O Telefone Preto e Outras Histórias

Joe Hill · Capítulo 10 de 16

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O Telefone Preto e Outras Histórias

A capa

apenas uma silhueta escura — saiu do veículo. Wyatt começou a gritar e agitar os braços, pedindo ajuda.

A CAPA

A GENTE ERA CRIANÇA.

Eu era o Raio Vermelho e subi no olmo morto no canto do quintal para escapar do meu irmão, que não era ninguém, só ele mesmo.

Os amigos dele iam lá para casa e ele queria que eu não existisse, mas eu não podia fazer nada: eu existia.

Eu usava a máscara dele e falei que, quando os amigos chegassem, ia revelar a sua identidade secreta. Ele respondeu que ia arrebentar a minha cara e ficou lá embaixo, jogando pedras na minha direção, mas arremessava que nem uma garotinha, e eu logo consegui subir a ponto de ficar fora de alcance.

Ele estava velho demais para brincar de super-herói. Aquilo tinha acontecido de repente, sem aviso. Ele passara a semana antes do Dia das Bruxas vestido de Lava, que era tão rápido que derretia o chão quando corria. Então o Dia das Bruxas terminou, e ele não queria mais ser um super-herói. Mais do que isso, queria que todo mundo esquecesse que ele já tinha sido um super-herói, ele mesmo queria esquecer aquilo, só eu que não deixava, porque estava subindo em uma árvore com a máscara dele enquanto os amigos estavam indo lá para casa.

O olmo estava morto havia anos. Sempre que ventava, as lufadas arrancavam galhos e os sopravam pelo quintal. O tronco seco estalava e se quebrava debaixo da ponta dos meus tênis. Meu irmão não iria me seguir — estava abaixo da sua dignidade — e era maravilhoso escapar dele.

No início, escalei sem pensar em nada, chegando mais alto do que jamais havia conseguido. Entrei em uma espécie de transe de subida em árvore, me livrando da punição com a altitude e a minha agilidade de garoto de sete anos. Então ouvi meu irmão gritando que ia me ignorar (prova certeira de que não ia fazer aquilo) e me lembrei do que me fizera querer escalar o olmo. Fixei os olhos em um galho longo e horizontal, um lugar em que poderia me sentar,

balançar os pés e provocar o meu irmão até ele ter um faniquito sem me preocupar com represálias. Ajustei a capa de volta sobre os ombros e continuei subindo com um propósito.

A capa iniciara sua vida como o meu cobertor da sorte e tem sido minha companheira desde que eu tinha dois anos. Com o passar do tempo, a cor mudara de um azul profundo e lustroso para um cinza opaco cor de pombo. Minha mãe cortara o tecido para ficar do tamanho de uma capa e costurara um raio vermelho de feltro no meio. Ela também cosera o emblema dos Fuzileiros Navais, um dos distintivos do meu pai, que mostrava o número 9 atravessado por um raio. O emblema viera do Vietnã, dentro do seu baú militar. Meu pai não veio junto. Minha mãe hasteou a bandeira preta dos prisioneiros de guerra no nosso alpendre dianteiro, mas, mesmo naquela época, eu sabia que ninguém estava mantendo ele preso.

Eu colocava a capa assim que chegava da escola, chupava a bainha de cetim enquanto assistia à TV, limpava a boca com ela durante a janta e, na maioria das noites, dormia enrolado nela.

Odiava tirar a capa. Eu me sentia nu e vulnerável sem ela. Era bem comprida e, se eu não tomasse cuidado, podia ficar presa debaixo dos meus pés.

Cheguei ao galho lá no alto, passei a perna sobre ele e me acomodei. Se o meu irmão não estivesse lá para testemunhar o que aconteceria a seguir, eu mesmo não teria acreditado. Depois, diria a mim mesmo que havia sido uma fantasia desesperada, uma ilusão que me dominou em um momento de terror e choque.

Nicky estava lá embaixo, a quase cinco metros de distância, olhando para cima e falando sobre o que ia fazer comigo quando eu descesse. Levantei a máscara dele, uma coisa bem Zorro, preta e com buracos para os olhos, e a balancei.

— Vem aqui me pegar, Lava — falei.

— É melhor que esteja planejando morar aí em cima pelo resto da vida.

— Por que o seu nome é Lava se você nunca lava as suas cuecas?

— Tá legal. Agora você está morto — disse ele. Meu irmão dava respostas como lançava as pedras: mal.

— Lava, Lava, Lava — falei, porque o nome era insultante o suficiente.

Conforme gritava, fui rastejando pelo galho. Peguei a capa, que tinha escorregado do meu ombro, com a mão direita. Então, quando tentei me mexer, o tecido ficou preso e eu perdi o equilíbrio. Escutei o pano se rasgar. Fui de cara no galho, machucando o queixo, apertando bem os braços. O galho deu um mergulho, depois foi para cima e voltou para baixo… e ouvi um barulho, um estalo leve que ressoou nitidamente no fresco ar de novembro. Meu irmão ficou pálido.

— Eric — gritou ele. — Eric, se segura!

Por que ele mandou eu me segurar? O galho estava quebrando

— eu precisava sair dali. Será que o choque do meu irmão era grande demais para ele perceber isso ou uma parte inconsciente dele queria me ver caindo? Congelei, meu cérebro se esforçando muito para pensar no que fazer, e, no momento em que hesitei, o galho se partiu.

Meu irmão de um pulo para trás. O galho quebrado, com seu um metro e meio, acertou o chão e se despedaçou, madeira e ramos voando para todas as direções. O céu girou acima de mim. Meu estômago deu um sobressalto de enjoo.

Levei um segundo para notar que eu não estava caindo. Que encarava o quintal como se ainda estivesse sentado no galho daquela árvore enorme.

Olhei, nervoso, para Nicky. Ele me olhou de volta — de boca aberta.

Meus joelhos estavam colados no peito. Meus braços estavam esticados, um para cada lado, como se eu estivesse me equilibrando. Eu flutuava no ar, nada me segurava lá em cima.

Balancei para a direita. Rolei para a esquerda. Eu era um ovo que não queria cair.

