O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)
Um certo major Toríbio
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
— Más ou menos...
— Pois é. Pode-se falar duma cidade para outra, dum continente para outro, pelo ar, sem o auxílio de fios, graças a essa coisa maravilhosa que se chama rádio. Tudo isso significa, seu Aderbal, que aos poucos o homem domina a natureza, melhora a sua vida, tornando-a mais fácil, mais higiênica, mais agradável, mais... mais...
— Atrapalhada — terminou o velho, tirando do bolso um naco de fumo em rama.
— Qual atrapalhada! Essa história em falar no “tempo de dantes” é pura conversa fiada, puro romantismo. O mundo tem melhorado, ninguém pode negar. E vai melhorar mais.
Rodrigo não gostou da expressão gaiata que o velho tinha no rosto.
— Que é que o senhor está achando tão engraçado? — perguntou, entre divertido e irritado.
— É que ninguém ainda se lembrou de inventar uma droga pra curar a maior doença da humanidade.
— A tuberculose?
O velho sacudiu a cabeça negativamente.
— Não. A estupidez.
20
Voltaram para a cidade na Quarta-Feira de Cinzas e três dias depois Rodrigo embarcou com Floriano para Porto Alegre. À hora da despedida o menino estava pálido e trêmulo. Flora estreitou-o contra o peito, os olhos embaciados.
— Não é nada, meu filho. O tempo passa depressa.
Maria Valéria fez uma rápida carícia na cabeça do rapaz e disse:
— Vá com Deus. E tenha juízo.
O trem partiu à uma hora da tarde. Da janela do vagão, os olhos tristes de Floriano viram o casario da sua cidade perder-se por entre as coxilhas que ficavam para trás. A luz do sol era tão intensa que chegava a desbotar o azul do céu, onde grandes nuvens gordas estavam imóveis como os lerdos bois e vacas que à beira dos aramados olhavam placidamente o trem passar. O carro cheirava asperamente a poeira e carvão de pedra. Ao passarem por uma charqueada, chegou até eles, num bafo quente, um cheiro fétido e ao mesmo tempo adocicado.
Rodrigo observava o filho disfarçadamente. A expressão melancólica do rosto do menino dava-lhe pena. Seu silêncio preocupava-o. Decerto viu tudo aquela tarde no capão... e me odeia.
Imaginou uma conversa. “Olhe aqui, Floriano, não devemos nunca julgar as pessoas sem primeiro...” Sem primeiro... quê? Se o menino me viu, me viu, não há mais nada a fazer. Pensou então em dizer-lhe: “Todos os homens têm defeitos. Sempre imaginamos que nossos pais são perfeitos, mas infelizmente não são. O meu não era. Tinha uma amásia e um filho natural. É bom que saibas dessas coisas. Teu pai também não é santo, tem muitos defeitos, grandes defeitos. Mas uma coisa quero que saibas. Ele é teu amigo. O teu melhor amigo. Haja o que houver, nunca te esqueças disso”.
Podia dizer-lhe coisas assim... Mas perguntou apenas:
— Queres o último número do Eu Sei Tudo?
Passava naquele momento o vendedor de revistas e jornais.
— Não, obrigado. Vou ler um livro.
— Que livro?
Floriano tirou da maleta uma brochura e mostrou-a ao pai. Contos, de Edgar Poe. Rodrigo sorriu:
— Quem foi que te recomendou isso?
— Ninguém.
Ali estava a evidência duma outra omissão sua. Esquecera-se de orientar as leituras do filho.
— Que outros autores tens lido?
— Coelho Neto... Eça de Queiroz... Zola.
— Opa! Os realistas.
Bateu de leve no joelho do menino.
— Está bem. Um homem tem de saber tudo.
Depois, na esperança de iniciar um diálogo amigo, perguntou:
— Estás vendo esses campos? São da estância do Juquinha Macedo...
O rapaz lançou para fora um olhar indiferente. Abriu o livro, baixou a cabeça e começou a ler. “Não há dúvida, ele me odeia”, pensou Rodrigo. Desdobrou o jornal que comprara na estação. Epitácio Pessoa — informava um telegrama do Rio — escrevera uma carta ao ABC desmentindo a notícia, que esse semanário publicara, de que o ex-presidente da República era partidário da anistia para os revoltosos. Passou a outros tópicos. Não havia nada importante. Notícias do Carnaval. As próximas eleições para a renovação da Assembleia estadual. Nenhuma informação sobre a Coluna revolucionária, a não ser a de que um forte destacamento do Rio Grande do Sul marchava pelo sul do Paraná em perseguição aos rebeldes, para pô-los entre dois fogos. Por onde andaria Toríbio? Vivo? Morto? Ferido? Asilado na Argentina? Olhou para fora. Urubus voavam em círculo sobre uma carniça. Dentro do carro homens conversavam em voz alta e alegre. Um sujeito com aspecto de caixeiro-viajante, metido num guarda-pó creme, com um bonezinho de alpaca na cabeça, tomava com gosto seu chimarrão.
— Vamos baldear para o noturno em Santa Maria — disse Rodrigo.
Absorto na leitura, Floriano não o ouviu.
“Ele me odeia. Nem me olha. Preciso reconquistar meu filho.” Soltou um suspiro de impaciência. Ia ser uma viagem cacete. A poeira, fina e avermelhada, entrava pela janela, de mistura com a fumaça da locomotiva. Partículas de carvão caíram sobre as páginas do livro de Floriano, que as soprou. Numa curva, o trem diminuiu a marcha e seu apito longo, tremido e triste, ergueu-se sobre as coxilhas como um risco sonoro no ar luminoso.
Chegaram a Porto Alegre na manhã seguinte. Rodrigo levou o filho para o internato, pouco depois do almoço.
Ficava o Albion College num calmo e verde vale, entre o Partenon e a Glória. O edifício principal do colégio fora antigamente a residência dum português ricaço, que Mr. Campbell comprara e mandara adaptar às necessidades de seu internato. Tivera, porém, o bom gosto de não alterar-lhe a severa fachada colonial nem tocar na velha fonte do jardim, à frente do casarão, e no centro da qual um fauno de bronze, a cabeça erguida para o céu, tocava a sua flauta.
O diretor do internato devia estar beirando os cinquenta. Era um inglês alto e corpulento, de cara vermelha e carnuda e cabelos grisalhos, ainda abundantes. Tinha um ventre saliente que parecia começar à altura do estômago, mas que ele conseguia manter erguido numa postura atlética. E, como suas coxas e pernas fossem desproporcionalmente finas e o homem usasse calças muito justas, Rodrigo teve a impressão de estar diante duma versão modernizada do Mr. Micawber, de Dickens.
