O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Érico Veríssimo · Capítulo 4 de 6 · parte 5/7

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O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Um certo major Toríbio

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

Rodrigo meteu a carta no bolso. Estava de certo modo lisonjeado. Afinal de contas Terêncio Prates jamais fora seu íntimo. Aquele desabafo epistolar indicava, entre outras coisas, que o homem o tinha em alta consideração e procurava sua amizade.

— E depois — observou Tio Bicho — o doutor Terêncio fala como se antes da Guerra o mundo e principalmente Paris fossem um convento, um modelo de decência e austeridade. Nós sabemos que a coisa não era absolutamente assim. Aí estão todos esses romances de bulevar... e as estatísticas, as crônicas policiais...

— Espera, Roque! — interrompeu-o Rodrigo. — Mas há limites para tudo. Se as mulheres soubessem o que estão perdendo aos olhos dos homens por se despirem em público ou se masculinizarem...

— Isso! — apoiou-o Chiru.

Costumava afirmar que um homem pode frequentar um bordel e apesar disso continuar a ser um exemplar chefe de família, como ele, pois “uma coisa nada tem a ver com a outra e o que olhos não veem coração não sente”. Afinal de contas, como muito bem dizia Rodrigo, um homem precisa de mais de uma mulher.

— Isso! — repetiu. — Tenho uma filha de treze anos e essas coisas todas me assustam. Um dia destes peguei a menina olhando numa revista o retrato dessa tal mulata que dança nua... Como é mesmo o nome dela?

— Josephine Baker.

— Pois é. Imaginem que exemplo!

O Neco, porém, era solteirão e não suportava os moralistas.

— Nada disso me assusta — disse. — Que venham essas modas e essas mulatas. Quem não quiser usar elas que não use. Eu acho que Santa Fé já comportava um bom cabaré, hein, Rodrigo?

24

Que Santa Fé se transformava, era coisa que se podia observar a olho nu. Começava a ter sua pequena indústria, graças, em grande parte, aos descendentes de imigrantes alemães e italianos como os Spielvogel, os Schultz, os Lunardi, os Kern e os Cervi, os quais, à medida que prosperavam economicamente, iam também construindo suas casas de moradia na cidade e estavam já entrando nas zonas até então ocupadas apenas pelas famílias mais antigas e abastadas.

O clã dos Teixeiras, que, com a morte recente de seu chefe, se havia transformado num matriarcado, habitava um casarão acachapado e feio como um quartel, com frente para a praça Ipiranga. Nele reinava a viúva, d. Josefa, cercada de filhos, noras, genros e netos. Em princípios daquele ano, José Kern inaugurara sua residência ao lado da mansão dos Teixeiras, com uma festa que teve quase um caráter de Kerb e para a qual convidou seus amigos de Santa Fé e de Nova Pomerânia. Cantou-se, dançou-se, comeu-se e bebeu-se com entusiasmo ruidoso, desde as sete da noite até o amanhecer. No dia seguinte d. Josefa disse a uma amiga: “Não pude dormir a noite inteira. Houve uma bacanal na casa nova, ao lado da minha. Por sinal parece uma igreja, com aquelas torres... E que é que a senhora me diz daqueles anõezinhos de barro pintado no jardim? Pois é... Acho que temos de nos mudar.

A nossa zona está sendo invadida pela alemoada”.

Os Spielvogel enriqueciam no negócio de madeira. Com sua casa de comércio, o Schultz era o maior concorrente da Casa Sol, cujo proprietário, o Veiguinha, envolvia a sua indolência no manto prestigioso da tradição. “A minha loja está como era no tempo do meu avô. Não tenciono mudar nada. Que diabo! Temos que respeitar as coisas do passado.” Falava mal do Schultz, que ultimamente se metera no negócio de máquinas agrárias. “Esse lambote quer abarcar o mundo com as pernas. Um dia estoura.”

Marco Lunardi ampliara a padaria e a fábrica de massas. Ganhava dinheiro, tinha casa própria — um verdadeiro bolo de noiva com estátuas sobre a platibanda, altos-relevos na fachada, paisagens da Itália pintadas a óleo nas paredes internas. Continuava, porém, a trabalhar como um mouro e, descalço e metido num macacão de zuarte, era frequentemente visto pelas ruas e estradas a dirigir um caminhão carregado de sacos e caixas.

Um dia o Quica Ventura parou na frente do “palacete” do Lunardi e disse ao amigo que o acompanhava: “O avô desse gringo chegou aqui com uma mão na frente e a outra atrás. Veja agora o estadão do neto”.

Havia muitos, porém, que observavam esses fenômenos dum ângulo simpático: “Imaginem só... O primeiro Spielvogel que pisou neste município chegou sem um tostão no bolso. Construiu um moinho d’água, plantou milho e feijão. Hoje os netos têm uma serraria a vapor e são os madeireiros mais fortes da região”.

Quando José Kern, retaco, rubicundo, rebentando de saúde e vigor, passava na rua no seu andar apressado, diziam:

— Esse alemão vai longe. Começou mascateando na colônia. Hoje é o comerciante mais ativo da cidade. Tem um prestígio danado no interior do município. Ainda acaba deputado.

Muitos desses santa-fezenses de origem alemã ou italiana haviam já conseguido fazer-se sócios do Clube Comercial, vencendo certas resistências que se iam afrouxando à medida que a prosperidade econômica dos “colonos” se refletia na maneira como andavam vestidos, nas casas onde moravam e nos autos que possuíam.

O José Spielvogel tinha um Mercedes-Benz. José Kern adquirira um Chevrolet. Entre os fazendeiros da cidade começara o que se poderia chamar “a guerra do automóvel”. Cada qual queria ter o carro maior e mais luxuoso. Na maioria dos casos não eram os chefes de família que estimulavam essa competição, mas suas mulheres ou, melhor ainda, suas filhas. As meninas do cel. Prates tinham um Chrysler? As netas do cel. Amaral compravam um Studebaker. Ah! As Teixeiras andavam num Fiat dos grandes? Um mês depois chegava um Buick, último modelo, para os Macedos. Mas cada um desses fazendeiros tinha também um forde de bigode, pau para toda obra, o único carro capaz de vencer aquelas estradas medonhas que os levavam da cidade às suas estâncias.

