O Telefone Preto e Outras Histórias

Joe Hill · Capítulo 14 de 16

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O Telefone Preto e Outras Histórias

Bobby Conroy volta dos mortos

— Eu vou chorar — falou a menina mais velha. — Consigo chorar quando eu quiser.

Killian ficou parado. Ele olhou para a criança no chão e depois para as duas enlutadas. Por fim, disse:

— Não acho que esse é o meu tipo de brincadeira. Não quero ser uma pessoa morta.

A menina mais velha apertou os olhos para ele e então encarou o seu rosto.

— Por que não? — perguntou. — Está usando a roupa certa para isso.

BOBBY CONROY VOLTA DOS MORTOS

NO INÍCIO, BOBBY NÃO a reconhecera. Ela estava ferida, que nem ele. Os primeiros trinta que chegaram receberam feridas. Foi o próprio Tom Savini quem as colocou.

O rosto dela era de um azul reluzente, seus olhos fundos, em órbitas escuras, e, no lugar da orelha direita, havia um buraco com bordas irregulares, um espaço escancarado que revelava um pedaço de osso vermelho e úmido. Eles se sentaram a um metro de distância um do outro na parede de pedra ao redor do chafariz, que estava desligado. As páginas dela estavam sobre o joelho — três folhas ao todo, grampeadas — e ela dava uma olhada no texto, as sobrancelhas franzidas de concentração. Bobby já tinha lido as dele enquanto esperava na fila da maquiagem.

A calça jeans dela o fazia se lembrar de Harriet Rutherford.

Havia remendos por toda parte, que pareciam feitos de bandanas, quadrados vermelhos e azul-escuros com estampas de caxemira. Harriet sempre usava jeans como aquele. Bobby ainda ficava animado quando via retalhos costurados na bunda de uma calça Levi’s feminina.

Seu olhar seguiu pela perna dobrada até onde o jeans azul alargava no tornozelo e parou nos pés descalços. As sandálias foram retiradas com dois chutes e ela estava torcendo os dedos de um pé com os dedos do outro. Quando viu isso, Bobby sentiu o coração bater mais forte com uma espécie de choque doloroso de felicidade.

— Harriet? — perguntou. — Você é a Harriet Rutherford para quem eu costumava escrever poemas de amor no colégio?

Ela olhou de soslaio para ele, por sobre o ombro. Nem precisava responder, ele já sabia que era Harriet. Ela o encarou por um longo tempo e então os seus olhos se arregalaram levemente. Eram de um verde vívido como a pele de um zumbi, e por um instante ele os

viu brilharem de reconhecimento e evidente animação. Mas ela virou o rosto e voltou a ler as páginas.

— Ninguém escrevia poemas de amor para mim no colégio —

disse ela. — Eu me lembraria disso. Não conseguiria segurar a felicidade.

— Durante a detenção. Quando a gente pegou duas semanas de castigo depois da esquete do programa de culinária? Você apareceu com um pepino esculpido como um pau. Disse que precisava deixar de molho por uma hora e enfiou na calça. Foi o melhor momento da história do Coletivo de Comédia Morra de Rir.

— Não. Minha memória é boa e não me lembro dessa trupe de comédia. — Ela voltou a olhar para as folhas equilibradas sobre o joelho. — Você se lembra de algum detalhe desses supostos poemas?

— Como assim?

— Um verso. Talvez, se conseguir se lembrar de alguma coisa sobre um dos poemas, algumas palavras de um verso de partir o coração, eles possam voltar à minha mente.

A princípio, ele não sabia se conseguiria. Olhou para ela sem expressão, a língua pressionando o lábio inferior, tentando trazer à memória alguma coisa, mas com o cérebro teimosamente vazio.

Então, abriu a boca e começou a falar, lembrando-se enquanto proclamava:

— Adoro ver você tomando banho. Espero que isso não pareça obsceno.

— Mas quando vejo o sabão nos seus peitos, meu pinto dá um aceno! — gritou Harriet, se virando para ele. — Bobby Conroy, caramba, vem cá e me dá um abraço sem estragar a minha maquiagem.

Ele foi na direção dela e envolveu suas costas finas com os braços. Bobby fechou os olhos e a apertou, sentindo-se absurdamente feliz, talvez o máximo de felicidade que sentira desde que voltou a morar na casa dos pais. Não tinha passado um dia em Monroeville sem pensar em encontrar Harriet. Estava depressivo, sonhava acordado com ela, histórias que começavam exatamente daquele jeito — ou não exatamente daquele jeito, ele nunca

imaginara os dois com maquiagem de pedaços de corpos em decomposição, mas parecido com aquilo.

Quando acordava toda manhã, no seu quarto em cima da garagem dos pais, sentia-se apático. Ficava deitado no colchão cheio de calombos e encarava a claraboia acima dele. A claraboia estava embaçada por causa da poeira, e através dela todo céu parecia igual, um branco sem forma e sem graça. Nada nele queria se levantar. Para piorar, ele ainda se lembrava de como era acordar no mesmo quarto com a sensação de possibilidades ilimitadas da adolescência, acordar cheio de entusiasmo para encarar o dia. Sonhar acordado em encontrar Harriet e recuperar a velha amizade

— e quando esses devaneios da manhã às vezes se tornavam explicitamente sexuais, quando ele se lembrava de terem ficado no galpão do pai dela, as pernas magras de Harriet abertas, as meias ainda vestidas — pelo menos era algo que fazia o seu sangue correr, o animava um pouco. Todos os outros sonhos tinham espinhos. Mexer com eles sempre envolvia o risco de se furar de repente.

Eles ainda estavam abraçados quando um garoto por perto perguntou:

— Mãe, quem é ele?

Bobby Conroy abriu os olhos e virou o rosto para a direita. Um menininho morto com a cara azul e o cabelo preto e escorrido olhava para eles. Usava um casaco com capuz, que cobria a sua cabeça.