— Minha mulher vive aqui comigo — disse ele a Rodrigo. — O Albion College é uma casa de família. Tratamos todos os alunos como nossos filhos.
Falava português com fluência, mas à maneira do inglês de Oxford, em golfadas bruscas e sincopadas, como latidos. Isso — achava Rodrigo — dava àquele homem o ar dum cachorrão cordial, dum grande são-bernardo prestimoso, com seu barrilzinho de genebra preso ao pescoço. Essa imagem — como Rodrigo veio a descobrir mais tarde — nada tinha de impróprio ou gratuito, pois num dado momento em que o inglês lhe falou perto do nariz, ele sentiu um forte hálito de uísque.
O “cachorrão” tomou-lhe do braço e saiu a mostrar-lhes o internato.
— Os quartos são individuais — explicou. — Isso não é quartel nem hospital de caridade, what? Nas aulas, no recreio, nos esportes, nas horas das refeições, os alunos convivem uns com os outros. Mas há um momento, meu caro doutor, que todos precisamos de intimidade, right?
Rodrigo sacudiu a cabeça, concordando. E, enquanto Floriano, distraído, olhava pela janela, os estudantes que jogavam futebol num campo situado a um dos flancos do edifício principal, Mr. Campbell puxou Rodrigo para um canto e murmurou:
— Não se preocupe, senhor. Durante o dia cansamos tanto os alunos com jogos, estudos e passeios que à noite, na solidão do quarto, eles não têm tempo nem ânimo de pensar em atos imorais.
Levou o pai e o filho a verem o pomar, que, amplo e rico de frutas, ia dos fundos do colégio até as faldas do morro da Polícia. Mostrou-lhes depois o refeitório arejado, claro e limpo, onde não se via uma única mosca. Passaram à cozinha, também imaculada e sem cheiros. Percorreram as salas de aula, cujas carteiras recém-lustradas recendiam a verniz.
— Temos um esplêndido corpo docente — disse Mr. Campbell, quando caminhavam no corredor, de volta ao escritório. Citou nomes.
Deixaram Floriano sentado na saleta de espera, vendo velhos números de revistas londrinas, e fecharam-se no gabinete do diretor. Rodrigo acendeu um cigarro. O cachorrão encheu de fumo o bojo do cachimbo.
— Só fumo longe dos meninos — explicou, riscando um fósforo. — Os alunos estão proibidos de fumar. Bebidas alcoólicas também não entram nesta casa. — Piscou um olho, sorriu, acendeu o cachimbo e aduziu: — Quer dizer, Mrs. Campbell e eu bebemos mas in private, como se diz em inglês, isto é, nos nossos aposentos, see?
Sentado atrás da escrivaninha, o são-bernardo preparou-se para preencher a ficha de Floriano. Foi fazendo perguntas, a que Rodrigo respondia. Nome por inteiro? Idade? Nomes dos pais? Religião?
— Ah! Eu ia lhe perguntar qual é a norma do colégio quanto a esse problema.
O inglês pousou a caneta sobre a mesa e disse:
— Mrs. Campbell e eu somos anglicanos, mas o colégio é rigorosamente leigo. Cada aluno segue a sua religião, ou não segue nenhuma, se essa é a vontade dos pais. Aos domingos os protestantes vão a um templo episcopal aqui perto. Tenho um professor que leva os alunos católicos a uma igreja, na Glória. Qual é a religião de seu filho?
— Católica.
— Perfeito. Quer que ele vá à missa todos os domingos?
Rodrigo sorriu:
— Se ele quiser...
— Tem mais alguma recomendação a fazer?
— Não. Só lhe peço que faça de meu filho um homem. É um rapaz ensimesmado e arredio. Puxe por ele, obrigue-o a fazer esportes e amigos. Ah! Antes que me esqueça, o ponto fraco do Floriano é a matemática.
O cachorrão bateu com a pata no ar:
— Ah! O professor Schneider se encarrega disso.
Apontou para a janela.
— Está vendo aquele morro? Todos os sábados subimos até o pico... Mrs. Campbell nos acompanha sempre, é uma grande alpinista. Ah! temos um bom time de futebol, e este ano esperamos derrotar o quadro do Colégio Cruzeiro do Sul...
Ao saírem encontraram Mrs. Campbell a conversar com Floriano, que parecia muito embaraçado.
— Meet Mr. Cambárra, darling — disse o diretor. — Doutor, esta é minha senhora.
Rodrigo apertou a mão duma mulher sem idade certa, de cabelos cor de abóbora e olhos azuis, nem bonita nem feia, nem gorda nem magra, nem benfeita nem malfeita. Inglesa — resumiu ele para si mesmo. E concluiu: numa noite de tempestade, numa casa deserta, sem outro recurso, talvez servisse...
— Roger, dear! — exclamou ela, dirigindo-se ao marido. — Veja como este rapaz se parece com o pai.
Passou a mão pelos cabelos de Floriano, que ficou com as orelhas cor de lacre.
Os Campbells deixaram pai e filho sozinhos na hora da despedida. Ficaram ambos frente a frente. Quando Floriano ergueu o rosto para o pai, havia um brilho líquido em seus olhos.
— Está bom, meu filho. Chegou a hora.
Abraçou o rapaz, e, como este inesperadamente lhe beijasse a face, Rodrigo comoveu-se quase a ponto de chorar. Fez meia-volta e se foi sem olhar para trás. Disse um rápido adeus aos Campbells e atravessou o jardim com passos apressados. Uma menina loura, de seus treze anos, brincava com a água, sentada nas bordas da fonte. “Hello!”, murmurou ela quando Rodrigo passou. “Boa tarde!”, disse ele, e continuou seu caminho. Quem seria? Junto do portão parou e voltou-se. O sol parecia incendiar os cabelos da menina. Gritou-lhe:
— Como é teu nome?
— Mary Lee.
Rodrigo voltou para o automóvel que o trouxera até ali, e disse ao chofer que o levasse de volta ao hotel. Sentia o beijo do filho na face esquerda, como um ponto morno. Sim, a inglesa tinha razão. O rapaz estava cada vez mais parecido com ele. Um Rodrigo em miniatura — pensou. Mas só por fora. Por dentro era Terra. Parecido com o velho Licurgo.
Pensava nas dificuldades que o filho ia encontrar no internato, nos primeiros dias, longe da família e no meio de estranhos. Havia também os trotes dos colegas. E a disciplina, a ginástica, as horas de nostalgia e solidão. Ah! mas tudo aquilo lhe ia fazer um grande bem.
