O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)
Um certo major Toríbio
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
Agarrou o telegrama e abriu-o com tal açodamento, que quase o rasgou ao meio. Estonteado, teve de ler o texto três vezes para compreendê-lo:
COMUNICO ILUSTRE AMIGO DESCOBRI ENTRE DETENTOS POLITICOS RIO SEU IRMÃO
TORIBIO APRISIONADO FINS ANO PASSADO INTERIOR BAHIA E AGORA SUJEITO SER
TRANSFERIDO ILHA TRINDADE PT MANDE INSTRUÇÕES URGENTE PT CORDIAIS
SAUDAÇÕES
TEN.-CEL. RUBIM VELOSO
Rodrigo desceu precipitadamente e foi dar a grande notícia a Flora, Maria Valéria e Laurinda. Toríbio estava vivo! Toríbio estava vivo! Era isso o que importava. Mas sua alegria em estado puro não durou mais que uns escassos cinco minutos, porque em sua mente a ideia de Toríbio vivo foi dominada pela de Toríbio preso. Um Cambará na cadeia, como um reles criminoso. Toríbio degredado na ilha da Trindade! A ideia deixava-o de tal maneira indignado, que os amigos a quem mais tarde mostrou o telegrama, tiveram a impressão nítida que ele queria fazer outra revolução, organizar uma expedição punitiva contra o Rio de Janeiro, apear Washington Luís do poder e incendiar o Catete.
— Sossegue o pito — disse Maria Valéria.
— Mas ele vai morrer, Dinda!
— Não morre. Tudo acostuma. Até cadeia.
— Mas fica louco.
A Dinda quase sorriu quando disse:
— Bem bom do juízo seu irmão nunca foi...
Rodrigo resolveu embarcar no dia seguinte para Porto Alegre, onde tomaria o primeiro vapor para o Rio. Era uma pena que a linha aérea do Kondor Syndikat não estivesse ainda funcionando!
Antes de partir redigiu um telegrama endereçado ao ten.-cel. Rubim. Mostrou-o a Flora e Maria Valéria.
— Que é que vocês acham? Está muito forte?
GRATISSIMO TUA COMUNICAÇÃO MAS DESOLADO NOTICIA PT POBRE PAIS EM QUE
OS HOMENS DE BEM ESTÃO NA CADEIA E OS LADRÕES E BANDIDOS NO PODER PT
EMBARCO RIO HOJE MESMO PT AFETUOSO ABRAÇO
De lábios apertados, a velha ouviu em silêncio a leitura do despacho.
— Que tal, Dinda?
— Não carece ofender ninguém. Isso pode até dificultar a saída do Bio da cadeia. Por que não diz só que vai embarcar?
Flora foi da mesma opinião, mas Rodrigo, enamorado da própria violência, mandou expedir o telegrama tal como o havia redigido.
Embarcou no dia seguinte, tão carregado de malas que a tia perguntou:
— Ué? Vai se mudar pra Corte?
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Duas semanas depois, telegrafava do Rio contando à sua gente que conseguira falar com Toríbio; que, contra sua expectativa, o encontrara de muito boa saúde; que havia contratado um grande advogado para tratar da libertação do irmão; e que esperava ter uma entrevista com Getulio Vargas no dia seguinte. As últimas linhas do telegrama prometiam para breve uma longa carta.
Esta chegou duas semanas depois. Flora leu aos amigos a parte em que Rodrigo narrava as circunstâncias romanescas da prisão de Toríbio:
A coisa se passou nos sertões da Bahia. O Bio e o seu piquete de vanguarda caíram
numa emboscada. Alguns morreram, outros fugiram, e quatro, entre os quais estava o
nosso herói, foram feitos prisioneiros. “Só me pegaram”, contou o Bio, “porque meu
cavalo recebeu um balaço na cabeça, caiu e eu fiquei com uma perna apertada debaixo
dele. Os milicos se atiraram em cima de mim. Eram três. Me ergueram do chão e
pensaram, os inocentes, que eu ia me entregar sem mais aquela. Consegui derrubar
dois deles a socos e pontapés, mas vieram mais dois, me subjugaram e me levaram
amarrado.” Assim o nosso major e mais três companheiros foram conduzidos para o
acampamento duma companhia da força legalista e amarrados a troncos de árvores
para serem fuzilados ao amanhecer. Quando o dia clareou, começaram as execuções.