Aos domingos geralmente os membros de cada uma dessas famílias vestiam as melhores roupas e saíam a passear em seus carros, de tolda arriada. Para os que passavam certas horas dominicais debruçados nas janelas de suas casas, só o desfilar daqueles automóveis era um divertimento. Os carros em geral tinham um único itinerário: faziam a volta da praça da Matriz, desciam depois pela rua do Comércio, contornavam a praça Ipiranga e de novo voltavam pela mesma rua. Repetiam isso dezenas de vezes, em marcha lenta.

Existiam na cidade já três automóveis de aluguel. Os boleeiros de carros puxados a cavalo olhavam para os choferes profissionais com um desprezo mesclado de rancor. Os primeiros vestiam-se ainda à maneira gaúcha: bombachas, botas, chapéus de abas largas, um lenço ao redor do pescoço, ao passo que os condutores de automóveis usavam roupas citadinas e um quepe de tipo militar.

— Bonezinho de veado — diziam os boleeiros.

E divertiam-se quando o motor de um dos automóveis enguiçava, ou quando um pneumático se esvaziava. Boa parte da população local, entretanto, continuava a dar preferência aos carros de tração animal.

 

Não era essa, porém, a única das rivalidades existentes em Santa Fé. Havia a tradicional e infindável desavença entre maragatos e pica-paus, que continuava a separar indivíduos e famílias inteiras. E a competição entre os clubes de futebol Charrua e Avante. O primeiro tinha como presidente perpétuo Jacques Meunier, o ex-marista francês que casara com uma das filhas do falecido cel. Cacique Fagundes. Era o Avante o campeão crônico de Santa Fé, e, como seus jogadores usassem camiseta vermelha, todos os maragatos se achavam na obrigação cívico-sentimental de torcer por ele. Os pica-paus inclinavam-se para o Charrua, que — azul, amarelo e preto — vivia sob a asa protetora do cel. Laco Madruga. As partidas que os clubes rivais jogavam eram sempre acidentadas. Enquanto os jogadores disputavam a bola ou, esquecidos desta, trocavam pontapés e pechadas, os torcedores nas arquibancadas se engalfinhavam a sopapos e não raro a facadas e tiros.

A rivalidade mais recente — que tão bem caracterizava as transformações por que passava a cidade — surgira no campo da música. A orquestra mais antiga de Santa Fé, que se revezava com o terno da banda militar nos bailes do Comercial, era o Grupinho do Chico Meio-Quilo, um homúnculo baixo e gordo que tocava flauta. Tinha na sua orquestra dois violões, um violino, um cavaquinho e um contrabaixo. O conjunto especializara-se em valsas, tangos argentinos, marchinhas e polcas. Tudo estava no melhor dos mundos para Chico Meio-Quilo quando um dia apareceu um forasteiro e organizou o primeiro jazz-band de Santa Fé, com elementos da banda militar: saxofone, pistão, clarineta, trombone. O organizador encarregou-se da bateria, em cujo bombo escreveu em letras negras JAZZ MIM. (Era gaiato e trocadilhista, o cafajeste!)

A guerra começou. Os jovens logo se entregaram ao conjunto moderno, ao passo que os da velha guarda se mantiveram fiéis à música de Chico Meio-Quilo. Os dois conjuntos passaram a revezar-se nos bailes da cidade. Dois partidos então se formaram. Mas havia os trânsfugas: elementos passadistas bandeavam-se para o lado do jazz, aderiam ao passo de camelo, ao one-step e ao fox — “senhores e senhoras de meia-idade, que deviam dar-se o respeito”, como comentavam os do grupo conservador.

 

Era porém no aspecto e no comportamento das mulheres que mais se evidenciavam os sinais dos tempos. Agora muitas delas usavam ruge nas faces, batom nos lábios e algumas até bistre nas pálpebras. Senhoras casadas, de mais de quarenta anos, haviam cortado o cabelo à la garçonne e já se apresentavam com saias a meia canela e vestidos de “cintura perdida”.

Segundo os padrões de Laurentina Quadros, Josefa Teixeira e outras matronas de Santa Fé, uma moça verdadeiramente bonita tinha de ser gorda e corada, numa palavra: viçosa. Até havia pouco os homens gostavam das fêmeas de pernas grossas. Agora, porém, algumas mulheres faziam dieta, queriam estreitar os quadris, diminuir o volume dos seios, pois o ideal feminino moderno eram as figurinhas esbeltas dos figurinos europeus. Outro modelo se lhes apresentava, tentador: a estrela de cinema Clara Bow, símbolo da moça “evoluída” e esportiva, dançadora de charleston e de shimmy, o tipo da boneca feita para andar de baratinha a grandes velocidades.

O cinema norte-americano havia desbancado definitivamente o europeu e impunha a Santa Fé e ao mundo seus heróis e heroínas, sua moral e sua estética. Gioconda pintava os olhos como Theda Bara. Uma das Prates, com o auxílio do batom, transformava a boca num coração, à maneira de Mae Murray.

Muitas mocinhas santa-fezenses compravam e assinavam a Cena Muda e algumas delas conheciam melhor os mexericos de Hollywood que os municipais. E quase todas suspiravam de amor pelo galã da moda, Rodolfo Valentino. No princípio, os filmes de Hollywood tinham oferecido ao mundo o tipo do herói ianque, esportivo nos trajos e nos gestos, cheio dum bom humor juvenil e ao mesmo tempo viril — sujeitos atléticos, risonhos, ágeis de pernas e vigorosos de músculos. Eram os George Walsh, os Douglas Fairbanks, os Norman Kerry. Ah! Mas Valentino superara a todos. Onde os outros empregavam os punhos, ele usava o seu olhar magnético. Era moreno, romântico, sensual, lânguido e latino. Ninguém sabia beijar como ele. Amara na tela mulheres como Nita Naldi, Agnes Ayres e Pola Negri. (Diziam que com esta última o amor continuava fora do celuloide, real e tempestuoso.)

Mariquinhas Matos fundara o Clube das Admiradoras de Rodolfo Valentino, que se reunia todas as quintas-feiras, ora na casa duma sócia, ora na de outra. Discutiam os filmes em que aparecia o seu patrono, trocavam-se fotografias com autógrafos do ídolo, liam umas para as outras as cartas que lhe escreviam.

Os maldizentes — homens e mulheres despeitados — comentavam: “Os artistas de cinema passam, mas a Gioconda fica. Já era mocinha nos tempos da Nordisk e da Cines, quando escrevia cartas apaixonadas ao V. Psilander e ao Emilio Ghione. Passou pelo Thomas Meighan e pelo Wallace Reid. Agora está no Rodolfo Vaselina. Que resistência!”.