Veio-lhe uma súbita saudade de Flora e dos filhos. Prometeu a si mesmo dedicar-se mais à sua gente, dali por diante. A família era o maior tesouro que um homem podia possuir. Fora um néscio por ter-se afastado tanto de Floriano. E agora a ausência do rapaz não ia melhorar a situação. Levou a mão à face. Ele não me odeia — pensou com alegria. — Ele me ama.
Começou a assobiar o “Loin du Bal”.
Naquela noite, sentindo-se solitário, foi ao Clube dos Caçadores. Mas arrependeu-se. Não encontrou lá nenhum dos velhos companheiros. Contaram-lhe que o Pudim havia sido recolhido ao hospício (“Também, doutor, o rapaz andava tomando cocaína aos baldes!”) e que o cabaretier francês tinha deixado a cidade. Na sala de jogo viu algumas caras conhecidas, e lá estava ainda, de piteira em punho, a mirar de longe a mesa de bacará, o dr. Alfaro.
— Mas que é feito dessa vida?
Abraçaram-se, trocaram-se breves notícias pessoais.
— Sempre firme no propósito de não jogar, doutor?
— Firmão. Firmão.
Na sala de danças havia uns tipos estranhos sentados às mesas. E umas mulheres decotadas, pintadas com um exagero de palhaço, fumando cigarro em cima de cigarro. Dois ou três pederastas caminhavam requebrados por entre as mesas, muito íntimos de todos.
Onde estava o Barão? Tinha desaparecido duma hora para outra. E a Zita, aquela húngara com cara de gatinha? Em São Paulo, por conta dum miliardário. E o Cabralão? Ah, esse, coitado, andava nas últimas... E o Treponema Pálido? Não sabia? Pois morreu em novembro de 23, naquele tiroteio na frente do Grande Hotel.
A orquestra estava aumentada, tinha um pistão estridente, um saxofone rouco, uma bateria barulhenta. Tocava melodias de “La Scugniza” e de “A dança das libélulas”, e berrava uma infinidade de foxes, a cujo ritmo aqueles mocinhos dançavam o abominável e ridículo passo de camelo.
Positivamente, o Clube dos Caçadores vulgarizava-se, baixava de classe. Où sont les neiges d’antan? — perguntou Rodrigo, nostálgico. Onde, aquelas grandes figuras da política e do alto comércio que costumavam frequentar a casa, dando-lhe cor própria, importância e um caráter quase... sim, quase histórico?
Para mal de pecados, uma romena com uma cara que era um verdadeiro compêndio de patologia mórbida, dançou no palco um shimmy, sacudindo os peitos caídos e longos como orelhas de perdigueiro. E um espanhol travestido de mulher cantou cançonetas picantes. Era a decadência.
Uma paraguaia loura — ó raridade! — sentou-se à mesa de Rodrigo e quis beber champanha. Ele lhe satisfez o desejo. Depois a mulher o convidou para ir a seu quarto, que ficava do outro lado da rua. Foi. E também se arrependeu.
Deixou a prostituta pouco depois da meia-noite. Estou ficando velho — pensou, mas sem sinceridade, porque não estava convencido disso. — Já não acho mais graça nessas coisas... Decerto estou criando juízo.
Voltou para o hotel, decidido a embarcar para Santa Fé na manhã seguinte.
21
Mal saltou do trem na estação, Chiru Mena precipitou-se para ele e, antes de abraçá-lo, exclamou:
— A cidade foi invadida pelos baianos!
Contou que um batalhão da Polícia Militar da Bahia, que o governo federal mandara ao Rio Grande para perseguir as forças revolucionárias, estava aquartelado provisoriamente na cidade.
— E que mal há nisso, homem?
— Andam por toda a parte, tomaram conta de tudo. Pra onde a gente se vira avista um baiano. É mesmo que praga de gafanhoto.
Rodrigo deu uma palmada nas costas do amigo:
— Deixa de exagero, Chiru. Onde está o teu cavalheirismo? E a tradicional hospitalidade gaúcha? Temos de tratar bem esses nossos patrícios.
— Mas é uma verdadeira ocupação!
As opiniões na cidade estavam divididas com relação aos visitantes. Havia os que eram a favor, os que eram contra e os indiferentes. Os bairristas não gostavam do ar que tomavam os oficiais e os praças do batalhão forasteiro quando andavam pelas ruas, cafés e lojas, falando alto, rindo, gesticulando e brincando, assim com o ar — dizia o Cuca Lopes — “de quem está fazendo pouco na gente da terra”. Um dos Spielvogel, presidente da Associação Comercial, achava que a presença do batalhão ia animar o comércio — “Os senhores já calcularam a quanto monta o soldo de toda essa gente? E já pensaram que boa parte desse dinheiro vai ficar na nossa comuna?”. Era, portanto, favorável à ideia de dar um tratamento amistoso aos forasteiros.
Num daqueles domingos, a banda de música do batalhão deu uma retreta na praça da Matriz, debaixo da figueira, pois o coreto não era suficientemente grande para conter todos os seus músicos. A praça formigava de gente, as calçadas transbordavam, muitos tinham de caminhar pelo meio da rua. Os bancos estavam todos tomados e havia até gente sentada na relva dos canteiros. Nas casas em derredor viam-se espectadores, principalmente senhoras, debruçados em todas as janelas. Uma multidão de curiosos cercava a banda. Os músicos ostentavam o seu uniforme escuro de gala, com botões dourados: e o carmesim da fita do quepe, da gola da túnica e do debrum das calças constituíam notas atraentes para aquele povo acostumado à monotonia do uniforme cáqui da banda militar local. Tudo aquilo era novidade. “Até o bombo é diferente!”, proclamou um entusiasta.
O largo se encheu de melodias alegres que — na opinião de Edu — o eco “arremedava” atrás da igreja. Os santa-fezenses ouviram pela primeira vez frevos pernambucanos e uma quantidade de cateretês e sambas até então desconhecidos deles. Quanto aos dobrados — ah! —, “chega me correr um frio na espinha”, disse um filho da terra. Quando a banda tocava marchinhas ou sambas, as moças e rapazes que caminhavam pelas calçadas chegavam quase a dançar. Gente havia, porém, que ou não gostava do espetáculo ou, se gostava, era só por dentro, pois permanecia séria, silenciosa, olhando tudo com um olho meio arisco. Fosse como fosse, os santa-fezenses aplaudiam os músicos, ao fim de cada peça, coisa que só estavam habituados a fazer quando a banda local executava trechos líricos ou o Hino Nacional.
