O Telefone Preto e Outras Histórias
A máscara do meu pai
George Romero se voltou para eles balançando a cabeça.
— Aquilo foi ótimo, quando você acertou a coluna e deixou uma marca de sangue. Deveríamos fazer de novo, do mesmo jeito.
Dessa vez, poderia deixar um pouco de massa cinzenta lá. O que me dizem? Quem quer tentar de novo?
— Eu — falou Bobby.
— Eu — respondeu Harriet. — Eu.
— Sim, por favor — disse o pequeno Bobby com o dedão na boca,
— Acho que é unânime — falou Bobby. — Todo mundo quer tentar de novo.
A MÁSCARA DO MEU PAI
DURANTE A VIAGEM ATÉ Big Cat Lake, a gente fez uma brincadeira. Foi ideia da minha mãe. Estava escuro quando chegamos na autoestrada, sem nenhuma luz no céu com exceção de um pingo reluzente, pálido e frio a oeste, e ela me disse que estavam atrás de mim.
— É o povo do baralho — falou ela. — Rainhas e reis. São tão finos que conseguem passar por debaixo da porta. Eles vão vir pela direção contrária. Procurando pela gente. Tentando cortar as nossas cabeças. Se esconda sempre que alguém se aproximar pela outra pista. Não podemos te proteger deles, não na estrada. Rápido, se abaixe. Tem um deles vindo agora.
Eu me deitei no banco traseiro e observei os faróis de um outro carro passarem pelo teto. Não sei bem se eu estava brincando ou apenas me acomodando no banco. Eu estava chateado. Passei o dia pensando que dormiria na casa do meu amigo Luke Redhill, jogando pingue-pongue e assistindo à TV até tarde com ele (e a irmã mais velha de pernas compridas dele, Jane, e a amiga dela de cabelos brilhantes, Melinda), mas, assim que cheguei da escola, vi malas na entrada da garagem enquanto meu pai colocava outras no carro. Aquela foi a primeira vez que soube que a gente ia passar a noite no chalé do meu avô, em Big Cat Lake. Não consegui ficar com raiva dos meus pais por não terem me avisado dos planos com antecedência porque provavelmente não tinham feito planos com antecedência. Era bastante possível que tivessem decidido ir para Big Cat Lake na hora do almoço. Os dois não planejavam as coisas.
Apenas tinham vontades e um filho de treze anos, e não viam por que ele deveria impedir suas ideias.
— Por que vocês não podem me proteger? — perguntei.
Minha mãe respondeu:
— Porque existem certas coisas que nem o amor de uma mãe ou a coragem de um pai conseguem vencer. Além disso, quem
poderia lutar com eles? Você conhece o povo do baralho. Eles sempre andam com machadinhas douradas e espadas prateadas.
Já notou como a maioria das mãos boas de pôquer tem muitas armas?
— Não é por acaso que o primeiro jogo que todo mundo aprende é Batalha — falou o meu pai dirigindo com um pulso pendurado no volante. — São sempre variações da mesma história. Reis metafóricos lutando pelo suprimento limitado de mulheres e dinheiro.
Do seu assento, minha mãe me lançou um olhar sério, os olhos brilhando na escuridão.
— Estamos com problemas, Jack — disse ela. — Problemas graves.
— Ok — respondi.
— A situação foi piorando com o tempo. No início, mantivemos segredo porque não queríamos que ficasse assustado. Mas você precisa saber. É a coisa certa a ser feita. Nós… veja bem… não temos mais dinheiro. É o povo do baralho. Eles estão contra nós, acabando com investimentos, fazendo os nossos ativos se perderam na burocracia. E também espalhando rumores horríveis sobre o seu pai no trabalho. Não vou contar os detalhes, não quero que fique triste. Estão ligando e nos ameaçando. Telefonam para mim no meio do dia e falam das coisas terríveis que vão fazer comigo. Com você. Com todos nós.
— Teve uma noite em que colocaram alguma coisa no molho de mexilhão, o que me deu uma caganeira ímpia — disse o meu pai. —
Achei que ia morrer. Além disso, nossa roupa lavada a seco voltou com umas manchas brancas esquisitas. Foram eles também.
Minha mãe riu. Já ouvi falar que cachorros têm seis tipos de latidos, cada um com um significado específico: intruso, vamos brincar, preciso fazer xixi. Minha mãe tinha um certo número de risadas, cada uma com significado e identidade certeiros, todas maravilhosas. Essa risada, áspera e convulsiva, era a resposta dela para piadas pesadas e para acusações, ao ser pega aprontando alguma traquinagem.
Ri com ela, voltando a me sentar, o nó na minha barriga se desfazendo. Ela falara de um jeito tão solene, e os seus olhos
estavam tão esbugalhados, que, por um momento, comecei a esquecer que ela tinha inventado tudo aquilo.
Ela se esticou até o meu pai e passou um dedo pelos lábios dele, como se estivesse fechando seus lábios com um zíper.
— Deixa que eu conto — falou ela. — Está proibido de falar mais.
— Se estamos com tantos apertos financeiros, eu poderia ir morar com o Luke por um tempo — falei. E Jane, pensei. — Não quero ser um fardo para a família.
Ela olhou para mim.
— Não é o dinheiro que me preocupa. Amanhã uma pessoa vai avaliar a mobília. Tem algumas antiguidades maravilhosas naquela casa, coisas que o seu avô deixou para a gente. Vamos ver se conseguimos vender algumas.
Meu avô, Upton, morrera no ano anterior de uma maneira que ninguém queria discutir, uma morte que não tinha lugar na vida dele, um fim de filme de terror misturado com uma comédia pastelão. Ele estava em Nova York, onde tinha um apartamento no quinto andar de um prédio geminado no Upper East Side, um dos seus vários imóveis. Chamou o elevador e, assim que as portas se abriram, deu um passo à frente — mas o elevador não estava lá, e ele caiu quatro andares. A queda não o matou. Ele viveu por mais um dia no fundo do fosso do elevador. O elevador era velho e lento, e reclamava sempre que precisava se mover, como a maioria dos moradores do prédio. Ninguém ouviu o meu avô gritar.
