O Telefone Preto e Outras Histórias
Entre as bases
Al foi derrubado, mas esticou os braços e pegou Finney pela cintura, jogando o garoto no chão e indo para cima das pernas dele.
O menino se esforçou para escapar. O homem gordo ergueu o rosto, sangue pingando da boca, um gemido furioso saindo de algum lugar no fundo do peito. Finney ainda segurava o fone e três voltas do fio preto. Ficou sentado e pensou em acertar Albert mais uma vez, mas então suas mãos fizeram uma coisa completamente diferente. Ele colocou o fio ao redor da garganta do homem gordo e puxou com força, cruzando os punhos atrás do pescoço de Albert. O
homem conseguiu colocar uma das mãos no rosto do menino e arranhar sua bochecha direita, Finney puxou o fio mais para cima, fazendo a língua de Albert sair da boca.
Do outro lado do cômodo, o telefone preto tocou. O homem gordo sufocava. Parou de arranhar o rosto de Finney e colocou os dedos abaixo do fio que enrolava a sua garganta. Só conseguia usar a mão esquerda, porque os dedos da direita estavam destruídos, dobrados de maneiras bizarras. O telefone tocou de novo. O homem gordo observou o aparelho rapidamente e, então, seu olhar voltou para o rosto de Finney. As pupilas de Albert estavam dilatadas, tão largas que os anéis dourados da íris encolheram até quase desaparecer. As pupilas eram um par de balões pretos na frente de sóis gêmeos. O telefone tocou e tocou. Finney puxou o fio. No rosto de Albert, tão escuro quanto um hematoma, havia uma pergunta horrorizada.
— É para você — informou Finney.
ENTRE AS BASES
NA TARDE DE QUINTA-FEIRA, Kensington apareceu para trabalhar com um piercing. Wyatt notou porque ela abaixava a cabeça sem parar e pressionava um lencinho de papel dobrado na boca aberta.
O papel logo ficou manchado de vermelho. Ele se sentou em frente ao computador, à esquerda dela, e a observou com o rabo do olho enquanto registrava a devolução de uma pilha de fitas alugadas.
Quando a garota levou o lenço à boca outra vez, Wyatt teve um vislumbre do pino de aço inoxidável que atravessava sua língua, também manchada de sangue. Aquela era uma evolução interessante na história de Sarah Kensington.
Ela estava virando punk, um passo de cada vez. Quando Wyatt começou a trabalhar na Best Video, Sarah era rechonchuda e sem graça, tinha o cabelo castanho bem curto e olhos pequenos e juntos; ela andava por aí com uma atitude agressiva e insolente de uma pessoa acostumada a não gostarem dela. Wyatt entendia um pouco daquilo e achou que os dois iam se dar bem, mas não. A garota nem olhava direito para ele e com frequência fingia não escutar a sua voz quando Wyatt se dirigia a ela. Com o tempo, ele teve a sensação de que conhecê-la daria muito trabalho. Era mais fácil detestá-la e evitá-la.
Um dia, um cara mais velho entrou na locadora, uma aberração de circo de quarenta anos com a cabeça raspada e uma coleira no pescoço, com guia e tudo. Ele queria uma fita de Sid & Nancy — O
amor mata, pediu a ajuda de Kensington para encontrá-la, e os dois conversaram um pouco. Ela ria de qualquer coisa que o sujeito falasse, e, quando era a hora dela responder, as palavras saíam com uma pressa animada e barulhenta. Era um negócio horrível vê-la mudar completamente por causa de um cara. Então, quando Wyatt foi trabalhar na tarde do dia seguinte, os dois estavam encostados na parede lateral da locadora, a que não dava para ver da rua. A atração de show de horrores dava uns amassos na garota. Estavam de mãos dadas, os dedos entrelaçados, enquanto Sarah enfiava desesperadamente a língua na boca do careca. Então, alguns meses depois, o cabelo de Kensington estava com um tom bizarro e pálido de cobre, ela usava botas de motoqueiro e sombra escura nos olhos. O pino na língua, no entanto, era novinho em folha.
— Por que está sangrando? — perguntou Wyatt a ela.
— Porque acabei de colocar — respondeu Sarah, sem olhar para ele e com um tom de voz irritado. O amor não a tornara cordial e comunicativa, ela ainda o encarava de mau humor quando falava com ela, evitando-o como se o ar ao redor dele fosse venenoso, tratando-o com a repugnância de sempre, por razões que nunca foram e nunca seriam explicadas.
— Pensei que você tinha prendido a língua em um zíper ou coisa parecida — comentou ele. E então acrescentou: — Acho que é uma maneira de manter o cara interessado. Quer dizer, ele não fica contigo por causa da sua beleza, né?
Kensington era durona, e a reação dela pegou Wyatt de surpresa. Ela o encarou com os olhos tristes e alarmados, o queixo trêmulo. Com uma voz que Wyatt quase não conseguiu reconhecer, Sarah falou:
— Me deixa em paz.
