesto e nada ocidentalizado. Sônia e Raj iv j á não o suportavam m ais.
O que podem os fazer?
-Vou tentar fazer com que cancelem seu program a sem anal na tevê e cortar as subvenções a seus ashram s.
Com o sua estatura de político e sua influência haviam crescido, conseguiu. Sônia e os conselheiros m ais próxim os de seu m arido louvavam as conquistas de Raj iv, e Indira acabou convencida de que os planos estratégicos de seu filho representavam a única solução para sanar os m ales da índia. Pouco a pouco, foi esquecendo o m isticism o do guru e deixou de fazer oferendas aos deuses para conj urar a crise do Punj ab. Para grande alívio de Sônia, o guru desapareceu por com pleto da m esa da fam ília. Quase im perceptivelm ente, Dhirendra Brahm achari viu seu acesso à prim eira-m inistra negado. "Lam ento, m adam e não tem tem po para recebê-lo", diziam os em pregados quando tentava vê-la.
O m ês de fevereiro desse ano foi o único, em toda sua vida, em que Indira não desfrutou da prim avera, sua estação favorita entre o frio do inverno e o im enso calor pré-m onções, que com eçam a castigar em m arço. Durante esse m ês, a cidade se enche de cor, a vegetação das árvores ganha um verde intenso e os canteiros de flores ilum inam os j ardins.
A tem peratura é sublim e e um a suave brisa acom panha as noites. No passado, a despeito de todas as dificuldades e problem as, Indira sem pre se sentira eufórica nessa época do ano. Agora não. Isolada e triste, o asceta sique entrincheirado no Tem plo de Ouro tirava seu sono. Ouvia a todos, e continuava sem saber o que fazer. Em situações insolúveis, só se podia ganhar tem po, esperar e m anter a fé, repetia Indira a seus colaboradores próxim os.
Seguindo o conselho de Raj iv, Indira fez um últim o esforço para encontrar um a saída negociada pa r a a crise do Punj ab fazendo m uitas concessões aos independentistas, m as topou com a intransigência tanto dos m em bros do partido m oderado quanto de Brindanwale. A m aioria dos 7 m ilhões de siques estava tão desconcertada diante da situação provocada pelos extrem istas quanto o governo. Em vez de negociar, o líder do partido m oderado deu o passo definitivo que selou a ruptura, um passo que só podia acabar em catástrofe. Anunciou que a partir de 3 de j unho, aniversário do m artírio do guru Arj un, j ustam ente aquele que havia erguido o Tem plo de Ouro, toda exportação de energia elétrica e de grãos para fora do Punj ab seria interrom pida. A ironia da am eaça não podia escapar a Indira. Se o Punj ab era o celeiro da índia, era porque a região havia se beneficiado m ais que nenhum a outra com a "revolução verde", o am bicioso plano de desenvolvim ento agrícola que Nehru, e ela depois, haviam lançado para acabar de um a vez com a fom e. E, agora, um punhado de fanáticos não só am eaçava quebrar o Estado, com o tam bém m atar de fom e os pobres do resto da índia se o governo central não cedesse a suas exigências. A situação havia chegado a um ponto sem retorno. Muito a seu pesar, Indira enfrentava o inevitável: tirar à força Brindanwale e seus seguidores do tem plo.
Antes de m ais nada, antes sequer de consultar o chefe do Estado-Maior, quis falar com Sônia: Sônia, acho que é m elhor tirar as crianças do colégio... Tem o por elas. O Serviço de Inteligência m e avisou que são alvo dos terroristas. Isso não é nenhum a novidade. Todos som os alvos desses fanáticos. Mas, com o a situação no Punj ab continua se deteriorando, é cada vez m ais difícil garantir a segurança nos colégios. Aconselharam -m e a tirá-los dos internatos e trazê-los para Délhi.
Mas aqui você só tem um guarda arm ado para protegê-la quando sai de m anhã para falar com as pessoas no j ardim !
Isso vai acabar, vão reforçar a segurança aqui tam bém , evidentem ente. Está bem , am anhã m esm o eu os trarei. Depois verem os com o nos organizam os para educá-los aqui...
Um secretário de Indira as interrom peu. O com andante-em -chefe do Exército esperava-a na sala. O hom em vinha com seus inform es da Inteligência debaixo do braço.
Senhora, estão arm ados até os dentes. Os terroristas entrincheirados continuam conseguindo arm as m uito sofisticadas. Chegam escondidas em tam bores de leite e em sacos de grãos, e os envios são pagos com o dinheiro de sim patizantes siques do exterior. Indira ficou pensando. Fazia sentido continuar esperando um m ilagre? A seguir, dirigiu-se ao chefe do Estado-Maior e perguntou:
Com o deveríam os proceder com o ataque?