— Eric? — falou o meu irmão, a voz fraca.

— Nicky? — respondi no mesmo tom. Uma brisa soprou pelos galhos nus do olmo, fazendo-os se debaterem uns contra os outros.

A capa se mexeu nos meus ombros.

— Desce, Eric — disse o meu irmão. — Desce.

Reuni coragem e me forcei a observar o chão diretamente abaixo. Meu irmão estava de pé, os braços esticados e apontados para o céu, como se tivesse a intenção de agarrar os meus tornozelos e me puxar, embora estivesse longe demais de mim e afastado demais da árvore para ter qualquer chance disso.

Um brilho chamou a minha atenção e desviei o olhar. Antes, a capa estava presa ao redor do meu pescoço por um alfinete dourado que juntava as duas pontas do cobertor. Mas o alfinete tinha rasgado um dos pedaços e agora se dependurava inutilmente do outro. Lembrei-me, então, do som de pano se rasgando que tinha ouvido quando dei de cara no galho. Nada prendia a capa em mim.

O vento soprou outra vez. O olmo gemeu. A brisa passou pelo meu cabelo e arrancou a capa das minhas costas. Eu a vi dançar para longe, como se estivesse sendo puxada por fios invisíveis. E o meu apoio foi embora com ela. No segundo seguinte, rolei para a frente e o chão veio até mim a uma velocidade horrível, tão rápido, que nem tive tempo de gritar.

Atingi o solo, aterrissando em cima do galho despedaçado. Um espeto longo de madeira furou o meu peito, logo abaixo da clavícula. Depois de sarar, o ferimento deixou uma cicatriz brilhante no formato de lua crescente, minha característica mais interessante.

Quebrei a fíbula, estourei a rótula do joelho esquerdo e fraturei o crânio em dois lugares. Sangrei pelo nariz, pela boca, pelos olhos.

Não me lembro da ambulância, embora tenham me dito que nunca fiquei inconsciente de verdade. Mas me lembro do rosto do meu irmão, branco e assustado, acima do meu no quintal. Minha capa estava segura em seus punhos. Sem perceber, ele a enrolava.

Se eu tivesse qualquer dúvida sobre o que havia realmente acontecido, ela se dissiparia dois dias depois. Eu ainda estava no hospital quando o meu irmão amarrou as pontas da capa em um nó em seu pescoço e pulou do alto da escada. Ele caiu direto, dezoito degraus, pousando com o rosto no último. O hospital conseguiu colocar a gente no mesmo quarto, mas não conversamos. Ele passava a maior parte do dia de costas para mim, encarando a parede. Não sei por que não queria olhar para a minha cara —

talvez estivesse com raiva porque a capa não funcionou com ele, ou com raiva de si mesmo por pensar que funcionaria, ou só ficasse

irritado ao pensar que os outros meninos sacaneariam ele quando soubessem que tinha estraçalhado o rosto tentando ser o Super-Homem —, mas, ao menos, podia entender por que ele não conversava. Sua mandíbula estava presa com fios de aço. Ele precisou de seis pinos e duas cirurgias plásticas para reconstruir a cara em algo parecido com sua antiga aparência.

Quando saímos do hospital, a capa não estava mais em casa.

Minha mãe contou para a gente no carro. Ela a jogou no lixo e a mandou para o aterro sanitário para ser incinerada. Não haveria mais voos na residência dos Shooter.

Depois do acidente, eu me tornei uma criança diferente. Meu joelho latejava quando eu andava demais, ou quando chovia, ou quando fazia frio. Flashes de luz me davam enxaquecas explosivas.

Tinha problemas em me concentrar por grandes períodos, achava difícil acompanhar uma aula do início ao fim, às vezes me perdia em devaneios no meio das provas. Não conseguia correr, então era horrível em esportes. Não conseguia pensar, então era pior ainda nos estudos.

Era uma tristeza tentar manter o mesmo passo dos outros garotos, então me trancava em casa depois da escola para ler gibis.

Não sei qual era o meu herói favorito. Não me lembro de nenhuma história em particular. Lia quadrinhos compulsivamente, sem sentir nenhum prazer em especial ou ter uma opinião particular, lia apenas porque não conseguia resistir. Eu fica enfeitiçado pelo papel-jornal barato, pelas cores berrantes e pelas identidades secretas. As revistinhas tinham poder sobre mim como uma droga, com suas imagens de homens disparando pelo céu, furando as nuvens quando passavam por elas. Os gibis pareciam a vida. Todo o resto era um pouco fora de foco, o volume baixo demais, as cores sem brilho.

Não voei de novo por mais de dez anos.

EU NÃO ERA UM colecionador e, se não fosse pelo meu irmão, simplesmente largaria os gibis em qualquer canto. Mas Nick os lia da mesma forma compulsiva que eu, tinha o mesmo fascínio por eles. Durante anos, ele manteve as revistinhas em sacos plásticos

para protegê-las, organizadas em ordem alfabética em caixas brancas e compridas.

Então, um dia, quando eu tinha quinze anos e Nick estava no último ano do colégio Passos High, ele apareceu com uma garota, um evento inédito. Meu irmão a deixou na sala comigo, disse que ia colocar a mochila no andar de cima, e aí correu até o nosso quarto e jogou os quadrinhos fora — todos, os dele e os meus, quase oitocentas HQs. Enfiou tudo em dois sacos de lixo e escapuliu pelos fundos.

Entendo por que fez isso. Namorar era difícil para Nick. Meu irmão não se sentia seguro em relação ao rosto reconstruído, que, na verdade, não era tão ruim assim. A mandíbula e o queixo talvez fossem quadrados demais, a pele um tanto repuxada, de forma que, às vezes, ele parecia a caricatura de algum super-herói melancólico.

Mas estava longe de ser o Homem Elefante, embora houvesse um toque terrível nas suas sofríveis tentativas de sorriso, de forma que lhe parecia doloroso mover os lábios e mostrar os brancos, grandes e totalmente falsos dentes de Clark Kent. Nick não parava de se olhar no espelho, buscando algum sinal de desfiguramento, a falha que fazia com que os outros evitassem a sua companhia. Ele sempre ficava nervoso perto de garotas. Eu já estivera em mais relacionamentos, e era três anos mais novo. Com tudo isso jogando contra ele, Nick não podia arcar com ser um nerd também. Nossos gibis precisavam ir.