Quando passaram no Cine Recreio A Dama das Camélias em versão modernizada, com a Nazimova no papel de Margarida Gautier e Valentino no de Armando Duval, o cinema teve uma enchente tão grande que a empresa foi obrigada a exibir de novo o filme no dia seguinte, coisa que raramente acontecia.

Nos sermões dominicais o vigário pregava contra o cinema americano. “Por que não nos mandam mais fitas egzemplares como o Honrarás tua mamãe?”. E insinuava que toda a imoralidade que se irradiava da América do Norte naquelas películas era o resultado duma maquinação protestante com a finalidade de solapar os alicerces da sociedade católica do resto do mundo. E o rev. Robert E. Dobson de seu púlpito replicava, negando que Hollywood fosse o porta-voz do protestantismo dos Estados Unidos. E ele próprio deblaterava, à sua maneira vaga de palha e cinza, contra os excessos e imoralidades da vida moderna, invocando a trágica lição de Sodoma e Gomorra.

 

O último Carnaval oferecera boa oportunidade para quem quisesse observar até que ponto tinham mudado os costumes de Santa Fé. Durante o dia, apareceram nas ruas mascarados tristes e desenxabidos, como de costume. Ao entardecer surgiram de todos os quadrantes da cidade os ranchos, uns de “gente branca” e outros de “gente de cor”. Os primeiros eram em geral sem graça nem ritmo. Os segundos exibiam as melhores balizas, as melhores orquestras, canções e fantasias. Para não quebrar a tradição, o alfaiate Padilha travestiu-se de mulher, e saiu a passear pelas ruas centrais num automóvel de tolda arriada.

A “melhor sociedade” se reservava para o bal masqué do Comercial. O da Terça-Feira Gorda foi o mais memorável de todos. Houve como sempre uma competição nas fantasias entre as moças das famílias mais ricas. Chamou logo a atenção uma Mme. Pompadour decotadíssima (forasteira). Havia odaliscas, baiaderas, húngaras, damas antigas; apaches, tiroleses, caipiras, índios, dominós de várias cores; e os eternos pierrôs. Um funcionário de banco ostentava um turbante de seda branca. (Valentino em O jovem rajá.) Um caixeiro de loja suava sob um albornoz. (Valentino em O sheik.) Esmeralda — a quem um maldizente chamara “a adúltera oficial da cidade” — estava fantasiada de baralho, e mostrava os joelhos, tão curta era a sua saia. Passou a noite a puxar dum lado para outro, como a um boneco de pano, o manzanza do Pinto, seu marido.

A orquestra do Meio-Quilo desde o início do baile foi repudiada pela maioria, de sorte que o Jazz Mim berrou a noite inteira marchinhas, sambas e choros nacionais, para a alegria da velha guarda. A forasteira (contou-se mais tarde num murmúrio de escândalo) chegara a dar alguns passos de shimmy ali em pleno salão do Comercial, sacudindo os peitos. Vários rapazes tomaram bebedeiras de éter e caíram no soalho, em coma. Outros tomaram porres de champanha ou chope. Travaram-se também entre os homens as costumeiras e ferozes batalhas de lança-perfume, em que cada qual procurava alvejar com o esguicho de éter os olhos do adversário, até tirá-lo fora de combate. Houve entreveros, atracações a sopapos, e um filho do Cervi teve o pulso cortado pelos cacos dum tubo de lança-perfume que se partira no auge da refrega.

Mariquinhas Matos, porém, manteve a linha. Fantasiada de castelã medieval, dançou de “par efetivo” com o novo fiscal de imposto de consumo recém-chegado à terra. Era um moço muito correto, de Belém do Pará. Trajava smoking e semiescondia o rosto sob a meia-máscara preta. Gioconda procurou exibir cultura. Assinava o Para Todos, deliciava-se com os almofadinhas e as melindrosas desenhados por J. Carlos e adorava as crônicas de Álvaro Moreyra. Seu poeta predileto era Olegário Mariano — declarou ela ao fiscal. Já leu As Últimas Cigarras? O moço não tinha lido.

— Prefiro a poesia moderna, senhorita.

— Ora, nem diga!

O fiscal era exímio no passo de camelo. A propósito dum pierrô cor-de-rosa, que fazia piruetas no meio do salão, a Gioconda recitou ao ouvido do par:

Sob a pele de alvaiade

Pierrô tem alma também,

Não compreende o que é saudade

Mas tem saudade de alguém.

Enlaçando com a mão direita a cintura de Mariquinhas e com a esquerda segurando o lança-perfume e irrigando com heliotrópio o longo pescoço da moça, o paraense atacou Olegário Mariano e os outros poetas passadistas. Eram os homens dum mundo que morria — disse. — Convencionais, acadêmicos, artificiais. A srta. Maria devia voltar-se para as vozes novas e originais que se erguiam no Brasil e no resto do mundo, na era dinâmica e vertiginosa do rádio, do automóvel e do avião!

A Gioconda sorria, encolhia-se, de olhos cerrados. Quando a música parou por um instante, o fiscal arrastou sua castelã para a área aberta do clube, sentou-se com ela a uma mesa, pediu cerveja e depois, com bolhas de espuma no bigode de galã, recitou-lhe em meio do pandemônio um poema de Oswald de Andrade.

— Mas isso é loucura! — exclamou Mariquinhas Matos. — Não tem metro, não tem rima, não tem nexo!

— Qual! É muito boa poesia — sorriu o moço. — É questão da gente se habituar e nos desintoxicarmos do nosso olavobilaquismo.

 

No fim da semana seguinte A Voz da Serra publicou um artigo do fiscal em que ele tentava explicar o sentido do modernismo. O promotor público, um velhote natural de São Paulo, e que dizia ter frequentado “a roda do Bilac”, tomou as dores do “passadismo” e respondeu ao artigo, num tom entre irônico e agressivo. O paraense treplicou no mesmo tom. Alguns jovens da cidade que tinham o hábito da leitura, solidarizaram-se com o fiscal, ao passo que a maioria ficava do lado do promotor.

O melhor comentário sobre a polêmica veio do Liroca. Quando lhe explicaram do que se tratava, exclamou: “Xô égua!”.

 

“Santa Fé civiliza-se”, escreveu Amintas Camacho num de seus editoriais. Falou nas modas, nas danças “deste nosso século dinâmico e trepidante”, nos automóveis de modelo novo que chegavam à cidade. “Ninguém pode deter o carro do Progresso”, concluiu.