O hom em suspirou. Estava constrangido. Tinha dificuldade para acreditar no sucesso da m issão. Há m uitos riscos, senhora. É m eu dever avisá-la. Minha opinião é que m ais vale um ataque rápido e m aciço, com toda a força necessária... Melhor que sitiá-los? - interrom peu Indira.
Já estão sitiados, senhora, e as arm as continuam chegando. Confio m ais em um ataque rápido e contundente.
De quanto tem po estam os falando?
Um as 48 horas. Quanto m enos tem po, m enos baixas. É im prescindível a presença de oficiais e soldados siques na força de assalto. Isso não deve ser interpretado com o um a agressão étnica, de hindus contra siques. Sem dúvida. O oficial encarregado é o com andante Kuldip Singh, da Nona Divisão do Exército, um sique.
Te m o s que dar instruções m uito precisas para evitar prej udicar o Tem plo de Ouro. A com unidade sique não nos perdoaria.
Vam os instruir a tropa. Mas esses terroristas são osso duro de roer, Madam e, não posso garantir nada.
Que Deus nos protej a.
EM 30 DE MAIO, DIA DE UM CALOR ASFIXIANTE, as tropas cercaram a cidade de Am ritsar. O bulício das ruas desapareceu com o por encanto. Invadida por um silêncio aterrador, a cidade santa transform ou-se em um a cidade fantasm a. Em 2 de j unho, os m eios de com unicação anunciaram que Indira falaria à nação nessa noite, às 20h30. Sônia tom ou o café-da-m anhã com ela e notou-a perturbada, pessim ista e ainda indecisa. Não gostava nada da idéia de atacar "um a casa de Deus". Confessou-lhe que não conseguia elaborar o discurso. De fato, fez tantas m udanças de últim a hora que sua aparição na tevê precisou ser atrasada até as 21h15. Por fim falou, em um tom grave, a expressão do rosto angustiada: "Este não é um tem po de cólera", disse. "A unidade e a integridade da pátria estão sendo questionadas por um punhado de hom ens que se refugiaram em lugares sagrados. De novo, faço um apelo aos partidos m oderados para que não cedam sua autoridade a Brindanwale." Acabou apelando para o bom senso de todos os habitantes do Punj ab: "Não derram em sangue, livrem -se do ódio. Vam os nos unir para curar as feridas". Ao ouvir esse discurso, sua am iga Pupul percebeu que os próxim os dias seriam trágicos para Indira e para o país.
De fato, enquanto a prim eira-m inistra falava, tropas do Exército tom avam posições em volta do recinto do Tem plo de Ouro. Estava prestes a com eçar a Operação Blue Star, estrela azul. No dia seguinte, os correspondentes estrangeiros foram convidados a abandonar o Punj ab. O trânsito de ônibus, trens e aviões foi interrom pido, bem com o as linhas de telefone e de telex.
A região foi isolada do resto do m undo na preparação para o assalto final. Em seu santuário no Akal Takht, edifício contíguo ao Tem plo de Ouro, Brindanwale, agora com um a canana cruzada no peito sobre sua túnica azul, um a pistola na m ão esquerda e seu sabre na direita, declarou a alguns j ornalistas locais: "Se as autoridades entrarem neste tem plo, vam os lhes dar tam anha lição que o trono de Indira cairá. Vam os cortá-los em pedacinhos... que venham !" Às 16h do dia 5 de j unho, oficiais do Exército arm ados de m egafones deram ordem a todos os civis de sair do com plexo, e aos terroristas, de se render. Saíram 126 siques, a m aioria hom ens que haviam ido rezar e peregrinos, m as nenhum seguidor de Brindanwale. À noite, um a tropa avançada de com andos especiais adentrou o com plexo, enquanto os helicópteros voavam em círculo por cim a do tem plo. Encontraram um a resistência feroz. Mais da m etade dos noventa m em bros dos com andos foi esbatida pelo fogo dos extrem istas.
