O Telefone Preto e Outras Histórias

Joe Hill · Capítulo 6 de 16

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O Telefone Preto e Outras Histórias

Os filhos de Abraham

Francis arrebentou a janela com uma das garras pontudas, e cacos de vidro rodopiaram pelo ar. Naquele dia claro com vento, os homens berravam. O tanque parou e a torre do canhão começou a girar. Alguém esbravejava ordens pelo megafone. Soldados se jogavam no chão. Francis saltou para fora e foi na direção do céu, as asas zumbindo com o som mecânico de uma serra elétrica mergulhando na madeira. Conforme ascendia sobre a escola, ele começou a cantar.

OS FILHOS DE ABRAHAM

MAXIMILIAN PROCUROU NA COCHEIRA e também no estábulo, foi até mesmo ao galpão, embora bastasse dar uma olhada no local para saber que não os encontraria ali. Rudy não se esconderia em um lugar como aquele, úmido e frio, com poucas janelas e, portanto, pouca luz, um lugar que cheirava a morcegos. Parecia demais com um porão. Se pudesse evitar, Rudy nunca ia ao porão em casa, tinha medo da porta fechar e ele ficar preso na escuridão sufocante.

Max foi ao celeiro por último, mas eles também não estavam escondidos lá, e, quando chegou perto da casa, viu, chocado, que o sol estava começando a se pôr. Nunca imaginaria que já era tão tarde.

— Chega de brincadeira! — gritou ele. — Rudolf! A gente tem que ir! — Quando falava Rudolf, porém, o som que saía da sua boca lembrava o espirro de um cavalo. Max odiava o tom da própria voz e invejava a segurança do irmão mais novo nas pronúncias americanas. Rudolf nascera ali, nunca tinha posto os pés em Amsterdã. Max vivera seus primeiros cinco anos na cidade, em um apartamento escuro que cheirava ao bolor das cortinas de veludo e ao fedor de latrina do canal abaixo.

Ele gritou até a garganta doer, mas, no fim, tudo aquilo fez surgir apenas a sra. Kutchner, que atravessou o alpendre com dificuldade, os braços cruzados sobre o busto para se aquecer, embora não fizesse frio. Quando chegou ao parapeito, agarrou a madeira com ambas as mãos e se inclinou para a frente, usando o peitoril como apoio.

Nessa mesma época, no último outono, a sra. Kutchner estava agradavelmente rechonchuda, com covinhas nas bochechas fartas, o rosto sempre avermelhado devido ao calor da cozinha. Agora, suas feições eram magras, a pele repuxada sobre o crânio, os olhos febris e penetrantes em órbitas ossudas. A filha dela, Arlene — que, naquele momento, estava escondida com Rudy em algum lugar —,

dissera aos sussurros que a mãe mantinha um balde ao lado da cama e que, quando o pai ia esvaziá-lo na casinha de manhã, dava para sentir o fedor de sangue saindo dele.

— Pode ir se quiser, querido — falou ela. — Digo ao seu irmão para correr para casa quando sair de onde quer que esteja.

— Eu acordei a senhora? — perguntou ele. A mulher balançou a cabeça, mas a culpa do rapaz não diminuiu. — Desculpe por fazê-la levantar da cama. — E então, com um tom incerto: — Deveria estar de pé?

— Está me diagnosticando, Max van Helsing? Será que seu pai não faz isso o bastante? — questionou ela, um dos cantos da boca se levantando para formar um sorriso frágil.

— Não, senhora. Digo, sim, senhora.

Rudy teria dito algo engraçado que a faria gargalhar e bater palmas. O irmão nascera para o rádio, uma estrela infantil de algum programa de atrações. Max nunca sabia o que dizer e, de qualquer maneira, não era bom em comédia. Não apenas por causa de seu sotaque, embora isso o envergonhasse muito, mais uma razão para falar o mínimo possível. Era também questão de temperamento; muitas vezes, Max não conseguia superar seu jeito extremamente reservado.

— Ele é bastante rigoroso com vocês, garotos, estarem em casa antes do anoitecer, não é?

— Sim, senhora.

— Há muitos como ele, que trouxeram o velho país consigo. Mas não esperava que um médico fosse supersticioso. Tão estudado…

Max reprimiu um tremor de repulsa. Dizer que seu pai era supersticioso era um eufemismo de proporções grotescamente hilariantes.

— É de se espantar que ele fique preocupado com um menino como você. Não consigo imaginá-lo se metendo em problemas.

— Muito obrigado, senhora — respondeu Max, mas o que queria mesmo dizer era que desejava, mais do que qualquer outra coisa, que ela voltasse para dentro, se deitasse e descansasse. De vez em quando, Max pensava ser alérgico a se expressar. Nas situações em que queria falar muito alguma coisa, sentia a traqueia se fechando, deixando-o sem ar. Queria ajudar a mulher a entrar na

casa, imaginou-se apoiando o cotovelo dela, inclinando-se o suficiente para cheirar seu cabelo. Queria dizer à sra. Kutchner que rezava por ela antes de dormir, ainda que não pudesse presumir que suas preces tivessem algum valor; Max também rezara pela mãe e não fizera diferença alguma. Não falou nada disso. Muito obrigado, senhora era o máximo que conseguia articular.

— Volte para casa. Diga ao seu pai que pedi a Rudy para ficar um pouco mais e me ajudar a limpar algo na cozinha. Aviso a ele para voltar logo para casa.

— Sim, senhora. Muito obrigado, senhora. Peça a ele para se apressar, por favor.

