O Telefone Preto e Outras Histórias
Melhor estreia de terror
“Internação voluntária”, o texto que encerra a obra, está entre os melhores que já li e demonstra a maturidade alcançada por Joe Hill como contador de histórias. É raríssimo que um escritor surja completamente formado como ele. E quando isso acontece… bem, confesso que sou vítima de uma turbulência interior, dividido entre
ficar eufórico e arrebentar a cara dele. “Comprometimento voluntário” é bom nesse nível.
“Pop Art”, no entanto… “Pop Art” é transcendental. O melhor conto que li em anos, juntando todas as habilidades de Joe Hill em poucas páginas — a esquisitice, a ternura, a cumplicidade.
Com o surgimento do trabalho de um novo autor, tanto fãs quanto críticos têm o hábito de falar sobre o que ele promete. Seu potencial.
As histórias de O telefone preto e outras histórias são promessas cumpridas.
— Christopher Golden
Bradford, Massachusetts
15 de janeiro de 2005
Revisado em 21 de março de 2007
MELHOR ESTREIA DE TERROR
FALTANDO UM MÊS PARA o prazo final, Eddie Carroll abriu um envelope pardo e uma revista chamada True North Literary Review deslizou em suas mãos. Carroll estava acostumado a receber coisas desse tipo pelo correio, embora a maioria das publicações tivesse títulos como Dança macabra e fosse especializada em histórias de terror. As pessoas também mandavam seus livros para ele, que acabavam empilhados pela casa em Brookline: uma pilha no sofá do escritório, mais alguns reunidos ao lado da cafeteira. Sempre livros de terror.
Ninguém teria tempo de ler todos, embora uma vez — quando tinha seus trinta e poucos anos, logo depois de assumir o cargo de editor da America’s Best New Horror — ele realmente tenha se esforçado para isso. Carroll levara dezesseis volumes da Best New Horror às prateleiras, tendo trabalhado nessa série por mais de um terço da sua vida até o momento. Somadas, eram milhares de horas lendo, revisando e escrevendo cartas, milhares de horas que ele jamais recuperaria.
Acima de tudo, ele detestava as revistas. A maioria usava a impressão mais barata possível, e Carroll aprendera a odiar como a tinta ficava nos dedos, seu cheiro forte.
Ele nem mesmo terminava de ler a maioria das histórias, não conseguia suportar. Sentia o corpo mole ao pensar em ler mais um conto sobre vampiros transando com vampiros. Tentava relevar os pastiches de Lovecraft, mas à primeira menção penosamente solene aos Deuses Anciões, uma parte importante de si ficava dormente, como um pé ou uma mão ficam quando a circulação é cortada. Temia que a parte dele que ficava dormente fosse a alma.
Em algum momento após o divórcio, seu trabalho como editor da Best New Horror se tornou uma tarefa cansativa e infeliz. Às vezes, com uma pontada de esperança, Carroll pensava em pedir demissão, mas logo tirava a ideia da cabeça. Eram doze mil dólares
por ano na conta, a base de uma colcha de retalhos de lucros vindos das outras coletâneas, das palestras e das aulas. Sem aqueles doze mil, não teria como escapar de seu pior pesadelo: teria que arranjar um emprego de verdade.
Carroll não conhecia a True North Literary Review, um periódico literário com capa de papel grosso que exibia uma xilogravura de pinheiros tortos. Um selo na quarta capa informava que a revista era publicada pela Katahdin University, no norte do estado de Nova York. Quando Carroll a abriu, duas folhas caíram: a carta do editor, um professor de inglês chamado Harold Noonan.
No último inverno, Noonan fora abordado por um homem que trabalhava meio período no campus, um tal de Peter Kilrue. Peter ouvira a notícia de que Noonan havia sido nomeado editor da True North e que estava aceitando manuscritos, então pediu a ele que desse uma olhada em um conto. Noonan prometeu que faria isso, mais por educação que qualquer outra coisa. No entanto, quando enfim leu “Buttonboy: uma história de amor”, foi pego de surpresa tanto pela grande agilidade da prosa quanto pela natureza espantosa do tema. Noonan estava começando no cargo, substituindo o recém-aposentado editor Frank McDane, que ocupara o posto por vinte anos, e queria levar a revista em uma nova direção, publicar ficção que pudesse “irritar algumas pessoas”.
“E parece que fui bem-sucedido demais nesse sentido”, escreveu ele. Logo depois da publicação de “Buttonboy”, o chefe do departamento de Inglês se reuniu com Noonan para repreendê-lo por ter usado a True North como vitrine para “piadas literárias juvenis”. Quase cinquenta pessoas cancelaram a assinatura — algo sério para um periódico com uma tiragem de poucos milhares de exemplares — e a ex-aluna que fornecia a maior parte dos fundos da True North ficou tão ultrajada que cancelou o apoio financeiro. O
próprio Noonan foi demitido, e Frank McDane concordou em supervisionar a revista mesmo aposentado, em resposta ao apelo popular que clamava por seu retorno.
A carta de Noonan terminava assim:
Mantenho a opinião de que (quaisquer que sejam suas falhas) “Buttonboy” é um conto notável, genuinamente
angustiante, e espero que o senhor dê uma chance a ele.
Admito que me sentiria vingado se decidisse incluí-lo em sua próxima coletânea de melhores histórias de terror do ano.
Diria para o senhor aproveitar o conto, mas não tenho certeza que essa seja a palavra certa.
Cordialmente,
Harold Noonan
Eddie Carroll tinha acabado de entrar em casa e leu a carta no vestíbulo. Folheou a revista até o início da história. Permaneceu de pé, lendo, por quase cinco minutos até perceber que estava sentindo muito calor. Pendurou seu casaco e foi até a cozinha.
Por um tempo, ficou sentado na escada que levava ao segundo andar, virando as páginas. E então estava esticado no sofá do escritório, a cabeça repousada em uma das pilhas de livros, lendo à luz inclinada do fim de outubro, sem se lembrar de como chegara ali.
Terminou rapidamente e então se levantou, dominado por uma estranha e vinculativa exuberância. Pensou que devia ser a coisa mais brutal e terrível que já tinha lido, o que, no caso de Carroll, não era pouca coisa. O editor perambulara pelo brutal e pelo terrível durante a maior parte da sua vida profissional, e, naqueles pântanos literários asquerosos e doentios, descobrira flores de beleza inexplicável, e sabia que tinha encontrado outra. Era cruel e perversa, e Carroll precisava dela. Voltou ao início e começou a ler de novo.