O chefe do Estado-Maior inform ou im ediatam ente as baixas à prim eira-m inistra. O início do assalto não podia ser m ais desalentador. Mas j á não havia volta possível. A sorte estava lançada. Indira não dorm iu a noite toda, ciente de que se estava com etendo um sacrilégio com os sím bolos m ais venerados de um a religião. Por que o destino a havia colocado nessa tram a? Que preço teria que pagar pelo que as tropas estavam fazendo? Sentiu um calafrio percorrer suas costas. De um a coisa tinha certeza: nem seu governo nem ela sairiam incólum es dessa situação. O carm a sem pre a acaba pegando. Mas, às 8h de 6 de j unho, perfeitam ente arrum ada, estava no j ardim atendendo a um j ornalista do Sunday Tim es. A tem peratura j á beirava os 40 graus. O j ornalista notou-a tensa e cansada. Sua últim a pergunta foi: Senhora, o que acha que acontecerá na índia quando não for m ais Prim m eira-m inistra? A índia viveu um tem po longo, m uito longo - m ilhares de anos - m eus 66 anos contam bem pouco. A índia passou por m uitas vicissitudes em sua longa história e sem pre seguiu em frente. Enquanto a entrevista acontecia, a 500 km ao norte de Nova Délhi a batalha pelo Tem plo de Ouro causava estragos. Sob um a tem peratura infernal e um sol inclem ente que fazia a cúpula dourada do tem plo principal refulgir, os soldados indianos eram abatidos com o m oscas sob o fogo dos hom ens de Brindanwale. De novo, m ais de cem hom ens caíram na tentativa de tom ar o edifício onde os terroristas estavam entrincheirados.
As instruções recebidas para que os soldados restringissem o uso da força ao m áxim o e para que infligissem os m ínim os danos possíveis ao tem plo principal não faziam m ais sentido. O com ando, que não via outra solução senão prosseguir com o assalto, enviou à tarde a artilharia apoiada por tanques e veículos blindados. Para conseguir neutralizar Brinlanwale e seus hom ens, não tiveram m ais rem édio que bom bardear o Akal akht, infligindo enorm es danos ao tem plo, construído paradoxalm ente pelo quinto guru, um verdadeiro apóstolo de paz que havia insistido em construí-lo em um nível inferior aos outros em sinal de hum ildade.
Depois de um dia de luta encarniçada, o Akal Takht foi quase totalm ente arrasado. Já bem avançada a noite de 6 de j unho, os generais foram inspecionar o local; não restava um a única coluna em pé e as paredes de m árm ore estavam enegrecidas e picadas pela m etralha. No porão encontraram o corpo de Brindanwale, sua longa túnica j á não era azul, e sim preta de sangue. Jazia j unto a 31 de seus hom ens. Não houve sobreviventes que pudessem ser testem unhas do m artírio do pregador terrorista. Em outro aposento, os soldados encontraram docum entos surpreendentes: a lista de todas as vítim as que Brindanwale havia m andado m atar, e um a enorm e sacola com cartas de adm iração, não só de cidadãos indianos, tam bém de fãs do m undo inteiro.
O CUSTO DA VITÓRIA FOI m uito m ais alto do que o com andante-em -chefe do Exército havia prognosticado. Muito m ais alto do que Indira e Raj iv, que estavam horrorizados, haviam im aginado. A Operação Blue Star foi, na realidade, um a hecatom be. Mais da m etade dos m il soldados enviados ao assalto pereceram . Quanto aos civis, m il peregrinos que não puderam ser desaloj ados m orreram . Além das perdas hum anas, a biblioteca do tem plo principal, que não deveria em hipótese algum a ser danificado e que continha os m anuscritos originais dos gurus siques, ardeu pelos quatro lados. Para a com unidade sique em geral, esse ataque era com parável a um a invasão e destruição do Vaticano para os católicos. Um im perdoável sacrilégio. Justam ente o que Indira quisera evitar.
Tenho m edo que brinquem no j ardim - disse Indira a Sônia ao ver Rahul da j anela da sala de j antar rolar no gram ado com um dos cães.
As crianças haviam voltado para Nova Délhi depois do aviso do Serviço de Inteligência, que havia encontrado seus nom es em um a lista negra de um grupo extrem ista sique. Todas as m anhãs iam fortem ente guardados para seus respectivos colégios. Depois, passavam o resto do dia em casa. Raras vezes saíam . Um sim ples convite de aniversário requeria um a com plexa operação de segurança. "É com o se um a som bra houvesse entrado em nossa vida", disse Sônia a Raj iv. Indira, m uito consciente de que o ataque havia causado um a ferida coletiva nos siques do Punj ab, tinha certeza de que seria assassinada. Era a prim eira nessas listas. Outro grupo havia j urado vingar o sacrilégio do Tem plo de Ouro assassinando Indira e a sua descendência até a centésim a geração. Contou a Raj iv e a Sônia, que em palideceram . Mas Indira queria que levassem m uito a sério as draconianas m edidas de segurança que estavam sendo im postas. Ela colocava um colete à prova de balas sob o sári cada vez que saía de casa, seguindo os conselhos da polícia. Queria que Raj iv e Sônia fizessem o m esm o. Não é brincadeira - disse a eles.
