O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)
Um certo major Toríbio
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
Agora ele escutava Rodrigo sem reagir, ruminando a grande tristeza que lhe causara, no princípio daquele ano, a morte de Lênin. Não tinha nenhum constrangimento em confessar que nem o falecimento de seu próprio pai o abatera tanto. Fora como se uma luz se houvesse apagado no mundo. No dia em que lhe chegara a negra notícia, saíra a andar pelas ruas de Santa Fé com lágrimas nos olhos. Mais tarde lera, comovido, a declaração publicada pelo Congresso soviético:
Sua visão era colossal, sua inteligência na organização das massas, incrível. Lênin era o
supremo líder de todos os países de todos os tempos, de todos os povos, o senhor da
nova humanidade, o salvador do mundo.
E no entanto ninguém ali em Santa Fé compreendia a enormidade daquela perda. Muitos tinham recebido a notícia com indiferença. A maioria nem sequer a havia lido. E tudo continuara como antes. O Quica Ventura picava fumo na frente do Comercial. O Cuca Lopes fazia seus mexericos. O galo do cata-vento da igreja continuava a girar aos ventos. Nas pensões, as prostitutas dormiam com seus machos. Nos campos daqueles latifundiários, os bois engordavam. A miséria do proletariado urbano e rural se agravava. O cel. Teixeira continuava a sua agiotagem. O alfaiate Salomão botava meninos para dentro de seu quarto, tarde da noite. E aqueles burgueses hipócritas — com seus adultérios, calúnias, mesquinhezas e falsos valores — continuavam a representar a sua farsa, adorando o deus dinheiro, exaltando o lucro, espezinhando os humildes, e depois iam à missa para rezar, bater no peito e engolir hóstias. E as estrelas continuavam brilhando no céu. Mas Lênin estava morto! E o dr. Rodrigo Cambará — que chorara em 32 ao saber da morte de Rui Barbosa — achava agora que para o mundo o desaparecimento de Anatole France tinha sido muito mais nefasto que o de Lênin!
Sentiu-se sacudido pelos ombros. Era Rodrigo que o despertava do triste devaneio para lhe dizer:
— Vocês marxistas não reconhecem o transcendente, querem reduzir o homem à mais grosseira condição material, como se ele fosse apenas um animal, sem a menor partícula divina.
Tio Bicho, que estava meio sonolento aquela noite, abriu os olhos para observar:
— Mas não! Há no marxismo um formidável elemento idealista. Só que eles apresentam a justiça social como um sucedâneo do absoluto divino.
Rodrigo olhou para Bandeira com o rabo dos olhos, como se não soubesse se devia considerá-lo um adversário ou um aliado.
Stein soltou um suspiro e disse:
— Doutor Rodrigo, para nós, marxistas, o ato bom, o ato nobre, o ato... espiritual... seja!... é aquele que marcha no sentido da história, e o ato mau é o que entrava o progresso da humanidade. Para mim não existe outra norma para julgar o valor moral da ação. Simplificando: na minha opinião, o homem verdadeiramente humano é aquele que trabalha em prol da revolução social.
Rodrigo sacudiu a cabeça numa negativa vigorosa. E Roque, passando o lenço pelo pescoço suado e purpúreo, disse:
— Eu já li o meu Marx, meio pela rama, porque O capital é o livro mais cacete do mundo, pior que O paraíso perdido. Mas me lembro que, num certo trecho, o Velho compara o proletariado com Cristo sobre a cruz. O que ele quer dizer, acho, é que se Jesus morreu para redimir os homens, reconciliando por meio de seu sacrifício a humanidade com a divindade, o proletariado, como uma espécie de “crucificado” do mundo moderno, sofre e é esquartejado para destruir as contradições atuais... É curioso que Marx tenha usado esse símile...
— Não, Stein! — exclama Rodrigo. — Nenhum homem pode viver sem Deus. Suponhamos, com muita boa vontade, note bem que estou dizendo “com muita boa vontade”... suponhamos que o comunismo resolva o problema da vida do homem sobre a Terra. E o resto?
— Que resto?
— A outra vida, o destino de nossas almas...
— Essa história de almas é outro ponto a discutir. O senhor não vai me dizer que acredita na concepção católica de céu e inferno, prêmio e castigo...
— E por que não?
— Porque tenho a sua inteligência na mais alta conta.
— A inteligência não tem nada a ver com a fé — replicou Rodrigo. — Fé é assunto de coração.
— Se o senhor acredita também nisso, não poderemos discutir.
— Pois então cala a boca.
Stein realmente calou. Compreendia que Rodrigo agora queria convencer-se de que um dia, numa outra vida, ia reencontrar a filha perdida. Bandeira ergueu-se sonolento, convidando o judeu para irem embora. Saíram juntos.
A casa estava silenciosa: todos recolhidos a seus quartos.
Rodrigo olhou em torno da sala, apagou a luz, sentou-se e ficou esperando a “visita” de Alicinha. Ela devia revelar-se de algum modo. Um sussurro, uma batida na vidraça, uma porta que se abre ou fecha inexplicavelmente, um súbito golpe de vento, uma tecla que bate misteriosa nota de música... Cerrou os olhos. Um cachorro uivou numa rua distante. O relógio grande bateu doze badaladas. Depois, de novo o silêncio encheu o casarão. Rodrigo esperava, com um estranho arrepio de febre na epiderme.
Olhava para o próprio retrato, com a impressão de que o outro lhe sabia o grande segredo. De certo modo aquele Rodrigo de tela e tinta não teria uma qualidade fantasmal? Pertencia a um outro tempo, a uma outra dimensão.
A escada rangeu. Rodrigo inteiriçou o busto, o coração acelerado, as narinas dilatadas, as mãos agarrando com força os braços da cadeira. Alguém descia pela escada. Ele esperava...
Uma luminosidade agora tocava a penumbra do vestíbulo. Passos se aproximavam. Rodrigo preparou-se para o momento milagroso, mal ousando respirar.
Maria Valéria surgiu à porta com uma vela acesa na mão.
— Vá dormir, meu filho. É tarde.
7
Rodrigo passou algumas semanas absorto na leitura de livros sobre metapsíquica e espiritismo. A parte céptica e anatoliana de seu espírito sorria, com superioridade, da outra, a que ansiava por um bafejo ou um vislumbre do sobrenatural, a que desejava acreditar na existência duma vida extraterrena. Sempre, porém, que Roque Bandeira ou Arão Stein o pilhava lendo uma brochura de Allan Kardec ou de Sir Conan Doyle, ele se sentia na obrigação de explicar que estudava aquelas coisas por pura curiosidade, pois estava sempre aberto a todas as aventuras do espírito.
