O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)
Um certo major Toríbio
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
Tio Bicho sacudiu a cabeçorra:
— Isso é poesia, doutor Rodrigo. Não há quem se engane mais que o povo. Essa história de vox populi, vox Dei é uma peta.
Rodrigo voltou-se para Stein:
— É impossível que neste ponto não concordes comigo, Arão! O povo conhece instintivamente o que é verdadeiro e bom.
A fronte alta e branca do judeu pregueava-se em rugas de preocupação.
— O povo pode enganar-se a curto prazo — disse ele, depois de breve reflexão. — Mas a longo prazo sempre acerta.
— Estás ouvindo? — exclamou Rodrigo, voltando-se para Bandeira, que estava agora escarrapachado no banco. — É isso que eu quero dizer. E o povo já pressentiu que o Prestes é um novo herói que surge. É por isso que lhe deram o cognome de Cavaleiro da Esperança.
— Novo herói? — repetiu Stein. — O senhor quer dizer “novo mito”.
— Não me interessa a palavra. Mito, herói, lenda, seja o que for...
Rodrigo encontrava-se de pé diante do banco em que os dois rapazes estavam sentados. Um sol intenso iluminava a praça, as sombras eram manchas dum azul violáceo sobre o chão cor de sangue de boi.
— O Brasil é um país sem heróis. Esta é a tese do meu artigo. Os que temos estão mortos fisiológica e psicologicamente, vocês compreendem? Na história da humanidade vemos heróis que funcionam e heróis que não funcionam. Como exemplo dos que funcionam, para não sair do continente americano, mencionarei Lincoln, Juarez e Zapata. Há neles uma seiva vital que a morte e o tempo não conseguiram destruir. São citados, queridos e imitados como se ainda estivessem vivos...
Tio Bicho coçava o peito, olhando sempre para Rodrigo com seus olhos empapuçados e sonolentos.
— Agora vejam os nossos heróis — continuou o senhor do Sobrado. — Tiradentes... Não passa dum tema escolar. A monotonia, a falta de colorido dramático de nossos livros didáticos mataram a figura do inconfidente, empanaram o símbolo. Tomem o Duque de Caxias... era um homem austero, um ilustre militar, um estadista, et cetera e tal... Mas como é possível admirar ou amar um herói “fabricado”? Aí está! Nossos heróis são construídos, feitos sob medida, quando o verdadeiro herói tem que brotar espontaneamente do chão nativo, compreendem? Desse solo prodigioso que é a alma do povo... do... da... vocês sabem o que eu quero dizer... Tem de ser a consubstanciação, a personificação dum anseio popular. — Sorriu e perguntou: — Estou já em tom de discurso, não estou? De vez em quando o deputado ressurge dentro de mim.
— Devem ser as energias adquiridas no Angico — observou Bandeira, sorridente.
E Stein, muito sério:
— Num sistema socialista como o da Rússia soviética, o herói não é necessariamente o guerreiro e muito menos o general ou o fazedor de discursos. O herói é não só o homem do povo que morreu pela Causa, como também o que se distingue dia a dia no trabalho das fábricas ou das granjas coletivas.
— Besteira! — replicou Tio Bicho. — Queiram ou não queiram, o herói de vocês comunistas é o Lênin.
— Mas deixemos a Rússia — pediu Rodrigo, erguendo o braço. — Vamos falar de homens e coisas que estão mais perto de nós. Este pobre país desmoralizado estava precisando dum herói. Não podemos continuar falando nas glórias da Guerra do Paraguai. É ridículo. Vivemos numa mediocracia. Temos tido homens de coragem, de caracu, como o Epitácio e o próprio Bernardes, não nego. Mas no Brasil ninguém pode ser herói e ao mesmo tempo inquilino do Palácio do Catete. Faltou a esses dois homens a aura romântica da oposição ou a auréola do martírio...
— Lincoln foi presidente dos Estados Unidos... — lembrou Bandeira.
— Sim, mas Lincoln de certa maneira era da oposição. Opunha-se à escravatura e à secessão. Não te esqueças de que ele foi assassinado. E, que eu saiba, não mandou ninguém para a Clevelândia.
— Há outra coisa que agora me ocorre — aduziu Rodrigo. — Um povo anglo-saxônico como o dos Estados Unidos não podia deixar de ter um ídolo que fosse uma mistura de sábio, pastor protestante e humorista. Já essa castelhanada do resto da América precisa de heróis a cavalo, como Bolívar, San Martín e outros. Creio que é muito difícil encontrar nessas republiquetas hispano-americanas estátuas de heróis que não sejam equestres...
— Conhecem a história do cavalo de Zapata? — perguntou Bandeira. — Contam que quando o caudilho mexicano foi assassinado, seu cavalo branco conseguiu fugir para as montanhas, transformando-se num mito, numa espécie de símbolo imortal da ideia revolucionária.
— Aí está! Cada povo tem o herói que merece. O nosso tem de ser como Prestes, uma mescla de guerreiro e taumaturgo. Um dia um peão do Angico me perguntou: “Doutor, é verdade que esse tal de Prestes fura montanha?”. Ouvi gente do povo dizer que o homenzinho tem o corpo fechado pra bala. Já se contam dele histórias fantásticas e absurdas, mas que dão uma medida de sua popularidade, que dia a dia aumenta...
— E a barba que ele deixou crescer, de certo modo ajuda a lenda... — observou Tio Bicho.
— Mas a coisa não para aí. Se para as massas Prestes oferece, talvez involuntariamente, essa face de taumaturgo (o devorador de distâncias, o furador de montanhas, o homem que está em cinco lugares ao mesmo tempo), para as elites ele apresenta outra face igualmente portentosa: a do homem de coragem e caráter, o matemático, o lógico, o incorruptível.
— E o que comove e impressiona muita gente — diz Bandeira — é o caráter de “causa perdida” que tem a sua revolução.
— Isso! — exclamou Rodrigo. — É o prestígio do martírio. Vocês conhecem página mais bela que essa na nossa história? Uma coluna de mil homens escassos, maltrapilhos e mal armados tenta acordar o gigante adormecido!
— Mas o gigante continua deitado em berço esplêndido... — observou Bandeira.
— Esplêndido? Os soldados da Coluna estão sentindo na própria carne que o berço tem muitos pontos em que não é nada esplêndido: serras e boqueirões e matagais medonhos, zonas em que imperam a seca, o impaludismo, o mal de Chagas, a fome, o banditismo... Prestes é o novo Pedro Álvares Cabral: está descobrindo o Brasil, meninos! Que grande aprendizado para todos esses bravos tenentes que estão com ele: o João Alberto, o Juarez Távora, o Cordeiro de Farias, o Siqueira Campos!... Deus queira que nenhum morra. Porque um dia espero vê-los anistiados e de volta às suas unidades. Poderão ainda fazer muita coisa por este povo desgraçado!