Eu sei - respondeu Raj iv. - E não se preocupe, colocarei um tam bém . Houve um silêncio. Indira assum iu um a expressão m elancólica e um tom de voz som brio. Quando acontecer, quero que espalhem m inhas cinzas sobre o Him alaia. Deixei instruções escritas para m eu funeral. Estão na segunda gaveta da escrivaninha de m eu quarto.
Não antecipe os acontecim entos - disse Raj iv em um tom divertido, para descontrair o am biente.- Ainda não estam os nessa situação.
Mas Indira estava agitada. Mais tarde, quis falar a sós com seu neto Rahul, que j á tinha catorze anos:
Tenho m edo de que queiram fazer m al a vocês. Peço, por favor, a você e a sua irm ã, que não brinquem além da grade que leva aos escritórios da Akbar Road - disse, apontando para o lugar no j ardim onde o havia visto brincar com o cão. - Sinto m uito que sofram essas restrições, m as eu não m e perdoaria se acontecesse algum a coisa com vocês. O que vai acontecer conosco aqui dentro, vovó? Podem m atá-los.
O tom sério de Indira fez com que o m enino a contem plasse com olhar de incredulidade, com o se sua avó estivesse exagerando.
Por favor, ouçam -m e e não se afastem - continuou dizendo. - Há m uitos fanáticos que ficariam m uito satisfeitos de fazer m al a vocês. De fazer m al a todos nós. Não m e im porta o que possam fazer a m im . Eu fiz tudo o que devia e tudo o que podia na vida, m as vocês... não quero nem pensar.
Rahul estava agora cabisbaixo e com pungido. Indira prosseguiu. Abandonou seu tom protetor e continuou falando com gravidade, de um a form a que seu neto não conhecia e que o im pressionou.
Se m e acontecer algum a coisa, não quero que chore por m im , certo? Quando chegar o m om ento, você tem que ser valente. Prom ete? O m enino ergueu os olhos para sua avó e assentiu.
DURANTE ESSES MESES DE 1984, Indira fez m uitas viagens pelo subcontinente, viagens que às vezes pareciam despedidas pela m aneira que falava de si m esm a e de com o gostaria de ser lem brada. Em algum as entrevistas, fazia um balanço de sua vida, em outras falava com o se estivesse acim a da política nacional. Sem pre havia se sentido com alm a de estadista, e agora sua visão global aflorava e se m anifestava em discursos im pregnados de sabedoria. "Quando um país tão antigo com o este é lançado a um a nova cultura tecnológica, o que acontece com a m ente rural? O m isterioso e o sagrado poderão sobreviver?
Algo dentro de m im diz que a índia sobreviverá com seus valores intactos." No início de outubro, depois de as últim as chuvas lim parem o céu e a árvores e plantas reverdecerem , Indira falou em Nova Délhi diante de um a m ultidão sem pre enorm e, m ais um diálogo dos m uitos que vinha m antendo com o povo da índia nas duas últim as décadas. Falou da coragem com o valor suprem o para atacar a m aior am eaça que se fechava sobre o país: a pressão das forças sectárias, das c a sta s ou dos grupos religiosos para rom per a unidade da índia. Foi um discurso que teria agradado a seu pai. Sim , a unidade da índia era o valor suprem o porque garantia o estado de direito para cada indivíduo, independentem ente de sua origem social, étnica ou religiosa.
Em 11 de outubro aconteceu um fato, a m ilhares de quilôm etros de distância, que a m ergulhou ainda m ais em seus obscuros pressentim entos. Margaret Thatcher, a quem havia conhecido em Londres, foi alvo de um atentado a bom ba do IRA em plena convenção do Partido Conservador. Esc a pou da m orte por pouco. Indira logo ligou para ela. Entendia m elhor que ninguém a vulnerabilidade e o pânico de sua colega. A Dam a de Ferro se m ostrava im passível por fora, m as por dentro estava tão alterada quanto se pode esperar de alguém que passa por um a situação dessas. A diferença entre essas duas prim eiras-m inistras, que eram am igas havia oito anos, é que para Margaret Thatcher o atentado havia sido um a revelação e um a surpresa. Nunca nada parecido havia acontecido na Inglaterra antes, afora o assassinato de Lord Mountbatten, tam bém obra do IRA, m as esse havia tido com o alvo um hom em aposentado enquanto passeava de barco com seu neto, não um chefe de Estado na ativa. Indira, porém , estava m uito m ais acostum ada à m orte violenta. Havia visto Gandhi, Sheikh Rahm an e Sanj ay m orrerem .
Não fazia m uito tem po, o assassinato de Salvador Allende no Chile a traum atizara e ainda continuava atorm entando-a. Sem pre pensou que sua vida acabaria do m esm o m odo. Porém , quando o m inistro da Defesa tentou convencê-la de trocar a polícia pelo Exército para aum entar sua proteção, ela replicou:
- Nem pensem em considerar essa opção. Sou chefe de um governo dem ocrático, não de um governo m ilitar.