O aperto de Harriet ficou mais relaxado. Então, aos poucos, os braços dela libertaram Bobby, que encarou a criança por mais um instante — não podia ter mais de seis anos — e, então, baixou o olhar para a mão de Harriet, para a aliança no anelar.

Bobby voltou a observar o menino e forçou um sorriso. Ele fora a mais de setecentos testes durante o tempo que passou em Nova York e tinha um enorme catálogo de sorrisos falsos.

— E aí, cara — falou. — Meu nome é Bobby Conroy. Sua mãe e eu somos velhos amigos, da época em que os mastodontes caminhavam sobre a terra.

— Eu também me chamo Bobby — disse o menino. — Você entende de dinossauros? Gosto muito deles.

Bobby sentiu uma pontada de enjoo que parecia cortá-lo ao meio. Olhou para Harriet — não queria, mas não conseguiu evitar — e viu que ela o encarava de volta. Havia um sorriso ansioso em seu rosto.

— Foi o meu marido que escolheu — informou ela. Por alguma razão, Harriet deu tapinhas na perna de Bobby. — Em homenagem a um jogador dos Yankees. Ele é de Albany.

— Entendo de mastodontes — disse Bobby ao garoto, surpreso ao perceber que sua voz continuava soando da mesma forma. —

Elefantes peludos e gigantescos do tamanho de ônibus escolares.

No passado, eles habitaram todo o planalto da Pensilvânia e deixavam enormes montanhas de cocô de mastodonte por todo lado, e uma dessas montanhas depois se tornou Pittsburgh.

O menino riu e olhou rápido para a mãe, talvez para avaliar o que ela achara daquela referência repentina a cocô. Ela sorriu com indulgência.

Bobby viu a mão do garoto e recuou.

— Ugh! Caramba, essa é a melhor maquiagem que vi hoje. O

que é, uma mão falsa?

Faltavam três dedos na mão esquerda do menino. Bobby a pegou e deu um puxão, esperando que ela fosse sair. Mas, sob a maquiagem azul, a mão era morna e carnuda, e o menino a tirou do alcance de Bobby.

— Não — falou ele. — É só a minha mão. Ela é assim mesmo.

Bobby corou tanto que as suas orelhas chegaram a arder, e ficou feliz por estar maquiado. Harriet tocou o pulso de Bobby.

— Ele não tem alguns dedos — disse ela.

Bobby olhou para Harriet se esforçando para articular um pedido de desculpas. O sorriso estava um pouco menor, agora, mas ela não estava parecendo visivelmente irritada com ele, e a mão no braço era um bom sinal.

— Prendi os dedos na serra, mas não me lembro porque era pequeno demais — explicou a criança.

— Dean é lenhador.

— Ele está por aqui? — perguntou Bobby, esticando o pescoço e olhando ao redor de forma exagerada, embora, é claro, não tivesse a mínima ideia de qual era a aparência de Dean. Os dois andares

do espaço central do shopping estavam lotados de pessoas como eles, maquiadas para parecerem falecidas há pouco tempo. Elas estavam sentadas nos bancos ou em grupos batendo papo, rindo das feridas umas das outras ou lendo as páginas mimeografadas do roteiro que foram distribuídas. O shopping estava fechado — grades de aço baixadas na entrada das lojas — e o lugar estava vazio, exceto pela equipe de filmagem e pelos mortos-vivos.

— Não, ele deixou a gente aqui e foi trabalhar.

— No domingo?

— É um trabalho de corno.

Aquilo parecia o início de uma boa piada, e Bobby parou, buscando algum comentário engraçadinho para fazer… e então se tocou de que rir da escolha de profissão de Dean na frente da esposa de Dean e do filho de cinco anos de Dean poderia pegar mal, isso sem falar que Harriet e ele foram melhores amigos e o casal real do Coletivo de Comédia Morra de Rir no último ano do colégio. Então falou:

— É mesmo? Que pena.

— Gosto desse corte enorme e nojento na sua testa — disse o menininho apontando para o seu rosto. Bobby tinha um ferimento horrível no escalpo, a pele aberta até o osso. — Você não achou o homem que deixou a gente que nem morto muito maneiro?

Na verdade, Bobby ficara um pouco assustado com Tom Savini, que não parava de olhar para um livro de fotografias de autópsias enquanto aplicava maquiagem nele. As pessoas naquelas fotos, com a carne mutilada e as expressões tristes e fracas, estavam mortas de verdade e não iam se levantar depois para tomar um café na mesa montada pela produção. Savini estudava aquelas feridas com uma admiração silenciosa, a mesma que seria exibida por qualquer pintor analisando o tema da sua arte.

Mas Bobby entendia o que o garoto queria dizer sobre ele ser maneiro. Com jaqueta preta de couro, botas de motoqueiro, barba escura e sobrancelhas marcantes — grossas e pretas, formando um arco para cima, como as do sr. Spock ou de Bela Lugosi —, ele parecia um deus do death metal.

Alguém começou a bater palmas. Bobby olhou ao redor. O

diretor, George Romero, estava perto das escadas rolantes, um

homem que mais parecia um urso, com bem mais de um metro e oitenta de altura e uma barba castanha grossa. Bobby notara que muitos dos membros da equipe tinham barbas. E, além disso, vários também tinham cabelos que chegavam nos ombros e usavam roupas velhas do Exército e botas de motoqueiro como Savini, de forma que pareciam um bando de revolucionários da contracultura.