Na estrada, Max olhou para trás. A sra. Kutchner segurava um lenço à boca, mas o retirou na mesma hora e o balançou de leve, um gesto tão encantador que o garoto se sentiu enjoado. Ergueu a própria mão e deu meia-volta. O som das tosses secas e fortes o acompanhou por um tempo — um cão feroz e desacorrentado o perseguindo pelo caminho.

Quando chegou à frente de sua casa, o céu tinha um tom de azul bem próximo do preto, exceto por um leve lume a oeste, onde o sol acabara de desaparecer. O pai estava sentado no alpendre esperando com o açoite. Max parou diante da escada, olhando para ele. Os olhos do homem estavam ocultos, era impossível vê-los embaixo das sobrancelhas cheias de palha de aço.

Max esperou o pai falar alguma coisa. Ele permaneceu calado.

Por fim, o menino desistiu e falou:

— Ainda há luz.

— O sol está posto.

— Estávamos na casa da Arlene. Não fica nem a dez minutos.

— Sim, a casa da sra. Kutchner é deveras segura. Uma fortaleza autêntica. Protegida por um fazendeiro raquítico que mal pode se inclinar para a frente porque o reumatismo não permite e uma camponesa ignorante cujos intestinos são corroídos pelo câncer.

— Ela não é ignorante — disse Max. Percebeu como soava assustado e, quando voltou a falar, foi em um tom modulado com bastante cautela para parecer sensato. — Eles não suportam a luz.

O senhor mesmo afirmou. Se ainda não está escuro, não há o que temer. Veja como o céu está claro.

Seu pai assentiu, concordando com aquela observação, e então respondeu:

— E onde está Rudolf?

— Ele já está chegando.

O homem idoso esticou o pescoço fazendo um gesto exagerado de busca na estrada vazia às costas de Max.

— Quis dizer que está a caminho — falou Max. — Ficou para ajudar a sra. Kutchner a limpar alguma coisa.

— O quê?

— Um saco de farinha, acho, que se abriu e se espalhou todo.

Ela ia limpar sozinha, mas Rudy disse que não, queria ajudá-la.

Falei que seguiria na frente para que o senhor não se preocupasse.

Ele chegará a qualquer instante.

Seu pai estava sentado perfeitamente imóvel, as costas retas, o rosto firme. Assim que Max pensou que a conversa havia terminado, no entanto, ele falou bem devagar:

— E você o deixou fazer isso?

Na mesma hora, Max percebeu, com uma sensação cada vez maior de desespero, a armadilha que armara para si; contudo, era tarde demais, não havia mais como sair dela.

— Sim, senhor.

— Voltar para casa sozinho? No escuro?

— Sim, senhor.

— Compreendo. Entre. Vá estudar.

Max subiu os degraus e foi na direção da porta entreaberta.

Sentiu o corpo se encolher quando passou pela cadeira de balanço, esperando pelo açoite. Em vez disso, quando o pai se mexeu de súbito, foi para agarrar seu pulso, apertando tão forte que o filho fez uma careta de dor, sentiu os ossos se separando das juntas.

Seu pai inspirou, uma tomada de fôlego ruidosa, um som que frequentemente era o prelúdio de uma bofetada.

— Sabe quem são nossos inimigos? E ainda assim brinca com os amigos até o cair da noite?

Max tentou responder, mas não conseguiu, sentiu a traqueia se fechando, sentiu que estava sufocando outra vez com as coisas que queria, mas não tinha coragem de dizer.

— Eu não esperava que Rudolf entendesse. Ele é americano.

Aqui acreditam que o filho deve ensinar ao pai. Percebo como olha para mim quando falo. Como tenta não rir. Ao menos quando Rudolf me desobedece, é deliberado, sinto que estou envolvido naquilo.

Você me desobedece em estado de apatia, sem pensar, e então se pergunta por que mal consigo encará-lo. O sr. Barnum tem um cavalo que consegue fazer somas simples. O animal é uma das grandes atrações do circo. Se um dia você conseguir demonstrar a mínima compreensão das coisas que falo, seria um feito de igual tamanho. — Ele soltou o pulso de Max e o menino deu um passo para trás, o braço latejando. — Saia da minha frente. Deve estar querendo descansar. Esse zumbido desconfortável em sua cabeça é o ruído do pensamento. Sei que a sensação não deve ser familiar.

— Ele bateu a ponta do dedo na própria têmpora para mostrar onde estavam os pensamentos.

— Sim, senhor — respondeu Max em um tom que, ele mesmo precisava admitir, soava estúpido e matuto. Por que o sotaque do pai o fazia parecer um homem erudito e viajado, enquanto o mesmo sotaque o fazia soar como um parvo fazendeiro holandês, alguém cujo único talento era tirar leite das vacas, e que arregalaria os olhos de temor e perplexidade diante de um livro? Max se virou para a casa sem olhar aonde estava indo e bateu com a cabeça nos ramos de alho dependurados acima da porta. O pai riu dele.

O menino se sentou na cozinha com um lampião aceso na ponta da mesa, nem de perto o suficiente para afastar a escuridão que crescia no cômodo. Ele esperou, ouvindo, a cabeça inclinada para conseguir ver o jardim pela janela. Tinha o livro de gramática diante de si, mas não olhava para ele, não conseguia encontrar forças para fazer qualquer coisa além de se sentar e esperar por Rudy. No entanto, em pouco tempo já estava escuro demais para ver a estrada ou qualquer um que viesse por ela. O topo dos pinheiros eram entalhes pretos pontuando um céu da cor do último brilho leve de carvões se apagando. E logo até isso desapareceu, e no negrume havia um punhado de estrelas com seus brilhos salpicados e espalhados. Max ouvia o pai na cadeira de balanço, o vaivém da madeira curva sobre as tábuas do alpendre. O garoto puxou o cabelo com as mãos, sussurrando para si Venha logo, Rudy,

desejando mais do que tudo que aquela espera acabasse. Poderia ter se passado uma hora. Poderia ter se passado quinze minutos.

