O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Érico Veríssimo · Capítulo 4 de 6 · parte 3/7

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O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Um certo major Toríbio

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

Numa daquelas revistas americanas Rodrigo encontrou, ilustrando um conto, uma tricromia que representava uma rapariga de cabelos cortados à moda masculina, guiando um automóvel, com um cigarro apertado entre os lábios vermelhos de batom. Ali estava o símbolo da mulher moderna, produto daquele caótico après guerre que Victor Marguerite tão bem caracterizara em seu sensacional romance. (As comadres de Santa Fé murmuravam escandalizadas que a Mariquinhas Matos havia lido La Garçonne às escondidas.) A Guerra não tinha apenas destruído vidas humanas, cidades, catedrais: a Guerra tinha matado o pudor. As mulheres dos grandes centros europeus imitavam os homens na sua liberdade sexual e nos seus hábitos. Nos Estados Unidos tinham levado a coisa mais longe. Não apenas fumavam, bebiam e dirigiam automóveis, mas também haviam conseguido o direito de voto, e, pior que tudo, começavam a fazer-se rivais do homem no mundo dos negócios e no da política.

Curiosamente essas reflexões em torno do feminismo foram interrompidas por Maria Valéria, que lhe veio dizer que d. Revocata Assunção estava no Sobrado e queria vê-lo.

A diretora do Colégio Elementar David Canabarro era uma pessoa pela qual Rodrigo sentia a maior admiração e respeito. Cinquentona, solteirona e solitária, d. Revocata tinha a postura marcial dum coronel prussiano. Era — podia-se dizer — a personificação da autoridade e da disciplina, famosa por haver domado alunos rebeldes cujos pais, como último recurso, já pensavam em mandá-los para a Escola de Marinheiros da cidade do Rio Grande. Quando entrava na aula, pisando duro com seus sapatos de salto militar, a algazarra cessava imediatamente, os alunos encolhiam-se num silêncio tão profundo, que era possível ouvir-se o zumbido das moscas. Tinha uma voz de timbre metálico, enunciava as palavras com clareza e construía as sentenças com uma correção gramatical absoluta em que o sujeito, o predicado e os complementos, como soldados disciplinados, jamais ousavam sair da rígida formatura que ela lhes impunha. Onde quer que estivesse, sua só presença criava uma atmosfera de respeito. Pessoa de hábitos regulares, levava uma vida irrepreensível. Lia Voltaire e Diderot e não acreditava em Deus. Os padres, que não a estimavam, jamais haviam ousado fazer nada contra ela não só porque a temessem intelectual e até fisicamente, como também porque sabiam do prestígio de que ela gozava com altas autoridades do governo estadual.

A profa. Revocata Assunção esperava Rodrigo no escritório, de pé junto do armário dos livros de literatura, cujas lombadas examinava. Quando o dono da casa entrou, ela voltou-se, esperou que ele se aproximasse e estendeu-lhe a mão.

— Que prazer! — exclamou Rodrigo. — Vamos sentar, professora, vamos sentar.

— Minha visita será breve — disse ela, sentando-se e cruzando as pernas.

O cabelo grisalho, puxado para trás e preso num coque, harmonizava-se com o cinzento de aço de seus olhos. O nariz era longo e afilado, a boca enérgica, o queixo nitidamente torneado. Um buço forte sombreava-lhe o lábio superior.

— Quero lhe dizer duas palavrinhas sobre o Floriano.

— Andou fazendo alguma travessura?

— Não. Pelo contrário. O que me preocupa é que ele não faz travessuras. Acho-o quieto e triste demais. Um pouco amarelo e apático. Já mandou examiná-lo clinicamente?

Rodrigo sorriu:

— Casa de ferreiro, espeto de pau. Um médico raramente se lembra de examinar os membros da família. Mas foi bom a senhora me chamar a atenção para esse particular...

— Bom, mas vim aqui por outro motivo. Já pensou numa carreira para o menino?

— Bom, pensar propriamente...

— O senhor sabe que este ano Floriano termina o curso elementar... Seria conveniente mandá-lo para Porto Alegre no ano que vem, para que ele comece a tratar dos preparatórios.

— Já pensei nisso — mentiu Rodrigo. — Acho que vou mandá-lo para um desses internatos...

D. Revocata cortou-lhe a palavra com um gesto.

— Quer um conselho? Não o interne em nenhum colégio de padres. Essa gente deforma o espírito do adolescente, enchendo-o de superstições e temores que ele terá de carregar vida em fora e dos quais só conseguirá livrar-se muito tarde ou nunca. Mande o Floriano para um colégio leigo.

— Era exatamente o que eu tinha decidido... — improvisou Rodrigo.

— Escolha um internato (sei que não há muitos) em que o rapaz possa ter liberdade, uma vida normal e higiênica, enfim, um ambiente capaz de fazer dele um homem mesmo, e não um papa-hóstias preocupado com o pecado e com o demônio.

— Sabe de algum?

— Ouviu falar no Albion College de Porto Alegre? Fica no sopé dum daqueles morros da Glória ou do Partenon. É um colégio inglês particular, para poucos alunos e muito selecionados. Tem um sistema que me parece bom. Banho frio, ginástica, janelas abertas. Sistema britânico, o senhor sabe. A única dificuldade é que o Albion não é reconhecido oficialmente. O menino teria que prestar exames no Ginásio Júlio de Castilhos todos os anos.

— Compreendo...

— Outra coisa. O Floriano tem muito jeito para a literatura. Suas redações são excepcionais.

A professora ergueu-se, tirou o pincenê, limpou-lhe as lentes com um lenço de seda e tornou a ajustá-lo no nariz.

— Não admira — acrescentou — que com essa vocação literária seja um menino pensativo e tímido. Não se surpreenda se ele lhe aparecer um dia com um poema de sua lavra.

Rodrigo riu. D. Revocata estendeu-lhe a mão, que ele apertou. Acompanhou-a até a porta, murmurando agradecimentos. Depois seguiu-a com o olhar, viu-a atravessar a rua, ereta, pisando duro, a cabeça erguida. Quando ela desapareceu entre as árvores da praça, Rodrigo pensou em Floriano. Era incrível, mas não conhecia o filho que tinha. Fazia meses que andava prometendo a si mesmo chamar o rapaz para uma longa conversa, muito íntima, muito franca, em que lhe falaria de sexo, de estudos, duma carreira...

Tornou a entrar, subiu para o andar superior, acercou-se da escada que levava para a água-furtada, e gritou:

— Floriano! Venha cá, meu filho.

