O Telefone Preto e Outras Histórias

Joe Hill · Capítulo 11 de 16

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O Telefone Preto e Outras Histórias

Último suspiro

Alguém tem que ser o vilão.

ULTIMAMENTE, MEU IRMÃO TEM dito que eu deveria pegar um voo para Boston qualquer noite dessas, para a gente tomar uns drinques. Acho que ele quer me dar alguns conselhos de irmão mais velho, me dizer que preciso me reerguer, superar. Talvez queira compartilhar o luto. Tenho certeza de que ele está de luto também.

Qualquer noite dessas, acho que vou… pegar um voo para vê-lo.

Mostrar a capa para ele. Ver se ele não quer experimentar. Ver se não quer tentar dar um pulo da janela do seu apartamento no quinquagésimo andar.

Talvez ele não queira, não depois do que aconteceu da última vez. Pode ser que precise de algum incentivo, um empurrãozinho do irmão mais novo.

E quem sabe? Talvez, se ele sair da janela usando a minha capa, possa acabar voando em vez de cair no abraço frio e quieto da noite.

Mas acho que não. Não funcionou quando a gente era criança.

Por que funcionaria agora? Por que funcionaria, e ponto final?

A capa é minha.

ÚLTIMO SUSPIRO

UMA FAMÍLIA ENTROU PARA dar uma olhada, pouco antes do meio-dia: um homem, uma mulher e o filho. Eram os primeiros visitantes do dia — e, na opinião de Alinger, seriam os únicos, pois o museu nunca ficava cheio — e ele estava livre para acompanhá-los.

Alinger os encontrou na chapelaria. A mulher ainda estava com um dos pés na pequena escada do lado de fora, hesitante em seguir em frente. Ela observava o marido por cima da cabeça do filho, lançando um olhar incerto, preocupado, para ele. O marido franziu as sobrancelhas. Suas mãos estavam na lapela do sobretudo de pele de carneiro, mas ele não parecia ter certeza se devia retirá-lo ou não. Alinger vira aquilo centenas de vezes antes. Assim que as pessoas entravam e olhavam além do vestíbulo para o salão com sua escuridão típica de funerária, começavam a ficar em dúvida, consideravam se aquele era mesmo o lugar certo, alimentavam a ideia de dar meia-volta. Apenas o menininho parecia tranquilo, retirando o casaco e o pendurando em um dos ganchos baixos da parede.

Antes que pudessem escapar, Alinger pigarreou para chamar a atenção da família. Ninguém ia embora depois de ser visto; na batalha entre ansiedade e regras de etiqueta, as regras sempre ganham. Ele uniu as mãos e sorriu para os visitantes de uma forma que torcia para parecer reconfortante, familiar. O efeito, no entanto, foi justamente o contrário. Alinger era cadavérico, com dois metros de altura e as têmporas afundadas em concavidades escuras. Seus dentes (todos originais, mesmo aos oitenta anos) eram pequenos e cinzentos, e davam a impressão desagradável de terem passado por um processo de preenchimento. O pai se encolheu um pouco.

Sem perceber, a mulher pegou a mão do filho.

— Bom dia. Sou o dr. Alinger. Entrem, por favor.

— Ah… olá — disse o pai. — Desculpe incomodá-lo.

— Incômodo algum. Estamos abertos.

— Sim. Que bom! — falou ele, com um entusiasmo que não convencia ninguém. — Então, o que nós… — Então sua voz foi desaparecendo e ele ficou quieto. Pode ser que tivesse se esquecido do que ia dizer, ou não sabia como colocar as palavras, ou não tinha coragem.

A esposa assumiu.

— Ouvimos falar que tem uma exibição aqui. É um tipo de museu científico?

Alinger sorriu daquele jeito novamente, e a pálpebra direita do pai começou a tremer sem parar.

— Ah. A senhora deve ter ouvido mal — informou Alinger. —

Este não é um museu da ciência. Este é um museu do silêncio.

— Hã? — disse o pai.

A mãe fechou o rosto.

— Acho que ainda estou ouvindo mal.

— Vem, mãe — disse o menino, livrando sua mão do aperto da mulher. — Vem, pai. Quero dar uma olhada lá dentro. Vamos.

— Por favor — disse Alinger, dando um passo para trás e gesticulando para o saguão com a mão esquelética de dedos compridos. — Ficarei feliz em lhes oferecer uma visita guiada.

AS CORTINAS ESTAVAM FECHADAS, de forma que o cômodo, com seus painéis de mogno, estava escuro como um teatro no instante antes do espetáculo começar. Os exibidores, no entanto, eram iluminados de cima por spots de luz embutidos no teto. Nas mesas e nos pedestais havia o que pareciam ser vidros cilíndricos vazios polidos até ficarem brilhando, ampolas tão incandescentes que faziam a escuridão ao redor parecer muito mais sombria.