Então ele o ouviu, o som leve dos pés do irmão na lateral poeirenta da estrada. Rudy diminuiu a velocidade quando chegou ao jardim, mas Max suspeitava que ele correra até lá, hipótese confirmada assim que sua boca se abrira. Embora tentasse usar o costumeiro tom bem-humorado, ele estava sem fôlego e só conseguia falar pausadamente.

— Desculpe. Desculpe. A sra. Kutchner. Acidente. Pediu a minha ajuda. Eu sei. Atrasado.

A cadeira de balanço parou. As tábuas rangeram enquanto o pai ficava de pé.

— Foi o que Max disse. E a bagunça, conseguiu limpar?

— Ah. Sim. Arlene e eu. Arlene correu na cozinha. Sem ver para onde ia. A sra. Kutchner… a sra. Kutchner deixou cair uma pilha de pratos…

Max fechou os olhos e deixou a cabeça pender para a frente, puxando a raiz dos cabelos em desespero.

— A sra. Kutchner tem que descansar. Está doente. De fato, acho que mal consegue sair da cama.

— É o que… É o que eu acho. Também. — A voz de Rudy vinha de fora do alpendre. Começava a recuperar o fôlego. — Ainda não está completamente escuro, na verdade.

— Não? Ah. Na minha idade, a visão pode começar a falhar e o crepúsculo muitas vezes é confundido com a noite. Pensava eu que o sol tinha se posto há vinte minutos. Que horas…? — Max escutou o estalo metálico do relógio de bolso do pai sendo aberto. Suspirou.

— Está escuro demais para ver os ponteiros. Bem. É admirável sua preocupação com a sra. Kutchner.

— Ah… não foi nada… — falou Rudy, colocando o pé no primeiro degrau.

— No entanto, deveria se preocupar mais com seu bem-estar, Rudolf — disse o pai com a voz calma, benevolente, no tom que Max imaginava que fosse o usado para falar com pacientes nos últimos estágios de uma doença fatal. Anoitecera e o médico chegara.

Rudy respondeu:

— Sinto muito, eu…

— Sente muito agora. Mas o arrependimento será bem mais palpável em um segundo.

O açoite desceu e encontrou a carne, e Rudy, que faria dez anos em duas semanas, berrou. Max rangeu os dentes, as mãos ainda enterradas no cabelo, os punhos pressionando as orelhas, tentando em vão bloquear o som dos gritos e do chicote atingindo músculos, gordura e ossos.

Com as orelhas ainda cobertas, o garoto não ouviu o pai entrando. Olhou para cima quando percebeu uma sombra sobre si.

Abraham estava no vão da porta, o cabelo bagunçado, o colarinho torto, o açoite apontado para o chão. Max se preparou para apanhar também, mas nenhum golpe foi dado.

— Ajude seu irmão a entrar.

Instável, Max se colocou de pé. Não conseguiu aguentar o olhar do pai, então baixou o rosto e percebeu que encarava o açoite. As costas da mão do pai estavam sujas de sangue respingado. Max soltou um suspiro baixo e pesaroso.

— Vê o que faço por causa de vocês?

Ele não respondeu. Talvez nenhuma resposta fosse necessária ou esperada.

O pai permaneceu no lugar por mais um instante e então se virou e caminhou para os fundos da casa, até o escritório que sempre mantinha trancado, um cômodo onde os dois meninos eram proibidos de entrar sem sua permissão. Ele dormia muitas noites lá e era possível ouvi-lo gritando durante o sono, praguejando em holandês.

— PARE DE CORRER — bradou Max. — Em algum momento, vou alcançá-lo.

Rudolf saltou com graça pelo curral, agarrou a cerca e pulou por cima dela, disparando em direção à casa, deixando sua risada pelo caminho.

— Devolve — ordenou Max, passando por cima da cerca sem diminuir a velocidade e atingindo o chão sem perder o passo. Ele estava com raiva, muita raiva, e a fúria lhe dava uma agilidade improvável; improvável porque o menino puxara ao pai, com as

proporções brutas de um búfalo que aprendera a andar nas patas traseiras.

Rudy, por outro lado, tinha a compleição delicada da mãe, que combinava com sua pele de porcelana. Ele era rápido, mas Max estava quase o alcançando. Rudy olhava por cima do ombro sem pensar aonde estava indo. O irmão mais novo se aproximava da lateral da casa. Quando chegasse lá, Max o prenderia contra a parede, impossibilitando com facilidade qualquer tentativa de fuga para a esquerda ou para a direita.

Rudy, porém, não foi para a esquerda ou para a direita. A janela do escritório do pai estava entreaberta, revelando a escuridão fria de uma biblioteca. Rudy alcançou o peitoril com uma das mãos — a carta de Max ainda estava na outra — e, com um olhar bobo para trás, adentrou as sombras.

A maneira como o pai se sentia em relação a eles chegarem em casa após o poente não era nada se comparada a como se sentiria ao descobrir que um deles invadira seu santuário. Mas Abraham não estava em casa, fora a algum lugar com o carro, e Max não parou para pensar no que aconteceria se o pai chegasse de repente. Saltou e agarrou o calcanhar do irmão, achando que poderia fazer o vermezinho voltar para a luz, mas Rudy gritou e girou o pé de forma a escapar da mão de Max. Ele mergulhou na escuridão, caindo nas tábuas com um estrondo, fazendo algo de vidro bater de leve em outra coisa de vidro dentro do escritório.