Tio Bicho abafou um bocejo.
— Vai dormir, vagabundo! — exclamou Rodrigo. — Porque eu também vou.
Stein, que ficara todo o tempo calado e pensativo, fez uma observação atrasada.
— Sim, cada povo tem o herói que merece. A Itália só podia ter um herói de ópera.
— Ópera-bufa — acrescentou Bandeira.
— Não me falem no Mussolini! — bradou Rodrigo. — No princípio simpatizei com o gringo, mas desde que esse canalha mandou matar o Matteotti e dissolveu os partidos políticos cortei relações com ele.
Tio Bicho ergueu-se.
— Eu gosto da maneira como o doutor Rodrigo fala no Mussolini — disse —, como se o Duce fosse um chefe político de Palmeira.
— Pois olha, Roque. Se o Mussolini fosse intendente de Palmeira ou Soledade, a esta hora já tinham passado a faca nesse patife. E era bem feito! Até logo. Vou sestear.
E saiu num marche-marche na direção do Sobrado.
29
Aquele — 1926 — foi um ano significativo na vida de Rodrigo Cambará. “O nosso amigo voltou a ser o que era”, observou um dia o velho José Lírio. “E o Sobrado está de novo como nos velhos tempos.” Tinha razão. Não havia quem não considerasse um privilégio entrar no casarão dos Cambarás, privar com seus moradores, beber os vinhos de sua adega e provar os quitutes de sua cozinha. Sempre que um forasteiro de certa importância chegava a Santa Fé, a primeira pergunta que se fazia sobre ele era: “Já foi ao Sobrado?”.
Rodrigo andava eufórico, cheio de belos projetos. Seus artigos apareciam no Correio do Povo. Lia muitos livros, em geral de maneira incompleta, mas apesar disso discutia-os com os amigos, como se tivesse penetrado neles profundamente. Apanhava no ar as coisas que outros diziam e depois, com imaginação e audácia, dava-lhes novas roupagens e usava-as como suas na primeira oportunidade. Roque Bandeira, que observava o amigo com olho terno mas lúcido, costumava dizer em segredo a Stein que Rodrigo possuía a melhor “cultura de oitiva” de que ele tinha notícia. De resto, não seria esse um hábito bem brasileiro? O que havia entre nossos escritores, artistas e políticos — afirmava — não era propriamente cultura, mas um tênue verniz de ilustração. O brasileiro jamais tinha coragem de dizer “não sei”. Em caso de dúvida, respondia com um “depende”, que não só o livrava da necessidade de confessar a própria ignorância como também lhe dava tempo para achar uma saída.
Foi também naquele ano que Rodrigo se sentiu tomado do desejo de realizar grandes coisas. Um dia, da janela da água-furtada do Sobrado, contemplou as ruas e telhados de Santa Fé e murmurou para si mesmo: “Preciso ajudar minha terra e minha gente”. E uma voz apagada dentro dele ciciou, maliciosa: “E a mim mesmo. Mas de que modo? Não se sentia com disposição de entrar na Intendência, subir ao gabinete de Zeca Prates e dizer: ‘Meu amigo, tenho umas ideias sobre o nosso município e quero colaborar contigo’”. Sua intenção podia ser mal interpretada. E, de resto, seria um gesto inútil. Depois de eleito, o irmão de Terêncio caíra na rotina. Murmurava-se — e devia ser verdade — que era manobrado pelo Laco Madruga, como um títere. As finanças municipais viviam num estado crônico de insolvência. Por esse lado, portanto, nada se podia fazer.
Às vezes Rodrigo perguntava-se a si mesmo se o melhor não seria atirar mais longe a lança da ambição, fazendo-a passar as fronteiras do município e do estado. Concluía que a maneira mais eficaz de melhorar Santa Fé era melhorar o Brasil. Pensava então numa deputação federal. Mas por que partido? Sentia-se no ar, sem ligações políticas.
Vinham-lhe então impaciências. A revolução estava perdida. Washington Luís eleito e reconhecido. O país teria provavelmente de aguentar mais quatro anos de estado de sítio, com a imprensa amordaçada, os presídios cheios de prisioneiros políticos e o povo acovardado ou indiferente.
Em princípios de junho daquele ano, Washington Luís visitou Porto Alegre, onde recebeu as homenagens do governo do estado. O trem especial que o levou de volta a São Paulo parou por meia hora na estação de Santa Fé, onde a oficialidade da Guarnição Federal, o intendente municipal e o que A Voz da Serra costumava chamar de “outras pessoas gradas”, esperavam o presidente eleito. A plataforma estava atestada de curiosos. Ouviram-se alguns vivas um pouco frios. Liroca, Neco e Chiru lá estavam no meio da multidão, ostentando provocadoramente seus lenços vermelhos. A banda de música do Regimento de Infantaria tocava dobrados marciais com tamanho vigor, que se tinha a impressão que a coberta de zinco da plataforma ia voar pelos ares daquele tépido meio-dia de fins de outono.
Ladeado pelo intendente e pelo comandante da guarnição, Washington Luís sentou-se no banco traseiro dum automóvel de tolda arriada e foi levado a passear pela cidade em marcha lenta.
Da janela de sua casa, Rodrigo viu-os passar. E, como Zeca Prates lhe tivesse feito um aceno cordial e o comandante da guarnição uma continência, o presidente eleito voltou a cabeça para o Sobrado e tirou solenemente o chapéu. Rodrigo correspondeu efusivamente ao cumprimento. “Simpático, o filho da mãe!” E o auto não havia dobrado ainda a próxima esquina e ele já estava cheio duma alvoroçada esperança. Fosse como fosse, o Brasil ia ter um presidente que era um verdadeiro tipo de gentleman. A pera grisalha, a estatura, a discreta elegância, a postura digna, tudo isso lhe conferia um physique du rôle. Que diabo! Era impossível que um homem civilizado como aquele fosse continuar a política sórdida e despótica de Artur Bernardes. “Abro-lhe um crédito”, decidiu Rodrigo, como se o futuro do próximo quatriênio dependesse exclusivamente de sua benevolência.
