O Telefone Preto e Outras Histórias

Joe Hill · Capítulo 3 de 16

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O Telefone Preto e Outras Histórias

Fantasma do século XX

No entanto, conforme seguia, sempre ganhando velocidade até que cada salto parecesse cobrir vários metros de escuridão, Carroll sentiu uma emoção que o deixava zonzo, uma sensação que poderia ser pânico, mas parecia estranhamente com júbilo. Era como se, a qualquer momento, seus pés deixariam o chão e nunca mais voltariam. Ele conhecia aquela floresta, aquelas sombras, aquela noite. Sabia que suas chances não eram boas. Sabia o que estava atrás dele. Estivera atrás dele durante sua vida inteira. Sabia onde estava — em uma história prestes a revelar seu fim. Sabia melhor que ninguém como elas acabavam e, se havia alguém que podia encontrar uma maneira de sair daquela mata, era ele.

FANTASMA DO SÉCULO XX

O MELHOR MOMENTO PARA vê-la é quando a casa está quase cheia.

Tem uma história muito conhecida de um homem que chega para a última sessão e entra na sala de cinema de seiscentos lugares praticamente vazia. No meio do filme, ele olha ao redor e a vê sentada ao seu lado, em um assento que, poucos segundos antes, estava vago. Ele a observa. Ela se vira e o encara. Seu nariz está sangrando. Os olhos estão arregalados, aflitos. Minha cabeça dói , sussurra ela. Preciso sair por um instante. Pode me dizer depois o que perdi? É nesse momento que o homem percebe que ela é tão incorpórea quanto o inquieto raio de luz azulado lançado pelo projetor. É possível ver o assento através do seu corpo. Conforme se levanta, ela desaparece.

E também tem aquela história sobre um grupo de amigos que vai ao Rosebud em uma noite de quinta-feira. Um deles se senta ao lado de uma mulher desacompanhada, uma mulher trajando azul.

Como o filme ainda não começou, o rapaz decide puxar papo. Que filme vai passar amanhã? , pergunta ele. Amanhã o cinema vai estar às escuras , sussurra ela. Hoje é a última sessão. Pouco depois do filme começar, ela desaparece. Dirigindo de volta para casa, o jovem que falou com ela morre em um acidente de carro.

Essas, assim como muitas outras lendas do Rosebud, são falsas… histórias fantasmagóricas de pessoas que assistiram a filmes de terror demais e que pensam saber exatamente como deve ser uma história de fantasmas.

Alec Sheldon, uma das primeiras pessoas a ver Imogene Gilchrist, é dono do Rosebud, e, aos 73 anos, ainda opera o projetor na maioria das noites. Ele sempre consegue perceber, após falar com alguém por apenas alguns segundos, se a pessoa realmente a viu ou não, mas mantém para si essa informação e nunca desmente a história de ninguém… isso seria péssimo para os negócios.

No entanto, ele sabe que qualquer um que diga que conseguiu enxergar através dela nunca a encontrou de fato. Os mais criativos falam do sangue que jorra do nariz, das orelhas, dos olhos; dizem que ela os encara com o olhar suplicante e pede para que encontrem alguém, que tragam ajuda. Mas ela não sangra dessa maneira, e, quando fala, não é para pedir por um médico. Um monte de fingidos começa suas histórias dizendo: Você não vai acreditar no que acabei de ver . E eles têm razão. Ele realmente não vai acreditar, mas ouve tudo que vão lhe dizer com um sorriso paciente, até encorajador.

Aqueles que a viram não vão procurar Alec para contar sobre o ocorrido. É mais comum que ele os encontre, atravesse o caminho desses indivíduos, que andam pelo saguão com as pernas tremendo. Eles passaram por um choque terrível, não se sentem bem. Precisam se sentar por um tempo. Jamais falam Você não vai acreditar no que acabei de ver . A experiência ainda é recente demais. A ideia de que alguém não vá acreditar neles só lhes ocorrerá mais tarde. Com frequência, estão em um estado que pode ser descrito apenas como subjugado, submisso. Quando Alec pensa no efeito que ela causa sobre aqueles que a encontram, lembra-se de Steven Greenberg saindo da sessão de Os pássaros em uma tarde fresca de domingo, em 1963. Steve tinha apenas doze anos, e ainda ia demorar outros doze para ficar famoso; na época, ele não era um astro em ascensão, era só um menino.

Alec fumava um cigarro no beco atrás do Rosebud quando ouviu a porta da saída de emergência abrir às suas costas. Virou-se e viu um garoto magricela apoiado no batente — parado lá, sem entrar nem sair. O menino apertou os olhos sob o sol forte e claro, com o olhar confuso e perplexo de uma criança pequena que foi acordada de repente de um sono profundo. Às costas dele, Alec viu uma escuridão preenchida pelos chiados esganiçados de mil pardais.

Além disso, conseguiu ouvir também algumas poucas pessoas na plateia se mexendo, inquietas, começando a reclamar.

Ei, garoto, para fora ou para dentro? , disse Alec. Está deixando a luz entrar.

O menino — Alec ainda não sabia o nome dele — girou a cabeça e observou o cinema por um longo tempo, procurando.

Então deu um passo para o beco, e a porta se fechou devagar atrás dele, devido às dobradiças pneumáticas. E mesmo assim ele continuou ali, sem dizer nada. O cinema estava exibindo Os pássaros havia duas semanas, e embora Alec tivesse visto outros abandonarem o filme antes do fim da sessão, nenhuma dessas saídas antecipadas fora feita por meninos de doze anos. Era o tipo de filme que a maioria dos garotos esperava o ano todo para ver, mas, enfim, nunca se sabe. Talvez o estômago dele fosse fraco.

Deixei a minha Coca lá dentro , falou ele, a voz distante, quase monótona. Ainda tinha um bocado.

Quer voltar para dar uma olhada?

Não. O garoto ergueu os olhos e lançou uma clara expressão de susto. E então Alec soube.

O homem terminou o cigarro e jogou a guimba fora.