Ele não gostou do sentimento súbito de pena em relação à colega de trabalho. Desejou não ter dito nada, dane-se que tivesse sido provocado. Ela deu meia-volta e se afastou, e Wyatt começou a estender a mão, pensou em pegar a manga da camisa de Kensington, mantê-la ali até encontrar uma maneira de se desculpar sem ter que dizer que sentia muito. Mas então a garota olhou para trás e o observou com os olhos marejados. Murmurou alguma coisa qualquer, e Wyatt só conseguiu ouvir parte — retardado, e depois algo sobre ele não saber ler —, mas era mais que suficiente. Sentiu uma sensação gelada repentina e quase dolorosa se espalhar pelo peito.
— Abre essa boca de novo e eu arranco esse pino da sua língua, piranha.
Os olhos dela se encheram de fúria. Essa era a Kensington que ele conhecia. Em segundos, a garota estava em movimento, suas
pernas grossas e curtas dando a volta no balcão na direção da parede nos fundos da locadora. Uma sensação azeda de enjoo tomou conta dele, misturada com uma irritabilidade abrupta. Ela estava correndo até o escritório, até a sra. Badia, para dedurar ele.
Wyatt decidiu fazer um intervalo, pegou sua jaqueta militar e atravessou a porta dupla de acrílico. Acendeu um cigarro e se apoiou na parede de reboco do lado de fora com os ombros curvados. Fumou e ficou tremendo, observando a Miller’s Hardware do outro lado da rua.
Viu a sra. Prezar entrar com sua perua no estacionamento da Miller’s, os dois filhos no carro com ela. A sra. Prezar morava no fim da rua dele, em uma casa de cor milk-shake de morango. Ele tinha cortado a grama do quintal dela — não recentemente, mas alguns anos atrás, na época em que cortava a grama do quintal dos outros.
A sra. Prezar saiu do carro e foi logo para a porta da loja de materiais de construção. Deixou o motor ligado. Seu rosto era largo e a mulher usava maquiagem demais, mas não era feia. Havia algo a respeito de seus lábios — o lábio inferior era carnudo, sexy — que Wyatt sempre gostara. Sua expressão, conforme entrava na Miller’s, era de um vazio robótico.
Um garoto ocupava o assento do carona e o outro filho estava no banco traseiro, na cadeirinha de bebê. O menino na frente — o nome dele era Baxter, Wyatt nem sabia por que se lembrava disso — era magrelo e alto, com um corpo esguio que deve ter puxado do pai. De onde Wyatt estava, não conseguia ver muito do neném na cadeirinha, apenas uma mecha de cabelo escuro e um par de mãos gordinhas que não paravam de se mexer.
Assim que a sra. Prezar entrou na loja, o garoto mais velho virou para encarar o menino mais novo. Baxter segurava uma tira de alcaçuz e a aproximou do bebê. No entanto, quando o caçula esticou a mão para pegá-la, o outro foi rápido e a tirou do seu alcance. Então, a aproximou de novo. Quando o irmãozinho se recusou a ser instigado de novo, Baxter deu batidinhas de leve com a tira no bebê. A brincadeira continuou mais ou menos assim por um tempo, até Baxter parar, tirar o alcaçuz do pacote e abocanhar o doce, sentindo o sabor. Ele usava um boné do Twin City Pizza, o velho time de Wyatt, que considerou se o garoto já tinha idade
suficiente para jogar na Liga Infantil. Aparentemente não, mas talvez agora deixassem meninos mais novos entrarem.
Wyatt tinha boas lembranças da Liga Infantil. No último ano em que jogou no Twin City, quase quebrou o recorde de bases roubadas. Foi um dos poucos momentos da vida em que soube com certeza que era melhor em alguma coisa do que qualquer um da idade dele. No final da temporada, tinha nove bases roubadas e só fora pego uma vez. Um arremessador canhoto com o rosto pálido e flácido o viu saindo da primeira base antes de Wyatt ter a chance de chegar na base dele, e logo Wyatt estava correndo de lá para cá entre as bases, conforme o primeira-base e o segunda-base se aproximavam, jogando a bola um para o outro devagar. No fim, tentou disparar para a segunda base, torcendo para conseguir escorregar até ela… mas, assim que tomou a decisão, percebeu que cometera um erro, e uma sensação de desespero, de correr na direção do inescapável, o dominou. O segunda-base — um conhecido de Wyatt, Treat Rendell, o astro do outro time — estava plantado no caminho, esperando por ele com os pés afastados, e, pela primeira vez desde que conseguia se lembrar, pareceu a Wyatt que ele não conseguia se aproximar de onde queria, não importava a velocidade com que corresse. Não tinha memória da sua eliminação, apenas de correr e de como Treat Rendell estava no seu caminho, esperando por ele com os olhos apertados.