Alguns dias depois, Ashwini Kum ar, chefe da polícia aduaneira, deu ordem para que todos os guardas de segurança siques destinados à residência de Indira fossem substituídos por outros de diferentes religiões. Mas Indira opôs-se e vetou a ordem . A m edida ia contra seu credo político m ais íntim o, a saber: em um estado laico, não se fazem distinções entre religiões. Ashwini Kum ar ficou perplexo e frustrado. "A prim eira-m inistra está m uito bem protegida de um ataque externo", disse, "m as... e se o ataque vier de dentro?" Indira m al lhe prestou atenção e respondeu: "Por acaso não som os aconfessionais?"
AQUELE OUTONO FOI, TAMBÉM, O outono de sua vida. Em novem bro ia com pletar 67 anos. Era vítim a de um m au pressentim ento que o atentado contra Thatcher havia acentuado. Se m dizer nada a ninguém , em m eados de outubro redigiu um docum ento que m ais tarde foi resgatado dentre seus papéis: "Se tiver que m orrer de m orte violenta com o alguns tem em e outros planej am , sei que a violência estará no pensam ento e na ação do assassino, e não no fato de m inha m orte, porque não existe ódio suficientem ente obscuro para fazer som bra ao am or que sinto por m inha gente e por m eu país; não existe força capaz de m e desviar de m eu propósito e de m eu esforço para levar este país adiante. Um poeta disse acerca do am or: Com o posso m e sentir hum ilde com sua riqueza a m eu lado?. O m esm o posso dizer da índia". Eram palavras de um a m ente depressiva? Ou tratava-se de um a prem onição? De qualquer m aneira, m ostravam que Indira sentia que fizera a escolha certa ao decidir continuar o legado fam iliar de serviço à índia em vez de se dedicar à busca de sua realização pessoal.
Chegou Diwali, a grande festa hindu das luzes, que, nesse país onde tudo é m ito e sím bolo, significa a vitória da luz sobre as trevas. O céu da cidade estava salpicado de um a m iríade de resplendores enquanto o estrépito dos roj ões era ouvido ao longe. Por todos os lados cintilavam lâm padas, lam parinas, velas. As favelas pareciam presépios e as casas das grandes avenidas de Nova Délhi exibiam guirlandas de luzes. Raj iv voltou de Orissa para passar a festa em fam ília, com o fazia todos os anos. Fiel ao costum e, Indira acendeu um a lam parina de óleo em frente à im agem de Ganesh, o Deus elefante, deus da felicidade, que ficava em um altarzinho na entrada. A seguir, toda a fam ília seguiu o ritual de ilum inar a casa com velas e lam parinas de óleo, e as crianças com eçaram a acender roj ões. Acim a do estrondo da festa, Indira ouviu Raj iv dizer que precisava sair cedo na m anhã seguinte.
Aonde você vai? - perguntou Indira.
A Bengala...
Bengala? Que curioso... sabia que lá acreditam que as alm as dos falecidos com eçam sua viagem hoj e m esm o, no dia de Diwali? Lá, as pessoas acendem lam parinas para indicar-lhes o cam inho...
No m om ento, as palavras de Indira não suscitaram resposta algum a. Seus fam iliares j á estavam acostum ados a ouvi-la dizer frases que eram atribuídas a seu estado depressivo. Mas Sônia se a ba lou e angustiou tanto que essa noite teve um a crise de asm a. Eram quatro horas da m adrugada quando acendeu a luz de seu criado-m udo e se levantou para ir ao arm arinho de rem édios, tendo cuidado para não acordar Indira, que dorm ia no quarto ao lado. Mas Sônia surpreendeu-se ao ver sua sogra, de cam isola, com um a lanterna na m ão. Deixe-m e aj udá-la a encontrar seus rem édios - sussurrou Indira, que obviam ente não havia dorm ido nada.
Encontrou-os e foi pegar um copo de água para Sônia. Cham e-m e se você se sentir m al outra vez - pediu Indira. - Procure descansar. Isso é o que digo a você, que descanse... Não consegue dorm ir? Não... Estou pensando em ir para a Caxem ira no fim de sem ana. Quero ver os chinares em flor. Já os viu algum a vez?
Sônia negou com a cabeça. Indira prosseguiu, em sussurros: É a árvore m ais bonita que existe, e só dá na Caxem ira. É com o um a m istura de bananeira com bordo grande, e no outono fica com um as cores espetaculares... verm elho, laranj a, pardo, a m a re lo. É um espetáculo que lem bra m inha infância. Há um em Srinagar pelo qual sou apaixonada desde que era m enina. O m ais belo de todos os chinares... Tenho vontade de voltar a vê-lo.