— Fresco progresso — resmungou Stein. — Enquanto essas meninas ricas botam dinheiro fora em vestidos, pinturas e automóveis, os pobres do Barro Preto, do Purgatório e da Sibéria continuam na sua miséria crônica. A mortalidade infantil aumenta. A tuberculose se alastra.

— É a vida — filosofou Tio Bicho.

— Não — replicou Stein. — É a morte.

25

Fazia mais de seis meses que Rodrigo não recebia notícias, quer diretas quer indiretas do irmão. Assaltavam-no agora com frequência acessos de melancolia. Vinham-lhe pensamentos tétricos. Imaginava Bio morto no meio da selva, o rosto coberto de moscas, como o do cadáver insepulto que ele encontrara um dia abandonado no campo, durante a campanha de 23. Uma noite sonhou que andava com o corpo de Bio nas costas, no meio dum matagal, à procura dum lugar para enterrá-lo, o que não conseguia, porque o chão daquela selva escura era de pedra. No entanto, a marcha tinha de continuar, o cheiro do morto se fazia cada vez mais ativo, as moscas lhe enxameavam ao redor do corpo, mas ele, Rodrigo, continuava a andar e a buscar, porque se sentia no dever de sepultar o irmão que misteriosamente era ao mesmo tempo seu pai e seu filho...

Acordou impressionado e passou o dia com aquela sensação de desastre.

Havia momentos em que identificava Toríbio com Alicinha e vinham-lhe fantasias que em vão procurava esconjurar. Via o irmão cruzando o mato a cavalo, levando a menina na garupa... Ou então ambos caídos lado a lado, apodrecendo na boca duma picada, devorados pelos urubus. Eram imagens que com maior ou menor intensidade lhe ensombreciam horas inteiras.

Duma feita lhe veio com tanta força a certeza de que Toríbio estava morto, que, não podendo reprimir as lágrimas, saiu de casa precipitadamente para que Flora e Maria Valéria não o vissem chorar. Saiu a caminhar pelas ruas menos movimentadas, procurando evitar conhecidos. Encontrou quem menos desejava: o sarg. Sucupira. Depois de saudá-lo com cordialidade patriarcal, o médium olhou fixamente para ele e murmurou:

— O senhor está sendo seguido por alguém...

— Não me diga nada! — gritou Rodrigo.

E precipitou-se rua abaixo, em ritmo de fuga.

Às vezes, porém, passava longos períodos de otimismo e até de entusiasmo. Pensava em Toríbio, imaginava-o na vanguarda da Coluna ao lado de João Alberto, barbudo e seminu, abrindo picadas a facão... Sorria e murmurava: “Esse Bio é das arábias...”. Não raro lhe vinha um vago sentimento de culpa por não estar ao lado dele. Podia parecer aos outros uma covardia ficar em casa, abrigado de agruras e perigos, enquanto o outro Cambará macho arriscava a vida naquela marcha, que já agora começava a assumir cores lendárias.

Em vão procurava nos jornais notícias da coluna revolucionária. Não encontrava quase nada. O Correio do Povo, sob o título morno de “O movimento sedicioso”, dedicava-lhe quando muito quinze ou vinte linhas: movimento de tropas no estado, dissolução de corpos auxiliares, e lá de quando em quando uma notícia direta da Coluna. A última informava que, depois de ter invadido o Paraguai em fins de agosto, os sediciosos haviam tornado a entrar no Brasil pelo Mato Grosso, encetando uma marcha na direção de Goiás, sempre perseguidos por tropas legalistas dez vezes mais numerosas.

Naquele princípio de primavera chegaram notícias a Rodrigo por intermédio de amigos que simpatizavam com o movimento. Isidoro Dias Lopes, por causa da idade avançada, emigrara para a Argentina, de onde continuaria trabalhando pela revolução. Comissionado em general, Miguel Costa comandava a Coluna. Luiz Carlos Prestes, agora coronel, era chefe do Estado-Maior. Mesmo de longe Rodrigo sentia, como milhares de outros brasileiros, a personalidade magnética do capitão-engenheiro do batalhão de Santo Ângelo. Ninguém dizia ou escrevia “a Coluna Miguel Costa”, mas sim a “Coluna Prestes”.

Um dia alguém perguntou a Rodrigo:

— Que é que quer essa gente?

A resposta veio pronta e inflamada:

— Manter aceso o facho da revolução. Galvanizar a opinião pública. Esbofetear com essa marcha épica a cara desavergonhada desta nação de eunucos!

Irritava-se ao saber que os revolucionários eram recebidos à bala pelas populações das vilas e cidades do Mato Grosso por onde passavam.

— É o cúmulo! — vociferava. — Essa gente então não compreende que a Coluna Prestes está lutando por ela, é a sua única esperança de libertação? Pobre país!

— O povo não merece o sacrifício — sentenciou Liroca, que estava num de seus dias de descrença cívica.

 

Em princípios de outubro Rodrigo jogava pôquer uma noite no Comercial com o Calgembrino, o Juquinha Macedo e o promotor público, quando o Quica Ventura, que vinha do telégrafo, lhes deu a notícia de que o gen. Honório Lemes, que tinha invadido o estado havia poucos dias com um grupo de revolucionários, fora derrotado e aprisionado com toda a sua oficialidade pelas forças do deputado Flores da Cunha.

Rodrigo atirou as cartas na mesa, ergueu os olhos para o Quica e pediu pormenores.

— A coisa se deu no passo da Conceição. Da gente do Honório, quem não morreu à bala se atirou no rio e morreu afogado. Eu sabia que isso tinha de acontecer. O velho, desde que voltou do Uruguai, quando não andava correndo, se enfurnava no Caverá...

Rodrigo soltou um suspiro. Mexeu com calma aparente o café que o empregado do bufê acabava de lhe servir, e tomou um gole com ar distraído.

— Mais um ídolo que se vai... — murmurou o promotor.

Rodrigo sacudiu lentamente a cabeça, penalizado.

— Que necessidade tinha o general Honório de se meter nessa história, se não estava preparado? Que esperava fazer com seu grupinho? Com que apoio contava? É uma lástima...

O promotor referiu-se então, em tom apocalíptico, aos desastres nacionais dos últimos meses. A Coluna Prestes embrenhada no interior de Mato Grosso... ou Goiás, não se sabia ao certo — sempre perseguida pelos legalistas e hostilizada pelas populações civis das zonas que cruzava. Em setembro a Convenção Nacional escolhera como candidato oficial à presidência da República o dr. Washington Luís, homem do agrado de Bernardes.