30
Aquele inverno o Sobrado entrou numa fase intensamente musical. Rodrigo, que no dizer de Maria Valéria vivia com “o comprador assanhado”, mandou buscar em Porto Alegre uma radiola rca que vira anunciada no Correio do Povo, e instalou-a no escritório. Uma noite, depois de tentativas infrutíferas — descargas, assobios e roncos — para apanhar alguma estação de Montevidéu ou Buenos Aires, perdeu a paciência e decidiu devolver o aparelho. Foi quando Roque Bandeira teve a lembrança de trazer ao Sobrado o Ervino Kunz, curioso em coisas de mecânica e eletricidade, e o primeiro representante em Santa Fé duma nova espécie de gente que se estava formando no mundo: o “radiomaníaco”. O alemãozinho corrigiu a antena, mexeu uns botões e de súbito conseguiu o milagre. Ouviu-se uma voz de homem, clara, grave, cheia, falando espanhol. Pouco depois os acordes dum tango arrastavam-se, gemebundos, na sala.
O rosto de Rodrigo iluminou-se. Mas as reações entre os que o cercavam naquela noite foram as mais diversas. Para as crianças a coisa toda positivamente cheirava a magia. Segundo Chiru, tudo aquilo era apenas “mais uma tramoia dos americanos para tirar o nosso dinheiro”. Liroca olhava o “bicho” com prevenção, vagamente desconfiado — como confessou depois — de que o negócio não passava dum truque, e de que devia haver um disco de gramofone escondido dentro do aparelho.
Rodrigo achava que com a radiola o Sobrado ganhava dimensões novas.
— De tempo e espaço — sorriu Tio Bicho.
— Exatamente. Novas geografias me entram agora pela casa. O Sobrado se universaliza. Há também um progresso dentro do tempo. Antes, vários dias de viagem nos separavam dessas vozes e músicas platinas. Agora apenas segundos. Segundos? Qual!
Explicou aos amigos que eles ali no Sobrado ouviam a música daquela orquestra ao mesmo, ao mesmíssimo tempo que as pessoas que se encontravam no estúdio da broadcasting em Buenos Aires.
— Xô égua! — resmungou o Liroca.
Rodrigo não cessava de mexer nos botões. Lá vinha de novo a estática, os assobios que — como disse o Bandeira — davam a impressão de que demônios alucinados andavam pelo espaço a vaiar a Terra e a humanidade. Mas de súbito, contra o fundo caótico e cacofônico, desenhou-se nítida e cristalina a voz duma soprano.
— A “ária da loucura” — exclamou Rodrigo, excitado.
Olhou orgulhoso para os outros. Depois recostou-se no respaldo da poltrona e cerrou os olhos. Não era maravilhoso — pensou — que no casarão onde outrora sua avó Luzia dedilhara sua cítara estivessem agora ouvindo aquela voz e aquela melodia?
Stein sacudiu a cabeça. Sim, era tudo muito bonito. Santa Fé recebia aquelas expressões do progresso mecânico, mas havia ainda seres humanos que morriam de frio e de fome no Barro Preto, no Purgatório e na Sibéria.
— Todo o mundo sabe — observou Tio Bicho — que o progresso não é uniforme... e que não tem coração.
— Silêncio! — exigiu Rodrigo.
Durante aquele inverno, em que a radiola lhe tornou possível ouvir a temporada lírica do Teatro Colón de Buenos Aires, Rodrigo tornou a descobrir o quanto gostava de ópera. Como podia ter adormecido nele tão completamente aquela paixão?
Deixou de ir ao clube à noite, como fora seu hábito naqueles dois últimos anos. Agora, mal terminava o jantar, acendia um charuto, sentava-se na frente do rádio e ficava tentando captar as vozes e melodias que andavam pelo espaço.
Trazia amigos para casa, acomodava-os no escritório, dava-lhes vinhos e licores e, segundo a expressão de Flora, “queria obrigá-los a gostar de ópera a gritos e sopapos”.
Uma noite, não conseguindo conter a impaciência diante daquela “cantoria”, que não podia entender nem amar, Chiru Mena puxou conversa com Neco Rosa.
— Cala essa boca, animal! — explodiu Rodrigo. — Se não gostas de boa música, vai lá pra cozinha conversar com a negrada.
Chiru saiu, vermelho de indignação e vergonha. (Estavam presentes pessoas com quem não tinha intimidade.) Neco seguiu-o pouco depois. Por fim o velho Liroca também se esgueirou para fora do escritório, na ponta dos pés.
Desapontado, Rodrigo verificou um dia que “a rodinha da ópera” ficara reduzida apenas aos Carbone, que assim mesmo começavam a criar-lhe problemas. Como soubessem de cor a maioria dos trechos líricos, nunca se limitavam a ouvir, mas cantavam junto com os intérpretes. Quando chegava o momento de algum dueto importante, Santuzza e o marido erguiam-se de suas cadeiras e vocalizavam e representavam cenas inteiras.
Na noite em que levaram no Colón La bohème, a ópera favorita de Rodrigo, o sacrilégio chegou ao auge. Quando Mimi e Rodolfo, no palco do teatro municipal portenho, e Carlo e Santuzza, no escritório da casa dos Cambarás, cantavam simultaneamente o apaixonado dueto do final do primeiro ato, Rodrigo não se conteve, apagou bruscamente a radiola e exclamou:
— Me desculpem! Ou vocês ou eles. O Colón ou o Sobrado. As duas coisas ao mesmo tempo é que não pode ser!
Foi também naquele inverno que a voga da “vitrola ortofônica” e do disco tomou conta de Santa Fé. José Kern, que havia pouco abrira a sua Casa Edison, foi o responsável, ou melhor, um dos instrumentos da nova mania. Vendeu dezenas de vitrolas e centenas de discos à maioria dos fazendeiros de Santa Fé, gente que em geral só pagava suas contas uma vez por ano, na época da safra. E, inaugurando na cidade e no interior do município o sistema de vendas a prestações (que o velho Babalo achou imoral), permitiu que funcionários públicos, comerciantes menores e até empregados do comércio pudessem adquirir aquelas máquinas que iam aos poucos lançando no olvido ou no ridículo os gramofones de modelo antigo.
Stein comentou o fenômeno com uma ira de profeta bíblico. Era o cúmulo do absurdo! Pessoas que viviam sem nenhum dos confortos mais elementares da existência, em casas sem água corrente, em que as latrinas ou eram de cubos ou não passavam de fétidas fossas abertas no solo — compravam aqueles aparelhos entre cujos preços e suas rendas havia uma desproporção colossal.
— É assim que vai se fazendo sentir a garra do imperialismo ianque — dizia ele. — São os automóveis, os rádios, a gasolina, os gramofones... Aos poucos vamos nos transformando numa colônia dos Estados Unidos!
