O Telefone Preto e Outras Histórias

Joe Hill · Capítulo 16 de 16 · parte 1/3

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O Telefone Preto e Outras Histórias

Internação voluntária

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Tive que admitir que não.

— Consegue se lembrar do que ele fazia da vida?

Tive que admitir que não. Trabalhava com seguros?

— Não é legal? — perguntou ela. — Falando nisso, você ainda tem a mão vencedora?

— A mão vencedora? — questionei, e então me lembrei, encostando no bolso do meu casaco.

— Quero que a guarde bem. Essa é uma mão vencedora de verdade. Rei das Ordinárias. Rainha dos Lençóis. Você tem tudo, garoto. Sério, quando chegarmos em casa, ligue para a Melinda. —

Ela riu de novo e então deu tapinhas carinhosos na sua barriga. —

Teremos bons dias à frente, filho. Para nós dois.

Dei de ombros.

— Pode tirar a máscara agora, sabe? — falou ela. — A não ser que goste de usá-la. Você gosta?

Peguei o quebra-sol e o abaixei, abrindo o espelho. As luzes ao redor se acenderam. Analisei o meu novo rosto feito de gelo e o rosto abaixo, um vazio humano deformado.

— Claro — respondi. — Sou eu.

INTERNAÇÃO VOLUNTÁRIA

NÃO SEI PARA QUEM estou escrevendo isso e nem posso dizer quem espero que leia. De qualquer maneira, não é para a polícia. Não sei o que aconteceu com o meu irmão ou onde ele está. Nada que eu pudesse colocar aqui ajudaria a polícia a encontrá-lo.

Enfim, na verdade, isso não é sobre o desaparecimento dele…

embora envolva uma pessoa desaparecida, e eu estaria mentindo se dissesse que não acho que há uma conexão entre as coisas.

Nunca contei a ninguém o que sei sobre Edward Prior, que saiu da escola em um dia de outubro de 1977 e nunca chegou em casa para comer chili e batata assada com a mãe. Por muito tempo, um ano ou dois depois dele sumir, eu não queria pensar no meu amigo Eddie. Faria qualquer coisa para não pensar nele. Se eu cruzasse com alguém no corredor da escola que estivesse falando dele —

Ouvi dizer que ele roubou maconha e dinheiro da mãe e fugiu para a Califórnia! —, eu fixava o meu olhar em um ponto distante e me fazia de surdo. E se uma pessoa me perguntasse diretamente o que eu achava que tinha acontecido com ele — de vez em quando alguém fazia isso, já que todos sabiam que éramos compañeros —, eu fechava a cara e, sem expressão, dava de ombros.

— Às vezes, quase chego a achar que me importo — dizia para essas pessoas.

Depois, parei de pensar em Eddie por causa do hábito propositalmente adquirido. Se, por acaso, acontecia algo que me fazia lembrar dele — se visse um garoto parecido com Eddie ou lesse alguma notícia de um adolescente desaparecido —, na mesma hora começava a pensar em outra coisa, sem nem perceber direito o que estava fazendo.

Nas últimas três semanas, porém, desde que Morris, o meu irmão mais novo, sumiu, percebo que tenho pensando em Ed Prior cada vez mais; não consigo, por maior que seja a minha força de vontade, desviar os pensamentos dele. A necessidade de falar com alguém sobre o que sei é maior do que consigo aguentar. Mas essa não é uma história para a polícia. Acredite em mim, não a ajudaria em nada, e pode acabar sendo ainda pior para mim. Sei tanto sobre a localização de Edward Prior quanto sei da localização de Morris —

não posso dizer à polícia o que não sei —, mas, se compartilhasse essa história com um detetive, acho que ele me faria umas perguntas bem difíceis, e algumas pessoas (a mãe de Eddie, por exemplo, que ainda está viva e no terceiro casamento) passariam por um grande sofrimento emocional sem necessidade.

E é possível que eu acabasse com uma passagem só de ida para o mesmo lugar onde o meu irmão passou os dois últimos anos da vida: o hospital psiquiátrico Wellbrook Progressive Mental Health Center. Meu irmão entrara lá por livre e espontânea vontade, mas o Wellbrook tem uma ala para pessoas que precisaram ser internadas. Morris até trabalhava na instituição, arrastando um esfregão por quatro dias da semana, e nas manhãs de sexta, ia para a Ala do Governador, como era chamada, para limpar a merda das paredes. E o sangue.

Eu estou falando do meu irmão no passado? Imagino que sim.