Rodrigo rapou com a colherinha o açúcar que ficara no fundo da xícara e lambeu-a.

— Somos todos uns capados — disse o Calgembrino, apertando o cigarro entre os dentinhos enegrecidos. — O Bernardes montou a cavalo no país, governou com estado de sítio, fez gato e sapato do Exército, não se afrouxou pros revolucionários, vai terminar o quatriênio de cabeça erguida e ainda por cima nos impinge um candidato!

— Pior que isso — aduziu o promotor, brincando com o baralho. — Vai conseguir reformar a Constituição de 1891 a seu bel-prazer, dando mais força ao governo da União para oprimir os estados e restringir as garantias individuais, e tirando da alçada do júri o julgamento de crimes políticos. Vocês já imaginaram o poder com que, daqui por diante, ficará o chefe da nação? Estive lendo o projeto de reforma. O presidente terá a faculdade de rever, aceitar ou rejeitar em parte ou no todo o orçamento da República!

— E a reforma vai ser aprovada... — vaticinou Rodrigo. — Na Câmara e no Senado, com pouquíssimas exceções, são todos uns sabujos... O país está abúlico. A oposição nem vai apresentar candidato. É o fim de tudo.

O promotor continuou a enumeração dos horrores do bernardismo. Conhecia muito bem o assunto, conversara no Rio com pessoa muito ligada à polícia celerada do mal. Fontoura. Bernardes enchera todos os presídios com seus inimigos políticos: a ilha Rasa, a ilha Grande, a ilha da Trindade estavam superlotadas. E o supremo requinte era mandar os “criminosos políticos” para as regiões desertas e insalubres da Clevelândia — nome que adquirira uma conotação sinistra — e lá nesse fim de mundo o menor dos males que podiam acontecer ao prisioneiro era ser atacado de impaludismo.

O promotor olhou para os lados, inclinou-se sobre a mesa na direção de Rodrigo e, baixando a voz, disse:

— Vocês naturalmente leram nos jornais a versão do “suicídio” do Conrado Niemeyer... Suicídio coisa nenhuma! Assassínio. Sei de fonte segura que o homem foi atirado pela janela pelos esbirros do chefe de polícia. Agora me digam, aonde vamos parar?

Rodrigo ergueu-se. Era preciso fazer alguma coisa para sacudir o país. Mas com que recursos humanos? Em torno de quem? Onde? Como?

— Mais uma mão de pôquer? — convidou o Calgembrino.

— Não. Vou-me embora. Boa noite.

26

Às vezes parava diante do espelho, buscava cabelos brancos, arrancava com uma pinça os poucos que encontrava, examinava os olhos, punha a língua de fora, passava a ponta dos dedos pelas faces, tirava conclusões, dava-se conselhos, fazia-se promessas.

Olhos injetados... cara de bêbedo ou de bandido. Língua saburrosa, gosto amargo... Fígado. Hesitava entre as pílulas que Camerino lhe receitava e os chás de sabugueirinho-do-campo da Dinda.

Preciso deixar de beber. Tenho de fazer uma dieta rigorosa. (Começo na segunda-feira.) Estou já com excesso de peso.

Traçava um rígido programa de vida. Levantaria da cama às sete da manhã, faria ginástica de acordo com O meu sistema, de Müller, uma brochura que o ten. Rubim lhe dera em priscas eras. (Por onde andaria aquela alma napoleônica?) Aboliria a sesta. E as massas. E as sobremesas.

Era também com alguma frequência que se plantava na frente do próprio retrato, na sala de visitas, admirando-se como num espelho mágico que lhe refletisse não a imagem daquele momento, mas a de 1910.

Andava agora preocupado com o problema da idade. “Ano que vem, entro nos quarenta: o princípio do declive...” A ideia lhe causava uma sensação desagradável.

Sentia necessidade de encher a vida com algo de belo e grande e não apenas com aquelas satisfaçõezinhas e gloríolas cotidianas e municipais. Vivia num burgo parado e triste. O diabo era que não havia descoberto ainda o que queria. Talvez necessitasse mesmo dum grande amor, desses que fazem um homem consumir-se como uma sarça ardente.

Um dia, quando se abandonava a esses devaneios, ouviu a voz de Eduardo, vinda do andar superior, e de repente tomou consciência, dolorosamente, da alienação em que nos últimos tempos vivia com relação aos próprios filhos. Entregava a Flora e Maria Valéria a tarefa não só de educá-los como também de conviver com eles. Como resultado disso, estava adquirindo a condição de “hóspede” dentro de sua própria casa.

Veio-lhe então nesse dia um acesso de ternura temperado de remorso. Saiu para a rua, entrou na Casa Schultz, comprou brinquedos mecânicos para Jango, Eduardo, Bibi, Zeca e Sílvia, voltou para casa carregado de pacotes e projetos paternais, distribuiu presentes, com abraços e beijos, chamou Jango para um canto e puxou conversa sobre o Angico.

— Por que o vovô Babalo vendeu o zaino perneira que era da Alicinha? — perguntou o menino.

Rodrigo ficou surpreendido e sensibilizado. Não sabia de nada. Vovô Aderbal tinha feito mal em vender o animal de estimação da falecida sem consultá-lo. Jango fez outras perguntas. Por que não inventavam uma marca mais bonita “para o nosso gado”? Por exemplo, um estribo com uma cruz no meio...

— Vou pensar nisso — respondeu Rodrigo, sério.

— Papai, por que é que não temos um banheiro de carrapaticida mais grande? — tornou a indagar o menino.

— Maior — corrigiu-o o pai.

Agora lhe ocorria que andava alienado também dos assuntos da estância. Atirara toda a responsabilidade da administração do Angico para as costas do sogro e para isso lhe dera carta branca. Achava a situação a um tempo conveniente e constrangedora. Fosse como fosse, o velho, que administrara tão mal seus próprios negócios, a ponto de ir à bancarrota total, agora se revelava competentíssimo na capatazia do Angico.

Rodrigo dedicou os minutos que se seguiram a Eduardo, que, então com quase oito anos, tinha perdido o aspecto de touro xucro. Havia crescido, estava enxuto de carnes, desdentado e muito palrador. Sua amizade com Zeca continuava, mas tomara um rumo diferente. As lutas corporais eram menos constantes, embora as discrepâncias de opinião continuassem. Viviam discutindo: futebol, fitas de Tom Mix, histórias do Tico-Tico, tipos de automóvel... Quando a polêmica esquentava Edu procurava suplementar o discurso com o gesto — e as palavras como que se lhe amontoavam na boca, atropelando-se, cada qual querendo sair primeiro, e como resultado disso o menino gaguejava, furioso por não poder exprimir-se melhor. Como último recurso, voltava as costas ao interlocutor e afastava-se, pisando duro.