Era quase o final da temporada, e Wyatt não conseguiu rebater nos dois últimos jogos, perdendo o recorde por duas bases. Nunca teve a chance de descobrir o que poderia fazer durante o ensino médio. Não entrou em um único jogo, estava sempre de recuperação ou suspenso. No meio do terceiro ano, foi diagnosticado com dificuldade de leitura — Wyatt tinha dificuldade em juntar todos os significados quando uma frase ia além de quatro ou cinco palavras, por anos achou complicado interpretar qualquer coisa maior que o título de um filme — e foi jogado em um programa de ajuda com um bando de deficientes mentais. O programa era chamado Superinteligentes, mas era conhecido por uma variedade de outros apelidos pela escola: São-tão-dementes, Supõe-que-aquilo-é-gente. Certa vez, Wyatt encontrara uma pichação no
banheiro masculino que dizia Sô Superinteligente cum muito orgulhu.
Ele passou o último ano isolado, não olhava para as pessoas quando cruzava com elas no corredor, não fez nenhum teste para a equipe de beisebol. Treat Rendell, por outro lado, entrou no time do colégio no segundo ano, rebateu todas as bolas e levou a equipe a dois campeonatos regionais. Agora, era da policial estadual, dirigia um Crown Victoria envenenado e tinha se casado com Ellen Martin, uma loura de cabelo platinado, sem dúvida, a mais bonita entre as líderes de torcida que Treat supostamente comeu.
A sra. Prezar saiu da loja. Ela só tinha ficado lá por um minuto e não comprou nada. Com uma das mãos, mantinha o casaco fechado, talvez por causa do vento forte. Os olhos dela passaram por ele pela segunda vez sem dar sinal de tê-lo reconhecido ou mesmo de notar que Wyatt estava ali. Ela se jogou no banco do motorista, bateu a porta e deu ré tão rápido que os pneus chegaram a cantar.
Ela também não olhava para ele quando Wyatt cortava a grama do seu quintal. Ele se lembrava de uma situação, depois de ter terminado o serviço, em que entrou na sala da casa pela porta de correr de vidro. Tinha passado a manhã inteira cortando a grama dela — a mulher era rica, casada com um executivo de uma empresa de internet banda larga, e tinha o maior quintal da rua — e estava queimado de sol e suado, com grama grudada no rosto e nos braços. Ela conversava ao telefone. Wyatt ficou perto da porta esperando a sra. Prezar notar que estava parado ali.
Ela demorou. Estava sentada à uma mesinha, enrolando uma mecha do cabelo louro com o dedo, se mexendo na cadeira, rindo de vez em quando. Havia alguns cartões de crédito espalhados à sua frente e, sem pensar, ela os movia com o mindinho. E continuou sem olhar para ele mesmo depois de Wyatt ter pigarreado para chamar sua atenção. O garoto esperou por dez minutos, e então a sra. Prezar desligou o telefone e virou o rosto para ele, na mesma hora, toda séria. Falou que o observara trabalhando e que não pagava para ele ficar batendo papo com todo mundo que andava na calçada. Além disso, ouvira Wyatt passar com o cortador de grama por cima de uma pedra, e se uma das lâminas estivesse quebrada,
ela ia obrigá-lo a pagar por um novo. O serviço custava 28 dólares.
Ela deu trinta ao garoto e disse que ele tinha sorte de receber uma gorjeta. Quando Wyatt saiu, a mulher estava rindo ao telefone de novo, mexendo nos cartões, colocando-os no formato da letra P.
O cigarro de Wyatt estava quase acabando, e ele pensou que teria que voltar depois de fumar mais um, mas então a porta atrás dele se abriu. A sra. Badia saiu, usando o suéter preto e o colete branco com uma plaquinha que dizia Pat Badia, Gerente. Fechou a cara por causa do frio e cobriu o busto com os braços para se aquecer.
— Sarah me contou o que você disse — falou a sra. Badia.
Wyatt assentiu e esperou. Ele gostava da sra. Badia, achava ela ok. Às vezes, conseguia enganá-la.
— Por que não vai para casa, Wyatt?
Ele jogou a bituca no asfalto.
— Tá bom. Volto amanhã para compensar as minhas horas. Ela não vai estar trabalhando — respondeu ele, indicando a videolocadora com a cabeça.
— Não — disse a sra. Badia. — Não volte amanhã. Volte na terça que vem para pegar o seu último pagamento.
Por alguma razão, Wyatt demorou um pouco para entender aquilo. Então compreendeu, e sentiu o rosto esquentar.
A sra. Badia voltou a falar.
— Você não pode ameaçar seus colegas de trabalho, Wyatt. Já estou cansada de ouvir reclamações sobre você. Estou farta de ter um problema atrás do outro. — A mulher fez uma careta e olhou para a locadora. — Ela está passando por um momento difícil e você fica lá dizendo que vai arrancar a língua dela.
— Eu não falei… era o pino… quer saber o que ela disse para mim?
— Honestamente? Não. Mas o que foi?
Mas Wyatt não respondeu. Ele não podia contar à sra. Badia o que Kensington dissera porque não sabia, não ouvira tudo… e, mesmo se soubesse, talvez não contasse. O que quer que tenha saído da boca de Sarah, era alguma coisa sobre como ele não sabia ler. Wyatt sempre tentava evitar falar do seu problema com a
gramática, com soletrar e com todo o resto, pois era um assunto que sempre trazia mais vergonha do que ele conseguia aguentar.