ERA SOBRE UMA GAROTA chamada Cate — uma adolescente introvertida que, no início do conto, tem dezessete anos — que um dia é jogada dentro de um carro por um gigante de olhos amarelados e aparelho nos dentes. O gigante amarra as mãos de Cate e a empurra para o banco traseiro da sua perua… onde a moça encontra um rapaz mais ou menos da mesma idade, que, a princípio, ela pensava estar morto e que sofreu um desfiguramento terrível. Seus olhos estão cobertos por um par de bótons redondos e amarelos com uma carinha sorridente. Eles foram alfinetados diretamente nas pálpebras — que também haviam sido costuradas com arame — e nos olhos.
Quando o carro começa a se mexer, o menino faz o mesmo. Ele toca o quadril de Cate, e, assustada, ela morde a língua para não soltar um grito. O rapaz move a mão por todo o corpo da garota, tocando o rosto por último. Sussurrando, diz que se chama Jim e que está viajando com o gigante havia uma semana, desde que aquele homem enorme matou seus pais.
— Ele furou os meus olhos e disse que viu a minha alma escapando. Falou que fazia o mesmo som de quando sopramos em uma garrafa vazia de Coca-Cola, muito bonito. Então, colocou essas coisas em cima deles para manter a minha vida presa. — Enquanto falava, Jim tocou os bótons de carinha sorridente. — Ele quer ver quanto tempo posso viver sem alma.
O gigante os leva a uma área de acampamento abandonada em um parque estadual próximo, onde força Cate e Jim a trocarem carícias sexuais. Considerando que Cate não está beijando Jim com paixão suficiente, o homem bate na cara da moça e arranca a sua língua. No caos que se segue — Jim gritando de medo, cambaleando ao redor às cegas, sangue para todo lado —, Cate consegue escapar pelas árvores. Três horas depois, aparece mancando em uma autoestrada coberta de sangue.
Seu sequestrador nunca foi preso. Ele e Jim desapareceram do parque e do mundo. Os investigadores não conseguem encontrar uma única informação útil sobre os dois. Não sabem quem Jim é e de onde veio, e têm ainda menos informações sobre o gigante.
Duas semanas depois de receber alta do hospital, uma pista surge na caixa de correio. Cate recebe um envelope com um par de bótons de carinha sorridente — as agulhas de aço sujas de sangue seco — e uma polaroide exibindo uma ponte no Kentucky. Na manhã seguinte, um motorista encontra um rapaz no rio debaixo da ponte, horrivelmente decomposto, com peixes entrando e saindo das órbitas oculares vazias.
Cate, que antes era atraente e querida por todos, se torna alvo da pena e do horror daqueles que a conhecem. Ela entende como as pessoas se sentem. Também fica com repulsa ao encarar o próprio rosto no espelho. Ela começa a frequentar uma escola
especial e aprende a língua de sinais, mas não permanece lá por muito tempo. Os outros aleijados — o surdo, o manco, o desfigurado
— a enojam com a carência, a dependência.
Cate tenta, sem sorte, voltar a uma vida normal. Ela não tem amigos próximos, não tem habilidades práticas úteis para um emprego e tem vergonha da sua aparência, da sua inabilidade de falar. Em um momento particularmente doloroso, ela bebe até ganhar coragem para paquerar um homem no bar, apenas para ser ridicularizada por ele e os amigos.
Seu sono é regularmente perturbado por pesadelos, nos quais Cate revive variações improváveis e terríveis do seu sequestro. Em algumas delas, Jim não é vítima, e sim cúmplice, estuprando-a com veemência. Os bótons presos nos olhos são discos espelhados que mostram uma imagem distorcida do rosto de Cate gritando, que, na lógica perfeita dos sonhos, foi entalhado em uma máscara grotesca.
É raro, mas às vezes esses sonhos a deixam excitada. Seu terapeuta diz que isso é comum. Cate demite o terapeuta após descobrir que ele fez uma caricatura horrorosa dela no bloco de notas.
Cate tenta coisas diferentes para ajudar a dormir: gim, analgésicos, heroína. Ela precisa de dinheiro para as drogas, então procura um pouco na cômoda do pai, que a pega em flagrante e a expulsa de casa. Naquela noite, a mãe de Cate telefona para dizer que o pai está no hospital — ele teve um pequeno AVC — e pede para ela, por favor, não ir visitá-lo. Pouco tempo depois, em uma creche para crianças especiais onde Cate trabalha meio período, uma criança enfia um lápis no olho de outra, cegando-a. O acidente não é culpa dela, mas, como resultado, seus vários vícios vêm a público. Ela é demitida e, mesmo depois de se livrar das drogas, é quase impossível encontrar um novo emprego.
Então, em um dia frio de outono, ela sai de um supermercado e passa por uma viatura estacionada aos fundos. O capô está erguido. Um policial com óculos escuros espelhados analisa um radiador superaquecido. Cate olha de relance para o banco de trás
— e ali, com as mãos algemadas às costas, está o seu gigante, dez anos mais velho e 25 quilos mais gordo.
Vê-lo é um choque maior do que ela consegue aguentar, e aquilo acaba com a sua discrição usual. Ela cambaleia na direção do policial que faz reparos debaixo do capô gritando para ele, o tipo de balido choroso que estava sempre produzindo nos primeiros dias após ter tido a língua arrancada, antes que pudesse se acostumar a não ser mais capaz de falar. Cate odeia aqueles sons, mas, por alguns momentos, não consegue se acalmar. Escreve bilhetes rápidos em garranchos praticamente ilegíveis, tentando explicar quem é o gigante e o que ele fez quando ela tinha dezessete anos.
A caneta não acompanha a velocidade dos seus pensamentos, e ela sabe que nada do que escreve faz sentido. No entanto, o policial parece entender o ponto principal quase de imediato e mal olha para as mensagens rabiscadas. Ele lhe diz que vai ficar tudo bem. Diz para ela não ter medo.
O homem no banco de trás havia sido preso por tentar roubar silver tape e uma faca de caça em uma loja de ferragens na Pleasant Street. Essa informação faz o corpo inteiro de Cate tremer.
Ela conhece a loja. Fica bem na esquina da rua do seu apartamento.
O policial diz que, se o homem fez outras coisas, coisas com ela, Cate deveria acompanhá-lo até a delegacia. Ao falar isso, ele a leva até a porta do passageiro. A ideia de entrar no mesmo carro que o seu sequestrador deixa a cabeça da mulher zonza de medo, mas o policial a lembra de que o gigante está algemado e que não vai machucá-la.