Então Max alcançou o peitoril, se içou no ar…

— Vá com calma, Max, é uma… — falou Rudy.

E, com um impulso, passou pela janela.

— Boa queda — disse o irmão mais novo.

Max já estivera no escritório, claro (às vezes, Abraham os convidava para “conversar” ali, o que significava que o pai ia falar e os filhos iam ouvir), mas nunca tinha entrado no cômodo pela janela.

Ele se impeliu para a frente, teve um vislumbre assustador do chão quase um metro abaixo e percebeu que estava prestes a dar de cara no piso. De rabo de olho, viu uma mesa de canto redonda ao lado de uma das poltronas do pai e tentou segurá-la para impedir a queda. A velocidade continuou a levá-lo adiante, no entanto, e o garoto bateu no chão. No último segundo, virou o rosto e a maior

parte do peso foi para cima do ombro direito. A mobília tremeu. A mesa de canto despencou, derrubando tudo o que estava sobre ela.

Max ouviu o estalido de vidro se quebrando, algo pior que a dor na cabeça ou no ombro.

Rudy estava sentado no chão a quase um metro de distância, ainda com um sorriso bobo. A carta, agora esquecida, continuava amassada em uma de suas mãos.

Felizmente, a mesa de canto não se quebrara, mas havia cacos reluzentes de um pote de nanquim vazio perto do joelho de Max.

Uma pilha de livros se derramara pelo tapete persa. Algumas folhas rodopiavam sobre suas cabeças, descendo devagar até o chão com um som suave.

— Viu o que fiz por sua causa? — disse Max apontando o vidro de nanquim. Então, estremeceu, percebendo que o pai tinha dito algo parecido para ele algumas noites atrás; o garoto não gostava quando Abraham surgia nele, falava através dele, como se o menino fosse um fantoche, um garoto de madeira oco de cabeça vazia.

— Podemos jogar fora — falou Rudy.

— Ele sabe o lugar de tudo neste escritório. Vai dar falta.

— Até parece! Ele vem aqui para beber brandy, peidar e dormir.

Já entrei várias vezes. Peguei o isqueiro para fumar no mês passado e ele ainda não notou.

— O quê? — perguntou Max, encarando o irmão mais novo com surpresa genuína e uma pontada de inveja. Era papel do filho mais velho fazer coisas arriscadas e depois mencioná-las de maneira casual.

— Para quem é a carta que estava escrevendo escondido?

Fiquei observando acima do seu ombro. “Ainda me lembro de como a minha mão você segurava.” — A voz dele era hesitante e trêmula, um deboche da paixão romântica.

Max tentou pegar a carta, mas foi lento demais, Rudy a abrira e lia o início. Seu sorriso começou a desaparecer, rugas marcaram a alta testa pálida e, então, Max conseguiu arrancar o papel das mãos dele.

— Para a mãe? — perguntou Rudy, completamente desconcertado.

— Era trabalho escolar. A professora perguntou para quem escreveríamos uma carta se pudéssemos escolher qualquer pessoa. A sra. Louden disse que poderia ser um indivíduo imaginário ou… ou uma figura histórica. Alguém que já tivesse morrido.

— Você entregaria esta carta? Deixaria a sra. Louden ler?

— Não sei. Não terminei ainda.

No entanto, assim que falou, Max percebeu que tinha cometido um erro, que se permitiu ser levado pelas fascinantes possibilidades da tarefa, o irresistível E se…? dela, e escrevera coisas pessoais demais para mostrar aos outros. Ele havia escrito que você foi a única com quem sabia conversar e às vezes, me sinto tão sozinho.

Chegara a imaginar sua mãe lendo a carta de alguma forma, em algum lugar — talvez enquanto ele a escrevesse, alguma forma astral dela observando por cima de seu ombro, sorrindo conforme a pena arranhava o papel. Era uma fantasia absurda e piegas, e Max sentiu um constrangimento enorme ao pensar que havia cedido a ela de maneira tão completa.

Sua mãe já estava fraca e doente quando o escândalo expulsou a família de Amsterdã. Por um tempo, moraram na Inglaterra, mas os boatos sobre a coisa terrível que seu pai fizera (o que quer que fosse — Max duvidava que chegaria a saber algum dia) os seguiram. Então, foram para os Estados Unidos. O pai achava que havia conseguido um cargo de professor na Vassar College, tinha tanta certeza que desembolsara boa parte das economias na compra de uma bela fazenda nas imediações. Porém, em Nova York, o reitor os encontrou e disse a Abraham van Helsing que não poderia, em sã consciência, permitir que o médico trabalhasse sem supervisão com meninas que ainda não tinham alcançado a maioridade. Agora, Max sabia que o pai matara sua mãe de forma tão certeira quanto se tivesse a sufocado com um travesseiro no leito de morte. Não foi a viagem que a matou, embora tivesse sido bastante ruim, demais para uma mulher que estava grávida e enfraquecida por uma doença sanguínea crônica que lhe causava hematomas ao menor toque. Era a humilhação. Mina não sobrevivera à vergonha do que ele havia feito, daquilo que todos eles foram obrigados a fugir.

— Vamos limpar e sair daqui — disse Max.

Ele endireitou a mesa de canto e começou a reunir os livros, mas girou a cabeça quando Rudy lhe perguntou:

— Você acredita em vampiros, Max?

Rudy estava de joelhos diante de um banco do outro lado do escritório. O garoto havia se curvado para pegar algumas folhas de papel que tinham caído ali e então encontrou a surrada bolsa de médico enfiada debaixo do móvel. Rudy puxou o rosário enrolado nas alças.