A sra. Badia o encarou, esperando a resposta. Como ele permaneceu calado, ela falou:
— Te dei o máximo de chances possível. Mas, depois de um certo ponto, não acho justo com seus colegas de trabalho, não acho justo pedir para eles aguentarem você. — Ela o observou por mais um tempo, mordendo pensativamente o lábio inferior. Então olha de relance seus pés e, enquanto dá meia-volta, diz: — Amarre esse sapato, Wyatt.
A sra. Badia voltou para dentro da loja e ele ficou parado lá, flexionando os dedos no ar frio. Caminhou devagar pela frente da locadora e virou a esquina, para a parede que não dá para ver da rua, então se inclinou e cuspiu no chão. Tirou outro cigarro do maço, acendeu e tragou a fumaça, esperando as pernas pararem de tremer.
Pensara que a sra. Badia gostava dele. Wyatt tinha ficado até tarde algumas vezes para ajudá-la a fechar a locadora — coisa que não era obrigado a fazer — só porque era fácil conversar com ela.
Eles falavam sobre filmes, sobre os clientes esquisitos, e ela ouvia suas histórias e opiniões, parecendo interessada de verdade. Fora uma experiência estranha, se dar bem com uma chefe. Mas, no final, acabou sendo tudo a mesma merda de sempre. Alguém tinha um problema pessoal com ele por um motivo besta qualquer e pronto, não havia nenhuma tentativa de ouvir todos os lados e reunir todas as informações. Ela disse Já estou cansada de ouvir reclamações sobre você, mas não falou que pessoas ou que reclamações. Disse Estou farta de ter um problema atrás do outro, mas não tinha que julgar aquele problema isoladamente e fazer o mesmo com os outros supostos problemas?
Jogou o cigarro longe — que bateu no asfalto produzindo fagulhas vermelhas —, virou-se e começou a andar. Chegou rápido na esquina. A vitrine tinha um bocado de pôsteres de filmes grudados. Kensington encarava o estacionamento pelo espaço entre os pôsteres de Eclipse mortal e Os outros. Seus olhos estavam vermelhos, meio desfocados. Dava para ver, pela expressão sonhadora dela, que a garota achava que ele já tinha ido embora há muito tempo, e antes que conseguisse se conter, Wyatt bateu no vidro com o dedo do meio, bem onde estava a cara dela. Sarah foi para trás, o queixo caído formando um O.
Ele deu meia-volta e correu pelo estacionamento. Um carro apareceu de repente, e o motorista teve que pisar no freio para não atropelá-lo. O homem buzinou. Wyatt fez expressão de desdém e também lhe mostrou o dedo do meio. Então foi para o lado oposto do estacionamento, e se meteu no bosque de árvores raquíticas e espalhadas.
Seguiu por uma trilha fina; era assim que sempre voltava para casa quando não conseguia uma carona. Entre as árvores, haviam colchões podres encharcados, sacos de lixo estourando de tão cheios e eletrodomésticos enferrujados. Havia um riacho ali cuja nascente era o lava-jato, o Queen Bee Car Wash. Não dava para ver, mas ele conseguia ouvir a água passando debaixo da terra e, às vezes, os cheiros de cera de carro barata e limpador de estofado de cereja ficavam fortes demais. Ele andava mais devagar agora, a cabeça enfiada entre os ombros. Na penumbra crescente do fim da tarde, era difícil ver os galhos mais finos que se alongavam pelo caminho, e Wyatt não queria dar de cara em um deles.
A trilha acabava no fim de uma via erma que fazia uma curva em torno de um lago raso que todos sabiam ser poluído. Essa via levaria Wyatt até a 17K e, após seguir por uma curta distância, ele chegaria na rua que levava ao Ronald Reagan Park, onde morava com a mãe em uma casa de um único andar e sem porão — o pai já tinha dado no pé, vá com Deus. A via era cheia de mato e quase ninguém passava por ela. De vez em quando, no entanto, as pessoas estacionavam ali pelas razões que as pessoas costumam dirigir até lugares como aquele, e, conforme Wyatt avançava pelo restante do caminho, indo na direção da estrada, viu que havia um carro parado lá.
Àquela altura, as sombras sob as árvores haviam se unido em uma escuridão a apenas uma curta distância da noite propriamente dita — ainda que, quando Wyatt olhava direto para cima, ele conseguisse ver alguma cor no céu, um violeta pálido que se transformava em amarelo-damasco. O carro estava estacionado em
uma ladeirinha, e o rapaz não o reconheceu até chegar perto. Era a perua da sra. Prezar. A porta do motorista estava aberta.
Wyatt parou a alguns metros de distância, o ar preso de uma maneira estranha em seus pulmões sem saber por quê. No início, pensou que o veículo estivesse vazio. Nenhum som saía dele, com exceção de alguns estalos do capô, o motor esfriando. Então, viu o menino de quatro anos no banco traseiro, ainda na cadeirinha de bebê. O queixo dele repousava sobre o peito, e os olhos estavam fechados. Ele parecia dormir.