O nome dela era Angie. Ela tinha a minha idade e vinha de outra escola, novata demais para saber que o meu irmão era um bunda-mole. Ela cheirava a patchouli e usava uma boina tricotada a mão no vermelho, amarelo e verde da bandeira rastafári. Fazíamos literatura juntos e ela me reconheceu. No dia seguinte, haveria um teste sobre Senhor das moscas. Perguntei o que tinha achado do livro, e Angie respondeu que ainda não havia terminado, então falei que podia ajudá-la a estudar, se ela quisesse.

Quando Nick voltou, depois de jogar nossa coleção de quadrinhos fora, estávamos os dois deitados de bruços, lado a lado, assistindo a Spring Break da MTV. Peguei o livro e estava mostrando algumas partes que tinha sublinhado… uma coisa que, em geral, nunca fazia. Como mencionei, eu era um estudante ruim e

desmotivado, mas fiquei empolgado com Senhor das moscas, que me distraiu por mais ou menos uma semana e me fez querer morar em uma ilha, descalço e pelado, com a minha própria tribo de meninos para dominar e comandar em rituais selvagens. Li e reli as partes em que Jack pinta o rosto, tomado por um desejo de espalhar lamas de cores diferentes na cara, de ser primitivo, irreconhecível, livre.

Nick se sentou do outro lado de Angie, emburrado, porque não queria dividi-la comigo. Meu irmão não podia conversar sobre o livro com a gente — nunca tinha lido. Ele sempre fez aulas avançadas de literatura, onde colocavam os alunos para ler Milton e Chaucer.

Enquanto isso, eu era mediano em Aventuras na Literatura!, um curso para os futuros zeladores e técnicos de ar-condicionado.

Éramos a molecada burra e sem futuro, e a nossa idiotice era premiada com livros realmente divertidos.

De vez em quando, Angie parava para ver o que estava passando na TV e fazia alguma pergunta provocativa: Vocês acham que essa garota é uma gostosona? Seria humilhante apanhar de uma mulher em uma luta na lama ou é esse o ponto? Nunca ficava claro com quem ela estava falando, e eu normalmente respondia primeiro, só para preencher o silêncio. Nick agia como se a mandíbula estivesse costurada de novo e dava seu sorriso terrível de raiva quando minhas respostas faziam Angie rir. Uma vez, durante uma gargalhada, ela colocou a mão no meu braço. Ele ficou com raiva daquilo também.

ANGIE E EU ÉRAMOS amigos havia dois anos, antes do nosso primeiro beijo dentro de um closet, nós dois bêbados em uma festa, com outras pessoas rindo e gritando os nossos nomes do outro lado da porta. Fizemos amor pela primeira vez três meses depois, no meu quarto, com as janelas abertas e uma brisa gelada com cheiro doce de pinheiro nos refrescando. Após a nossa primeira vez, ela me perguntou o que eu queria fazer quando crescesse. Falei que queria aprender a voar de asa-delta. Eu tinha dezoito anos, ela tinha dezoito anos. Essa resposta foi satisfatória para os dois.

Após algum tempo, pouco depois de ela ter terminado o curso de enfermagem e a gente ter ido morar junto em um apartamento no

centro, ela me perguntou outra vez o que eu queria fazer. Tinha passado o verão trabalhando como pintor de casas, mas aquilo havia terminado. Ainda não encontrara nenhum trabalho para substituir o antigo, e Angie disse que eu deveria pensar um pouco no futuro.

Ela queria que eu voltasse para a faculdade. Falei que consideraria isso, e, enquanto estava considerando, perdi o prazo de matrícula para o semestre seguinte. Ela me perguntou por que eu não estudava para ser paramédico e passou vários dias juntando os documentos para eu preencher e entrar no curso: matrículas, questionários, formulários de financiamento estudantil. A pilha de folhas ficou perto da geladeira, acumulando manchas de café, até um de nós jogá-la no lixo. Não era a preguiça que me impedia. Só não suportava pensar em fazer aquilo. Meu irmão estava cursando medicina em Boston. Ele ia achar que, de uma maneira um tanto carente, eu tentava ser como ele, uma ideia que me fazia tremer de ódio.

Angie falou que deveria ter alguma coisa que eu quisesse fazer.

Respondi que queria morar com ela em Barrow, no Alasca, às margens do Círculo Ártico, e criar os nossos filhos e malamutes, e ter um jardim em uma estufa: tomates, vagens, um pouco de maconha. Ganharíamos dinheiro levando turistas para andar de trenó puxado por cães. Abandonaríamos o mundo dos supermercados, da internet banda larga e da água encanada.

Deixaríamos a TV para trás. No inverno, a aurora boreal pintaria o céu o dia inteiro. No verão, nossos filhos viveriam de forma quase selvagem, esquiando nos morros sem nome do interior, alimentando filhotes de foca brincalhões no cais atrás da nossa casa.

Nós tínhamos acabado de começar a empreitada de ser adulto e estávamos nos primeiros passos de viver a vida na companhia um do outro. Naqueles dias, quando eu mencionava nossos filhos alimentando focas, Angie me encarava de uma forma que me deixava, ao mesmo tempo, um pouco fraco e bastante confiante…

confiante sobre mim mesmo e sobre quem eu poderia ser. A própria Angie tinha os olhos grandes de foca, castanhos com um anel dourado ao redor da pupila. Ela me encarava sem piscar, me

ouvindo falar com a boca aberta, prestando tanta atenção quanto uma criança escutando sua história de ninar favorita.

Mas, depois de eu ter sido preso por dirigir bêbado, qualquer menção ao Alasca a deixava de mau humor. A prisão também custou o meu emprego — nenhuma grande perda, admito, já que na época eu entregava pizza —, e Angie estava desesperada para manter as contas pagas. Ela se preocupava, mas se preocupava sozinha, me evitando o máximo possível, o que não era fácil, já que dividíamos uma quitinete.