Antes de passar cada prisioneiro pelas armas, o capitão que comandava o pelotão de
fuzilamento interrogava-o, pedindo o nome e o lugar do nascimento. Anotava tudo isso
numa caderneta, voltava pra junto dos soldados e dava ordem de fogo. Pouco antes de
morrer, um dos revolucionários gritou meio rindo: “Até a vista, Major Toríbio!”. Diz o
Bio que nessa hora não conseguiu conter o pranto, e ficou fungando, sem poder enxugar
os olhos, pois estava de mãos amarradas. O segundo a ser fuzilado recusou-se a dar o
nome. Disse uma barbaridade que envolveu não só a mãe do capitão como a de todos
os soldados do pelotão. Antes da ordem de fogo soltou um viva a Luiz Carlos Prestes e
à liberdade. Nosso major me confessou que naquela hora ele não sabia o que era mais
forte: se a sua pena de ver aqueles bravos morrerem de mãos e pés amarrados ou se
a raiva, “não o medo”, de saber que sua hora tinha chegado. Pensou assim: “Ora, um
dia todos morrem, os bons e os maus, os valentes e os covardes, os santos e os
bandidos. De bala, de doença ou de velhice”. Mas no fundo ainda contava com algum
acontecimento inesperado que o salvasse. Começou então a dizer, baixinho: “Ainda não
fizeram a bala... ainda não fizeram a bala”. O terceiro condenado, poucos segundos
antes de receber a descarga, gritou: “Atirem, covardes!”. E soltou uma gargalhada.
Quando chegou a hora do Bio, o sol já tinha aparecido. O capitão aproximou-se do
major. Era um homem com cara de moço-família, estava pálido, de voz engasgada e
mãos trêmulas. O Bio viu logo que o rapaz não dava para aquelas coisas. “Como é o
seu nome?” O Bio, que tinha deixado crescer a barba, teve vontade de responder:
“Antônio Conselheiro”. Mas achou melhor dizer direito como se chamava e de onde era.
“E por falar em Rio Grande, moço, lá na minha terra não estamos acostumados a
morrer de mãos amarradas. Gaúcho macho prefere morrer peleando. Se algum favor lhe
peço, é que me deixe morrer de arma na mão.” O outro se fez de desentendido. “De
que cidade do Rio Grande você é?” Quando o Bio disse Santa Fé, a cara do milico se
iluminou. E agora pasmem todos! O capitão em seguida perguntou: “É parente do doutor
Rodrigo Cambará?”. Respondeu o nosso caudilho: “Acho que sou! Somos filhos do
mesmo pai e da mesma mãe”. O oficial gritou para os soldados: “Desamarrem este
homem!”. Pegou o Bio pelo braço, levou-o para sua barraca, deu-lhe um bom café com
bolachas e contou: “Sou o Antiógenes Coutinho. Estive na sua casa, conheci a sua
família. E se hoje estou aqui é graças ao seu irmão, que me salvou a vida”. E repetiu a
história que todos vocês conhecem.
Assim, o Bio escapou de ser fuzilado no sertão da Bahia, foi levado para Salvador,
onde durante mais de um mês quase apodreceu num calabouço infecto, com vinte ou
trinta outros prisioneiros políticos. Um dia meteram toda essa gente no porão dum
navio de carga, que zarpou para o Sul. Bio me contou com pormenores os horrores
dessa viagem. Para principiar, passaram todo o tempo com água a meia canela. Parecia
um navio negreiro. O fedor no porão era medonho, pois todos faziam suas necessidades
ali mesmo. Quanto ao que se dava aos prisioneiros para comer, nem é bom falar, vocês
podem imaginar. Um deles morreu durante a travessia e os outros só deram pela coisa
quando o cadáver começou a cheirar mal.
Chegadas ao Rio, essas pobres criaturas tiveram destinos diversos. O Bio foi atirado
numa das famigeradas geladeiras da Polícia. Como trazia um bom poncho, um caboclo
alto e forte que, pela sua truculência e sua força física, era uma espécie de chefe dos
prisioneiros da cela, atirou-se em cima do nosso major com a intenção de tirar-lhe o
poncho, pois lá dentro o frio e a umidade eram de dar pneumonia até em pedra. Para
resumir o caso: o Bio deu uma surra tão tremenda no sujeito, que o deixou estirado no
chão. Como resultado, não só conservou o poncho como também daí por diante ficou
sendo o chefe do grupo.
Semanas depois, foi transferido para uma cadeia mais decente (mas não muito) e
mantido incomunicável por dois meses. Foi ali que um dia o ten.-cel. Rubim o descobriu
por puro acaso.
