O Telefone Preto e Outras Histórias

Joe Hill · Capítulo 7 de 16

Páginas do PDF

O Telefone Preto e Outras Histórias

Melhor que lá em casa

— Vê o que faço por causa de vocês? — perguntou ele. — Sua mãe também era assim, teimosa e histérica, tão carente de instruções quanto os filhos. Eu tentei, eu…

O homem se virou para encará-lo, e Max o atingiu com a marreta. O pai tivera tempo de registrar o choque e até certo espanto. O garoto acertou seu maxilar, um golpe que produziu um som ósseo, com força suficiente para fazer o tremor da pancada alcançar o cotovelo. O pai cedeu e ficou sobre um joelho, e Max o atingiu outra vez para fazê-lo cair de costas.

As pálpebras de Abraham se fecharam conforme ele ficava inconsciente, mas se abriram quando Max se colocou em cima dele.

O pai abriu a boca para falar alguma coisa, mas Max já tinha ouvido o suficiente, estava cansado de conversar, e, de qualquer forma, nunca fora muito bom naquilo. O que mais importava era o trabalho que havia diante de si, um trabalho para o qual ele tinha um talento natural, um trabalho que talvez nascera para fazer.

Colocou a ponta da estaca no local que o pai indicara e acertou a empunhadura com a marreta. Pelo visto, era tudo verdade o que o pai dissera para ele no porão. Houve gemidos, impropérios e uma tentativa desesperada de fugir, mas tudo acabou logo.

MELHOR QUE LÁ EM CASA

MEU PAI ESTÁ NA televisão, prestes a ser expulso do campo de novo. Dá para ver. Alguns dos torcedores no Tiger Stadium sabem disso e gritam coisas mal-educadas e piadinhas. Querem que ele seja expulso. Mal podem esperar por isso.

Sei que o meu pai vai ser expulso porque o árbitro da base principal está tentando se afastar dele, mas o meu pai o segue onde quer que vá. Os cinco dedos da mão direita agarram a frente da própria calça enquanto a mão esquerda faz gestos raivosos no ar.

Os locutores tagarelam animadamente para informar a todo mundo que está assistindo em casa o que o meu pai está tentando dizer ao árbitro, e que o árbitro está se esforçando muito para não ouvir.

— Dava para ter uma ideia, do jeito que as coisas estavam, que os nervos iam aflorar mais cedo ou mais tarde — diz um deles.

Minha tia Mandy ri de nervoso.

— Jessica, venha ver. Ernie está bem nervoso.

Minha mãe vai até a porta da cozinha, vê o que está acontecendo na televisão e encosta no batente com os braços cruzados.

— Não consigo ver — diz Mandy. — Fico tão chateada.

A tia Mandy está em uma das pontas do sofá. Eu estou na outra, ajoelhado sobre a almofada, meus calcanhares pressionando a minha bunda. Estou balançando para a frente e para trás. Não consigo ficar parado. Alguma coisa dentro de mim precisa se balançar. Minha boca está aberta e fazendo o que sempre faz quando estou nervoso. Nem noto o que estou fazendo até sentir a baba quente e úmida escapando do canto da boca. Quando fico nervoso e a minha boca está aberta assim, a saliva escapa pelo canto e acaba escorrendo até o meu queixo. Quando estou com os nervos à flor da pele como agora, passo um bom tempo fazendo esses sons de chupar, chupando a baba de volta para dentro da minha cabeça.

O árbitro da terceira base, Comins, se coloca entre o meu pai e Welkie, o árbitro da base principal, dando a ele a chance de escapar. Meu pai podia simplesmente dar a volta em Comins, mas fica parado. Isso é inesperado e positivo, um sinal de que o pior ainda pode ser evitado. A boca dele abre e fecha sem parar, a mão esquerda continua gesticulando, e Comins escuta, sorrindo e assentindo de maneira afável e compreensiva, mas firme. Meu pai não está feliz. Nosso time está perdendo de quatro a um. O arremessador do Detroit é novato, um cara que nunca ganhou nenhum jogo da Major League na vida, um cara que, na verdade, perdeu todos os lançamentos de abertura até agora, mas, apesar da sua bem-estabelecida mediocridade, tem oito strikeouts em apenas cinco entradas. Meu pai não está feliz por causa do último, que aconteceu devido a um swing contido. Ele não está feliz porque Welkie apontou como strike sem nem confirmar com o árbitro da terceira base para ver se tinha sido um swing contido ou não. Era o que devia ter sido feito, mas não fez.

Só que Welkie não precisava confirmar com Comins na terceira base. Era óbvio que o rebatedor, Ramon Diego, deixou a ponta do taco atingir a bola em cima da base e depois tentou puxá-lo com um movimento dos pulsos, para fazer o árbitro pensar que não tinha rebatido, mas ele tinha rebatido, sim, todo mundo o viu rebatendo, todo mundo sabe que ele foi enganado por uma bola chumbada que quase quicou no chão em frente à base principal. Quer dizer, todo mundo menos o meu pai.

Por fim, o meu pai fala as últimas palavras para Comins, dá meia-volta e anda na direção do banco. No meio do caminho, quase totalmente liberado, ele gira e grita um adeusinho para o árbitro da base principal, Welkie. O árbitro está de costas para ele, agachado sobre a base, limpando-a com o pincel, as bandas da bunda larga bem separadas, o traseiro considerável apontado para o meu pai.

Independentemente do que meu pai gritou, isso fez Welkie se virar e se levantar daquele jeito meio cambaleante de homem gordo e apontar um dedo para o ar. Meu pai joga o boné no chão e corre de volta para a base principal.

A primeira coisa a perder o controle é o cabelo do meu pai. Ele passou seis entradas preso naquele boné. Quando escapa, está

coberto de suor. As rajadas de vento de Detroit o atingem e o bagunçam por completo. Um lado fica baixo e o outro, lambido para cima, como se ele tivesse dormido com o cabelo molhado. Os fios ficam emplastrados na parte detrás do pescoço suado e queimado de sol. Cabelo saltando para tudo quanto é lado conforme ele grita.