Não tenho mais esperanças de que o telefone vai tocar e Betty Millhauser, do Wellbrook, com a voz apressada e ofegante, me dirá que eles encontraram Morris em um abrigo para moradores de rua qualquer e que estão o trazendo de volta. Também não acho que alguém vai telefonar para me informar que o encontraram flutuando no Charles. Acho que ninguém vai telefonar e pronto, exceto para dizer que ainda não sabe de nada. O que quase poderia ser o epitáfio de Morris. E talvez eu tenha que admitir que estou escrevendo isso não para mostrar a uma pessoa, mas porque não consigo evitar, e uma página em branco é a única audiência segura para a história na minha cabeça.

MEU IRMÃO MAIS NOVO não falou até os quatro anos. Um monte de gente achava que ele era retardado. Um monte de gente na minha cidade natal, Pallow, ainda acha que ele é retardado ou autista. Para falar a verdade, quando eu era garoto, meio que pensava a mesma coisa, mesmo com os meus pais dizendo que ele não era.

Quando tinha onze anos, Morris foi diagnosticado com esquizofrenia infantil. Depois vieram outros diagnósticos: depressão, transtorno de personalidade obsessivo-compulsiva, esquizofrenia com depressão aguda. Não sei se qualquer uma dessas palavras traduz com justiça quem ele era ou pelo que passava. Sei que mesmo quando o meu irmão encontrara as palavras, não as usava com frequência. Ele sempre foi pequeno para a idade, um menino com ossos frágeis, mãos finas com dedos longos, um rosto élfico. E

sempre foi indiferente de uma forma curiosa, seus sentimentos submersos demais para criar qualquer atiçamento na sua cara. Ele parecia não piscar. Às vezes, meu irmão me lembrava uma daquelas conchas cônicas e cheias de espinhos, com um interior rosado e lustroso curvado para dentro e fora de vista, um mistério tensionado e profundo. Você poderia colocar uma concha assim no ouvido e imaginar que estava escutando o fundo de um vasto oceano tempestuoso — mas era só um truque da acústica. O som que você ouviria era o ribombar baixo e apressado do nada que havia lá dentro. Os médicos tinham os diagnósticos de Morris e, quando eu estava com quatorze anos, esse era o meu.

Como era suscetível a infecções no ouvido horríveis, Morris não podia sair de casa durante o inverno… o que, de acordo com a minha mãe, começava quando a World Series acabava e terminava quando a temporada de beisebol tinha início. Qualquer um que já teve filhos pode dizer como é difícil manter uma criança pequena feliz e ocupada por qualquer período de tempo quando ela não pode ir para a rua. Meu próprio filho tem doze anos e mora na casa da minha ex em Boca Raton, nós vivemos como uma família até ele ter sete anos, e me lembro de como um dia frio e chuvoso podia ser cansativo, com todos trancados em casa. Para o meu irmão mais novo, todo dia era frio e chuvoso, mas, diferente das outras crianças, não era difícil mantê-lo ocupado. Ele mesmo se ocupava, descendo até o porão assim que chegava da escola para trabalhar com um cuidado tranquilo, pelo restante da tarde, em um dos seus projetos

imensos,

amplos,

tecnicamente

complicados

e

intrinsicamente inúteis.

Era obcecado pelas torres e pelos templos detalhistas que construía com copos descartáveis. Tenho uma lembrança do que

pode ser a primeira vez que ele criou alguma coisa com os copos.

Era noite, e todos nós, meus pais, Morris e eu, estávamos reunidos na frente da televisão para um dos poucos rituais que tínhamos como família: assistir a M*A*S*H. No entanto, quando o segundo comercial começou, a gente tinha parado de prestar atenção nas artimanhas de Alan Alda e companhia para prestar atenção no meu irmão.

Meu pai estava sentado no chão ao lado dele. Acho que, no início, ele deve ter ajudado Morris com a construção. Meu pai era um pouco autista também, um homem tímido e atrapalhado que não tirava o pijama durante o fim de semana e que, tirando a minha mãe, quase não tinha contato social com o mundo. Ele nunca demonstrou qualquer sinal de estar desapontado com Morris, e frequentemente parecia bastante contente quando ficava deitado ao lado do meu irmão, desenhando com ele mundos cheios de sol e figuras de pauzinho. Dessa vez, porém, ele não se envolveu e deixou Morris trabalhar sozinho, tão curioso quanto nós para ver como aquilo terminaria. Morris construía, empilhava e arrumava, seus longos dedos finos indo para cá e para lá, colocando os copos tão rápido que quase parecia um truque de mágica ou um robô funcionando em uma linha de montagem… sem hesitar, aparentemente sem pensar, sem nunca derrubar um copo por acidente. Às vezes, ele não estava nem olhando para o que as mãos faziam; em vez disso, encarava o pacote dos copos para ver quantos ainda restava. A torre foi ficando cada vez mais alta, os copos voando até ela tão rápido que, de vez em quando, eu percebia que tinha prendido a respiração de incredulidade.