Havia muito que Chiru Mena insistia com ele para que fossem visitar um sargento reformado, famoso na cidade e arredores pelos seus extraordinários dotes de médium vidente.
— O sargento Sucupira é um colosso! — proclamava Chiru. — Ele vê, mas vê mesmo, gente que já morreu. Não é truque, o homem é sério. Um dia destes me avistou na rua, me fez parar e disse: “Está atrás do senhor um velho de barbas brancas. Diz que se chama Rogério. Pergunta como vai a dona Evangelina”. Fiquei arrepiado. O velho Rogério é o pai da tia Vanja. Quando ele morreu, eu ainda não era nascido. Agora me diga, Rodrigo, como é que o Sucupira, que nunca entrou na minha casa nem conhece a minha tia, podia saber daquilo?
Uma tarde, Rodrigo resolveu ir ver o homem, que morava num chalé de madeira, numa rua esburacada da Sibéria, em meio dum terreno alagadiço. O sargento recebeu-os metido na sua indumentária caseira: culotes de brim cáqui sem perneiras, chinelas sem meias e casaco de pijama listrado de azul e branco. Era um cinquentão indiático, grisalho e gordo, duma cordialidade lerda e meio paternal. Separado da esposa legítima, que abandonara havia anos com três filhos, vivia com a viúva dum veterinário.
— Entrem. Sentem. Fiquem à vontade. Não reparem os meus trajos. Se eu soubesse que o doutor vinha...
Rodrigo e Chiru sentaram-se. Na mesinha no centro da sala, sobre o linóleo novo de losangos tricolores, havia num vaso de vidro flores de papel. Em cima de aparadores e braços de cadeiras via-se uma profusão de guardanapos de crochê. Moscas voejavam no ar quente da tarde de maio.
— Sulamita, meu bem! — gritou o sargento. — Traz um licorzinho pras visitas. — Olhou para Rodrigo. — É uma honra, doutor, eu já conhecia o senhor de nome e de vista. Aqui o seu Mena me fala muito na sua pessoa, com boas ausências.
Rodrigo estava decepcionado. O vidente era a negação mesma do mistério. Não era possível que aquele homem de aspecto vulgar, com aquelas roupas ridículas, com aquela cara sonolenta e estúpida, pudesse ter os dotes que seus amigos apregoavam. É um impostor. E eu sou uma besta por ter vindo.
O médium sorria, balançando-se numa cadeira de vime. Tinha a testa curta — notou Rodrigo — e faltava-lhe o indicador da mão esquerda.
A mulher entrou, trazendo uma bandeja com três cálices de licor de butiá.
— Minha patroa... — apresentou-a o vidente.
Rodrigo e Chiru ergueram-se, apertaram a mão da mulher. Depois apanharam os cálices. A companheira do sargento retirou-se. Era ossuda, ictérica, de olhos mansos e estava metida num quimono estampado: garças e juncos brancos em campo azul.
Um mosquito zumbiu junto do ouvido de Rodrigo. Chegavam até suas narinas as emanações pútridas da água estagnada que negrejava num valo, à frente da casa. “Este Chiru me mete em cada uma!”, pensou ele, já meio irritado, tomando com certa repugnância um gole de licor.
A situação piorou quando o sargento se julgou na obrigação de brilhar diante do doutor. Fez uma dissertacão sobre o espírito cristão da doutrina de Allan Kardec, citando Ingenieros e Vargas Villa. Era a última! Por fim entrou com Nostradamus pelo domínio da profecia e disse: “Tome nota das minhas palavras, doutor, estamos em vésperas de grandes acontecimentos”.
Chiru observava Rodrigo para ver o efeito que produziam nele as palavras do oráculo. Rodrigo limitava-se a sacudir a cabeça.
— Vamos ter ainda este ano uma grande revolução.
— Opa! — exclamou Chiru.
— Contra quem? — sorriu Rodrigo, depondo o cálice sobre a mesinha.
— Ora, contra o governo — explicou o médium. — O quatriênio Bernardes começou com sangue e com sangue terminará.
O sargento sacava contra o futuro. Era evidentemente um impostor.
Rodrigo olhou para Chiru, a sugerir que se fossem. Mas o médium encarou-o:
— Quem é Licurgo?
Rodrigo franziu o cenho.
— É o meu pai.
O sargento ergueu a mão gorda:
— Não me diga mais nada. Ele está aí por trás do senhor. Está perguntando pelo Bio. Existe alguém com esse nome na família?
— O meu irmão... Toríbio.
Rodrigo resistia. “Esse sujeito sabia que eu vinha, informou-se da vida da minha gente...” Mas mesmo assim estava impressionado.
— Seu pai está perguntando se o Bio ainda tem o punhal... — continuou o sargento. — Espere, não estou compreendendo bem... Sim, é punhal mesmo.
Rodrigo sentiu um calafrio. Tratava-se do punhal que Toríbio sempre carregava consigo, uma relíquia de família. Como podia o homem saber daquelas coisas?
— Não é mesmo um bicharedo? — perguntou Chiru, radiante.
Uma mosca passeava pelas bordas de um dos cálices.
Sucupira levou a mão direita à testa, cerrou os olhos e murmurou:
— Hoje não estou muito bom. É sempre assim, doutor. Depois que tenho relações carnais, minhas faculdades diminuem...
Tornou a abrir os olhos.
— Quem é Alice?
Rodrigo estremeceu.
— É a minha mãe.
— Uma senhora magra, muito pálida e com ar triste. Está ao lado de seu pai. Diz que tudo vai bem, que o senhor não deve se preocupar.
Rodrigo remexeu-se na cadeira. Sentia o suor escorrer-lhe pelas costas, ao longo da espinha. Mas resistia ainda. A coisa se explicava. A telepatia era um fenômeno aceito pela ciência. Naturalmente o sargento estava captando seus pensamentos, seus desejos — dos quais ele, Rodrigo, não tinha consciência clara... Decidiu fazer uma experiência. Pensou intensamente em Alicinha, pois viera com a esperança de receber uma mensagem da filha morta.
— Quem é Candango? — perguntou Sucupira.
— Candango ou Fandango? — perguntou Chiru.
O médium entrecerrou os olhos, coçou distraidamente o dedo grande do pé, e depois disse:
— Um velho alegre, de cara tostada, barbicha branca. Diz que foi capataz do coronel Licurgo. Está perguntando pelo Liroca.
Rodrigo pensava desesperadamente em Alicinha, repetindo mentalmente o nome dela.
— Não está enxergando uma criança? — perguntou.
O vidente ficou um instante pensativo e depois sacudiu negativamente a cabeça.
— Não.
Chiru ergueu-se, muito corado, o carão reluzente de suor, tirou o casaco, passou o lenço pela testa.