— Ah, meu Deus. Olha só para ele — diz Mandy.

— É, estou vendo — fala a minha mãe. — Outra grande contribuição para os melhores momentos da vida de Ernie Feltz.

Welkie cruza os braços. Não tem mais nada a dizer e encara o meu pai com os olhos semicerrados. Meu pai chuta areia nos sapatos dele. Comins volta e tenta ficar entre os dois, mas o meu pai chuta areia nele também. Meu pai tira o casaco, o joga no chão e aí dá um chute na peça. Chuta o casaco até a linha da terceira base. Então, tenta arremessá-lo no campo, mas ele só alcança alguns centímetros de distância. Alguns jogadores do Tigers se juntaram na pedra do arremessador. O segunda base deles cobre a boca com a luva para o meu pai não ver seu sorriso. Ele vira o rosto para o grupo reunido ali, os ombros trêmulos.

Meu pai vai até o banco, que tem três torres de copos de Gatorade empilhados. Bate nelas com as mãos e as torres se desafazem na grama. Ele não encosta nos coolers de Gatorade, porque os caras vão querer beber depois, mas pega um capacete de rebatedor e o atira na grama, fazendo-o quicar e rolar até a terceira base. O doido varrido que é o meu pai grita mais algumas coisas para Welkie e Comins e, por fim, passa pelo banco, desce uma escadinha e desaparece. Só que não. De repente, ele ressurge como aquela coisa que usa máscara de hóquei em todos aqueles filmes, a criatura maldita que você sempre acha que foi destruída, que saiu de cena e foi para o beleléu, mas que, de alguma maneira, sempre acaba voltando para matar de novo, e pega um monte de tacos de uma das prateleiras, jogando tudo na grama. Então, fica lá parado, gritando, berrando, com perdigotos escapando da boca e os olhos injetados. Àquela altura, o gandula tinha recuperado o casaco do meu pai e o levado até a escadinha do banco, mas está com medo de se aproximar, de forma que o meu pai precisa subir os degraus e arrancar o casaco das mãos dele. Solta uma última rodada de palavras carinhosas, veste o casaco do avesso, com a etiqueta à mostra nas costas, e desaparece de verdade dessa vez.

Deixo escapar um suspiro oscilante que não sabia que estava prendendo.

— Foi um espetáculo e tanto — diz a minha tia.

— Hora do banho, filho — fala a minha mãe, chegando por trás e passando os dedos no meu cabelo. — O melhor do jogo acabou.

No quarto, tiro a roupa até ficar de cueca. Caminho pelo corredor até o banheiro, mas, quando o telefone toca, desvio para o quarto dos meus pais, me jogo de barriga na cama e agarro o fone na mesa de cabeceira.

— Casa dos Feltz.

— Oi, Homer — diz o meu pai. — Tive um minuto de folga aqui.

Pensei em ligar para te dar boa-noite. Está vendo o jogo?

— Sim — respondo, chupando um pouco da baba.

Não é uma coisa que quero que ele escute, mas ele escuta mesmo assim.

— Está tudo bem?

— É a minha boca. Está fazendo aquele negócio. Não consigo evitar.

— Você está com problemas?

— Não.

— Querido, com quem está falando? — grita a minha mãe.

— Com o papai!

— Você acha que ele rebateu a bola? — pergunta o meu pai de uma vez.

— Não deu para ter certeza no início, mas depois, no replay, deu para ver que sim.

— Merda — fala.

Então a minha mãe pega o telefone na cozinha e se junta à conversa.

— Oi — diz ela. — Aqui é do Jogo Limpo.

— Como você está? — pergunta o meu pai. — Tive um segundo livre aqui e pensei em ligar e dar boa-noite para o garoto.

— Pois me parece que você vai ter o resto da noite livre.

— Acho que tudo que fiz foi adequado.

— Inadequado, talvez — diz ela. — Mas com certeza foi inspirador. Um daqueles momentos especiais no beisebol que faz o

espírito humano vibrar. Como ver alguém fazer um home run ou escutar a bola do último strike caindo na luva de um receptor.

Simplesmente existe uma coisa mágica em ver Ernie Feltz chamando o árbitro de filho da puta lambedor de cu e sendo arrastado para fora do campo com uma camisa de força por homens de branco.

— Tá bom — fala ele. — Eu sei. Sei que pareceu bem ruim.

— Você precisa melhorar isso.

— Porra. Sinto muito. Estou falando sério. Sem brincadeira, sinto muito — responde ele. — Mas, ei, pode me dizer uma coisa?

— O quê?

— Você assistiu ao replay? Pareceu mesmo que ele rebateu?

A BABA QUE ESCAPA pelo canto da minha boca quando fico tenso não é a única dificuldade que enfrento na vida, é só uma das mais óbvias, e é por isso que tenho duas consultas por mês com o dr.

Faber. Ele e eu nos encontramos para falar sobre como lidar com o que me deixa estressado. Tem um monte de coisas que me deixam estressado. Por exemplo, não posso nem olhar para papel-alumínio sem me sentir fraco e doente, e o som de alguém amassando papel-alumínio me causa uma dor que vai dos dentes até os ouvidos.

Além disso, não suporto quando a fita no videocassete está rebobinando. Tenho que sair do cômodo por causa do barulho que o aparelho faz quando a fita está rodando pelas bobinas. E o cheiro de tinta fresca e de canetinha destampada… é melhor nem falar disso.

E ninguém gosta do fato de eu separar os componentes da minha comida para inspecioná-los. Na maioria das vezes, faço isso com hambúrgueres. Fiquei muito impressionado com um especial que vi na televisão, certa vez, sobre o que pode acontecer quando você come um hambúrguer estragado. Falaram de E. coli, falaram da vaca louca, até mostraram uma vaca louca, puxando a cabeça para o lado e dando voltas aos tropeções no curral, mugindo aos berros. Quando compramos hambúrgueres no Wendy’s, meu pai tem que desembrulhá-los do papel-alumínio, e aí eu separo todas as partes e jogo fora qualquer vegetal que pareça suspeito e dou uma boa cheirada na carne para me certificar de que não está estragada.