Por fim, Cate se senta no banco do passageiro. Aos seus pés, há um casaco pesado. O policial informa que o casaco é dele e que ela deveria vesti-lo, que vai mantê-la aquecida e ajudar com o tremor. Cate olha para ele e se prepara para escrever um agradecimento no bloco de papéis — e então congela e se vê incapaz de escrever. Algo no reflexo distorcido do seu rosto nas lentes espelhadas dos óculos escuros a deixou petrificada.
O policial fecha a porta e vai até a frente do carro para abaixar o capô. Com os dedos dormentes, ela se inclina para pegar o casaco.
Presos na frente, em cada um dos peitos, estão dois bótons de carinhas sorridentes. Ela sabe quem é o policial, mas o pensamento é atordoante demais para aceitar, e Cate tenta se convencer de que
aquilo é loucura. Buttonboy era cego, e o policial leu as suas anotações, e é impossível que eles sejam o mesmo indivíduo, não, de jeito nenhum. Mas o policial não leu as anotações. Ele nunca olhou para elas. Cate percebe isso naquele momento.
Ela pega a maçaneta, mas a porta não abre. O vidro da janela não desce. O capô faz um estrondo ao ser fechado. O homem de óculos escuros que não é policial sorri de maneira horrorosa.
Buttonboy continua a dar a volta pela lateral do carro, passa pela porta do motorista e deixa o gigante sair do banco traseiro. Afinal, olhos são necessários para dirigir.
Em uma floresta cheia de árvores, é fácil se perder e andar em círculos. Pela primeira vez, Cate percebe que foi isso que lhe aconteceu. Ela escapou de Buttonboy e do gigante ao correr em direção às árvores, mas nunca saiu de lá — não de verdade — e tem rastejado na escuridão do bosque desde então, fazendo um grande círculo de volta a eles. Ela enfim chegara ao local no qual era esperada, e esse pensamento não é aterrorizante; na verdade, é estranhamente tranquilizador. Para Cate, parece que seu lugar sempre foi ao lado deles, e há uma espécie de alívio nisso, em pertencer a um lugar. Ela relaxa no assento, fechando sem pensar o casaco de Buttonboy para se proteger do frio.
EDDIE CARROLL NÃO SE surpreendeu por Noonan ter sofrido críticas severas pela publicação de “Buttonboy”. A história se demorava nas imagens de degradação feminina e a heroína fora escrita como uma espécie de cúmplice disposta aos maus tratos emocionais, sexuais e espirituais que iria sofrer. Isso era ruim… mas Joyce Carol Oates escreveu histórias como aquela para publicações semelhantes à True North Review e ganhou prêmios. O pecado literário realmente imperdoável era o fim chocante.
Carroll sabia como a história acabaria — depois de ler quase dez mil contos de terror e sobrenatural, era difícil pegá-lo de surpresa —, mas tinha gostado mesmo assim. Entre os intelectuais da literatura, no entanto, um fim surpreendente (não importa quão bem executado) era a marca da ficção comercial pueril e da televisão ruim. Os leitores da True North Review eram, ele imaginava, acadêmicos de meia-idade, pessoas que davam aulas sobre
Grendel e Ezra Pound com sonhos, de partir o coração, de um dia vender um poema para a New Yorker. Para eles, ler um fim chocante em um conto era como uma bailarina soltar um peido em uma apresentação de O lago dos cisnes — uma gafe tão terrível que quase chegava a ser hilariante. Ou o professor Harold Noonan morava há pouco tempo na torre de marfim ou tinha um desejo inconsciente de ser demitido.
Embora o fim fosse mais John Carpenter do que John Updike, Carroll não havia encontrado nada parecido em nenhuma daquelas revistas de terror, não nos últimos tempos. Era, por 25 páginas, a história quase completamente naturalista de uma mulher sendo destruída pouco a pouco pelo desgaste constante da síndrome do sobrevivente. Falava sobre relações familiares tortuosas, empregos de merda, a luta pelo dinheiro. Carroll esquecera como era encontrar o ganha-pão do dia a dia em um conto. A maioria das ficções de terror só se preocupava com carne malpassada sangrando.
Ele começou a andar de um lado para o outro no escritório, animado demais para se sentar, com “Buttonboy” aberto em uma das mãos. Viu de relance seu reflexo na janela atrás do sofá e percebeu que sorria de maneira quase indecente, como se tivesse escutado uma piada obscena particularmente boa.
Ele tinha onze anos quando assistiu Desafio do além no Oregon Theater, acompanhado dos primos. Assim que as luzes se apagaram, porém, seus companheiros foram engolidos pela escuridão e ele ficou essencialmente sozinho, apertado dentro do próprio armário de sombras. Às vezes, precisava de toda a sua força de vontade para não afastar os olhos, embora as entranhas se agitassem com um arrepio nervoso de prazer. Quando as luzes enfim se acenderam, suas terminações nervosas vibravam, como se Carroll tivesse segurado um fio de cobre ligado na corrente elétrica por um momento. Era uma sensação pela qual desenvolvera uma compulsão.
Depois, quando se tornou um profissional e aquele passou a ser seu trabalho, os sentimentos ficaram mais silenciosos — não mudos, mas como se experimentados à distância, mais como a memória de uma emoção do que a coisa em si. E, nos últimos
tempos, até a memória desaparecera, sendo substituída por uma amnésia entorpecente, um desinteresse dormente quando ele encarava as pilhas de revista na sua mesa de centro. Ou não — ele era dominado pelo pavor, mas o tipo errado de pavor.
Entretanto, aquilo ali no seu escritório, recém-saído das depredações de “Buttonboy”… era a maneira mais autêntica de corrigir aquilo. Ele fizera badalar seu sino interior e o deixara vibrando. Carroll não conseguia se acalmar, não estava acostumado à exuberância. Tentou pensar qual fora a última vez que publicou, se é que já tinha publicado, uma história da qual gostara tanto quanto “Buttonboy”. Foi até a estante e pegou o primeiro volume de Best New Horror (que ainda era o melhor de todos), curioso para ver o que o deixara animado na época. No entanto, ao buscar pelo sumário, abriu na página da Dedicatória, que era para sua então esposa, Elizabeth. “Aquela que me ajuda a encontrar o caminho na escuridão”, escrevera em uma vertiginosa demonstração de afeto.
Olhar para aquilo causava arrepios nos seus braços.
Elizabeth deixara Carroll após ele descobrir que a esposa dormia com seu gerente de investimentos havia mais de um ano. Ela foi morar com a mãe e levou Tracy.
— De certa forma, fico quase feliz por você ter pegado a gente
— disse ela, conversando com Carroll pelo telefone, algumas semanas depois de sair de sua vida. — Para acabar com tudo aquilo.