Um outro pacote de copos descartáveis foi aberto e usado.

Quando terminou — o que aconteceu quando Morris havia usado todos os copos de plástico que o meu pai conseguira encontrar —, a torre estava tão alta quanto o meu irmão e era cercada por uma muralha com o portão aberto. Por causa do espaço entre os copos, parecia haver janelas finas para arqueiros nas laterais da torre, e tanto o topo da torre quanto o da muralha pareciam ter ameias.

Aquilo impressionou a gente, ver Morris construir aquela coisa com tanta velocidade e segurança, mas, no fundo, não era uma estrutura fabulosa. Qualquer criança de cinco anos poderia fazer a mesma

coisa. O único ponto extraordinário é que ela indicava ambições latentes bem maiores. Dava para ver que Morris podia ter continuado aquilo com facilidade, adicionando torres menores, outras construções e até um vilarejo rústico de copos descartáveis.

E quando os copos acabaram, Morris olhou em volta e riu, um som que acho que nunca tinha ouvido dele antes — um barulho alto, quase penetrante, sem prática, e mais inquietante do que prazeroso.

Ele riu e bateu palmas para si mesmo, só uma vez, da mesma forma que um marajá bate palmas para dispensar um servo.

O outro aspecto que aquela torre tinha de bem diferente em relação ao trabalho de uma criança da mesma idade era que qualquer moleque de cinco anos teria construído aquilo com um único propósito: dar um belo chute e ver o colapso de som seco dos copos. Sei que era o que eu queria fazer, mesmo sendo três anos mais velho: marchar até ela e acertá-la com os pés pela simples alegria de derrubar uma coisa grande que fora construída com muito cuidado, um Godzilla infantil.

Toda criança emocionalmente normal tem essa vontade. Para ser honesto, acho que essa vontade era um pouco maior em mim do que nas outras. Minha compulsão por arrebentar coisas continuou até a idade adulta e, por fim, incluiu a minha esposa, que não apreciava o hábito e deixou o seu descontentamento claro com o divórcio, e o advogado que parecia ter icterícia, e todo o calor emocional de um triturador de madeira, mas que operava com a mesma eficiência mecânica dessa máquina no tribunal.

Morris, no entanto, logo perdeu o interesse por seu trabalho finalizado e pediu suco. Meu pai o levou até a cozinha murmurando que ele compraria um monte de pacotes de copos descartáveis para Morris brincar no dia seguinte, para ele fazer um castelo ainda maior do que a torre. Eu não podia acreditar que Morris tinha deixado a torre parada lá. Era uma tentação impossível de resistir. Saí do sofá, dei um passo atrapalhado na direção dela — e então a minha mãe agarrou o meu braço e me segurou. Fui hipnotizado pelo seu olhar, que trazia consigo um aviso sombrio: Nem pense nisso. Nenhum de nós falou nada, e, no segundo seguinte, eu me livrei do aperto dela e saí da sala.

Minha mãe me amava, mas quase nunca dizia isso, e, em geral, mantinha uma distância emocional segura de mim. Ela me entendia de uma forma que o meu pai não conseguia. Certa vez, quando estava brincando nas profundezas da lagoa Walden, atirei uma pedra em um garoto menor que jogara água em mim. A pedra acertou o braço dele com um thwack na carne e criou um roxo feio.

Minha mãe me proibiu de nadar pelo resto do verão, embora a gente tenha continuado a ir na Walden toda tarde de sábado para que Morris pudesse nadar cachorrinho; alguém convencera os meus pais de que nadar era terapêutico para ele, então a minha mãe seguia firme na sua decisão de que ele deveria nadar e na decisão de que eu não deveria. Ela me mandava ficar sentado na areia ao lado dela, e eu não podia me afastar muito da toalha de praia. Tinha permissão para ler, mas não para brincar ou mesmo conversar com as outras crianças. Lembrando agora, é difícil me sentir ressentido por ela ter sido tão severa comigo naquela e em outras ocasiões.

Ela viu, melhor que os outros, muito do que eu tinha de pior, e aquilo a preocupava. Ela tinha noção do meu potencial, mas, em vez de ficar empolgada e cheia de esperança, isso só a fez ser mais dura comigo.

O que Morris criou na sala em meia hora foi apenas um indício do que faria em uma área com o triplo do tamanho e com quantos copos descartáveis quisesse. No ano seguinte, ele meticulosamente construiu uma autoestrada elevada — a coisa serpenteava por todo o porão, espaçoso e bem iluminado, mas, se colocada em linha reta, teria medido quase cinquenta metros —, uma esfinge gigante e um iglu redondo enorme, grande o suficiente para nós dois ficarmos sentados lá dentro, com uma entrada embaixo que eu precisava me contorcer um pouco para passar.