— Por que a gente não vende a casa em Big Cat Lake? —
perguntei. — Aí estaríamos nadando em dinheiro.
— Ah, não podemos fazer isso. Não é nossa. Ela é dividida entre todos nós, eu, você, a tia Blake, os gêmeos Greenly. E mesmo que fosse só nossa, não poderíamos vendê-la. Ela sempre esteve na família.
Pela primeira vez desde que entrei no carro, pensei ter entendido o motivo real de estarmos indo para Big Cat Lake.
Percebi, então, que os meus planos para o fim de semana haviam sido sacrificados no altar da decoração de interiores. Minha mãe adorava decorar. Adorava escolher cortinas, luminárias de vidro colorido, puxadores de ferro exclusivos para os armários da cozinha. Alguém a deixara responsável por redecorar o chalé em Big Cat Lake — ou, mais possivelmente, ela se considerara responsável —, e ela queria começar se livrando de toda a tralha.
Eu me senti um idiota por tê-la deixado me distrair do meu mau humor com uma das suas brincadeiras.
— Queria ter ido dormir na casa do Luke — falei.
Minha mãe me lançou um olhar sorrateiro através das pálpebras meio fechadas, e de repente senti uma coceira na cabeça de desconforto. Foi um olhar que me fez considerar o que ela sabia e se tinha adivinhado o verdadeiro motivo da minha amizade com Luke Redhill, um garoto tosco, mas de boa índole, que tirava meleca em público e que eu considerava inferior do ponto de vista intelectual.
— Não seria seguro lá. O povo do baralho teria conseguido pegar você — disse ela, o tom ao mesmo tempo animado e muito acanhado.
Revirei os olhos.
— Tá bom.
Continuamos a viagem em silêncio por algum tempo.
— Por que eles querem me pegar? — perguntei, mesmo que, àquela altura, eu já estivesse cansado daquilo, queria logo acabar com a brincadeira.
— Porque somos incrivelmente supersortudos. Ninguém deveria ter tanta sorte quanto a gente. Eles odeiam a ideia de que alguém esteja conseguindo coisas de graça por aí. Mas tudo ficaria equilibrado se conseguissem pegar você. Não importa o quanto somos sortudos, quando um filho é perdido, a bonança acabou. Éramos sortudos, é claro, talvez até supersortudos, e não apenas no sentido de termos muito dinheiro, como todos da nossa família de vagabundos que se aproveitavam dos dividendos de fundos de pensão. Meu pai tinha mais tempo para passar comigo do que os outros pais tinham para os filhos. Ele ia trabalhar depois que eu saía para a escola e, em geral, chegava em casa antes que eu voltasse, e se eu não tivesse nada para fazer, a gente ia dar umas tacadas no campo de golfe. Minha mãe era linda, ainda jovem, apenas 35 anos, com um instinto natural para travessuras que fazia muito sucesso entre os meus amigos. Suspeitava que vários dos
garotos com quem eu andava, inclusive Luke Redhill, já a tinha colocado nas suas fantasias masturbatórias e que, na verdade, a atração que eles sentiam por ela explicava por que gostavam de mim.
— E por que Big Cat Lake é seguro? — questionei.
— Quem disse que é?
— Então por que estamos indo para lá?
Ela virou o rosto para outra direção.
— Para que a gente possa acender a lareira, dormir tarde, comer omelete e passar a manhã de pijama. Mesmo com medo de morrer, não tem motivo para passar o fim de semana inteiro se lamentando.
Ela colocou a mão na nuca do meu pai e fez um cafuné. Então congelou, e as unhas afundaram no cabelo dele.
— Jack — disse ela para mim. Ela estava olhando para além do meu pai, pela janela do motorista, para alguma coisa na escuridão.
— Se abaixa, Jack, se abaixa.
A gente estava na Rota 16, uma estrada longa e reta com um canteiro central fino entre as duas faixas. Um carro estava estacionado em um desvio entre as pistas, e quando a gente passou por ele, seus faróis se acenderam. Virei a cabeça e os encarei por um segundo antes de me abaixar e me esconder. O carro — um Jaguar prateado elegante — entrou na estrada e acelerou na nossa direção.
— Eu falei para não deixar eles verem você — disse a minha mãe. — Acelera, Henry. Fica longe deles.
Nosso carro ganhou velocidade, avançando pelo negrume.
Apertei os dedos no banco, ajoelhado para poder dar uma olhada na janela traseira. Não importava o quão rápido fôssemos, o outro carro continuava exatamente à mesma distância da gente, fazendo as curvas com uma segurança calma e ameaçadora. Às vezes, minha respiração ficava presa na garganta por alguns instantes até eu me lembrar de expirar. As placas de sinalização passavam ligeiras, rápidas demais para serem lidas.
O Jaguar nos seguiu por cinco quilômetros antes de entrar no estacionamento de um restaurante à beira de estrada. Quando me virei para a frente, minha mãe estava acendendo um cigarro no anel laranja pulsante da tomada de isqueiro do painel. Meu pai
cantarolava baixinho para si mesmo, diminuindo a velocidade.
Balançava a cabeça de um lado para o outro, mantendo o ritmo de uma melodia que não consegui reconhecer.
***
CORRI PELA ESCURIDÃO E pelo vento cortante com a cabeça abaixada, sem saber para onde ia. Minha mãe estava bem atrás de mim, nós dois caminhávamos rápido até o alpendre. Não havia iluminação na porta do chalé em frente ao lago. Meu pai tinha desligado o motor e os faróis e a casa ficava no meio do bosque, no final de uma estrada de terra esburacada sem postes de luz. Tive um vislumbre do lago logo além da casa, um buraco no mundo preenchido por uma escuridão profunda.
Minha mãe abriu a porta e foi acendendo as lâmpadas da casa.
O chalé fora construído em volta de uma sala grande com teto de madeira, as vigas à mostra, e paredes de troncos com a casca vermelha aparecendo. À esquerda da porta da frente ficava um armário com um espelho no fundo escondido por um par de véus pretos. Com as mãos dentro do bolso do casaco por causa do frio, fui até lá. Através das cortinas semitransparentes, vi uma silhueta sombria e sem muita definição, meu próprio reflexo obscuro, vindo me encontrar no espelho. Senti uma pontada de desconforto com o meu eu refletido, uma sombra sem traços escondida atrás da seda escura, alguém que eu não conhecia. Puxei as cortinas, mas vi apenas a mim mesmo, as bochechas vermelhas por causa do vento.