Duas vezes descobri que o hambúrguer estava podre e me recusei a comer. Em ambas as ocasiões, minha recusa deu início a uma batalha exclamatória entre minha mãe e eu sobre se a carne estava ruim de verdade, e claro que tais encontros de mentes só podem acabar de uma maneira: comigo fazendo a coisa dos chutes que de vez em quando faço, deitado no chão, gritando e acertando com as pernas qualquer um que tente encostar em mim. Esse é um dos meus comportamentos que o dr. Faber chama de compulsões histéricas. Atualmente, o que mais tenho feito é jogar a carne no lixo sem discutir e comer apenas o pão. Não é nem um pouco agradável, posso garantir, ter esses problemas dietéticos. Odeio o gosto de peixe. Não como porco porque porco tem vermezinhos brancos que saem da carne crua quando você joga álcool nela. Mas o que gosto de verdade é cereal. Se dependesse de mim, comeria cereal no café, almoço e janta. Também gosto de uma de salada de frutas em lata. Quando vou ao estádio, curto um saquinho de amendoins, embora não comeria um cachorro-quente de lá por todo o chá da China (o que eu não ia querer de qualquer forma, já que a cafeína me deixa hiperativo e causa sangramentos imprevisíveis no meu nariz).

O dr. Faber é legal. A gente se senta no chão do consultório, joga jogos de tabuleiro e conversa.

— Já ouvi coisas loucas antes, mas essa é demais — diz o meu psiquiatra. — Você acha que o McDonald’s ia servir um hambúrguer podre? Eles perderiam até as cuecas! Seriam processados na certa!

— Ele faz uma pausa para mexer uma peça, então olha para cima e fala: — Precisamos começar a discutir esses sentimentos ruins que aparecem sempre que você abocanha o seu almoço. Acho que está exagerando. Deixando que a sua imaginação o assuste. E digo mais: mesmo que recebesse uma comida estranha, o que, insisto, é muito difícil, porque o McDonald’s tem um interesse imenso em não ser processado, mesmo assim… as pessoas conseguem comer coisas bem esquisitas sem, você sabe, morrer.

— Todd Dickey… O nosso terceira-base, eu acho… Ele comeu um esquilo uma vez — digo. — Por mil dólares. Na época, ainda jogava nos times menores. O ônibus esmagou o animal ao dar ré, e

ele comeu. Falou que todo mundo comia esquilos lá de onde ele veio.

O dr. Faber me encara em silêncio na vez dele, o rosto simpático com uma expressão de nojo.

— De onde ele veio?

— De Minnesota. Quase todo mundo lá vive à base de esquilo.

Foi o que Todd falou. Assim, ficam com mais dinheiro para gastar nas coisas importantes do supermercado, como cerveja e bilhetes de loteria.

— Ele comeu… cru?

— Ah, não. Ele fritou. Com chili em lata. Disse que foi o dinheiro mais fácil que já ganhou. Os mil dólares. É uma boa grana nos times menores. Dez caras tiveram que arranjar cem dólares cada.

Segundo Todd, foi como receber mil dólares para comer um hamburguer.

— Certo — diz o dr. Faber. — O que nos traz de volta ao McDonald’s. Se Todd Dickey pode comer um esquilo raspado do chão de um estacionamento… um prato que, como médico, eu nunca recomendaria… sem sofrer efeitos colaterais, então você pode aguentar um Big Mac.

— É.

E eu entendo o que ele quer dizer. De verdade. Ele quer dizer que Todd Dickey é um jovem atleta saudável que come coisas nojentas, tipo esquilos com chili e Big Macs que jorram gordura depois de você dar uma mordida, e ele não morre da doença da vaca louca. Depois de certo ponto, não adianta argumentar. Mas eu conheço Todd Dickey e aquele cara não bate muito bem da cabeça.

Lá no fundo, tem alguma coisa errada com ele.

Quando Todd entra em campo e vai para a terceira base, ele faz um negócio em que pressiona a boca na luva e, aparentemente, começa a sussurrar. Ramon Diego, nosso interbases e um dos meus melhores amigos, diz que ele está sussurrando, que está olhando para o rebatedor correndo em direção à base e sussurrando: “Acabe com eles ou taque fogo neles. Eles se vão bem rápido. Acabe com eles ou taque fogo neles. Ou ferre com eles.

Tanto faz. Tanto faz acabar com eles, tacar fogo neles ou ferrar com

eles, ferre com eles, ferra com esse fodido da porra!”. Segundo Ramon, Todd deixa a luva toda molhada de cuspe.

Além disso, quando o pessoal começa a falar sobre todas as fãs que já pegaram (eu não deveria escutar esse tipo de coisa, mas é impossível ficar perto de jogadores profissionais sem ouvir um negócio aqui e ali), Todd, que é um dos maiores jogadores em nome do nosso Senhor Jesus Cristo!, escuta com um rosto que parece inchado e com um olhar intenso, e, às vezes, sem aviso, os músculos do lado esquerdo da cara dele começam a pular e ondular de uma maneira bizarra e ele nem percebe que a cara dele está fazendo isso.

Ramon Diego acha que ele é esquisito, e eu também. Sem esquilos de estacionamento para mim. Tem uma diferença entre ser um caipira bêbado e ser um tipo de psicopata assassino que vive sussurrando com uma condição nervosa degenerativa na cara.

MEU PAI LIDA MUITO bem com os meus problemas, como na vez em que ele me levou em uma viagem e a gente ficou no Four Seasons de Chicago para um three-spot com o White Sox.

Pegamos uma suíte com uma sala grande, a porta para o quarto dele de um lado e a porta para o meu quarto do outro. Ficamos acordados até meia-noite assistindo a um filme na TV a cabo.