Cada um tinha o que parecia ser um estetoscópio ligado a ele, o diafragma preso ao pote, lacrado com um adesivo claro. As hastes auriculares aguardavam alguém para pegá-las e escutar. O garoto foi na frente, seguido pelos pais e, por fim, Alinger. Eles pararam no primeiro exibidor, um jarro sobre um pedestal de mármore, localizado logo depois da entrada do saguão.

— Não tem nada aqui dentro — disse o menino. Olhou ao redor, examinando o cômodo inteiro, os outros vidros selados. — Não tem nada dentro de nenhum deles. Estão todos vazios.

— Rá — falou o pai sem humor.

— Não exatamente — disse Alinger. — Os jarros são hermeticamente fechados. Em cada um há o último suspiro de uma pessoa. Tenho a maior coleção de últimos suspiros do mundo, mais de cem. Alguns desses recipientes contêm a expiração final de pessoas bem famosas.

Então a mulher começou a rir, a rir de verdade, não uma risada falsa. Colocou uma das mãos sobre a boca e tremeu, mas não conseguiu abafar o som por completo. Alinger sorriu. Já fazia anos que colocara a coleção em exposição. Estava acostumado a qualquer tipo de reação.

O menino, contudo, se voltara para o vidro bem à sua frente com os olhos absortos. Pegou as hastes auriculares do dispositivo que parecia, mas não era, um estetoscópio.

— O que é isso? — perguntou ele.

— É o mortetoscópio — informou Alinger. — Bastante sensível.

Coloque-o e ouvirá o último suspiro de William R. Sied.

— Ele é famoso? — questionou o garoto.

Alinger assentiu.

— Por um tempo, foi uma celebridade… daquela maneira que criminosos se tornam celebridades. Uma fonte de ultraje e fascínio públicos. Quarenta e dois anos atrás, ele se acomodou na cadeira elétrica. Eu mesmo emiti o atestado de óbito. Ele ocupa lugar de honra no meu museu. Foi o primeiro último suspiro que capturei. Àquela altura, a mulher já tinha se recuperado, embora mantivesse um lenço amassado junto aos lábios, como se precisasse se esforçar bastante para conter uma nova explosão de júbilo.

— O que ele fez? — perguntou o menino.

— Estrangulou crianças — respondeu Alinger. — Ele as mantinha dentro de um freezer e as tirava de vez em quando para dar uma olhada. É como sempre digo: as pessoas colecionam qualquer coisa. — Ele se agachou para ficar da mesma altura do garoto. — Vá em frente e escute, se quiser.

O menino colocou as hastes nos ouvidos com os olhos fixos, sem dar uma única piscada, no recipiente fúlgido. Escutou com

atenção por um tempo, então suas sobrancelhas se juntaram e ele fez uma carranca.

— Não consigo ouvir nada. — Suas mãos começaram a ir na direção das hastes.

Alinger o impediu.

— Espere. Há muitos tipos diferentes de silêncio. O silêncio de uma concha. O silêncio após um tiro. O último suspiro dele ainda está aí. Sua audição precisa de algum tempo para se aclimatar.

Logo você poderá ouvi-lo. O silêncio final e particular.

O menino inclinou a cabeça e fechou os olhos. Os adultos o observaram.

Então seus olhos se abriram e ele olhou para cima, o rosto redondo brilhando um pouco de entusiasmo.

— Escutou? — indagou Alinger.

O garoto retirou as hastes.

— É como um soluço, só que ao contrário! Sabe? Como… —

Ele parou e puxou o ar, produzindo uma arfada pequena e sem som.

Alinger passou a mão nos cabelos e se aprumou.

A mãe limpou os olhos com o lenço.

— E o senhor é médico?

— Aposentado.

— Não acha isso pouco científico? Mesmo que conseguisse inventar alguma maneira de realmente capturar o pedacinho final de monóxido de carbono expirado por uma pessoa…

— Dióxido — disse ele.

— Isso não faria som. Não dá para engarrafar o som do último suspiro de alguém.

— Não — concordou Alinger. — Mas não é o som que foi guardado. É apenas um certo silêncio. Todos nós temos silêncios diferentes. Seu marido não tem um silêncio para quando está contente e outro para quando está nervoso com você, dona? Seus ouvidos conseguem diferenciar até entre tipos específicos de nada.

Ela não gostava de ser chamada de dona, então cerrou os olhos para ele e abriu a boca para dizer algo desagradável, mas o marido falou primeiro, dando um motivo para Alinger dar as costas a ela. O

homem fora até um jarro sobre uma mesa encostada na parede, ao lado de uma poltrona acolchoada.

— Como você captura os suspiros?