Estava prestes a me afastar quando notei as máscaras. O
espelho era sustentado por dois pilares delicados e algumas máscaras se penduravam no topo de cada um deles, eram daquele tipo que cobre apenas os olhos e um pouco do nariz, como a do Zorro. Uma tinha bigodes de animal e purpurina, e faria a pessoa parecer um rato feito de joias. Outra era de um veludo preto rico e teria sido uma vestimenta apropriada para uma cortesã a caminho de um baile de máscaras eduardiano.
Todo o chalé fora habilmente decorado com máscaras. Elas ficavam em maçanetas e nas costas de cadeiras. Uma máscara furiosa grande e carmesim nos observava de cima da lareira, um
demônio surreal feito de papel machê envernizado, com uma barba que fazia uma curva e penas ao redor dos olhos — a máscara perfeita para ser usada para interpretar a Morte Rubra em um novo filme inspirado em Edgar Allan Poe.
A mais perturbadora de todas estava pendurada no trinco de uma das janelas. Era feita de um plástico claro, mas distorcido, e parecia o rosto de um homem moldado a partir de uma camada de gelo impossivelmente fina. Era difícil notá-la, pendente diante do vidro, e me contorci de nervoso quando a vi de soslaio. Por um instante, pensei que fosse um homem, espectral e quase inexistente, pairando no alpendre, boquiaberto e olhando para mim.
A porta da frente se escancarou, e o meu pai entrou carregando as malas. Na mesma hora, a voz da minha mãe surgiu atrás de mim.
— Quando éramos jovens, crianças, na verdade, seu pai e eu costumávamos vir aqui para escapar de todo mundo. Espera.
Espera, já sei. Vamos fazer uma brincadeira. Você tem até a hora da gente ir para adivinhar em que quarto foi concebido.
Minha mãe gostava de me enojar de vez em quando com revelações íntimas e não solicitadas sobre ela e o meu pai. Franzi as sobrancelhas e a encarei com o que esperava ser desaprovação, e ela riu de novo, e ficamos os dois satisfeitos, executando os nossos papéis à perfeição.
— Por que tem cobertas em todos os espelhos?
— Sei lá — respondeu ela. — Talvez a última pessoa que tenha dado uma passada aqui as colocou em homenagem ao seu avô. Na tradição judaica, quando uma pessoa morre, os enlutados cobrem os espelhos para afastarem a vaidade.
— Mas não somos judeus — falei.
— Mesmo assim, é uma boa tradição. Poderíamos passar menos tempo pensando em nós mesmos.
— E as máscaras?
— Quaisquer férias em família têm que ter umas máscaras de bobeira por aí. E se você quiser tirar umas férias da própria cara?
Eu fico exausta de ser a mesma pessoa todo dia. O que acha dessa aí? Gostou?
Distraído, eu estava passando os dedos na máscara clara e sem traços pendurada na janela. Quando ela chamou a minha atenção para o que eu estava fazendo, puxei a mão. Um arrepio correu pela carne dos meus antebraços.
— Você deveria colocá-la — disse ela, a voz ofegante e ávida.
— Deveria ver como fica.
— É horrível — argumentei.
— Vai ficar bem dormindo no seu quarto? Pode dormir na cama com a gente. Foi o que fez da última vez que viemos aqui. Mas você era bem mais novo, na época.
— Não, tudo bem. Não ia querer atrapalhar, no caso de estarem com vontade de conceber outra pessoa.
— Cuidado com o que deseja — disse ela. — A história se repete.
AS ÚNICAS MOBÍLIAS NO quartinho eram uma cama de montar coberta por lençóis que cheiravam a naftalina e um guarda-roupa encostado na parede, com cortinas de caxemira fechadas sobre o espelho no fundo. Uma máscara que cobria metade do rosto estava pendurada na haste da cortina. Era feita de folhas de seda verde costuradas e ornamentadas com lantejoulas cor de esmeralda, e gostei dela até a hora em que apaguei a luz. No escuro, as folhas pareciam escamas que formavam chifres de alguma coisa com cara de lagarto, e o lugar onde os olhos deveriam estar era vazio e sombrio. Voltei a acender a luz e consegui me esticar o suficiente para deixar a máscara encarando a parede.
Havia árvores ao redor do chalé e, de vez em quando, um galho acertava a lateral, produzindo um som que sempre me despertava com a ideia de que havia alguém à porta do quarto. Acordei, adormeci e acordei de novo. O vento fazia um zumbido agudo, e, do lado de fora, vinha um barulho metálico constante, ping-ping-ping, como uma roda girando em um vendaval. Fui até a janela para dar uma olhada, mas não esperava ver nada. Mas a lua estava clara e, conforme as árvores se mexiam com o vento, o luar percorria o chão, passando pelas sombras como cardumes daqueles peixinhos prateados que vivem no fundo do mar e brilham no escuro.
Uma bicicleta estava encostada em uma das árvores, uma antiguidade com uma roda da frente gigante e uma roda de trás tão pequena que o objeto quase chegava a ser engraçado. A roda dianteira girava sem parar, ping-ping-ping. Um garoto cruzou o gramado na direção dela, um menino loiro e gordinho vestindo uma camisola branca, e, ao vê-lo, senti um pavor instintivo. Ele agarrou o guidão da bicicleta e depois inclinou a cabeça como se tivesse ouvido algo, e eu gemi e me afastei do vidro. Ele se virou e olhou para mim com os olhos e os dentes prateados, com covinhas nas bochechas gordas de cupido, e eu acordei de supetão na minha cama com cheiro de naftalina, fazendo sons infelizes de medo com a garganta.
Quando a manhã chegou, e eu enfim despertei pela última vez, percebi que estava no quarto principal, sob um monte de cobertores, com o sol brilhando na minha cara. A impressão deixada pela minha mãe ainda marcava o travesseiro ao meu lado. Não me lembrava de ter corrido para lá na escuridão e fiquei feliz por isso. Com treze anos, eu era pouco mais que uma criança, mas ainda tinha o meu orgulho.