— Com o caso? — perguntou ele, imaginando se Elizabeth estava prestes a dizer que tinha terminado com o amante.
— Não — respondeu Lizzie. — Quis dizer toda aquela merda de terror e todas aquelas pessoas que sempre apareciam para falar com você, o pessoal do terror. Os porcos suados que ficam de pau duro com cadáveres. É a melhor parte disso tudo. Pensar que talvez Tracy possa ter uma infância normal. Pensar que eu finalmente vou conseguir conviver com adultos saudáveis e normais.
Já era bem ruim ela ter deitado e rolado por aí, mas jogar Tracy assim na cara dele o fazia perder o fôlego de ódio até hoje. Colocou a publicação de qualquer jeito na prateleira e se arrastou até a cozinha para almoçar, sua animação inquieta enfim extinta. Ele estava procurando uma maneira de usar toda aquela energia
distrativa inútil. A boa e velha Lizzie — ainda fazendo favores a ele, mesmo a sessenta quilômetros de distância e na cama de outro homem.
DE TARDE, CARROLL MANDOU um e-mail para Harold Noonan pedindo o contato de Kilrue. Noonan respondeu menos de uma hora depois, bastante satisfeito por Carroll estar interessado em
“Buttonboy”. Ele não sabia o e-mail de Peter Kilrue, mas tinha um endereço e um telefone.
No entanto, a carta que Carroll escreveu para ele retornou com o carimbo
- , e, quando ligou para o número de telefone, ouviu uma gravação que dizia Esta linha foi desconectada. O editor telefonou para Harold Noonan na Katahdin University.
— Não posso dizer que fico surpreso — falou Noonan, a voz rápida e baixa, retraída pela timidez. — Tenho a impressão de que ele é mais como um itinerante. Acho que pula de um trabalho de meio período para outro a fim de pagar as contas. Provavelmente, o melhor seria ligar para Morton Boyd, da zeladoria da universidade.
Imagino que tenham as informações de Peter lá.
— Quando foi a última vez que você o viu?
— Eu o visitei em março. Passei no apartamento dele depois da publicação de “Buttonboy”, quando a resposta negativa do público estava a todo vapor. Pessoas dizendo que a história era um discurso de ódio misógino, que devíamos publicar um pedido de desculpas e besteiras do tipo. Eu queria que ele soubesse o que estava acontecendo. Acho que esperava que Peter lutasse de alguma maneira, escrevesse um texto defendendo a história para o jornal da faculdade ou coisa assim… mas não. Alegou que não teria força. Na verdade, foi uma visita estranha. Ele é um sujeito estranho. Não são apenas as histórias. É ele.
— O que quer dizer?
Noonan riu.
— Não sei bem. O que tenho na cabeça? Sabe quando você está com febre e olha para uma coisa totalmente normal, como a luminária da escrivaninha, e aquilo parece esquisito de alguma forma? Como se estivesse derretendo ou se preparando para ir embora? Encontrar-se com Peter Kilrue pode ser mais ou menos
assim. Não sei por quê. Talvez seja porque ele é muito intenso sobre coisas bem preocupantes.
Carroll nem o tinha conhecido, mas já gostava de Peter Kilrue.
— Que coisas?
— Quando fui visitá-lo, seu irmão mais velho atendeu a porta.
Seminu. Acho que o sujeito estava morando com Peter na época.
Era… não quero soar insensível… mas diria que ele era perturbadoramente gordo. E tatuado. Perturbadoramente tatuado.
Na barriga havia um moinho com cadáveres podres dependurados.
Nas costas, um feto com… os olhos riscados. E um bisturi em uma das mãos. E presas.
Carroll riu, mas não sabia se era engraçado.
— Mas ele era bacana — falou Noonan. — Amigável como todo mundo que é extrovertido. Ele me convidou para entrar, me ofereceu um refrigerante e nós nos sentamos no sofá em frente à televisão.
E… isso é bem estranho… enquanto conversávamos e eu falava sobre a reação do público, o irmão mais velho se sentou no chão e Peter fez um piercing caseiro nele.
— Ele fez o quê?
— Ah, Deus, sim. Bem no meio da conversa, ele enfiou uma agulha quente na parte de cima da orelha do irmão. Você não acreditaria na quantidade de sangue. Quando o sujeito gordo se levantou, parecia que tinha levado um tiro na lateral da cabeça, que não parava de jorrar sangue. Era como o final de Carrie, como se ele tivesse se banhando naquilo, e aí ele me perguntou se eu queria outra Coca.
Dessa vez, os dois riram juntos e, por um momento, um silêncio amigável se passou entre eles.
— Além disso, eles estavam assistindo a alguma coisa sobre Jonestown — falou Noonan de repente, como se tivesse deixado aquilo escapar, na verdade.
— Hã?
— Na televisão. Sem som. Enquanto estávamos conversando e Peter fazia buracos no irmão. De certa forma, aquilo era a verdadeira questão, o toque final bizarro que fazia tudo parecer tão irreal. Era uma gravação dos corpos na Guiana Francesa. Depois de eles terem bebido o refresco. As ruas cheias de cadáveres e todos
aqueles pássaros, você sabe… bicando eles. — Noonan engoliu em seco. — Acho que era um vídeo em loop, porque parecia que eles viram a mesma gravação mais de uma vez. Eles assistiam como se… como se estivessem em transe.
Outro silêncio se passou entre os dois. Para Noonan, parecia ser do tipo desconfortável. Pesquisa, pensou Carroll — com certo grau de aprovação.
— Você não achou “Buttonboy” um exemplo notável de ficção americana? — perguntou Noonan.
— Achei. Acho.
— Não sei como ele vai se sentir sobre participar da sua coletânea, mas, da minha parte, fico bastante satisfeito. E espero não tê-lo deixado assustado sobre Peter.
Carroll sorriu.
— Não me assusto tão fácil.
BOYD, DA ZELADORIA DA universidade, também não sabia onde Peter estava.
— Ele me disse que tinha um irmão que trabalhava no departamento de obras públicas de Poughkeepsie. Ou era Poughkeepsie ou Newburgh. Ele queria entrar nessa. Esses trabalhos dão uma boa grana, e a melhor coisa é que, depois que você entra, não podem te demitir, não importa se você é um maníaco homicida.
A menção a Poughkeepsie chamou a atenção de Carroll.
Haveria uma pequena convenção de fãs de fantasia lá no fim do mês — Maldi-con, Assombra-con ou qualquer coisa do tipo.