— Não mexa nisso — ordenou Max. — Temos que limpar, não fazer mais bagunça.

— Acredita?

Max ficou em silêncio por um instante.

— A mãe foi atacada. O sangue dela nunca mais foi o mesmo. A doença.

— Mas ela disse que foi atacada? Ou foi ele?

— Ela morreu quando eu tinha seis anos. Algo assim ela não diria a uma criança.

— Mas… você acha que estamos em perigo? — A bolsa estava aberta agora. Rudy enfiara a mão para pegar um fardo cuidadosamente embrulhado com um tecido roxo-real. Era possível ouvir madeira batendo contra madeira no embrulho de veludo. —

Que os vampiros estão por aí, esperando por uma chance para nos pegar? Assim que baixarmos a guarda?

— Eu não descartaria a possibilidade. Por mais improvável que seja.

— Por mais improvável que seja — repetiu o irmão, rindo de leve. Abrindo o embrulho de veludo, ele observou as estacas de vinte centímetros, espetos de madeira branca lustrosa, as empunhaduras reforçadas com couro tratado. — Bem, acho que tudo isso é bobagem. Bobaaaagem — disse Rudy, cantando um pouco.

O curso daquela discussão enervava Max. Por um instante, ele ficou tonto, como se de repente estivesse diante de um abismo. E talvez essa imagem não fosse tão distante, afinal. Sempre soube que os dois teriam aquela conversa algum dia, e temia até que ponto ela os levaria. Rudy adorava discutir e defender seus

argumentos, mas suas dúvidas não chegavam a qualquer conclusão lógica. Ele poderia dizer que era tudo bobagem, mas não parava para pensar no que aquilo significava em relação ao pai deles, um homem que tinha pavor da noite da mesma forma que alguém que não sabe nadar treme ao ver o oceano. Para Max, era quase necessário que aquilo fosse verdade, que vampiros existissem, porque a outra possibilidade — a de que seu pai era, e sempre fora, dominado por uma fantasia psicótica — era horrível, avassaladora demais.

Max ainda pensava em como responder quando um porta-retratos que escorregara para baixo da poltrona chamou sua atenção. Estava virado para o chão, mas ele sabia o que veria quando o pegasse: um calótipo em sépia de sua mãe na biblioteca da casa deles em Amsterdã. Ela usava um chapéu branco de palha, o cabelo de ébano em cachos largos saindo debaixo dele. Uma de suas mãos, enluvada, erguia-se em um gesto enigmático, quase parecia que ela estava segurando um cigarro invisível. Os lábios estavam abertos. Ela dizia alguma coisa. Com frequência, Max se perguntava o quê. Por alguma razão, imaginava a si mesmo de pé fora do enquadramento, uma criança de quatro anos encarando-a solenemente. Sentia que a mãe levantara a mão para afastá-lo, para que ele não caminhasse para dentro da foto. Se estivesse certo, parecia razoável supor que ela fora registrada para sempre no momento em que falava o nome dele.

Max ouviu o tinido de cacos ao pegar e virar o porta-retratos. A placa de vidro rachara exatamente no centro. Começou a arrancar as pequenas presas reluzentes e colocá-las de lado, preocupado em não danificar o calótipo envernizado embaixo delas. Tirou um bom caco de uma das quinas superiores da moldura e a ponta da fotografia se soltou. Com o dedo, tentou colocá-la de volta no lugar… e então parou, franzindo a testa, sentindo, por um instante, que seus olhos se envesgaram e que estava vendo em dobro.

Aparentemente, havia outra fotografia embaixo da primeira. Puxou a imagem de sua mãe do porta-retratos e então encarou a foto secreta sem compreender. Um torpor gelado se espalhou por seu peito, subindo até a garganta. Olhou em volta e ficou aliviado de ver

Rudy ainda ajoelhado diante do banco, cantarolando e devolvendo as estacas ao seu manto de veludo.

Voltou os olhos para a fotografia secreta. A mulher nela estava morta. Estava nua da cintura para cima, a camisola rasgada e puxada até a curva do quadril. Além disso, fora registrada deitada em uma cama dossel — presa a ela, na verdade, por cordas enroladas no pescoço e nos pulsos. Era jovem e talvez tivesse sido bonita, mas era difícil dizer; um dos olhos estava fechado, o outro, apenas entreaberto, mostrando o olhar atroz por trás. Uma obscena bola branca disforme fora enfiada em sua boca, de maneira que a mulher não conseguia fechá-la. De fato, ela a mordia, o lábio superior repuxado para mostrar a fileira de dentes pequenos e iguais. A lateral do rosto estava roxa com ferimentos. Entre seus seios leitosos e curvados, havia uma estaca de madeira branca. O

sangue cobria toda a costela esquerda.

Mesmo quando ouviu o carro chegando, ele não conseguiu se mover, não conseguiu afastar os olhos da fotografia. Rudy já estava de pé, puxando o ombro dele, dizendo que precisavam sair dali.

Max pressionou a foto no peito para impedir o irmão de vê-la.

Mandou Rudy ir na frente, que estaria logo atrás dele, e o menino soltou seu braço e foi em frente.

Max se atrapalhou com o porta-retratos, esforçando-se para recolocar o calótipo da mulher assassinada no lugar… e então viu outra coisa e congelou novamente. Até aquele instante, não havia notado uma pessoa à esquerda na imagem, um homem perto da cabeceira da cama. Ele estava de costas e tão distante do fotógrafo que sua figura vagamente rabínica não era nítida, um indivíduo usando um chapéu preto de abas largas e um sobretudo escuro.