Fiquei como uma salamandra em cima de uma pedra —
hipnotizado pelo sol e acordado sem estar consciente — até ouvir alguém abrir um zíper no outro lado do quarto. Olhei ao redor e vi o meu pai, abrindo uma mala sobre uma escrivaninha. Um movimento sutil nos cobertores chamou a atenção dele, que virou o rosto para me ver.
Ele estava nu. O sol da manhã iluminava o seu corpo pequeno e parrudo. Usava a máscara clara de plástico que eu vira pendurada na janela da sala na noite anterior. Ela amassava o rosto abaixo, apagando os seus traços reconhecíveis. Ele me encarou sem expressão, como se não soubesse que eu estava deitado na cama, ou talvez como se não me conhecesse. Seu pênis grosso descansava em meio a uma almofada de fios ruivos. Já o tinha visto pelado vezes suficientes, mas com a máscara ele parecia diferente, e a sua nudez era desconcertante. Ele olhou para mim e não falou nada — e aquilo também foi desconcertante.
Abri a boca para dar oi e bom-dia, mas não havia ar no meu peito. O pensamento de ele ser, de verdade, e não metaforicamente,
uma pessoa que eu não conhecia me ocorreu. Não consegui encará-lo de volta, então desviei os olhos, saí de baixo dos cobertores e fui para a sala, não me permitindo correr.
Uma panela fez barulho na cozinha. Água saía de uma torneira.
Segui os sons até a minha mãe, que estava enchendo um bule de chá na pia. Ela me ouviu caminhando e olhou para trás por cima do ombro. A visão da minha mãe me fez parar. Ela estava usando uma máscara preta de gato, com pedras brilhantes decorando as bordas e bigodes reluzentes. Não estava pelada, mas usava uma camiseta comprida com uma estampa de propaganda de cerveja. Suas pernas, no entanto, estavam nuas, e, quando se inclinou sobre a pia para fechar a água, tive um vislumbre da sua calcinha preta rendada. Fui tranquilizado pelo fato de ela ter sorrido para mim, e não me olhado como se nunca tivesse me visto.
— Tem omelete no fogão — falou ela.
— Por que você e o papai estão usando máscaras?
— É Dia das Bruxas, não é?
— Não — respondi. — É só na quinta que vem.
— Tem alguma lei que diz que não podemos começar mais cedo? — perguntou ela. Então parou na frente do fogão com uma luva de forno cobrindo uma das mãos e olhou novamente para mim.
— Na verdade. Na verdade.
— Lá vem. O caminhão está dando ré. A caçamba está levantando. A merda vai escorrer a qualquer momento.
— Neste lugar, é sempre Dia das Bruxas. Nós chamamos de Casa das Máscaras. É o nosso nome secreto para ela. É uma das regras do chalé: enquanto estiver aqui, você tem que usar uma máscara. Sempre foi assim.
— Posso esperar até o Dia das Bruxas.
Ela tirou uma frigideira do forno, cortou um pedaço de omelete para mim e me serviu uma xícara de chá. Então sentou-se do outro lado da mesa para me ver comendo.
— Você tem que usar uma máscara. O povo do baralho viu você na noite passada. Vão te reconhecer. Você tem que usar uma máscara para que não te reconheçam.
— Por que não me reconheceriam? Eu reconheci você.
— Você acha que reconheceu — disse ela, os cílios longos vívidos e bem-humorados. — As pessoas do baralho não saberiam que é você usando uma máscara. É o calcanhar de aquiles deles.
Eles têm que ver para crer. Não são pensadores muito profundos.
— Que engraçado — falei. — Que horas chega a pessoa que vai avaliar a mobília?
— Em algum momento. Mais tarde. Não sei, na verdade. Não sei nem se alguém vem avaliar a mobília mesmo. Pode ser que eu tenha inventado isso.
— Estou acordado há apenas vinte minutos e já estou entediado.
Vocês não podiam ter arranjado uma babá para mim e vindo aqui para o seu bizarro fim de semana mascarado para conceber bebês sozinhos? — Assim que falei aquilo, senti que estava começando a corar, mas fiquei feliz por ver que era capaz de provocá-la sobre as máscaras, e a calcinha preta, e o jogo burlesco que os dois achavam que eu era novo demais para entender.
Ela respondeu:
— Prefiro ficar com você por perto. Aqui, você não vai se meter em encrenca com aquela garota.
O rubor nas minhas bochechas encandeceu, da mesma forma que o carvão quando alguém sopra em cima deles.
— Que garota?
— Não sei qual. Jane Redhill ou a amiga dela. Provavelmente a amiga. A pessoa que você sempre torce para encontrar quando vai na casa do Luke.
Era Luke que gostava de Melinda, a amiga; eu gostava de Jane.
Ainda assim, minha mãe chegara perto o suficiente para me deixar incomodado. Diante do meu silêncio ferido, o sorriso dela ficou ainda maior.
— Ela é de uma beleza petulante, não? A amiga da Jane? Acho que as duas são assim. A amiga, porém, faz mais o seu tipo. Qual é o nome dela? Melinda? O jeito que ela anda por aí naquele macacão largo de fazendeiro. Aposto que passa as tardes lendo em uma casa da árvore que construiu com o pai. Aposto que pega as próprias minhocas e joga bola com os outros meninos.
— É o Luke que gosta dela.
— Então é a Jane.
— Quem disse que tem que ser uma delas?
— Deve haver uma razão para você andar com o Luke. Além do Luke. — Então ela falou: — Jane passou lá em casa para vender assinaturas de revistas e juntar dinheiro para a igreja, uns dias atrás. Ela parece ser uma jovem muito íntegra. Uma mente voltada para a comunidade. Pena que não tem senso de humor. Quando você crescer um pouco, deveria dar uma paulada na cabeça do Luke Redhill e jogar o corpo na velha pedreira. Aquela Melinda vai cair direto nos seus braços. Os dois podem ficar de luto por ele juntos. O luto pode ser muito romântico. — Ela pegou o meu prato vazio e se levantou. — Pegue uma máscara. Entre na brincadeira.