Sentei ao lado de uma mulher morta , falou o menino de repente.

Alec assentiu.

Ela conversou comigo.

O que ela disse?

Alec observou o garoto de novo, e viu o menino encará-lo com olhos que agora estavam esbugalhados de descrença.

Ela disse que precisava conversar com alguém. Que quando fica animada com um filme, precisa conversar.

Alec sabe que, nos momentos em que ela aparece para alguém, só quer falar sobre os filmes. Em geral, se dirige apenas a homens, embora às vezes possa se sentar e conversar com uma mulher —

especificamente, Lois Weisel. Alec estava desenvolvendo uma teoria sobre o que pode fazê-la surgir. Mantém as anotações em um bloco de folhas amarelas. Sua lista inclui as pessoas a quem ela se revelou, em que filme e o ano (Leland King, Ensina-me a viver , 1972; Joel Harlowe, Eraserhead , 1977; Hal Lash, Gosto de sangue , 1985; e vários outros). Com o tempo, ele desenvolveu ideias bem claras sobre as condições mais propensas a fazê-la aparecer, embora detalhes específicos de sua teoria sejam constantemente revistos.

Durante a juventude de Alec, pensamentos sobre Imogene estavam sempre em sua mente ou fervilhando logo abaixo da superfície; ela foi a sua primeira e mais forte obsessão. Então, por

um tempo, ele a deixou de lado — quando o cinema ia bem e ele era um empresário importante na comunidade, na câmara de comércio, no conselho de planejamento da cidade. Naquela época, Alec passava semanas sem pensar nela, mas então alguém a via, ou dizia que a tinha visto, e tudo recomeçava.

No entanto, após o divórcio — ela ficou com a casa, ele se mudou para a quitinete no porão do cinema — e logo depois da inauguração do multiplex de oito salas no outro lado da cidade, Alec voltou a ficar obcecado, menos por Imogene e mais pelo cinema em si (no entanto, existe alguma diferença? Na verdade, não, supõe ele, os pensamentos sobre um sempre levam a pensamentos sobre o outro). Ele nunca imaginou que ficaria tão velho e estaria devendo tanto dinheiro. Tinha dificuldade para dormir, a cabeça cheia de ideias — ideias loucas, desesperadas — sobre como manter o Rosebud aberto. Rendimentos, quadro de funcionários e coisas que podiam ser vendidas o mantinham acordado. E quando não conseguia mais pensar em dinheiro, tentava imaginar para onde iria se o cinema fechasse. Visualizava um asilo, os colchões cheirando a pomada analgésica, velhotes corcundas com as dentaduras de fora sentados em uma sala bolorenta assistindo a sitcoms na televisão; via um lugar em que desapareceria sem apresentar resistência, como um papel de parede que pega muita luz e vai perdendo a cor aos poucos.

Aquilo era ruim. Mas era ainda pior quando imaginava o que aconteceria com ela se o Rosebud fechasse. Ele via a sala com os assentos arrancados, um espaço vazio e ecoante, montinhos de poeira nos cantos, pedaços petrificados de chicletes grudados no concreto. Os adolescentes da vizinhança invadiriam o local para beber e trepar; ele via garrafas de bebida espalhadas pelo chão, pichações horríveis nas paredes, uma única e grotesca camisinha usada e descartada em frente à tela. Via o lugar solitário e violado em que ela desapareceria.

Ou não desapareceria… o pior pensamento de todos.

ALEC A VIU — falou com ela — pela primeira vez quando tinha quinze anos, seis dias depois de descobrir que o irmão mais velho morrera no sul do Pacífico. O presidente Truman enviara uma carta em que expressava suas condolências. O texto era padrão, mas a assinatura ao final era a letra dele mesmo. Alec ainda não chorara.

Anos depois, entendeu que tinha passado aquela semana em choque, que havia perdido a pessoa que mais amava no mundo e que aquilo o traumatizara muito. Mas, em 1945, ninguém usava a palavra “trauma” para falar sobre suas emoções, apenas para falar dos traumas de guerra.

Toda manhã, ele dizia para a mãe que estava indo à escola. Ele não estava indo à escola. Ficava perambulando pelo centro da cidade procurando confusão. Roubou barras de chocolate de uma mercearia e as devorou na fábrica de sapatos vazia — o lugar tinha fechado, todos os homens estavam na França ou no Pacífico. Com o açúcar correndo pelas veias, jogou pedras nas janelas, tentando melhorar seus arremessos de bola rápida.

Passou pelo beco atrás do Rosebud e viu que a saída de emergência do cinema não estava completamente fechada. O lado da porta que dava para o beco era uma superfície de metal lisa, sem maçaneta, mas ele conseguiu abri-la com as unhas. Entrou na sessão das 15h30 e o lugar estava cheio, sobretudo de crianças com menos de dez anos, acompanhadas de suas mães. A saída de emergência ficava no meio da sala, em uma reentrância escura na parede. Ninguém o viu entrar. Ele subiu o corredor e encontrou um assento no fundo.

— Ouvi dizer que Jimmy Stewart foi para o Pacífico — disse seu irmão quando estava em casa de licença, antes de ser mandado para o exterior. Os dois jogavam bola no quintal. — Nesse instante, o sr. Smith deve estar bombardeando sem parar a porra de Tóquio.

Que pensamento doido, não é? — O irmão de Alec, Ray, descrevia a si mesmo como louco por filmes. Ele e Alec foram ver todas as estreias daquele mês de licença: A patrulha Bataan, Romance dos sete mares, O bom pastor.

O filme em si ainda não tinha começado, e Alec esperou pelo fim de um dos episódios de uma série sobre as aventuras de um caubói cantor com cílios longos e uma boca tão escura que seus lábios pareciam pretos. Aquilo não prendeu a sua atenção. Tirou uma meleca e pensou em alguma maneira de conseguir uma Coca sem ter que pagar. Enfim, a atração principal começou.