Bobby, Harriet e o pequeno Bob se juntaram aos outros figurantes para ouvir o que Romero tinha a dizer. Sua voz era poderosa e confiante, e quando ele sorria, surgiam covinhas nas bochechas, visíveis mesmo com a barba. Ele perguntou se havia alguém ali que entendia alguma coisa sobre fazer filmes. Um certo número de pessoas, Bobby entre elas, levantou a mão. Então Romero respondeu que graças a Deus tinha alguém ali que sabia fazer aquilo, e todo mundo riu. O diretor disse que queria dar as boas-vindas ao mundo do cinema multimilionário de Hollywood e todo mundo riu de novo, porque George Romero só fizera filmes na Pensilvânia e eles sabiam muito bem que O despertar dos mortos estava abaixo do baixo orçamento, apenas meio degrau acima do sem orçamento. O diretor avisou que se sentia grato por todos terem vindo e que, pelas dez horas de trabalho exaustivo, que testariam corpo e mente, seriam pagos em dinheiro, uma soma tão colossal que ele não se atreveria a dizer o número em voz alta, só conseguiria mostrá-la. Então ergueu uma nota de um dólar e houve mais risadas. Naquele momento, Tom Savini, no segundo andar, se debruçou sobre o parapeito e gritou:

— Não riam, é mais dinheiro que a maioria de nós está recebendo para trabalhar nesse troço.

— Muita gente nesse filme está trabalhando por amor à arte —

disse George Romero. — Tom está aqui porque gosta de esguichar pus nas pessoas. — Alguns figurantes deram gemidos. — Pus falso!

Pus falso! — falou Romero se corrigindo às pressas.

— Você bem que queria que fosse falso — entoou Savini de algum lugar lá em cima, mas já não era possível vê-lo, o homem tinha se afastado do parapeito.

Mais risadas. Bobby sabia uma coisa ou outra sobre esse tipo de conversa humorística e suspeitava que aquela parte do discurso

fora ensaiada e apresentada exatamente daquela maneira mais de uma vez.

Romero falou um pouco sobre o enredo. Pessoas que tinham morrido recentemente estavam voltando à vida; elas gostavam de comer gente; no meio da crise, o governo havia entrado em colapso; quatro jovens heróis se abrigaram dentro daquele shopping. A atenção de Bobby se perdeu e ele percebeu que estava olhando para o outro Bobby, o filho de Harriet. O pequeno Bob tinha um rosto comprido e solene, olhos castanho-escuros e um monte de cabelo preto, escorrido e desgrenhado. Na verdade, o menino se parecia um pouco com o próprio Bobby, que também tinha olhos castanhos, rosto magro e uma massa de cabelo preto e despenteado na cabeça.

Bobby ficou imaginando se Dean se parecia com ele. Aquele pensamento fez seu sangue disparar de maneira estranha. E se Dean aparecesse para ver como Harriet e o pequeno Bob estavam indo e o homem acabasse sendo uma cópia exata dele? Era uma consideração tão assustadora que se sentiu fraco por um instante —

mas então se lembrou que estava maquiado de cadáver, o rosto azul, a testa machucada. Mesmo se fossem iguais, iam parecer completamente diferentes.

Romero deu as últimas instruções sobre como andar que nem um zumbi — fez uma demonstração com os olhos revirados e a boca mole — e prometeu que estariam prontos para começar a filmagem em poucos minutos.

Harriet se virou para encarar Bobby, a mão no quadril, as pálpebras piscando de forma teatral. Ele girou ao mesmo tempo e os dois quase bateram um no outro. A mulher abriu a boca para falar, mas nenhum som saiu. Estavam perto demais, e a proximidade física inesperada pareceu ter pegado Harriet de surpresa. Ele também não sabia o que dizer, qualquer pensamento fora repentinamente apagado do seu cérebro. Ela riu e balançou a cabeça, uma reação que lhe pareceu artificial, que demonstrava ansiedade, não alegria.

— Vamos arregaçar as mangas, parceiro — falou ela. Bobby se lembrou de que, quando um esquete não estava indo bem e Harriet ficava nervosa, às vezes ela fazia uma imitação exagerada e com a

boca cheia de cuspe de John Wayne no palco, um hábito nervoso que ele odiava na época, mas que, naquele momento, achou encantador.

— Vamos ter alguma coisa para fazer logo? — perguntou o pequeno Bob.

— Daqui a pouco — respondeu a mãe. — Por que não pratica como ser um zumbi por um tempo? Vai em frente, dê uma caminhada meio arrastada por aí.

Bobby e Harriet voltaram a se sentar na beirada do chafariz. As mãos dela eram pequenas, punhos ossudos sobre as pernas. Ela encarou o próprio colo com o olhar vazio, voltado para dentro.

Estava enrolando os dedos dos pés de novo.

Ele falou. Um deles precisava dizer alguma coisa.

— Não acredito que você se casou e teve um filho! — disse ele no mesmo tom de espanto alegre que usava com amigos que informavam que foram chamados para papéis para o qual ele fizera testes. — Adorei esse garoto andando a tiracolo com você. É muito bonitinho. Mas também, quem resiste a uma criança que parece meio apodrecida?

Ela pareceu retornar de onde estivera e sorriu para ele — quase com timidez.

Ele continuou:

— E é melhor estar preparada para me contar tudo sobre Dean.

— Ele vai aparecer mais tarde. Vai nos levar para almoçar. Você deveria vir com a gente.

— Pode ser legal! — exclamou ele, e pensou que talvez fosse melhor diminuir o grau de entusiasmo.

— Ele fica acanhado quando encontra alguém pela primeira vez, então não espere muita conversa.

Bobby fez um gesto com a mão no ar: que nada.

— Vai ser ótimo. Temos muito o que conversar. Eu sempre fui fascinado por madeira e… compensado.

Era um risco, brincar sobre o marido que ele não conhecia. Mas ela sorriu e respondeu:

— Tudo que você sempre quis saber sobre pau, mas teve medo de perguntar.