Minha mãe colocou o prato na pia e saiu. Terminei um copo de suco e vaguei até a sala atrás dela. Observei a porta do quarto principal no momento em que ela a atravessava. O homem que eu achava ser o meu pai ainda usava a máscara de gelo desfiguradora, mas vestira uma calça jeans. Por um segundo, nossos olhares se encontraram, o dele frio e estranho. De maneira possessiva, ele colocou uma das mãos nos quadris da minha mãe. A porta se fechou, e os dois desapareceram.
No outro quarto, sentei-me na beirada da cama e enfiei os pés nos tênis. O vento uivava pelos beirais da casa. Me senti triste e irritado, queria voltar para casa, não tinha a menor ideia do que fazer. Quando me levantei, observei de relance a máscara verde feita com as folhas de seda costuradas, mais uma vez virada de forma a encarar o quarto. Peguei-a e esfreguei os dedos nela, testando a sua suavidade. Quase sem pensar, eu a coloquei.
MINHA MÃE ESTAVA NA sala e tinha acabado de sair do banho.
— É você — falou. — Muito dionisíaco. Muito Pã. Deveríamos arranjar uma toalha. Você pode andar por aí com uma toga.
— Isso seria divertido. Até a hipotermia bater.
— Venta muito aqui, não é? Precisamos acender a lareira. Um de nós tem que ir na floresta para conseguir um bocado de lenha seca.
— Nossa, eu nem imagino quem vai ser.
— Espera. Vamos transformar isso em uma brincadeira. Vai ser legal.
— Com certeza. Nada como perambular no frio procurando galhos.
— Escuta. Não saia da trilha. Lá fora, na floresta, nada é real, com exceção da trilha. As crianças que se afastam dela nunca mais encontram o caminho de volta. Além disso… e essa é a parte mais importante… não deixe ninguém te ver, a não ser que esteja de máscara. Qualquer pessoa de máscara está se escondendo do povo do baralho, que nem a gente.
— Se a floresta é tão perigosa para crianças, talvez eu devesse continuar aqui, e você e o papai podem ir brincar de pegar madeira.
Ele vai sair do quarto em algum momento?
Mas ela balançou a cabeça.
— Os adultos não podem pisar na floresta. A trilha não é segura para alguém da minha idade. Eu nem consigo vê-la. Quando a pessoa é velha como eu, ela desaparece. Só sei que existe porque o seu pai e eu costumávamos caminhar por ela quando vínhamos para cá durante a adolescência. Apenas os jovens podem encontrar o caminho entre as maravilhas e as ilusões na escuridão profunda da floresta.
Estava frio lá fora, e a luz do sol brilhava fraca sob um céu cor de pombo. Dei uma volta pela casa para ver se havia uma pilha de lenha. Quando passei pelo quarto principal, meu pai bateu no vidro.
Fui até a janela para ver o que ele queria e fiquei surpreso com o meu reflexo sobreposto ao rosto dele. Eu ainda usava a máscara de folhas de seda; por um momento, tinha me esquecido dela.
Ele abaixou a janela e se inclinou para fora, o rosto amassado pela concha de plástico claro, os olhos azuis invernais um pouco vidrados.
— Para onde você vai?
— Acho que vou dar uma olhada na floresta. A mamãe quer que eu pegue lenha para a lareira.
Ele colocou os braços sobre a janela e encarou o quintal.
Observou algumas folhas da cor de ferrugem amontoadas formando percursos sobre a grama.
— Queria ir com você.
— Então vem.
Ele olhou para mim e sorriu pela primeira vez naquele dia.
— Não. Agora não. Mas faz o seguinte: vai na frente que talvez eu te encontre aí fora daqui a pouco.
— Ok.
— É engraçado. Assim que você vai embora daqui, esquece como esse lugar é… puro. Como é o cheiro do ar. — Ele encarou a grama e o lago por mais um segundo, então afastou o rosto, e os nossos olhares se encontraram. — E acaba esquecendo outras coisas também. Jack, escuta, não quero que se esqueça de…
A porta se abriu atrás dele, do lado oposto do cômodo. Meu pai ficou em silêncio. Minha mãe parou sob o batente. Usava uma calça jeans e um suéter, brincando com a fivela enorme do cinto.
— Garotos — disse ela. — Sobre o que estamos falando?
Meu pai não olhou para ela. Em vez disso, continuou me encarando e, abaixo do seu novo rosto de cristal derretido, pensei ter visto um olhar de vergonha, como se ele tivesse sido pego no flagra ao fazer algo um pouquinho constrangedor, como trapacear em um jogo de Paciência. Lembrei-me, então, de quando ela passou os dedos nos lábios dele, fechando um zíper imaginário, na noite anterior. Minha cabeça ficou estranha e tonta. Tive um pensamento repentino de que estava testemunhando outra parte de alguma brincadeira bizarra dos dois, e quanto menos eu soubesse sobre ela, mais feliz seria.
— Nada — respondi. — Só estava dizendo ao papai que ia dar uma volta. Estou indo agora. Dar uma volta. — Fui me afastando da janela conforme falava.
Minha mãe tossiu. Devagar, meu pai puxou o vidro da janela e a fechou, seu olhar ainda em mim. Ele girou o trinco — e aí pressionou a palma da mão no vidro, um gesto de despedida.
Quando baixou a mão, uma marca de vapor permaneceu, uma mão fantasma que foi diminuindo até desaparecer. Meu pai puxou as cortinas.
ESQUECI DE CATAR LENHA praticamente no instante em que entrei na trilha. Àquela altura, tinha decidido que os meus pais queriam que eu saísse para poderem ficar com a casa só para eles, um pensamento que me deixou mal-humorado. No início da trilha, arranquei a máscara de folhas de seda e a pendurei num galho.
Caminhei olhando para baixo e com as mãos enfiadas no bolso do casaco. Por um tempo, a trilha seguiu em paralelo ao lago, visível além dos pinheiros em lacunas azuis de aparência congelante. Estava ocupado demais pensando que se os meus pais queriam agir de forma nada paternal e pervertida, deveriam ter inventado um jeito de virem para Big Cat Lake sem mim, e não notei a trilha fazendo uma curva e se afastando da água. Não olhei para cima até ouvir um ruído se aproximando: um zumbido metálico, o estalo de um quadro de bicicleta em movimento. Na minha frente, a trilha se dividia para desviar de um pedregulho do tamanho e no formato de um caixão enterrado de pé até a metade. Além da rocha, a trilha voltava a se unir e desaparecia entre os pinheiros.