Wyatt procurou pela sra. Prezar e por Baxter, observando as árvores e a margem do lago. Não conseguia imaginar por que alguém deixaria uma criança pequena dormindo ali. Porém, quando voltou a olhar para o automóvel, viu a sra. Prezar. Ela estava curvada no banco do motorista de forma que, de onde Wyatt estava, apenas o topo do seu cabelo louro e reluzente era visível acima do volante.
Por um segundo, ele não conseguiu se mover. Achou difícil seguir em frente, ficou bastante perturbado, sem conseguir identificar o motivo, pela cena adiante. O menino adormecido no banco traseiro o assustou. No crepúsculo, o rostinho parecia inchado e levemente tingido de azul.
Caminhou com cuidado até a lateral do carro e parou outra vez.
O que viu o deixou sem ar. A sra. Prezar se balançava para a frente e para trás. Baxter estava deitado no colo dela, o rosto para cima, os olhos arregalados. O boné do Twin City Pizza se perdera em algum lugar, revelando uma cabeça raspada bem rente, até sobrar apenas fios de cabelo finos e sem cor. Os lábios eram tão vermelhos, que ele poderia estar usando batom. Na posição em que estava, o garoto parecia estar encarando Wyatt. O rapaz viu o corte na garganta do menino primeiro, uma linha preta brilhante mais ou menos no formato de um anzol. Havia outra ferida na bochecha, que quase parecia uma lesma enorme e escura descansando sobre o rosto bem pálido.
Os olhos da sra. Prezar também estavam esbugalhados, além de injetados por causa das lágrimas. Ainda assim, ela chorava sem fazer barulho. Havia quatro manchas longas de sangue na lateral do
seu rosto, marcas deixadas pelos dedos de uma criança. Ela respirava com dificuldade, arquejando de forma trêmula.
— Meu Deus — sussurrava ela sempre que soltava o ar. — Ah, Baxter. Meu Deus.
Sem perceber, Wyatt deu um passo para trás e acabou pisando na tampa de plástico de um copo de refrigerante, ouviu-a se quebrando sob o sapato. Os ombros da mulher saltaram em reflexo e ela lançou um olhar nervoso para ele.
— Sra. Prezar — falou Wyatt com uma voz que mal reconhecia, apressada e rouca.
Esperava que ela fosse chorar e se lamentar, mas, quando a sra.
Prezar falou, foi com um sussurro entorpecido.
— Me ajuda, por favor.
Naquele momento, Wyatt notou que a bolsa da mulher estava no chão, perto da porta do carro, com parte do conteúdo caído na lama.
— Vou pedir ajuda — respondeu ele, e já estava se preparando para dar meia-volta, a cintura quase girando para correr pela via.
Chegaria à 17K em um minuto, poderia fazer um carro parar.
— Não — disse ela com um repentino tom apavorado de urgência. — Fique aqui. Estou com medo. Não sei aonde ele foi.
Ainda pode estar por perto. Talvez tenha ido se limpar. — Ela olhou para o lago em pânico.
— Quem? — perguntou Wyatt, também observando o lago, a margem escorregadia, as árvores pequenas e juntas, com uma sensação fulminante de alarme.
Ela não respondeu, apenas disse:
— Eu tenho um celular. Não sei onde está. Ele pegou, mas acho que deixou cair perto do carro. Meu Deus, meu Deus. Pode procurar para mim? Meu Deus, por favor, não deixa ele voltar.
A boca de Wyatt estava seca e ele se sentia prestes a vomitar, mas o rapaz se moveu de forma automática analisando a área ao redor da bolsa caída. Ele se agachou, em parte para poder ver melhor o chão e em parte para não ficar visível para qualquer pessoa que estivesse se aproximando do carro pelo outro lado, o lado que dava para o lago. Algumas folhas de papel e um cachecol enroscado saíram da bolsa. Uma das pontas do cachecol — de seda, reluzindo vermelho e amarelo — flutuava dentro de uma poça.
— Na bolsa? — questionou ele, abrindo-a.
— Talvez. Não sei.
Ele continuou procurando e encontrou alguns papéis, batom, pó compacto, pincéis de maquiagem, mas nenhum celular. Largou a bolsa e procurou na lateral da perua, mas era difícil ver qualquer coisa naquela escuridão de fim de tarde.
— Ele foi na direção da água? — perguntou Wyatt, sentindo o pulso na garganta.
— Não sei. Ele apareceu no sinal. Quando estava fechado, na esquina da Union. Falou que não ia machucar a gente se fizéssemos o que ele mandasse. Meu Deus, Baxter. Me desculpa.
Me desculpa por ele ter machucado você. Me desculpa por ele ter feito você chorar.