Não havia como saber quem era aquele homem, mas Max sabia, o reconhecera pela maneira como sua cabeça pendia, o jeito cuidadoso, quase tenso que ela se equilibrava sobre o pescoço grosso. Em uma das mãos, ele tinha uma machadinha; na outra, uma bolsa de médico.

O carro parou com um ronco enfisêmico e um ruído metálico.

Max enfiou a fotografia da mulher morta na moldura e colocou o retrato de Mina em cima dela. Retornou o porta-retratos, sem o vidro, para cima da mesa de canto, encarou-o por um segundo e

então percebeu, horrorizado, que deixara a mãe de cabeça para baixo. Quando ergueu as mãos para pegá-lo, Rudy falou:

— Vamos, Max, por favor. — O irmão já estava lá fora, olhando para dentro do escritório na ponta dos pés.

Max chutou os cacos de vidro para debaixo da poltrona, subiu na janela e soltou um grito. Ou ao menos tentou — não havia ar em seus pulmões para ser forçado pela garganta.

O pai estava atrás de Rudy, encarando o filho mais velho acima da cabeça do mais novo. Rudy ainda não tinha percebido, não sabia que ele estava lá, até o pai colocar as mãos em seus ombros. O

menino não teve dificuldade alguma em gritar e deu um pulo, como se quisesse voltar para o escritório.

O homem encarou Max em silêncio. O filho o encarou de volta, metade da cabeça para fora da janela, as mãos no peitoril.

— Se for melhor — disse o pai —, posso abrir a porta para que saia pelo corredor. Não é dramático, mas é mais conveniente.

— Não — respondeu Max. — Não, agradeço. Agradeço. Eu…

nós… isso foi… um erro. Desculpe.

— Não saber a capital de Portugal em um teste de geografia é um erro. Isso é outra coisa. — Ele parou, baixou a cabeça, a expressão dura. Então libertou Rudy e se virou, abrindo uma das mãos e apontando para o quintal, um gesto que parecia indicar venha por aqui. — Esse assunto discutiremos depois. Agora, se não for incômodo, peço para sair do meu escritório.

Max olhou para o pai. Ele nunca tinha adiado castigos antes — e invadir seu escritório merecia no mínimo uma bela açoitada —, e tentou imaginar o porquê daquilo. Abraham aguardou. Max saiu da janela e caiu no canteiro. Rudy o observava, os olhos desamparados, suplicantes, perguntando o que os dois deveriam fazer. Com a cabeça, Max indicou os estábulos — o escritório dos meninos — e começaram a caminhar devagar, mas de forma deliberada, para longe do pai. Seu irmão mais novo se emparelhou com ele, tremendo sem parar.

Antes que pudessem se afastar, contudo, a mão do pai apertou o ombro de Max.

— Minhas regras são feitas para protegê-lo, Maximilian — falou ele. — Talvez queira me dizer que não quer mais proteção? Quando

era pequeno, eu cobria seus olhos no teatro quando os assassinos chegavam para matar Clarence em Ricardo III. Mas então, quando fomos assistir a Macbeth, você afastou minha mão. Você queria ver.

Parece que a história se repete agora, não?

Max não respondeu. Por fim, seu pai o largou.

Eles não tinham dado dez passos quando o pai voltou a falar:

— Ah, quase esqueci. Não compartilhei os motivos ou aonde ia, e agora tenho uma notícia que deixará os dois tristes. Enquanto estavam na escola, o sr. Kutchner correu pela estrada gritando

“doutor, doutor, venha rápido, minha esposa”. Assim que a vi, queimando de febre, soube que ela precisava ir ao hospital do dr.

Rosen, na cidade, mas, ai de mim, o fazendeiro veio tarde demais.

Quando a estava levando até o carro, seus intestinos saíram para fora com um slop. — Ele deu um muxoxo, como se desaprovasse aquilo. — Vou mandar seus ternos para o tintureiro. O funeral será na sexta-feira.

ARLENE KUTCHNER NÃO FOI à escola no dia seguinte. Quando retornaram para a fazenda, os irmãos passaram pela casa dela, mas as cortinas pretas estavam fechadas e o lugar dava a sensação de estar silencioso demais, abandonado. O funeral seria na cidade na manhã seguinte, e talvez Arlene e seu pai já tivessem ido para lá esperar. Alguns parentes deles moravam lá. Quando os garotos pisaram no jardim, o carro estava estacionado ao lado da casa e as portas duplas e enviesadas do porão estavam abertas.

Rudy foi em direção ao estábulo — eles tinham apenas um cavalo, uma égua velha chamada Arroz, e era o dia do mais novo limpar a baia dela —, Max entrou em casa sozinho. Estava à mesa da cozinha quando ouviu as portas externas do porão se fecharem.

Pouco depois, seu pai subiu a escada e surgiu no batente da porta interna do porão.

— Trabalhando em algo lá embaixo? — questionou Max.

Abraham analisou o filho, mas seus olhos não tinham expressão alguma.

— Mais tarde revelarei a você — respondeu, e Max o observou tirar uma chave prateada do colete e virá-la na fechadura da porta.

A chave nunca havia sido usada antes e, até aquele momento, Max nem sabia que ela existia.