14

— Qual é a sua opinião, general Liroca? — perguntou Chiru Mena, inclinando-se sobre o amigo.

Era no escritório de Rodrigo, numa noite de princípios de setembro. As árvores da praça farfalhavam, batidas pela ventania. Fazia um friozinho úmido e escondido, que o dono da casa procurava atenuar bebendo e fazendo os amigos beberem conhaque e parati. Estavam ali também o Tio Bicho, que comia pessegada com queijo, e o Arão Stein, que a um canto folheava a Bíblia, distraído.

Sentado à escrivaninha, diante dum mapa do Brasil, José Lírio alisava os bigodões e de quando em quando ajeitava os óculos no nariz. Sua respiração de gato parecia uma réplica em tom menor do crepitar das árvores lá fora.

— Absolutamente, não acho que a situação seja desesperadora — sentenciou ele, erguendo a cabeça e fitando em Chiru os olhos de esclerótica amarelada.

O outro sacudiu a cabeça. Na sua opinião a revolução estava liquidada. O gen. Isidoro se havia retirado de São Paulo com seu efetivo reduzido pela metade e agora estava encurralado na saliência do Alto Paraná, entre Iguaçu e Catanduvas. Onde era que o Liroca via motivos para otimismo?

— Fracassaram os levantes de Sergipe, Amazonas e Pará... — acrescentou Rodrigo. — Mais um pouco de conhaque, major?

Liroca fez com a mão um gesto negativo, tornou a olhar para o mapa, soltou um suspiro sincopado e murmurou:

— Mundo velho sem porteira!

Ergueu-se, aproximou-se do amigo, segurou-lhe o braço e perguntou:

— E se o Rio Grande se levantasse como um só homem, hã? Se a gente marchasse para Foz do Iguaçu e se juntasse com os revolucionários de São Paulo, hã? Depois era só tocar na direção do Rio e o governo estava no chão.

Rodrigo pousou uma mão afetuosa no ombro do amigo:

— Liroca velho de guerra, sossega esse peito. Isso é um sonho. A revolução está perdida.

— O Rio Grande vai ficar desmoralizado!

— Por quê?

— Prometemos ajudar a derrubar o Bernardes e estamos de braços cruzados. Que é que os paulistas vão pensar de nós?

— Quem é que prometeu? Eu não prometi nada. Isso é uma revolução de militares, mais uma quartelada malfeita e malograda.

José Lírio fez um gesto de desamparo, encolheu os ombros e ficou a procurar nos bolsos do casaco palha e fumo para fazer um cigarro.

Chiru tomou um gole de parati.

— Mas o diabo é que os nossos correligionários vão acabar se metendo no barulho — disse. — O coronel Amaral me contou que o Zeca Neto, o Honório Lemes e outros chefes de 23 estão reunindo gente. — Baixou a voz. — E cá pra nós, que ninguém nos ouça, a guarnição local está sendo trabalhada. O Juquinha Macedo me garantiu. Um sargento do Regimento de Artilharia disse que tudo agora depende dos oficiais de alta patente, pois os tenentes e a sargentada estão dispostos a dar o grito.

Rodrigo encolheu os ombros. Os amigos começavam a irritá-lo. Pareciam ter-se transformado em revolucionários profissionais. Viviam à espera duma revolução. Para eles o que importava era derrubar o governo. Ninguém se preocupava com programas.

— Que é que há contigo hoje, Stein? — exclamou. — Estás tão calado... Algum problema da política russa?

O judeu ergueu os olhos, sorriu e murmurou:

— Pelo contrário. Não temos problemas políticos. A Grã-Bretanha já reconheceu a União Soviética. A França não tardará. Os outros virão depois. Não temos pressa, podemos esperar.

A vida tem cada uma! — refletiu Rodrigo. — Ali naquela sala estava o velho Liroca preocupado com a revolução de Isidoro, e Stein, com a de Lênin. E ele, Rodrigo Cambará, vazio de ideais, de entusiasmos, de projetos. No momento não tinha nem mulher. Era tudo uma miséria!

Tornou a encher o cálice de conhaque e bebeu-o num sorvo só. Fitou os olhos em Roque Bandeira e disse, quase agressivo:

— Estás engordando demais.

Tio Bicho sorriu:

— Já estou gordo, doutor. Mas isso não me preocupa. O meu problema é outro.

— Que problema? És um filósofo. Levas tudo na flauta. Não tens responsabilidades nem compromissos. És um homem livre. Vives lá com teus livros e teus peixes. A propósito, quando é que dominas essa preguiça e vais conhecer o mar?

— Tem tempo. O mar pode me esperar. Faz alguns milhões de anos que está esperando...

Rodrigo se fez em silêncio uma pergunta íntima: “E tu, quando dominas a tua indecisão e vais a Paris? Há quase dois mil anos a cidade te espera”.

Mas de onde tirar o dinheiro? Os negócios continuavam emperrados. Só se falava em “crise da pecuária”. Criara-se ouvindo o pai queixar-se disso. Teria havido algum período na história do Rio Grande em que não se falasse em crise?

Enquanto Chiru confabulava a um canto, em surdina, com o velho Liroca, Roque Bandeira em voz alta contava a Stein de seu interesse mais recente: a enguia. Sim senhor, a enguia. Havia nas migrações desse peixe um mistério que perturbava os cientistas.

Bandeira acomodou as nádegas carnudas na cadeira, e disse:

— Não me refiro à enguia do mar, ao congro, mas à enguia comum.

— Mas qual é o mistério? — perguntou o judeu.

— Ora, essa enguia ordinária frequenta todas as águas e se reproduz em quantidades colossais. Aí é que está o mistério. Como pode reproduzir-se e propagar-se? Não sei se sabes, mas, segundo uma velha lenda, a enguia nasce do limo das lagoas...

Rodrigo caminhava dum lado para outro. Aquelas janelas fechadas e a ventania lá fora lhe davam uma angústia de emparedado. Andava farto daquela vida de prisioneiro. Às vezes os próprios amigos pareciam as barras de ferro das janelas de seu cárcere. Por mais que ame a esposa e os filhos, um homem precisa, uma vez que outra, de libertar-se, viajar sozinho, ficar a sós consigo mesmo, ver outras terras, outras caras, outros costumes, outras vidas... A mesmice embota o homem. A monotonia o emburrece. A monogamia o envelhece prematuramente.

Fez-se um silêncio. Liroca pitava, olhando com olhos tristes para o ponto do mapa que correspondia ao território onde deviam encontrar-se as tropas de Isidoro. Chiru mascava um pau de fósforo. Stein olhava a lombada dos livros. Bandeira, de olhos entrecerrados, batia de leve com a colherinha nas bordas do prato vazio.