No início, o garoto não conseguiu entender que diabo de filme era aquele, embora tivesse a impressão de que se tratasse de um musical. Primeiro, os membros de uma orquestra subiram em um palco com um fundo azul sem graça. Aí um sujeito engomadinho apareceu e explicou o tipo de entretenimento novinho em folha que o público estava prestes a assistir. Quando começou a tagarelar sobre Walt Disney e seus artistas, Alec foi escorregando na poltrona, a cabeça se afundando entre os ombros. A orquestra explodiu em grandes rajadas dramáticas de cordas e sopros. Pouco tempo depois, seus piores medos se concretizaram. Não era só um musical, era também um desenho animado. É claro que era um desenho animado, ele deveria ter percebido — o lugar lotado de criancinhas e mães, uma sessão das 15h30 no meio da semana que abria com um episódio de O vaqueiro de batom, o cantor maricas das Altas Planícies.

Depois de um tempo, ele levantou a cabeça, olhou para a tela através dos dedos e viu uma animação abstrata: gotas de chuva prateadas contra um fundo de fumaça rodopiante, raios de luz brilhante cintilando em um céu cinzento. Sentou-se direito para ver o filme em uma posição mais confortável. Não sabia ao certo o que sentia. Estava entediado, mas também interessado, quase um pouco encantado. Teria sido difícil não assistir àquilo. As imagens o atacavam de uma maneira rítmica e hipnótica: faixas de luz vermelha, estrelas giratórias, reinos de nuvens reluzindo na resplandecência carmesim de um sol poente.

As crianças estavam inquietas nas poltronas. Alec ouviu uma menina murmurar:

— Mãe, quando o Mickey vai aparecer? — Para elas, aquilo era como estar na escola.

Porém, quando o filme passou para o segmento seguinte, a orquestra mudando de Bach para Tchaikovsky, Alec estava esticadinho na poltrona, até mesmo um pouco inclinado para a frente, seus antebraços apoiados nos joelhos. Ele via fadas esvoaçando por uma floresta escura, tocando flores e teias de aranha com suas varinhas mágicas e espalhando gotas de orvalho luzidio e incandescente. Sentiu um tipo de admiração perplexa ao observá-las voando por aí, uma sensação curiosa de anseio. De

repente, teve a sensação de que poderia ficar sentado ali assistindo àquele filme para sempre.

— Eu poderia ficar sentada neste cinema para sempre —

sussurrou alguém ao lado dele, uma voz feminina. — Apenas sentada aqui, assistindo ao filme, e nunca mais ir embora.

Alec pensou que não havia uma pessoa sentada ao lado dele e deu um pulo ao ouvir uma voz tão próxima. Ele achava — não, tinha certeza — que, quando se sentara, as poltronas em ambos os lados estavam vagas. Ele se virou.

Ela era apenas alguns anos mais velha do que ele, não podia ter mais de vinte, e seu primeiro pensamento foi que a moça era bem bonitinha; seu coração bateu um pouco mais rápido por ter uma garota como aquela falando com ele. Alec já estava pensando: Não estrague tudo. Ela não o encarava. Observava a tela e sorria de uma maneira que parecia expressar tanto admiração quanto o espanto perplexo de uma criança. Alec queria falar algo inteligente, mas sua voz ficou entalada na garganta.

Ela se inclinou para ele sem tirar os olhos da tela, a mão esquerda tocando de leve a lateral do seu braço no apoio da poltrona.

— Desculpa ter incomodado você — sussurrou. — Quando fico animada com um filme, preciso conversar. Não consigo me segurar.

No instante seguinte, Alec ficou consciente de duas coisas quase ao mesmo tempo. A primeira era que a mão encostada no seu braço estava gelada. Mesmo com o casaco, ele sentia a frieza mortal dela, um frio tão palpável que o assustou um pouco. A segunda coisa que notou foi uma única gota de sangue no lábio superior dela, abaixo da narina esquerda.

— Seu nariz está sangrando — falou ele alto demais.

E, na mesma hora, se arrependeu do que disse. Só se tem uma oportunidade para impressionar uma garota como aquela. Devia ter pego algo para ela limpar o nariz, murmurando algo bem Sinatra: Você está sangrando aqui. Enfiou as mãos nos bolsos, procurando por qualquer coisa que pudesse ser usada para limpar o nariz. Não tinha nada.

Mas ela pareceu não ter ouvido, não parecia estar minimamente consciente de que Alec falara. Sem pensar, a moça passou as

costas da mão debaixo do nariz, deixando uma mancha escura de sangue em cima da boca… e Alec congelou com as mãos nos bolsos, olhando para ela. Foi a primeira vez que percebeu que havia algo de errado com a garota sentada ao seu lado, algo um pouco estranho na cena que se desenrolava entre os dois. Como que por instinto, ele ajeitou as costas e se afastou alguns centímetros, sem nem perceber que fazia isso.

Ela riu de alguma coisa do filme, a voz baixa, sem fôlego. Então, se inclinou na direção dele e sussurrou:

— Isso não é para crianças. Harry Parcells adora este cinema, mas só passa os filmes errados… Harry Parcells, o dono deste lugar, sabe?

Havia sangue novo descendo da narina esquerda dela até os lábios, mas, àquela altura, a atenção de Alec tinha se voltado para outra coisa. Os dois estavam sentados bem embaixo do feixe luminoso do projetor, e havia mariposas e outros insetos rodopiando na coluna de luz azulada acima. Uma mariposa branca pousara no rosto dela. Estava andando na sua bochecha. Ela não notou, e Alec não mencionou nada. Não havia ar suficiente em seus pulmões para falar.

Ela murmurou:

— Harry acha que as crianças vão gostar só porque é um desenho. Engraçado como ele assiste a tantos filmes e sabe tão pouco sobre eles. Ele não vai ser dono disto aqui por muito mais tempo.

A garota olhou para ele e sorriu. Sangue manchava os seus dentes. Alec não conseguia se levantar. Uma segunda mariposa, branca como marfim, pousou dentro da delicada curva da orelha.

— Seu irmão Ray teria adorado esse — falou ela.