Pedimos cereal para o jantar (foi ideia do meu pai — eu nem tinha falado nada). Ele se sentou todo largado na poltrona, usando apenas a cueca samba-canção, os dedos da mão direita embaixo do elástico na cintura como sempre, menos quando a minha mãe está por perto, vendo televisão de um jeito meio sonolento e desligado. Não me lembro de ter caído no sono enquanto o filme estava passando, só de acordar quando o meu pai me pegou nos braços, me tirando do sofá de couro frio, para me levar até o meu quarto, meu rosto apoiado no peito dele, minha respiração capturando seu cheiro bom. Não dá para dizer exatamente como o cheiro é, só que tem grama e terra nele, e também suor e vestiários, além da doçura inerente de pele envelhecida. Aposto que os fazendeiros têm o mesmo cheiro.

Depois que ele saiu, fiquei sozinho no escuro, tão confortável quanto possível naquele ninho gelado formado pelos lençóis,

quando, de repente, noto um ruído baixo e agudo, um barulho ruim, como quando alguém rebobina a fita do videocassete. Assim que o percebo, sinto a primeira onda doentia nos meus dentes de trás.

Perco o sono — ter sido carregado já tinha me deixado meio acordado, e o choque dos lençóis frios terminou o serviço —, então me sento e abro os ouvidos no negrume à minha volta. Os carros correm lá fora e as buzinas berram a distância. Levo o rádio-relógio até a orelha, mas não é ele que faz o barulho. Eu me arrasto para fora da cama. Acendo a luz. Só pode ser o ar-condicionado. Na maioria dos hotéis, o ar-condicionado costuma ser uma caixa de metal na parede embaixo de uma janela, mas não no Four Seasons, que é bom demais para isso. O único componente do ar-condicionado que consigo encontrar é uma grade cinza enfiada no teto, e, parando abaixo dela, percebo que encontrei o culpado. Não consigo suportar aquele barulho. Meus tímpanos doem. Tiro um livro que estava lendo da minha bolsa e fico debaixo da grade de ventilação, jogando o livro para cima.

— Fica quieta! Cala a boca! Para! Chega!

Consigo acertar a grade algumas vezes com o livro — pow!, clang! — e um parafuso desatarraxa de um dos cantos, fazendo com que a grade caia de um lado, mas, que azar, não apenas o barulho continua, como, de vez em quando, um som delicado é produzido, como se uma peça de metal lá dentro tivesse se soltado e agora tremesse um pouco. Uma umidade gelada escapa pelo canto da minha boca. Chupo a baba e dou uma última olhada na grade, e então vou para a sala com os dedos enfiado nos ouvidos para me livrar do barulho, mas o ruído é ainda pior aqui. Não há como escapar, e os dedos nos ouvidos não estão ajudando.

O som me leva até o quarto do meu pai.

— Pai — falo, secando o queixo no ombro, minha mandíbula besuntada de saliva. — Pai, posso dormir com você?

— Hã? Tá legal. Mas estou com gases, hein? Toma cuidado.

Eu me enfio na cama e me cubro. Porém, é claro que no quarto dele também dá para ouvir o assovio agudo e penetrante.

— Está tudo bem? — pergunta ele.

— É o ar-condicionado. O ar-condicionado está fazendo um barulho que machuca os meus dentes. Não consegui descobrir

como desligar.

— O interruptor fica na sala. Do lado da porta.

— Vou desligar, então — digo e salto para fora da cama.

— Olha — diz ele, pegando o meu braço —, melhor não. É

Chicago no verão. Fez quase 40°C hoje. Vai ficar abafado demais.

Estou falando sério, a gente vai morrer aqui dentro.

— Mas não aguento mais. Você está ouvindo? Está ouvindo o barulho que o ar-condicionado faz? Machuca os meus dentes. É que nem quando as pessoas amassam papel-alumínio, pai, tão ruim quanto.

— Certo — responde ele, e fica quieto por um bom tempo, parecendo estar ouvindo o ruído. Então fala: — Você tem razão. O ar-condicionado desse lugar é uma droga. Mas é um mal necessário. Sem ele, vamos sufocar que nem insetos presos em um pote.

Tem um efeito tranquilizante em mim, o som da voz dele. Além disso, embora os lençóis tenham aquela friúra característica de quarto de hotel, àquela altura eu já me esquentei e não estou mais tremendo tanto. Eu me sinto melhor, mesmo com as ondas regulares de dor se alastrando pelo meu maxilar, depois pelos meus ouvidos, depois pela minha cabeça. E tem os peidos do meu pai também, exatamente como ele falou, mas, de alguma forma, até o fedor deles, até aquilo é um pouco reconfortante.

— Beleza — diz ele. — Já sei o que podemos fazer. Vem comigo.

Ele sai da cama, e eu o sigo no escuro até o banheiro. Ele acende a luz e o lugar é uma vasta extensão de mármore bege, a pia tem torneiras douradas e, no canto, o boxe é de vidro jateado.

Basicamente, é o banheiro de hotel dos sonhos. Sobre a pia, há uma porção de garrafinhas de xampu, condicionador, hidratante e caixas de sabonete, uma jarra de plástico com cotonetes e outra com bolinhas de algodão. Meu pai abre a de bolinhas de algodão e coloca uma em cada ouvido. Gargalho ao ver o meu pai parado com uma bolinha de algodão fofinha enfiada em cada uma das orelhas grandes e queimadas de sol.

— Aqui. Coloca você também.

Forço algumas bolas nos meus ouvidos. Com o algodão no lugar, o mundo se enche de um rugido profundo e reverberante. O

meu rugido, um fluxo constante do meu som pessoal, um som que acho bem agradável.

Olho para o meu pai, que diz:

— Hoooomy voooe imma commshemm uvimm o arrr commmmdiciommm?

— O quê? — grito, feliz.