Com um aperto no peito, Rodrigo escutava o uivo do vento e o farfalhar das árvores.

15

Outubro findava com aguaceiros e céus incertos. Uma noite estava Rodrigo no Clube Comercial a jogar pôquer com o Calgembrino do Cine Recreio, o Zeca Prates (candidato dos republicanos ao cargo de intendente municipal) e com o Veiga da Casa Sol, quando Chiru Mena entrou na sala de jogo carteado e soltou a notícia com voz dramática.

— Revoltou-se o Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo!

Muitas cabeças voltaram-se na direção do recém-chegado. Sem erguer os olhos das cartas, Rodrigo perguntou:

— E tu achas que o Bernardes vai morrer de susto só porque esses gatos-pingados se sublevaram?

Chiru aproximou-se, grave, e murmurou:

— Mas a coisa é séria, menino. Levantou-se também o 3o de Cavalaria, de São Luís e o 2o, de São Borja. E parece que há barulho no Alegrete e outras cidades da fronteira...

— Opa! — exclamou Rodrigo, pousando as cartas na mesa e erguendo os olhos para o amigo.

Quando saiu do clube, cerca da meia-noite, notou uma agitação anormal nas ruas. Passavam caminhões cheios de provisórios, autos corriam. As janelas da Intendência estavam iluminadas.

Ao entrar no Sobrado, encontrou Toríbio à sua espera no escritório. Chegara havia pouco do Angico e parecia inquieto. Rodrigo conhecia o irmão. Quando ele estava excitado, suas narinas fremiam e ele não cessava de coçar-se.

Abraçaram-se. Bio fechou a porta.

— Já sabes da revolta de Santo Ângelo?

— Já.

Fazia frio, mas Toríbio tirou o casaco, meteu a mão pela abertura da camisa e pôs-se a esfregar o peito vigorosamente.

— Não aguento mais. Desta vez eu vou.

— Pra onde?

— Pra revolução.

Rodrigo já esperava e temia aquele pronunciamento. Não imaginava, porém, que ele viesse tão cedo.

— Não te precipites. Espera.

— Esperar o quê?

— Os acontecimentos.

— Mas eles estão aí, homem!

Sentou-se numa poltrona, descalçou as botas, coçou os dedos dos pés.

— Me dá um troço pra beber.

Rodrigo serviu-lhe um cálice de Lágrimas de Santo Antônio e ficou a observá-lo, intrigado. Notava nele alguma coisa de diferente. Claro! Bio estava de cabeça completamente rapada.

— Por que pelaste o coco?

— Faz parte do uniforme de campanha.

— Devagar! Não tomes nenhuma resolução. Vamos conversar.

Bio tornou a encher o cálice e bebeu um gole curto.

— De conversa estou farto. Quero é ação. Vou ou rebento.

— Mas é uma loucura. Pensa bem. Não conheces o programa dessa gente. E, depois, não te deves meter em canoa furada. O governo está forte, o povo apático. Esses levantes novos não significam nada. O Chimango organizou corpos provisórios. A Brigada Militar inteirinha está peleando contra os revoltosos. É uma causa perdida.

— Tanto melhor. Tem mais graça.

— Não sejas estúpido! Pensas que vou permitir que te suicides dessa maneira?

— Já te disse mil vezes que ainda não fizeram a bala...

— Para com isso! Escuta. És maior de idade. Sabes o que fazes. Vamos, então, discutir o assunto como gente grande. Estás mesmo decidido a ir para a revolução? Mas já pensaste nos detalhes?

— Que detalhes?

— Quando vais... com quem vais... como vais.

— Vou sozinho, me junto com essa gente de Santo Ângelo...

— Bio, usa a cabeça. Não podes sair às claras. Deves saber que a esta hora já começaram a nos vigiar... Não vai ser fácil.

Toríbio mexia com os dedos dos pés, olhando fixamente para os reflexos da luz no parati.

— Dá-se um jeito — murmurou.

Rodrigo soltou um suspiro de mal contida impaciência.

— Sabes duma coisa? Vamos dormir. Amanhã teremos notícias mais claras desses levantes. Saberemos quem comanda o movimento... E uma coisa eu te digo: se o negócio todo parecer mais uma quartelada inconsequente, não te deixo ir. Nem que eu tenha de te fechar no quarto e te amarrar na cama...

— Na cama? Com quem?

 

Sabia-se agora que quem comandava os revoltosos de Santo Ângelo era um capitão de engenharia, Luiz Carlos Prestes, “um ilustre desconhecido”, como disse o Chiru, um tanto decepcionado ao descobrir que o homem tinha vinte e sete anos incompletos.

— Esses soldadinhos de chumbo — comentou ele —, esses espadas-virgens pensam que se faz uma guerra em cima dum mapa, com esquadro, compasso e teorias... A revolução precisa é de homens maduros e experimentados, como o general Honório Lemes...

Rodrigo esfregou-lhe então na cara o jornal que acabara de chegar com a notícia duma tremenda derrota sofrida pelas tropas de Honório Lemes em Guaçuboi.

— Pois aqui está o teu general. Caiu na emboscada que o Flores da Cunha lhe armou. Caiu como um inocente. Pensou que ia surpreender o inimigo e no entanto o inimigo é que o surpreendeu. E foi um deus nos acuda. Era revolucionário disparando para todos os lados, um verdadeiro desastre...

— Isso é invenção do jornal! — protestou Chiru.

— Antes fosse. E sabes onde está o teu Tropeiro da Liberdade? Asilado no Uruguai. E, para teu governo, o general Zeca Neto também se bandeou para o outro lado... Podes mandar rezar uma missa por alma dessa revolução.

Toríbio, entretanto, obstinava-se em afirmar que nem tudo estava perdido.

 

Nos dias que se seguiram noticiou-se a volta da Argentina de alguns chefes revolucionários, entre os quais o ten. João Alberto Lins de Barros, que comandara o ataque a Alegrete. Isso animou Toríbio, que a muito custo Rodrigo conseguiu conter.

— Espera um pouco mais. Volta para o Angico, vê como vai a coisa por lá. Temos de entregar aquela tropa ao frigorífico... Mas por amor de Deus, não vás para a revolução sem me avisar... Prometes?

Bio prometeu.

Rodrigo esperava secretamente que a revolução se desintegrasse e que a fúria bélica do irmão se aplacasse.