— Pergunte ao coronel Licurgo se ele já se encontrou com a neta — pediu Rodrigo.
Por alguns instantes Sucupira permaneceu em silêncio, de olhos entrecerrados. Depois murmurou:
— Ele não quer responder.
— Mas por quê?
— Diz que não está autorizado...
Sem mudar o tom de voz, o sargento desatou a falar em futilidades: o veranico, a última fita que vira no Cine Recreio, anedotas de quartel. De súbito apontou para um canto da sala e disse:
— Ali está uma negra-mina. Diz que se chama Rosária. Conhece?
Rodrigo sacudiu negativamente a cabeça.
— Está perguntando pela Canela Fina...
Mais tarde, já no automóvel, de volta para o centro da cidade, Chiru perguntou ao amigo:
— E que tal? O homem não é mesmo um batuta?
Rodrigo não soube que dizer. Estava confuso. O médium — tinha de confessar — dissera-lhe coisas impressionantes. O que ele, Rodrigo, não podia compreender era como poderes excepcionais como esses pudessem encontrar-se num homem tão prosaico, tão vulgar.
— É um impostor — repetiu, mas sem muita convicção.
Chiru discordou:
— Qual nada! Como é que ele ia saber todas aquelas coisas, conhecer toda aquela gente, até a história do punhal?
Rodrigo encolheu os ombros. Se o sargento tinha a capacidade de ver os mortos, como se explicava que não tivesse visto Alicinha? Essa ideia agora começava a preocupá-lo, porque ele queria acreditar que o espírito da filha morta o acompanhava por toda a parte, a todas as horas.
Entrou no Sobrado e perguntou a Maria Valéria:
— A senhora conhece algum membro de nossa família chamado Rosária?
A velha ficou um instante pensativa, repetindo baixinho o nome. De repente, lembrou-se:
— Era uma negra velha que a mamãe tinha em casa. Mas isso foi há muitos anos, no tempo da Guerra do Paraguai...
— Quem é a Canela Fina?
Maria Valéria cerrou o cenho:
— Como é que vacê sabe disso, menino? A Canela Fina sou eu. Era assim que a Rosária me chamava quando eu era menina.
Rodrigo e Chiru entreolharam-se em silêncio.
8
Rodrigo agora ia também à missa aos domingos. Enquanto durava o ofício, ficava de pé, junto da porta, e ali orava, a cabeça baixa, os olhos fechados. Ajoelhar — achava — era coisa para mulher. Costumava dizer que era religioso à sua maneira, sem exageros nem fanatismos. Detestava os ratos de sacristia e as beatas.
Preferia entrar na igreja quando ela estava vazia. “Quando saem os padres”, costumava dizer, “entra o Espírito Santo.” Ficava sentado a meditar, a olhar para o altar e para as imagens em seus nichos. Pensava na glória da Igreja, nos seus santos, nos seus mártires, nos seus milagres e mistérios. Admirava intelectualmente são Paulo: não compreendia mas respeitava a mansuetude de são Francisco de Assis. A figura de Jesus Cristo fascinava-o, principalmente pelo que tinha de humano e contraditório. O Filho do Homem, que oferecia a face esquerda quando lhe batiam na direita, fora suficientemente macho para, num momento de cólera, expulsar os vendilhões do templo, a chicotadas. Esse ato caudilhesco de Nosso Senhor tinha para Rodrigo um valor extraordinário.
Nas horas de silêncio e solidão, na igreja vazia, ele murmurava suas orações. Não chegava, porém, a entregar-se a elas por inteiro. Não conseguia deixar de pensar em coisas materiais. Cansava-se de tudo aquilo com muita facilidade.
Estava fora de qualquer dúvida que Deus existia — raciocinava ele. O universo sem Deus não tinha explicação nem sentido. Havia uma razão divina acima da nossa pobre e primária razão humana, que não admitia fenômeno sem causa. Deus devia ser o princípio e o fim de todas as coisas.
Naqueles dias em que procurava imaginar-se “dentro duma aura religiosa”, Rodrigo vivia numa castidade que lhe era esquisitamente nova e agradável. A magreza, a palidez e a melancolia de Flora tornavam-na de tal maneira inapetecível, que — além da indelicadeza que seria o convidá-la ao amor físico — era mórbido pensar nela como objeto de prazer. Por outro lado, tratava de convencer-se de que achava repugnante e constrangedora a ideia de procurar outra mulher. Não concebia a possibilidade de entrar num prostíbulo. Seria uma indecência e até um sacrilégio, pois para ele, dum modo obscuro, a memória de Alicinha era como que fiadora de sua abstinência sexual.
Mas agora, naquele lânguido veranico que se prolongava além de maio, começava a inquietar-se. Procurava, mas sem genuíno interesse, a roda da Casa Sol e a do Clube. Pensou em escrever artigos políticos para o Correio do Povo, chegou a esboçar dois ou três, mas acabou desistindo da ideia. Escrever para quê?
Havia vendido a farmácia e a Casa de Saúde a Carbone e Camerino. Fechara definitivamente o consultório. “É uma alma penada”, murmurava Maria Valéria, quando o via a andar pela casa, sem destino.
— Vamos para o Angico — disse ele, um dia, a Flora. — Vai te fazer bem o ar do campo. A Dinda fica com as crianças.
Foram.
Rodrigo tentou entregar-se por inteiro às tarefas campeiras. Procurava cansar o corpo para atordoar o espírito e não pensar em coisas tristes. Dormia largas sestas, das quais despertava mal-humorado, e quando anoitecia ficava tomado duma melancolia mesclada de exasperação. Fugia da companhia de Toríbio e, quando Flora se recolhia ao quarto de dormir, ele saía a caminhar à toa sob as estrelas, falando consigo mesmo, analisando sua vida, interrogando o futuro, fumando cigarro sobre cigarro. Ia para a cama tarde e custava-lhe pegar no sono.
Um dia, abrindo a gaveta duma cômoda, encontrou uma bruxa de pano que pertencera a Alicinha. Teve uma crise de choro e dali por diante desejou freneticamente voltar para Santa Fé, pois lhe viera de inopino a ideia culposa de que tinha “abandonado” a filha, e de que a menina estava encerrada no mausoléu, sozinha e com medo. Sozinha e com medo! Essa impressão foi de tal maneira intensa e perturbadora, que ele mandou Bento preparar o automóvel e Flora fazer as malas. E, apesar dos protestos de Toríbio — “Homem, chegaste há menos de cinco dias!” —, tocou-se com a mulher para a cidade. A primeira coisa que fez foi visitar o túmulo da filha. Levou-lhe flores. Ficou ao lado dela até a hora em que o zelador do cemitério lhe veio dizer que o doutor desculpasse, mas que ele tinha de fechar o portão, pois já era noite.