— Com um aspirador. Uma bomba pequena que puxa as expirações de uma pessoa para um recipiente selado a vácuo.

Mantenho-o na minha bolsa de médico o tempo todo, só por garantia. Eu mesmo o criei, embora aparelhos semelhantes existam desde o início do século XIX.

— Aqui diz Poe — falou o pai, apontando para o cartão branco em frente ao jarro.

— Sim — respondeu Alinger, tossindo com timidez. — As pessoas colecionam últimos suspiros desde a invenção do maquinário que tornou esse hobby possível. Admito que paguei doze mil dólares por esse. Quem me ofereceu foi o tataraneto do médico que o viu morrer.

A mulher começou a rir de novo.

Paciente, Alinger continuou:

— Pode parecer muito dinheiro, mas acreditem, foi uma pechincha. Scrimm, em Paris, recentemente pagou o triplo pelo último suspiro de Enrico Caruso.

O pai passou os dedos pelo mortetoscópio preso ao jarro etiquetado como Poe.

— Alguns silêncios parecem ressonar com um sentimento —

informou Alinger. — É quase possível senti-los tentando articular uma ideia. Muitos dos que escutam o último suspiro de Poe começam, após um tempo, a ter uma noção de uma única palavra que não foi dita, a expressão de um desejo bastante específico.

Escute e veja se consegue ter a mesma sensação.

O pai se curvou e colocou as hastes nos ouvidos.

— Isso é ridículo — disse a mulher.

O pai ouviu com atenção. O filho ficou do seu lado, apertando a perna dele.

— Posso escutar, pai? — pediu o garoto. — Posso?

— Shh — respondeu ele.

Ficaram todos em silêncio, menos a mulher, que sussurrava para si mesma num tom de perplexidade nervosa.

“Uísque” foi a palavra formada pelos lábios do pai, mas sem emitir som.

— Agora, vire o cartão — falou Alinger.

O homem girou o cartão branco que dizia

. No verso, havia a

palavra

.

Ele retirou as hastes auriculares com o rosto solene e os olhos encarando o jarro de forma respeitosa.

— É claro. O alcoolismo. Pobre homem. Sabe, decorei “O corvo”

quando estava na sexta série — falou o pai. — E recitei o poema na frente da turma toda sem errar uma única vez.

— Ah, tá bom — disse a mulher. — É um truque. Provavelmente tem um alto-falante escondido debaixo do jarro e, quando vocês escutam, estão ouvindo uma gravação de alguém sussurrando uísque.

— Não ouvi um sussurro — falou o pai. — Foi apenas uma ideia… como a voz de outra pessoa na minha cabeça… bastante desapontada…

— O volume deve ser baixo — disse ela. — Então, tudo é muito subliminar. Como fazem nos cinemas drive-in.

O garoto colocou as hastes nos ouvidos para não ouvir a mesma coisa que o seu pai tinha não ouvido.

— Todas essas pessoas são famosas? — questionou o homem.

Seu rosto estava pálido, embora houvessem pequenos pontos vermelhos no alto das bochechas, como se estivesse com febre.

— Ah, não — respondeu Alinger. — Engarrafei as expirações derradeiras de estudantes, burocratas, críticos literários… um sem-número de diversos zés-ninguém. Um dos silêncios mais extraordinários da minha coleção é o último suspiro de um zelador.

— Carrie Mayfield — falou a mulher, lendo o cartão diante de um jarro alto e empoeirado. — Outra zé-ninguém? Aposto que foi uma dona de casa.

— Não — respondeu Alinger. — Ainda não há donas de casa na minha coleção. Carrie Mayfield era uma jovem Miss Flórida, lindíssima, a caminho de Nova York com os pais e o noivo para posar para a capa de uma revista feminina. Sua grande chance.

Mas o avião caiu nos Everglades. Diversas pessoas morreram, foi um desastre aéreo famoso. Carrie, no entanto, sobreviveu. Por algum tempo. Um jato de combustível de avião foi lançado em sua direção enquanto escapava dos destroços e mais de oitenta por cento do corpo foi queimado. A moça perdeu a voz gritando por

socorro. Durou pouco mais de uma semana na unidade intensiva.

Na época, eu era professor e levei meus alunos para vê-la. Como curiosidade. Naquele tempo, era raro ver uma pessoa queimada daquela maneira tão ampla ainda viva. Partes do corpo dela se fundiram com outras, e assim por diante. Por sorte, meu aspirador estava comigo, já que ela morreu enquanto eu a examinava.

— Essa é a coisa mais horrível que já ouvi — falou a mulher. —

O que aconteceu com os pais dela? E o noivo?

— Morreram no acidente. Queimaram na frente dela. Não sei se seus corpos chegaram a ser descobertos. Os jacarés…

— Não acredito em você. Em nem uma palavra. Não acredito em nada desse lugar. E posso dizer que considero essa uma maneira bem idiota de tirar dinheiro das pessoas.