— Vá embora — murmurou Alec com a voz rouca.

— Você pertence a este lugar, Alec. Pertence a este lugar aqui, comigo.

O garoto enfim conseguiu se mexer, pulando para fora da poltrona. A primeira mariposa estava entrando no cabelo dela. Alec pensou ter ouvido o próprio gemido, bem de leve. Começou a se afastar. A garota continuava olhando para ele. Alec recuou alguns passos na fileira e bateu nas pernas de um menino, que soltou um

grito. O jovem afastou o olhar dela por um instante para ver o menino gordo com uma camiseta listrada que o encarava: Olha por onde anda, babaca.

Alec voltou a observá-la. Agora, a moça estava afundada no assento, a cabeça tombada em cima do ombro esquerdo, as pernas obscenamente abertas. Havia linhas grossas de sangue seco e encrostado saindo das narinas e envolvendo os lábios finos. Os olhos estavam revirados. No colo, havia um saco de pipoca de cabeça para baixo.

Ele pensou que ia gritar. Não gritou. Ela estava perfeitamente parada. Então, Alec olhou dela para o menino em que quase tropeçou. O garoto gordo relanceou na direção da adolescente morta e não reagiu. Voltou a observar Alec com os olhos questionadores, um canto da boca levantando em um sorriso zombeteiro.

— Rapazinho — disse uma mulher, a mãe do menino gordo —, pode sair da frente, por favor? Estamos tentando ver o filme.

Alec lançou outro olhar na direção da garota morta, mas agora a poltrona que ela ocupara estava vazia, o assento levantado.

Começou a recuar, batendo em joelhos, quase caindo uma vez, segurando em alguém para se apoiar. Então, de repente, a sala irrompeu em aplausos e comemorações. O coração de Alec parou.

Ele berrou e observou loucamente em volta. Lá na tela, o Mickey usava um robe vermelho e grandão — o ratinho enfim havia aparecido.

Ele saiu da fileira de poltronas e empurrou as portas duplas de couro acolchoado que levavam até a entrada. A luz do fim da tarde o fez parar e apertar bem os olhos. Sentia-se enjoado. Então, de repente, alguém estava segurando o ombro dele, fazendo-o virar e caminhar pelo salão até a escada que levava ao mezanino. Alec se jogou no primeiro degrau.

— Descanse um pouco — disse a pessoa. — Não se levante.

Recupere o fôlego. Acha que vai vomitar?

Alec balançou a cabeça.

— Porque se acha que vai vomitar, segure um pouco até eu conseguir trazer um saco para você. Não é fácil tirar manchas desse

carpete. Além disso, quando sentem cheiro de vômito, as pessoas perdem a vontade de comer pipoca.

O indivíduo que falava com ele, quem quer que fosse, ficou ao seu lado por mais um instante e depois, sem dizer nada, virou-se e se afastou. Voltou mais ou menos um minuto depois.

— Aqui. Por conta da casa. Beba devagar. O gás vai melhorar o seu estômago.

Alec pegou um copo de papel que suava gotas de água fria, colocou o canudo na boca e bebeu um gole de Coca gelada borbulhante. Olhou para cima. O homem na frente dele era alto, com os ombros caídos e um pneuzinho na barriga. Seu cabelo escuro e arrepiado era curto, e seus olhos, atrás de óculos absurdamente grossos, eram pequenos, pálidos e inquietos.

Alec falou:

— Tem uma garota morta lá dentro. — Não reconheceu a própria voz.

A cor desapareceu do rosto do homem e ele lançou um olhar insatisfeito para as portas do cinema.

— Ela nunca tinha aparecido em uma matinê antes. Achei…

achei que era só nas sessões noturnas… Meu Deus do céu, é um filme infantil. Ela está tentando me arruinar?

Alec abriu a boca sem saber o que dizer, alguma coisa sobre a garota morta, mas o que saiu foi:

— Na verdade, não é exatamente um filme infantil.

O homem grande olhou para ele de forma um pouco contrariada.

— Claro que é. É do Walt Disney.

Alec o encarou por um bom tempo, e então falou:

— Você deve ser Harry Parcells.

— Sim. Como sabe?

— Só um chute — respondeu Alec. — Obrigado pela Coca.

ALEC SEGUIU HARRY PARCELLS por trás do balcão e depois por uma porta até chegarem a um cômodo com uma escada. Harry abriu outra porta à direita, e os dois entraram em um escritório pequeno e bagunçado. Havia latas de filmes por todo o chão.

Pôsteres desbotados cobriam as paredes, se sobrepondo uns aos

outros em alguns lugares: Com os braços abertos, David Copperfield, … E o vento levou.

— Desculpe por ela ter assustado você — falou Harry, se jogando na cadeira atrás da escrivaninha. — Tem certeza de que está bem? Parece meio pálido.

— Quem é ela?

— Alguma coisa estourou no cérebro dela — disse ele, apontando um dedo para a têmpora esquerda como se apontasse um arma para a própria cabeça. — Seis anos atrás. Durante O

mágico de Oz. Na primeiríssima sessão. Foi uma coisa horrível. Ela vinha aqui o tempo todo. Era a minha cliente mais fiel. A gente conversava, brincava um com o outro… — A voz dele foi desaparecendo, confusa e distraída. O homem apertou as mãos sobre o tampo da mesa na frente dele e falou, por fim: — Agora, está querendo me levar à falência.

— Já se encontrou com ela. — Não era uma pergunta.

Harry assentiu.

— Alguns meses depois de ela morrer. Ela me disse que aqui não é o meu lugar. Não sei por que está tentando me assustar, a gente se dava tão bem. Ela mandou você sair de lá?

— Por que ela está aqui? — falou Alec.

Sua voz ainda estava rouca, e era uma pergunta estranhamente gentil para ser feita. Por um tempo, Harry apenas o observou através dos óculos grossos com o que parecia ser total incompreensão.

Então ele balançou a cabeça e respondeu:

— Ela está infeliz. Morreu antes do filme acabar e ainda se sente triste em relação a isso. Eu entendo. É um filme muito bom.