Naquele princípio de junho os crepúsculos vespertinos eram longos e tristes. Os plátanos e os cinamomos perdiam as folhas. Pela manhã uma névoa leitosa pairava sobre a cidade e o campo. Ao anoitecer havia já no ar um mal escondido arrepio de inverno. Nos quintais e pomares as laranjas e as bergamotas pareciam esperar a hora do amadurecimento.
Um domingo a banda de música militar deu no coreto da praça da Matriz a última retreta da temporada. Findava o outono.
9
Na segunda semana de junho, Rodrigo foi convidado para uma reunião na casa do cel. Alvarino Amaral. Encontrou lá vários companheiros da Revolução de 23, entre os quais o Juquinha Macedo, com três de seus irmãos, e mais Chiru e Liroca. Fecharam-se na sala de visitas do palacete, mobiliada com um mau gosto pomposo: poltronas forradas de veludo, cortinas de seda, uma coluna de alabastro a um canto, sustentando um vaso horrendo. Pendia da parede, numa pesada moldura cor de ouro velho, um retrato a óleo de d. Emerenciana. Lá estava a falecida amiga de Rodrigo, com seus olhos empapuçados, seu buço, sua papada e seu jeito matriarcal.
A princípio comentaram o tempo. Liroca trocou com um dos Macedos um pedaço de fumo em rama. Alvarino quis saber da saúde de Flora. Depois entraram no assunto que os congregara. Foi o dono da casa quem falou. Como os amigos sabiam, as eleições para intendente municipal iam realizar-se em breve. O Madruga tinha o seu candidato, mas estava decidido que a oposição se absteria de votar.
— O que eu acho errado — interrompeu-o Juquinha Macedo.
— Sei que não temos jeito de ganhar, mas como exemplo devíamos comparecer às urnas.
Alvarino escutou-o com paciência e depois disse:
— Está bem, respeito sua opinião. Mas eu reuni vosmecês aqui pra outro assunto.
Calou-se, esperando que a criada, que entrara, terminasse de servir o café. Depois que a rapariga se retirou, prosseguiu:
— A situação está muito séria. O general Leonel Rocha me mandou ontem um próprio. A ordem vai ser outra vez perturbada.
As caras dos quatro Macedos iluminaram-se de repente. Chiru ergueu-se, como que impelido por uma mola. O Liroca apertou o cigarro com força entre os dentes amarelados. Rodrigo não se mostrou muito interessado. Olhava fixamente para o retrato de sua amiga, pensando na noite longínqua em que, no meio duma sessão de cinema, ela caíra fulminada por um colapso cardíaco.
Fez-se um silêncio. Os outros esperavam, com os olhos postos em Alvarino Amaral, que acendia o seu cigarro. Depois da primeira tragada, revelou:
— Está para rebentar uma revolução contra o Bernardes. O general Leonel, o Zeca Neto e o Honório foram convidados para o levante. Agora eles querem saber se podem contar conosco...
Houve novo silêncio prolongado, que Liroca cortou com um pigarro. Juquinha olhou para Rodrigo. Chiru caminhava dum lado para outro.
— Mas quem é que vai chefiar a revolução? — perguntou, parando com as mãos na cintura, diante do dono da casa. — Onde é que o tumor vai rebentar?
Alvarino citou nomes de oficiais do Exército, desligados da tropa em 1922, que estavam conspirando. O levante começaria em São Paulo, depois se alastraria pelo resto do país. Haveria revoltas em várias guarnições, no Norte, no Centro, no Sul. A coisa parecia bem articulada.
Rodrigo sentia junto do ouvido a respiração asmática do Liroca. A notícia deixava-o indiferente. Não havia nada mais distanciado de suas cogitações do que uma revolução. Talvez Bio estivesse interessado no movimento. Ele, não.
Juquinha Macedo, absorto em pensamentos, mordia o lábio, coçava a cabeça, consultava os irmãos com os olhos.
— Mundo velho sem porteira! — suspirou Liroca.
E deu um chupão no cigarro. Chiru queria mais pormenores. O cel. Alvarino contou tudo que sabia. E não sabia muito.
— Mas qual é a sua opinião? — perguntou o mais velho dos Macedos.
O velho tossiu seco, cuspiu na escarradeira, ao pé de sua cadeira, e respondeu:
— Pois, para le ser franco, não sei. Acho meio arriscado. Pode ser mais uma quartelada e a gente fica no mato sem cachorro. Botamos fora o que acabamos de conquistar com a nossa revolução contra o Chimango...
Chiru de novo caminhava dum lado para outro, bufando.
— E tu, Rodrigo? — perguntou Juquinha.
Rodrigo ergueu-se, enfiou as mãos nos bolsos das calças.
— Não contem comigo. Como é que vou me meter numa revolução cujo programa não conheço? Depois, vocês sabem, não gosto de militar. O mal deste país é o Exército. Sou como o velho Licurgo. Tenho raiva de milico.
— Não se trata de gostar ou não gostar de milico — replicou um dos Macedos mais jovens —, mas de derrubar um tirano.
— Isso! — reforçou Chiru. — O governo do Bernardes é o pior que esta pobre república tem tido.
Começou a enumerar calamidades. O mineiro tinha passado seu quatriênio à sombra sinistra do estado de sítio. O Fontoura, na chefia de polícia do Rio de Janeiro, cometia violências e arbitrariedades. O presidente deportava seus inimigos políticos para o inferno da Clevelândia. A imprensa estava amordaçada. O Congresso, desmoralizado.
— Se dependesse do Bernardes, teríamos até a pena de morte! — acrescentou Juquinha Macedo.
Chiru abriu dramaticamente os braços:
— É como digo. Esse mineiro sacripanta mijou em cima de todos nós, do Exército, da Câmara, do Senado, do povo...
— Talvez seja isso que merecemos — murmurou Rodrigo.
Houve protestos. Depois se fez um silêncio, que o cel. Alvarino quebrou para perguntar:
— Em que ficamos?
— Por mim... — começou Juquinha.
Mas não terminou a frase.
— Se vocês entrarem na mazorca — disse Liroca —, eu entro. Sou soldado do Partido. Mas se vocês não entrarem, não entro.
Chiru olhava súplice para Rodrigo, que deu sua opinião:
— Sou contra. Bem ou mal, o presidente Bernardes nos ajudou na nossa revolução. Se os milicos quiserem dar um golpe, que deem. Mas não à nossa custa. Dentro da minha viola eles não vão pro céu. E não tenham ilusões. Se eles ganharem a parada, vão botar na presidência um general, e então vai ser um deus nos acuda.