Nossa urbe agora vive cheia de música — escreveu o cronista d’A Voz da Serra. — O disco, que havia morrido entre nós, ressuscita.
As vitrolas da Casa Edison atiravam para a rua os dobrados marciais da Sousa’s Band. E a voz de Claudia Muzzio, a morrer tuberculosa no último ato de La traviata, mais de uma vez chegou aos ouvidos indiferentes de muito caboclo que passava na rua a cavalo, pitando o seu crioulo. Mariquinhas Matos ficava em êxtase ouvindo Miguel Fleta cantar o Ay-ay-ay!. O Quica Ventura sentia-se insultado quando ouvia os guinchos, roncos e batidas dum jazz-band. Pensava em reunir gente para empastelar a Casa Edison e dar uma sova no Kern. As meninas do cel. Prates eram loucas pelo Tito Schipa. E muita gente agora cantarolava ou assobiava a “Valencia”, inclusive Rodrigo Cambará, que se tomara de amores pela melodia, que lhe evocava a cálida e luminosa Espanha que ele encontrara e amara nos romances de Blasco Ibáñez. Contava-se que o próprio dr. Carlo Carbone fizera recentemente a ablação do rim dum paciente cantarolando durante toda a operação o Garibaldi pum!.
Nas reuniões do Comercial, agora animadas como nunca, o Jazz Mim tocava as músicas da moda. E jovens pares, sob o olhar escandalizado das comadres — as meninas com as saias pelos joelhos, os rapazes com seus “casaquinhos de pular cerca” e suas calças bocas de sino dançavam furiosamente o charleston.
Rodrigo comprou a maior vitrola que o Kern tinha à venda: uma Credenza de aspecto monumental, em estilo Renascimento. Levou-a para casa com algumas dezenas de discos e duma feita tocou vinte vezes seguidas a “Valencia”; e como a Leocádia continuasse a cantarolar a música na cozinha, com sua voz estrídula, Rodrigo, tomado dum súbito enjoo da melodia, quebrou o disco e atirou os cacos pela janela.
Por uma semana o rádio ficou esquecido no escritório, enquanto o dono da casa e os amigos davam toda atenção à Credenza, que fora entronizada na sala de visitas e que durante horas (“Prestem atenção aos graves... Não é um colosso? Parece que os cantores estão aí dentro”) tocou discos de Chaliapin, Titta Ruffo, Galli-Curci, Tetrazzini...
Tio Bicho um dia confessou seu desamor à ópera.
— És um ignorante — disse Rodrigo. — De que gostas então?
— Ora, de Beethoven, para começar...
Rodrigo foi à Casa Edison e voltou de lá com uma pilha de discos com músicas de Beethoven, e uma noite quase os atirou na cara do Bandeira.
— Toma! Empanturra-te de Beethoven. Eu fico com o bel canto.
Voltou para junto da radiola.
Stein considerava a ópera uma expressão musical da burguesia. De resto achava que a música, como a religião, era uma espécie de ópio.
Maria Valéria olhava para todas aquelas máquinas, danças, músicas e modas com um olho antigo e moralista. Por aqueles dias vieram à tona em Santa Fé alguns fatos escandalosos. Quinota, a única filha solteira do finado cel. Cacique Fagundes, fugira de casa com um homem casado. Um empregado dos Spielvogel dera um desfalque na firma e emigrara para a Argentina. No Barro Preto uma mocinha abandonada pelo homem que a seduzira, prendera fogo nas vestes e morrera queimada.
Contava-se também que no Comercial os rapazes dançavam praticamente grudados aos corpos das moças, fazendo movimentos indecentes. Maria Valéria atribuía todas essas poucas-vergonhas às influências maléficas do gramofone, do rádio e do cinema, às quais Aderbal Quadros, igualmente alarmado ante a dissolução dos costumes, ajuntava as do automóvel, do aeroplano e do futebol.
Foi também em fins daquele triste e frio agosto que chegou a Santa Fé a notícia da morte de Rodolfo Valentino. O clube de suas admiradoras mandou rezar uma missa de sétimo dia em intenção à alma do patrono. A Gioconda saiu da igreja com os olhos vermelhos de tanto chorar. Uma de suas consócias desmaiou na calçada, à frente da Matriz. Alguns rapazes despeitados, que esperavam na rua o fim da cerimônia, romperam numa vaia às “viuvinhas do Vaselina”.
Maria Valéria assistia à cena de uma das janelas do Sobrado, achando tudo aquilo uma pouca-vergonha. E, quando viu d. Vanja sair também da igreja, de mantilha preta na cabeça, a enxugar os olhos com seu lencinho de renda, murmurou: “O desfrute!”. E fechou bruscamente a janela.
31
No dia em que completou quarenta anos, Rodrigo acordou sombrio como o céu daquela ventosa manhã de outubro. Recebeu sem entusiasmo os abraços e presentes dos membros de sua família e, durante todo o dia, plantou-se muitas vezes na frente do espelho, a examinar o rosto com um interesse cheio de apreensão.
Quando Flora lhe perguntou se ia convidar os amigos para virem à noite ao Sobrado, respondeu:
— Não convidei ninguém. Não há motivo para festa.
Os amigos, porém, vieram e encheram a casa. O aniversariante a princípio permaneceu calado e de cara amarrada, mas não tardou a entrar num “porre suave” de champanha, que o tornou loquaz e cordial como de costume. Discutiu sociologia e política com Terêncio Prates, que, recém-chegado de Paris, estava cheio de ideias e projetos. E, como Chiru Mena, em dado momento da conversação, manifestasse suas simpatias pela Liga Cívica Rio-Grandense, fundada havia pouco em Porto Alegre, “para fomentar os ideais separatistas”, Rodrigo ergueu um dedo acusador e bradou-lhe na cara:
— O separatismo é um crime de lesa-pátria!
Chiru apelou para o dr. Terêncio. Não achava ele que o Rio Grande sempre fora preterido no cenário político nacional em que a última palavra ficava sempre com o bloco formado por São Paulo e Minas Gerais? Não lhe parecia também que desde o Império se fazia tudo pelo café e pouco ou nada pela pecuária? O charque fora a gaita no século passado, e agora estava ameaçado da mesma sorte. A má vontade do resto do país para com o Rio Grande era tão evidente que, quando se tratava de descobrir o desenho para um escudo do estado, um jornalista “não gaúcho” oferecera uma sugestão maldosa:
Nuvens negras no horizonte,
De cima a baixo um corisco,
O busto de Augusto Comte
E a faca do João Francisco.
— Mas é perfeito! — exclamou Tio Bicho, soltando uma risada.