Ainda assim, eu mencionava o Alasca de vez em quando, tentando atraí-la de volta para mim, mas aquilo só deu a Angie um ponto onde concentrar sua raiva. Ela perguntou como seria o nosso chalé, já que eu não conseguia nem manter o nosso apartamento arrumado, mesmo sozinho em casa o dia inteiro. Ela imaginava filhos brincando entre montes de bosta de cachorro, o chão da varanda dianteira cedendo, motoneves enferrujadas e vira-latas loucos espalhados pelo quintal. Falou que tinha vontade de gritar quando eu falava sobre aquilo, era tão patético, tão distante da nossa vida. Disse que achava que eu tinha algum problema, alcoolismo, talvez, ou depressão. Queria que eu procurasse ajuda, como se tivéssemos dinheiro para isso.

Nada disso explicava por que ela me deixou — me abandonou sem aviso. Não foi o julgamento do meu caso, a bebida ou a minha falta de direção. A verdadeira razão da nossa separação era mais terrível, tão terrível que nunca conseguimos falar sobre ela. Se Angie a tivesse mencionado, eu a ridicularizaria. E eu mesmo não podia falar nada, porque a minha política era fingir que aquilo nunca tinha acontecido.

Eu estava preparando um café da manhã como jantar certa noite, bacon e ovos, quando Angie chegou do trabalho. Eu gostava de deixar tudo pronto para quando ela voltasse, parte do meu plano de mostrar a ela que eu podia estar mal, mas ainda não desistira.

Mencionei algo sobre como teríamos porcos no Yukon, defumaríamos o nosso próprio bacon, mataríamos um leitão para a ceia de Natal. Ela disse que aquilo não tinha mais graça. Foi mais a forma como ela falou do que as palavras em si. Cantei a música de Senhor das moscas — matem a porca, tirem seu sangue — para

tentar arrancar uma risada de uma coisa que nem fora engraçada em primeiro lugar, e ela falou Para, com a voz bem estridente, para com isso. Por acaso, nesse momento em particular, eu estava com uma faca na mão, que tinha usado para abrir o pacote de bacon, e a bunda de Angie estava encostada no balcão da cozinha a uma curta distância. Na minha cabeça, surgiu de repente uma imagem vívida em que eu me virava e atravessava o pescoço dela com a lâmina.

Imaginei sua mão indo rápido para o pescoço, seus olhos de filhote de foca esbugalhados de espanto, vi sangue, o vermelho brilhante de suco de cranberry escorrendo pelo seu suéter de gola V.

Conforme o pensamento me ocorreu, olhei de relance para a garganta dela — e então para os seus olhos. Angie me encarava de volta e estava com medo. Ela colocou o copo de suco de laranja com muito cuidado na pia e disse que não estava com fome e que talvez precisasse se deitar um pouco. Quatro dias depois, fui comprar pão e leite e, quando voltei, ela tinha sumido. Angie me ligou da casa dos pais para avisar que precisava de um tempo.

Foi só algo que me passou pela cabeça. Quem não pensa coisas assim de vez em quando?

QUANDO ESTAVA COM DOIS meses de aluguel atrasados, e o meu senhorio falou que conseguiria uma ordem para me despejar, eu me mudei de volta para casa. Minha mãe estava fazendo uma reforma e falei que queria ajudar. E queria mesmo. Estava desesperado para ter alguma coisa para fazer. Não trabalhava havia quatro meses e o meu caso seria julgado em dezembro.

Minha mãe tinha derrubado as paredes do meu antigo quarto, tirado as janelas. Os buracos na parede estavam cobertos por plástico e o chão estava cheio de pedaços de gesso. Eu me acomodei no porão, em uma cama de montar, entre as máquinas de lavar e de secar. Coloquei a TV em cima de um engradado na ponta da cama. Não poderia deixá-la no apartamento, precisava dela para me fazer companhia.

Minha mãe não servia para isso. No primeiro dia que passei em casa, ela só se dirigiu a mim para dizer que eu não podia usar o carro. Se quisesse me embebedar e acabar com outro veículo, teria que comprar um. A maior parte da sua comunicação era não verbal.

Ela me avisava que era hora de acordar pisando forte no andar de cima, logo acima da minha cabeça, os pés ribombando pelo teto do porão. Ela me dizia que se sentia enojada ao olhar para mim por sobre o pé de cabra, enquanto forçava as tábuas do chão do meu quarto, puxando-as com uma fúria silenciosa, como se quisesse arrancar à força todas as evidências da minha infância naquela casa.

O porão nunca fora finalizado, com seu piso de cimento esburacado e um labirinto de canos pendurados no teto. Pelo menos havia um banheiro, um banheiro inconvenientemente minúsculo com um chão florido de linóleo e um jarro de pot-pourri com aromas da floresta na caixa de descarga do vaso. Quando eu mijava lá, podia fechar os olhos, inalar aquele cheiro e imaginar o vento soprando por cima dos grandes pinheiros do norte do Alasca.

Certa noite, acordei na minha cela subterrânea por causa do frio, com a respiração condensando em tons de prata e azul na luz lançada pela TV, que eu deixara ligada. Tinha tomado algumas cervejas antes de ir para a cama e agora estava com tanta vontade de urinar, que chegava a doer.

Em geral, eu dormia sob uma grande colcha costurada à mão pela minha avó, mas deixei cair comida chinesa nela, então a enfiei na máquina de lavar e depois esqueci de colocar para secar. Para substituí-la, pilhei o armário de roupa de cama antes de me deitar, pegando um monte dos cobertores velhos da minha infância: um edredom azul decorado com os personagens de O império contra-ataca, uma manta vermelha com esquadrilhas de triplanos Fokker planando. Sozinho, nenhum deles era grande o suficiente para me cobrir, mas os espalhei por cima do meu corpo de forma a ficarem sobrepostos, um para os pés, outro para as pernas e a virilha, um terceiro para o peito.