Também teria me sentido roubado.

— Oi? — gritou alguém do saguão. — Tem alguém aí?

— Só um minuto! — berrou Harry em resposta. Ele encarou Alec com um olhar sofrido. — Minha balconista pediu demissão ontem.

Sem nenhum aviso ou qualquer coisa do tipo.

— Foi a fantasma?

— Deus, não. Uma das unhas postiças dela caiu na comida de alguém, então falei que não podia mais usá-las. Ninguém quer morder uma unha no meio da pipoca. Ela me respondeu que um

monte de amigos dela vinham aqui, e que se não pudesse usar as unhas, não ia mais trabalhar. Então, agora tenho que fazer tudo sozinho. — Enquanto falava, Harry deu a volta na escrivaninha.

Tinha algo na mão, um recorte de jornal. — Aqui tem mais coisa sobre ela. — E então ele lançou um olhar a Alec. Não era uma reprimenda, mas havia um toque de advertência enfadonha ali. O

homem acrescentou: — Não saia daqui. Ainda temos que conversar.

Ele deixou o escritório e Alec o observou, imaginando o significado daquele último e estranho olhar. Voltou sua atenção para o recorte de jornal. Era um obituário — o obituário dela. O papel estava dobrado, as pontas amassadas, a tinta esbranquiçada; parecia que já tinha passado por muitas mãos. O nome da moça era Imogene Gilchrist, tinha morrido aos dezenove anos, trabalhava na papelaria da Water Street. Deixou os pais, Colm e Mary. Os amigos e a família falaram sobre sua bela risada, seu senso de humor contagiante. E sobre como ela amava filmes. Assistia a todos na primeira sessão do dia de estreia. Conseguia recitar o elenco inteiro de praticamente qualquer produção que se mencionasse, quase uma brincadeira para impressionar os convidados de uma festa —

ela se lembrava até dos nomes dos atores que tinham uma única fala. Era presidente do clube de teatro e atuava em todas as peças, preparava os cenários, fazia a iluminação. “Sempre achei que ela seria uma estrela de cinema”, disse seu professor de teatro. “Era muito bonita e tinha aquela risada. Bastava alguém ter apontado uma câmera para ela que Imogene seria famosa.”

Quando Alec terminou de ler, olhou ao redor. O escritório ainda estava vazio. Encarou outra vez o obituário, esfregando um canto do recorte com o dedão e o indicador. A injustiça daquilo o enjoava, e, por um segundo, sentiu uma pressão na parte de trás dos olhos, um formigamento, e teve o pensamento ridículo de que poderia começar a chorar. Era horrível perceber que vivia em um mundo em que uma garota de dezenove anos, cheia de vida e risadas, podia ser morta daquela maneira, sem nenhum motivo. Mas a intensidade do seu sentimento não fazia sentido, considerando que não conhecera Imogene quando estava viva; não fazia sentido até se lembrar de Ray, da carta de Harry Truman para sua mãe, das palavras morreu com bravura, defendendo a liberdade, os Estados Unidos têm orgulho dele. Pensou em como Ray o levara para assistir a Romance dos sete mares ali mesmo naquele cinema, e eles se sentaram juntos com os pés apoiados nas cadeiras da frente, os ombros se tocando.

— Olha só o John Wayne — falou Ray. — Deve ter um bombardeiro para levar ele e outro para levar os seus colhões.

O formigamento nos olhos de Alec estava tão forte que ele não conseguia mais aguentar, e seu peito doía ao respirar. Ele esfregou o nariz úmido e se esforçou para chorar o mais silenciosamente possível.

Limpou o rosto com a bainha da camisa, colocou o obituário sobre a escrivaninha de Harry Parcells e observou o entorno. Viu os pôsteres e as latas de aço empilhadas. Havia um pedaço curvado de película no canto da sala, mais ou menos oito frames — Alec se perguntou de que filme seria —, e o pegou para fazer uma inspeção mais próxima. Viu uma garota fechando os olhos e erguendo o rosto em uma série de pequenos movimentos para beijar o homem que a abraçava, entregando-se a ele. Alec queria ser beijado assim algum dia. Sentiu uma animação curiosa por estar segurando um pedaço de um filme. Por impulso, enfiou a película no bolso.

Saiu do escritório e voltou para o cômodo com a escada. Deu uma espiada no saguão. Esperava ver Harry atrás do balcão atendendo um cliente, mas não havia ninguém lá. O garoto titubeou, perguntando-se onde o homem fora parar. Enquanto pensava nisso, ouviu um zumbido baixinho vindo do topo da escada. Olhou para cima e então percebeu — o projetor. Harry estava trocando os carretéis de filme.

Alec subiu os degraus e entrou na saleta do projetor, um espaço pequeno e escuro com o pé-direito baixo. Um par de janelas quadradas dava para a sala de cinema lá embaixo. O próprio projetor estava apontado para uma delas, uma máquina enorme de aço inoxidável escovado com a palavra

estampada na

lateral. Sentado ao seu lado, inclinado para a frente, Harry Parcells olhava através da mesma janela pela qual o projetor lançava seu raio de luz. Tinha ouvido Alec se aproximando e lançou um olhar rápido ao garoto. O menino pensou que seria enxotado, mas Harry

não disse nada, apenas assentiu e voltou à sua vigília silenciosa do cinema.

Alec foi até o vitaphone, escolhendo com cuidado um caminho na escuridão. Havia uma janela à esquerda do projetor pela qual era possível ver o cinema. O garoto a encarou por um longo tempo, sem saber ao certo se seria audacioso o suficiente, e então colocou a cara perto do vidro e deu uma olhada na sala escura abaixo.