Masturba-con. Ele fora convidado, mas, nos últimos tempos, vinha ignorando as mensagens da organização, não se importava mais com as cons menores. Além disso, o momento não era bom, tão perto do seu prazo final.
Ele ia ao World Fantasy Awards todo ano, no entanto, e ao Camp NeCon, e a algumas poucas outras convenções mais interessantes. As convenções eram uma das funções do trabalho que ele ainda não odiava por completo. Seus amigos estavam lá. E, além disso, parte dele ainda gostava da coisa e das memórias que a coisa às vezes despertava.
Como daquela vez em que encontrara um vendedor de livros oferecendo a primeira edição de I Love Galesburg in the Springtime.
Carroll não via um exemplar de Galesburg, ou mesmo pensava no livro, havia anos, mas, ao folhear suas páginas amarronzadas e frágeis, com um glorioso cheiro de poeira e sótão, uma vertiginosa onda de lembrança o envolveu. Tinha lido Galesburg aos treze anos, e o livro o dominou por duas semanas. Chegara a subir no teto de casa, saindo pela janela do quarto, para ler; era o único lugar em que conseguia escapar do som dos pais brigando. Ele se lembrou da áspera textura das telhas, do cheiro de borracha que saía delas ao queimarem no sol, do barulho distante de um cortador de grama e, acima de tudo, da própria sensação de deslumbramento conforme lia sobre a impossível moeda de dez centavos de Woodrow Wilson criada por Jack Finney.
Carroll telefonou para o departamento de obras públicas de Poughkeepsie e foi transferido para o RH.
— Kilrue? Arnold Kilrue? Foi demitido há seis meses — informou um homem com a voz fina e chiada. — Sabe como é difícil ser demitido de um emprego nas obras públicas? É a primeira pessoa que demito em anos. Mentiu sobre não ter ficha na polícia.
— Não, não Arnold Kilrue. Peter. Arnold talvez seja irmão dele.
Ele era obeso e tinha um monte de tatuagens?
— Nem um pouco. Magro. Forte. Só uma mão. A mão esquerda foi engolida por uma enfardadeira, segundo ele.
— Ah — disse Carroll, pensando que essa pessoa parecia ser parente de Peter Kilrue. — Qual foi o crime que ele cometeu?
— Violou uma medida protetiva.
— Ah — falou Carroll. — Foi uma disputa matrimonial? — O
editor tinha simpatia por homens que sofreram na mão dos advogados de suas esposas.
— Porra nenhuma — respondeu o sujeito. — Com a própria mãe. O que acha disso, caralho?
— Você sabe se ele tem alguma relação com Peter Kilrue e como posso entrar em contato com ele?
— Não sou o secretário dele, meu amigo. Já acabamos por aqui?
Eles tinham acabado.
CARROLL TENTOU O SERVIÇO de informações e ligou para qualquer pessoa na área de Poughkeepsie com o nome Kilrue, mas ninguém com quem falou conhecia um Peter, e ele, por fim, desistiu.
Enfurecido, começou a limpar o escritório jogando papéis na lata de lixo sem sequer dar uma olhada neles, pegando montes de livros de um lugar e os colocando em outro, sem ideias ou paciência.
No fim da tarde, atirou-se no sofá para pensar e acabou tirando uma soneca nervosa. Mesmo sonhando, Carroll estava com raiva, perseguindo um garotinho que roubara as chaves do carro dele em um cinema vazio. O menino era preto e branco e brilhava como um fantasma ou um personagem de filme antigo, e estava se divertindo bastante, balançando o molho no ar e rindo histericamente. Carroll acordou com um susto, sentindo um toque de calor febril nas têmporas, pensando Poughkeepsie.
Peter Kilrue morava em algum lugar naquela parte do estado de Nova York, e no sábado com certeza estaria na DestruiCon em Poughkeepsie, não conseguiria resistir a um evento como esse.
Alguém lá o conheceria. Alguém o identificaria para ele. Tudo que Carroll precisava fazer era estar lá, e os dois se encontrariam.
CARROLL NÃO PASSARIA A noite na cidade — era uma viagem de só quatro horas, ele podia ir e voltar no mesmo dia —, e, às seis da manhã, estava a 120 quilômetros por hora na pista esquerda da I-90. O sol nascia atrás dele, enchendo o retrovisor com uma luz cegante. Era bom pisar fundo no acelerador, sentir o carro indo para o oeste, perseguindo a longa linha fina que era a própria sombra.
Então, Carroll pensou que sua filhinha deveria estar ali com ele, diminuiu um pouco a velocidade, a animação pela estrada desaparecendo aos poucos.
Como qualquer criança, Tracy amava convenções. Elas forneciam o espetáculo de adultos fazendo papel de bobos, usando fantasias do Pinhead ou da Elvira. E que criança resistiria à inevitável área de vendas, aquele grande labirinto de mesas exibindo objetos macabros, o lugar em que uma menina podia comprar uma mão de borracha sangrenta por um dólar? Certa vez, Tracy passara uma hora jogando pinball com Neil Gaiman na World
Fantasy Convention em Washington. Eles ainda escreviam um para o outro.
Passava pouco do meio-dia quando ele entrou no Mid-Hudson Civic Center. A área de vendas fora enfiada em uma das salas de show e o lugar estava densamente povoado, as paredes de concreto ecoando as risadas e o ribombo constante de conversas se sobrepondo umas às outras. Ele não tinha avisado a ninguém que ia, mas não fez diferença, pois uma das organizadoras o reconheceu, uma mulher gordinha com cabelo ruivo cheio de frizz usando um fraque de risca de giz.
— Eu não fazia ideia… — disse ela, e: — Você não respondeu nossas cartas! — E aí: — Quer beber alguma coisa?
De repente, ele tinha uma Cuba Libre em uma das mãos e um pequeno grupo de curiosos ao redor falando sobre filmes, escritores e a Best New Horror, e Carroll se perguntou por que raios tinha considerado não vir. Um palestrante do painel das 13h30, sobre como andava a cena dos contos de terror, faltara. Não seria maravilhoso se…?
— Ah, seria — disse ele.
Carroll foi levado para o salão da convenção, com fileiras de cadeiras dobráveis e uma mesa longa nos fundos com uma jarra de água gelada em cima. Sentou-se com os outros palestrantes: um professor que escrevera um livro sobre Poe, um editor de uma revista de terror on-line e um escritor local de livros infantis de fantasia. A ruiva os apresentou às duas dezenas de pessoas, ou mais ou menos isso, que ocupavam a sala, e então todos tiveram a chance de fazer um discurso de abertura. Carroll foi a último.