Terêncio estava sério. Não era homem que brincasse com aqueles assuntos. Rodrigo chegou à conclusão de que o amigo não tinha o menor senso de humor. O estancieiro-sociólogo concordava que o Rio Grande constituía uma cultura à parte do resto do Brasil, mas na sua opinião a ideia separatista oferecia graves inconvenientes e perigos...
Do solene ventre da Credenza saía o vozeirão de Chaliapin, cantando a cena da morte de Dom Quixote. Ali na sala de visitas as mulheres estavam caladas, a escutar aquela voz que parecia doer dentro delas. Lágrimas escorriam pelas faces de boneca de d. Vanja. Sem conseguir esconder a comoção, Flora fungava, levava o lenço ao nariz, assoava-se. Santuzza, essa estava desfeita em pranto. Dom Quixote soluçava: “Ma mère! Ma mère!”. A esposa de Terêncio Prates inclinou a cabeça para a dama que tinha a seu lado, e cochichou: “Ele está chamando a mãe”. “Coitado!”, disse a outra. Os seios da esposa do juiz de comarca arfavam de comoção. Só dois rostos se mantinham impassíveis, os olhos enxutos a fitarem meio agressivos a Credenza: o de Laurentina Quadros e o de Maria Valéria. Se as tristezas e incomodações da vida não conseguiam abatê-las, a troco de que santo haviam de comover-se com aqueles gritos e choros “em estrangeiro” que saíam do gramofone?
Dante Camerino apareceu mais tarde em companhia da noiva, a filha mais velha do Juquinha Macedo, ambos devidamente escoltados por uma tia solteirona da moça. Ninguém ignorava que os Macedos não faziam muito gosto naquele casamento, por causa da origem humilde do médico. “Afinal de contas, comadre, o rapaz foi engraxate, o pai dele é funileiro e, ainda por cima, calabrês... Tudo tem o seu limite, a senhora não acha?”
Fosse como fosse, o contrato de casamento se fizera, e agora ali estavam os noivos a um canto, de mãos dadas, encantados um com o outro. Liroca, que os observava com olho terno, segurou o braço de Rodrigo e murmurou-lhe ao ouvido: “Os rodeios se misturam no Rio Grande. Italiano casa com brasileiro. Alemão, com caboclo. Nas estâncias, nossos bois franqueiros e de chifre duro também estão se cruzando com gado indiano e europeu. Quero só ver no que vai dar tudo isso”.
Rodrigo, porém, não lhe prestou atenção, pois continuava a discutir com os amigos as relações do Rio Grande com o resto do Brasil.
— Há um grande equívoco de nossos patrícios lá de cima com relação a nós, um equívoco que precisamos desfazer duma vez por todas. — Tornou a encher a taça de champanha. — Admiro o Euclides da Cunha e li Os sertões dez vezes — inventou, acreditando na própria mentira. — Mas não posso aceitar o paralelo que ele faz entre o sertanejo e o gaúcho, apresentando-nos como homens da primeira arrancada, que se acovardam quando encontram resistência. O Euclides esqueceu que os farrapos brigaram sozinhos contra o resto do país durante dez anos!
Tio Bicho, que até então permanecera calado, interveio:
— Temos sempre vivido num isolacionismo psicológico com relação ao resto do Brasil, e isso se deve em grande parte a Júlio de Castilhos e à Carta de 14 de Julho.
— Carta essa — completou Rodrigo — que hoje está morta, enterrada e putrefata.
Terêncio brincava com a corrente do relógio, pensativo.
— Pois eu acho — disse — que o Tratado de Pedras Altas foi um erro pelo qual todos nós, republicanos e maragatos, ainda iremos pagar muito caro.
— Não diga isso! — protestou Chiru.
— Castilhos — prosseguiu o estancieiro — foi o único estadista de verdade que este país jamais produziu. Reconhecia a tese do presidencialismo como sistema constitucional, admitia o poder presidencial a coexistir com o legislativo, mas, notem bem, não concedia a este uma só partícula de sua autoridade executiva...
Rodrigo escutava com o ar de quem não dá crédito aos próprios ouvidos.
O outro acrescentou:
— O que o doutor Borges de Medeiros devia ter feito em 23 era renunciar e não permitir que nossa Carta fosse mutilada como foi.
Rodrigo não se conteve:
— Mas meu caro, depois de quase quatro anos de Paris tu ainda me vens com essas ideias retardatárias?!
Terêncio Prates sacudiu lentamente a cabeça:
— Toda a força e todo o prestígio do Rio Grande repousavam no espírito do castilhismo. A reforma da Constituição que vocês assisistas conseguiram (e eu, que sou republicano, reconheço nisso uma grande vitória) vai afrouxar nossa disciplina partidária, vai talvez com o tempo desintegrar o partido que ajudou a fazer e a manter a República.
Rodrigo pousou a mão no ombro do conviva:
— Falas como um velho republicano para quem só existe um partido, um só chefe, um só espírito, um só objetivo.
Liroca olhava enviesado para Terêncio, como se este fosse uma cobra venenosa que de repente se lhe atravessasse no caminho. Rodrigo foi até a sala de visitas e mudou o disco. Quando voltou ao escritório, o sociólogo falava sobre a plataforma de governo de Washington Luís.
— O novo presidente está bem orientado. Em Paris estudou o plano Poincaré. Veio disposto a instituir e levar a cabo uma nova reforma financeira...
— O homem do cavanhaque — interrompeu-o Chiru — declarou que governar é construir estradas. Para o Epitácio era fazer açudes. Para o Bernardes prender gente, amordaçar a imprensa...
Sem tomar conhecimento da interrupção, Terêncio olhou para Rodrigo (pois era evidente que só a ele se dirigia) e disse:
— O plano do doutor Washington é conseguir o equilíbrio orçamentário, cortando as despesas supérfluas, regularizando a dívida externa, consolidando a flutuante, e evitando os abusos de crédito. Ele acha (e nisso tem toda a razão) que a causa do nosso caos financeiro, da nossa fraqueza econômica e da carestia da vida, são as variações bruscas do valor da nossa moeda.
Rodrigo bebeu um gole de champanha, estralou os lábios e perguntou:
— Mas tu acreditas, Terêncio, que podemos fazer essa reforma financeira com o Getulio Vargas no Ministério da Fazenda?
— E por que não?
— Vocês têm a memória muito fraca. Não faz muito, ofereceram ao Getulinho um lugar na Comissão de Finanças da Câmara e ele o recusou, alegando que não entendia patavina do assunto.
Cerca das onze horas, quando o último conviva se retirou, Rodrigo fechou-se no escritório com Neco e Chiru.