Ele assente e levanta o polegar e nós dois voltamos para a cama, e é isso que quero dizer quando digo que o meu pai lida muito bem com os meus problemas. Nós temos uma excelente noite de sono e, no dia seguinte, meu pai pede para o serviço de quarto trazer salada de fruta em lata e um abridor para o café da manhã.

***

NEM TODO MUNDO LIDA tão bem com os meus problemas, como é o caso da minha tia Mandy.

A tia Mandy já tentou fazer um monte de coisas, mas nenhuma delas deu certo. A mamãe e o papai ajudaram ela a pagar pela escola de arte, porque ela achou que ia ser fotógrafa por um tempo.

Depois de desistir, eles também ajudaram ela a abrir uma galeria de arte em Cape Cod, mas, como diz a tia Mandy, o negócio nunca vingou, não deu certo, não funcionou. Ela foi estudar cinema em Los Angeles, e a carreira como roteirista durou o tempo de um café —

sem brincadeira. Ela se casou com um cara que achava que seria escritor de livros, mas ele acabou sendo apenas um professor de inglês e, para piorar, um bem infeliz, e a tia Mandy teve que pagar pensão para ele por um tempo, então até ser casada não funcionou tão bem.

O que a tia Mandy diria sobre isso é que ela ainda está tentando entender o que deveria ser. O que o meu pai diria é que Mandy está enganada — ela já é a pessoa que sempre esteve destinada a se tornar. É que nem Brad McGuane, o campista direito na época que o meu pai virou treinador do time, que tinha uma média geral de .292, mas só conseguia mais ou menos .200 quando o outro time está com a vantagem, e nunca conseguiu acertar uma bola em uma final, apesar de ter sido chamado 25 vezes para rebater na última vez em que chegou a uma decisão de campeonato. É um caso de nervos, é o que o meu pai diz. McGuane pulou de time em time, e as pessoas continuam contratando ele por causa das suas médias boas e porque acham que alguém com uma rebatida tão boa só pode se desenvolver, mas o que não veem é que ele já se desenvolveu, e foi isso que se tornou. Ela já tinha vingado, e com certeza parece que não há muitas outras formas de vingar para aqueles pobres jovens que acabam caindo no beisebol; ou para mulheres de meia-idade que se casam com as pessoas erradas e nunca estão satisfeitas com o que fazem, mas que só conseguem pensar no que mais o mundo pode oferecer de melhor; ou, na verdade, para qualquer um de nós, o que acho que é o medo que sinto, já que, para mim, está bem claro que não estou melhorando muito, aliás, continuo praticamente do mesmo jeito que sempre fui, apesar do que o dr.

Faber diz, o que todos nós podemos com certeza afirmar estar longe do ideal.

Desnecessário dizer, como você já deve ter imaginado a partir do desacordo nas filosofias e nos pontos de vista et al., a tia Mandy e o meu pai não gostam muito um do outro, embora eles finjam pela minha mãe.

Mandy e eu fomos a North Altamont sozinhos em um domingo, porque a mamãe achou que eu tinha passado muito tempo do verão no estádio. O que estava incomodando ela de verdade é que o time tinha perdido de cinco pontos e ela achou que eu estava ficando tenso com aquilo. Ela tinha razão. A sequência de derrotas me deixava nervoso. A baba nunca escapara tanto quanto durante aqueles últimos jogos em casa.

Sei lá por que North Altamont. Quando a tia Mandy conversa sobre o lugar, ela sempre fala em “ver a Lincoln Street”, como se a Lincoln Street de North Altamont fosse um daqueles locais famosos que todo mundo conhece e sempre quer ver, da mesma maneira que as pessoas, quando estão na Flórida, querem ver o Walt Disney World, ou, quando estão em Nova York, querem ver um show da Broadway. Mas a Lincoln Street é bonita daquele jeito de cidadezinha tranquila da Nova Inglaterra. É uma ladeira com pavimento de tijolos e não são permitidos carros, ainda que tenha

algumas pessoas que andem a cavalo bem no meio dela, e de vez em quando a gente encontre montes de bosta seca e verde pelo caminho. Ou seja, é tudo bem prosaico.

Vamos a um monte de lojas mal iluminadas e com cheiro de patchouli. Vamos a uma que vende suéteres enormes feitos com lã de lhama criada em Vermont, com uma música tocando baixinho, uma coisa que junta flautas, alguns sons tênues de cravo e o canto fino dos pássaros. Em outra loja, examinamos o trabalho de artesãos locais — vacas brilhantes de cerâmica, suas tetas rosadas de cerâmica se balançando nas suas barrigas enquanto elas pulam luas de cerâmica — e, das caixas de som do lugar, sai o rock animado e agudo do Grateful Dead.

Depois de uma dúzia de lojas, fico cansado daquilo. Dormi mal a semana inteira — pesadelos, além de tremedeiras, e por aí vai —, e toda aquela andança me deixou exausto e mal-humorado. E não ajuda o fato de o último lugar onde fomos, um antiquário em um estábulo renovado, não ter música New Age ou hippie tocando, mas o pior som de todos: o jogo de domingo. Aqui não tem um sistema de som, só um aparelho de rádio no balcão. O proprietário, um homem velho de macacão, escuta o jogo mordendo o dedão e com um olhar atônito e desesperançoso.

Vou para perto dele para saber por que o homem parece tão miserável. É a nossa vez de rebater. O primeiro rebatedor manda a bola para a esquerda, o segundo, para a direita. Hap Diehl vai para a base principal planejando rebater e acumula dois strikes tão rápido, que mal dá para perceber.