E, por um segundo, os dois sorriram, de forma um pouco boba, os joelhos quase se tocando. Eles nunca chegaram a entender como falar um com o outro. Era como se sempre estivessem atuando um pouco, tentando usar o que a outra pessoa tinha dito para fazer uma piada. Aquilo, pelo menos, não mudou.

— Meu Deus, não acredito que te encontrei aqui — falou ela. —

Pensei muito em você.

— É?

— Achei que já seria famoso a essa altura.

— Somos dois — disse Bobby, dando uma piscadela. Na mesma hora, desejou poder voltar no tempo e não piscar. Era uma coisa falsa, e ele não queria ser falso com Harriet. Ele continuou, respondendo à pergunta que ela não tinha feito. — Estou me acertando. Voltei três meses atrás. Estou na casa dos meus pais por um tempo, meio que me readaptando a Monroeville.

Ela assentiu, ainda o encarando com uma seriedade que o deixou desconfortável.

— E como isso está indo?

— Estou vivendo — mentiu ele.

ENTRE AS GRAVAÇÕES, BOBBY, Harriet e o pequeno Bob contavam histórias sobre como tinham morrido.

— Eu era um comediante em Nova York — falou Bobby, passando os dedos pela ferida na cabeça. — Algo trágico aconteceu quando subi no palco.

— É — respondeu Harriet. — Você contou as suas piadas.

— Algo que nunca havia acontecido antes.

— O quê? As pessoas riram?

— Eu fui eu mesmo, brilhante como sempre. A plateia rolava pelo chão.

— Convulsões de agonia.

— E aí, quando eu estava fazendo a reverência final… um acidente horrível. Um contrarregra na coxia largou um saco de areia de vinte quilos na minha cabeça. Mas pelo menos morri ao som de aplausos.

— Os aplausos eram para o contrarregra — falou Harriet.

O menininho olhou sério para Bobby e pegou a mão dele.

— Sinto muito por sua cabeça ter sido acertada. — Seus lábios rasparam pelas juntas dos dedos de Bobby com um beijo seco.

Bobby olhou para ele. A pele formigava onde a boca do garoto encostara.

— Esse é o garoto mais beijoqueiro e pegajoso que você vai encontrar — disse Harriet. — Ele tem muito afeto acumulado. No menor sinal de fraqueza, está pronto para babar em cima de você.

— Enquanto falava isso, ela bagunçou o cabelo do pequeno Bobby.

— E o que te matou, pestinha?

Ele ergueu as mãos sacudindo.

— Meus dedos foram cortados na serra do papai e eu sangrei até a morte.

Harriet continuou sorrindo, mas os olhos pareceram ficar levemente mais úmidos. Ela meteu a mão nos bolsos e encontrou uma moeda.

— Vai comprar um chiclete, amigão.

Ele agarrou a moeda e correu.

— As pessoas devem achar que somos os pais mais relapsos do mundo — disse ela, encarando o filho de longe, sem demonstrar expressão. — Mas não foi culpa de ninguém.

— Tenho certeza de que não.

— A serra estava desligada e ele não tinha nem dois anos.

Nunca conectara nada na tomada antes. A gente nem sabia que ele conseguia fazer aquilo. Dean estava com ele. Foi tudo muito rápido.

Sabe quantas coisas precisaram dar errado ao mesmo tempo para que isso acontecesse? Dean acha que o som da serra ligando deve ter dado um susto nele e Bobby ergueu a mão para fazer com que ela parasse. Ele pensou que estaria encrencado. — Ela ficou em silêncio por alguns segundos, vendo o filho comprar o chiclete na máquina, e então falou: — Eu sempre pensei o seguinte sobre o meu filho: essa é a coisa na minha vida que vou fazer direito. Não vou foder com tudo. Estava planejando como ele faria amor com a menina mais bonita da escola aos quinze anos. Como aprenderia a tocar cinco instrumentos e deixar todo mundo de queixo caído com o seu talento. Como seria o garoto engraçado que parece conhecer todos. — Ela fez outra pausa, e aí acrescentou: — Agora, ele vai precisar ser o garoto engraçado. Sempre tem alguma coisa errada

com o garoto engraçado. É por isso que ele é engraçado: para desviar a atenção das pessoas.

No silêncio que sucedeu essa declaração, Bobby pensou em várias coisas rapidamente. A primeira era que ele fora o garoto engraçado da escola; será que Harriet pensava que havia algo de errado com ele que precisava compensar? Então lembrou que os dois tinham sido engraçados e pensou: O que havia de errado conosco?

Tinha que haver alguma coisa; de outra forma, eles estariam juntos agora e o menino em frente à máquina de chiclete seria filho deles. O pensamento que passou pela sua cabeça a seguir foi que, se o pequeno Bobby fosse o pequeno Bobby deles, o menino ainda teria dez dedos. Sentiu uma antipatia borbulhante por Dean, o lenhador, um caipira ignorante cuja noção de passar tempo com o filho provavelmente significava levar o garoto até a feira do produtor rural para ver uma corrida de tratores.

Um assistente de direção começou a bater palmas e a chamar os mortos-vivos para assumirem os seus lugares. O pequeno Bob trotou de volta até eles.

— Mãe — falou ele, o chiclete na bochecha. — Você não contou como morreu. — Ele olhava para a orelha decepada dela.

— Eu sei como — disse Bobby. — Ela encontrou um velho amigo no shopping e os dois começaram a conversar, e quero dizer conversar de verdade. Horas de blá-blá-blá. No fim, o velho amigo disse: “Sabe, espero que as suas orelhas não caiam de tanto me ouvir”. E sua mãe respondeu: “Ah, não se preocupe com isso…”.

— Alguém me disse certa vez: “Não dê ouvidos a ele” — falou Harriet. Ela bateu com a palma da mão na testa. — Por que eu não escutei?