À menção do nome de Baxter, Wyatt ergueu o olhar, não pôde evitar, não conseguiu ouvir o nome do garoto sem sentir uma compulsão medonha de olhar para ele de novo. Ficou surpreso ao ver como o rosto do menino estava perto. A cabeça se dependurava na coxa da mãe, a menos de um metro. Wyatt encarava o rosto de Baxter de cabeça para baixo, um ferimento escuro na bochecha, os lábios de palhaço — vermelhos por causa do doce de alcaçuz, e não por causa do sangue, ele se lembrou de repente —, os olhos esbugalhados. Os olhos de Baxter estavam vidrados em um lugar atrás do ombro de Wyatt, e então aqueles olhos se mexeram de leve e se fixaram nele.
Wyatt gritou e quase caiu.
— Ele não… — falou o rapaz, ofegante, os pulmões puxando o ar com força. Era difícil reunir ar suficiente para falar. Engoliu em seco e tentou de novo: — Ele não… — E aí olhou para a sra. Prezar e parou outra vez.
Até aquele momento, ele não estivera perto o suficiente para ver a mão direita dela, que repousava sobre a perna de Baxter e segurava o cabo de uma faca.
Ele pensou ter reconhecido a faca. Havia algumas parecidas na Miller’s Hardware, em um caixa à esquerda da porta, logo depois da arara de jaquetas camufladas. Wyatt se lembrou de uma em particular, com uma lâmina de 25 centímetros com um dos lados serrado, o aço tão polido que era quase um espelho. Wyatt já
estivera lá procurando por uma faca daquelas. Talvez até tivesse pedido para dar uma olhada mais de perto. Era a primeira coisa que qualquer um notaria. E se lembrou da forma como a mulher saíra da Miller’s, como um dos seus braços fechava o sobretudo, como não carregava bolsa alguma.
A sra. Prezar notou que Wyatt observava a faca. Tirou os olhos dele e, por um momento, encarou a lâmina com uma expressão confusa, como se não fizesse ideia de como aquela coisa fora parar na sua mão. Como se, talvez, nem soubesse para o que aquilo servia. Então, voltou a olhar para Wyatt.
— Ele deixou cair — informou ela, encarando-o com uma expressão quase suplicante. — As mãos estavam sujas de sangue e a faca ficou presa em Baxter. Quando ele tentou puxar, as mãos escorregaram. Ela caiu no chão, e aí eu peguei. Foi por isso que ele não tentou me matar. Porque eu estava com a faca. E então ele fugiu.
A mão fechada no cabo de teflon estava completamente manchada de sangue, que escurecia cada dobra das articulações e a cutícula ao redor do dedão. Gotas de sangue ainda escorriam da manga à prova d’água do casaco, pingando sobre o assento de couro.
— Vou chamar alguém para ajudar — disse Wyatt, mas não sabia ao certo se ela o ouvira. Ele falou tão baixo que mal conseguiu ouvir a si mesmo. Suas mãos estavam erguidas com as palmas na direção da mulher, um gesto defensivo. Não sabia há quanto tempo elas estavam assim.
A sra. Prezar colocou um pé no chão e começou a se levantar. O
movimento repentino o assustou, e Wyatt foi para trás. Mas havia algo de errado com o seu pé direito. Ele tentava dar um passo para trás, mas, de alguma forma, o pé ficou grudado na terra, sem querer se mexer. Olhou para baixo a tempo de ver que o outro pé estava sobre o cadarço do tênis direito, e aí perdeu o equilíbrio e caiu de costas.
O impacto foi forte o suficiente para deixá-lo sem ar. Wyatt desabou sobre um tapete úmido de folhas caídas. Observou o céu, que agora era de um violeta-escuro, com uma ou outra das primeiras e mais brilhantes estrelas espalhadas por aí. Lágrimas surgiram nos seus olhos. Ele piscou e se levantou.
A sra. Prezar tinha saído do carro e estava a um metro dele.
Segurava seu tênis em uma das mãos e a faca na outra. O calçado de Wyatt escapara do pé. Agora, o pé direito estava coberto apenas por uma meia cinza e congelava no solo frio.
— Ele deixou cair — disse ela. — O homem que atacou a gente.
Eu nunca… Meus filhos. Eu nunca machucaria eles. Só peguei a faca.
Ele se levantou e deu um pulo para longe dela, pisando de leve com o pé direito para impedir que afundasse no amontoado de folhas. Queria pegar o sapato e correr. Olhou para o tênis — a mulher o segurava com o braço esticado na direção dele — e depois para a faca. A mão direita da sra. Prezar, que segurava a lâmina frouxamente, estava bem ao lado do corpo.
Mais uma vez, ela seguiu o olhar de Wyatt, encarou a faca e voltou a observá-lo. Balançou a cabeça devagar de um lado para o outro, em uma espécie de negação muda.
— Eu nunca faria isso — falou, largando a faca. Caminhou na direção dele segurando o sapato. — Aqui.
Ele deu um passo para ela, pegou o sapato e o puxou, mas, a princípio, ela não quis largar e, quando o fez, foi apenas para agarrar o braço dele. Suas unhas se enterraram no pulso dele, ferindo a pele. Aquilo assustou Wyatt, a maneira súbita como ela o pegou, a força com que o segurou.