Eles me mantiveram aquecido o suficiente para cair no sono, mas agora estavam desarrumados e me encolhi todo para me aquecer, os joelhos quase encostando no peito, os braços os envolvendo, os pés descalços e descobertos no frio. Não conseguia sentir os dedos, como se eles já tivessem sido congelados e amputados.

Minha cabeça estava grogue. Ainda não estava completamente desperto. Precisava mijar e me aquecer. Levantei e fui para o banheiro no escuro, o cobertor menor jogado sobre os ombros para manter o frio afastado. Por causa do sono, pensei que ainda estava todo enrolado para continuar quente, com os joelhos perto do peito, mesmo que estivesse me movendo para a frente. Foi apenas quando cheguei em frente ao vaso e me atrapalhei com a cueca que olhei para baixo e vi que os meus joelhos estavam encolhidos e que os meus pés não encostavam no chão. Eles se balançavam uns trinta centímetros acima do assento da privada.

O cômodo girou ao meu redor e fiquei zonzo por um segundo, não por choque, mas por uma espécie de deslumbre sonhador. Não havia choque algum, na verdade. Acho que parte de mim aguardara, por todo aquele tempo, voar de novo, quase à espera daquilo.

Não que aquilo pudesse ser descrito como voar. Era mais flutuar com controle. Eu era um ovo outra vez, inclinado e atrapalhado.

Meus braços balançavam nervosos nas laterais. As pontas dos dedos de um rasparam na parede e consegui me estabilizar um pouco.

Senti um tecido passando pelos meus ombros e olhei para baixo com cuidado, como se um movimento repentino dos meus olhos pudesse me fazer rodar até o chão. Pela visão periférica, vi a bainha de cetim azul de um cobertor e parte de um emblema vermelho e amarelo. Outra onda de tontura passou por mim e me balançou no ar. O cobertor escorregou, exatamente como fizera naquele dia quatorze anos atrás, e caiu dos meus ombros. Desabei no mesmo instante, bati o joelho na lateral do vaso e uma das minhas mãos acabou indo parar dentro dele, mergulhando na água gelada.

SENTEI-ME COM A CAPA estendida sobre os joelhos, analisando-a conforme os primeiros raios prateados da aurora iluminavam as janelas altas nas paredes do porão.

A capa era ainda menor do que eu me lembrava, mais ou menos do tamanho de uma fronha grande. O raio de feltro vermelho ainda estava costurado no verso, embora alguns pontos tivessem se soltado e uma das extremidades do raio estivesse enrugada para cima. O emblema dos Marines do meu pai também continuava lá, foi

ele que vi pelo rabo do olho: um raio atingindo um fundo da cor do fogo.

É claro que a minha mãe não tinha mandado a capa para ser incinerada no aterro sanitário. Ela nunca jogava nada fora, sob a teoria de que poderia encontrar algum uso para o objeto no futuro.

Acumulação era a sua mania, não gastar dinheiro sua obsessão. Ela não entendia nem um pouco de obras, mas nunca passaria por sua cabeça pagar alguém para fazer esse serviço. As paredes do meu quarto seriam rasgadas, o cômodo ficaria à mercê das intempéries e eu continuaria dormindo no porão até ela começar a usar fraldas e eu ser o responsável por trocá-las. O que ela via como autoconfiança era, na verdade, uma teimosia típica dos brancos pobres, e não demorou muito para aquilo me irritar e eu parar de ajudar ela.

A borda de cetim da capa ainda era grande o suficiente para ser amarrada em volta do meu pescoço.

Fiquei sentado na ponta da cama por um bom tempo, com os pés para cima, empoleirado feito um pombo em uma marquise, o cobertor chegando até a base da minha coluna. O chão estava a quinze centímetros de distância, mas eu o encarava como se fosse uma queda de dez metros. Por fim, me joguei.

E continuei no lugar. Balancei, vacilante, para a frente e para trás, mas não caí. Meu fôlego ficou preso atrás do diafragma e levei vários instantes para forçar a respiração para fora, em um grande espirro equino.

Ignorei os sapatos de salto de madeira da minha mãe batendo acima da minha cabeça às nove da manhã. Ela tentou de novo às dez, dessa vez abrindo a porta para gritar Não vai levantar, não?

Gritei de volta dizendo que já tinha levantado. Era verdade: eu tinha me levantado a sessenta centímetros do chão.

Àquela altura, já estava voando há horas… mas, novamente, descrever aquilo como voo fazia surgir a imagem errada. Você vê o Super-Homem. Imagine, em vez disso, um homem sentado em um tapete mágico com os joelhos bem junto do peito. Agora, tire o tapete, e você vai estar perto.

Eu só tinha uma velocidade, que chamaria de majestosa. Eu me movia na velocidade de um carro alegórico em um desfile. Tudo o

que precisava fazer para seguir adiante era olhar para a frente. Era como se eu fosse impulsionado pela força de um gás poderoso e invisível, a flatulência dos deuses.

Por um tempo, tive dificuldade de fazer curvas, mas enfim aprendi a mudar de direção, da mesma maneira que uma pessoa conduz uma canoa. Conforme me movia pelo cômodo, esticava um dos braços e recolhia o outro. Assim, sem esforço, eu virava para a direita ou para a esquerda, dependendo de qual remo metafórico era colocado na água. Assim que consegui pegar o jeito, o ato de virar se tornou empolgante, a forma como eu acelerava nas curvas, uma aceleração súbita que produzia um friozinho na barriga.

Eu podia aumentar a distância do chão ao me inclinar para trás, como em uma poltrona reclinável. Quando tentei pela primeira vez, fui para cima tão rápido, que bati a cabeça em um cano de cobre, com força suficiente para ver pontos pretos rodopiando. Mas apenas ri e esfreguei o galo no meio da testa.

Parei mais ou menos ao meio-dia porque estava exausto, e me joguei na cama com os músculos da minha barriga tremendo, desamparados, pelo esforço necessário para manter os joelhos encolhidos durante tanto tempo. Esqueci de comer e fiquei zonzo com a queda de açúcar no sangue. Ainda assim, mesmo deitado debaixo das cobertas, no porão que ia esquentando aos poucos, senti que estava voando. Fechei os olhos e naveguei até os cantos mais distantes do sono.