TIRANDO O CABELO ESCURO, Dean não se parecia em nada com ele. Dean era baixinho. Bobby não estava preparado para o tanto que ele era baixo. Era menor que Harriet, que não ia muito além de um metro e setenta. Quando se beijavam, Dean precisava esticar o pescoço. Ele era parrudo, o corpo forte, ombros largos, as costas um pouco curvadas, a cintura fina. Usava óculos de lentes grossas com uma armação cinzenta de plástico, os olhos da cor de

estanho sujo. Era tímido — seu olhar encontrou o de Bobby quando Harriet o apresentou, desviou, retornou e desviou de novo —, isso sem falar que era velho, com uma teia de pés de galinha finos.

Talvez fosse uma década mais velho que Harriet.

Os dois haviam acabado de se conhecer quando Dean falou de repente:

— Ah, você é aquele Bobby! O Bobby engraçado. Sabe, quase não demos o nome de Bobby para o nosso filho por sua causa. Mas eu tinha essa ideia fixa de que, se um dia te conhecesse, teria que garantir que o nome Bobby foi ideia minha. É por causa do Bobby Murcer. Desde que tenho idade suficiente para imaginar em ter filhos, sempre quis…

— Eu sou engraçado! — interrompeu o filho de Harriet.

Dean colocou as mãos debaixo das axilas dele e o jogou no ar.

— Claro que é!

Bobby não tinha certeza de que queria almoçar com eles, mas Harriet entrelaçou o braço no dele e marchou porta afora até o estacionamento, e o ombro dela — quente e nu — estava encostado no dele, então não havia escolha, na verdade.

Bobby não notou as outras pessoas no restaurante olhando para eles e esqueceu que estava de maquiagem até a garçonete se aproximar. Ela mal saíra da adolescência, com uma cabeleira loira frisada que balançava conforme andava.

— A gente morreu — anunciou o pequeno Bobby.

— Entendi — falou a garota, assentindo e apontando a caneta esferográfica para eles. — Imagino que estejam trabalhando no filme de terror ou que tenham comido o especial do dia. Qual das opções?

Dean riu, uma risada alta e seca. Bobby nunca vira alguém que ria com tanta facilidade. Dean gargalhava com praticamente qualquer coisa que Harriet dizia, e até quase tudo que Bobby falava.

Às vezes, ele ria tão alto que as pessoas nas outras mesas levavam um susto. Assim que recuperava o controle, pedia desculpas sinceras, o rosto de um rosa delicado, os olhos cintilantes e úmidos.

Foi aí que Bobby começou a ver pelo menos uma resposta possível para a pergunta que estivera na sua mente desde que vira que

Harriet tinha se casado com Dean-que-trabalha-igual-a-um-corno: Por que ele? Bem... Dean era uma boa plateia, pelo menos.

— Eu achei que você trabalhasse como comediante em Nova York — disse Dean, finalmente. — O que o traz de volta?

— Fracasso — respondeu Bobby.

— Ah… sinto muito. O que está fazendo agora? Está apresentando algum número na cidade?

— Pode-se dizer que sim. Mas por aqui chamam de ser professor substituto.

— Ah! Você dá aulas! E está gostando?

— É muito bom. Meu plano sempre foi trabalhar ou em filmes e televisão, ou em colégios. E pensar que agora eu enfim vou ter a minha grande chance substituindo o professor de educação física do oitavo ano… é um sonho realizado.

Dean riu, e pedacinhos mastigados de filé de frango frito voaram da sua boca.

— Sinto muito. Isso é horrível — falou ele. — Comida para todo lugar. Você deve achar que sou um porco.

— Não, tudo bem. Quer que a garçonete traga alguma coisa?

Um copo de água? Um bebedouro?

Dean se curvou tanto que a testa quase encostou no prato, a risada ofegante, asmática.

— Pare. Por favor.

Bobby parou, mas não porque Dean pediu. Pela primeira vez, notou que o joelho de Harriet estava batendo no dele embaixo da mesa. Ele se perguntou se aquilo era intencional, e, na primeira chance que teve, se encostou na cadeira e olhou. Não, não era intencional. Ela tinha tirado as sandálias e estava enrolando os dedos do pé uns nos outros, tão forte que, às vezes, seu joelho direito balançava e acertava o dele.

— Uau, eu ia adorar ter tido um professor como você. Alguém que consegue fazer as crianças rirem — falou Dean.

Bobby mastigou e mastigou, mas não sabia dizer o que estava comendo. Não sentia gosto algum.

Dean soltou um suspiro trêmulo e enxugou os cantos dos olhos novamente.

— Claro, eu não sou engraçado. Não consigo nem me lembrar de piadas bobas. Não sou bom para muita coisa além de trabalhar.

E Harriet é tão engraçada. Às vezes, ela faz um show para mim e para o Bobby, com meias sujas nas mãos. A gente ri tanto que não dá nem para respirar. Ela chama de Show dos Muppets da Roça.

Patrocinado por qualquer cervejinha de gosto duvidoso. — Ele começou a rir e a bater com o punho na mesa de novo. Harriet não tirou os olhos do próprio colo. Dean falou: — Eu adoraria vê-la fazendo isso no Carson. Seria… como vocês chamam, uma esquete? Seria uma esquete clássica.

— Com certeza, parece mesmo — falou Bobby. — Fico surpreso de Ed McMahon ainda não ter ligado para saber se ela está disponível.

QUANDO DEAN OS DEIXOU de volta no shopping e saiu para retornar para a serraria, o clima tinha mudado. Harriet parecia distante, era difícil envolvê-la em qualquer tipo de conversa — não que Bobby tenha tentado com afinco. Ele ficou irritadiço de repente.