D. Vanja assistiu à retreta da janela do Sobrado. Estava encantada como uma criança diante dum carrossel.
— Não é mesmo um portento? — exclamou, voltando-se para dentro da casa com um brilho juvenil nos olhos. — Olhem só os uniformes. Os músicos parecem príncipes de opereta!
Maria Valéria, que, como Flora, se abstinha de aparecer à janela, pois estavam ambas ainda de luto, retrucou:
— Mas se essa baianada continua na terra, dentro de pouco tempo não nos sobra nenhuma cozinheira, nenhuma criada de dentro... A Leocádia arranjou um anspeçada mais preto que ela.
As donas de casa queixavam-se de que suas chinocas, mulatas e “crioulas” viviam de “pito aceso”, não faziam mais nada direito, só pensando na hora de saírem para a rua de braços dados com seus baianos, ou de ficarem “de agarramentos” com eles nos portões ou cantos escuros.
As mães redobravam inquietas a vigilância das filhas solteiras. Se os soldados buscavam as criadinhas ou espalhavam-se pelos bordéis do Barro Preto, do Purgatório e da Sibéria, os sargentos preferiam as mocinhas das chamadas “ruas de trás”, enquanto os oficiais superiores voltavam suas atenções e pretensões para as senhoritas das melhores famílias, que moravam nas ruas centrais.
Na primeira semana um coronel tratou casamento com uma solteirona considerada irrecuperável. A Gioconda fisgou um major, que já lhe frequentava a casa, provocando falatórios, pois murmurava-se que o homem era casado em Salvador e pai de cinco filhos. Naqueles primeiros dias depois da chegada do batalhão o comandante da Guarnição Federal e o intendente municipal tiveram de enfrentar sérios problemas. Havia já uma rivalidade surda entre os praças do Exército e os do corpo auxiliar da Brigada Militar. Agora a soldadesca da Bahia, muitas vezes inadvertidamente, provocava conflitos com uns e outros. As noites eram muitas vezes pontilhadas de tiros, e no dia seguinte notícias corriam pela cidade, como sempre exageradas.
— Mataram um provisório no Barro Preto.
— Deram uma sova num baiano, na casa duma china.
— Lastimaram um civil no beco do Poço.
— Houve um tiroteio num baile do Purgatório: mataram um cabo do Exército e feriram um sargento da polícia baiana.
Os conflitos, porém, foram diminuindo, à medida que a vigilância das patrulhas do Exército aumentava e os baianos se impunham à simpatia dos nativos. Eram extrovertidos, tinham uma fala cantada e doce, uns ares afetuosos.
Muitos santa-fezenses entregaram-se por completo aos visitantes, convidando-os às suas casas. Os mais casmurros e bairristas, porém, resistiam, dizendo: “Ninguém sabe quem são”.
Para surpresa de Rodrigo, Chiru revelou pruridos racistas:
— Como é que eu vou levar esses negros pra dentro da minha casa, para o seio da minha família?
— Deixa de besteira — replicou Rodrigo. — Antes de mais nada, família não tem seio. Depois, cretino, que mal faz uma pessoa ter um pouco de sangue negro? Além disso, existem nesse batalhão dezenas de sujeitos mais brancos que tu!
— É uma pena — suspirou Neco Rosa, cínico — que a Bahia não nos tenha mandado uma boa partida de mulatas...
Mas a cause célèbre da época foi a questão dos oficiais do batalhão baiano com o Clube Comercial. Houve uma semana em que a pergunta mais ouvida na cidade era esta: “Como é o negócio, Fulano? Devemos ou não devemos deixar os baianos entrarem no Comercial?”. A diretoria do clube reuniu-se e, de portas fechadas, discutiu o assunto durante quase duas horas, decidindo-se pela negativa. “Que ao menos este reduto da nossa sociedade resista!”, bravateou o secretário.
Um dia o batalhão desfilou pelas ruas centrais de Santa Fé no seu uniforme de gala. A banda de música tocava dobrados marciais, rodeada e seguida por um bando de moleques descalços, que procuravam acompanhar o passo dos soldados. Quando a banda cessava de tocar, rufavam os tambores, soavam as cornetas. Mulheres debruçavam-se nas janelas, corriam para as portas e portões, avançavam até o meio-fio da calçada. E ao sol daquele dia de fins de verão, refulgiam os instrumentos metálicos da banda, os botões dos dólmãs, as espadas e as baionetas. E era bonito — todos concordavam — ver e ouvir centenas de pés com polainas brancas batendo cadenciadamente nas velhas pedras do calçamento da rua do Comércio.
Quica Ventura, que presenciava o desfile, apertando o cigarro entre os dentes, murmurou:
— Têm todos cara de bandido.
Ao que Liroca, que estava perto, replicou:
— Qual nada! É uma rapaziada linda. E depois, Quica, são nossos patrícios, nossos irmãos.
Como única resposta o outro cuspiu na calçada. Mas teve de tirar o chapéu imediatamente, pois naquele momento passava o pavilhão nacional no ombro do ten. Antiógenes Coutinho. Era um jovem alto, de pele “cor de jambo” (segundo dizia a Mariquinhas Matos, que jamais vira um jambo em toda a sua vida). O que mais impressionava naquele oficial de vinte e seis anos, além do contraste entre os olhos verdes e a face tostada, era a voz mole e doce como mingau de baunilha. Era uma voz cariciosa, que logo sugeria intimidades. De toda a oficialidade do batalhão baiano, era o ten. Antiógenes o mais popular entre as moças de Santa Fé, muitas das quais o convidavam para reuniões e bailarecos. E, como algumas delas parecessem apaixonadas pelo garboso porta-bandeira, era nele que se concentrava a malquerença e a má vontade dos rapazes que, segundo a classificação do cronista social d’A Voz, constituíam a jeunesse dorée de Santa Fé.
O ten. Antiógenes usava uniformes muito bem cortados, que lhe modelavam o torso atlético. Caminhava sempre teso, o peito inflado. Quando era apresentado a alguma dama, inclinava-se de leve, fazia uma continência e batia os calcanhares. Quando, porém, estava dentro de casa, numa festa, relaxava a postura militar, como que se humanizava, ficava logo íntimo da família, derramando sobre todos — mulheres, homens e crianças — o melaço de seu encanto.
As prostitutas locais andavam também loucas por ele, e o jovem tenente jamais as decepcionava. Depois das reuniões familiares, em que passava as horas sob o olhar vigilante e inapelável das mamães e titias, metia-se nas pensões de mulheres em busca de outra espécie de diversão.
