O Telefone Preto e Outras Histórias

Joe Hill · Capítulo 12 de 16

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O Telefone Preto e Outras Histórias

Natureza morta

Mesmo com os ouvidos estalando, Alinger ouviu o motorista falar:

— Ela nem olhou. Se enfiou entre os carros. Jesus Cristo. O que eu poderia ter feito?

O pai não escutava. Ele estava na rua, ajoelhado, com a esposa nos braços. O menino permaneceu na chapelaria, com o casaco vestido pela metade, olhando para fora. Uma veia inchada pulsava na sua testa.

— Doutor! — gritou o pai. — Por favor! Doutor! — Ele olhava para Alinger.

Alinger parou para pegar o sobretudo em um gancho. Era março e ventava, e ele não queria ficar gripado. Não chegara aos oitenta anos sendo descuidado ou fazendo as coisas com pressa. Afagou a cabeça do garoto ao passar. Ainda estava a meio caminho de descer todos os degraus, quando o menino o chamou.

— Doutor — disse ele gaguejando, e Alinger olhou para trás.

O menino segurava a bolsa de médico e a entregava para ele, ainda aberta.

— Sua bolsa — falou o garoto. — Pode ser que precise de algo aí de dentro.

Alinger sorriu com afeição, voltou a subir os degraus e tirou a alça dos dedos frios do rapaz.

— Obrigado — disse ele. — Pode ser que eu precise.

NATUREZA MORTA

ALEGA-SE QUE ATÉ MESMO árvores podem voltar como fantasmas. Relatos de manifestações do tipo são comuns na literatura da parapsicologia. Havia um pinheiro famoso em West Belfry, no Maine. Ele foi cortado em 1842, uma árvore altaneira com um tronco claro e liso como ninguém nunca vira antes, e com galhos da cor do aço escovado. Uma pousada com uma casa de chá foi construída na colina onde ficava o pinheiro. Havia uma área fria no canto da sala de jantar amarela, uma zona de gelo penetrante, com o diâmetro exato do tronco da árvore. Acima da sala de jantar, ficava um pequeno quarto, mas nenhum hóspede passava a noite lá.

Aqueles que tentavam diziam que o sono era perturbado pelo sopro lamentoso de um vento espectral, o baixo e suave som do ar nos galhos mais altos, e as lufadas espalhavam papéis pelo cômodo e baixavam as cortinas. Em março, as paredes sangravam seiva.

Certa vez, em 1959, toda uma floresta de árvores fantasmas apareceu em Cannanville, Pensilvânia, por um período de vinte minutos. Há fotos. Foi em um empreendimento urbano, uma vizinhança de ruas tortuosas e pequenos bangalôs modernos. Os residentes acordaram, em uma manhã de domingo, e perceberam que estavam dormindo sobre bétulas que pareciam crescer direto do chão dos quartos. Plantas aquáticas se agitavam e flutuam em piscinas nos quintais. O fenômeno se estendeu até um shopping nas cercanias. O chão de uma loja de departamentos ficou cheio de arbustos, saias com cinquenta por cento de desconto penduradas nos galhos de bordos, uma ninhada de pardais empoleirada junto ao balcão das joias, bicando pérolas e correntes de ouro.

De alguma forma, é mais fácil imaginar o fantasma de uma árvore do que o fantasma de um homem. Pense em como uma árvore permanece de pé por cem anos, alimentando-se da luz do sol e sugando umidade da terra, puxando incansavelmente a vida do solo, como alguém que traz para si um balde de um poço sem

fundo. As raízes de uma árvore cortada ainda beberão água por meses após sua morte, tão habituadas à vida que não conseguem desistir. É óbvio que não podemos esperar que algo saiba que está morto quando nem sabia que estava vivo, em primeiro lugar.