"Aque la árvore parecia ter um significado especial para ela", diria Sônia. "Era, talvez, a necessidade de despedir-se de suas raízes, das lem branças e de tudo o que a Caxem ira representava para ela." Indira hesitou em ficar m ais de um a noite em Srinagar porque estava preocupada com a asm a de Sônia. Mas sua nora a incentivou, e no fim Indira levou os netos. Queria m ostrar-lhes essa terra linda com o o paraíso de onde eram oriundos. E, além disso, a árvore.
Ficaram 36 horas em Srinagar e seus arredores. Mas, para sua grande decepção, o chinar de sua infância m orrera fazia pouco tem po. A notícia a com oveu. Supersticiosa com o era, a recente m orte desse chinar centenário não podia ser m ais que um sinal do destino. Não deixou transparecer sua tristeza e teve tem po de levar seus netos a dar um a volta de shikara, barquinhos em form a de gôndola, sobre as águas cintilantes e cobertas de lótus do lago Dal. Contou-lhes suas últim as férias com o vovô Firoz em um dos barcos habilitados com o hoteizinhos. Falou de seu am or pelas m ontanhas, que havia herdado de seu pai, e de com o a Caxem ira havia representado sem pre, para Nehru e para ela, certa idéia do Éden. A seguir, quis lhes m ostrar um bosque que exibia as cores de fogo dos chinares e depois deixou-os no hotel. Acom panhada de um único segurança, foi subir um m onte sagrado para visitar um tem plo onde m orava um velho sábio. Ficaram algum as horas j untos. "Indira m e disse que sentia que seu tem po estava acabando e que a m orte a rondava. Eu tam bém senti", confessaria o sábio, que não quis perder a oportunidade de pedir-lhe que fosse inaugurar um edifício novo adj unto ao ashram . "Voltarei se estiver viva", foi a resposta de Indira.
"Retornaram a Délhi em 28 de outubro e Indira passou um a noite tranqüila conosco na sala", escreveria Sônia. "Com o costum ava fazer sem pre, trouxe de seu estúdio seu banquinho de vim e e suas pastas e ficou trabalhando, dando um a olhada de vez em quando à tevê ou conversando conosco." Indira tinha a intenção de convocar eleições gerais m uito em breve, talvez em dois m eses. À noite, Sônia aj udou-a a preparar a roupa que vestiria no dia seguinte para ir a Orissa, na costa leste. Indira escolheu um sári bordô. O ator Peter Ustinov estava dirigindo um docum entário para a BBC sobre a Índia, e ia film á-la em sua turnê pelo estado, um dos m ais pobres do país.
Em Bhubaneswar, capital de Orissa, a prim eira-m inistra fez um discurso em otivo, falando dos grandes m om entos da história da índia, desde os tem pos antigos até a luta pela independência.
De repente, no final, m udou o tom de voz, assim com o a expressão de seu rosto: "Estou aqui hoj e, pode ser que não estej a aqui am anhã", disse. "Não m e im porta se vivo ou m orro... Continuarei servindo a m eu povo até m eu últim o suspiro, e, quando m orrer, cada gota de m eu sangue alim entará e fortalecerá m eu país, livre e unido." A seguir, dirigiu-se à casa do governador, onde pretendia pernoitar. O governador m ostrou-se surpreso pela alusão a um a m orte violenta.
Só estou sendo realista e honesta - disse Indira. - Vi m eu avô e m inha m ãe m orrerem lentam ente e com dor, de m odo que prefiro m orrer em pé. A conversa foi interrom pida pela notícia de que o 4 x 4 em que seus netos iam para o colégio havia sofrido um pequeno acidente nessa m esm a m anhã. Ninguém havia sido ferido. Mas Indira ficou lívida e m uito nervosa. Sua eterna am iga, a velha paranóia, aflorou de novo. Decidiu voltar a Délhi im ediatam ente. Sônia estava acordada quando sua sogra chegou, às três horas da m adrugada.
Com o estão as crianças? - perguntou Indira, angustiada. Bem . Estão dorm indo. Não aconteceu nada com elas. Seu secretário principal foi vê-la. Encontrou-a m uito cansada. Continuava usando o m esm o sári bordô, am assado e em poeirado. Indira tinha certeza de que o percalço da m anhã era parte de um com plô para seqüestrar seus netos ou agredi-los, e nada do que seu secretário disse serviu para fazê- la m udar de opinião. A seguir, insistiu em discutir assuntos urgentes sobre a Caxem ira e o Punj ab.