Uma noite na Pensão Veneza tirou a china dum capitão do corpo provisório. O homem virou bicho, quis dar-lhe um tiro mas foi agarrado a tempo. Chiru Mena, que se encontrava no bordel na hora do incidente, conseguiu tirar o rapaz de lá e levá-lo para o hotel. Ao despedir-se, recomendou: “Daqui por diante, olho vivo, tenente. O capitão é vingativo”. Tinha ouvido o homem gritar: “Vou mandar dar uma sumanta nesse mulato cafajeste”.
Uma noite em que o ten. Antiógenes deixava a casa duma de suas namoradas, na rua das Missões, dois indivíduos vestidos à paisana se lhe aproximaram pelas costas e atiraram-se em cima dele, de rabo-de-tatu em punho. O oficial recuou contra a parede e chegou a arrancar o revólver do coldre. Recebeu, porém, uma pancada tão forte no pulso, que deixou cair a arma. Depois, o mais que pôde fazer foi proteger a cabeça com ambas as mãos e pedir socorro.
No dia seguinte Rodrigo contou a seguinte história aos amigos:
— Pois vejam como são as coisas... Eu saía do clube, depois dum poquerzinho, com uns amigos, e de repente, não sei por que cargas-d’água, resolvi entrar na rua das Missões, em vez de seguir pela do Comércio... Foi então que vi a cena: dois paisanos surrando um tenente da polícia baiana... Tirei o revólver, corri para o grupo e gritei: “Parem, bandidos!”. Um dos atacantes se virou para mim. Não tive dúvida: prendi-lhe fogo. Pei! O homem virou as costas e disparou... O companheiro fez menção de tirar o revólver e eu atirei de novo, dessa vez em cima dos pés dele. Foi um deus nos acuda. Os bandidos se despencaram rua abaixo, que nem veados. O tenente veio pra mim de braços abertos e só faltou me beijar.
Desde aquela noite o ten. Antiógenes passou a frequentar o Sobrado. Estava reconhecido a Rodrigo. Levava presentes para seu “salvador”, para Flora e para as crianças. Um dia entrou na cozinha e, sob o olhar crítico da Maria Valéria, ensinou à Laurinda como fazer vatapá. De quando em quando, sem motivo aparente, abraçava o dono da casa, que ficava um pouco constrangido ante a beleza quase feminina do oficial.
Ainda naquele mês de março, um sócio benemérito do Clube Comercial resumiu para um amigo as vantagens que o Batalhão da Polícia baiana havia trazido para Santa Fé. As retretas continuavam, generosas e alegres, divertindo e ilustrando o povo. O comércio local, tanto o alto como o baixo, vendia como nunca. As mais conhecidas solteironas da cidade haviam contratado casamento com majores e tenentes-coronéis de meia-idade. Além disso os oficiais baianos revelavam um comportamento exemplar. Por que não convidá-los a frequentar o clube?
De novo reuniu-se em sessão especial a diretoria do Comercial, para reexaminar o caso. Dessa vez Rodrigo compareceu ao debate e fez-se advogado dos forasteiros. Como a decisão final da diretoria tivesse sido outra vez negativa, saiu furioso do clube, resolvido a fazer alguma coisa para desagravar os baianos.
Deu no Sobrado uma festa — a primeira depois da morte da filha — e convidou todos os oficiais do batalhão visitante. Serviu-lhes champanha e deu-lhes de comer os quitutes de Laurinda. Ergueu a taça num brinde à Bahia, “berço glorioso da nacionalidade, terra do grande Rui Barbosa”. Um dos baianos, um coronel gordo e calvo, respondeu com um discurso torrencial e interminável.
Flora só apareceu na sala no princípio da festa para cumprimentar os convidados. Retirou-se depois para a cozinha, de onde ficou dirigindo as negras que serviam croquetes, pastéis, empadas, sanduíches e doces. Maria Valéria a intervalos vinha espiar os “estrangeiros” pela fresta duma porta.
Quando, depois da meia-noite, os convivas se retiraram, a velha se acercou de Rodrigo e disse:
— Se seu pai fosse vivo, não ia ficar nada alegre vendo tanto militar junto na casa dele.
— Ora, titia! Também não morro de amores pela farda. Mas o caso agora é diferente. Eu precisava fazer alguma coisa para salvar o bom nome de Santa Fé e do Rio Grande, e para dar uma lição de cavalheirismo àquelas beatas da diretoria do Comercial.
Em princípios de abril o batalhão partiu. Desfilou pelas ruas no seu uniforme de campanha, ao som dum dobrado triste. Ao vê-lo passar, muitas mulheres tinham lágrimas nos olhos. A plataforma da estação estava atestada de gente. Ergueram-se vivas ao Brasil, ao Rio Grande e à Bahia. Um jovem santa-fezense fez um discurso. O coronel gordo respondeu, falou demais e atrasou o trem um quarto de hora. Quando o comboio se pôs em movimento, a banda tocava uma valsa lenta, “dessas de rasgar o coração”, como disse mais tarde uma costureirinha que ficara noiva dum sargento natural de Feira de Santana. A locomotiva apitou e até o apito pareceu um lamento de despedida.
Naquele dia e nos que se seguiram, a cidade a muitos pareceu vazia. Os irônicos diziam: “Por que o intendente não decreta luto municipal por três dias?”. Os maldizentes proclamavam que como resultado da “ocupação baiana” houvera em Santa Fé dois casamentos legais, três por contrato, oito noivados, cinco defloramentos — isso para não falar no grande número de criadinhas que haviam ficado grávidas. “Viva o Brasil!”, bradou um gaiato, ao ouvir essas estatísticas.
Na noite do dia da partida dos baianos, a Gioconda sentou-se ao piano e tocou com muito sentimento noturnos de Chopin. No Sobrado, Maria Valéria fez uma observação que deixou Rodrigo pensativo: “Vacê não acha que nas espingardas desses baianos já pode estar a bala que vai lastimar o Bio?”.
22
Uma tarde, em meados de abril, entraram pelo portão do Sobrado, carregadas por caboclos descalços e suarentos, três caixas de madeira com o nome de Rodrigo pintado nas tampas. Flora não sabia do que se tratava, mas desconfiava que fosse mais uma das “encomendas” do marido.
— Deixem os volumes no quintal, perto do porão — instruiu ela aos carregadores.
Maria Valéria franziu o nariz fisicamente ao sentir o bodum dos caboclos, e psicologicamente ao ver as caixas, nas quais farejava mais uma “loucura” do sobrinho.
— Que negócio é esse? — perguntou.
— Ora, Dinda, são uns vinhos franceses e alemães, uns queijos, umas conservas...