Toríbio voltou para o Angico exatamente no dia em que se realizavam as eleições municipais em Santa Fé. O candidato oficial não teve competidor. A oposição absteve-se de votar. Terminada a apuração, o Madruga mandou soltar uns foguetes chochos. Andava outra vez fardado de coronel provisório e dizia-se que tinha uma tropa de quase mil homens.

— Está se rebuscando de novo esse corno — rosnava o Neco.

Não se cumprimentavam. Quando se defrontavam na rua, trocavam olhares enviesados. Comentava-se na cidade que o chefe republicano dizia, para quem quisesse ouvir, que mais tarde ou mais cedo mandaria passar a faca no “cafajeste do Neco Rosa”. Sempre que lhe contavam isto, o barbeiro cerrava os dentes e ameaçava:

— O Madruga que venha. Incendeio ele por dentro com o meu 44.

16

Aquele foi um dezembro triste para a gente grande do Sobrado. Quanto mais se aproximava o dia de Natal, mais eles pensavam em Alicinha, embora ninguém lhe pronunciasse o nome.

Rodrigo andava particularmente melancólico. Permanecia durante horas sozinho no quarto da filha, deitado na cama dela, pensando nos muitos momentos do passado em que a tivera nos braços, em diversas idades.

Floriano e Jango haviam sido aprovados nos exames finais. O primeiro vivia encafuado, sozinho, na água-furtada, com seus livros e revistas. Não tinha amigos. Pouco se comunicava com os outros membros da família. Flora começava a preocupar-se com ele.

Como prêmio pelas boas notas que tirara, Jango ia passar todo o verão no Angico. Seu sonho agora era vir a ser um dia o capataz da estância. Edu e Zeca continuavam sua turbulenta amizade que se alimentava de bate-bocas e sopapos. Muitas vezes se atracavam e rolavam pelo chão do quintal, cuspindo um no outro, arranhando-se mutuamente as caras. Era a muito custo que Floriano ou Maria Valéria ou Laurinda conseguia separá-los. Ficavam os dois garnisés por algum tempo vermelhos e ofegantes, rosnando um para o outro todos os nomes feios que sabiam, e a se mirarem de longe com o rabo dos olhos. Permaneciam assim por vários minutos até que, esquecidos da briga, juntavam-se e continuavam o diálogo ou o jogo interrompido. Segundo Rodrigo, eram “inimigos de peito”.

 

Os jornais noticiavam que as forças rebeldes da fronteira concentravam-se em São Luís e que os legalistas se preparavam para cercá-las. Divulgava-se também que o gen. Isidoro Dias Lopes mandara um emissário ao cap. Prestes, aconselhando-o a levar suas tropas para o norte, para fazer junção com a Divisão de São Paulo em Foz do Iguaçu.

Pouco antes do Natal chegou ao Sobrado um dos peões do Angico, o Romualdinho Caré, trazendo um bilhete de Toríbio. Rodrigo leu-o já com o coração a bater descompassado, pois ao avistar o chasque tivera logo um mau pressentimento.

Rodrigo: Quando receberes esta, já estarei longe com as forças do Cap. Prestes. Não

pude aguentar. Sigo para São Luís. Seja o que Deus quiser. Mas não te preocupes, eu

volto. É como te digo, ainda não fizeram a tal bala. Lembranças para todos. Um abraço

do

Bio

Sem ler o pós-escrito, amassou o bilhete e jogou-o no cesto de papéis. “Cachorro! Corno! Filho duma grandessíssima.” Saiu a andar pela casa, excitado, com lágrimas nos olhos — lágrimas de indignação, de apreensão, de mágoa, sabia lá ele de que mais! “Como é que esse canalha vai me fazer uma coisa dessas?”

Foi direito à garrafa de parati, encheu um cálice, bebeu com sofreguidão. Como é que vou dar a notícia à velha? Isso não é coisa que se faça! Sair sem falar comigo, sem ao menos me dar um abraço... E como é que vai ficar o Angico? Não estou ao par dos negócios. Vai ser uma calamidade. Louco! Irresponsável! Caudilhote!

Lembrou-se do pós-escrito. Apanhou o bilhete de dentro do cesto, alisou-o e leu:

PS: Não te preocupes com o Angico. Já combinei tudo com o velho Babalo, a quem

expliquei a situação. Ele prometeu capatazear a estância na minha ausência.

Então o velho Babalo sabia de tudo, hein? A coisa tomava o caráter duma conspiração generalizada. Agora ele compreendia o sentido daquela misteriosa visita do sogro ao Angico, havia pouco mais de uma semana... Estavam todos contra ele. Cambada! Corja!

Deu a notícia às mulheres. Flora ficou por um instante muda, a interrogá-lo com o olhar. Maria Valéria, porém, limitou-se a sacudir lentamente a cabeça.

— Eu já sabia — murmurou.

— Como? — vociferou Rodrigo. — Quem lhe disse?

— O Bio.

— Quando?

— A última vez que esteve aqui.

— E por que não me contou nada, Dinda?

— Ele me pediu segredo.

Rodrigo segurou-lhe ambos os braços e sacudiu-a.

— E a senhora nem tentou impedir que ele cometesse essa loucura?

— Vacê não conhece o seu irmão.

— A senhora sabe que ele pode morrer?

— Todos nós podemos, menino. Também se morre na cama.

Rodrigo virou-lhe as costas, meteu-se no escritório, fechou a porta, deixou-se cair sobre uma poltrona, tirou do bolso o bilhete e releu-o. Quando receberes esta, já estarei longe... Frase romântica dum ledor inveterado de novelas de capa e espada.

A indignação tinha passado. Agora estava só magoado. “Isso não se faz. Principalmente a um irmão como eu que.” Dobrou cuidadosamente o bilhete e meteu-o no bolso.

Onde estaria o Bio àquela hora? Já com as forças revolucionárias? O remédio era beber um pouco de Lágrimas de Santo Antônio, tomar um porre. “A vida não vale um caracol.”

Olhou para o retrato do Patriarca e pensou no pai. Matei meu pai. Qual! Aquilo era apenas uma frase. Os homens se suicidam de mil formas. Ou o destino os arrasta e liquida. Era um erro viver alimentando sentimentos de culpa. Tornou a encher o cálice.

Entardecia. Um sol amarelento e morno entrava pela janela numa larga faixa que cobria metade da escrivaninha e lhe iluminava as mãos agarradas nos braços da poltrona.

Espantou, irritado, uma mosca que lhe zumbia ao redor da cabeça. Ouviu o som duma corneta. Devia ser hora do rancho para os provisórios do Madruga. A vida era estúpida. Alicinha estava morta. E ele, sepultado vivo em Santa Fé.

 

Não armaram árvore de Natal aquele ano.