Não prefere deixar para am anhã? - sugeriu o hom em . Não, vam os falar agora. Am anhã quero descansar um pouco. Tenho um encontro com o ex-prim eiro-m inistro britânico Jam es Callaghan, e à noite um j antar oficial aqui em casa em hom enagem à princesa Ana...
Está tudo pronto para o j antar, não se preocupe - disse Sônia. - Só preciso que m e diga onde quer sentar as pessoas.
Am anhã lhe farei as anotações.
Sônia fez um gesto de despedida e foi se deitar. Quando Indira acabou de resolver os assuntos pendentes com seu secretário principal, cham ou o outro, o fiel Dhawan, a quem deu instruções para cancelar todos os com prom issos do dia seguinte, exceto o que tinha com Peter Ustinov, que queria entrevistá-la pela m anhã, e os previstos com a delegação britânica à tarde. Estava m uito cansada.
Duas horas depois, às seis da m anhã, levantou-se. Fez seus exercícios de ioga, tom ou um banho e escolheu um lindo sári de seda de tons pardos e açafrão com um barrado preto. Escolheu esses tons porque lhe lem bravam as cores outonais da Caxem ira e porque lhe haviam dito que ficavam bem na televisão. Pela m esm a razão, não colocou o colete à prova de balas que a obrigavam a usar em baixo da blusa desde que as am eaças a sua vida se m ultiplicaram . Provavelm ente não reparou que o açafrão era a cor da renúncia segundo a crença hindu, e particularm ente sique. A seguir, com eu um a torrada e tom ou um a xícara de chá em seu quarto enquanto folheava os j ornais.
Seus netos Rahul e Priy anka foram conversar um instante com ela antes de irem ao colégio. Quando Priy anka lhe deu um beij o de despedida, estranhou que sua avó a apertasse tão fortem ente contra seu corpo. Atribuiu isso ao m edo que devia ter sentido com o pequeno acidente da véspera.
A seguir, Indira cham ou Rahul e disse a ele: "Lem bra do que lhe disse outro dia? Se m e acontecer algum a coisa, não quero que chorem por m im ". O rapaz assentiu e, surpreso, deixou-se abraçar.
Depois do café-da-m anhã, Indira se abandonou às m ãos de duas m aquiadoras da equipe de Ustinov. Sônia passou para vê-la e lhe inform ar sobre o cardápio do j antar. Indira sem pre tom ava cuidado para não servir a m esm a coisa ao convidado que voltava à casa. Não tiveram m uito tem po para conversar porque logo o secretário Dhawan foi avisá-la que a equipe de tevê a estava esperando em seu escritório da Akbar Road.- Vam os cuidar dos detalhes na hora do alm oço - disse a Sônia ao ir em bora. Indira atravessou a sala de j antar, a antessala e saiu de casa. Era um dia lindo, um a m anhã clara, sem neblina, lum inosa. O sol tingia de ouro a vegetação luxuriosa do j ardim . A tem peratura era perfeita e a brisa, um bálsam o. Cheirava a flores e a gram ado recém -cortado. Andou pelo cam inho que separava sua residência do gabinete do partido na Akbar Road entre canteiros de flores e m atas de folhas perenes. Um policial cam inhava a seu lado, levando um a som brinha preta para protegê-la do sol.
O secretário Dhawan seguia alguns passos atrás, e a seguir um a escolta. Passaram em frente a um grande bordo que exibia folhas am areladas e averm elhadas. No fim do cam inho, agora m argeado por bugainvílleas, Indira reconheceu seu segurança Beant Singh abrindo-lhe o pequeno portão que dava para o j ardim onde ficavam os gabinetes. Era difícil não o ver, porque Singh era um gigante, um sique do Punj ab, usando um turbante com binando com o caqui de seu uniform e. Estava acom panhado de outro segurança, tam bém sique, que Indira m al conhecia. Ao se aproxim ar deles, interrom peu a conversa que m antinha com seu secretário para cum prim entá-los. Fez isso da m aneira tradicional,
j untando as m ãos à altura do peito, inclinando levem ente a cabeça e dizendo: Nam asté. Com o resposta, Beant Singh, seu fiel segurança dos últim os cinco anos, puxou um a pistola e apontou para ela. Houve um silêncio que durou a eternidade de m eio segundo, interrom pido pelo canto de um pássaro nos altos galhos das carquej as. "O que está fazendo?", perguntou Indira. Nesse m om ento, Singh disparou quatro tiros à queim a-roupa. Indira levantou o braço para se proteger. O segurança voltou a cabeça para seu com panheiro e gritou: "Atire!". O outro sique esvaziou seu fuzil autom ático Stern - 25 balas - no corpo de Indira. O im pacto a fez girar sobre si m esm a antes de desabar na terra úm ida do cam inho. Estava de olhos abertos. Parecia olhar para as copas das árvores, talvez para o céu. Eram 9h16. Caiu no lugar exato em que, dias antes, havia visto seu neto Rahul brincar com um dos cães.