— Ainda que mal pergunte, vacê vai se estabelecer com casa de negócio?
Ele sorriu mas nada disse. Gritou pelo Bento, que lavava o Ford no fundo do quintal, e ordenou-lhe abrisse as caixas com a maior cautela. O factótum obedeceu.
Rodrigo segurava as garrafas que Bento lhe entregava, tirava-as com um cuidado carinhoso de dentro de seus invólucros de palha, erguia-as no ar contra a luz, os olhos cintilantes. Eram vinhos brancos e tintos — topázio e rubi! Ia enfileirando as garrafas no chão, contra a parede da casa. Pegou uma delas e leu o rótulo em voz alta: Liebfraumilch!
Bento abriu a caixa que continha os queijos e as conservas. Rodrigo acocorou-se junto dela, remexeu a palha com mãos sôfregas, e foi tirando as latas — patê de foie gras, sardinhas, anchovas, atum —, estralando a língua, cheirando os queijos...
Alçou os olhos para o céu de outono — um polvilho azul remoto e sereno. Pairava no ar uma leve bruma que o sol dourava. Pela cidade as paineiras rebentavam em flores. E Flora — concluiu ele —, Flora ressuscitava, seu rosto ganhava cores, suas carnes se faziam de novo apetitosas. A vida era boa. Deus era generoso. E ali estavam aqueles vinhos — rubi e topázio!
Convidou amigos para virem aquela noite ao Sobrado “beber o leite da mulher amada e comer uns queijinhos”.
Além da velha guarda, apareceram Stein, Bandeira e Carbone. Rodrigo levou-os para o escritório, a peça da casa mais apropriada para “assuntos de homem”.
Chiru examinou uma garrafa de vinho branco e, olhando antes para os lados, para se certificar de que não havia nenhuma dama presente, murmurou:
— Olha, Rodrigo, leite de mulher, amada ou não, eu bebo nos peitos mesmo, e não em garrafa.
— Sai, bagualão! — repeliu-o o dono da casa. — Sei que vais preferir cerveja. Tu e o Neco são uns bárbaros. Agora aqui o nosso doutor Carbone, esse sabe apreciar o que é bom.
O italiano sorriu, seus lábios dum vermelho úmido apareceram sob os bigodes castanhos. Encostou os dedos na boca, colheu nela um beijo sonoro e depois atirou-o no ar com o gesto de quem solta um pássaro.
— E tu, Bandeira? — perguntou o anfitrião, ao servir o vinho em longos copos de forma cônica.
— Que venha esse leite — murmurou Tio Bicho, acomodado na sua poltrona, a papada a esconder a borboleta da gravata, as faces já coradas pelo vinho que tomara ao jantar.
Rodrigo voltou-se para Stein:
— Que cara é essa, rapaz?
— Decerto está preocupado com o destino do camarada Trótski — explicou Bandeira, com um sorriso provocador. — A encrenca está armada na União Soviética, Papai Lênin morreu e agora os filhos disputam o direito de primogenitura. O Arão esperava que Trótski fosse eleito secretário-geral do Partido, mas Stálin passou-lhe a perna...
Stein segurou o copo que lhe ofereciam, olhou para Tio Bicho e disse:
— Eles sabem o que fazem.
O outro tomou um gole de vinho, degustou-o e deixou escapar um suspiro de puro prazer.
— Estão vendo? — disse. — Isso sim é disciplina partidária. Quando Lênin estava vivo, o Arão achava que não havia outro para substituí-lo senão Trótski, a maior cabeça do Partido, o melhor organizador, et cetera, et cetera, et cetera. Agora engole e trata de digerir caladinho esse tal de Stálin. E se amanhã deportarem ou fuzilarem Trótski, o nosso comunista aqui não soltará o menor pio.
— Não se trata de pessoas mas de princípios — replicou o judeu.
E, desconversando, perguntou ao dono da casa se havia lido as últimas notícias sobre as atividades de Abd El-Krim no Marrocos francês.
Rodrigo, que andava de conviva em conviva, oferecendo fatias de queijo, respondeu que não. Liroca, que até então estivera a um canto, conversando com Neco, aproximou-se do marxista e disse:
— Pouco me interessa esse turco.
— Árabe — corrigiu-o Stein.
— É a mesma coisa. Mas... eu estava dizendo ao Neco... É o mais belo feito militar da história do Brasil. Maior que a retirada da Laguna ou que a batalha de Tuiuti! Só comparável às proezas de Aníbal, César e Napoleão.
Referia-se — explicou — à marcha da Coluna Revolucionária de Prestes, de São Luís das Missões até Foz do Iguaçu, onde finalmente se havia reunido à Divisão de São Paulo.
— De acordo! — exclamou Rodrigo, abraçando o amigo. — Vocês já imaginaram o que é vencer duzentas léguas de sertão, vejam bem, duzentas léguas de terreno acidentado, abrindo picadas pelo mato a machado e a facão, atravessando rios, escalando montanhas... lanhados, esfarrapados, sangrando, mas marchando sempre?
— E perseguidos por quatro mil soldados do governo! — acrescentou José Lírio.
— Sim, brigando todo o tempo... — Num repentino assomo de emoção cívica, Rodrigo fez uma frase: — Marcando seu itinerário glorioso com as sepulturas dos companheiros que tombavam no caminho.
Liroca sacudia a cabeça num grave assentimento.
— Muita gente boa foi ficando para trás — continuou Rodrigo —, companheiros de Prestes da primeira hora, tanto civis como militares... Aníbal Benévolo morreu no ataque ao Itaqui... Mário Portela, outro bravo, tombou na travessia do Pardo...
Ergueu o cálice e exclamou:
— A Luiz Carlos Prestes e aos seus heróis!
Neco, Chiru e Liroca levantaram imediatamente seus copos. Roque Bandeira acompanhou-os, após breve hesitação, mas sem muito entusiasmo. Arão Stein, que se havia sentado, permaneceu de cabeça baixa.
— E tu? — interpelou-o Rodrigo. — Não nos acompanhas no brinde?
Stein sacudiu a cabeça, murmurando:
— Não seria sincero. Não tenho entusiasmo por essa revolução...
— Não digas uma barbaridade dessas!
Todos, menos o judeu, tomaram um largo trago. Liroca lançou para o rapaz um olhar torvo, como se estivesse diante dum caso teratológico.
— Que é que o senhor tem na cabeça? — perguntou. — Miolos ou bosta de vaca?