Estava iluminada por um azul-escuro profundo da imagem na tela: novamente, o maestro com a silhueta da orquestra. O

apresentador introduzia o próximo segmento. Alec baixou os olhos e observou as fileiras de poltronas com atenção. Não foi difícil encontrar onde estivera sentado, um punhado de assentos vagos no fundo, à direita. De certa forma, esperava ver a garota lá, jogada na poltrona, o rosto apontando para o teto e sangue por toda parte —

os olhos talvez voltados para ele. O pensamento de vê-la o encheu de medo e de um estranho júbilo nervoso, e quando percebeu que ela não estava lá, ficou um pouco surpreso com o próprio desapontamento.

A música começou: no início, o guincho oscilante dos violinos aumentando e diminuindo em ondas, e então uma série de explosões ameaçadoras dos instrumentos de sopro, sons de uma natureza quase militar. O olhar de Alec foi outra vez para a tela — e permaneceu lá. Ele sentiu um arrepio percorrer o corpo. Seus antebraços formigavam com um calafrio. Na tela, os mortos se levantavam dos túmulos, um exército de espectros brancos e diáfanos se lançando fora da terra para a noite acima. Um demônio de ombros largos, acocorado no topo de uma montanha, os chamava. As almas iam até ele, suas mortalhas claras e esfarrapadas flutuando em torno dos corpos esqueléticos, os rostos angustiados, miseráveis. Alec prendeu a respiração, assistindo àquilo com um sentimento crescente que misturava choque e admiração.

O demônio abriu uma fenda na montanha e revelou o Inferno.

Chamas se ergueram, os Amaldiçoados pulando e dançando, e Alec soube que aquilo era sobre a guerra. Era sobre o seu irmão morto a troco de nada no sul do Pacífico, os Estados Unidos têm orgulho dele, sobre corpos danificados além de qualquer possibilidade de

cura, cadáveres boiando de um lado para outro enquanto rolavam até a rebentação de uma praia em algum lugar do Extremo Oriente, encharcados, inchados. Era sobre Imogene Gilchrist, que amava filmes e morreu com as pernas abertas e o cérebro túrgido de sangue, ela tinha dezenove anos, seus pais eram Colm e Mary. Era sobre jovens, jovens corpos saudáveis, com um monte de buracos e a vida escapando deles em gotas arteriais, nem um único sonho realizado, nem uma única ambição alcançada. Era sobre jovens que amaram e foram amados, que se foram e não voltariam mais, e as patéticas lembranças que marcavam sua partida, vocês estarão em minhas preces hoje, Harry Truman e Sempre achei que ela seria uma estrela de cinema.

O sino de uma igreja tocou em algum lugar ao longe. Alec olhou para cima. Era o filme. Os mortos começaram a sumir. O demônio bronco e forte se cobriu com as vastas asas escuras afastando o rosto do sol que nascia. Uma fileira de homens usando hábitos se movia pela terra, carregando lanternas que brilhavam de leve. A música se movia em um pulsar suave. O céu era de um azul gelado e cintilante, a aurora se espalhava pelos galhos das bétulas e dos pinheiros. Alec assistiu ao filme com um sentimento de reverência religiosa até o fim.

— Gostei mais de Dumbo — falou Harry.

Ele apertou um interruptor na parede e uma lâmpada se acendeu, enchendo a sala do projetor com uma luz branca e forte. O

final da película ziguezagueou pelo vitaphone e saiu do outro lado, onde foi coletado em um dos carretéis e a ponta ficou rodando sem parar, fazendo slap, slap, slap. Harry desligou o projetor, olhou para Alec por cima da máquina.

— Você parece melhor. Não está mais tão pálido.

— Sobre o que queria conversar? — Alec se lembrou da vaga reprimenda que Harry lançou a ele quando o mandou ficar no escritório e, naquele momento, lhe ocorreu que talvez o dono do cinema soubesse que o garoto tinha entrado sem comprar um ingresso, que talvez os dois estivessem prestes a começar uma discussão.

Mas o homem disse:

— Oferecer um reembolso ou dois ingressos de graça para as sessões que você quiser. É o melhor que posso fazer.

Alec o encarou. Passou-se um bom tempo antes que pudesse responder.

— Pelo quê?

— Pelo quê? Para não falar com ninguém sobre isso. Sabe o que aconteceria com esse lugar se um boato sobre ela se espalhasse? Acho que ninguém ia querer pagar para ficar sentado no escuro com uma garota morta e tagarela.

Alec balançou a cabeça. Ficou surpreso ao constatar que Harry pensava que as pessoas evitariam o Rosebud se a notícia sobre o cinema ser assombrado se espalhasse. O garoto achava que teria o efeito contrário. Muita gente pagaria, feliz da vida, pela oportunidade de passar um pouco de medo no escuro — se não fosse assim, não haveria filmes de terror. E então o menino se lembrou do que Imogene Gilchrist dissera a ele sobre Harry Parcells: Ele não vai ser dono disso aqui por muito mais tempo.

— O que vai ser? — perguntou Harry. — Os ingressos?

Alec balançou a cabeça.

— O reembolso, então.

— Não.

Harry congelou com a mão na carteira e lançou um olhar surpreso e hostil para Alec.

— O que vai querer?

— Que tal um emprego? Você precisa de alguém para vender pipoca. Prometo não usar unhas postiças no trabalho.

Harry o encarou por um bom tempo sem responder, e aí tirou a mão do bolso traseiro devagar.

— Pode trabalhar nos fins de semana? — indagou.

EM OUTUBRO, ALEC SOUBE que Steven Greenberg tinha voltado a New Hamprshire para filmar as cenas externas do seu novo filme no terreno da Phillips Exeter Academy — alguma coisa com Tom Hanks e Haley Joel Osment, um professor incompreendido que inspirava crianças prodígio com problemas. Alec não precisa saber de mais nada para entender que Steven pode estar a caminho de

ganhar outro Oscar. Ele, no entanto, prefere seus primeiros trabalhos, as fantasias e os thrillers de suspense.

O homem pensa em ir até o local para dar uma olhada, imagina se conseguiria conversar com alguém para entrar no set — Ah, sim, conheci Steven quando ele era menino —, imagina se conseguiria falar com o próprio Steven. Mas logo descarta a ideia. Outras centenas de pessoas nessa parte da Nova Inglaterra poderiam dizer que conheceram Steven quando criança, e não é como se os dois fossem próximos. Na verdade, eles só tiveram aquela única conversa, no dia que Steven a viu. Nada antes, muito pouco depois.