O dono da casa olhava pensativo para o cigarro que tinha entre os dedos.
— É muito duro a gente negar apoio a um correligionário... — murmurou.
— Nossas obrigações para com os companheiros — observou Rodrigo, que achava tudo aquilo chocho e sem sentido — também têm os seus limites. Se o meu melhor amigo quiser se atirar pela janela dum quinto andar, meu dever não é me atirar com ele, mas evitar que ele cometa essa loucura...
Alvarino mirou-o por alguns instantes.
— Então o senhor acha, doutor...?
Não terminou a frase, pois Rodrigo apressou-se a dizer:
— Acho.
Despediu-se um pouco bruscamente e retirou-se. Chiru e Liroca o seguiram, como pajens. Atravessaram a praça, deram os primeiros passos em silêncio. Soprava um vento frio vindo das bandas da Sibéria.
— Espero que vocês não me considerem um traidor ou um covarde por não ter entrado logo de olhos fechados nessa revolução.
— Ora, Rodrigo — protestou Chiru.
Liroca caminhava encurvado, lutando com sua asma. O galo do cata-vento da igreja rodopiava. Uma grande nuvem branca boiava no céu.
— Qualquer dia temos minuano — murmurou o velho.
Os outros continuaram calados. Rodrigo deu um pontapé num seixo.
10
Naqueles primeiros dias de inverno Rodrigo achou o Sobrado mais frio e triste que nunca. Sua vida — achava — esvaziara-se de todo o conteúdo. Não encontrava estímulo para nada. A rotina familiar começava a entediá-lo. Que fazer? Que fazer? Aproximava-se com assustadora rapidez dos quarenta anos, o pico da montanha... Depois — adeus! — começaria o declive do outro lado. Ah, mas o que mais o exasperava era a falta de imprevisto, a mediocridade daquela vidinha! Santa Fé era um fim de mundo, e o Angico não era melhor. Tempo houvera em que alimentara a ilusão de ser um homem do campo. Agora sabia que não passava dum bicho urbano, amigo do conforto, gregário, civilizado.
Procurava reler seus autores prediletos. Abria um livro, lia duas, três páginas quando muito, e depois largava-o, bocejando. Vivia agora tomado duma estranha sonolência. Sempre que se via em face duma dificuldade, dum problema, sentia uma névoa na cabeça, uma dorzinha acima dos olhos.
— Esse menino anda doente — murmurou um dia Maria Valéria. — Vive bocejando.
Rodrigo sentia-se numa posição de inferioridade com relação a Flora. Invejava-a por vê-la aceitar serenamente sua vida. Enciumava-o o fato de os filhos dependerem tanto dela e lhe darem, mais que a ele, demonstrações de carinho. Era com uma mistura de admiração e impaciência que a via tão segura de si mesma a mover-se naquela casa, fazendo coisas, os pés bem plantados naquele chão. A vida de Flora tinha um sentido claro e alto: ela a dedicava à tarefa de criar e educar os filhos. “No fim de contas”, concluía Rodrigo, “a pessoa indispensável nesta casa não sou eu, mas Flora. Posso morrer sem fazer a menor falta.”
Agora sem obrigações profissionais, acordava às dez da manhã. Adquirira o hábito de tomar aperitivos — vermute e cachaça — no café do Schnitzler, com alguns amigos. Voltava ao meio-dia para almoçar, depois dormia uma sesta até as três, ficava a vaguear sem destino pela casa, abrindo e fechando livros, sentando-se à mesa para rabiscar artigos que nunca terminava. Fumava muito. À noite ia para o clube, metia-se em rodas de pôquer. De vinte em vinte minutos o garçom trazia cafezinhos para os jogadores, e ele os tomava às dúzias, com uma avidez nervosa de quem se quer intoxicar. Voltava para casa perto da meia-noite, excitado e sem sono. Encontrava Flora já deitada. Vestia o pijama e estendia-se ao lado dela. Muitas vezes tomava-a nos braços, mas sem entusiasmo. Ela não o satisfazia. E o resto era insônia. Decidiu que a solução era fazer uma viagem. Paris! Discutiu o assunto com a esposa, que num ponto foi categórica:
— Vai sozinho. É melhor para ti.
— Sem tua companhia essa viagem não tem graça — mentiu ele.
Não era propriamente mentira. Ele queria sinceramente sentir aquilo. Mas não sentia, e não soube disfarçar.
— Sabes que não deixo as crianças.
— Então não vou.
Maria Valéria interveio:
— Deixe de bobagem. Vá. Vacê está precisando mudar de ares.
Por aqueles dias Toríbio voltou do Angico e Rodrigo levou-o para o escritório. Foi direito ao assunto.
— Estou pensando em ir à Europa agora. Preciso de dinheiro.
— Quanto?
— Uns vinte e cinco ou trinta contos, no mínimo.
Toríbio tirou as botas, coçou os dedos dos pés.
— Onde é que vou arranjar tanta gaita?
— E a venda daquela tropa para o frigorífico?
— O negócio vai ser lá pro fim do ano, se sair...
Rodrigo estava impaciente:
— Mas será que nossa situação financeira é tão má assim?
Detestava discutir assuntos de dinheiro, jamais perguntava como iam os negócios. Quando o irmão lhe descrevia a situação econômica do Angico, ele não prestava atenção.
— Menino — disse Toríbio —, a crise continua braba. Deixa essa viagem pra mais tarde.
— Se eu não viajar agora, estouro!
O outro riu, malicioso:
— Por que não dás um passeio a Tupanciretã?
Rodrigo não gostou da piada. Saiu batendo com a porta.
11
Um dia abriu a Bíblia ao acaso e surpreendeu-se a ler, salteando versículos, os Cantares de Salomão. Era no escritório, pouco depois da sesta. Estava sentado confortavelmente numa poltrona, tendo a seu lado um cálice de porto, que tomava em pequenos goles, retendo o líquido na boca e degustando-o antes de engolir.
O meu amado é para mim um ramalhete de mirra; morará entre os meus seios. Em matéria de seios, nenhuma como Zita, a húngara... Bicudos e rijos como limões. Por uma adorável coincidência recendiam mesmo a limão maduro. Ó minha esposa! (mas não foi a imagem de Flora que lhe veio à mente) mel e leite estão debaixo da tua língua e o cheiro de teus vestidos é como o cheiro do Líbano. (Eram três da tarde e ele tinha dezoito anos.