Chiru e Neco avançaram também sobre o anti-Prestes. Parecia que o Sobrado ia ser teatro duma cena de linchamento. Tio Bicho continuava sentado, a bebericar o seu Liebfraumilch. Os outros falavam ao mesmo tempo, querendo convencer o “renegado” de que aquela era a mais bela, a mais nobre, a mais justa de todas as revoluções.
Carbone, que havia alguns minutos deixara o escritório para ir conversar na sala de visitas com le belle donne, voltou e quis saber de que se tratava.
— É um pogrom — explicou Roque Bandeira. Depois, erguendo a voz, pediu: — Deixem o homem explicar seu ponto de vista!
* * *
Quando os outros se aquietaram, Stein falou.
— Para principiar — disse —, quero fazer uma pergunta. Contra quem é essa revolução do Isidoro e do Prestes?
— Ora — respondeu Chiru —, contra o Bernardes.
— Quer dizer que, se o presidente da República morresse de repente dum colapso cardíaco ou duma indigestão, os revolucionários poderiam depor as armas tranquilamente?
Rodrigo interveio:
— Está claro que não. O Bernardes simboliza um estado de coisas. Esse movimento revolucionário é um protesto contra a autoridade atrabiliária do homem que representa uma camorra política que quer perpetuar-se no poder. Numa palavra, essa revolução visa derrubar as oligarquias que nos infelicitam!
Stein coçou a cabeça, uma mecha fulva caiu-lhe sobre os olhos.
— Está bem, está bem — disse. — Esses tenentes querem dar à sua quartelada um caráter antioligárquico. Magnífico! É uma causa simpática, sem a menor dúvida. Mas acontece que esse objetivo não chega às raízes de nossos males. Sem uma mudança básica em toda a nossa estrutura econômica e social, jamais resolveremos os nossos problemas.
Rodrigo lançou-lhe um olhar enviesado:
— Não me venhas de Karl Marx em punho, que não te recebo.
Stein sorriu amarelo, e por alguns instantes deu a impressão de que considerava encerrada a discussão.
De novo se encheram os copos. Carbone pediu um brinde especial ao maj. Toríbio Cambará. Rodrigo ficou comovido. A ideia de que o irmão estava entre os bravos daquela marcha épica enchia-o dum orgulho embriagador. (Ou seria também efeito do vinho?) Um calor agradável subia-lhe ao rosto, animava-lhe a palavra, tornando-o duma cordialidade derramada. Aproximou-se de Stein, acariciou-lhe a cabeça e disse:
— Bebe, menino. A vida é curta.
O outro, porém, não parecia participar daquele espírito leviano e esportivo. Pôs-se de pé.
— Por favor — suplicou —, tratem de me compreender. Não sou nenhum espírito de contradição. Nenhum fanático. — Bateu na testa. — Tenho cabeça, tenho miolos, logo: penso.
— Esse é o teu mal — sorriu Bandeira. — Usas demais a cabeça e de menos o resto do corpo.
O dono da casa desatou a rir:
— Muito bem, Roque! Puseste o dedo no dodói dele. O que falta ao Stein é amor. Vamos arranjar-lhe mulher.
O rapaz arregaçou os lábios num sorriso que mais parecia um ricto canino. Chiru e Neco conversavam a um canto animadamente, e Carbone voltara à companhia das damas.
Alguns minutos depois Rodrigo tornou a interpelar Stein.
— Qual é a solução que ofereces para o problema nacional? Fala, hebreu!
— Não sou tão ingênuo ou tão vaidoso a ponto de pensar que tenha no bolso um remédio rápido, fácil e infalível para nossos males. Mas de algumas coisas tenho certeza absoluta. Escutem. O povo, com sua misteriosa sabedoria, seu instinto divinatório, já sentiu que essa não é a sua revolução e por isso permanece apático diante dela. Por outro lado, os revolucionários, cegos aos fatores econômicos que dão forma e rumo à nossa vida política e social, investem romanticamente contra a sua Bastilha, em nome dum vago programa de “regeneração nacional”. Seu lema de “Abaixo as oligarquias!” tem um caráter de improvisação demagógica. Em suma, trata-se ainda duma revolução burguesa, cuja vitória pouco ou nenhum bem traria para nossas massas rurais e urbanas e para nosso incipiente proletariado.
Liroca desenrolou e tornou a enrolar o cigarro apagado e, olhando de viés para o judeu, perguntou:
— Moço, onde é que o senhor aprende essas coisas?
Tio Bicho apressou-se a explicar:
— Ele lê isso nos livros russos e alemães que recebe em traduções espanholas. Anda tão empapado de castelhanismos que não usa mais a palavra camponês, e sim campesino.
Stein voltou-se para o amigo e reagiu:
— Para ti tudo é uma questão de palavras. Para mim pouco importa que chamemos ao homem do campo camponês, campesino ou campônio. O essencial é libertá-lo da miséria, da doença, do analfabetismo e da fome. Isso sim é importante.
Quando uma hora depois Stein despediu-se do dono da casa, este lhe tomou afetuosamente do braço:
— Podes dizer o que quiseres, citar os autores que te vierem à cachola, mas uma coisa não poderás negar: a beleza dessa marcha, a grandeza desses homens. Se tudo se reduz a uma pura necessidade econômica, como vocês marxistas afirmam, como se explica a dedicação e o sacrifício desses revolucionários que não têm terras ou fábricas a defender, e que de seu hoje não possuem mais que a roupa do corpo, o cavalo e as armas? Não, meu caro Stein, existe algo mais que o fator estômago e o interesse de lucro. Nossos homens são capazes de lutar desinteressadamente por um ideal, por um amigo, pela cor dum lenço, por... por... pelo seu penacho! Em 23 muito provisório recrutado a maneador na hora do combate brigou como leão. Por quê? Por causa de fatores econômicos? Por causa da plus-valia ou da ditadura do proletariado? Não! No fundo, o verdadeiro partido dum homem é seu amor-próprio, o seu orgulho de macho.
Stein nada disse. Limitou-se a sorrir e a estender a mão para o amigo, dizendo:
— Boa noite, doutor. Me desculpe se falei demais.
Rodrigo estreitou-o contra o peito.
— Qual nada, Arão! Tu sabes que te quero bem. Nesta casa podes falar à vontade. Também já vais, Roque? Boa noite, meu velho. Cuidado com a escada. Liroca, bota o capote, que a noite está meio fria. Chiru e Neco, vocês fiquem. Não é um pedido: é uma ordem do major Rodrigo. — Baixou a voz, olhou na direção da sala, de onde vinham as vozes das mulheres, e acrescentou: — Estou pensando num programa... Me contaram que chegou uma uruguaia macanuda pra Pensão Veneza...