A partir disso, não foi difícil para ele começar a criar gigantescas, ainda que impessoais, metrópoles de

, inspirado pelas

silhuetas dos prédios de cidades de verdade. Um ano depois, ele se diplomou em dominós, erguendo catedrais delicadas com dezenas de colunas de marfim perfeitamente equilibradas, chegando a meio caminho do teto. Quando tinha nove anos, Morris ficou famoso por um tempo, ao menos em Pallow, quando a Chronicle de Boston fez uma reportagem sobre ele. Meu irmão empilhara mais de dezoito mil

peças de dominó no ginásio da escola para deficientes intelectuais que frequentava. Ele as dispôs de maneira a formarem um grifo gigante lutando com uma fileira de cavaleiros, e o Canal Cinco gravou o momento em que Morris desfazia a escultura, filmou aquele enorme tombo crepitante. As peças caíram de maneira que pareciam flechas sendo atiradas, e o grifo pareceu retalhar um dos cavaleiros arfantes com cota de malha; três colunas de dominós vermelhos tombaram, e todo mundo achou que pareciam feridas.

Por uma semana, sofri espasmos de uma inveja venenosa e sombria, saía de um cômodo quando ele entrava, não conseguia aguentar tanta atenção voltada para Morris, mas o meu ressentimento foi tão irrelevante para ele quanto a sua fama. Meu irmão era indiferente aos dois na mesma medida. Desisti de sentir raiva ao ver que isso fazia tanto sentido quanto gritar para dentro de um poço, e, no fim, o resto do mundo se esqueceu de que, por um segundo, Morris fora alguém interessante.

Quando comecei o primeiro ano do ensino médio e passei a andar com Eddie Prior, Morris construía fortalezas de caixas de papelão que o meu pai trazia do armazém em que trabalhava como despachante de mercadorias. Praticamente desde o início, aquilo era diferente do que fazia com os copos descartáveis. Enquanto os outros projetos pareciam ter começos e fins claros, ele nunca parecia terminar de verdade qualquer um dos planos com as caixas.

Uma coisa seguia a outra, um abrigo se transformava em um castelo, que se transformava em um conjunto de catacumbas. Ele pintava a parte de fora, decorava o interior, colocava carpete, cortava janelas e portas que abriam e fechavam. Então, um dia, sem aviso ou explicação, Morris desmontava partes enormes do que havia construído e começa a reorganizar toda a estrutura, seguindo padrões arquitetônicos bem diferentes.

Além disso, o trabalho com os copos ou o sempre o

acalmara, enquanto os projetos que fazia com as caixas o deixavam inquieto e insatisfeito. A última morada de papelão estava sempre a poucas caixas do fim e, até ele terminá-la do jeito que queria, a coisa colossal e ameaçadora que estava montando no porão tinha um poder curioso e infeliz sobre o meu irmão.

Eu me lembro de entrar em casa em uma tarde de domingo, fazendo barulho com as minhas botas de neve no chão da cozinha, para pegar alguma coisa na geladeira, e de olhar de relance pela porta do porão e ver a escada… e então de ficar congelado no lugar, sem fôlego. Morris estava sentado de lado no último degrau, os ombros quase chegando às orelhas, o rosto formando uma careta e branco como gesso, uma cor não natural. A palma da mão pressionava a testa com força, como se estivesse grudada lá. Mas o que me deixou mais assustado, o que notei conforme descia devagar os degraus na direção dele, é que, embora estivesse frio no porão, as bochechas de Morris estavam cobertas de suor, a frente da camiseta branca encharcada com uma mancha em forma de V.

Quando estava a três degraus de distância, prestes a chamar o nome dele, seus olhos se abriram. Um segundo depois, a expressão de dor aguda começou a desaparecer, o rosto foi relaxando, se acalmando.

— O que aconteceu? — perguntei. — Está tudo bem?

— Tudo — respondeu sem inflexão na voz. — Só… me perdi por um minuto.

— Perdeu a noção do tempo?

Ele pareceu precisar de um instante para processar aquilo. Suas pálpebras se apertaram, o olhar ficou mais afiado. Morris lançou um olhar vago para o forte, que, naquele momento, era uma série de vinte caixas formando um grande quadrado. Mais ou menos metade delas estava pintada de amarelo-fluorescente, com janelas redondas cortadas nas laterais. Esses buracos eram cobertos por folhas de plástico filme. Morris usara um secador de cabelo em cada uma delas, de forma que o plástico estava reto e esticado, sem rugas. Essa parte do forte era um resquício do submarino amarelo que ele tentara construir. Um periscópio feito com um tubo de papelão saía do topo de uma caixa enorme. As outras caixas, no entanto, estavam pintadas em tons vivos de vermelho e preto com uma tela dourada e esvoaçante de uma caligrafia parecida com árabe nos lados. As janelas dessas caixas foram cortadas no formato de sinos, que na mesma hora traziam à mente palácios de déspotas no Oriente Médio, garotas em haréns, Aladim.