— Não fui eu — falou ela. Wyatt tentou libertar o braço. A outra mão da mulher segurava o suéter que o rapaz usava debaixo do casaco, manchando-o de sangue. — O que você vai dizer para as pessoas? Em pânico, ele não sabia se a escutara direito e já não se importava mais. Queria que ela o deixasse ir. As unhas estavam cravadas na carne, mas, pior do que isso, ela estava sujando ele de sangue, a mão toda, o pulso, a roupa. Era pegajoso e desagradavelmente morno e, mais do que qualquer coisa, Wyatt não queria que a mulher sujasse sua pele de sangue. Segurou o pulso esquerdo da sra. Prezar e tentou fazer com que ela abrisse a mão, apertou até sentir os ossos se separando. Ela balbuciava, indo
para cima dele. A mão direita se fechou no seu ombro, os dedos forçando a articulação, e ele afastou o braço da mulher, empurrando-a com pouca força, apenas o suficiente para obrigá-la a chegar para trás. Os olhos dela se arregalaram, e a sra. Prezar soltou um lamento engasgado horrível. A mão direita se ergueu e, de repente, a mulher arranhou o rosto de Wyatt. Ele sentiu as unhas abrindo a pele, o sangue quente que escorria das feridas abertas.
Ele agarrou a mão que machucava sua bochecha e empurrou os dedos para trás até quase tocarem as costas da mão. Então, Wyatt desferiu um golpe no esterno da sra. Prezar e ouviu a mulher perdendo o fôlego. Quando ela se dobrou para a frente, ele a acertou no rosto, um soco para baixo que feriu os nós dos dedos.
Ela cambaleou adiante e agarrou o suéter dele, de forma que, quando caiu, a sra. Prezar levou Wyatt consigo. Ela ainda segurava seu pulso, as unhas cravadas. Mais do que nunca, ele precisava que a mulher o soltasse. Pegou o cabelo dela e puxou a cabeça para trás até o pescoço estar completamente esticado, até o máximo que a cabeça podia ser forçada a ir. Ela perdeu o fôlego, largou o pulso dele e tentou dar um tapa no rosto de Wyatt, que socou a garganta da mulher.
Ela engasgou. Ele largou seu cabelo e a cabeça da mulher foi para a frente. A sra. Prezar segurou o pescoço com ambas as mãos e permaneceu ajoelhada, os ombros curvados, o cabelo escondendo o rosto, respirando com dificuldade. Então, seu rosto se virou. Ela olhou para a faca no chão às suas costas. Largou o pescoço e tentou alcançá-la com a mão direita, mas foi lenta demais, Wyatt passou por ela e pegou a lâmina do chão, depois se virou e segurou a faca no ar para afastar a mulher.
Ele estava a uma curta distância dela, a própria respiração ofegante, observando-a. Ela devolveu o olhar. Havia cabelo no seu rosto, mas a sra. Prezar olhava para ele através das mechas frisadas manchadas de sangue. Tudo o que Wyatt conseguia ver era o branco dos seus olhos. A mulher respirava mais devagar agora.
Eles encararam um ao outro por talvez cinco segundos.
— Socorro — disse ela, com a voz rouca. — Socorro.
Ele a observou.
Instável, a mulher ficou de pé.
— Socorro — falou ela pela terceira vez.
A lateral esquerda do seu rosto doía onde ela o arranhara. A dor era bem pior ao lado olho.
— Vou contar aos outros o que você fez — disse ele.
Ela o encarou por mais um instante, então deu meia-volta e começou a correr.
— Socorro — gritou a mulher. — Alguém me ajuda.
Ele pensou em ir atrás dela e obrigá-la a parar, mas não sabia como faria isso se a alcançasse, então deixou a mulher ir.
Deu alguns passos até o carro e colocou um dos braços sobre a porta aberta, apoiando-se ali. Estava zonzo. A sra. Prezar já havia avançado bastante pela via, uma silhueta escura na escuridão mais pálida da floresta.
Wyatt ficou lá por um tempo, recuperando o fôlego. Então, acabou baixando o olhar e percebeu Baxter o encarando, os olhos esbugalhados na face fina e de maçãs do rosto altas. Com uma nova onda de choque, Wyatt viu a língua do menino se movendo na boca aberta, como se quisesse falar algo.
O estômago de Wyatt revirou. Sentiu as pernas fracas ao olhar para o garoto de novo, para o corte em formato de anzol que atravessava seu pescoço, começando na orelha direita e fazendo uma curva por baixo do pomo de adão. Olhando direto para ele, Wyatt conseguiu ver que o sangue ainda jorrava do ferimento em pulsos grossos e lentos. O assento sob Baxter estava empoçado de sangue.
Ele deu a volta pela porta aberta e parou na frente do menino.
Olhou para a ignição, para ver se as chaves do carro estavam ali, pensou que talvez pudesse dirigir até a 17K, e depois… mas não viu as chaves, e sabe-se lá onde estavam. O sangramento — a coisa mais importante para fazer em uma situação como aquela era parar o sangramento. Tinha visto isso no Plantão médico. Você pega uma toalha e a enrola, aplicando pressão na ferida até a ajuda chegar.