— Venha cá, meu filho.

Eduardo aproximou-se. Rodrigo fê-lo montar no próprio joelho, e, movendo a perna para dar a impressão de um cavalo a corcovear, exclamou:

— Upa, upa, cavalinho!

O menino teve uma reação inesperada. Deixou-se ficar de corpo rígido, as mãos caídas, e lançou para o pai um olhar misto de estranheza e censura. Rodrigo, desconcertado, fez cessar o movimento da perna. Criou-se entre ambos uma atmosfera de gelo. Era como se a criança estivesse a pensar: “Que negócio é esse? Por que duma hora pra outra descobriu que sou seu filho?”.

Rodrigo fez Eduardo “apear do cavalo”, deu-lhe uma palmada leve nas nádegas e disse:

— Vá brincar.

Voltou-se para Bibi, que, sentada no soalho, lidava com um macaquinho mecânico:

— Quem é a filha mais querida do papai?

Nesse momento percebeu que o olhar crítico de Maria Valéria estava focado nele. Teve a desagradável impressão de ter sido apanhado numa mentira. Quem salvou a situação foi Sílvia, que se acercou dele, enlaçou-lhe o pescoço com os bracinhos magros e beijou-lhe as faces.

Rodrigo andava também preocupado com suas relações com Flora. Havia entre ambos algo que o intrigava e que ele não saberia definir com precisão. Duma coisa tinha certeza absoluta. Flora não demonstrava mais para com ele o carinho de outrora.

Ao casar-se, era pouco mais que uma menina, tanto de corpo como de espírito. Adquirira, ao entrar na casa dos trinta, uma esplêndida maturidade física, mas (essa era a impressão de Rodrigo) fora a morte da filha que lhe dera uma completa maturidade espiritual.

Era hoje uma criatura de aparência repousada. Depois dum prolongado luto, interessava-se de novo por vestidos. Havia pouco chegara a pedir ao marido permissão para cortar o cabelo. Rodrigo — sinceramente chocado pelo inesperado pedido — debatera-se então entre o desejo de mostrar-se simpático e dizer sim, e o impulso de gritar: “Minha mulher de cabelos cortados como qualquer dessas piguanchas modernas? Ah! Isso é que não!”. Dera uma resposta evasiva: “Pois tu é que resolves, meu bem, os cabelos são teus”. Flora sorrira, dera de ombros, e conservara os cabelos compridos.

A ideia de que a esposa o adorava sempre lhe fizera um grande bem. A suspeita de que agora ela pudesse ter deixado de amá-lo inquietava-o e chegava quase a exasperá-lo.

Flora já não era a mulher de antes, mesmo tendo-se em vista que jamais fora uma amante ardente. Além do velho pudor, da relutância em desnudar-se ou mesmo em demonstrar que fazia aquilo por prazer — agora ela tomava uma atitude que Rodrigo não podia nem queria compreender. Ficava numa imobilidade de estátua, não fazia um gesto voluntário, não dizia uma palavra. Obedecia apenas, mas como quem cumpre uma obrigação a um tempo grotesca e sórdida.

E Rodrigo, que jamais estivera com outra mulher sem ouvir dela um elogio à sua virilidade e à sua habilidade como amante, exasperava-se.

Mais de uma vez tentara discutir claramente o assunto, mas Flora gelava-o sempre com um olhar ou uma palavra, fugindo a qualquer verbalização do problema.

No mais, era a esposa perfeita. Solícita, sensata, boa companheira e — o que era raro nas pessoas dum modo geral — dotada de um humor inalterável, dum comportamento regular.

Via-se que os filhos a amavam. As criadas a respeitavam. Maria Valéria, que no princípio a hostilizara, fizera com ela, já havia anos, uma entente cordiale que — apesar da diferença de idade entre ambas — aos poucos se transformara numa dessas amizades em que o entendimento mútuo é de tal modo completo, que às vezes dispensa o uso de palavras.

Por mais que buscasse uma explicação para a atitude da mulher, Rodrigo só encontrava uma: ela sabia de suas aventuras amorosas.

O bom senso realista da mulher era outra coisa que de certo modo o irritava. Flora encarava a vida e o mundo com o espírito prático de d. Laurentina. Por outro lado, tinha para com as pessoas, os animais e as coisas uma ternura que não devia ter herdado da mãe, mas do velho Aderbal.

Mais duma vez, à hora das refeições, quando ele fazia uma observação qualquer, percebia uma troca de olhares entre a mulher e a tia, como se ambas se dissessem: “Conhecemos bem essa bisca”. Isso não o agradava. A verdade, porém, era que naqueles anos de vida matrimonial Flora, com sua intuição feminina, aprendera a conhecê-lo de tal modo, que era como se ele fosse transparente. Sabia quando ele mentia ou quando escondia pensamentos ou sentimentos. O que Rodrigo sentia ao ver-se “descoberto” não era nada lisonjeiro para seu amor-próprio. Procurava então justificar-se perante si mesmo, dizendo-se: “Está bem. Sou como uma casa de vidro. É o que a gente ganha por não ser hipócrita ou dissimulador como tantos que andam por aí”. Mas a sensação de inferioridade diante de Flora e Maria Valéria continuava, e era tanto mais forte quanto mais ele pensava na sua superioridade cultural sobre ambas as mulheres.

Um dia em que o sogro lhe veio falar sobre umas reformas que introduzira no sistema de trabalho do Angico — alterando uns “modernismos” instituídos pelo Bio —, Rodrigo, que não andava de muito boa veia, refletiu: “Não mando mais nada na minha estância”. E, como visse Flora e Maria Valéria a moverem-se no Sobrado como rainhas, mandando e desmandando, sem dependerem de sua aprovação ou de seu conselho, pensou: “Também não mando nada na minha casa”. E meio em tom de brincadeira e meio a sério, num amuo que achava pueril mas nem por isso menos legítimo, chegou à conclusão que secretamente desejava: “Não há mais lugar para mim nem aqui nem no Angico. Logo, posso me ausentar numa longa viagem”.

E de novo pensou em ir a Paris. Mas não foi. Porque o sogro, interpelado sobre se havia dinheiro disponível no momento, respondeu que “a côsa não anda lá pra que se diga”.