O garoto ficou ansioso pelo restante da tarde, olhava sem parar para a porta do porão, inquieto com a promessa do pai: Mais tarde revelarei a você. Não houve, claro, como falar com Rudy sobre aquilo durante o jantar, para especular exatamente o que seria revelado, e eles também não puderem conversar depois, pois continuaram à mesa da cozinha com seus livros escolares. Em geral, o pai se retirava cedo para ficar sozinho no escritório, e os meninos não o veriam até a manhã seguinte. Naquela noite, porém, o homem parecia agitado, saindo e entrando da cozinha sem parar, para lavar um copo, procurar seus óculos de leitura e, por fim, acender um lampião. Ajustando o pavio de forma a deixar uma pequena chama vermelha tremulante no fundo do vidro, ele colocou o objeto sobre a mesa, na frente de Max.

— Garotos — disse o pai, se virando para o porão e destrancando a fechadura. — Vão lá embaixo. Esperem por mim.

Não encostem em nada.

Rudy olhou horrorizado para Max, o rosto ficou pálido no mesmo instante. Ele não suportava o porão, com o teto baixo e o fedor, os véus rendados formados pelas teias de aranha nos cantos. Se o pai mandasse Rudy fazer alguma coisa lá, o menino sempre implorava para o irmão acompanhá-lo. Max abriu a boca para questionar o pai, mas o homem já tinha saído da cozinha, desaparecendo no corredor que levava ao escritório.

Max olhou para Rudy. O irmão balançava a cabeça em recusa silenciosa.

— Vai ficar tudo bem — prometeu Max. — De você eu cuido.

Rudy levou o lampião e deixou Max descer as escadas na frente dele. A luz, de cor de ferrugem, produzia sombras que se inclinavam e saltavam, uma escuridão crescente que avançava sobre as paredes de ambos os lados da escada. Max chegou ao piso do porão e observou devagar em volta, incerto. À esquerda, havia uma mesa. Sobre ela, alguma coisa empilhada coberta por um pedaço de tecido branco encardido — montes de tijolos, talvez, ou roupas dobradas; naquela penumbra, era difícil saber sem se aproximar.

Aos poucos, Max foi chegando mais perto, arrastando os pés até ter

cruzado a maior parte do caminho, e então parou repentinamente, compreendendo o que o lençol escondia.

— Temos que sair daqui, Max — sussurrou Rudy às suas costas.

Ele não percebera que o irmão estava tão perto, achava que Rudy tinha permanecido junto à escada. — Temos que sair daqui agora.

— E Max sabia que ele não estava falando apenas do porão, mas daquela casa, correr para longe do lugar em que viveram por dez anos e nunca mais voltar.

No entanto, era tarde demais para fingir que eram Huckleberry e Jim e sair em disparada por aí. Os pés do pai batiam com força nas tábuas de madeira empoeiradas logo atrás. O filho mais velho olhou para ele na escada. Abraham trazia consigo sua bolsa de médico.

— Posso apenas deduzir que, com a invasão do meu escritório, vocês enfim demonstraram interesse por meu trabalho secreto e extremamente sacrificante — disse o pai. — Já matei seis mortos-vivos com as próprias mãos. A última foi a rameira mazelada na fotografia que mantenho escondida… imagino que os dois a viram.

— Rudy olhou em pânico para Max, que apenas balançou a cabeça, Não fale nada. O pai continuou: — Treinei outros na arte de destruir vampiros, incluindo o infeliz primeiro marido de sua mãe, Jonathan Harker, que Deus o tenha. Assim, sou indiretamente responsável pelo massacre de talvez cinquenta desses seres imundos e doentios. E acho que é hora de ensinar aos meus filhos como se faz. Como saber com certeza. Para que possam atacar aqueles que os atacarem.

— Eu não quero saber — disse Rudy.

— Ele não viu a fotografia — falou Max ao mesmo tempo.

Aparentemente, o pai não ouvira nenhum dos dois. Passou por eles no caminho até a mesa e aquela forma coberta por um pano.

Pegou um dos cantos do lençol esfarrapado e olhou embaixo, fez um som de aprovação e puxou toda a coberta.

A sra. Kutchner estava nua e assustadoramente definhada, as bochechas magras, a boca escancarada. A barriga se estendia tão para baixo das costelas que parecia impossível, como se tudo dentro dela tivesse sido puxado por um vácuo. As costas eram de um violeta profundo devido ao sangue acumulado ali. Rudy gemeu e escondeu o rosto no braço de Max.

O pai colocou a bolsa ao lado do cadáver e a abriu.

— Ela não é, claro, uma morta-viva. Apenas uma morta.

Vampiros de verdade são incomuns, e não seria conveniente ou aconselhável encontrar um para praticar. Mas, para propósitos de demonstração, ela servirá.

De dentro da bolsa, Abraham retirou o conjunto de estacas envolvidas em veludo.

— O que a sra. Kutchner está fazendo aqui? — perguntou Max.

— Será enterrada amanhã.

— Mas hoje eu faço a autópsia, por razões de pesquisa pessoal.

O sr. Kutchner compreende, está feliz em cooperar, se isso significar que um dia nenhuma outra mulher vai morrer dessa forma.

Ele segura uma estaca em uma das mãos e uma marreta na outra.

Rudy começa a chorar.

Max sentiu que estava tendo uma experiência extracorpórea.

Seu corpo deu um passo adiante sem ele dentro enquanto, ao mesmo tempo, permaneceu ao lado de Rudy, o braço sobre os ombros trêmulos do irmão.

— Por favor, quero voltar lá para cima — dizia seu irmão.

Max observou a si mesmo caminhando, desajeitado, até o pai, que o encarava com uma expressão que era um misto de curiosidade e certa apreciação silenciosa.

Ele entregou a marreta para o filho, e aquilo o trouxe de volta.