***

NO FIM DA TARDE, tirei a capa e fui até a cozinha para preparar sanduíches de bacon. O telefone tocou e atendi de maneira automática. Era o meu irmão.

— A mãe disse que você não está ajudando ela — falou ele.

— Oi. Eu estou bem. E você?

— Ela também falou que você passa o dia inteiro assistindo à TV

no porão.

— Eu não faço só isso — respondi. Soei mais na defensiva do que gostaria. — Se está tão preocupado, por que não vem aqui e banca o ajudante um fim de semana desses?

— No terceiro ano de medicina não dá para tirar folga sempre que tenho vontade. Preciso reservar até a hora de ir ao banheiro com antecedência. Na semana passada, passei dez horas no pronto-socorro. Já deveria ter saído, mas aí apareceu uma senhora com um sangramento vaginal forte… — Dei uma risadinha quando ele falou aquilo, uma reação que foi recebida por um longo momento de silêncio reprovador. Então Nick continuou: — Fiquei lá por mais uma hora para garantir que ela ficaria bem. É isso que quero para você. Que você faça algo que possa te elevar desse seu mundinho.

— Estou fazendo algumas coisas.

— Que coisas? O que você fez hoje, por exemplo?

— Hoje… hoje não foi um dia normal. Passei a noite em claro.

Fiquei… meio que… flutuando de um lado para o outro. — Não consegui evitar e ri de novo.

Ele ficou em silêncio por um segundo. E aí falou:

— Eric, se você estivesse em queda livre, acha que conseguiria perceber?

SAÍ DA PONTA DO telhado como um nadador deslizando da beira da piscina para a água. Minhas tripas se agitaram e o meu escalpo formigou, tão gelado que chegava a queimar, meu corpo inteiro tenso esperando a queda. É o fim, pensei, e passou pela minha cabeça que toda aquela manhã voando no porão fora um delírio, uma fantasia esquizofrênica, e agora eu ia cair e me arrebentar, a gravidade se atendo à realidade. Em vez disso, caí um pouquinho e depois alcei voo. Minha capa da infância se agitou nos meus ombros.

Enquanto esperava a minha mãe ir para a cama, pintei o rosto.

Me recolhi ao banheiro do porão e usei um dos batons dela para fazer uma máscara vermelha brilhante, um par de anéis interligados em volta dos olhos. Não queria ser visto enquanto estivesse voando e, se fosse, achei que os círculos vermelhos distrairiam qualquer testemunha em potencial dos meus traços. Além disso, eu me senti bem ao pintar o rosto, de uma forma esquisita, a sensação do batom firme e suave passando pela minha pele era excitante. Quando terminei, permaneci em frente ao espelho, admirando por um tempo.

Eu gostava da minha máscara vermelha. Era simples, mas deixava

o meu rosto estranho. Fiquei curioso sobre o novo sujeito que me encarava no reflexo. Sobre o que ele queria. O que podia fazer.

Depois da minha mãe se trancar no quarto para dormir, subi, passei pelo buraco na parede do meu quarto onde ficava a lucarna e cheguei ao telhado. Algumas telhas tinham desaparecido, outras estavam soltas e tortas. Outra coisa que a minha mãe tentaria consertar sozinha para economizar alguns centavos. Ela teria sorte de não escorregar do telhado e quebrar o pescoço. Qualquer coisa poderia acontecer ali, onde o mundo encontra o céu. Ninguém sabia disso melhor do que eu.

O frio machucou o meu rosto e deixou as minhas mãos dormentes. Permaneci sentado, flexionando os dedos por um bom tempo, juntando coragem para superar cem mil anos de evolução que gritavam comigo, dizendo que eu morreria se pulasse. Então pulei, e fiquei suspenso no ar límpido e gelado dez metros acima do quintal.

Você deve estar querendo ouvir agora que senti uma onda de animação, que comemorei com a emoção do voo. Não aconteceu nada disso. O que senti foi bem mais sutil. Minha pulsação acelerou.

Prendi a respiração por um segundo. Uma tranquilidade foi se espalhando dentro de mim, como a tranquilidade do ar. Eu estava concentrado em mim mesmo, em me manter equilibrado sobre a bolha invisível embaixo de mim (o que talvez dê a impressão de que eu conseguia sentir algo sob a minha bunda, uma espécie de suporte que não dava para ver; eu não conseguia, e era por isso que estava sempre me contorcendo em busca de equilíbrio). Tanto por instinto quanto por hábito, juntei os joelhos ao peito e mantive os braços esticados.

A lua estava apenas um pouco maior que uma crescente, mas não clara o suficiente para produzir sombras escuras e angulosas no chão ou para fazer os quintais congelados abaixo brilharem como se a grama fosse cromada.

Deslizei adiante. Fiz algumas curvas ao redor do topo de um bordo sem folhas. Já fazia muito tempo que o velho olmo não estava mais conosco, quase oito anos antes, ele acabara partindo em dois durante uma ventania. A parte de cima foi direto para a casa, e um

galho longo despedaçou uma das janelas do meu quarto, como se estivesse atrás de mim, tentando me matar.

Estava frio, e a temperatura caía conforme eu ganhava altitude.

Não me importei. Queria ficar acima de tudo.

A cidade fora construída nas encostas de um vale, uma cuia sombria e rudimentar, cintilando com as luzes. Ouvi uma buzina chorosa à minha orelha esquerda, e o meu coração deu um sobressalto. Procurei pelo céu preto como nanquim e vi um marreco, com a cabeça escura e um pescoço esmeralda, batendo as asas e me encarando com curiosidade. No entanto, ele não ficou ali por muito tempo e logo mergulhou, fez uma curva para o sul e desapareceu.

Por um tempo, eu não sabia para onde estava indo. Fiquei nervoso por um segundo, enquanto não sabia bem como descer sem cair 250 metros. No entanto, quando eu não conseguia mais dobrar os dedos ou sentir o rosto, me inclinei para a frente e comecei a mergulhar em direção ao solo, descendo devagar, como tinha praticado por horas no porão.