27

Floriano escrevia todas as semanas. Rodrigo notara, despeitado, que o rapaz quase sempre dirigia suas cartas à mãe ou à Dinda, raramente a ele. Isso o levou a reflexões amargas. Seria que o velho Licurgo tinha razão quando afirmava que os filhos deviam ser educados à maneira antiga, mais no temor que no amor dos pais? “Trato meu filho como se fosse meu irmão e no entanto ele não me estima.”

Lembrou-se da cena do capão... Mesmo assim não compreendia a atitude do rapaz para com ele. “Não amei menos o meu pai por saber que ele era amante da Ismália Caré.”

Um dia, porém, chegou uma carta de Floriano dirigida a ele: “Estimado Pai”. Por que não querido pai? O rapaz começava ordinariamente suas cartas com um “Minha muito querida Mãe”. Bom. A coisa era assim desde que o mundo era mundo. Os filhos sempre foram mais apegados às mães.

Rodrigo assumiu perante si mesmo (e ao mesmo tempo se considerou um pouco farsante por isso) a atitude de mártir. É o que mereço. Bem feito!

Dentro dele, porém, vozes gritavam que não! que não! Ele não merecia aquele tratamento. Adorava os filhos. Era capaz de todos os sacrifícios por eles!

A carta encheu-o de orgulho. O estilo do rapaz melhorava dia a dia, tomando uma coloração literária cada vez mais acentuada. Floriano contava incidentes da vida colegial e era com um certo humor à Dickens que descrevia os professores, seus cacoetes, indumentária, cheiros e tom de voz.

Rodrigo levou a carta à casa de d. Revocata Assunção, que a leu, sorrindo.

— Eu não lhe disse que o rapaz tem veia literária? Uma bela carta. Mas quando escrever a ele, diga-lhe que “vem de aparecer” é galicismo. E como vão as notas?

— Excelentes. Nos primeiros meses, a senhora se lembra, o Floriano me tirou o terceiro e o quarto lugar na classe. Mandei dizer: “Precisas honrar o nome dos Cambarás. Quero que daqui por diante tires sempre o primeiro lugar, custe o que custar”. Ele prometeu e tem cumprido. Uma pena é que as notas de matemática não sejam tão altas como as outras...

— Faça-o advogado — disse a mestra.

— É uma boa sugestão.

Ao despedir-se, d. Revocata manifestou sua indignação ante o caso noticiado pelos jornais de que um professor norte-americano fora processado e levado a júri pelo governo de seu estado por ter ensinado a evolução em sua escola, numa pequena cidade do Sul dos Estados Unidos.

— Como vê — concluiu ela —, os protestantes não são mais tolerantes nem mais avançados que os católicos. É o eterno crê ou morre. Imagine — disse em voz alta, como que falando para uma classe — mentir a essas pobres crianças que Deus fez o mundo e tudo quanto nele há em seis dias e descansou no sétimo, tendo tirado Eva duma costela de Adão!

Rodrigo sorriu.

— Cuidado, dona Revocata. Se a senhora ensinar aos seus alunos que o homem descende dos macacos, vamos ter barulho.

O pincenê da professora relampejou a um movimento brusco de sua cabeça.

— Se se meterem com a minha vida, arraso-os.

Floriano voltou para casa em meados de dezembro. Tinha feito excelentes exames. Rodrigo achou-o não só mais alto, e já com um jeito de homem, como também um pouco mais desembaraçado. Maria Valéria examinou-o da cabeça aos pés, fazendo perguntas. Gente direita no internato? Boa comida? Por que tanta brilhantina no cabelo? E que ideia tinha sido aquela de viajar de trem com roupa domingueira, tomando toda a poeira da estrada?

Pegou uma escova e começou a escovar o rapaz com uma eficiência agressiva. Flora olhava para o filho e sorria. Achava-o engraçadíssimo naquelas calças compridas. Parecia mesmo um “pinto calçudo”, como dissera a Dinda. Que idade ingrata! Havia naquele menino de quinze anos, de cara pintada de espinhas e buço cerrado, um desengonçamento a um tempo cômico e comovedor. Uma permanente expressão de acanhamento tocava-lhe os olhos, que jamais se fixavam frontalmente no interlocutor. E a voz, santo Deus! Agora barítono, segundos depois tenor ou contralto — parecia uma torneira da qual jorrasse alternadamente água quente, morna e gelada.

Floriano não sabia onde botar as mãos, apoiava todo o peso do corpo ora numa perna ora noutra. Parecia não saber como tratar os irmãos. No primeiro momento procedeu como se fosse um estranho, um visitante de cerimônia naquela casa. Eduardo e Jango o miravam como a um bicho raro, pois o mano mais velho tinha vindo sozinho de trem, de Porto Alegre, e, além disso, falava inglês. E, quando o rapaz, só para fazer alguma coisa, passou a mão pela cabeça de Bibi, numa tímida carícia, a menina encolheu-se e começou a choramingar.

Floriano saiu a andar por toda a casa, olhando sala por sala, como quem mata saudades. Flora notou, sensibilizada, que o rapaz parava diante da porta do quarto da irmã morta, hesitava por um instante e depois continuava seu caminho, sem entrar. Subiu mais tarde para a água-furtada e lá ficou fechado um tempão.

 

Tiveram um Natal festivo. Rodrigo mandou armar no centro do quintal um pinheiro da altura dos pessegueiros maiores. Pendurou nele uma quantidade de rútilos enfeites de estanho e vidro — esferas, cones, estrelas, florões... Para iluminar a árvore, em vez de velas empregou lâmpadas elétricas de muitas cores.

Convidou meio mundo para a festa. Além do peru recheado da Laurinda e duma grande quantidade de empadas, pastéis e doces, havia sobre as mesas, no quintal, travessas cheias de passas de figo, de uva e de pêssego, nozes, castanhas, amêndoas e avelãs. E, como se tudo isso não bastasse, o anfitrião encarregou o Bento de preparar um churrasco de carne de ovelha.

Era uma noite morna e estrelada, de ar parado. Os jasmins-do-cabo temperavam o ar com a sacarina de sua fragrância. Vaga-lumes piscavam por entre as árvores. Um deles pousou na cabeça da mulher do pastor metodista e ali ficou a brilhar como um diamante num diadema. O rev. Dobson sorriu, contou à esposa o que se passava, e acrescentou: “Don’t move, dear. You look like a queen”. E ambos continuaram a beber a sua limonada.