Morris franziu as sobrancelhas e balançou a cabeça devagar.

— Eu entrei e não conseguia sair. Nada parecia certo.

Olhei para o forte, que tinha uma entrada em cada canto e janelas cortadas em todas as caixas. Quaisquer que fossem as deficiências do meu irmão, não conseguia imaginá-lo ficando tão confuso lá dentro a ponto de não saber onde estava.

— Por que não foi até uma janela para ver onde estava?

— Não tinha janelas onde eu me perdi. Escutei alguém falando e tentei seguir a voz, mas estava longe demais e não dava para saber de onde vinha. Não era você, era? Não parecia com a sua voz, Nolan.

— Não! — falei. — Que voz? — Olhei ao redor enquanto dizia aquilo, me perguntando se estávamos sozinhos no porão. — O que a voz disse?

— Não dava para ouvir sempre. Às vezes, chamava o meu nome. Às vezes, me mandava continuar. Em um momento, a voz disse que havia uma janela à frente. Falou que eu veria girassóis do outro lado. — Morris parou e deixou escapar um suspiro fraco. —

Talvez eu tenha visto no fim de um túnel… a janela e os girassóis…

mas fiquei com medo de me aproximar, então dei meia-volta e foi aí que a minha cabeça começou a doer. Em pouco tempo, encontrei uma das saídas.

Na hora, achei que havia uma boa chance de Morris ter sofrido um pequeno ataque psicótico enquanto rastejava no forte, algo não de todo impossível. Apenas um ano antes, ele começara a pintar as mãos de vermelho porque dizia que aquilo o ajudava a sentir sons.

Quando estava em um lugar com música tocando, ele fechava os olhos, colocava as mãos escarlates acima da cabeça, como antenas, e balançava o corpo em uma espécie de dança do ventre com espasmos.

Também fiquei nervoso pela possibilidade bem menor de realmente ter alguém no porão, um psicopata que ficava entoando nomes que talvez, naquele exato momento, estivesse escondido em um dos cantos apertados do forte de Morris. De qualquer forma, aquilo me assustou. Peguei a mão do meu irmão e disse para ele subir comigo, para que pudesse contar o que tinha acontecido para a nossa mãe.

Quando relatou a história, ela pareceu aflita. Colocou a mão na testa de Morris.

— Você está todo suado! Vamos para o quarto, Morris. Vou pegar uma aspirina para você. Quero que se deite um pouco.

Podemos falar sobre isso depois de ter descansado por um minuto.

Eu queria dar uma olhada no porão naquele instante para ver se havia alguém lá embaixo, mas a minha mãe me enxotou, fazendo cara feia sempre que eu abria a boca. Os dois desapareceram lá em cima, e fiquei sentado ao balcão da cozinha, de olho na porta do porão, em estado de preocupação inquieta, pela maior parte da hora seguinte. Aquela porta era a única forma de sair do porão. Se eu tivesse ouvido o barulho de pés subindo a escada, teria pulado do banco gritando. Mas ninguém apareceu, e quando o meu pai chegou, fomos lá embaixo juntos. Não havia ninguém escondido atrás do boiler ou do aquecedor. Na verdade, nosso porão era organizado e bem iluminado, com poucos esconderijos bons. O

único lugar que um intruso poderia usar para isso era o forte de Morris. Andei ao redor dele, chutando algumas caixas e enfiando a cabeça em algumas janelas. Meu pai disse que eu deveria entrar para dar uma olhada e então riu da expressão na minha cara.

Quando subiu a escada, corri atrás dele. Não queria estar no porão quando ele apagasse as luzes.

CERTA MANHÃ, EU ESTAVA guardando os livros na minha bolsa de ginástica antes de ir para a escola e duas folhas de papel dobradas caíram do Visions of American History. Eu as peguei e dei uma olhada, sem reconhecê-las no início — duas folhas de papel mimeografadas, com perguntas datilografadas e grandes espaços em branco onde uma pessoa deveria escrever as respostas.

Quando percebi o que tinha em mãos, quase soltei o palavrão mais cabeludo que conhecia, com a minha mãe praticamente do meu lado… um erro que teria resultado em um puxão de orelha e um interrogatório que eu preferia evitar. Era um teste para ser feito em casa, distribuído na sexta passada, com prazo de entrega para aquela manhã.