— Vamos fazer uma farrinha, hein? Que é que vocês acham?
— Hoje? — estranhou o Chiru.
— Hoje mais que nunca.
— Tu mandas, eu obedeço.
— E tu, Neco?
O barbeiro hesitou.
— E que é que vais dizer a dona Flora?
— Não te preocupes com o que vou dizer à minha mulher. O problema é meu.
— Pois então vamos.
Saíram quando o relógio grande batia as primeiras badaladas da meia-noite. Chuviscava e havia no vento uma qualidade mordente. Rodrigo, que caminhava entre os dois amigos, levantou a gola do impermeável.
— Quarenta anos — murmurou. — Parece mentira. Estou começando a descer pelo outro lado da coxilha.
— Não sejas bobo! — interrompeu-o Chiru. — Agora é que entramos numa idade bonita!
— Aonde é que vamos? Vocês sabem de alguma mulher nova na terra?
— Sugiro a Pensão da Virgínia — disse o barbeiro. — Tem “material” novo lá.
Foram. E aquela noite Rodrigo Cambará teve na sua cama duas raparigas cujas idades, somadas, mal davam a sua.
32
Nos primeiros dias de novembro, foi procurado por um chefe maragato de Palmeira, que entrou no Sobrado com ares de conspirador, pedindo-lhe “um particular”. Foram para o escritório, sentaram-se, o visitante puxou um pigarro e murmurou:
— O “leicenço” vem a furo por estes dias, doutor.
— Que leicenço?
— Ué... Então o coronel Macedo não lhe disse nada? A revolução.
Rodrigo encarou em silêncio o caboclo que ali estava à sua frente, retaco e bigodudo, de bombachas, botas e esporas. De pernas abertas, mais parecia montado que sentado na poltrona.
— O coronel Macedo ainda não voltou da estância...
O maragato passou pelo rosto um lenço encardido. Seus olhos tinham uma expressão acanhada.
— Pois o general Zeca Neto vai invadir o estado pelo sul e o general Leonel Rocha pelo norte... Não sabia?
Foi a custo que Rodrigo reprimiu um palavrão. Uma súbita irritação, uma cálida, formigante impaciência tomou-lhe conta do corpo. Pôs-se a tamborilar com os dedos nos braços da poltrona. Irresponsáveis! Levianos! Estavam com a neurose da revolução. Brincavam com fogo. Que histórias teriam contado a Zeca Neto para que o bravo e digno velho, aos setenta e cinco anos, decidisse abandonar a paz da sua estância para se meter noutra campanha?
— Mas esse movimento está bem articulado? — indagou. — Com que apoio contam os senhores?
— Umas quantas Guarnições Federais vão se revoltar. Eu vim saber se podemos contar com os correligionários de Santa Fé.
Rodrigo ergueu-se com gana de mandar o revolucionário para o inferno.
— Não sou chefe político. Por que não fala com o coronel Amaral?
O visitante mirava-o num silêncio de estupor. O suor escorria-lhe pela face curtida.
— Já falei...
— E que foi que ele disse?
O palmeirense soltou uma risadinha seca.
— Disse que era macaco mui velho, não metia mais a mão em cumbuca.
Rodrigo mirava agora fixamente a fotografia dos Dezoito do Forte, pensando em Toríbio. O caboclo foi sacudido por um acesso de tosse que o deixou afogado, apopléctico, os olhos lacrimejantes.
— Acho que o coronel Amaral tem razão — disse Rodrigo, pondo-se a caminhar dum lado para outro, sem olhar para o interlocutor. — Sou também contra o movimento. Vai ser mais um sacrifício inútil de vidas. Não há clima para revolução. A Coluna Prestes mais dia menos dia se dissolve. Dentro de duas semanas o novo presidente toma posse... Os senhores deviam pelo menos esperar. O homem pode levantar o estado de sítio, conceder a anistia geral... tudo é possível.
O maragato sacudia a cabeça negativamente, ainda afogado, olhando aflito para o chão na vã procura duma escarradeira. Por um instante Rodrigo temeu que o homem escarrasse no soalho.
— O Washington Luís é um preposto do Bernardes — disse por fim o caboclo com voz sumida. — O que ele quer é ver a nossa calaveira.
— E os senhores esperam com essa “invasão” impedir que o presidente seja empossado?
— E se toda a Guarnição Federal do Rio Grande se levantar?
— Admiro o seu otimismo, mas vou lhe ser franco. Não conte comigo.
O outro estava perplexo. Esfregava as coxas lentamente, com as palmas das mãos, como para alisar as bombachas. A cábula dava ao rosto daquele homem de cinquenta e poucos anos uma expressão juvenil. Ficou longo tempo em silêncio, como se tivesse perdido a fala.
Sentindo que estava sendo demasiadamente rude, Rodrigo procurou remediar a situação:
— Toma um mate, coronel?
Quis dar à voz um tom afetuoso, mas não conseguiu. A frase soou dura e áspera, como se tivesse convidado o outro a retirar-se.
— Não, gracias. Tenho que ir andando. Vou cantar noutra freguesia. Me desculpe, doutor...
Apertou a mão do dono da casa e encaminhou-se para a porta da rua, arrastando as esporas e ajeitando no pescoço o lenço encarnado.
Ainda havia tempo de fazer um gesto cordial — refletiu Rodrigo — ou de dizer algumas palavras amáveis de despedida... Não fez o gesto nem encontrou as palavras. Nem sequer acompanhou o outro até a porta. Permaneceu no alto da escada do vestíbulo, incapaz de reprimir ou pelo menos esconder a irritação que o visitante lhe causara. E o fato de estar irritado por uma situação que era menos grave que grotesca exasperava-o ainda mais.
Só depois que voltou para o escritório é que compreendeu por que aquela visita o deixara tão perturbado.
É que o caboclo, sem querer nem saber, lhe evocara os aspectos negativos da campanha de 23: a frustração das marchas e contramarchas, que na maioria das vezes nada mais eram que fugas: a desorganização das colunas, a imprevidência dos comandantes, a indisciplina dos comandados: a sujeira, o desconforto, o desperdício de vidas... Sim, o homem de Palmeira recendia a revolução. Sua presença enchera a sala com um fartum de suor humano muitas vezes dormido, misturado com cheiro de couro curtido, poeira e sarro de cigarro de palha... E esses odores se haviam transformado no espírito de Rodrigo em imagens que ele preferia esquecer. Miguel Ruas agonizante no saguão da Intendência, a morte a passar-lhe no rosto o último pó de arroz... O cadáver de Cantídio, os olhos exorbitados, o peito esmagado...