— Nos últimos tempos, Hap Diehl está simplesmente horrível no taco — diz o locutor. — Está com uma média excruciante de .160 nos últimos oito dias, e aí você precisa começar a questionar a decisão de Ernie de deixá-lo lá, dia após dia, quando ele está sendo massacrado na base. Partridge se prepara e lança… caramba, Hap Diehl rebateu uma péssima bola, péssima mesmo, uma bola rápida que passou a um quilômetro da cabeça dele… espera, ele caiu, acho que deve ter se machucado…

Tia Mandy diz que vamos caminhar até o Wheelhouse Park para fazer um piquenique. Estou acostumado aos parques urbanos, áreas abertas e gramadas com caminhos de asfalto e garotas de

patins vestindo calças legging. De alguma forma, o Wheelhouse Park é mais escuro que um parque urbano, cheio de abetos da Nova Inglaterra. Os caminhos são de pedrinhas azuis, impróprios para patins. Não tem lugar para brincar. Não tem quadras de tênis.

Não tem campo de beisebol. Apenas aquela misteriosa escuridão de pinheiros — debaixo dos galhos entrecruzados das árvores de Natal não há luz do sol direta — e, às vezes, uma lufada gentil de vento.

Não passamos por ninguém no caminho.

— Tem um lugar legal para sentarmos mais adiante — diz a minha tia. — Logo depois dessa ponte coberta linda.

Chegamos a uma clareira, mas mesmo aqui a luz é obscurecida e diminuta. O caminho irregular leva a uma ponte coberta, suspensa a quase um metro de um rio largo e de correnteza fraca. No outro lado, tem um gramado com alguns bancos.

Basta um olhar para perceber que não gostei dessa ponte coberta que, claro, entorta no meio. Uma vez, há muito tempo, a ponte foi vermelha como um caminhão de bombeiro, mas o apodrecimento e a chuva arrancaram boa parte da tinta e não houve nenhum retoque, e a madeira embaixo é seca, cheia de farpas e intrinsicamente indigna de confiança. Dentro do túnel, há alguns sacos de lixo espalhados, rasgados e despejando seu conteúdo. Hesito por um segundo e, nesse intervalo, a tia Mandy continua em frente. Vou me arrastando tão desanimado, que logo ela já cruzou a ponte e eu ainda nem cheguei lá.

Na entrada, paro outra vez. Cheiros doces enjoativos: odor de mofo e fungos. A área entre as pilhas de latas de lixo é apertada.

Fico desconcertado pelo aroma e por aquele ambiente de esgoto, mas a tia Mandy já está do outro lado, na verdade, nem consigo mais vê-la, e o pensamento de que posso ficar para trás me deixa nervoso. Então, me apresso.

O que acontece depois, no entanto, é o seguinte: ando alguns metros, e aí respiro fundo e o cheiro que sinto me faz congelar no lugar, sem conseguir ir em frente. O que senti é cheiro de roedor, um cheiro de roedor quente e sujo, misturado com um pouco de amônia, um aroma que já senti antes em sótãos e porões, um fedor de morcego. De uma hora para outra, estou imaginando o teto cheio de morcegos. Imagino meu queixo se levantando e eu vendo uma

colônia de milhares de morcegos marrons e peludos, os corpos envoltos nas asas finas como membranas. Imagino os guinchos baixos deles praticamente iguais aos guinchos quase inaudíveis dos ares-condicionados ruins e dos videocassetes rebobinando. Imagino morcegos, mas não consigo me obrigar a olhar para cima. O medo ia me matar, se eu visse um. Dou uns passos tensos e incertos e acabo pisando em um jornal velho que, infelizmente, amassa. Pulo para trás, o som fazendo o meu coração disparar no peito.

Meu pé aterrissa em alguma coisa, um tronco talvez, que rola sob o meu sapato. Cambaleio para trás, girando os braços para recuperar o equilíbrio, e por fim consigo ficar de pé sem cair. Viro para ver no que foi que pisei.

Não é um tronco, é a perna de um homem. Um homem caído de lado em um monte de folhas. Ele está usando um boné de beisebol imundo — um boné do nosso time, um boné que já foi azul-escuro, mas que agora está quase branco nas bordas, manchadas pelo sal seco deixado por suores antigos — e calça jeans e camisa xadrez de lenhador. Tem folhas na barba dele. E o observo, o primeiro arrepio de pânico correndo pelo meu corpo. Eu acabei de pisar nele

— e o homem não acordou.

Encaro o rosto dele e estou tremendo apavorado, que nem nos gibis. Um movimento rápido chama a minha atenção. Vejo uma mosca andando no lábio superior do homem. O corpo da mosca lampeja como metal lubrificado. Ela para no canto da boca, então entra e desaparece, e ele não acorda.

Solto um grito, não tem como colocar de outra maneira. Dou meia-volta e corro para o meu lado da ponte, onde quase fico rouco de tanto chamar tia Mandy.

— Tia Mandy, volta aqui! Volta aqui agora!

Depois de um tempo, ela aparece na outra ponta.

— O que foi, por que está se esgoelando desse jeito?

— Tia Mandy, volta aqui, volta aqui, por favor! — Chupo um pouco de baba. Aí noto que todo o meu queixo está coberto de saliva.

Ela começa a atravessar a ponte, vindo na minha direção com a cabeça baixa, como se estivesse sendo castigada por um vento cortante.

— Pode parar de gritar nesse instante! Para com isso! Qual é o motivo para estar berrando tanto?

Eu aponto.

— Ele! Ele!

Ainda faltando muito para chegar ao meu lado, tia Mandy para e vê o homem velho e duro deitado no lixo, analisando-o por alguns segundos, e então diz:

— Ah. Ele. Então, ele vai ficar bem, Homer. Deixa esse cara cuidar da vida dele, que a gente cuida da nossa.

— Não, tia Mandy, a gente precisa sair daqui! Por favor, volta, por favor!

— Não quero ouvir essa bobagem nem por mais um segundo.

Vem para cá!

— Não! — grito. — Não, não vou!

Giro e saio correndo, cada vez mais em pânico, completamente enjoado, enjoado do cheiro de lixo, e dos morcegos, e do homem morto, e do jornal velho amassado horrível, e do fedor de mijo de morcego, e de como Hap Diehl estava rebatendo feito um merda e o nosso time ia acabar na latrina que nem no ano passado, e corro vertendo lágrimas e esfregando, infeliz, a baba na minha cara, e percebendo que não importa quão fortes sejam os meus soluços, pois não consigo fazer o ar entrar nos pulmões.