Na última semana, eu mal prestara atenção à aula de história.

Tinha uma garota que era meio punk e usava saia jeans rasgada e

meias arrastão vermelhas que sentava do meu lado. Ela tinha pernas inquietas e, se eu me inclinasse para a frente, de vez em quando conseguia ver de relance sua calcinha surpreendentemente branca pela visão periférica. Se alguém nos lembrara do teste em sala de aula, eu não tinha ouvido.

Minha mãe me deixou no colégio. Segui pelo asfalto congelado, a barriga doendo. História dos Estados Unidos. No segundo tempo.

Não tinha como. Nem conseguira ler os dois últimos capítulos pedidos em classe. Sabia que eu deveria me sentar em algum lugar e tentar preencher um pouco do teste, fazer uma leitura dinâmica, dar umas respostas ruins. Mas não conseguia ficar parado, não conseguia suportar ver o teste outra vez. Me senti dominado por um desespero paralisante, por aquela sensação horrível e enjoativa de que não havia saída, de que o meu destino estava selado.

Entre o estacionamento asfaltado e os campos pisoteados e cobertos de neve mais além, havia uma fileira de colunas grossas de madeira que um dia sustentara uma cerca, retirada há muito tempo. Um garoto chamado Cameron Hodges, da minha aula de história dos Estados Unidos, estava sentado em uma delas, com alguns amigos em volta. Cameron tinha cabelo louro e usava óculos com lentes fundo de garrafa redondas, atrás das quais pairavam olhos azuis inquisitivos e sempre marejados. Ele fazia parte da lista honorária e do conselho estudantil, mas, apesar desses defeitos graves, era quase popular. As pessoas gostavam dele sem que Cameron se esforçasse de verdade para isso. Em parte era devido ao fato de que ele não fazia um escarcéu sobre o quanto sabia, não era o tipo de pessoa que sempre levantava a mão para responder a uma pergunta particularmente difícil. No entanto, tinha algo além disso também — uma certa razoabilidade, uma mistura de calma com um senso quase principesco de honra, que o fazia parecer mais maduro e experiente do que o restante de nós.

Eu gostava de Cameron — até cheguei a votar nele para o conselho estudantil —, mas não tínhamos muito em comum. Não conseguia me ver andando com ele… e com isso quero dizer que não conseguia imaginar alguém como Cameron interessado em uma pessoa como eu. Era difícil me conhecer, eu era pouco comunicativo, suspeitava das intenções dos outros e era hostil

quase que por reflexo. Naquela época, se alguém passasse por mim e risse, eu sempre olhava para a pessoa, só para ver se o motivo da risada era eu.

Conforme me aproximava dele, vi que Cameron estava com o exame na mão. Os amigos conferiam as respostas de acordo com as dele:

— Modernização do plantio de algodão no Sul, é, foi o que coloquei também.

Eu estava passando atrás de Cameron. Sem pensar, me inclinei na direção dele e puxei o teste das suas mãos.

— Ei! — disse Cameron, tentando pegar as folhas de volta.

— Preciso copiar — falei, a voz rouca. Virei de costas para que ele não pudesse recuperar o teste. Eu estava corado, ofegante, chocado por fazer aquilo, mas fazendo mesmo assim. — Devolvo na aula de história.

Cameron desceu da coluna. Veio na minha direção com as mãos erguidas, os olhos chocados e suplicantes, aumentados de forma não natural pelas lentes.

— Nolan. Não faz isso. — Não sei dizer por quê, mas fiquei surpreso ao ouvi-lo falar o meu nome. Nem tinha certeza de que ele sabia como eu me chamava. — Se as suas respostas ficarem iguais às minhas, o sr. Sarducchi vai saber que você copiou o trabalho, e nós dois vamos tirar zero. — Havia um tremor audível na voz dele.

— Não começa a chorar — falei, de forma mais grosseira do que queria. Acho que estava realmente preocupado de que Cameron fosse se debulhar em lágrimas, mas acabou parecendo uma provocação. Os outros meninos riram.

— É — disse Eddie Prior, que apareceu de repente entre Cameron e mim. Ele colocou a mão no meio da testa de Cameron e o empurrou, e o outro caiu feio de bunda no chão e soltou um grito.

Os óculos escaparam do seu rosto e deslizaram para longe em uma poça de gelo. — Vira homem. Ninguém vai saber. Ele vai te devolver o trabalho.

E aí Eddie colocou o braço sobre os meus ombros e começamos a caminhar juntos. Ele falou com o canto da boca, como se fôssemos dois condenados em um filme conversando sobre uma grande fuga no pátio da cadeia.