Em primeiro lugar, disse que todo o mundo fictício era um trabalho de fantasia, e que, quando escritores introduzem uma ameaça ou um conflito nas histórias, eles criam a possibilidade do terror. Ele fora atraído pela ficção de horror porque ela pegava os elementos mais básicos da literatura e os levava ao limite. Toda ficção era um faz de conta, o que tornava a fantasia mais válida (e honesta) do que o realismo.
Falou que a maioria do horror e da fantasia ia além do ruim: imitações cansativas e sem criatividade daquilo que já era uma merda, para início de conversa. Disse que, às vezes, passava
meses sem encontrar uma única ideia nova, um único personagem memorável, uma única frase digna de nota.
Então, informou ao público que as coisas sempre foram dessa maneira. Provavelmente, era justo afirmar que qualquer campo —
artístico ou não — dependia de um monte de gente criando um monte de coisas ruins para produzir alguns poucos sucessos. Todos eram bem-vindos para tentar, errar, aprender com seus erros e tentar de novo. E sempre haveria pedras preciosas para serem garimpadas no meio disso tudo. Falou de Clive Barker, de Kelly Link, de Stephen Gallagher e de Peter Kilrue, falou para a plateia sobre
“Buttonboy”. Disse que, pelo menos na opinião dele, nada era melhor que o barato de descobrir algo emocionante e novo, que ele sempre amaria aquilo, aquele horrível choque de alegria. Conforme discursava, Carroll percebeu que era verdade. Quando terminou, algumas pessoas da última fileira começaram a aplaudir, o som foi se espalhando feito uma onda em uma piscina e, à medida que o barulho dominava o salão, as pessoas começaram a se levantar.
Carroll suava quando saiu de trás da mesa para trocar alguns apertos de mão depois que o painel terminou. Tirou os óculos para limpar o rosto com a bainha da camisa e, antes de colocá-los de volta, apertou a mão de alguém, uma figura magra e pequena. Ao recolocar os óculos, viu que apertava a mão de um homem que não estava de todo feliz em reconhecer, um sujeito magricela com a boca cheia de dentes tortos e manchados por nicotina e um bigode tão pequeno e arrumadinho que parecia ter sido desenhado.
Seu nome era Matthew Graham e ele editava um fanzine de horror odioso chamado Rancid Fantasies. Carroll ouvira falar que Graham tinha sido preso por molestar a enteada menor de idade, embora, pelo visto, o caso não tivesse chegado aos tribunais. Ele tentava não ter preconceito com os autores que Graham publicava, mas também nunca encontrara nada no Rancid Fantasies remotamente digno de ser republicado na Best New Horror.
Histórias sobre agentes funerários drogados que estupravam cadáveres sob sua responsabilidade, caipiras imbecis que davam à luz demônios de cocô em casinhas localizadas sobre antigos cemitérios indígenas, trabalhos pontuados por erros ortográficos e graves ofensas gramaticais.
— Aquele Peter Kilrue é mesmo incrível, não é? — perguntou Graham. — Eu publiquei a primeira história dele. Você não leu?
Mandei uma cópia para você, meu querido.
— Acho que deixei passar essa — respondeu Carroll. Ele não se dava ao trabalho de ler o Rancid Fantasies há mais de um ano, embora recentemente tenha usado um exemplar como calço para a caixa de areia do gato.
— Você ia gostar dele — disse Graham, mostrando outra vez os poucos dentes. — Ele é um de nós.
Carroll tentou não demonstrar o arrepio que passou pelo seu corpo.
— Você já falou com ele?
— Se falei? Tomei umas cervejas com ele no almoço. Peter esteve aqui de manhã. Por pouco você não encontra ele. — Graham abriu a boca em um sorriso enorme. Seu bafo fedia. — Se quiser, posso passar o endereço dele. Ele não mora longe, sabe?
DURANTE UM BREVE ALMOÇO tardio, Carroll leu o primeiro conto de Peter Kilrue em um exemplar do Rancid Fantasies que Matthew Graham conseguira arranjar. O título era “Porcos” e falava sobre uma mulher perturbada que dava à luz uma ninhada de leitões. Os porcos aprendem a falar, caminham com as pernas traseiras e usam roupas, como os suínos de A revolução dos bichos. No fim da história, no entanto, eles voltam à selvageria, usando suas presas para destruir a mãe em pedacinhos. Conforme o conto se aproxima do final, eles começam um combate mortal para ver quem vai comer as partes mais gostosas do cadáver dela.
Era uma história furiosa e cáustica, e, embora fosse a melhor coisa que o Rancid Fantasies já tivesse publicado — escrita com cuidado e realismo psicológico —, Carroll não gostou muito. Uma passagem na qual os porcos lutam para mamar nas tetas da mãe parecia um trabalho pornográfico excepcionalmente horrível e grotesco.
Matthew Graham tinha dobrado e colocado uma folha de papel branca no fim do fanzine com um mapa tosco até a casa de Kilrue, pouco mais de trinta quilômetros ao norte de Poughkeepsie, em uma cidadezinha chamada Piecliff. Ficava no caminho de volta de
Carroll, passando por uma belíssima estrada, a Taconic, que o levaria de volta à I-90. Não havia telefone. Graham mencionara que Kilrue enfrentava problemas financeiros e que a companhia telefônica havia cortado a linha.
Já estava escurecendo quando Carroll chegou na Taconic, a escuridão se reunindo embaixo dos grandes carvalhos e abetos altos que lotavam a lateral da estrada. Ele parecia ser a única pessoa na via, que seguia cada vez mais para as montanhas e a floresta. Às vezes, ele via famílias de cervos iluminadas pela luz dos faróis no acostamento, os olhos rosados no negrume, observando-o passar com uma mistura de medo e curiosidade.
Piecliff não era grandes coisas: algumas lojas, uma igreja, um cemitério, um posto de gasolina, um único sinal de trânsito com a luz amarela piscando. Carroll logo a atravessou e seguiu por uma rodovia estadual estreita que avançava por uma floresta de pinheiros. Àquela altura, a noite caíra por completo, e fazia frio suficiente para que ele precisasse ligar o aquecedor. Virou na Tarheel Road e seu carro sofreu para continuar por uma série de zigue-zagues, subindo uma colina tão íngreme que o motor não parava de reclamar. Fechou os olhos por um segundo e quase não fez uma curva fechada, teve que girar o volante para evitar bater nos arbustos e cair pela lateral da encosta.
Quase um quilômetro depois, o asfalto virou cascalho e ele seguiu procurando na escuridão, os pneus levantando uma nuvem luminescente de poeira. Seus faróis iluminaram um homem gordo com um gorro de tricô laranja berrante enfiando a mão em uma caixa de correio. Na lateral dela, letras adesivas que refletiam a luz informavam
. Carroll desacelerou.