Fizeram muito cedo, na noite de 24, a distribuição de brinquedos às crianças e mandaram-nas para a cama. Carbone e Santuzza apareceram. Estavam sensibilizados com a notícia da partida de Toríbio. Toda a cidade já sabia da história.

— Devo confessar — mentiu-lhes Rodrigo — que eu estava a par de tudo. O Bio me avisou com antecedência, mas, como vocês devem compreender, eu tinha de guardar segredo...

Maria Valéria e Aderbal entreolharam-se, entendendo-se, mas sem dizerem palavra, ambos com as faces impenetráveis. Camerino contou que um dos batalhões do Madruga se preparava para reforçar as tropas governistas que cercavam os revolucionários do capitão Prestes.

Liroca, muito alcatruzado a um canto, brincava com a ponta de seu lenço “colorado”.

— Se o Prestes se livrar dessa — disse —, ninguém pega mais ele. Não sei por quê, tenho uma fé danada nesse menino...

Os amigos retiraram-se antes das dez. Maria Valéria acendeu sua vela e saiu a verificar se as janelas e portas do casarão estavam devidamente fechadas.

Flora e Rodrigo surpreenderam-se então frente a frente ali na sala, no silêncio da casa quebrado apenas pelo tique-taque do relógio de pêndulo. Ficaram a olhar um para o outro, numa mútua interrogação, num mútuo apelo. E de repente abraçaram-se como amantes separados que se reconciliam. Subiram as escadas de mãos dadas e, sem combinação prévia, dirigiram-se para o quarto da filha morta, como se lhe fossem levar um presente de Natal.

17

Num dos primeiros dias de janeiro de 1925 uma notícia correu na cidade, de praça a praça, desceu pela rua do Comércio em várias bocas como uma bola de neve que, à medida que rola pela encosta da montanha, vai aumentando de volume e mudando de forma. Começou na praça Ipiranga como um simples boato: tinha havido um combate sério no boqueirão da Ramada entre as forças revolucionárias e as legalistas. Cuca Lopes acompanhou correndo a bola, empurrando-a como podia e tentando dar-lhe a direção de sua fantasia.

Mas Quica Ventura, que acendia o primeiro crioulo da manhã à frente do Clube Comercial, deteve-o:

— Espera aí, Cuca. Quem foi que te contou?

— Sei de fonte segura.

— Quem ganhou o combate?

— Os legalistas.

— Mentira!

E só para contrariar o Cuca, que embarafustara clube adentro, passou a notícia ao fiscal do imposto de consumo:

— A gente do governo levou uma sova dos revolucionários no boqueirão da Ramada. Foi uma mortandade medonha.

Quando a história chegou à praça da Matriz, trazida por um amigo do Pitombo, a coisa estava nestes termos: travara-se uma batalha campal, o batalhão do Madruga entrara em ação e os revolucionários, batidos, tinham fugido para a Argentina. O armador correu a contar a novidade a Rodrigo, que, depois de ouvi-la, ficou com fogo nas vestes. Com toda a certeza Toríbio tomara parte nocombate! Enfiou o casaco e o chapéu e saiu na direção do telégrafo, onde as notícias eram contraditórias. Correu para o quartel-general. O cel. Barbalho recebeu-o com cordialidade, apesar de as relações de amizade entre ambos terem ficado abaladas depois dos acontecimentos de 23.

— O senhor me desculpe, coronel, sei que não tenho nenhum direito, mas vou lhe fazer uma pergunta. Que é que há de verdade sobre o combate da Ramada? Tenho ouvido as versões mais desencontradas. Explico o meu interesse: é que tenho razões para supor que meu irmão Toríbio fazia parte da força revolucionária que entrou em ação. Seja franco.

O comandante da guarnição abotoou a gola da túnica, encomendou dois cafezinhos ao ordenança que apareceu a seu chamado, e disse:

— Olhe, doutor, foi um combate danado de sangrento, com baixas pesadas de parte a parte. Como o senhor sabe, o boqueirão da Ramada é uma passagem de grande importância para quem quer marchar para o norte...

Fez uma pausa, lançou um rápido olhar para o retrato do Duque de Caxias, que pendia da parede, e, baixando a voz como se temesse ser ouvido pelo padroeiro do Exército, confidenciou:

— Aqui que ninguém nos ouça... O governo pode espalhar oficialmente as notícias que quiser, mas a verdade é que no combate da Ramada os legalistas tiveram de se retirar meio correndo na direção da Palmeira. Acho que levamos uma surra em regra...

— Mas o senhor não tem nenhuma ideia sobre a identidade dos mortos e dos feridos?

O cel. Barbalho sacudiu negativamente a cabeça. Ofereceu um cigarro a Rodrigo. Fez-se uma pausa, que durou até o momento em que ambos soltaram a primeira baforada de fumaça.

— Espere mais uns dias, doutor. Recebi a comunicação de que alguns feridos, entre eles vários revolucionários, vão ser recolhidos ao nosso hospital. Algum deles pode trazer a informação que o senhor deseja.

— E qual é, coronel, a sua opinião sincera sobre o destino dessa revolução?

— Está perdida, doutor. Não se iluda. É a opinião desapaixonada dum militar. A única esperança estaria num golpe mortal na “cabeça da cobra”, no Rio. Ora, isso hoje está fora de cogitação. Depois que Isidoro evacuou suas forças de São Paulo, eu disse cá comigo: perdeu a parada. O mais que pode fazer agora é continuar uma ação de guerrilhas. O resto será questão de tempo.

— Quer dizer então que não atribui nenhuma importância a esse movimento que rebentou no Rio Grande?

O coronel sacudiu os ombros, encrespou os lábios.

— Estou seguramente informado de que as deserções já começaram nas fileiras dos rebeldes.

— Não creio que meu irmão esteja entre os desertores.

— Eu também não.

Entrou o ordenança trazendo duas xícaras de café. Rodrigo sentiu pelo cheiro que era requentado. Tomou um gole. Estava horrendo. O coronel engoliu o conteúdo de sua xícara num sorvo só, fazendo uma careta, como se tomasse por obrigação um remédio amargo.

— Que tal é esse capitão Prestes? — perguntou Rodrigo, depondo a xícara sobre a mesa.

— Como estrategista, deve ser um amador. Não compreendo como esteja no comando da Coluna. Agora, é um homem decente e de coragem, um bom engenheiro e um apreciável matemático.

Sorriu e acrescentou:

— Mas é jovem demais. Sabe duma coisa interessante? Completou vinte e sete anos exatamente no dia do combate da Ramada.