Não sei por quê, mas fiquei nervoso. Havia alguma coisa na maneira como o vento soprava, fazendo as árvores se debaterem contra o céu. Havia o jeito frenético com que as folhas passavam pelos meus tornozelos, como se estivessem com pressa para sair do caminho. Sem pensar, me sentei atrás do pedregulho, de costas para a pedra, apertando os joelhos contra o peito.
Um segundo depois, o menino da bicicleta antiga — o garoto que pensei ter sido um sonho — passou pela minha esquerda sem nem olhar para mim. Estava usando a camisola da noite anterior.
Um arnês claro mantinha um modesto par de asas de penas brancas preso às suas costas. Talvez estivesse usando as asas na primeira vez que o vi, mas não notei na escuridão. Conforme ele seguia, agitado, pude vislumbrar as bochechas com covinhas e as mechas douradas, traços marcantes em uma expressão de confiança serena. Seu olhar era frio, distante. Estava buscando algo. Eu o observei guiar com habilidade aquela bicicleta de Charlie Chaplin entre pedras e raízes, fazendo uma curva e sumindo.
Se eu não o tivesse visto na noite anterior, poderia pensar que era um garoto a caminho de uma festa a fantasia, embora estivesse frio demais para ficar perambulando por aí de camisola. Queria voltar para o chalé, sair do vento, ficar a salvo com os meus pais. Já estava cansado das árvores balançando e chiando ao meu redor.
Mas, quando me mexi, foi para continuar na direção que seguia antes, olhando com frequência por sobre o ombro para me certificar de que o ciclista não estava se aproximando. Não tinha coragem de
voltar pela trilha sabendo que o menino na bicicleta antiquada estava lá em algum lugar, entre mim e a casa.
Corri, torcendo para encontrar uma estrada ou uma das outras moradias de verão ao redor do lago, ávido para estar em qualquer lugar que não fosse a floresta. Aparentemente, qualquer lugar ficava a menos de dez minutos de caminhada da rocha em formato de caixão. Havia uma placa — uma tábua curvada com as palavras pintadas pregada no tronco de um pinheiro —, uma clareira na floresta onde pessoas haviam acampado um dia.
Havia uns poucos gravetos carbonizados no fundo escuro de um anel de rochas. Alguém, talvez algumas crianças, construíra um abrigo entre um par de pedras. Elas tinham mais ou menos a mesma altura, inclinadas uma para a outra, e um compensado foi colocado sobre elas. Um tronco fora arrastado até a parte que encarava a clareira, providenciando tanto um lugar para sentar quanto uma barreira que precisava ser transposta para entrar no abrigo.
Parei perto das ruínas da antiga fogueira de acampamento tentando me localizar. Havia duas trilhas no lado oposto do acampamento. Não tinha muita diferença entre elas, ambas eram sulcos finos escavados no meio do mato, e nada indicava para onde elas levavam.
— Onde está tentando chegar? — falou uma garota à minha esquerda, a voz aguda de um sussurro bem-humorado.
Dei um salto e andei para trás, olhando ao redor. Ela saiu do abrigo com as mãos no tronco. Não a vira entre as sombras. Tinha cabelo preto e era um pouco mais velha do que eu — dezesseis anos, talvez —, e tive a impressão de que era bonita, mas era difícil saber com certeza. Usava uma máscara preta de lantejoulas com um leque de penas de avestruz se erguendo em um dos lados. Logo atrás dela, ainda mais escondido pela escuridão, estava um garoto, a metade superior do seu rosto oculta por uma máscara de plástico lisa da cor do leite.
— Estou procurando o caminho de volta — falei.
— De volta para onde? — perguntou a garota.
O garoto ajoelhado atrás dela deu uma boa olhada em seu traseiro na calça jeans desbotada. De forma consciente ou não, ela
balançava os quadris de um lado para o outro.
— Minha família tem uma casa de veraneio perto daqui. Estava pensando se uma dessas trilhas me levaria até lá.
— Você pode voltar pelo caminho que veio — disse, mas de maneira maliciosa, como se já soubesse que eu estava com medo de seguir por lá.
— Prefiro ir por outro caminho — respondi.
— O que o trouxe aqui? — questionou o garoto.
— Minha mãe me mandou catar lenha.
Ele riu.
— Parece o início de um conto de fadas. — A garota lançou um olhar de desaprovação para ele, mas foi ignorada. — Um conto de fadas horrível. Seus pais não conseguem mais te alimentar, então mandam você se perder na floresta. Em algum momento, alguém vira a janta de uma bruxa. Assado em uma torta. Tome cuidado para não ser você.
— Quer jogar cartas com a gente? — perguntou a garota segurando um baralho.
— Só quero voltar para casa. Não quero que os meus pais fiquem preocupados.
— Sente-se e jogue com a gente — disse ela. — Vamos jogar por respostas. O vencedor pode fazer uma pergunta para os perdedores, e eles têm que responder honestamente, não importa o quê. Assim, se você me vencer, pode me perguntar como voltar para casa sem encontrar o garoto com a bicicleta velha, e vou ter que contar como.
O que significava que ela o vira e, de alguma forma, adivinhara o resto. A garota parecia satisfeita consigo mesma e se divertiu ao deixar claro que não era difícil me decifrar. Considerei aquilo por um momento e assenti.
— O que estão jogando? — perguntei.
— Um tipo de pôquer. É chamado de Mãos Frias, porque é o único jogo de cartas que dá para jogar quando está frio.
O garoto balançou a cabeça.
— É um dos jogos que ela inventa as regras conforme vamos jogando. — A voz dele, que às vezes afinava e engrossava, apesar de tudo, era familiar para mim.
Passei por cima do tronco e a garota se ajoelhou, escorregando para baixo do espaço escuro sob o teto de compensado para abrir espaço para mim. Ela falava o tempo inteiro, embaralhando o baralho bastante usado.