— Lerner — disse ele, me chamando pelo sobrenome. Ele chamava todo mundo pelo sobrenome. — Quando você terminar, deixa eu dar uma olhada nisso também. Devido a circunstâncias imprevisíveis além do meu controle, a saber, o escroto tagarela que namora a minha mãe, tive que sair de casa na noite passada e acabei jogando totó com os meus primos até altas horas. Resultado: não consegui passar da segunda pergunta da porcaria do teste.

Embora Eddie Prior tirasse seis e setes em todas as provas menos em marcenaria e acabasse indo para a detenção quase toda semana, ele era carismático de uma maneira própria, como Cameron Hodges. Parecia impossível tirá-lo do sério, um traço que deixava muita gente impressionada. Além disso, estava sempre tão bem-humorado, tão pronto para se divertir, que ninguém conseguia ficar irritado com ele. Se um professor o expulsasse da sala por fazer um ou outro comentário ignorante, Eddie dava de ombros devagar, de uma maneira de quem-pode-entender-qualquer-coisa-nesse-mundo-louco, pegava os livros com cuidado e saía —

lançando um último olhar manhoso para os colegas de forma que sempre causava uma reação em cadeia de risadinhas. Na manhã seguinte, o mesmo professor que o enxotara estaria jogando bola com ele no estacionamento da escola enquanto os dois falavam mal do Celtics.

Na minha opinião, o que separa os populares dos impopulares

— a única característica que Eddie Prior e Cameron Hodges tinham em comum — é uma noção profunda de si mesmo. Eddie sabia quem era. Ele se aceitava. Seus fracassos não o incomodavam mais. Cada palavra que dizia saía sem pensar, uma expressão pura da sua verdadeira personalidade. Por outro lado, eu não tinha uma imagem clara de mim mesmo e estava sempre observando os outros atentamente, com esperança e medo de perceber um sinal claro de quem viam quando olhavam para mim.

Então, no momento seguinte, conforme Eddie e eu nos afastávamos de Cameron, passei por aquela mudança psicológica abrupta e improvável que é o cerne da adolescência. Eu tinha acabado de arrancar o teste das mãos de Cameron, desesperado para encontrar uma saída da armadilha que armei para mim mesmo e um bocado horrorizado com o que estava disposto a fazer para

me salvar. Em teoria, ainda estava desesperado e horrorizado —

mas fiquei satisfeito por andar com o braço de Ed Prior sobre os meus ombros, como se fôssemos amigos de infância saindo do bar às duas da manhã. Ouvir ele se referindo de maneira casual ao namorado da mãe como escroto tagarela me deu um choque de surpresa e felicidade; parecia uma piada tão primorosa quanto qualquer coisa dita por Steve Martin. Cinco minutos atrás, eu teria pensado ser impossível o que fiz a seguir. Entreguei o teste de Cameron para ele.

— Você já respondeu duas perguntas? Pode pegar. Não parece que vai demorar tanto tempo. Dou uma olhada quando terminar —

falei.

Ele sorriu, e duas covinhas no formato de vírgulas apareceram na gordura de bebê das suas bochechas.

— Como você se meteu nessa, Lerner?

— Esqueci que a gente tinha um teste. Não consigo prestar atenção na aula. Sabe a Gwen Frasier?

— Sim. Uma garota feia pra cacete. O que tem ela?

— Uma garota feia pra cacete que não usa calcinha — falei. —

Ela se senta do meu lado e está sempre abrindo e fechando as pernas. Então, a boceta dela fica me encarando durante metade da aula. Como é que vou prestar atenção em história assim?

Ele gargalhou tão alto que as pessoas por todo o estacionamento viraram para ver.

— Ela provavelmente só está arejando as partes para secar as feridas de herpes. Melhor ficar de olho nela, parceiro. — E então ele riu mais ainda, riu até enxugar as lágrimas que escorriam dos olhos.

Eu ri também, uma coisa que não era fácil para mim, e senti um arrepio nas minhas terminações nervosas.

PELO QUE ME LEMBRO, ele nunca me devolveu o teste de Cameron, e acabei entregando o trabalho completamente em branco — nesse ponto, minha memória é um pouco nebulosa.

Depois daquela manhã, no entanto, eu estava sempre atrás de Eddie. Ele gostava de falar do irmão mais velho, Wayne, que tinha passado quatro semanas de uma pena de três meses em um centro de detenção juvenil por ter explodido o carro de alguém, e que

depois escapou e agora vivia sempre em movimento pela estrada, sem endereço fixo. Eddie dizia que Wayne ligava de vez em quando para se gabar de todas as bocetas que estava pegando e todas as caras que estava arrebentando. Mas ele era vago em relação ao trabalho do irmão mais velho. Ajudando em fazendas no Illinois, falou certa vez. Roubando carros em Detroit, disse em outra ocasião.

