O Telefone Preto e Outras Histórias
Introdução
Melhor estreia de terror
Fantasma do século XX
Pop Art
Você ouvirá o canto do gafanhoto
Os filhos de Abraham
Melhor que lá em casa
O telefone preto
Entre as bases
A capa
Último suspiro
Natureza morta
O café da manhã da viúva
Bobby Conroy volta dos mortos
A máscara do meu pai
Internação voluntária
Agradecimentos
Sobre o autor
INTRODUÇÃO
O TERROR MODERNO QUASE nunca é sutil. A maioria daqueles que praticam essa inquietante arte costuma ir direto na jugular, esquecendo que os melhores predadores são furtivos. Não há nada de errado em mirar na jugular, claro, mas escritores de habilidade e talento verdadeiros têm mais de uma carta na manga.
Nem todos os contos de O telefone preto e outras histórias são de terror, por sinal. Alguns são melancólicos e sobrenaturais, outros são de ficção convencional, perturbadoramente sombria, e um não tem nem mesmo um traço de maldade, sendo, na verdade, bem doce. Mas eles são sutis. Joe Hill é um filho da puta sutil. Mesmo o conto que tem um garoto que vira um inseto gigante é sutil e, falando sério, com que frequência dá para afirmarmos isso?
Conheci Joe Hill como um nome na lista de autores de uma coletânea chamada The Many Faces of Van Helsing [ As muitas faces de Van Helsing, em tradução livre], editada por Jeanne Cavelos. Embora eu também tenha uma história naquele livro, confesso que não havia lido nenhuma delas até um pequeno evento de autógrafos na Pandemonium, uma livraria em Cambridge, Massachusetts. Joe Hill estava lá, além de Tom Monteleone, Jeanne e eu.
Até aquele momento, eu não havia lido uma palavra do que Joe escrevera, mas, conforme o dia foi passando, fiquei cada vez mais curioso sobre ele. Para mim, o mais interessante que surgiu das nossas conversas era que, embora Joe amasse histórias de terror, elas não eram, nem de longe, seu único amor. Ele publicou histórias convencionais em revistas “literárias” (e, acredite em mim, uso esse termo de forma tão livre, que é capaz dele sair correndo e nunca mais voltar) e ganhou prêmios por elas. Ainda assim, Joe sempre voltava ao horror e à fantasia macabra.
Fique feliz por isso. Se não estiver agora, logo vai estar.
Em algum momento, eu acabei lendo The Many Faces of Van Helsing, mas graças, em grande parte, ao meu encontro com Joe, coloquei-o no topo da lista de leitura. O conto dele nesse livro, “Os filhos de Abraham”, era uma análise arrepiante e detalhada de crianças que começam a perceber — como todas fazem — que o pai não é perfeito. A história me fez lembrar, da melhor maneira possível, o profundamente perturbador filme independente A mão do diabo. “Os filhos de Abraham” é um conto excelente que aparece mais ou menos na metade do livro que você tem em mãos, bom o suficiente para me fazer procurar outros trabalhos de Joe Hill. Mas ele só tinha publicado contos, e a maioria deles estava em lugares que eu não esbarraria sem querer. Coloquei um alerta no fundo do meu cérebro para procurar pelo nome de Joe no futuro.
Quando Peter Crowther me perguntou se eu estaria disposto a ler O telefone preto e outras histórias e escrever a Introdução, eu sabia que não devia concordar. Não tenho tempo para fazer muita coisa além de escrever e estar com a família, mas a verdade é que eu queria ler o livro. Queria satisfazer a minha curiosidade, descobrir se Joe Hill era mesmo tão bom quanto “Os filhos de Abraham”
indicava.
Ele não era.
Era bem, bem melhor.
Em “Você ouvirá o canto do gafanhoto”, o autor combina seu amor e conhecimento sobre a ficção científica e os filmes de monstros dos anos 1950 com os mesmos medos atômicos que geraram essas obras. O efeito é, ao mesmo tempo, sombriamente humorístico e comovente.
Há uma elegância e uma sensibilidade aqui que nos faz lembrar de outra época, de Joan Aiken e Ambrose Bierce, de Beaumont, Matheson e Rod Serling.
Na sua melhor forma, Hill chama o leitor para completar a cena, convida-o a fornecer a resposta emocional necessária para a história ser completamente bem-sucedida. E suscita essa resposta de forma maestral. Estes são contos colaborativos que parecem existir apenas quando o leitor os descobre. Eles precisam da cumplicidade dele para cumprir seus objetivos. No primeiro, “Melhor estreia de terror”, é impossível não reconhecer certa familiaridade e perceber para onde a história está caminhando, mas isso não é um fracasso, e, sim, um grande feito. Sem a sensação quase exausta de expectativa, a narrativa não funcionaria.
Joe Hill atrai o leitor para a intimidade de “Fantasma do século XX” e o desespero de “O telefone preto” de maneira que ele passa a fazer parte do conto, compartilhando os acontecimentos com os personagens principais.
Um número exagerado de escritores parece achar que não há lugar no horror para sentimentos verdadeiros, substituindo isso por respostas emocionais pré-prontas sem maiores significados que as instruções de direção em um roteiro. Não é assim com Joe Hill. Por mais estranho que pareça, um dos melhores exemplos disso é
“Bobby Conroy volta dos mortos”, que não tem nem um pingo de terror, embora se passe no estúdio de filmagem de O despertar dos mortos, o clássico filme de George Romero.
Gostaria de falar com você sobre cada história desta coletânea, mas um dos perigos de escrever algo que vai entrar nas primeiras páginas de um livro é entregar coisa demais. Posso dizer que, se fosse possível extrair da minha mente a memória de ter lido esses contos, eu o faria de bom grado, apenas para ter o prazer de lê-los pela primeira vez novamente.
“Melhor que lá em casa” e “Natureza morta” são simplesmente lindos. “O café da manhã da viúva” é um retrato comovente de outro tempo e de um homem que se perdeu no caminho.
“Fantasma do século XX” fala ao coração nostálgico como diversos dos meus episódios favoritos de Além da imaginação.
“Você ouvirá o canto do gafanhoto” é o filho de um ménage à trois entre William Burroughs, Kafka e o filme O mundo em perigo.
“Último suspiro” tem um toque de Bradbury. Todos esses contos são incríveis, alguns incrivelmente bons. “A máscara do meu pai” é tão estranho e perturbador, que me deixou zonzo.