Soube para onde ia quando planei sobre a Powell Avenue.

Flutuei por três quarteirões, subindo uma vez para não bater no fio que sustentava um sinal de trânsito, então virei para a esquerda e voei daquela forma sonhadora até a casa de Angie. Ela deveria estar saindo do hospital naquele instante.

Só que chegou quase uma hora atrasada. Fiquei sentado no teto da garagem enquanto Angie parou na entrada com o velho Civic marrom que fora nosso, sem para-choque e com o capô amassado no lugar em que eu bati na caçamba de lixo na minha tentativa de escapar da polícia a baixa velocidade.

Angie estava maquiada e usava a saia verde com estampa de flores tropicais, a saia que só era usada nas reuniões de equipe que aconteciam no fim do mês. Não era fim do mês. Permaneci sentado no telhado de zinco da garagem e a observei andando de salto alto, meio desequilibrada, até a porta da frente.

Em geral, ela tomava banho depois de voltar do trabalho. Eu não tinha mais nada para fazer.

Escorreguei pelo telhado da garagem, me encolhi e alcei voo como um balão preto até o terceiro andar da casa vitoriana alta e estreita dos pais dela. As luzes do quarto de Angie estavam apagadas. Eu me aproximei da janela, espiando lá dentro, olhando para a porta e esperando ela abrir. Mas Angie já estava lá e, no segundo seguinte, ligou um abajur bem à esquerda da janela, sobre uma cômoda baixa. Ela olhou para mim e eu a encarei de volta sem me mexer — não conseguia me mexer, estava chocado demais para fazer qualquer som. Angie me observou com o olhar cansado, sem demonstrar interesse ou surpresa. Ela não me viu, não conseguiu ver nada além do próprio reflexo. Eu me perguntei se alguma vez ela conseguira me ver.

Continuei flutuando enquanto ela tirava a saia por cima da cabeça e se remexia toda para se livrar de uma cinta. O quarto era uma suíte, e Angie teve a consideração de deixar a porta aberta. Eu a vi tomar banho através do vidro do boxe. O banho foi longo, e ela ergueu os braços para jogar os cabelos cor de mel para trás, a água quente batendo nos seios. Eu já a vira tomando banho antes, mas há muito tempo não era tão interessante. Queria que ela tivesse se masturbado com o chuveirinho, algo que Angie me disse que fazia na adolescência, mas não aconteceu.

Logo a janela ficou cheia de vapor e eu já não conseguia ver tão nitidamente. Observei a silhueta rosada se mover de lá para cá.

Então ouvi sua voz. Angie estava no telefone. Perguntava para alguém por que a pessoa estava estudando em um sábado à noite.

Falou que estava entediada, que queria brincar um pouco, suplicando com um tom de petulância erótica.

Conforme a condensação no quarto começou a se dissipar, um círculo claro surgiu no meio da janela, expandindo-se e revelando o cômodo aos poucos. Angie usava uma camisola branca e uma calcinha preta, e estava sentada a uma escrivaninha pequena, o cabelo enrolado na toalha. Tinha desligado o telefone e estava agora jogando cartas no computador, de vez em quando digitando no teclado para mandar uma mensagem. Havia uma taça de vinho branco ao seu lado. Eu a observei bebendo. Nos filmes, os voyeurs veem modelos rebolando de um lado para outro em lingerie sexy, mas o banal é excitante o suficiente, lábios em uma taça de vinho, uma calcinha esticada sobre uma bunda branca.

Quando o jogo acabou, ela parecia feliz consigo mesma, mas ainda agitada. Deitou-se na cama, ligou a televisãozinha e zapeou pelos canais. Parou no canal de documentários da natureza para ver focas trepando. Uma subiu nas costas da outra e começou a ir para cima e para baixo, a banha se mexendo sem parar. Angie olhou para o computador com desejo.

— Angie — falei.

Ela pareceu levar um instante para registrar que escutara alguma coisa. Então se sentou e se inclinou para a frente, ouvindo os barulhos da casa. Repeti o nome dela. Suas pálpebras piscaram de nervoso. De uma maneira quase relutante, ela virou o rosto para a janela, mas, de novo, não conseguiu ver além do seu reflexo… até eu bater no vidro.

Por reflexo, seus ombros deram um salto. A boca se abriu em um grito, mas ela não emitiu nenhum som. Um segundo depois, ela saiu da cama e se aproximou da janela com passadas hesitantes.

Olhou para o lado de fora. Eu acenei. Ela procurou por uma escada embaixo de mim, então ergueu o olhar para a minha cara. Aí, ficou tonta e colocou as mãos sobre a cômoda para se equilibrar.

— Destranca a janela — falei.

Os dedos dela tiveram dificuldade para abrir o trinco. Por fim, ela conseguiu.

— Meu Deus — disse ela. — Meu Deus. Meu Deus. Como você está fazendo isso?

— Não sei. Posso entrar?

Me estiquei sobre o peitoril, rodando e mudando de posição, de forma que um dos braços entrou no quarto dela, mas as minhas pernas ficaram para fora.

— Não — falou ela. — Não acredito.

— É real.

— Como?

— Não sei. — Agarrei a ponta da capa. — Mas ela já fez isso antes. Há muito tempo. Sabe o meu joelho e a cicatriz no meu peito? Contei para você que tinha caído de uma árvore, lembra?

Um olhar surpreso, misturado com compreensão repentina, se espalhou pelo seu rosto.

— O galho se partiu e caiu. Mas você não. Não no início. Você continuou no ar. Estava usando a capa, e era como mágica, e você não caiu.

Ela já sabia. Ela já sabia, e eu não sabia como, porque nunca tinha contado para ela. Eu podia voar, e ela era médium.

— Nicky me contou — falou, vendo a minha confusão. — Ele disse que, quando o galho caiu, pensou ter visto você voando. Falou que tinha tanta certeza, que ele mesmo tentou voar, e foi isso que aconteceu com a cara dele. A gente estava conversando, e ele queria me explicar como acabou com dentes falsos. Nick disse que era maluco naquela época. Que vocês dois eram.