Rodrigo acendeu um cigarro, sentou-se, soltou uma baforada de fumaça como para esconder a mais terrível de todas as lembranças: seu pai lívido e arquejante, a afogar-se no próprio sangue. De olhos fechados, com uma fúria que lhe vinha do próprio terror, precipitou-se ao encontro do perigo, recordou frio aquela hora, minuciosamente. Tornou a sentir a mornidão do sangue do Velho no próprio peito, viu aqueles olhos que aos poucos se embaciavam, ouviu o pan-pan ritmado do moinho d’água... ruminou, enfim, a angústia daquela hora trágica.
Agora estava tudo claro. Quem na realidade recebera o maragato havia poucos minutos não fora ele, Rodrigo, mas Licurgo Cambará. O Velho falara pela sua boca. Mais ainda: o filho reagira ao convite do revolucionário com as idiossincrasias, os nervos, o corpo do pai. Por um instante pelo menos conseguira ressuscitar um morto.
Dias depois, Chiru entrou no Sobrado como uma ventania.
— A procissão está na rua, menino! — gritou. — O Leonel Rocha já anda tiroteando pras bandas da Vacaria. O velho Zeca Neto entrou por Uruguaiana...
Rodrigo escutou-o sem entusiasmo. Tirou do bolso um charuto, mordeu-lhe a ponta, prendeu-o entre os dentes e ficou a acendê-lo com uma lentidão deliberada.
— Senta, Chiru. Te acalma. Bebe um copo d’água. Tua revolução já morreu na casca.
— Morreu coisa nenhuma! Espera-se um levante na Guarnição Federal de Santa Maria e outro na de São Gabriel.
Minutos depois apareceu o velho Liroca, que se sentou a um canto do escritório e ficou a olhar para Rodrigo com uma ternura canina.
— Sabes quem é o chefe civil do movimento? — perguntou Chiru. — O doutor Assis Brasil. Ele e o general Isidoro estão dirigindo a coisa de Montevidéu.
Rodrigo atirou a cabeça para trás e soltou a fumaça que retivera na boca por alguns segundos.
— Então? — perguntou com um sorriso sardônico — O nosso egrégio chefe está dirigindo a revolução a distância, não? Provavelmente do quarto do melhor hotel de Montevidéu, perfumadinho, barbeadinho, metido num robe de chambre de seda... Pois se é assim, amigo Chiru, não tenhamos dúvida, o movimento está vitorioso.
Chiru estava espantado.
— Homem, que bicho te mordeu?
Nesse momento entrou o Neco Rosa, olhou para o dono da casa e disse, grave:
— Estamos esperando as tuas ordens.
— Não sejam bobos — respondeu Rodrigo. — Não tenho ordens.
De seu canto, Liroca murmurou:
— Sou soldado disciplinado. Se me mandam pegar na espingarda e ir pra coxilha, obedeço.
Rodrigo lançou-lhe um olhar oblíquo e pensou: “Obedeces e depois te borras na hora do combate”. Mas não disse nada. Havia algo de patético naquele velho asmático e frágil, que ainda sonhava com revoluções.
Naquele dia os três amigos retiraram-se juntos do Sobrado: Neco calado e digno, Chiru vermelho e a resmungar queixas, Liroca cabisbaixo, o peito sacudido de suspiros. Rodrigo ficou a acompanhá-los com o olhar, debruçado numa das janelas do casarão, já com a vaga sensação de havê-los abandonado e traído. E se eles estivessem com a razão? — perguntou a si mesmo, vendo-os desaparecer entre as árvores da praça. — E se aquela revolução tivesse estatura para vencer?
Sua dúvida, porém, foi de curta duração. Dias depois, leu nos jornais a notícia de que a coluna de Leonel Rocha tinha sido derrotada num combate em Bom Jesus pelas tropas legalistas e que Zeca Neto e seus homens haviam tornado a transpor a fronteira, internando-se na Argentina. Era o fim.
Esperou a visita dos amigos para lançar-lhes em rosto o clássico “Eu não disse?”. Não teve, porém, oportunidade para isso, pois o Chiru uma tarde embarafustou Sobrado adentro, exclamando:
— Aposto a minha fortuna como o Washington Luís não toma posse!
Fez uma pausa dramática e encarou o amigo, esperando que ele perguntasse por quê, mas como Rodrigo se tivesse limitado a encolher os ombros, sem curiosidade, Chiru despejou a notícia:
— Revoltou-se a Guarnição Federal de Santa Maria, sob o comando de dois tenentes, os irmãos Etchegoyens! Estão combatendo na cidade, pois o Regimento da Brigada Militar não aderiu ao movimento. E há barulho também em São Gabriel. — Segurou com força o braço do amigo. — Tu sabes o que isso significa, na véspera da posse do Cavanhaque?
No dia seguinte verificaram que a coisa significava muito pouco ou nada. O boletim de notícias do rádio comunicava que a posse do presidente da República se processara normalmente, e sob aclamações populares.
33
Na soalheira daquele bochornoso 1o de janeiro de 1927, a própria cidade de Santa Fé — de ruas quase desertas, as casas duma palidez cansada, sob a luz branquicenta da manhã — parecia curtir a ressaca das bebedeiras e comilanças a que boa parte de sua população se havia entregue na noite anterior.
Foi com mal contida irritação que Rodrigo Cambará desceu do quarto com a boca amarga (champanha, caviar e maionese de lagosta) para receber a visita do cel. Afonso Borralho, veterano da Guerra do Paraguai. Como costumava fazer todos os anos, no mesmo dia e à mesmíssima hora, o octogenário vinha ao Sobrado para apresentar aos Cambarás seus votos dum “próspero e feliz Ano-Novo”. Fazia isso desde 1896, com uma pontualidade impecável, como uma espécie de funcionário exemplar do Tempo. Quem sempre o recebia, num misto de reconhecimento e impaciência, era o velho Licurgo. Agora cabia a Rodrigo fazer as honras da casa.
Acolheu o veterano com a amabilidade que seu mal-estar lhe permitia, tomou-lhe do braço, levou-o para a sala de visitas, fê-lo sentar-se.
— O senhor sempre forte e rijo, hein, coronel?
— Qual nada, doutor! Acho que este vai ser o meu último Ano-Novo.
Dizia sempre isso. Tinha uma voz rouca e cava. Barbas dum branco amarelado cobriam-lhe as faces angulosas, duma cor de marfim antigo. A fronte era alta, o nariz em sela, os cabelos, ainda abundantes e duma finura frouxa de retrós. Metido no seu terno de casimira preta, parecia um profeta bíblico vestido por um alfaiate de 1900.