A chinoca mais bonita do Angico cheirava a manjericão e picumã. Passaram duas horas loucas no bambual. O farfalhar dos bambus parecia um cochicho.) O meu amado meteu a sua mão pela fresta da porta, as minhas entranhas estremeceram por amor dele. (Nenhuma estremecera tanto sob suas carícias como uma polaca loura e forasteira que um dia entrara em seu consultório como cliente e de lá saíra como amante. A cara do Gabriel, que ouvira os gemidos, os gritos e os silêncios!) O teu umbigo é como uma taça redonda a que não falta bebida; o teu ventre como um monte de trigo, cercado de lírios. (A morena que ele vira saindo do mar, na praia do Flamengo... Se tornasse a encontrá-la, seria capaz de perder a cabeça...) Sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs, porque desfaleço d’amor.
De repente, veio-lhe a revelação. Fechou o livro com força, bebeu o resto do vinho, ergueu-se... Claro, o que lhe faltava era amor! Sua vida estava vazia de amor. Confortai-me com maçãs porque desfaleço d’amor. Ele desfalecia por falta de amor. Flora era a melhor, a mais dedicada, a mais decente das esposas. Mas era incapaz de ardor amoroso. Ou de amor ardoroso.
Saiu do escritório, entrou na sala de jantar e foi debruçar-se numa das janelas que davam para o quintal. As bergamoteiras e as laranjeiras estavam pintando de amarelo. Por cima da cerca, o rev. Dobson entregava uma pilha de revistas americanas a Floriano, que depois voltou com elas debaixo do braço. Decerto ia meter-se na água-furtada. Menino solitário... preciso ter uma conversa séria com ele. Já deve andar inquieto, sentindo certos pruridos. Ó idade perigosa! Ou serei eu quem está na idade perigosa? Quando ele fizer quinze anos, mando o Bio levá-lo à casa duma mulher limpa. Sessenta são as rainhas, e oitenta as concubinas e as virgens sem-número.
O pastor metodista avistou-o e fez-lhe um aceno. Perdido em meio de oitenta concubinas, Rodrigo não lhe prestou nenhuma atenção. Era perturbador pensar nas virgens sem-número que andavam pelo mundo. A esposa do pastor apareceu à porta de sua casa com uma bacia de alumínio nas mãos. Era magra e assexuada. Temos uma irmã pequena, que ainda não tem peitos: que faremos a esta nossa irmã no dia em que dela se falar? Não. Dessa ninguém falará. Garanto.
Uma brisa fria sacudia as folhas do arvoredo. Bicos-de-papagaio manchavam de vermelho a cerca que dava para a padaria. Confortai-me com maçãs, porque desfaleço d’amor.
Sim, ele precisava dum amor cálido, sanguíneo, desses que não se envergonham da carne. Um amor abrasador e convulsivo. A quase castidade em que vivia não era apenas humilhante, mas também absurda em face do fato de que o tempo passava, inapelavelmente. A vida era curta e incerta. O Pitombo passava o dia por trás do balcão a cocar o Sobrado com seu olho agourento de urubu. O que lhe faltava era mesmo amor. Agora ele sabia. Precisava dos dois tipos de amor. Do lírico, do ideal: mulheres que o admirassem. E do físico: uma, duas, dez mulheres que não só lhe dessem prazer, mas que também sentissem prazer com ele. Mas que fazer? Que fazer? Que fazer? Santa Fé era um burgo horrendo. Oh! as velhotas mexeriqueiras que falavam por trás dos leques nos bailes do Comercial! E o famigerado grupinho que se reunia na frente da Casa Sol! E a rodinha de pôquer do Centro Republicano! Uns desocupados maldizentes, todos! Ele não podia dizer ah que no dia seguinte a cidade inteira não ficasse sabendo que o dr. Rodrigo Cambará havia suspirado. Imaginem que audácia! Suspirar!... Se ele entrasse hoje numa pensão de mulheres, no dia seguinte todo o município ficaria sabendo da história. Chegava uma rapariga nova na cidade? Ora, só podia ser para o dr. Rodrigo, para quem mais havia de ser?
“Santa Fé me tritura. Santa Fé me sufoca. Santa Fé m’emmerde!” Como sair daquele poço de mediocridade e tédio? Pensou então em fazer uma viagem ao Rio, já que no momento não tinha dinheiro para ir à Europa. Sim, ir ao Rio e chafurdar. Isso! Precisava chafurdar. Era uma condição indispensável à sobrevivência, à sanidade tanto de seu corpo como de seu espírito. Embarco amanhã — decidiu.
Mas não embarcou. Porque naquela mesma noite despertou por volta das duas da madrugada sentindo com tamanha urgência um desejo de satisfação sexual, que pulou da cama, vestiu-se (“Não é nada, Flora, estou com insônia, vou dar uma voltinha.”), saiu, foi à casa do Neco, tirou-o da cama e obrigou-o a levá-lo à casa duma china. “Não interessa o pelo. Só quero que seja moça e bonita. E limpa.” Neco pensou na Palmira. Tiveram de acordar a rapariga, que era de boa paz e que, mesmo estremunhada de sono, compreendeu que era uma honra receber o dr. Rodrigo, “porque eu já conhecia o doutor, de vista”. Ele a interrompeu com impaciência. “Tira toda a roupa!” Ela resistiu. “Mas com este frio?”, choramingou. “Fique nua!” Palmira apagou a luz antes de despir-se. Era insensato que uma fêmea daquela profissão tivesse ainda pudores! Rodrigo desnudou-se também e meteu-se debaixo das cobertas, sentindo-se como um menino que ia ter a sua primeira mulher.
E nos meses seguintes portou-se mesmo como um adolescente que de súbito tivesse descoberto o sexo. Entregava-se a uma espécie de fúria orgástica. Não escolhia muito o objeto. Lamentava agora ter fechado o consultório, lugar ideal para aquelas atividades.
Passava os dias a pensar nas aventuras da noite. “Que é que temos para hoje, Chiru?”, perguntava às vezes. Neco um dia chamou-o à parte, na sua barbearia, e disse:
— Devagar com o andor. A coisa não vai a matar.
— Ora, não me amoles.
— O mundo não vai acabar, Rodrigo.
— Estás enganado, Neco. O mundo vai acabar. Estou correndo na reta final para os quarenta. O tempo é um parelheiro que não para nunca. E como corre! Quero espremer a vida como um limão, tirar dela todo o suco que puder, e depois jogar fora o bagaço, sem remorso.
Segurou forte o braço do amigo e acrescentou:
— Quando eu ficar velho (que Deus me livre!), sei que vou me arrepender das coisas que deixei de fazer e não das que fiz, estás compreendendo? E agora deixa de ser moralista e me faz uma barba decente.
Roque, cujo olho mortiço enxergava mais coisas do que parecia, disse um dia a Stein:
— Pelo que vejo, nosso amigo superou a fase mística e entrou na erótica.
— Mas a solução do problema não está em Deus nem no sexo.
— Quem sabe?