Então, é surpreendente quando, em uma tarde de sexta-feira perto do fim do mês, Alec recebe uma ligação da assistente de Steven, uma mulher animada e eficiente chamada Marcia. Ela informa Alec que Steven gostaria de vê-lo e que, se ele pudesse passar no set — no domingo de manhã está bom? —, haveria uma credencial para ele no prédio principal da Phillips Exeter Academy.

Estariam aguardando Alec mais ou menos às dez horas, diz ela com a voz viva e chilreante antes de desligar. Só bem depois da conversa ele percebe que não recebeu um convite, e, sim, uma intimação.

Um assistente com cavanhaque encontra Alec no prédio principal e o leva até o set de filmagem. Alec permanece com aproximadamente trinta pessoas e observa à distância Hanks e Osment atravessando um campo verdejante cheio de folhas caídas, Hanks anuindo de forma pensativa enquanto Osment fala e gesticula. Na frente deles, há um carrinho com dois homens e um equipamento cinematográfico, além de outros dois homens puxando. Steven e um pequeno grupo de pessoas ficam ao lado, com o diretor observando a tomada em um monitor. Alec nunca esteve em um set de filmagem antes, e assiste ao trabalho daqueles profissionais do faz de conta com muito prazer.

Depois de conseguir o que quer e de falar com Hanks por alguns minutos sobre a tomada, Steven se vira para a multidão em que Alec está. Há um olhar tímido e investigativo no rosto do ator. Então, ele vê Alec e abre a boca em um sorriso que revela o espaço entre os dentes, levanta uma das mãos para acenar, por um momento, ficando bem parecido com aquele menino magricela de novo.

Steven pergunta a Alec se ele quer acompanhá-lo até o bufê para comer um chili dog e beber um refrigerante.

Steven parece ansioso durante a caminhada, mexendo nas moedas que tem no bolso e lançando olhares súbitos para Alec. O

dono do cinema sabe que ele quer conversar sobre Imogene, mas não faz ideia de como abordar o assunto. Quando enfim começa a falar, é sobre suas lembranças do Rosebud. Fala sobre como adorava o lugar, sobre todos os grandes filmes que assistiu pela primeira vez lá. Alec sorri e assente, mas secretamente fica um pouco impressionado com quanto o rapaz enganou a si mesmo.

Steven nunca mais voltou ao cinema depois de Os pássaros . Nunca assistiu no Rosebud todos os filmes que disse que viu.

Por fim, gaguejando, Steven pergunta O que vai acontecer com o cinema depois da sua aposentadoria? Não que deva se aposentar! Só quis dizer… acha que vai ficar à frente do negócio por muito tempo?

Não muito mais tempo , responde Alec — é a verdade —, mas não acrescenta mais nada. Está preocupado em não se rebaixar ao pedir esmola — embora ache que aquele tenha sido o motivo da sua ida até lá. Desde que recebeu o convite de Steven para visitar o set, vinha fantasiando que os dois conversariam sobre o Rosebud e que Steven, que é tão rico e ama tanto a sétima arte, poderia ser persuadido a jogar uma boia salva-vidas para Alec.

Os cinemas de rua são tesouros nacionais , diz Steven. Eu tenho alguns, acredite se quiser. Aproveito o efeito nostálgico deles.

Adoraria fazer algo assim com o Rosebud algum dia. É um sonho meu, sabe?

Essa é a chance dele, a oportunidade que Alec esperava, mas que não estava disposto a admitir. No entanto, em vez de contar a ele que o Rosebud está em apuros, bem perto da falência, Alec muda de assunto… no fim, não tem estômago para fazer o que precisa ser feito.

Qual é o seu próximo projeto? , pergunta Alec.

Depois disso? Estou considerando fazer um remake , responde Steven, lançando outro daqueles olhares de soslaio evasivos. Você não vai acreditar. Então, de repente, ele estica a mão e toca no

braço de Alec. Voltar a New Hampshire reacendeu algumas coisas dentro de mim. Tive um sonho com a nossa velha amiga, sabe?

Nossa velha… , diz Alec, e então percebe sobre quem ele está falando.

Sonhei que o cinema estava fechado. Tinha uma corrente nas portas dianteiras e tábuas cobrindo as janelas. Sonhei que ouvi uma garota chorando lá dentro , fala Steven, sorrindo de nervoso. Não é engraçado?

Alec dirige de volta para casa com suor frio no rosto, desconfortável. Não sabe por que não falou nada, por que não conseguiu falar; Greenberg estava praticamente implorando para dar algum dinheiro a ele. Amargo, pensa que se tornou um velho bastante tolo e inútil.

No cinema, há nove mensagens na secretária eletrônica. A primeira é de Lois Weisel, que não entrava em contato com Alec havia anos. Sua voz está frágil. Ela diz Oi, Alec, aqui é a Lois Weisel, da B.U. Como se ele pudesse esquecê-la. Lois viu Imogene em Perdidos na noite . Agora é professora universitária, dando aulas de como produzir documentários. Alec sabe que essas duas coisas estão conectadas, assim como não foi acidente Steven Greenberg ter se tornado quem é. Pode me ligar? Queria falar com você sobre… Eu só… Pode me ligar? Então ela ri, um tipo de risada estranha e assustada, e diz: Isso é loucura. A mulher exala audivelmente. Só queria saber se tem alguma coisa acontecendo com o Rosebud. Algo ruim. Então… me liga.

O próximo recado é de Dana Llewellyn, que a viu em Meu ódio será tua herança . A mensagem seguinte é de Shane Leonard, que viu Imogene em Loucuras de verão . Darren Campbell, que a viu em Cães de aluguel . Alguns mencionam o sonho, um sonho idêntico ao que Steven Greenberg descreveu, janelas fechadas com tábuas, corrente nas portas, garota chorando. Outros só dizem que querem conversar. Quando a fita da secretária eletrônica chega ao fim, Alec está sentado no chão do escritório, os punhos fechados — um velho chorando desamparadamente.