— Para com isso! — berra a tia Mandy quando me alcança. Ela joga o saco com o nosso almoço longe para ficar com as mãos livres. — Para já com isso! Meu Deus, cala essa boca!

Ela me pega pela cintura. Me agito para todos os lados, gritando, sem querer que ela me levante, sem querer que ela me segure. Meu cotovelo vai para trás e atinge uma cavidade ocular ossuda. Mandy dá um berro e nós dois caímos, inquietos, no chão, ela em cima de mim. O queixo da minha tia bate na minha cabeça, e eu solto um gemido alto com aquele pulso agudo de dor. Os dentes de Mandy batem e ela perde o fôlego, tornando seu aperto mais fraco. Salto e quase me livro dela, mas a minha tia me segura com as duas mãos pelo elástico do meu short.

— Caramba, para com isso!

Meu rosto sua com aquele calor infernal.

— Não! Não, eu não vou voltar, não vou voltar, me larga!

Avanço para a frente de novo, saindo do chão como um rebatedor pulando em direção à base e, de repente, em um instante, saí de baixo dela e estou correndo a toda velocidade para a trilha, ouvindo os guinchos dela atrás de mim.

— Homer! — guincha ela. — Homer, volta aqui agora mesmo!

Estou quase chegando à Lincoln Street quando sinto um vento fresco entre as minhas pernas e olho para baixo e vejo, então, como escapei. Ela estava me segurando pelo short, e corri para fora dele

— do short, da cueca de beisebol e tudo mais. Observo o meu equipamento masculino, rosa, liso e pequeno, balançando de coxa para coxa conforme corro. A visão de toda aquela nudez lá embaixo me enche de uma inesperada onda de euforia.

Mandy me pega de novo a meio caminho do carro estacionado na Lincoln Street. Uma multidão a observa quando ela me ergue pelo cabelo e nós brigamos no chão.

— Fica quieto, seu bizarrinho de merda! — grita ela. — Seu babaquinha!

— Vaca gorda! — grito de volta. — Parasita capitalista!

Bem, não isso. Mas algo semelhante.

NÃO SEI, MAS PODE ser que o que aconteceu no Wheelhouse Park tenha sido a gota d’água, porque duas semanas depois, quando o time está de folga, meus pais e eu vamos para Vermont conhecer um colégio interno chamado Biden Academy, que a minha mãe quer que a gente dê uma olhada. Ela me diz que é uma escola preparatória, mas eu vi o folheto, e ele tem um monte de palavras que são códigos para outras coisas — necessidades especiais, ambiente estável, normalização social —, então sei bem que tipo de escola vamos visitar.

Um cara usando uma camisa azul gasta, calça jeans e bota para fazer trilha encontra a gente nos degraus diante do prédio principal.

Ele se apresenta como Archer Grace. É do departamento de matrículas. Vai nos mostrar o lugar. A Biden Academy fica nas Montanhas Brancas. A brisa que sopra pelos pinheiros é definitivamente gelada, então mesmo no fim do verão, a tarde tem aquele toque frio e animador da época da World Series. O sr. Grace nos leva para um passeio pelo campus. Damos uma olhada em

alguns prédios de tijolos cobertos de heras. Damos uma olhada em salas de aula vazias. Caminhamos por um auditório com painéis de madeira escura e um monte de cortinas escarlates pesadas. Em uma das laterais do lugar, há um busto de Benjamin Franklin esculpido em mármore branco-amarelado. Na outra, um busto de Martin Luther King em algo semelhante a pedra ónix escura. O

presidente está carrancudo, de olho no reverendo, que, por sua vez, parece que acabou de acordar e ainda está com o rosto inchado de sono.

— Sou só eu ou é abafado demais aqui dentro? — pergunta o meu pai. — Tipo, sufocante?

— Damos uma boa arejada no local antes do semestre começar

— responde o sr. Grace. — Quase não tem ninguém aqui, apenas alguns poucos alunos do programa de verão.

Perambulamos juntos para o lado de fora e vamos até um bosque de árvores com troncos cinzentos enormes e que parecem bem escorregadios. Um dos lados do bosque tem um anfiteatro com uma concha acústica e bancos de concreto formando degraus. É lá que as formaturas são feitas e, de vez em quando, uma peça ou um espetáculo é apresentado para os alunos.

— Que cheiro é esse? — questiona o meu pai. — Esse lugar não tem um cheiro esquisito?

O interessante é que a minha mãe e o sr. Grace estão fingindo não escutá-lo. Minha mãe faz várias perguntas para o sr. Grace sobre as peças escolares. É como se o meu pai não estivesse ali.

— Que árvores lindas são essas? — indaga a minha mãe quando estamos saindo do bosque.

— Gingkos — responde o sr. Grace. — Sabia que não há árvores no mundo como essas? Elas são as únicas sobreviventes de uma família pré-histórica que foi completamente varrida da Terra.

Meu pai para ao lado de uma das árvores. Passa o polegar pelo tronco. Então cheira o dedo e faz cara de nojo.

— Então é isso que está fedendo — diz ele. — Sabe, nem sempre a extinção é um negócio ruim.

Damos uma olhada na piscina. O sr. Grace fala sobre fisioterapia. Ele nos mostra uma pista de corrida. Conversa sobre as

Olimpíadas Especiais para os alunos mais novos. E nos mostra o campo de beisebol.

— Então vocês têm um time aqui — diz o meu pai. — Com partidas. É isso?

— Sim. Um time, alguns jogos. Mas o que fazemos aqui vai além de simplesmente jogar — fala o sr. Grace. — Na Biden, desafiamos as crianças a aprenderem algo em tudo que fazem. Até nos jogos.