— Não é difícil. Dou cinco cartas para cada jogador, e todos podem ver as cartas. Quando termino, quem tiver a melhor mão ganha. Isso provavelmente soa simplista demais, mas tem um monte de regras divertidinhas da casa. Se você sorrir durante o jogo, o jogador à sua esquerda pode trocar uma das cartas dele por uma das suas. Se conseguir construir um castelinho com as primeiras três cartas que receber e os outros não conseguirem derrubá-lo com um sopro, pode dar uma olhada no baralho e escolher a carta que quiser. Se receber uma Desistência Sombria, os outros jogadores podem atirar pedras em você até morrer. Se tiver alguma pergunta, fique de boca fechada. Só o vencedor tem direito de fazer perguntas. Qualquer um que faz uma pergunta no meio do jogo perde na hora. Entendeu? Vamos começar.
Minha primeira carta foi um Valete Preguiçoso. Eu sabia disso porque estava escrito nela e porque tinha a ilustração de um valete de cabelos louros relaxando em almofadas de seda enquanto uma garota de harém lixava as unhas dos seus pés. Só depois que a garota me entregou a segunda carta — o Três de Anéis —, registrei mentalmente a coisa que ela dissera sobre a Desistência Sombria.
— Espera. O que é uma…
Ela ergueu as sobrancelhas e olhou sério para mim.
— Esquece — falei.
O garoto fez um som baixinho com a garganta. Ela gritou:
— Ele sorriu! Agora você pode trocar uma das suas cartas por uma das dele!
— Não sorri!
— Sorriu, sim — disse ela. — Eu vi. Pegue a rainha dele e dê o valete.
Entreguei o Valete Preguiçoso e peguei a Rainha dos Lençóis. A carta mostrava uma mulher nua dormindo em uma cama de dossel, entre um emaranhado de roupas de cama. Ela tinha cabelo castanho liso, traços fortes e bonitos, e lembrava um pouco a amiga de Jane, Melinda. Depois disso, recebi o Rei das Ordinárias, um
sujeito de barba ruiva carregando um saco de moedas rasgado, cujo dinheiro começava a cair. Tive quase certeza de que a garota da máscara preta pegara a carta da parte de baixo do baralho. Ela viu que eu tinha visto aquilo e me lançou um olhar de desafio.
Quando cada um de nós tinha três cartas, paramos e tentamos construir um castelinho que os outros não conseguiriam derrubar, mas nenhum ficou em pé. Depois, recebi a Rainha das Correntes e uma carta que explicava como jogar cribbage. Quase perguntei se não era um engano, mas então pensei melhor. Ninguém pegou uma Desistência Sombria. Eu nem sabia o que era aquilo.
— Jack venceu! — gritou a garota, o que me deixou um pouco nervoso, já que eu não tinha me apresentado. — Jack é o vencedor!
— Ela se atirou na minha direção e me deu um abraço forte.
Quando endireitou as costas, estava colocando as cartas no bolso do meu casaco. — Aqui, fique com a mão vencedora. Para se lembrar de como você se divertiu. Não importa. Esse baralho velho tem um monte de cartas faltando, de qualquer maneira. Eu sabia que você ia vencer!
— Claro que sabia — falou o garoto. — Primeiro ela inventa um jogo com regras que só ela consegue entender, depois trapaceia da forma que quiser.
A garota deu uma gargalhada alta e convulsiva, e senti a minha nuca ficar fria. Mas, na verdade, àquela altura, acho que eu já sabia, mesmo antes da risada, com quem eu estava jogando.
— O segredo para evitar perdas infelizes é entrar apenas em jogos que você mesmo inventa — falou ela. — Agora, vá em frente, Jack. Pergunte o que quiser. É um direito seu.
— Como posso voltar para casa sem pegar o mesmo caminho?
— Fácil. Siga pela trilha mais perto da placa de “qualquer lugar”.
Ela vai te levar para onde quiser. É por isso que diz qualquer lugar.
Mas é bom ter certeza de que o chalé é o lugar para onde você quer ir mesmo, ou pode acabar não chegando lá.
— Certo. Obrigado. Foi um jogo legal. Eu não entendi direito, mas foi divertido. — E passei por cima do tronco.
Não tinha ido muito longe até ela me chamar de volta. Quando olhei para trás, ela e o garoto estavam lado a lado, debruçados no tronco, olhando para mim.
— Não se esqueça — disse ela. — Pode fazer uma pergunta para ele também.
— Eu conheço vocês? — perguntei.
— Não — respondeu ele. — Você não conhece de verdade nenhum de nós.
TINHA UM JAGUAR ESTACIONADO atrás do carro dos meus pais.
O painel era de madeira de cerejeira polida e os assentos pareciam nunca terem sido usados. O carro dava a impressão de ter acabado de sair da concessionária. Já era quase noite e a luz minguava a oeste, atravessando o topo das árvores. Não parecia possível ser tão tarde.
Pulei por cima dos degraus, mas, antes que conseguisse chegar até a porta para entrar, ela se abriu e a minha mãe saiu, ainda usando a máscara preta de gatinha sexy.
— Sua máscara — falou. — O que fez com ela?
— Joguei fora — respondi. Não queria revelar que a deixara pendurada em um galho de árvore porque estava com vergonha de ser visto com ela. Mas gostaria que a máscara estivesse comigo agora, embora não soubesse dizer por quê.
Ela lançou um olhar ansioso para a porta e então se agachou à minha frente.
— Eu sabia. Estava observando você. Coloca isso. — Ela me ofereceu a máscara de plástico do meu pai.
Eu a encarei por um segundo, lembrando-me da forma como recuei quando a vi pela primeira vez e como ela transformara os traços do meu pai em algo frio e ameaçador. Mas, quando a coloquei, ela coube direitinho. Carregava uma leve fragrância do meu pai, café e o cheiro de maresia da loção pós-barba. Achei reconfortante tê-lo tão perto de mim.
Minha mãe falou:
— Vamos embora em alguns minutos. Voltar para casa. Assim que a mobília for avaliada. Vamos, entre. Está quase acabando.
Segui a minha mãe para dentro e então parei embaixo do batente. Meu pai estava sentado no sofá, sem camisa e descalço.