18

Quando chegaram os feridos, o cel. Barbalho proporcionou a Rodrigo a oportunidade de falar com um deles no Hospital Militar.

Chamava-se Clementino Garcia, era natural de Uruguaiana e pertencera às forças de Honório Lemes. Quando o caudilho do Caverá fora obrigado a emigrar, ele ficara para trás, incorporando-se mais tarde ao destacamento do ten. João Alberto. Era um homem grandalhão e melenudo. Estava em cima duma cama, com o torso nu, e uma das pernas engessadas até a metade da coxa.

— Me mataram o cavalo — foi logo explicando. — O animal testavilhou, eu rodei, quebrei a perna. Foi por isso que me pegaram.

Rodrigo disse-lhe quem era e a que vinha. O rosto do prisioneiro como que se iluminou.

— Mano do major Bio? Machuque estes ossos!

Tornou a apertar, dessa vez com mais força, a mão do visitante.

— Então conheceu o meu irmão?

— Se conheci? Doutor, quando o bicho chegou, olhei pra ele e vi logo que tinha homem pela frente. Daí por diante não nos separamos mais. Outro que se encantou logo com o seu mano foi o tenente João Alberto... São unha e carne.

— Agora me diga uma coisa. O major Toríbio estava no combate da Ramada?

— Claro. Onde havia barulho o major sempre aparecia. Nunca vi ninguém pelear mais alegre. Uns brigam por obrigação. Outros por profissão. O seu mano briga porque gosta.

Andava no ar um bodum humano, misturado com emanações de água da guerra e fenol. Na cama próxima, um ferido gemia, de olhos cerrados. Sua face tinha uma cor citrina.

— Esse aí — contou Clementino — peleou também na Ramada. Um tiro nos bofes. É do Alegrete. Não tem nem vinte anos. Eu disse: “Fica junto comigo, guri, tu não tem prática destas coisas”. No primeiro tirotéu ele ficou assim meio atrapalhado, como cusco em procissão. Mas depois se aprumou e até brigou direitinho.

Clementino passou os dedos pela barba negra que lhe cobria as faces. O suor escorria-lhe pelo torso queimado de sol.

— Amigo Clementino, vou lhe perguntar uma coisa e quero que me responda com toda a sinceridade. O meu irmão está vivo?

O caboclo fitou obliquamente o interlocutor.

— Olhe, doutor, meu finado pai sempre dizia que pr’um homem morrer, basta estar vivo. E o senhor compreende, numa revolução...

— O que eu quero saber é se você viu o major ferido ou morto nesse combate...

Clementino ficou um instante pensativo. O paciente da cama vizinha soltou um gemido. Um enfermeiro aproximou-se dele e aplicou-lhe uma injeção.

— Pra le falar a verdade, doutor, a última vez que vi o seu mano, ele estava vivo e por sinal carregando um companheiro ferido na cacunda... Mas se eu fosse o senhor, não me preocupava. O major tem o corpo fechado.

— Por que é que você diz isso?

— Olhe, vou le contar. Duma feita a gente estava de linha estendida num combate, atirando deitado. Mas tinha dois homens que tiroteavam de pé. Um era o João Alberto e outro, o seu mano. Eu estava perto deles, as balas passavam zunindo, era uma música braba. Ouvi o João Alberto gritar: “Vamos deitar, major, que a coisa está ficando feia”. E o doutor sabe o que o Toríbio respondeu? “Não sou lagarto pra andar de barriga no chão.” E continuou de pé. Ora, o outro não teve remédio senão continuar também de pé, pra não se desmoralizar.

Rodrigo sorriu, orgulhoso. Reconhecia que a atitude do irmão era irracional, absurda, pois a obrigação dum revolucionário é, antes de mais nada, durar a fim de levar a revolução à vitória; mas não podia deixar de ver uma grande beleza naquele gesto. “Não sou lagarto pra andar de barriga no chão.” Estava já ansioso por contar a tirada aos amigos. O Neco, o Chiru e o Liroca iam gostar.

Clementino procurou uma posição mais cômoda na cama.

— Vou le contar outra história que o senhor vai apreciar. Nossa gente andava percurando o destacamento do tenente Portela, que estava tiroteando ninguém sabia onde. Nos tocamos direito ao lugar donde vinham os tiros, assim meio no palpite. Um dos nossos companheiros de repente caiu do cavalo, botando sangue pela boca. Imagine, morrer de bala perdida, até nem tem graça, coitado! Apeamos, deixamos a cavalhada atrás dum capão, e nos atiramos a pé pro lugar do combate. Quando chegamos assim no alto duma coxilha, demos com uma força legalista, meio perto. Pois le digo que senti uma coisa ruim na barriga. Mas não tive tempo de dizer água. Os companheiros logo abriram fogo. E o senhor sabe duma coisa? Já briguei de arma branca com muito correntino. Uma vez um guarda aduaneiro me meteu o cano do revólver no peito. Está vendo esta marca perto da mamica direita? Pois foi o filho da mãe do tal guarda, à queima-roupa, só por causa duma desconfiança, porque, palavra de honra, nunca passei contrabando, estava só ajudando um amigo. Pois é como eu ia dizendo, já andei metido em muita briga, mas uma coisa eu nunca tinha visto: era boca de fogo apontada na minha direção...

Moscas passeavam pela testa gotejante de suor do doente da cama próxima, que agora ressonava de boca aberta. Aos ouvidos de Rodrigo esse ressonar soava já como estertor de morte. Longe soou um clarim.

— Imagine o senhor, doutor. A bateria abriu fogo: bum! Um ronco medonho. Palavra, meio que me afrouxei, meti a cabeça no chão, me encolhi e pensei: “Estou frito”. O João Alberto gritou que não era nada. Explicou lá na língua dele que os tiros eram altos e não sei o quê. E o Bio gritou: “Vamos entreverar antes que esses frescos tenham tempo de regular a alça de mira”. Avançamos gritando pra assustar o pessoal da bateria. O Bio queria laçar o canhão, só que não tinha laço. Avançamos que nem loucos, mais ligeiro que enterro de pobre em dia de chuva. Perdemos muita gente, pois os milicos tinham armas automáticas. Pei-pei-pei-pei... Mas quem foi que disse que nós paramos? Os legalistas recuaram. Dispararam os que puderam. Outros caíram. Foi uma mortandade braba, dava até nojo ver tanto sangue, tanta barriga aberta, tanta tripa pelo chão...

Calou-se e ficou com o ar de quem sonha de olhos abertos.

— E depois? — perguntou Rodrigo, fascinado pela narrativa.