— Querida, por favor… — falou o marido.

— A senhora com certeza vai se lembrar de que não cobrei entrada — disse Alinger. — A exposição é gratuita.

— Ah, pai, olha só! — falou o menino, do outro lado da sala, lendo o nome em um cartão. — É o homem que escreveu James e o pêssego gigante!

Alinger se virou para ele, pronto para apresentar o exibidor em questão, e então, pelo rabo do olho, percebeu a mulher se mexendo e se voltou para ela.

— Eu escutaria outros antes — avisou o médico. Ela já erguia as hastes para a cabeça. — Algumas pessoas não apreciam o que não conseguem escutar no jarro de Carrie Mayfield.

Ela o ignorou e colocou as hastes, ouvindo com os lábios franzidos. Alinger uniu as mãos e se inclinou na direção dela, observando sua expressão.

Então, sem aviso, ela deu um passo rápido para trás, ainda com as hastes nos ouvidos, e o movimento repentino puxou o jarro por uma curta distância na mesa, o que deixou Alinger apreensivo. Ele logo esticou a mão para impedir que o vidro se espatifasse no chão.

A mulher arrancou as hastes auriculares, atrapalhando-se.

— Roald Dahl — falou o pai, colocando a mão no ombro do filho e admirando o jarro que o menino descobrira. — Veja só. Você foi mesmo atrás dos grandes nomes da literatura, hein?

— Não gosto deste lugar — avisou a mulher.

Seus olhos estavam sem foco. Ela encarava o jarro que continha o último suspiro de Carrie Mayfield, mas sem vê-lo de fato. Engoliu em seco fazendo barulho, uma das mãos na garganta.

— Querida? — falou o marido. Ele atravessou o salão até ela, as sobrancelhas franzidas, preocupado. — Já quer ir embora? Nós acabamos de chegar.

— Não me importo. Quero sair daqui.

— Ah, mãe — reclamou o menino.

— Gostaria que assinassem o meu livro de visitas — pediu Alinger.

Ele os acompanhou até a chapelaria.

O pai foi atencioso, segurando o braço da esposa, encarando-a com olhos úmidos e preocupados.

— Poderia esperar no carro sozinha? Tom e eu queremos ficar mais um pouco.

— Quero ir embora agora — falou ela, sua voz monótona, distante. — Todos nós.

O pai a ajudou a vestir o casaco. O menino enfiou as mãos no bolso e, emburrado, deu um chute em uma bolsa de médico velha e gasta que estava ao lado do porta-guarda-chuva. Então percebeu o que tinha chutado. Ele se agachou e, sem demonstrar um pingo de vergonha, abriu a bolsa e olhou para o aspirador.

A mulher calçou as luvas de couro fino com muito cuidado, ajustando-as bem aos dedos. Ela parecia perdida nos próprios pensamentos, então foi uma surpresa quando, de repente, despertou do devaneio, deu meia-volta e encarou Alinger.

— Você é uma pessoa horrível — falou. — Como uma espécie de ladrão de túmulos.

Alinger uniu as mãos à sua frente e lhe lançou um olhar simpático. Já fazia anos que expunha a coleção. Estava acostumado a qualquer tipo de reação.

— Ah, querida — falou o marido. — Tente compreender…

— Estou indo para o carro agora — disse ela, abaixando a cabeça e se afastando. — Venham.

— Espere — respondeu o pai. — Espere pela gente.

Ele ainda não vestira o casaco. Nem o garoto, que estava de joelhos, com a bolsa aberta, movendo as pontas dos dedos devagar

pelo aspirador, um aparelho que parecia uma garrafa térmica cromada com tubos de borracha e uma máscara facial de plástico em uma das pontas.

Ela não ouviu o marido, apenas virou o corpo e se foi, deixando a porta aberta depois de passar. A mulher desceu os degraus altos de granito até a calçada, os olhos apontados para o chão por todo o caminho. Seu corpo se balançava enquanto atravessava a rua feito uma sonâmbula. Não ergueu o olhar, apenas encarava o carro no lado oposto.

Alinger se virava para pegar o livro de visitas — pensou que talvez o pai ainda o assinaria — quando ouviu o assobio de freios e um estalo metálico, como se um carro tivesse acelerado em direção a uma árvore, mas, antes mesmo de olhar, sabia que não fora uma árvore.

O pai gritou e gritou. Alinger deu meia-volta a tempo de vê-lo escorregar na escada. Um Cadillac preto estava parado em um ângulo improvável na rua, fumaça saindo pelas laterais do capô amassado. A porta do motorista estava aberta, e o próprio estava no meio da rua, um chapéu pork pie recuado na cabeça.