— A vida dele está vazia de sentido. É um cavaleiro andante sem estandarte, um paladino sem causa.
— Investindo contra moinhos de vento?
— Não. Investindo contra si mesmo. Travando lutas imaginárias. Não descobriu que sua armadura e sua lança são de papel.
— Já sei onde queres chegar...
— Nenhum homem digno desse nome pode viver a contemplar egoística e estupidamente o próprio umbigo. Se ele vive alienado da sociedade, convencido de que é o centro do universo, acaba na loucura ou no suicídio. E tu sabes que há muitas formas de suicídio. No fundo o doutor Rodrigo é um homem infeliz, apesar de toda a sua riqueza.
Tio Bicho olhou firme para o amigo, segurou-lhe a lapela do casaco e disse:
— Uma coisa não consigo compreender... Como é que podes ter tanto amor pela humanidade e tanta má vontade para com o homem? Será que o comunismo se interessa pela coletividade mas despreza o indivíduo?
— Ora, vai sofismar pro diabo que te carregue!
12
Quem primeiro deu a notícia a Rodrigo foi o Cuca Lopes. Entrou no Sobrado como uma bala. Estava tão excitado, que mal podia falar.
— Rebentou uma revolução em São Paulo! — exclamou, ofegante.
Flora e Maria Valéria entreolharam-se em silêncio. A primeira levou a mão à garganta e interrogou o marido com os olhos: “Vais te meter nessa também?”.
Ainda de chapéu na cabeça, Cuca cheirava frenético a ponta dos dedos, olhando para Rodrigo, como à espera de sua reação.
— Tire a tampa — ordenou Maria Valéria.
O oficial de justiça descobriu-se.
— Me desculpe, dona, é que estou meio fora de si.
Contou que havia chegado um telegrama ao cel. Madruga, anunciando o levante e pedindo-lhe que começasse a formar corpos auxiliares para a Brigada Militar estadual.
— Mas qual foi a tropa que se revoltou? — perguntou Rodrigo. — Quem comanda o movimento?
Cuca encolheu os ombros, não sabia informar. Estava tudo lá no tal telegrama...
Rodrigo vestiu o sobretudo, botou o chapéu e saiu na direção da casa dos Amarais. Encontrou no meio da praça o Juquinha Macedo e mais três de seus irmãos.
— Já sabem? — perguntou de longe.
Sabiam. Vinham do telégrafo.
— Quase toda a guarnição de São Paulo — contou o mais velho dos Macedos — e parte da Polícia Militar do estado estão revoltados!
— Quem é o chefe?
— O general Isidoro Dias Lopes.
— A la fresca! — exclamou o Liroca, que naquele momento se reunia ao grupo. — O general Isidoro é um veterano de 93. Andou com o Gumercindo Saraiva. Maragato dos quatro costados!
De mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo, Rodrigo olhava para o Juquinha Macedo. Estava interessado no movimento, era claro. Como poderia ficar indiferente ao que acontecia em seu país? Queria, porém, pormenores. Não poderia dizer que a revolução lhe causava surpresa. Havia muito que se falava abertamente em perturbação da ordem. A situação política de São Paulo andava agitada desde que Bernardes havia imposto àquele estado a candidatura de Washington Luís. Ninguém ignorava que alguns oficiais jovens do Exército conspiravam desde os tempos de Epitácio Pessoa. Restava agora saber se a revolução ia alastrar-se por todo o país ou ficaria confinada a São Paulo.
— O Bernardes vai reagir — disse Rodrigo. — Não se iludam. O mineiro é macho.
Havia já um movimento desusado de gente na praça. Homens entravam e saíam da Intendência, a cuja porta estacava agora um automóvel.
— Quem deve estar contente é o Madruga — observou um dos Macedos, fazendo com a cabeça um sinal na direção do palacete municipal. — Agora, com a organização do novo corpo provisório, vai ter mais uma oportunidade para roubar.
Liroca soltou um suspiro.
— Pobre país. Desta vez vai mesmo a gaita.
— Não vai, Liroca — replicou Rodrigo. — O Brasil é muito mais forte que os brasileiros.
Naquele mesmo dia chegaram notícias pormenorizadas. A revolta começara no 4o Batalhão de Caçadores, às três da madrugada. Miguel Costa havia conspirado dentro da
força policial, conseguindo a adesão do Regimento de Cavalaria. O 4ode Caçadores havia cercado o quartel da Força Pública, que fora dominado em poucas horas, quase sem resistência. Outras unidades do Exército também se haviam revoltado. Esperavam-se novos pronunciamentos.
Os jornais do dia seguinte foram disputados a peso de ouro ao chegarem a Santa Fé pelo trem do meio-dia. O vendedor foi lançado ao chão, na plataforma da estação. E Bento, que levara uma ordem expressa de trazer ao Sobrado um exemplar do Correio do Povo, custasse o que custasse, ao perceber que não poderia comprar o jornal, não teve dúvida: arrancou um exemplar das mãos do primeiro sujeito que passou por ele. E,como o homem fosse grandalhão e fizesse menção de agredi-lo fisicamente, o peão do Angico levou a mão à adaga, diante do que o outro achou melhor fazer meia-volta e escafeder-se.
Rodrigo abriu o jornal sofregamente. Como de costume o Correio do Povo evitava o sensacionalismo dos cabeçalhos em tipo graúdo e negrito. Noticiava o levante com a sua habitual discrição.
— Luta-se nas ruas de São Paulo... — foi Rodrigo contando à medida em que lia. — Os quarteirões são disputados palmo a palmo, à custa de vidas. É um quadro dantesco...
Procurava dar com palavras suas uma interpretação dramática àquele noticiário frio e meio impessoal. As duas mulheres o escutavam. O velho Babalo, sentado a um canto da sala de jantar, picava fumo.
Depois de ler as notícias, Rodrigo atirou o jornal no soalho. Não acreditava na vitória do movimento. De resto, aquela era uma questão de “milicos”. Que se arranjassem!
O governo federal reagia. O Congresso protestava-lhe irrestrita solidariedade. As forças legalistas convergiam sobre São Paulo, em cuja periferia se travavam combates. Tudo indicava que os levantes esperados em outros quadrantes do país haviam falhado. Foram essas as notícias que os jornais do dia seguinte trouxeram.
Estavam uma tarde Flora e Maria Valéria na sala de jantar, quando ouviram um grito que partia do escritório. Rodrigo! — pensaram logo. Precipitaram-se para lá e o encontraram furioso, brandindo o jornal:
— Uma monstruosidade! Vejam. Os lacaios do Bernardes estão bombardeando São Paulo. É uma coisa nunca vista.