Ele não tinha uma toalha, mas havia o cachecol no chão ao lado do carro. Ficou de joelhos perto da porta aberta e da bolsa caída e agarrou o cachecol. Uma das pontas estava encharcada e pingava lama. Wyatt hesitou, enjoado por um segundo, então pressionou o
tecido sobre o ferimento no pescoço do menino. Dava para sentir o sangue pulsando no cachecol.
O cachecol era fino, quase transparente, já úmido por causa da poça, e logo ficou encharcado, o sangue escorrendo para as mãos, para os antebraços. Ele largou e deixou a tira de seda cair, limpando as mãos de forma desesperada na frente da blusa. Baxter o observava com olhos chocados e fascinados. Eram azuis como os da mãe.
Wyatt chorava. Não sabia que ia chorar até o momento em que começou. Não conseguia se lembrar de qual foi a última situação em que chorou abertamente. Pegou algumas das folhas de papel que caíram da bolsa da sra. Prezar e tentou pressioná-las na ferida, mas elas eram ainda piores que o cachecol. Eram papéis brancos nem um pouco absorventes, várias folhas grampeadas; na escuridão, Wyatt viu que segurava uma conta de cartão de crédito.
No topo da primeira página, as palavras foram carimbadas em tinta vermelha.
Pensou em jogar o que sobrara dentro da bolsa no chão, procurando por outra coisa para usar como compressa, então tirou a jaqueta e o colete branco que usava no trabalho, enrolou o colete e o pressionou no ferimento. Apertou com as duas mãos, aplicando pressão com boa parte do corpo. Na escuridão, o colete era de um branco quase luminescente, mas, enquanto pressionava, viu uma mancha escura se espalhando por ele, encharcando o tecido.
Tentou pensar no que poderia fazer agora, mas nenhuma ideia surgia. Sua memória foi para Kensington, limpando a língua com o lenço, a forma como cada bolinha de papel logo ficava ensopada de sangue. Teve uma ideia, algo estranho para ele, uma ideia que conectava Kensington, o pino prateado na língua e o corte pela garganta de Baxter; pensou em como os jovens são perfurados por amor, corpos inocentes dilacerados e destruídos sem nenhuma boa razão, a não ser quando aquilo era conveniente para algum dos seus entes queridos.
A mão esquerda de Baxter surgiu ao lado dele. Wyatt quase deu um grito quando a viu pelo rabo do olho, uma forma branca e fantasmagórica se erguendo no escuro. Os dedos do menino se mexeram na direção da garganta. Wyatt pensou em uma coisa.
Pegou a mão de Baxter e a colocou sobre a compressa. Esticou o braço para dentro do carro, pegou a mão direita do garoto e colocou em cima da esquerda. Quando largou, as mãos de Baxter permaneceram no colete ensopado de sangue. Elas não pressionavam com muita força — mas continuaram no lugar.
— Só vou levar um minuto — disse Wyatt, tremendo violentamente. — Vou correr e trazer alguém. Vou até a estrada pedir ajuda e vamos te levar para o hospital. Vai ficar tudo bem. Só continue com a pressão no pescoço. Vai ficar tudo bem, prometo.
Baxter o encarou sem expressão. Wyatt não gostou da maneira como os olhos do menino estavam vidrados. O rapaz se levantou e disparou. Seguiu por alguns metros e então tirou, com um chute, o outro tênis que usava, e voltou a correr.
Deu uma arrancada rápida com passos largos, ofegante com o ar úmido e frio. O único som era o dos seus pés batendo com força na terra dura. No entanto, achou que já não estava tão rápido quanto antes, que, quando era jovem, correr requeria menos esforço. Não tinha avançado muito até começar a sentir uma câimbra aguda na lateral do corpo. E, embora respirasse fundo, não parecia conseguir puxar ar suficiente para os pulmões. Talvez fossem os cigarros. Baixou o rosto e continuou em frente, mordendo o lábio, tentando não pensar em como poderia estar indo bem mais rápido se metade do seu corpo não doesse. Olhou para trás e percebeu que só conseguira cobrir mais ou menos cem metros, o carro ainda à vista. Estava chorando de novo. Conforme corria, começou a rezar. As palavras irrompiam em sussurros cada vez que ele soltava o ar.
— Deus, por favor — murmurou para a escuridão de fevereiro.
Ele correu e correu, mas não achava que estava se aproximando da estrada. Era como estar entre as bases de novo, a mesma sensação de desespero, de disparar na direção do inescapável. —
Por favor, permita que eu seja rápido. Permita que eu seja rápido de novo. Permita que eu seja rápido como antes.
Na curva seguinte, a 17K apareceu, a menos de quatrocentos metros de distância. Havia um poste no fim da via e um carro parado embaixo dele. Era um Crown Victoria com sirenes desligadas no teto — uma viatura da polícia estadual, pensou Wyatt com alívio. Era engraçado ele ter se lembrado do campo de beisebol, talvez fosse Treat Rendell que estivesse ali. Um homem —