— Ora, o comandante achou que a gente não podia aguentar a posição. Só se o Siqueira Campos viesse nos socorrer com sua força. Mas o diabo do homem não vinha. O remédio era voltar pro matinho, pegar cavalhada e ir embora. O Bio queria levar o canhão. “Deixe esse trambolho, major!”, gritou o João Alberto. Seu mano deixou, mas antes de se retirar arriou as calças e fez o serviço em cima da peça.

Riu, passou a mão pelo peito úmido de suor.

— Nesse combate, nos rebuscamos. Eu tirei umas botas das pernas dum oficial morto, e fiquei também com a pistola dele. Os companheiros, que andavam mal de roupa, também aproveitaram a ocasião e se serviram. Quando vi, os inimigos caídos estavam quase todos pelados. Vesti uma túnica de tenente meio manchada de sangue. Mas o senhor compreende, guerra é guerra, quem não quer se sujeitar a essas coisas que fique em casa...

— Quantos homens vocês perderam?

— Olhe, vou le dizer, doutor. Tivemos aí por perto dos cinquenta mortos e coisa duns cem feridos... Eu caí no outro dia, numa escaramuça boba. Foi como le disse: se eu não tivesse quebrado a perna, nunca na vida eles me agarravam.

— Então você acha que o Bio deve estar vivo.

— Estou apostando, doutor. O homem tem sorte.

Rodrigo soltou um suspiro. O otimismo do ferido não significava nada. Mas ele, Rodrigo, queria iludir-se, precisava convencer-se de que o irmão estava são e salvo.

— Me diga uma coisa, Clementino: que tal é esse João Alberto?

— Pois, doutor, é um moço magro e alto, meio com cara de cavalo, mas simpático. É muito influído. Posso lhe garantir que é macho. Só tem umas coisas esquisitas...

— Coisas esquisitas?

— Pois é. Toca piano. O senhor já viu despautério igual? Paramos numa casa pra descansar, tinha um piano e enquanto o Bio e eu fomos direito pra mesa, loucos de fome, o pernambucano abriu o instrumento e começou a tocar uns troços...

— Quero saber uma coisa: a tropa o respeita?

— Respeitar respeita, porque o homem se impõe. Mas o senhor compreende, mais de metade da força é de paisanos, gauchada que veio de 23, acostumada a brigar ao lado de homens como o general Honório e general Portinho. Ficam assim meio sem jeito de obedecer a esses moços... O senhor vê...

— Viu o Prestes?

— Vi uma vez.

— Que tal?

— Ora, no me suena, como diz o castelhano. Dizem que é bom nas matemáticas. Não ri nunca. Não sei... O senhor compreende, nunca fui muito nem com batina nem com uniforme. Mas o homem é o chefe, o senhor compreende...

— Clementino, vou lhe fazer uma pergunta.

— Faça, doutor.

— Por que foi que você entrou na revolução?

— Ué! Sou maragato, revolucionário de 23, gente do general Honório.

— Só por isso?

— E o senhor quer mais? Meu pai era veterano de 93, federalista até debaixo d’água. Quando o general Honório deu o grito, botei o lenço colorado no pescoço, agarrei o pau-furado, montei a cavalo e me apresentei...

— Agora me diga outra coisa. Se não tivesse quebrado a perna, você continuaria com os seus companheiros na marcha para o Iguaçu?

— Por que não? É como disse o doutor Assis Brasil: “Não largo a rabiça do arado senão no fim do rego”.

— Mas que me diz do seu chefe que está na Argentina?

Clementino Garcia sorriu:

— Não tenha dúvida. Qualquer dia ele volta. Quando menos se esperar, o general Honório invade de novo o estado. O velho é caborteiro.

Rodrigo sacudiu lentamente a cabeça. Olhou para a cama vizinha e, como visse uma mosca prestes a entrar na boca do paciente adormecido, ergueu-se e espantou-a.

19

Rodrigo passou aquele resto de janeiro e as primeiras semanas de fevereiro no Angico, com toda a família. Teve a oportunidade de ver o sogro em ação no seu posto de capataz. O velho parecia remoçado: andava alegre, lépido, conversador, cheio de entusiasmos e planos.

— Está nos seus pernambucos — murmurava Maria Valéria, quando o via sobre o lombo dum cavalo a dar ordens para a peonada.

Rodrigo acompanhava-o às invernadas, interessava-se pelas coisas da estância, tomava ares de proprietário. Mas cansou cedo. Entregou-se, então, a longas sestas. À tardinha ia tomar banho na sanga, à noite ficava lendo até tarde à luz duma lâmpada de acetileno, e no dia seguinte acordava às oito, o que causava escândalo à “gente antiga” do Angico.

Maria Valéria punha ordem e método na cozinha, gritava ordens ou ralhos para as chinocas, fazia-as trabalhar, enquanto Flora passava os dias preparando o enxoval que Floriano devia levar para o internato.

Da segunda semana em diante, naquelas longas tardes de bochornoso silêncio, Rodrigo começou a encontrar conforto e distração no corpo da Antônia Caré, irmã do Romualdinho, uma morena de pele cor de marmelo assado. Tinha vinte e pouquíssimos anos, era magra mas benfeita.

— Quem foi que te fez mal, menina? — perguntou ele uma tarde, num momento de ternura.

Ela hesitou, voltou a cabeça para o lado, evitando encará-lo, e murmurou:

— O seu Toríbio.

“Bandido!”, pensou Rodrigo, inconsequentemente. “Sempre na minha frente.” Mas apiedou-se da criatura.

Ficava às vezes longo tempo a examiná-la com uma curiosidade cheia de admiração. Como era que um bichinho daqueles, nascido numa família miserável no meio do campo, podia ter aquela cara, aquele corpo, aquela graça? As Carés fêmeas possuíam todas um certo feitiço que atraía os homens — refletia Rodrigo ao estudar a anatomia de Antônia. A rapariga tinha pudores, evitava desnudar-se, e, quando ele a forçava a isso, ela se deixava ficar deitada, rígida, de olhos fechados, os lábios apertados. Como um menino que pela primeira vez estivesse vendo nudez de mulher, ele se comprazia em passar-lhe a mão por todo o corpo, como que a esculpi-la.

Encontravam-se no capão da Jacutinga, na invernada do Boi Osco. Rodrigo achava um sabor esquisito em possuir a cabocla no mato, sabendo que das árvores os bugios os espreitavam alvorotados, faziam gestos obscenos, soltavam gritos estridentes e acabavam por perseguirem suas fêmeas. Tudo aquilo era a um tempo grotesco, assustador e excitante.