Toda a diversão de interpretar um morto por um dia havia desaparecido. Na maior parte do tempo, eles só esperavam —

esperavam os assistentes de fotografia acertarem a luz nos mínimos detalhes, Tom Savini retocar um machucado que estava começando a parecer demais com látex e não com carne retalhada —, e Bobby se cansou daquilo. Ficava com raiva só de ver os outros se divertindo. Diversos zumbis se reuniram, fazendo embaixadinhas com um baço vermelho e molenga, rindo bastante. O objeto fazia um barulho molhado quando caía no chão. Bobby queria gritar com eles por estarem tão animados. Será que nunca tinham ouvido falar do método Stanislavski? Deviam estar todos separados, dando gemidos infelizes e acariciando as tripas. Ele mesmo deu um gemido infeliz, um som nervoso e frustrado, e o pequeno Bobby perguntou o que havia de errado. Ele respondeu que estava apenas treinando. O garoto foi assistir ao jogo de embaixadinhas.

Sem olhar para ele, Harriet falou:

— Foi um almoço legal, não achou?

— Sen-sacional — disse Bobby, pensando Melhor tomar cuidado. Ele estava inquieto, cheio de uma energia que não sabia

como gastar. — Acho que me dei bem com Dean. Ele me lembrou do meu avô. Eu tinha um avô ótimo, que conseguia mexer as orelhas e achava que o meu nome era Evan. Ele me dava 25 centavos para estocar lenha para ele, cinquenta se eu trabalhasse sem camisa. Então, qual é a idade de Dean?

Eles estavam caminhando lado a lado, mas então Harriet ficou rígida e parou. Seu rosto se virou na direção dele, mas o cabelo estava na frente dos olhos, escondendo a expressão.

— Ele é nove anos mais velho do que eu. E daí?

— E daí nada. Só fico contente de você estar feliz.

— Eu estou feliz — falou ela, a voz meia oitava mais alta.

— Dean se ajoelhou quando te pediu em casamento?

Harriet assentiu, os lábios apertados, suspeitos.

— Você teve que ajudar ele a se levantar depois? — perguntou Bobby. Sua voz também estava um pouco esganiçada, e ele pensou Pare com isso agora. Era como um desenho animado, Bobby visualizou o Coiote preso na frente de uma locomotiva, dando passos rápidos no trilho, tentando ser mais rápido que o trem, a fumaça saindo dos pés, que inchavam e ficavam vermelhos.

— Seu babaca — falou ela.

— Desculpa! — Ele deu um sorriso e ergueu as mãos, com as palmas viradas para Harriet. — Brincadeira, brincadeira. Bobby bobão, sabe como é. Não consigo evitar. — Ela estava prestes a lhe dar as costas, mas hesitou, sem saber se deveria acreditar naquilo ou não. Bobby limpou a boca com a mão. — Então a gente sabe como você consegue fazer o Dean rir. Mas como ele faz você rir?

Ah, claro, ele não é engraçado. Bem, o que ele faz para o seu coração bater mais rápido? Além de te dar um beijo sem a dentadura.

— Me deixa em paz, Bobby — respondeu ela. Harriet deu meia-volta, mas ele ficou na frente dela, impedindo-a de se afastar.

— Não.

— Para.

— Não posso — falou ele, percebendo de repente que estava com raiva dela. — Se ele não é engraçado, deve ser outra coisa.

Preciso saber o quê.

— Paciente — respondeu ela.

— Paciente — repetiu Bobby. Ficou espantado simplesmente por saber que aquela era uma resposta possível.

— Comigo.

— Com você.

— Com Robert.

— Paciente — falou. Então, por um momento, não conseguiu falar mais nada, porque ficou sem fôlego. De uma hora para outra, sentiu que a maquiagem fazia o rosto dele coçar. Desejou que Harriet tivesse apenas se afastado dele ou mandado ele se foder, ou até dado um tapa na sua cara quando começou a pressioná-la, desejou por qualquer resposta que não fosse paciente. Engoliu em seco. — Não é o bastante. — Sabia que não conseguiria parar agora, o trem estava indo na direção do penhasco, e os olhos aterrorizados do Coiote se esbugalharam e pularam da cara dele. —

Eu queria conhecer quem quer que fosse que estivesse com você e ficar enjoado de ciúme, mas só me sinto enjoado. Queria que você tivesse se apaixonado por um homem bonito, criativo e brilhante, um escritor, um dramaturgo, alguém com senso de humor e um pau de trinta centímetros. Não um sujeito com cabeça raspada que se mata de trabalhar e que acha que, para fazer uma massagem erótica, você precisa de um tubo de pomada Bengay.

Ela afastou as lágrimas que corriam pelo rosto com as costas das mãos.

— Sabia que você ia odiar ele, mas não que seria tão cruel.

— Não é que eu odiei ele. O que tem para odiar? Ele não está fazendo nada diferente do que qualquer outro sujeito no lugar dele faria. Se eu tivesse sessenta centímetros de altura e fosse geriátrico, agarraria a oportunidade de ficar com uma gostosa que nem você. Com certeza ele é paciente. É melhor que seja mesmo.

Ele devia ficar de joelhos toda noite e lavar os seus pés com óleos sagrados por você ter passado mais um dia com ele.

— Você teve a sua chance — disse ela.

Harriet estava se esforçando para não deixar o choro sair de controle. Os músculos do rosto estremeciam, tornando a sua expressão fechada.

— Não é sobre as chances que eu tive. É sobre as chances que você teve.

Dessa vez, quando ela deu as costas a Bobby, ele a deixou ir.

Ela cobriu o rosto com as mãos. Seus ombros se balançavam e, conforme se afastava, Harriet fazia sons de engasgo. Ele a observou caminhar até a fonte onde se encontraram mais cedo.

Então se lembrou do menino e olhou ao redor, o coração martelando, pensando no que o pequeno Bobby pode ter visto ou ouvido. Mas o garoto estava correndo pelo saguão, chutando o baço, que agora tinha uma massa de poeira ao redor. Outras duas crianças tentavam roubar o objeto cenográfico dele.