Um gaiteiro trazido do Angico tocava toadas campeiras. Maria Valéria, como um almirante na ponte de comando da nau capitânia, fiscalizava o quintal, da janela dos fundos do casarão, dando ordens às negras e chinocas que serviam os convidados.

Sentada a uma mesa na companhia do juiz de comarca, d. Revocata comeu com muita dignidade uma costela de ovelha. Respingos de farinha pontilhavam o narigão do Liroca, que não afastava o olhar de Maria Valéria.

Júlio Schnitzler surgiu na sua fantasia de Papai Noel, mas não fez o sucesso dos anos anteriores. Jango nem mesmo sorriu ao vê-lo entrar pelo portão, com o saco de brinquedos às costas e soltando as suas gargalhadas estentóreas. Eduardo e Zeca trocaram cochichos: sabiam já da grande mistificação e nem sequer procuravam disfarçar. Só Bibi e Sílvia ainda se impressionaram um pouco com o espetáculo.

Chiru Mena desafiou o gaiteiro para trovar e, cercados de convivas, ficaram ambos uma hora inteira a improvisar, sob aplausos e risadas.

Stein passeava inquieto sob os pessegueiros. Tio Bicho não se afastou um minuto do barril de chope. Carbone trinchou o peru com habilidade cirúrgica e Santuzza serviu-o com sabedoria administrativa.

O Gabriel da farmácia excedeu-se na cerveja, ficou sentimental, abraçou Rodrigo, choramingando que queria voltar a ser empregado dele, porque a farmácia já não era a mesma dos velhos tempos... “Está bem, Gabriel, está bem”, murmurava o ex-patrão, batendo nas costas do prático, que desatou a chorar, suplicando: “Doutor, não me abandone. Eu sou seu filho!”.

— Um café forte sem açúcar pro Gabriel — pediu Rodrigo a Flora, que passava naquele momento.

E entregou o rapaz aos cuidados da mulher.

28

Rodrigo passou janeiro, fevereiro e parte de março no Angico com toda a família. Foram meses de bom tempo excepcional, com amplos céus, límpidos e rútilos. Um calor seco que começava por volta das dez da manhã, atingia seu auge entre meio-dia e três da tarde, mas depois se ia atenuando até esvair-se em noites frescas ou tépidas, pontilhadas de estrelas, grilos e vaga-lumes.

Tornou a encontrar um certo prazer na vida do campo. Saía para as invernadas em companhia do sogro, antes de nascer o sol, laçava, dirigia a peonada no aparte do gado e mais de uma vez teve discussões — rápidas e cordiais — com o velho Aderbal, a propósito de assuntos de trabalho. Dormia sestas mais curtas, comia moderadamente, lia muito e conseguira até terminar dois artigos políticos que tencionava mandar para o Correio do Povo.

A Antoninha Caré, que se casara, havia pouco, com um posteiro da estância dos Fagundes, tinha abandonado definitivamente o Angico. Rodrigo fez mais de uma visita nostálgica ao capão da Jacutinga. Deitava-se ao pé da árvore onde a cabocla costumava esperá-lo e ali se quedava a ruminar os muitos prazeres que ela lhe dera, e a esperar vaga e absurdamente o aparecimento duma outra mulher... Com as mãos trançadas contra a nuca, ficava a escutar o canto dos pássaros e a gritaria dos bugios. Observava, divertido, as piruetas que estes faziam, saltando de galho em galho nas altas árvores.

E, como as outras chinocas da estância, por sujas ou feias, lhe fossem intragáveis, Rodrigo pôde dar-se o luxo da monogamia. Retemperava-se ao sol do Angico, limpava os pulmões e a mente — achava ele — respirando aquele ar puro e verde. Tostava a pele, afinava a cintura, perdia a papada incipiente, recuperava a confiança em si mesmo. Era outro homem.

À tardinha levava as crianças para o banho na sanga. Era nessas horas que sentia mais que em qualquer outra a falta do irmão. Tinha, às vezes, a impressão perfeita de ouvir a voz do Bio ou os bufidos que ele costumava soltar quando emergia dum mergulho no poço. Curioso: o mundo sem Bio não só lhe parecia menos divertido como também menos seguro.

Por onde andaria aquela alma? Por que sertões, canhadas, desertos ou serras? Ferido? Prisioneiro? Vivo? Morto? Lançava essas perguntas mudas para o céu da tardinha. As crianças espadanavam na água ou gritavam sob a cascatinha. Os cavalos e petiços que os haviam trazido até ali pastavam em calma à beira da sanga.

Os jornais mais recentes que haviam chegado ao Angico noticiavam que a Coluna estava agora no Piauí, e que Prestes tinha sido promovido a general. Mais de mil e duzentas léguas de marcha! Era incrível...

 

Quando os Cambarás voltaram para a cidade, os jornais davam como certa a vitória de Washington Luís.

— O país está narcotizado! — disse Rodrigo a Roque Bandeira e Arão Stein, que haviam almoçado no Sobrado aquele dia. — A oposição nem sequer apresentou candidato. Enrolou a bandeira. Ensarilhou as armas. Entregou-se ao mineiro!

Eram quase duas da tarde e os três amigos conversavam na praça, à sombra da figueira.

— E o pior — observou Tio Bicho — é que ninguém está interessado em votar. Dizem que houve uma abstenção enorme em todo o território nacional.

Rodrigo abriu os jornais que Bento trouxera, havia pouco, da estação. Correu os olhos por todas as páginas e por fim exclamou:

— Nenhuma notícia sobre a Coluna Prestes! Que é que vocês me dizem a isso?

Roque Bandeira sorriu. Estava em mangas de camisa, sem gravata, e de colarinho aberto. Respirava com dificuldade, dando uma impressão de empanturramento.

— Digo que essa é uma maneira mágica de destruir os revolucionários: ignorar a existência deles.

— Atitude típica da burguesia — interveio Stein, mordendo um talo de grama. — Mete a cabeça na areia para não ver o perigo, para não enfrentar a realidade.

Rodrigo contou que estava pensando em escrever um artigo sobre Luiz Carlos Prestes, intitulado “A gênese dum herói”.

— Vejam esse fenômeno milagroso. Os jornais se calam mas existe neste imenso país uma vasta, misteriosa rede de comunicações que veicula as notícias. É por meio dessa rede que se divulgam as proezas do general Prestes e de sua “Coluna fantasma”. É uma espécie de jornal contra o qual nada pode a lei de imprensa do Bernardes. E vocês sabem que o povo nunca se engana...

Continuar: parte 6 de 7