O homem gordo levantou a mão para proteger os olhos do farol e observou o carro. Então sorriu, indicou a direção da casa com a cabeça, um gesto de siga-me, como se Carroll fosse um visitante esperado. O homem seguiu pela entrada, e Carroll dirigiu atrás dele.
Plantas se inclinavam sobre o apertado caminho de terra. Galhos batiam no para-brisa e se arrastavam nas laterais do seu Civic.
Por fim, o caminho se abriu até a frente de uma grande casa de fazenda amarela com um torreão e um alpendre meio caído que dava a volta na construção. Uma placa de compensado fora
pregada em uma janela quebrada. Havia um vaso sanitário na grama. Ao ver o lugar, Carroll sentiu os pelos do braço se arrepiarem. As jornadas terminam com o encontro dos amantes, pensou, e sorriu com sua imaginação ansiosa. Estacionou ao lado de um trator antigo com pés silvestres de milho colorido crescendo no capô aberto.
Enfiou as chaves do carro no bolso do casaco e saiu, caminhando na direção do alpendre, onde o homem gordo estava esperando. Durante o percurso, passou por um galpão bastante iluminado. As portas duplas estavam fechadas, mas Carroll ouviu o barulho de uma serra lá dentro. Olhou de novo para a casa e viu uma silhueta escura, iluminada por trás, de uma figura que o observava de uma das janelas do segundo andar.
Eddie Carroll disse que procurava Peter Kilrue. O homem gordo inclinou a cabeça para a porta, o mesmo gesto de siga-me usado para convidá-lo a entrar na propriedade. Então, ele deu meia-volta e abriu a porta para Carroll.
As luzes do vestíbulo eram fracas, as paredes, pontuadas por fotos emolduradas tortas. Uma escada estreita levava ao segundo andar. Havia um odor no ar, um aroma úmido e estranhamente masculino… como suor, mas também como massa de panqueca.
De imediato, Carroll identificou o que era e, quase ao mesmo tempo, decidiu fingir que não tinha notado nada.
— Este lugar está cheio de merda — falou o homem gordo. —
Deixa eu pendurar o seu casaco. Senão nunca mais vai ser encontrado. — Sua voz era animada e sibilante. Conforme Carroll lhe entregava o casaco, o homem gordo se virou e berrou na direção da escada: — Pete! Tem gente aqui! — A mudança súbita de uma voz de bate-papo para um grito furioso fez Carroll pular de susto.
O piso de madeira rangeu acima deles, e então um homem magro, com uma jaqueta de veludo cotelê e óculos de armação preta e quadrada apareceu no topo da escada.
— O que posso fazer por você? — perguntou ele.
— Meu nome é Edward Carroll. Sou editor de uma série de livros, a America’s Best New Horror. — Ele procurou por algum tipo de reação no rosto do homem magro, mas Kilrue permaneceu
impassível. — Li uma das suas histórias, “Buttonboy”, na True North, e gostei bastante. Queria colocá-la na coletânea deste ano. — Ele parou, e então acrescentou: — Não foi fácil encontrar você.
— Sobe aqui — disse Kilrue, se afastando do topo da escada.
Carroll começou a subir os degraus. Lá embaixo, o irmão gordo andou pelo vestíbulo, o casaco de Carroll em uma das mãos, a correspondência da família Kilrue na outra. Então, de repente, o homem gordo parou, olhou para cima, até a escada, e balançou um envelope pardo.
— Ei, Pete! O cheque da aposentadoria da mamãe chegou! — A voz estava vacilante de prazer.
Quando Carroll chegou ao segundo andar, Peter Kilrue já se adiantava pelo corredor, na direção de uma porta aberta. De alguma forma, o próprio corredor parecia torto. Os pés de Carroll sentiam o piso tão inclinado que o homem precisou encostar na parede para se equilibrar. Havia tábuas faltando. Um candelabro pendurado com pingentes de cristal flutuava sobre a escada coberto de sujeira e teias de aranha. Em algum canto distante e ecoante no cérebro de Carroll, um corcunda tocava as primeiras notas do tema de A família Addams em um xilofone.
O pequeno quarto de Kilrue tinha o teto anguloso, localizado bem embaixo de uma das águas do telhado. Encostada na parede, havia uma mesinha quadrada com um tampo lascado e uma máquina de escrever elétrica que zumbia, além de uma folha de papel enrolada na guia.
— Estava trabalhando? — perguntou Carroll.
— Não consigo parar — disse Kilrue.
— Que bom.
Kilrue se sentou na cama de montar. Carroll deu um passo para dentro do cômodo e não conseguiu avançar mais sem abaixar a cabeça. Peter Kilrue tinha estranhos olhos descoloridos, as pálpebras com as bordas vermelhas, como se estivessem irritadas, e encarava Carroll sem piscar.
O editor falou para ele sobre a coletânea. Disse que podia pagar duzentos dólares e uma porcentagem de direitos autorais compartilhados. Kilrue anuiu, sem parecer surpreso ou curioso
sobre os detalhes. Seu tom de voz era ofegante e feminino. Ele agradeceu.
— O que achou do meu final? — questionou Kilrue de supetão.
— De “Buttonboy”? Eu gostei. Se não tivesse gostado, não ia querer publicá-lo.
— O pessoal da Katahdin University odiou. Todas aquelas universitárias com saias godê e papais ricos. Detestaram muita coisa na minha história, mas acima de tudo o final.
Carroll assentiu.
— É porque não esperavam por aquilo. É provável que algumas delas tenham ficado desagradavelmente surpresas. O final chocante está fora de moda na maior parte da literatura.
— Na primeira versão da história, o gigante está estrangulando Cate e, no momento em que ela começa a perder os sentidos, sente o outro usando os bótons para fechar a boceta dela. Mas fiquei com medo e cortei. Não acho que Noonan teria publicado assim.
— No terror, o que costuma dar poder à história é o que deixamos de fora — disse Carroll, mas estava falando apenas por falar. Ele sentiu um suor frio surgindo em sua testa. — Vou pegar os documentos no carro. — Também não sabia por qual motivo dissera aquilo. Não havia documento nenhum no carro, ele só sentiu uma vontade súbita e intensa de respirar um pouco de ar fresco.
Abaixou-se para sair do quarto e voltar para o vestíbulo.
Percebeu que precisava se segurar para não caminhar mais depressa.
No primeiro andar, Carroll hesitou, imaginando onde o irmão mais velho e obeso de Kilrue deixara seu casaco. Caminhou pelo corredor, que ficava cada vez mais escuro conforme avançava.