Não me foi fácil conseguir licença para ver o meu irmão. Eu não saberia descrever
nosso encontro. Não tenho vergonha de dizer que chorei como uma criança ao abraçá-lo.
O Bio, esse só ria, mas ria às gargalhadas como se aquilo tudo fosse a coisa mais
engraçada do mundo. Continua barbudo, está com o corpo todo escalavrado, mas forte e
são de lombo. Para aguentar as geladeiras da Polícia, só os pulmões do Bio!
Agora pasmem de novo! Esse gauchão de dedos grossos e desajeitados durante o
tempo de cadeia aprendeu com um companheiro de cela a fazer trabalhos de paciência.
Construiu um navio com pauzinhos coloridos dentro duma garrafa. Quando ele me
mostrou a sua obra, fiquei com um nó na garganta e lágrimas de novo me brotaram
nos olhos.
E assim, como vocês podem ver, a vida, para alegria de D. Vanja, às vezes imita os
folhetins de capa e espada.
A segunda carta, chegada dias depois, dizia:
Tenho feito o barulho que posso na imprensa do Rio em torno do caso do Toríbio.
Conversei também com o Dr. Getulio, que me recebeu muito bem, todo sorridente, mas
nada prometeu de positivo. “Não vai ser fácil”, disse ele, “trata-se dum assunto político
fora da competência do meu ministério.” Ora bolas! Todo o mundo sabe como se
fazem as coisas neste país de opereta. E depois, não se trata de competências de
ministérios, mas da saúde, da vida e da liberdade dum gaúcho corajoso e digno. Fiquei
com vontade de mandar o Ministro da Fazenda àquela parte. Mas foi bom que eu
tivesse me contido, porque no dia seguinte o Getulio me comunicou, por intermédio de
um de seus oficiais de gabinete, que, depois de confabular com o Ministro da Justiça,
achava que havia esperanças...
No mesmo dia Flora recebeu um telegrama urgente:
BIO LIBERADO PT EMBARCAREMOS IMEDIATAMENTE PT CARINHOS
RODRIGO
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No dia seguinte ao da sua chegada a Santa Fé, Rodrigo reuniu amigos no Sobrado, para comemorar com uma ceia o que ele chamava de “a volta do filho pródigo”. Fascinado pela analogia, mandou matar um “bezerro cevado”.
Maio findava, o outono andava a enevoar os céus e a desbotar as folhas dos cinamomos e dos plátanos. O inverno já mandava pelo vento discretos avisos de que não tardaria a pôr-se a caminho. Maria Valéria, sempre atenta às coisas da natureza e do calendário, achou que já era tempo de abrir a despensa e entregar ao consumo doméstico as primeiras caixetas das pessegadas e marmeladas feitas em fevereiro.
Tio Bicho cultivava seus peixes, lia seus filósofos e engordava. Arão Stein, apaixonado pelo caso de Sacco e Vanzetti, escrevia artigos incendiários para jornais semiclandestinos, procurando provar que a justiça dos Estados Unidos condenava esses dois mártires à cadeira elétrica não pelo assassínio do pagador duma companhia de calçados (pois nada de irrefutável ficara provado contra os réus), mas sim por serem ambos anarquistas. Não se tratava, portanto, dum ato de justiça, e sim duma cruel, indigna, clamorosa vingança política.
Mas alguns santa-fezenses, para os quais Hollywood se havia tornado mais importante que Washington, pareciam concentrar seu interesse na guerrinha local que agora se travava, por motivos óbvios, entre as “viúvas do Valentino” e o novo clube das fãs de John Gilbert.
Noticiavam então os jornais que a Warner Brothers acabava de produzir o primeiro filme sonoro da história: The Jazz Singer. Uns quatro ou cinco rapazes intelectualizados de Santa Fé, que costumavam referir-se ao cinema como “a sétima arte”, e eram adoradores de Charlie Chaplin, achavam que dar voz às figuras da tela seria a mais grosseira e ridícula das heresias. Entrevistado por A Voz da Serra, o Calgembrino, do Cinema Recreio, foi franco: “Fita falada? Aposto como esse negócio não pega”.
Também por aquela época andava o mundo inteiro (inclusive e principalmente o rev. Robert E. Dobson) entusiasmado com a façanha de Charles Lindbergh, um americano de vinte e seis anos que, no seu pequeno aeroplano, The Spirit of St. Louis, atravessara o Atlântico, dos Estados Unidos à Europa, num voo ininterrupto.