23
Nos últimos dias de julho daquele ano, Rodrigo recebeu uma carta de Terêncio Prates, datada de Paris.
Prezado Amigo:
Faz muito que ando pensando em escrever-te, mas fui deixando a carta para depois, por
uma razão ou outra. Seja como for, aqui estou para uma prosa. Há tanta coisa a dizer,
que nem sei por onde começar.
Meu curso vai bem e me tem dado o privilégio de estar perto de grandes mestres do
pensamento contemporâneo. Imagina, meu caro, um piá natural do Rincão das Dores,
como eu, a respirar numa sala de conferências o mesmo ar que entra nos pulmões de
homens como Alain e Bergson!
Durante todos estes anos tenho esperado em vão a tua visita. É uma pena que não
tenhas vindo, pois Paris se modifica dia a dia, e já não é, pelo menos na superfície, o
que era antes da Grande Guerra.
De mim sei dizer que estou escandalizado e até meio perturbado pelo que vejo, ouço
e leio. Tu conheces mais ou menos minhas ideias em matéria de política e moral.
Apesar de ter formado meu espírito dentro deste século XX, considero-me um homem
do século passado. Fui educado segundo um conceito de vida individualista. Embora não
me encante nem convença tudo quanto vem do Grande Século — pois sempre achei
detestável seu cientificismo ateu e orgulhoso — participo de sua crença no Progresso e
na evolução lenta porém segura e inspirada das instituições. Mas a verdade, meu caro
amigo, é que estamos presenciando um cataclismo social em toda a Europa, quiçá no
mundo inteiro. E Paris, como cérebro e coração da civilização ocidental, não podia deixar
de estar no epicentro do terremoto. Os valores da sociedade estável do século XIX
caem por terra. A Guerra abalou e revolveu tudo. É o caos. Não há mais Fé, nem Moral,
nem Ética e nem mesmo Estética! O grande conflito armado deu um golpe talvez
mortal na sociedade dentro da qual os homens de nossa geração nasceram, foram
educados, adquiriram seus hábitos e deram forma a seus sonhos. A licenciosidade
impera em todos os setores da vida e do pensamento. As mulheres perdem o pudor,
cantam canções bandalhas, dançam danças lúbricas, desnudam-se em público, fumam,
bebem, sim senhor, embriagam-se como homens. Encontra-se em Paris, fazendo um
sucesso delirante, uma mulata norte-americana que se exibe num destes cabarés
completamente nua, apenas com uma tanga de bananas! É o fim do mundo, Rodrigo.
Uma geração como a nossa, que se alimentou de Schubert, Schumann, Beethoven,
Chopin e outros grandes da música universal tem de aguentar agora essa “coisa”
cacofônica, barulhenta e negroide que é “jazz-band” (não sei se é assim que se escreve)
e que Paris teve o mau gosto e a infelicidade de importar dos Estados Unidos.
A mocidade parece ter tomado o freio nos dentes e saído a apedrejar homens e
instituições, a rasgar e espezinhar velhas bandeiras tradicionais, quebrar as vidraças
das academias. (Está claro que falo no sentido figurado...) Esses moços embriagam-se
não só de álcool como também de velocidade. Campeia no mundo a mania da pressa, a
paixão pelo automóvel, pelo avião, pelo telefone sem fio, em suma, por tudo que
represente vertigem e rapidez. E o mais trágico é que não sabem ainda aonde querem
chegar. Está claro que apenas se atordoam. É a “geração das trincheiras” como já
escreveu alguém.
Um dia destes tive a oportunidade de conversar com um jovem francês que fez a
Guerra, onde perdeu a mão esquerda. Disse-me que está revoltado contra a tradição
humanista que não soube preservar a paz do mundo. Odeia, portanto, o academicismo,
o conformismo e a tábua de valores morais de seus maiores. Acha que só “la sincérité,
mais toute la sincérité” pode salvar o mundo, se é que ainda há esperança de salvação.
Considera, por exemplo, Anatole France um farsante, um fariseu, um falso homem de
letras.
Pois é, meu caro amigo, o que se vê agora por aqui é uma literatura pseudomoderna,
que não consigo estimar nem ao menos entender. Os “novos” decretaram a morte de
homens como Victor Hugo, Taine, Renan e tantos outros, para exaltar os Apollinaire, os
Blaise Cendrars e os Cocteau.
E sabes a quem cabe, em boa parte, a culpa de tudo isso? A dois tipos de
mentalidade que estão procurando impor-se no mundo. A da Rússia, com seu
bolchevismo materialista e iconoclasta, e a dos Estados Unidos, com sua irreverência
esportiva e sua arrogância de “nouveau riche”. Os bolchevistas espalham seus agentes
pelo mundo. Os americanos nos mandam esses pretos tocadores de “jazz-band” e
detestáveis fitas de cinema em que essa mentalidade de “après guerre” é exaltada e
embelezada. A Guerra tornou a nação de Wilson uma potência de primeira categoria. A
prosperidade a está perdendo. Só espero, meu amigo, que aqui mesmo na França,
coração e cérebro da latinidade, surja a reação contra todos esses abusos, exageros e
imoralidades. Contra o ateísmo russo e o mercantilismo calvinista dos ianques terá de
erguer-se a força moral e histórica da nossa Igreja.
Rodrigo releu a carta em voz alta na presença de seus amigos, na primeira oportunidade em que os viu reunidos. As reações foram as mais variadas. Terminada a leitura, Neco Rosa perguntou:
— Como é mesmo a história da mulata que dança pelada?
— Que belo espécime de reacionário nos está saindo o doutor Terêncio! — exclamou Tio Bicho.
— Lógico! — apressou-se a dizer Arão Stein. — Com doze léguas de campo povoadas, casas na cidade, apólices no Banco da Província, os Prates só podem desejar a continuação da ordem social vigente.
— E se essa coisa que ele chama de “latinidade” — ajuntou Bandeira — é tão forte, tão boa, tão cheia de cultura e tradição, como pode ser abalada por um bando de negros americanos que batucam em tambores e tocam saxofone? Ou por fitas de celuloide vindas de Hollywood? Ou mesmo por esses tais “agentes do bolchevismo”?...
— O que ele não compreendeu — tornou Stein — é que se o edifício da burguesia começa a desmoronar é porque estava podre e abalado nos alicerces. Naturalmente o doutor Terêncio esperava que o jovem mutilado de guerra continuasse a amar e admirar os que o mandaram para a trincheira, para morrer na defesa dos banqueiros internacionais, dos fabricantes de armamentos e das companhias de petróleo...