— Quando ele conversou com você sobre os dentes? —

perguntei. Meu irmão nunca conseguiu superar a insegurança sobre o próprio rosto, ainda mais a boca, e não gostava de falar sobre os dentes.

Ela balançou a cabeça.

— Não lembro.

Eu me virei no peitoril e coloquei os pés em cima da cômoda.

— Quer ver como é voar?

Os olhos dela ficaram vidrados de descrença. A boca se abriu em um sorriso vazio e confuso. Então ela inclinou a cabeça e apertou os olhos.

— Como você está fazendo isso? — perguntou. — Sério.

— É alguma coisa com a capa. Não sei o quê. Magia, acho.

Quando a coloco, consigo voar. É só isso.

Seus dedos encostaram no lado dos meus olhos, e me lembrei da máscara que tinha desenhado com batom.

— E essa coisa na sua cara? O que ela faz?

— Faz eu me sentir sexy.

— Puta merda, você é esquisito. E eu morei com você por dois anos. — Mas Angie ria.

— Quer voar?

Escorreguei o restante do corpo para dentro do quarto, na direção dela, e apoiei as pernas na lateral da cômoda.

— Senta no meu colo. Vamos dar uma volta no quarto.

Ela olhou do meu colo para o meu rosto, agora com um sorriso pequeno e desconfiado. Uma brisa entrou pela janela atrás de mim,

agitando a capa. Ela tremeu e se protegeu com os braços, e então olhou para si mesma, notando que estava de calcinha. Balançou a cabeça e se livrou da toalha que enrolava o cabelo ainda molhado.

— Me dá um minuto.

Foi até o closet e fechou a porta, procurando pelos casacos.

Enquanto fazia isso, um gemido deplorável veio da televisão, e o meu olhar foi para a tela. Uma foca mordia furiosamente o pescoço de outra, que uivava. Um narrador informou que os machos dominantes usam todas as armas à disposição para expulsar rivais que podem desafiá-los ao se aproximar das fêmeas. O sangue parecia suco de cranberry derramado no gelo.

Angie pigarreou para chamar a minha atenção, e, quando olhei para ela, sua boca fez um bico por um segundo, os cantos para baixo e um olhar de irritação. Às vezes, bastava um momento para eu me perder em um programa de TV, mesmo que fosse algo que não me interessasse nem um pouco. Não conseguia evitar. É como se eu fosse o negativo e a televisão, o positivo. Nós dois juntos formamos um circuito, e nada além do circuito importa. Quando eu lia quadrinhos, era a mesma coisa. É uma fraqueza, admito, mas fiquei um pouco mal-humorado ao vê-la me julgando.

Ela passou uma mecha de cabelo molhado por trás da orelha e me lançou um sorriso rápido e charmoso, tentando fingir que não acabara de me dar o Olhar. Me inclinei para trás, e ela se sentou, envergonhada, nas minhas coxas.

— Por que acho que isso é uma brincadeira pervertida para me fazer sentar no seu colo? — perguntou ela. Virei para a frente e me preparei para decolar. Ela disse: — Vamos cair no…

Deslizei da lateral da cômoda para o ar. Oscilei para a frente, para trás e para a frente de novo, e ela apertou o meu pescoço com os braços e deu um grito, uma espécie de som feliz, risonho e assustado.

Não sou muito forte, mas não era como carregá-la… Na verdade, era como se Angie estivesse sentada no meu colo e estivéssemos juntos em uma cadeira de balanço invisível. Tudo que tinha mudado era o meu centro de gravidade, e agora eu me sentia bambo, uma canoa com gente demais dentro.

Flutuei com ela ao redor e depois por cima da cama. Angie gritou-riu-gritou de novo.

— Essa é a coisa mais doida que… — disse ela. — Meu Deus, ninguém vai acreditar. Você sabe que vai se tornar a pessoa mais famosa da história, né? — Então, ela apenas me encarou, os olhos brilhando como costumavam fazer quando eu mencionava o Alasca.

Fui até o meu poleiro na cômoda, mas, quando cheguei lá, continuei, abaixei a cabeça e passei direto pela janela.

— Não! O que está fazendo? Jesus Amado, está frio! — Ela apertava o meu pescoço tão forte que era difícil respirar.

Fui na direção da tripa de lua prateada.

— Fique com frio — falei. — Só por um minuto. Não vale a pena… para isso? Para voar desse jeito? Que nem nos sonhos?

— Sim — respondeu ela.

— Não é incrível?

— É.

Angie não parava de tremer, o que fazia os seios vibrarem de uma maneira interessante embaixo da camisa fina. Continuei ganhando altura até uma esquadrilha de nuvens com as bordas cor de mercúrio. Gostava do jeito como ela se agarrava em mim e também da maneira como tremia.

— Quero voltar — disse ela.

— Ainda não.

Minha camisa estava um pouco aberta, e ela enfiou o rosto no meu peito, o nariz gelado encostando na minha pele.

— Já faz um tempo que queria falar com você. Fiquei com vontade de te ligar esta noite. Estava pensando em você.

— E para quem ligou?

— Para ninguém — disse ela, percebendo de repente que eu estivera do lado de fora da janela, ouvindo. — Para Hannah. Sabe?

Do trabalho.

— Ela está estudando ou coisa assim? Ouvi você perguntar por que ela estava estudando no sábado.

— Vamos voltar.

— Claro.

Ela enfiou o rosto no meu peito mais uma vez. O nariz raspou na minha cicatriz, um corte prateado como a lua. Eu ainda subia na

direção do astro. Não parecia tão distante. Ela passou o dedo pela velha cicatriz.

— É inacreditável — sussurrou. — Olha como você teve sorte.

Só mais uns centímetros para baixo e o galho poderia ter atravessado o seu coração.

— Quem disse que não atravessou? — falei, me inclinei para a frente e a soltei.

Angie segurou o meu pescoço, batendo os pés, e tive que arrancar cada um dos seus dedos antes dela cair.

QUANDO O MEU IRMÃO e eu brincávamos de super-heróis, ele sempre me fazia ser o vilão.