Bobby os observou brincarem por um tempo. Um dos chutes foi forte demais, e o baço derrapou até ele. O homem, então, colocou o pé em cima do órgão para interromper o movimento. O baço foi achatado de maneira desagradável debaixo da sola do seu sapato.

As crianças pararam a três metros de Bobby e ficaram lá, ofegantes, esperando por ele. Bobby pegou o baço.

— Vão lá para fora — falou, e arremessou o objeto para o pequeno Bobby, que o pegou de primeira e o levou consigo de cabeça baixa, as outras crianças o seguindo.

Quando se virou para Harriet, viu que ela o observava com as palmas da mão pressionadas com força nos joelhos. Esperou o olhar dela se desviar, o que não aconteceu, e, por fim, viu aquilo como um convite para se aproximar.

Foi até o chafariz e se sentou ao lado dela. Ainda estava pensando em como começar a pedir desculpas quando ela falou.

— Eu escrevi para você. Você que parou de me responder. —

Os pés nus dela lutavam um contra o outro.

— Odeio como o seu pé direito é autoritário — disse ele. — Por que ele não dá um espaço para o esquerdo? — Mas ela não estava ouvindo.

— Não importa — falou a mulher. Sua voz estava anasalada e rouca. A maquiagem era à base de óleo, então, apesar das lágrimas, não tinha borrado. — Não fiquei chateada. Sabia que a gente não conseguiria ter um relacionamento nos encontrando apenas quando você voltasse para casa no Natal. — Ela engoliu em seco. — Achava mesmo que alguém ia te colocar em uma sitcom.

Sempre que pensava nisso… em ver você na televisão e escutar os outros rindo quando falasse alguma coisa… ficava com um sorriso

enorme e bobo na cara. Podia passar uma tarde inteira feliz com esse pensamento. Não entendo o que pode ter feito você voltar para Monroeville.

Mas ele já dissera o que o tinha feito retornar para a casa dos pais e o quarto em cima da garagem. Dean perguntara no restaurante, e Bobby respondera com sinceridade.

Em uma noite de quinta-feira, na primavera passada, ele fora mais cedo até um clube de comédia no Village. Apresentou o seu número de vinte minutos, recebeu as gargalhadas constantes-ainda-que-não-avassaladoras e um respingo de aplausos quando saiu do palco. Foi até o bar para ver as outras apresentações. Estava prestes a sair e voltar para casa quando Robin Williams apareceu.

Ele estava na cidade, visitando os clubes e testando material. Bobby voltou a se sentar para escutar, sentindo o pulso batendo na garganta.

Não conseguiu explicar para Harriet o significado do que tinha visto. Bobby testemunhou um homem se segurando na quina da mesa com apenas uma das mãos, a outra na coxa da namorada, agarrando as duas com tanta força que as juntas dos dedos perderam a cor. Ele estava curvado com lágrimas escorrendo dos olhos, e sua risada era alta, estridente e convulsa, mais animal que humana, como o som feito por uma hiena ou coisa parecida. Ele balançava a cabeça de um lado para o outro e agitava a mão no ar.

Pare, por favor, não faça isso comigo. Era tanto humor que chegava a ser aflitivo.

Robin Williams viu aquele homem desesperado, interrompeu um discurso que fazia sobre masturbação, apontou para ele e gritou:

— Você! É, você, seu homem-hiena frenético! Você pode entrar de graça em qualquer show que eu fizer pelo resto da porra da minha vida!

E então um som foi crescendo entre a plateia, mais do que risadas ou aplausos, embora incluísse os dois. Era um ruído baixo e poderoso de deleite incontido, um som tão imenso que era tanto sentido quanto escutado, algo que fez os ossos no peito de Bobby zumbirem.

Ele mesmo não tinha dado uma única risada e, quando saiu do clube, seu estômago se revirava. Seus passos estavam estranhos,

duros na calçada, e, por um tempo, ele esqueceu o caminho de casa. Quando enfim chegou ao apartamento, sentou-se na beirada da cama, seus suspensórios arrancados e sua camisa desabotoada, e, pela primeira vez, achou que não havia esperança.

Viu algo brilhar na mão de Harriet. Ela estava contando moedas.

— Vai ligar para alguém? — perguntou Bobby.

— Dean — respondeu ela. — Para ele vir me buscar.

— Não.

— Não vou ficar. Não posso.

Observou os pés atormentados de Harriet, os dedos em uma peleja, e, por fim, cedeu. Eles se levantaram ao mesmo tempo. Mais uma vez, estavam desconfortavelmente pertos um do outro.

— Te vejo por aí, então — falou ela.

— É. — Bobby queria pegar a mão dela, mas não o fez; queria falar alguma coisa, mas não sabia o quê.

— Alguém aqui quer se voluntariar para tomar um tiro? —

perguntou George Romero a menos de um metro de distância. — É

um close-up garantido no filme.

Bobby e Harriet levantaram as mãos ao mesmo tempo.

— Eu — disse Bobby.

— Eu — falou Harriet, pisando no pé dele conforme se mexia para chamar a atenção do diretor. — Eu!

— ESSE FILME VAI ser ótimo, sr. Romero — falou Bobby. Estavam lado a lado, batendo papo, esperando Savini terminar de conectar o pequeno dispositivo, uma camisinha com um pouco de melaço e corante alimentar que explodiria de forma a parecer um tiro, em Harriet. Bobby já estava com o dispositivo ligado… em mais de um sentido. — Um dia, todo mundo em Pittsburgh vai falar que interpretou um zumbi nesse filme.

— Você puxa saco como um profissional — falou Romero. —

Tem experiência no show business?

— Seis anos em peças off-Broadway. Além disso, eu me apresentava na maioria dos clubes de comédia.