Segundo o diário, estouravam granadas na Mooca, no Belenzinho e até no centro da cidade. A população estava em pânico. Edifícios públicos e fábricas ardiam. Era uma verdadeira hecatombe.
— Ouçam esta — disse Rodrigo. — A população apelou para o bispo. O bispo se prontificou a confabular com o general que comanda os atacantes, pedindo-lhe para cessar o monstruoso bombardeio. E que é que vocês pensam que o militar respondeu? Declarou que ia bombardear a cidade no dia seguinte com mais violência!
Amassou o jornal, jogou-o longe com um pontapé. Encheu um cálice de porto, emborcou-o e depois, meio engasgado, disse:
— No fim de contas, quem tem razão mesmo é o Bernardes. Tratou o Exército com punho de ferro, submeteu-o. Soldado é como mulher. Precisa apanhar para obedecer.
Maria Valéria mirou-o com seus olhos serenos.
— Desde quando vacê pensa isso de mulher, menino?
— Ora, titia, é uma maneira de dizer. Estou me referindo a mulher de soldado.
— Ué, gente! — exclamou a velha. — Mulher de soldado é também mulher como as outras.
13
Naquele dia chegou Toríbio. Desde que soubera da notícia do levante de São Paulo — confessou —, andava pisando em brasas, sentindo “comichões no cabo do revólver”. Maria Valéria lançou-lhe um olhar enviesado.
Uma noite, na casa do Juquinha Macedo, reuniram-se secretamente vários oficiais da extinta Coluna Revolucionária de Santa Fé e examinaram a situação. Rodrigo compareceu à reunião, um tanto contrariado. Já agora desejava a deposição de Bernardes, mas continuava a não acreditar no sucesso daquele movimento armado.
— O que está claro — disse o dono da casa — é que o governo do Borjoca ficou a favor da legalidade. A Brigada Militar vai atacar os rebeldes.
Um dos Macedos leu a proclamação que Isidoro Dias Lopes tinha lançado havia poucos dias. Era um documento otimista.
A revolução marcha triunfalmente para o saneamento da República e salvação do Brasil.
Conquistamos posições na Capital e no interior, que bem atestam o vosso patriotismo,
a vossa bravura e a vossa lealdade. Nós não vos abandonaremos senão com a vitória
integral da revolução.
— Vejam que programa vago — comentou Rodrigo. — Saneamento da República e salvação do Brasil. Que é que isso significa? Um general na presidência e uma ditadura militar?
Naquela noite — fazia muito frio mas o ar estava parado — Toríbio e Rodrigo voltaram para casa a pé. A rua estava deserta, o céu estrelado. Ao passarem pela frente da casa de Mariquinhas Matos viram as bandeirolas das janelas iluminadas e ouviram a música que vinha lá de dentro. Pararam à beira da calçada e ficaram escutando. A Gioconda tocava ao piano o seu Chopin. “Noturno no 2.”Era um dos favoritos de Rodrigo. A melodia casava-se bem com a lua cheia, olho luminoso que do céu espiava a cidade.
— Será que ela ainda é virgem? — perguntou Toríbio em voz baixa.
— A Gioconda? Com toda a certeza.
— Mas que é que está esperando? Faz muito que disse adeus aos trinta...
Rodrigo encolheu os ombros.
— Escuta. Isso é bonito. Como faz tempo que não ouço música!
Seu gramofone estava silencioso desde a morte de Alicinha. Pensou na filha. Havia na lua uma claridade, uma pureza que lhe lembrava a menina. Sim, e qualquer coisa de remoto, de inatingível. Nunca mais! Seus olhos se enevoaram.
— Vamos embora — convidou Bio.
— Espera um pouco.
Cessara a música. Rodrigo esperava outro noturno. Fez-se um silêncio. De súbito a Gioconda rompeu a tocar com um vigor furioso o “Espalha brasa”. Indignado, Rodrigo pegou no braço do irmão:
— Vamos. Esse troço e o “Procópio amoroso” são as duas músicas que a gente mais ouve agora. A Leocádia vive cantarolando essas porcarias na cozinha. É uma calamidade.
No Sobrado, ficaram ainda por algum tempo na sala a conversar e a beber (Toríbio não gostava de conhaque, preferia parati). Da sua moldura dourada, o retrato de Alice Terra Cambará parecia contemplar os dois filhos com olhos apreensivos.
No dia seguinte chegou a notícia de que, para atender um apelo da população, Isidoro e suas forças haviam decidido abandonar a cidade de São Paulo, onde as tropas governistas entraram ao repicar de sinos.
Contava-se também que as forças revolucionárias tinham tomado a direção do Oeste e pareciam marchar sobre o Paraná.
— Está liquidada a revolução — disse Toríbio, penalizado.
E nesse mesmo dia voltou para o Angico.
Agosto entrou, com rijas ventanias e um frio úmido, que parecia penetrar nos ossos. Edu teve uma indigestão de bergamotas. Chico Pão caiu de cama com uma pontada nas costas. Camerino diagnosticou pneumonia. O doente queria apenas Rodrigo à sua cabeceira, não confiava em mais ninguém. E, quando o amigo entrava no quarto, ele rompia a chorar seu choro lento de gurizão, gemia que ia morrer, pedia-lhe que olhasse pela viúva.
Foi também naquele agosto que Sílvia entrou uma tarde no Sobrado, muito séria, sentou-se numa cadeira na frente de Rodrigo, compôs o vestido e perguntou-lhe se daquele momento em diante podia considerar-se sua filha legítima. Comovido, Rodrigo tomou a menina nos braços, cobriu-lhe as faces de beijos, respondendo-lhe que sim, que sim, que sim...
O rev. Dobson, que fizera boa camaradagem com Floriano, continuava passando ao menino, por cima da cerca, as revistas ilustradas que recebia de seu país. Eram números velhos do Saturday Evening Post e do Ladies’ Home Journal. Rodrigo folheava-os, uma vez que outra, com uma morna curiosidade. Não sabia patavina de inglês, mas admirava a perfeição daquelas tricromias. A importância que os americanos davam ao anúncio! E, coisa estranha, ali estava algo que ele jamais vira em nenhuma outra revista nacional ou estrangeira: um anúncio de laranjas... Para anunciar uma pasta de dentes, reproduziam o retrato duma bela rapariga de olhos azuis e faces coradas, com um sorriso de dentes brancos e perfeitos. Admirava também o desenho das ilustrações dos contos e das anedotas. Mas como aquelas publicações eram diferentes, por exemplo, de L’Illustration!Faltava às revistas do país do rev. Dobson um certo cachez, um certo peso, uma certa graça que não dependiam da qualidade do papel nem da riqueza de cores das gravuras, mas de algo mais profundo, algo que vem do tempo, da experiência, da tradição, em suma: da cultura.