Talvez vinte pessoas tenham visto Imogene nos últimos 25 anos, e quase metade delas deixou recado pedindo para Alec retornar a ligação. A outra metade entraria em contato com ele nos próximos

dias para perguntar sobre o Rosebud, para falar do sonho. Alec vai conversar com quase todas as pessoas ainda vivas que a viram, todos com quem Imogene se sentiu compelida a falar: um professor de teatro, o gerente de uma locadora de vídeos, um financista aposentado que, durante sua juventude, escreveu críticas cinematográficas ferozes e hilariantes para o Lansdowne Record e outros jornais. Toda uma congregação de pessoas que se reunia no Rosebud em vez de na igreja aos domingos, cujas preces eram escritas por Paddy Chayefsky, cujos hinos eram compostos por John Williams e cuja intensidade de fé era um chamado irresistível para Imogene. E para o próprio Alec.

DEPOIS DA VENDA, O Rosebud permanece fechado por dois meses para renovações. Novas poltronas, sistema de som de primeira. Uma dúzia de artífices colocou andaimes e trabalhou com pequenos pincéis para restaurar o gesso rachado no teto. Steven coloca mais pessoas para cuidar das operações rotineiras. Embora o lugar agora pertença a ele, Alec concordou em ficar para cuidar das coisas por mais um tempo.

Lois Weisel vai lá três vezes por semana para filmar um documentário sobre a renovação, usando seus alunos em diversas funções: eletricistas, técnicos de som, carregadores. Steven quer dar um baile de gala na reinauguração para celebrar o passado do Rosebud. Quando Alec escuta os filmes que ele quer exibir primeiro — uma sessão dupla de O mágico de Oz e Os pássaros —, sente seus antebraços se arrepiarem, mas não diz nada.

Na noite da reinauguração, o lugar está lotado de uma forma que não se via desde Titanic . Os jornais locais estão lá para entrevistar as pessoas entrando no cinema com suas melhores roupas. Claro que Steven está presente, o motivo de tanta animação… embora Alec ache que teria conseguido vender todos os ingressos mesmo sem Steven, que as pessoas iriam ao cinema só para ver o resultado da renovação. Alec e Steven posam para fotos, os dois de smoking apertando as mãos debaixo da marquise. O smoking de Steven é um Armani, comprado especialmente para aquela ocasião.

O smoking de Alec é o mesmo que foi usado no seu casamento.

Steven se inclina sobre ele, pressionando um ombro no seu peito. O que vai fazer agora?

Antes do dinheiro de Steven, Alec estaria sentado atrás da bilheteria vendendo ingressos e depois iria lá para cima ligar o projetor. Mas o astro contratara alguém para vender ingressos e ligar o projetor. Acho que vou me sentar e assistir aos filmes, Alec responde.

Guarde um lugar para mim , pede Steven. Pode ser que eu não consiga entrar antes de Os pássaros, no entanto. Tenho que falar com alguns jornalistas aqui fora.

Lois Weisel colocou uma câmera dentro da sala de cinema, com a lente virada para a plateia, e a carregou com filme de alta precisão para filmar no escuro. Ela liga a câmera em momentos diferentes, gravando as reações do público em O mágico de Oz . Aquela seria a conclusão do documentário — esse charmoso cinema antigo restaurado, lotado de gente apreciando um clássico do século XX

—, mas o filme não terminaria da maneira planejada.

Nas primeiras tomadas do rolo de Lois é possível ver Alec sentado nos fundos, na área esquerda do cinema, o rosto encarando a tela, os óculos brilhando com a luz azul na escuridão.

O assento à esquerda dele, no corredor, está vazio, o único assento vazio da casa. Às vezes, dá para vê-lo comendo pipoca. Outras vezes, ele está lá apenas assistindo, a boca um pouco aberta, um olhar quase de veneração no rosto.

Então, em uma das tomadas, ele está virado para o lado, observando o assento à sua esquerda. Uma mulher de azul se juntou a Alec. Ele se inclina sobre ela. Os dois com certeza estão se beijando. Ninguém ao redor presta atenção neles. O mágico de Oz está acabando. Sabemos disso porque é possível ouvir Judy Garland recitando sem parar as mesmas nove palavras com uma voz baixa e saudosa, falando… bem, você sabe o que ela está falando. São as nove palavras mais adoráveis já ditas em um filme.

Na tomada seguinte, as luzes do recinto estão ligadas e já há uma multidão de pessoas reunidas ao redor do corpo de Alec, caído na poltrona. Steven Greenberg está no corredor, gritando desesperadamente para alguém chamar um médico. Uma criança chora. O restante das pessoas gera um zum-zum-zum sussurrado

com suas conversas inquietas. Mas esqueça essa tomada. As imagens antes dela são bem mais interessantes.

Elas só duram alguns segundos, as imagens de Alec e de sua companheira não identificada — poucas centenas de frames —, mas é a filmagem que tornará Lois Weisel famosa e rica. Ela vai aparecer em programas de televisão sobre fenômenos inexplicáveis, será assistida e reassistida em reuniões de grupos de pessoas fascinadas pelo sobrenatural. Ela será estudada, analisada, desacreditada, confirmada e celebrada. Vamos assisti-la mais uma vez.

Ele se inclina sobre ela. Ela ergue o rosto para encará-lo e fecha os olhos. Ela é jovem e está se entregando por completo a ele. Alec havia retirado os óculos. Está segurando de leve a cintura dela. É dessa maneira que as pessoas sonham em ser beijadas, um beijo de estrelas de cinema. Ao observá-los, quase desejamos que aquele momento dure para sempre. E, durante tudo isso, a voz baixa e corajosa de Dorothy enche o cinema mergulhado na escuridão. Ela fala algo sobre lar. Fala algo que todos nós sabemos.