— Ah, mas agora está na grande Pittsburgh. Esperto da sua parte, rapaz. Fique aqui por um tempo e logo, logo vai ser um astro.

Harriet foi até Bobby, o cabelo balançando.

— Vão atirar no meu peito!

— Magnífico — respondeu Bobby. — É por isso que as pessoas precisam persistir, porque nunca dá para saber quando algo maravilhoso assim vai acontecer.

George Romero os levou para os seus lugares e informou o que queria que fizessem. As luzes refletiam em guarda-chuvas prateados e brilhantes, lançando uma luminosidade uniforme e um calor seco sobre uma área de três metros no chão. Havia um colchão listrado e cheio de calombos sobre os azulejos, bem ao lado de uma coluna quadrada.

Harriet seria acertada primeiro. Ela deveria levar um ricochete e continuar em frente, com o mínimo de reação possível ao tiro.

Bobby levaria a próxima bala na cabeça, o que o faria cair. O

dispositivo estava escondido embaixo de uma dobra de látex da ferida no escalpo. Os fios que fariam a camisinha estourar estavam ocultos pelo cabelo.

— Você pode cair primeiro e aí escorregar para o lado — disse George Romero. — Fique de joelhos se quiser, e aí escorregue para fora de cena. Se estiver se sentindo um pouco mais acrobático, pode cair direto para trás. Apenas se certifique de acertar o colchão.

Não queremos ninguém machucado.

Seriam apenas Bobby e Harriet na cena filmada em plano americano. Os outros figurantes encostaram nas paredes do corredor do shopping, observando os dois. Os olhares e os murmúrios constantes fizeram a adrenalina de Bobby explodir. Tom Savini se ajoelhou, quase dentro do enquadramento, com uma caixa de metal na mão, os fios estendidos no chão indo para Bobby e Harriet. O pequeno Bobby estava sentado ao lado do maquiador, as mãos perto do queixo apertando o baço, os olhos brilhando de expectativa. Savini contara ao pequeno Bob tudo o que ia acontecer, preparara a criança para o sangue que escorreria do peito da mãe dele, mas o menino não estava preocupado.

— Vi coisas nojentas o dia inteiro. Não fico assustado. Eu gosto.

Savini ia deixá-lo ficar com o baço como lembrança.

— Câmera — disse Romero.

Bobby se contorceu — espera, eles iam começar? Já? Os dois tinham acabado de chegar às suas marcações! Deus, Romero ainda estava em frente à câmera! — e, por um instante, Bobby agarrou a mão de Harriet. Ela apertou os dedos dele e largou. Romero saiu do enquadramento.

— Ação!

Bobby revirou tanto os olhos que não conseguia ver para onde estava indo. Deixou o queixo mole. Deu um passo arrastado.

— Atire na garota! — mandou o diretor.

Bobby não viu o dispositivo dela explodir porque estava um passo à frente. Mas ouviu um estalo alto e vibrante que ecoou pelo local e sentiu o cheiro, um odor pungente e repentino de pólvora.

Harriet grunhiu baixinho.

— Eeee… agora no outro — falou Romero.

Foi como se um tiro tivesse disparado do lado da cabeça dele. O

barulho da explosão foi tão alto que ensurdeceu os seus tímpanos na hora. Ele foi para trás e caiu de lado. Seu ombro bateu em alguma coisa na lateral, mas Bobby não viu o quê. Conseguiu olhar de soslaio para a coluna quadrada ao lado do colchão e, naquele instante, foi atingido por um raio de inspiração. Bateu a cabeça na coluna durante a queda e, enquanto saía do quadro, viu que tinha deixado uma mancha carmesim no gesso branco.

Acertou o colchão, as molas ainda boas o suficiente para fornecerem um pouco de amparo. Piscou. Os olhos lacrimejaram, criando uma distorção visual, uma deformação sutil na visão. O ar acima dele estava cheio de uma fumaça azul. O centro da cabeça doía. Seu rosto estava salpicado de um fluido gelado e pegajoso.

Conforme o zumbido nos ouvidos diminuía, ele percebeu duas coisas simultaneamente. A primeira foi o som, um estrondo de aplausos constante e baixo, como se viesse de baixo da terra. O barulho o preencheu como ar. George Romero ia na direção dele, batendo palmas também, sorrindo daquela maneira que formava covinhas na barba. A segunda coisa que notou foi Harriet curvada sobre ele, a mão dela em cima do seu peito.

— Acertei você? — perguntou Bobby.

— Infelizmente, sim — respondeu.

— Sabia que era só questão de tempo para eu te levar para a cama — falou ele.

Harriet sorriu, um sorriso fácil e contido que ele não vira em momento algum durante o dia. Seu busto encharcado de sangue subia e descia.

O pequeno Bob correu até o colchão e pulou em cima deles.

Harriet colocou o braço em volta do filho e o puxou para o espaço apertado entre ela e Bobby. O pequeno Bob sorriu e colocou o dedão na boca. O rosto de Bobby estava tão perto da cabeça do garoto que ele ficou subitamente consciente do xampu do menino, com aroma de melão.

Harriet observou Bobby por sobre a cabeça do filho sem desviar os olhos, ainda com o mesmo sorriso na boca. O olhar do homem foi para o teto, para a claraboia, para o límpido céu azul além dela.

Ele não queria levantar dali por nada no mundo, queria pular os próximos segundos. Começou a imaginar o que Harriet fazia quando Dean estava no trabalho e o pequeno Bobby, na escola. Amanhã era segunda, e ele não sabia se daria aula ou teria o dia livre. Ele torcia para ser um dia livre. A semana de trabalho se estendia diante dele, sem responsabilidades ou preocupações, com possibilidades ilimitadas. Os três, Bobby, o garoto e Harriet, continuaram deitados no colchão, os corpos bem próximos e tendo apenas a respiração como movimento.