Este lugar também é uma sala de aula. Vemos este campo como um espaço para as crianças desenvolverem algumas das habilidades mais cruciais da vida, como negociação de conflitos e a construção de relações interpessoais, além da liberação do estresse por meio da atividade física. Sabe, é como diz aquele velho ditado: não importa se você ganha ou perde, mas, sim, o que assimila do jogo, o quanto aprende sobre si mesmo, sobre seu crescimento emocional.

O sr. Grace dá as costas e começa a caminhar.

— O que foi que ele disse? — fala o meu pai. — Achei que fosse outro idioma.

Minha mãe também começa a caminhar.

— Eu não entendi — diz o meu pai. — Mas acho que ele acabou de dizer que eles têm um daqueles times vergonhosos em que ninguém nunca sofre um strike no jogo.

Por último, o sr. Grace nos leva até a biblioteca, e lá encontramos alguns dos garotos do programa de verão. Entramos em um cômodo largo e circular com prateleiras de jacarandá cobrindo as paredes. À distância, um computador faz clique-clique.

Um garoto mais ou menos da minha idade está deitado no chão.

Uma mulher com vestido xadrez segura o braço direito dele. Acho que ela está tentando levantá-lo, mas tudo que consegue fazer é arrastá-lo em círculos.

— Jeremy? — diz ela. — Se não se levantar, não vai poder brincar no computador. Entendeu?

Jeremy não responde, e ela continua dando voltas com ele. Em uma das vezes que o menino está com o rosto virado para a gente, Jeremy olha para mim por um segundo com os olhos vazios. Ele também tem o vazamento — baba por todo o queixo.

— Quero — sussurra ele com a voz monótona. — Querooo.

— Acabamos de instalar quatro novos computadores na biblioteca — diz o sr. Grace. — Prontos para o uso de internet.

— Olha só esse mármore — fala a minha mãe.

Meu pai coloca a mão no meu ombro e aperta gentilmente.

NO PRIMEIRO DOMINGO DE setembro, vou até o estádio com o meu pai e é claro que chegamos lá cedo, tão cedo que o lugar está vazio, com apenas alguns novatos que estão lá desde o nascer do sol para impressionar o meu pai. Ele está sentado na arquibancada atrás do ponto do rebatedor, olhando sobre a base principal e conversando com Shaughnessy para a sessão de esportes do jornal, e, ao mesmo tempo, nós dois estamos em um jogo, chamado de jogo das coisas secretas, em que ele faz uma lista de objetos para eu procurar, sendo que cada item vale um número diferente de pontos, e tenho que tentar encontrá-los no estádio (mas não vale revirar o lixo, coisa que o meu pai deveria saber que eu não faria de qualquer jeito): uma caneta esferográfica, uma moeda de 25

centavos, uma luva feminina et cetera. Depois do pessoal da limpeza ter terminado o serviço, não é um jogo fácil.

Conforme encontro os objetos da lista, corro de volta para mostrar para ele, caneta esferográfica, doce de alcaçuz, botão de metal. Então, em uma das vezes que faço isso, não vejo mais Shaughnessy e o meu pai está apenas sentado lá com as mãos entrelaçadas atrás da cabeça, um saco de amendoins aberto no colo e os pés apoiados no assento em frente, e ele me pergunta:

— Não quer ficar aqui um pouco?

— Olha, encontrei uma caixa de fósforos. Quarenta pontos —

falo e me sento no banco ao lado dele.

— Dá uma olhada nisso — diz o meu pai. — Veja como é bom quando não tem ninguém. Quando o lugar está calmo. Sabe do que mais gosto? Do jeito que está agora?

— Do que mais gosta?

— Você consegue pensar um pouco e comer amendoim ao mesmo tempo — responde ele abrindo uma casca de amendoim.

Está um dia fresco, o céu de um azul-branco ártico. Uma gaivota sobrevoa o campo externo com as asas abertas sem parecer se

mover. Os novatos estão se alongando no campo e batendo papo.

Um deles ri, uma risada forte, jovem e saudável.

— De qual você gosta mais? — pergunto. — Daqui ou da nossa casa?

— Aqui é melhor que lá em casa — diz ele. — É melhor para comer amendoim também, porque não dá para jogar as cascas no chão lá de casa. — Ele joga algumas cascas no chão. — A não ser que queira levar uma boa surra da mamãe.

Ficamos calados. Uma brisa suave sopra do campo externo para os nossos rostos. Ninguém conseguiria um home run hoje — não com aquele vento constante contra a nossa cara.

— Bem — falo, me levantando. — Quarenta pontos. Aqui está a caixa de fósforos. É melhor eu voltar para o jogo. Já encontrei quase tudo que estava procurando.

— Sortudo — diz ele.

— Esse jogo é legal. Aposto que a gente poderia jogar em casa.

Você pode me mandar procurar algumas coisas, e eu posso dar uma olhada e encontrá-las. Por que a gente nunca fez isso? Por que nunca brincamos do jogo em que procuramos as coisas secretas em casa?

— Porque aqui é melhor — responde ele.

Àquela altura, corro para longe e vejo o que ainda tem na lista —

um cadarço, um chaveiro de pé de coelho — e deixo o meu pai para trás, mas aquela conversa reaparece depois e meio que fica presa na minha cabeça, de forma que penso nela o tempo todo e, às vezes, me pergunto se é um daqueles momentos que você não deveria esquecer, quando acha que o seu pai está dizendo uma coisa, mas, na verdade, está dizendo outra, em que há um significado escondido em alguns comentários que pareciam bastante comuns. Gosto de pensar que sim. É uma boa lembrança do meu pai sentado com as mãos entrelaçadas atrás da cabeça e o céu azul invernal acima de nós dois. É uma boa lembrança com aquela velha gaivota sobrevoando o campo externo sem ir a lugar algum, apenas parada lá com as asas abertas, sem chegar mais perto de qualquer que seja o lugar para o qual estava indo. É uma boa lembrança para se ter na cabeça. Todo mundo deveria ter uma lembrança assim.