A gente passava muito tempo com uma garota de quinze anos chamada Mindy Ackers, que era babá de um bebê em um apartamento de porão no outro lado da rua, em frente à casa de dois andares de Eddie. O lugar fedia a mofo e urina, mas a gente ficava tardes inteiras lá, fumando cigarros e apostando em jogos de damas, enquanto o bebê engatinhava pelado ao redor dos nossos pés. Em outros dias, Eddie e eu pegávamos a trilha que atravessava o bosque atrás do Christobel Park até a passagem de pedestres acima da Rota 111. Eddie sempre levava um saco de papel pardo cheio de lixo roubado do apartamento em que Mindy trabalhava como babá, um saco contendo fraldas cheias de merda e caixas ensopadas de comida chinesa azeda. Ele jogava bombas de lixo nos caminhões que passavam abaixo. Certa vez, mirou uma fralda em um enorme caminhão semirreboque com chamas vermelhas pintadas no capô e chifres de touro no lugar onde a plaquinha com a marca do automóvel deveria estar. A fralda explodiu no quebra-vento do lado do passageiro e uma mancha de diarreia amarela se espalhou pelo vidro. O sistema de freio a ar chiou, com fumaça saindo dos pneus. O motorista apertou a buzina para a gente, um barulho tremendo que fez o meu coração martelar de alarme. Nós puxamos um ao outro e saímos correndo, rindo.

— Foge, balofo, acho que ele vai vir atrás da gente! — berrou Eddie. Eu corri pela simples alegria de correr. Não achava que alguém se daria ao trabalho de sair de um caminhão para correr atrás da gente, mas era eletrizante fingir que sim.

Depois, quando diminuímos a velocidade e estávamos caminhando pelo Christobel Park, nós dois ofegando, Eddie falou:

— Não tem tipo mais vil de forma humana do que o caminhoneiro. Nunca encontrei um que não cheirasse a um balde de mijo depois de uma longa viagem.

Não fiquei completamente surpreso ao saber que o namorado da mãe de Eddie — o escroto tagarela — era um caminhoneiro de longa viagem.

Às vezes, Ed ia lá em casa, quase sempre para ver TV. A nossa televisão pegava melhor que a da casa dele. Meu amigo fazia perguntas sobre Morris, queria saber tudo sobre o que havia de errado com ele, estava interessado em ver o seu trabalho no porão.

Eddie se lembrava de ter visto Morris derrubando o grifo de dominó na TV, mesmo que fizesse uns dois anos que aquilo tinha acontecido. Ele nunca falou em voz alta, mas acho que ficou entusiasmado com a ideia de conhecer um savant. Ele não ficaria tão animado em conhecer o meu irmão se ele tivesse os braços ou as pernas amputadas ou se fosse um anão. Eddie queria um pouco de Acredite se quiser! na sua vida. No fim, as pessoas costumam receber o que querem da vida, só que mais do que conseguem aguentar, não é?

Em uma das primeiras visitas à minha casa, fomos dar uma olhada na última versão do forte de Morris. Meu irmão tinha mais ou menos quarenta caixas grudadas umas às outras para formar uma rede de túneis no formato de um polvo monstruoso, com oito passagens longas que levavam até uma caixa central enorme que um dia abrigara um televisor gigantesco. Teria feito sentido pintar aquilo para parecer um polvo — um kraken ameaçador — e, na verdade, vários dos “membros” com aparência de tromba foram pintados de um amarelo-esverdeado, com discos vermelhos para indicar as ventosas. Mas outros braços eram sobras de antigos fortes — um foi feito com os restos do submarino amarelo, outro fora de um projeto de nave espacial e era branco, com quilhas e vários adesivos da bandeira dos Estados Unidos. E a caixa enorme no meio do polvo não tinha pintura nenhuma, só estava revestida de uma grande malha de arame, que fora moldada para parecer um par de chifres. Todo o resto do forte parecia um brinquedo de criança…

com uma aparência espetacular, mas, ainda assim, um brinquedo, uma coisa que talvez o pai o tenha ajudado a construir. Foi esse último detalhe, aqueles chifres de malha de arame inexplicáveis, inexplicáveis, que deixavam o forte com uma cara de obra de alguém que era completamente maluco.

— Que incrível — falou Eddie no fim da escada, olhando o forte por cima, mas pude ver, por uma certa perda de brilho nos olhos dele, que não ficou tão impressionado assim, que estava esperando mais.

Eu odiava vê-lo decepcionado, por qualquer motivo que fosse.

Se Eddie queria que o meu irmão fosse um savant, então eu também queria. Me agachei diante de uma das entradas.

Continuar: parte 2 de 3