Muitas vezes, terminada a comédia, ele ficava deitado ao lado da rapariga, sentindo vir-lhe, com a lassidão do desejo satisfeito, uma fria sensação de constrangimento e remorso. Um homem de quase quarenta anos! E Flora e as crianças estavam na estância, a menos de dois quilômetros daquele capão... Por outro lado, o fato de Antônia ser sobrinha de Ismália Caré, a amásia de seu pai, dava àquela ligação um caráter vagamente incestuoso.

Saía dali resolvido a não voltar. O tempo, porém, lhe pesava no espírito e no corpo. As tardes eram quentes, o desejo se lhe colava à pele como um visgo, o sangue latejava-lhe nas têmporas e ele sentia que, se não voltasse ao capão, estouraria... Voltava. Encontrava Antônia sentada sempre debaixo da mesma árvore, descalça, metida no seu vestido de chita, e recendendo a água de cheiro. Rodrigo não gostava disso. Preferia o cheiro natural da rapariga, que andava sempre limpa. Sua pele era lisa e seca, jamais parecia transpirar, ao passo que ele acabava sempre com a camisa empapada e grudada desagradavelmente ao tronco.

Uma tarde beijou a cabocla na boca pela primeira vez. Ocorreu-lhe uma comparação: o beijo de Antônia Caré tinha o sabor agridoce e meio áspero do sete-capotes, a fruta que mais dava naqueles matos do Angico.

Nunca saíam juntos do esconderijo. Ela se retirava primeiro, tomando a direção oposta à da casa-grande. E uma tarde, depois que a rapariga se foi, Rodrigo esperou cinco minutos antes de deixar também o capão. O sol descia em meio de nuvens rosadas. Acentuavam-se as sombras nas canhadas. O coqueiro torto desenhava-se nítido contra o horizonte. Mal começara a mover-se, Rodrigo ouviu sons de ramos partidos e folhas pisadas. Algum bicho? Olhou para todos os lados, procurando, e viu uma pessoa sair de outro setor do mato. Reconheceu Floriano, que deitava a correr rumo da casa. O rapaz devia ter estado escondido atrás de alguma árvore, decerto vira tudo... Teve ímpetos de gritar, chamar o filho, enfrentar a situação. Mas calou-se e ficou imóvel, acompanhando com o olhar o menino, que continuava a subir a encosta sem olhar para trás.

Naquela noite, à hora do jantar, notou que Floriano se mantinha silencioso, evitando encará-lo. Maria Valéria e Laurentina discutiam as aventuras domésticas do dia. Babalo contava a história duma certa vaca brasina que julgavam perdida...

Rodrigo não prestava nenhuma atenção à conversa do sogro. Prometera a si mesmo nunca mais voltar ao capão da Jacutinga. Sabia, porém, que voltaria. Desprezava-se por isso. (É uma miséria. Sou um animal.) E, por se desprezar assim, julgava-se redimido. E, como estava redimido, achava-se com direito a um prêmio. E o prêmio era ainda o corpo da Carezinha. A vida era curta, a morte certa. Confortai-me com sete-capotes às cinco da tarde, porque desfaleço de desejo.

Floriano comia, os olhos postos no prato.

— Que tristeza é essa, menino? — interpelou-o Maria Valéria. — Só porque vai pro colégio em Porto Alegre não carece ficar jururu. Nove meses passam ligeiro. Vacê só beliscou a comida. Coma um pouco mais de feijão mexido.

Decerto ele me odeia — refletiu Rodrigo, olhando para o filho. Afastou o prato, sentindo-se de repente vítima duma grande injustiça. E isso lhe doía no coração.

 

No dia seguinte chegou um próprio da cidade, trazendo uma pilha de jornais. Rodrigo levou-os para a cama à hora da sesta e começou a lê-los pela ordem cronológica. Dormiu depois com a cara coberta por uma folha do Correio do Sul. Acordou azedo. E, quando o sogro lhe perguntou pelas novidades, resmungou:

— Tudo uma droga. O estado de sítio foi prorrogado. Da gente do Prestes, nenhuma notícia direta. O “impoluto” Borges de Medeiros telegrafou ao presidente da República declarando que considera terminado o levante militar no Rio Grande do Sul. O “impávido” Bernardes respondeu congratulando-se com o Chimango pela “dispersão do derradeiro grupo revoltoso e sua internação no território argentino”. — Mudou de tom. — E este calor! E estas moscas! Se ao menos a gente tivesse gelo na estância...

Montou a cavalo e gritou para Flora que ia tomar um banho na sanga. Não foi. Galopou rumo do capão da Jacutinga, onde a Carezinha o esperava. Confortai-me com sete-capotes porque a revolução está perdida, eu caminho para os quarenta e a vida é uma droga.

Voltou para casa ao anoitecer, estranhamente aliviado, com uma visão menos pessimista do mundo. Um pouco antes do jantar, abriu de novo os jornais. Num deles, na primeira página, negrejava um cabeçalho: OS GRANDES PROGRESSOS DA AVIAÇÃO. Noticiava-se a inauguração do serviço postal aéreo na América do Sul. Os aeroplanos e hidroplanos da companhia francesa Latécoère iam fazer o percurso entre Toulouse e Buenos Aires em menos de quatro dias, com escalas em Dakar, Natal e Rio de Janeiro. Não era uma coisa fabulosa?

O velho Babalo não pareceu muito impressionado.

— Um navio leva quase um mês para fazer o mesmo percurso, seu Aderbal! Uma carta da França à Argentina daqui por diante levará apenas noventa e cinco horas!

— Isso não é coisa que se faça — murmurou Maria Valéria, que escutava a conversa. — Estão todos malucos.

— E dentro de pouquíssimos anos — acrescentou Rodrigo — haverá aviões comerciais transportando gente da América para a Europa e vice-versa. E se Deus quiser, este seu criado, Rodrigo Terra Cambará, um dia embarcará num desses aeroplanos no Rio para desembarcar em Paris três dias depois!

Aderbal alisava uma palha de cigarro, os olhos postos no genro.

— E o que é que se ganha com todas essas côsas? — perguntou.

— Que é que se ganha? Ora essa! Tempo.

— Pra quê?

Rodrigo ergueu-se, deu dois passos na direção do velho, como se fosse agredi-lo fisicamente. Mas pôs-lhe a mão no ombro, com brandura, dizendo:

— Olhe, respeito a sua opinião e a sua maneira de ser. Mas o mundo marcha. O tempo das carretas se acabou. O progresso está aí. Já leu alguma coisa sobre o telefone sem fio?

Continuar: parte 4 de 7