Outro guarda, que seguia Indira a certa distância e que não fazia parte da conspiração, correu para ela, m as, antes de alcançá-la, um a raj ada o acertou no tornozelo e ele caiu de bruços. Os dem ais acom panhantes, paralisados, tem endo ser alvej ados, agacharam -se com o se protegendo a tr á s do corpo de Indira. Esperavam o pior. Logo ouviram as vozes de outros agentes de segurança que chegavam correndo da Akbar Road. Acharam que com eçaria um violento tiroteio, m as nesse m om ento os dois seguranças siques j ogaram as arm as no chão. "Fiz o que tinha que fazer", disse o gigante Beant Singh em panj abi. "Agora vocês façam o que têm que fazer." Era sua m aneira de dizer que, em nom e dos siques, havia vingado o sacrilégio ao Tem plo de Ouro. O policial que segurara a som brinha preta j ogou-se sobre ele e j ogou-o ao chão, enquanto o secretário Dhawan, que por m ilagre havia saído incólum e da últim a raj ada de balas, conseguiu sair do estupor, arrastar-se para Indira e ficar de cócoras a seu lado para atendê-la. Logo chegaram m ais soldados do corpo da polícia aduaneira, que estavam de guarda em um a guarita na rua, e neutralizaram o outro segurança assassino. Levaram -nos para a guarita, onde houve um a luta. Dizem que tentaram fugir. O caso é que foram baleados. Beant Singh m orreu no ato. O outro, gravem ente ferido, seria levado para um hospital. Mais tarde, soube-se que, fora de suas horas de serviço, Beant costum ava freqüentar os gurdwaras (tem plos siques) de Délhi e que conversava com os elem entos m ais exaltados. O outro a c a ba va de passar um m ês de férias em seu povoado no Punj ab, no próprio berço do nacionalism o sique.
O m édico pessoal de Indira, que um dos em pregados havia avisado assim que ouviu o tiroteio, chegou arfando e correu para fazer as m anobras de reanim ação. "A am bulância, rápido!", gritava: "Cham em a am bulância para levar a senhora Gandhi ao hospital!". Um a am bulância estava sem pre estacionada em frente à casa, com o parte da assistência rotineira à prim eira-m inistra. Mas, no m om ento crítico, não estava disponível. O m otorista foi tom ar um chá! - disse um em pregado. Um carro, então! Tragam um carro agora m esm o! Conseguiram arranj ar um Am bassador branco, que m anobraram e fizeram entrar no j ardim . O secretário Dhawan e o policial pegaram o corpo inerte de Indira e levaram -no até o carro. Deitaram -na no banco de trás e se sentaram na frente. O carro estava prestes a arrancar quando surgiu Sônia, de robe, transtornada, o cabelo m olhado e desgrenhado e o olhar espantado. O tiroteio a havia surpreendido no chuveiro. No início, confundira-o com roj ões, com o os que as crianças lançam em Diwali. Mas o grito de um a das em pregadas a fez perceber que algo terrível havia acontecido. E lá estava a confirm ação de seus tem ores: sua sogra j azia no banco de trás, sem vida. A m ulher que desde pequena havia sido com parada a Joana d'Arc havia sido, por sua vez, traída e levada à m orte por gente de sua confiança. Sônia entrou no carro. "Oh, m am ãe! Meu Deus, m am ãe!" disse ao aj oelhar-se no banco de trás para pegar em suas m ãos a cabeça de Indira e abraçá-la, falar com ela, beber o últim o sopro de vida e talvez reverter o ineludível curso do destino. O carro saiu disparado em direção ao Ali índia nstitute of Medical Science, o m esm o hospital a que haviam levado Sanj ay depois da queda com o avião. Sônia se lem braria daquele traj eto de apenas 5 km de distância com o o m ais longo de sua vida. O trânsito era m uito intenso e parecia que nunca chegariam . Nova Délhi j á não era a m esm a cidade de quando chegara; j á quase não havia carroças puxadas por bois ou cam elos, nem elefantes, nas ruas. A população havia se m ultiplicado por quatro e o trânsito era pesado. Indira sangrava em suas m ãos e Sônia se sentia im potente. "Meu Deus, m ais rápido!", repetia, enquanto passava a m anga de seu robe no rosto de Indira e tentava enxugar suas feridas. Com o um pêndulo enlouquecido, seu estado de ânim o oscilava do m ais negro à esperança: "E se estiver sim plesm ente inconsciente?", perguntava-se de repente enquanto o carro tentava abrir cam inho buzinando. "Rápido!", dizia ao m otorista.