Havia uma portinha debaixo da escada, mas, quando puxou a maçaneta de bronze, ela não abriu. Carroll continuou pelo corredor, procurando um armário. De algum lugar próximo, ouviu gordura chiando na panela, sentiu cheiro de cebola e escutou uma faca batendo. Empurrou a porta à direita e deu de cara com uma sala de jantar formal, com cabeças de animais penduradas nas paredes.
Um fraco e comprido feixe de luz iluminava a mesa. A toalha sobre ela era vermelha e tinha uma suástica no centro.
Fechou a porta com cuidado. Outra, à esquerda, logo depois do vestíbulo, estava aberta, proporcionando uma visão da cozinha. O
homem gordo encontrava-se atrás de um balcão, com o peito nu e tatuado, cortando o que parecia ser um fígado com um cutelo. Ele tinha anéis de ferro nos mamilos. Carroll estava prestes a chamá-lo quando o Kilrue gordo deu a volta no balcão e caminhou até o fogão, para mexer no que quer que estivesse dentro da frigideira.
Usava
apenas
uma
cueca
coquilha,
e
sua
bunda
surpreendentemente magra e pálida tremia a cada passo. Carroll se deslocou de volta para a escuridão do vestíbulo e, depois de um momento, continuou avançando em silêncio.
O corredor era ainda mais torto do que o do andar de cima, visivelmente inclinado, como se a casa tivesse sido sacudida por algum evento sísmico e a frente não estivesse mais alinhada com os fundos. Ele não sabia por que não dava meia-volta. Não fazia sentido ficar explorando cada vez mais uma casa estranha. Ainda assim, seus pés seguiam em frente.
Carroll abriu uma porta à esquerda, perto do fim do corredor.
Recuou com o fedor e o zumbido furioso das moscas. Um desagradável calor escapou pela porta e o envolveu. Aquele era o cômodo mais escuro de todos, um quarto extra, e ele estava prestes a sair dali quando escutou alguma coisa se mexendo sob os lençóis na cama. Cobriu a boca e o nariz com uma das mãos e se obrigou a dar um passo e a esperar seus olhos se acostumarem com o negrume.
Uma velha franzina estava deitada com o lençol embolado na cintura. Ela estava nua, e Carroll pensou que a tinha pego no momento em que se espreguiçava, os braços esqueléticos levantados acima da cabeça.
— Sinto muito — murmurou ele, olhando para o outro lado. —
Sinto muitíssimo.
Carroll começou a fechar a porta e então parou, observando outra vez o quarto. Debaixo dos lençóis, a velha senhora voltou a se agitar. Os braços ainda estavam levantados. Foi o cheiro, aquele fedor humano, que o fez parar e olhar para ela de novo.
Quando seus olhos se acostumaram com a escuridão, o homem viu o arame em volta dos pulsos dela, prendendo seus braços na
cabeceira. Os olhos estavam retalhados e a respiração era curta e barulhenta. Abaixo dos sacos enrugados que eram os seios, Carroll conseguia ver as costelas da mulher. As moscas zumbiam. A língua saiu da boca e se moveu pelos lábios secos, mas a velha não falou nada.
E então, ele estava indo em direção ao vestíbulo, andando rápido com as pernas duras. Ao passar pela cozinha, achou que o irmão gordo olhou para cima e o viu ali, mas não diminuiu a velocidade. De rabo de olho, percebeu Peter Kilrue parado no topo da escada, olhando para ele, a cabeça inclinada em um ângulo questionador.
— Volto já com aqueles documentos — falou para ele, sem parar de andar. Sua voz saiu de forma surpreendentemente casual.
Alcançou a porta da frente e passou por ela rapidamente. Não pulou a escada de uma vez; na verdade, pisou em cada degrau.
Quando você está correndo de alguém, nunca deve pular a escada, é assim que acaba torcendo o pé. Ele já tinha visto isso acontecer em uma centena de filmes de terror. O ar estava tão gelado que queimou seus pulmões.
Uma das portas do galpão estava aberta. Enquanto passava, deu uma olhada lá dentro. Viu um chão liso e sujo, correntes e ganchos enferrujados dependurados nas vigas do teto, uma serra elétrica em uma das paredes. Atrás de uma mesa de serra, havia um homem alto e ossudo com apenas uma mão. A outra era um toco, a pele retorcida reluzindo com as cicatrizes. Ele observou Carroll sem falar nada, os olhos descoloridos julgadores e hostis.
Carroll sorriu e acenou.
Abriu a porta do carro e soltou um suspiro de alívio atrás do volante… e, no segundo seguinte, sentiu uma pontada de pânico no peito. As chaves do carro estavam no casaco. O casaco estava na casa. Quase chorou com o horrível choque daquilo, mas, quando abriu a boca, o que saiu foi uma risada nervosa e soluçada. Ele também já vira aquilo em centenas de filmes de terror, lera aquele momento em trezentas histórias. Eles nunca tinham as chaves, ou o carro não pegava, ou…
O irmão maneta apareceu na porta do galpão e o encarou.
Carroll deu um aceno. Com a outra mão, ele desconectou o celular
do carregador. Olhou para o aparelho. Não havia sinal. De alguma forma, aquilo não o deixou surpreso. Riu de novo, um som engasgado, nervoso e estridente.
Quando levantou o olhar, viu que a porta da frente se abrira e que duas figuras estavam paradas ali, observando-o. Todos os irmãos olhavam para ele. Saiu do carro e começou a andar rápido pela trilha. Só correu depois de ouvir um deles gritar.
Quando chegou à estrada principal, ele não virou para seguir, mas a cruzou e se enfiou na mata, entre as árvores. Galhos finos como chicotes açoitaram seu rosto. Tropeçou e rasgou a calça nos joelhos, se levantou, seguiu em frente.
A noite estava clara e sem nuvens, a profundidade infinita do céu cheia de estrelas. Ele parou ao lado de um declive íngreme, agachado entre as pedras, para recuperar o fôlego, uma dor aguda na lateral do corpo. Ouviu vozes acima, galhos quebrando. Escutou alguém puxar a corda de um pequeno motor uma, duas vezes, e então o rugido alto de uma motosserra ganhando vida.
Ele se ergueu e correu, avançando colina abaixo, atravessando os galhos dos abetos, pulando raízes e pedregulhos sem conseguir vê-los. O morro ia ficando cada vez mais íngreme, até que a coisa toda era mais como cair. Estava indo rápido demais, e sabia que sua parada envolveria bater em algo e sentir uma dor imensa.