Seu corpo parecia ter sido marcado por um cirurgião que preparava um procedimento. Linhas pontilhadas e setas mostravam a posição
do fígado, do baço e dos intestinos. Seus olhos encaravam o chão, o rosto vazio.
— Pai? — perguntei.
Seu olhar se ergueu, indo para a minha mãe, depois para mim e voltando para o lugar de início. A expressão continuou apagada e incógnita.
— Shh — falou a minha mãe. — O papai está ocupado.
Ouvi saltos estalando pelas tábuas no chão à minha direita e olhei para o outro lado, conforme a pessoa que estava ali para avaliar a mobília saía do quarto principal. Eu pensara que seria um avaliador, mas, na verdade, era uma avaliadora, uma mulher de meia-idade com um casaco tweed e alguns cabelos brancos entre os louros ondulados. Seus traços eram severos e imperiais, as maçãs do rosto, altas e expressivas, as sobrancelhas arqueadas da nobreza britânica.
— Viu algo de que gostou? — perguntou a minha mãe.
— Você tem coisas maravilhosas — respondeu a avaliadora.
Seu olhar passou pelos ombros nus do meu pai.
— Bem — falou a minha mãe. — Não se incomode comigo. —
Ela deu um beliscão leve no meu braço e se virou para mim, sussurrando com o canto da boca: — Segura as pontas aí, garoto.
Volto já.
Minha mãe lançou um sorriso pequeno e estritamente educado antes de entrar no quarto principal e desaparecer, deixando nós três sozinhos.
— Fiquei triste ao saber da morte de Upton — disse a avaliadora. — Sente falta dele?
A pergunta era tão inesperada e direta que me pegou de surpresa, ou talvez fosse o tom de sua voz, que não era nem um pouco simpático e parecia um pouco curioso demais, ávido por um pouco de luto.
— Acho que sim. Não éramos tão próximos — falei. — Mas, pelo menos, ele teve uma vida muito boa.
— É claro que sim.
— Eu ficaria feliz se metade das coisas desse tão certo para mim.
— É claro que vão dar — disse ela, colocando a mão na nuca do meu pai e massageando com carinho.
Era um gesto tão casual e íntimo que senti uma onda de enjoo assim que vi. Deixei o meu olhar se afastar — precisava ver outra coisa — e acabei encontrando o espelho no fundo do armário. As cortinas estavam apenas parcialmente fechadas, e, no reflexo, vi uma mulher do povo do baralho de pé atrás do meu pai, a Rainha de Espadas, seus olhos pretos soberbos e distantes, seus robes escuros pintados no corpo. Assustado, desviei o olhar do espelho e voltei a observar o sofá. Meu pai sorria de uma maneira meio sonhadora, esticando-se na direção das mãos que agora massageavam os ombros. A avaliadora me encarou com os olhos meio fechados.
— Esse não é o seu rosto — falou ela para mim. — Ninguém tem um rosto assim. Um rosto feito de gelo. O que está escondendo?
Meu pai congelou e o sorriso dele desapareceu. Ele se ajeitou e foi para a frente, tirando os ombros do alcance dela.
— Você viu todas as coisas — falou o meu pai para a mulher atrás dele. — Já sabe o que quer?
— Eu começaria com o que tem nesta sala — respondeu ela, repousando a mão de volta no ombro dele. Brincando com os cachos do cabelo por um segundo. — Posso pegar tudo, não é?
Minha mãe saiu do quarto, arrastando um par de malas, uma em cada mão. Ela viu a avaliadora com a mão na nuca do meu pai e deu uma risadinha perplexa — uma risada que tinha um som de hã e parecia continuar mais ou menos assim —, pegou as malas de novo, levando-as até a porta.
— Está tudo disponível — falou o meu pai. — Queremos fechar negócio.
— Quem não quer? — disse a avaliadora.
Minha mãe colocou uma das malas na minha frente e, com a cabeça, indicou que eu deveria pegá-la. Eu a segui pelo alpendre e então olhei para trás. A avaliadora estava debruçada sobre o sofá puxando a cabeça do meu pai para trás, sua boca na dele. Minha mãe passou na minha frente e fechou a porta.
Andamos pelo crepúsculo crescente até o carro. O garoto de camisola branca estava sentando no quintal, a bicicleta na grama ao lado dele. Ele esfolava um coelho morto com um pedaço de chifre, o estômago do animal aberto e fumegante. O menino olhou para a gente conforme passávamos e sorriu, mostrando dentes rosados de sangue. Minha mãe colocou um braço maternal ao redor dos meus ombros.
Depois de entrar no carro, ela tirou a máscara e a jogou no banco traseiro. Eu continuei com a minha. Quando respirava fundo, sentia o cheiro do meu pai.
— O que estamos fazendo? — perguntei. — Ele não vem?
— Não — disse ela, ligando o motor. — Ele vai ficar aqui.
— Como ele vai voltar para casa?
Ela me olhou de soslaio e sorriu com simpatia. Lá fora, o céu estava azul-quase-preto, e as nuvens eram de um tom escaldante de carmesim, mas já era noite no carro. Eu me virei no banco, fiquei de joelhos, para ver o chalé desaparecer entre as árvores.
— Vamos fazer uma brincadeira — disse a minha mãe. —
Vamos fingir que você nunca conheceu o seu pai. Ele fugiu antes do seu nascimento. Podemos inventar historinhas engraçadas sobre ele. Ele tem uma tatuagem com o lema dos Marines, e outra, de uma âncora azul, da época… — A voz dela falhou, perdendo de repente a inspiração.
— Da época em que ele trabalhou em uma plataforma de petróleo.
Ela riu.
— Isso. E vamos fingir que a estrada é mágica. A Autoestrada da Amnésia. Quando chegarmos em casa, nós dois vamos acreditar nessa história, que ele fugiu antes de você nascer. Todo o resto vai parecer um sonho, aqueles sonhos tão reais quanto as lembranças.
A história inventada provavelmente vai ser até melhor do que a real. Quer dizer, ele te amava muito e queria te dar o mundo, mas consegue se lembrar de qualquer coisa interessante que ele já tenha feito?