Era o cel. Borralho uma das “relíquias vivas” de Santa Fé, como dizia e repetia a folha local. D. Revocata costumava apresentá-lo aos alunos como um exemplo vivo de patriotismo e dignidade humana. Não se concebia cerimônia cívica sem sua presença. Rodrigo admirava o ancião, mas achava que ele se estava compenetrando demais de sua condição de monumento municipal. Jamais sorria ou pilheriava, dava-se ares de oráculo, e ali estava agora numa postura de estátua.
Enquanto o visitante falava, Rodrigo sentia a cabeça latejar de dor. O calor era tanto, que ele tinha a impressão de que uma boca de fornalha acesa, do tamanho da abóbada celeste, respirava em cima de Santa Fé. O casarão também parecia pulsar sob o olho implacável do sol, como se um sangue grosso e quente corresse surdo por dentro das paredes, fazendo-as inchar.
E aquele homem vestido de casimira — trajo completo, com colete e colarinho duro — a falar, a falar: o tempo, a revolução, a crise da pecuária, velhos amigos mortos...
Eu não aguento! — pensava Rodrigo, lavado em suor, a visão perturbada, nauseadamente consciente como nunca de ter um estômago. Por fim o cel. Borralho se retirou, depois de pronunciar todas as frases de praxe. Rodrigo ficou com a impressão nada animadora de que o veterano era um comissionado que a Morte mandava todos os anos bater à sua porta para cobrar-lhe mais uma prestação de vida. Essa ideia não lhe melhorou em nada o estado de espírito, como a dose de sal de frutas, tomada ao despertar, não lhe resolvera a situação gástrica.
Era tudo uma choldra! Os levantes no estado haviam fracassado. Não se tinha notícia certa do paradeiro da Coluna Prestes. Washington Luís governava sem oposição, recusando-se a conceder anistia geral. E lá estava o Getulinho aboletado no Ministério da Fazenda, como um dos grandes da República. E já se falava dele como sucessor de Borges de Medeiros. Sim senhor! O maroto havia feito sua carreirinha na maciota... “E eu aqui de mãos abanando... E por quê?” Olhou para o próprio retrato, como se sua imagem pintada pudesse responder à pergunta. “Por quê? O Getulio não é mais inteligente nem mais culto que eu. Somos quase da mesma idade. Fomos colegas na Assembleia. São Borja não é mais importante que Santa Fé. Então, como se explica que ele esteja no Rio feito ministro e eu esquecido aqui nesta bosta?”
Pensou no verão que tinha pela frente e atirou-se desanimado numa poltrona, com uma súbita, mas passageira, vontade de morrer.
Só pôde ir para o Angico em princípios de fevereiro. Levou toda a família e fechou o Sobrado. Encontrou Aderbal Quadros como sempre contente da vida e cheio de planos para a estância. Apenas uma preocupação — e Rodrigo riu-se dela — toldava o espírito do velho. Estava apreensivo ante a notícia que lera no último número do Correio do Povo chegado a suas mãos. O hidroavião Atlântico, do Kondor Syndikat, fizera sua primeira viagem de Porto Alegre à cidade do Rio Grande, levando passageiros e cento e sessenta e dois quilos de bagagem. Apesar do forte vento contrário, o percurso durara apenas duas horas e quarenta e cinco minutos. O velho sentia-se afrontado. Era uma imoralidade — disse ele ao genro — um despautério, que aquelas engenhocas de voar, fabricadas no estrangeiro, estivessem cortando e sujando os céus do Rio Grande, que de direito pertenciam às aves e nuvens, isso para não falar no sol, na lua e nas estrelas, que eram de todo o mundo. Aquele progresso — continuou — estava aos poucos mudando a boa vida antiga do gaúcho, pois, assim como as máquinas registradoras haviam trazido a imoralidade para as casas de comércio, o aeroplano, como o automóvel, constituía um insulto ao cavalo, à diligência e à carreta.
— O governo federal já deu licença à Kondor Syndikat para estabelecer uma linha aérea entre Porto Alegre e o Rio de Janeiro — contou Rodrigo, para escandalizar o sogro. — E lhe digo mais, seu Aderbal, a primeira vez que eu tiver de viajar para o Rio, vou de avião.
Babalo nada respondeu. Montou a cavalo, saiu sem rumo pelas verdes invernadas, agitando macegas e espantando quero-queros, respirou a plenos pulmões o ar do campo, limpou o espírito de cuidados e irritações, voltou para casa assobiando, e não tocou mais no assunto.
Foi em princípios de março que, ainda no Angico, Rodrigo recebeu a notícia de que Luiz Carlos Prestes e os seiscentos e poucos homens que restavam de sua Coluna se haviam internado na Bolívia, depondo as armas.
Passaram-se duas semanas e Rodrigo começou a inquietar-se seriamente com a sorte do irmão. Se Bio estava vivo — refletia —, por que não se comunicava com ele? Escreveu uma carta ao embaixador do Brasil na Bolívia, perguntando-lhe se por acaso sabia do paradeiro dum certo maj. Toríbio Cambará, membro da Coluna Prestes.
Voltou no fim daquele mês para Santa Fé, onde o aguardava a pior das notícias. O Veiga, da Casa Sol, depois de muitos rodeios, pigarros e hesitações, revelou-lhe que um tropeiro de Santa Bárbara ouvira dizer que um conhecido seu de Passo Fundo abrigara uma noite em sua casa um ex-soldado da Coluna Prestes, que lhe contara ter visto Toríbio Cambará cair morto num combate, no interior do Ceará.
Rodrigo entregou-se a uma crise de choro.
— Não acredito — disse Maria Valéria.
Roque Bandeira chamou o amigo à razão:
— Tudo isso é muito vago — argumentou. — Veja bem, doutor. O Veiga não se lembra do nome nem do endereço do tropeiro que lhe contou a história que teria ouvido da boca duma terceira personagem ainda mais improvável que a primeira e a segunda.
No dia 1o de abril chegou ao Sobrado um telegrama. Num mau pressentimento, Rodrigo meteu-o no bolso, sem abri-lo. Saiu a andar pela casa, agoniado, com a quase certeza de que aquele papel lhe trazia a notificação oficial da morte do irmão. Subiu para a água-furtada, tirou o despacho do bolso, virou-o dum lado e de outro, atirou-o em cima da mesinha de vime e ficou a mirá-lo de longe... De repente uma onda de esperança o envolveu. E se a mensagem fosse do próprio Toríbio? Claro. Podia ser. Era! Era!