Max retornara para o próprio corpo, consciente do peso do objeto puxando seu pulso para baixo. O pai pegou a outra mão do filho e a levantou, levando-a até os seios magros da sra. Kutchner. Abraham pressionou os dedos do filho em um ponto entre duas costelas, e Max olhou para o rosto da mulher morta. Sua boca estava aberta, como se estivesse prestes a dizer Está me diagnosticando, Max van Helsing?

— Aqui — falou o pai, colocando a estaca na mão do filho. —

Você enfia bem aqui. Até a empunhadura. Em um caso real, o primeiro golpe será seguido de gemidos, impropérios, uma tentativa desesperada de fugir. Os malditos nunca vão sem lutar. Aguente.

Não desista até tê-la empalado e ela ter abandonado qualquer esforço contra você. Vai acabar logo.

Max ergueu a marreta. Olhou para o rosto da sra. Kutchner e desejou poder lhe dizer que sentia muito, que não queria fazer aquilo. Quando baixou a marreta, produzindo um som ecoante, ouviu um grito agudo e penetrante, e quase chegou a gritar também, achando, por um segundo, que fora ela, de alguma forma ainda viva; e então percebeu que havia sido Rudy. O corpo de Max era forte, com seu peito de búfalo e ombros de fazendeiro holandês.

Com o primeiro golpe, afundara dois terços da estaca. Precisava de apenas outra pancada da marreta. O sangue que escorria ao redor da madeira era frio e tinha uma consistência pegajosa, viscosa.

Max tremeu, a cabeça tonta. O pai o pegou.

— Goot — sussurrou Abraham no ouvido de Max, os braços envolvendo o filho, apertando-o tão forte que suas costelas estalaram. O garoto sentiu um arrepio de prazer, uma reação automática à afeição intensa e inequívoca do abraço do pai, e ficou enojado. — Causar tamanha ofensa à casa do espírito humano, mesmo depois de seu habitante ter partido, não é tarefa fácil, eu sei.

Seu pai continuava o segurando. Max encarou a boca aberta da sra. Kutchner, a delicada fileira dos dentes superiores, e se lembrou da moça no calótipo, da bola de alho enfiada em sua boca.

— As presas dela onde estavam? — disse Max.

— Hm? De quem? O quê? — perguntou o pai.

— Na fotografia daquela que você matou — respondeu Max, virando o rosto para encarar o pai. — Não tinha presas.

O pai o observou de volta com os olhos vazios, sem compreender. Então falou:

— Elas desaparecem depois que o vampiro morre. Puf.

Abraham libertou o filho, e Max voltou a respirar normalmente.

— Ainda resta uma coisa — esclareceu o homem. — A cabeça deve ser removida e alho deve ser colocado na garganta. Rudolf!

Max virou o rosto devagar. O pai dera um passo. Segurava uma machadinha. Max não sabia de onde ela havia saído. Rudy estava na escada, a três degraus do piso, encostado na parede, o punho esquerdo tapando a boca para abafar os gritos. O menino balançava a cabeça para a frente e para trás sem parar.

Max pegou a machadinha, agarrou-a pelo cabo.

— Eu faço. — E ele faria, tinha certeza. Via agora que sempre tivera aquilo em si: a vontade brusca do pai de furar carne e trabalhar com sangue. Viu claramente e com uma espécie de desgosto.

— Não — respondeu o pai, puxando a machadinha e empurrando o filho. Max bateu na mesa e algumas estacas rolaram até o chão sujo. — Pegue-as.

Rudy correu, mas escorregou nos degraus, caindo de gatinhas e batendo com os joelhos no chão. O pai agarrou seu cabelo e o levou até a mesa, jogando-o de barriga no piso com um ruído seco. O filho rolou e, quando falou, sua voz estava irreconhecível:

— Por favor! — gritou. — Por favor, não! Estou com medo. Por favor, pai, não me obrigue a fazer isso!

Com a marreta em uma das mãos e meia dúzias de estacas na outra, Max deu um passo à frente, pensou em intervir, mas seu pai girou o corpo, agarrou o cotovelo dele e o empurrou até a escada.

— Levante. Agora. — E o empurrou outra vez enquanto falava.

Max caiu nos degraus, machucando uma das canelas.

O pai se dobrou para pegar Rudy, mas o filho mais novo escapou, se arrastando pela poeira até um canto distante do porão.

— Venha. Eu ajudo você — falou o pai. — É bem frágil, o pescoço dela. Não vai demorar muito.

Rudy balançou a cabeça, se afundando ainda mais no canto perto do monte de carvão.

O pai lançou a machadinha no chão.

— Então vai ficar aqui até chegar a um estado de espírito mais complacente.

Ele se virou, pegou o braço de Max e o puxou até o último degrau.

— Não! — esbravejou Rudy, se levantando e correndo até a escada.

No entanto, o cabo da machadinha ficou no caminho e Rudy tropeçou, caindo de joelhos. Conseguiu se levantar, mas, àquela altura, seu pai empurrou Max pela porta do porão, seguiu-o logo atrás e, por fim, fechou a passagem com força. Rudy chegou ao outro lado um segundo depois, quando o pai girava a chave prateada na fechadura.

— Por favor! — berrou Rudy. — Estou com medo! Com medo!

Quero sair daqui!

Max estava na cozinha, os ouvidos zumbindo. Queria mandar o pai parar com aquilo, abrir a porta, mas não conseguia colocar as palavras para fora, sentiu sua garganta se fechando. Os braços continuavam dependurados, as mãos pesadas, como se feitas de chumbo. Não, não de chumbo. Estavam pesadas por causa dos objetos que seguravam. A marreta. As estacas.

O pai ofegava, a testa larga repousando na porta fechada.

Quando enfim se afastou dela, o cabelo estava bagunçado, o colarinho se abrira.