Para Liroca, porém, herói mesmo, herói de verdade, era Toríbio Cambará. Na reunião no Sobrado, passou quase a noite inteira a mirá-lo com olhos afetuosos e cheios de admiração. Ficou furioso com o dr. Terêncio Prates, que, por mais de meia hora, procurou chamar para a sua pessoa as atenções gerais, comentando o último livro que recebera de Paris: La Vie de Disraëli, de André Maurois.
* * *
— Como é, major? — perguntou Neco Rosa. — Que tal foi a campanha?
Toríbio, que estava escarrapachado numa poltrona, ao lado de Tio Bicho, consumindo com ele garrafa sobre garrafa de cerveja preta, respondeu:
— Divertida.
E tratou de mudar de assunto. Mais tarde outros tentaram, mas em vão, fazer o vanguardeiro da Coluna Prestes contar suas proezas.
Rodrigo andava dum lado para outro, radiante por ter o irmão de volta à querência são e salvo, mas um nadinha enciumado por vê-lo como figura central da reunião. Houve um instante em que, continuando a paródia da parábola bíblica, representou dois papéis ao mesmo tempo: o do pai do filho pródigo e o do irmão despeitado.
Depois que a maioria dos convidados se retirou — fechado no escritório com o irmão, Chiru Mena, Neco Rosa, José Lírio e Roque Bandeira —, Toríbio soltou a língua.
Foi José Lírio quem deu o mote:
— Uma marcha linda, major!
— Linda? Nem sempre, amigo Liroca.
Fez-se um silêncio de expectativa. Todos os olhares se focaram no maj. Toríbio, que a essa altura da festa tinha abandonado a cerveja em favor da caninha. Com seu jeitão lerdo e pesado de boi manso, os olhinhos entrefechados, ele sorria para algum pensamento gaiato.
— Pois aqui onde vocês me veem, amigos, já invadi o Paraguai.
— Como foi a coisa? — perguntou Neco Rosa, mostrando os dentes num riso de antecipado gozo.
— Depois da queda de Catanduvas, o negócio ficou feio pro nosso lado. O melhor jeito da gente chegar ao Mato Grosso era cortar pelo Paraguai. Eu fazia a vanguarda do 2o Destacamento. Até brinquei com o João Alberto: “Já que estamos aqui, comandante, por que não aproveitamos a ocasião pra derrubar o governo paraguaio?”.
— Esse Bio... — sorriu Liroca, sacudindo a cabeça.
O guerrilheiro remexeu-se na poltrona:
— Estou me lembrando dum baile que arranjamos em território paraguaio, na fronteira com o Mato Grosso...
As caras de Chiru e Neco reluziram de malícia. Liroca osculava o herói com seu olhar canino.
— A vila se chamava Pero Juan Caballero. Pequenita. Uma porcaria. Quero dizer, porcaria no tamanho, mas muito mais divertida que Santa Fé. Tinha vários cabarés que funcionavam todas as noites.
— Mas em que tipo de casa? — quis saber Rodrigo.
— Ranchos de taipa, com chão de terra batida.
— Música de gaita, naturalmente...
— Não. Violas, violinos, umas flautas e harpas de bugre. Me cheguei pra uma china paraguaia, delgadita mas de boas ancas, e convidei a bichinha pra dançar uma polca. Estavam comigo uns dez revolucionários. Também se serviram das chinas. Comecei a ver pelos cantos uns muchachos meio trombudos e farejei barulho. Mas tomamos conta do baile. O João Alberto tinha me recomendado que tivesse muito cuidado, não queria encrenca com governo estrangeiro, nossa briga era só contra o do Bernardes... Proibiu a venda de bebidas, mas qual!... vocês sabem, sempre se dá um jeito de conseguir uma branquinha por baixo do poncho. Mas o que eu sei é que lá pelas tantas o pessoal foi se esquentando, se excedendo, e aqueles paraguaios mal-encarados acabaram virando bicho. Não me lembro como foi que a coisa começou. Só sei que de repente um índio cor de cuia cresceu pra cima de mim de faca em punho. Nem pisquei. Apliquei-lhe um pontapé nos bagos e ele largou a faca e se dobrou todo, gritando de dor. Quando vi que estavam sangrando a facadas um companheiro nosso no meio da sala (a música nem tinha parado!), saquei do revólver e o tiroteio começou. Nossas patrulhas entraram em ação e foi uma confusão danada. Imaginem vocês um entrevero dentro dum rancho pequeno...
Calou-se. Liroca, para quem as palavras do guerrilheiro eram um vinho capitoso, perguntou:
— Morreu muita gente?
— Nem tanto. Dois nossos e um paraguaio. Mas uns dez ou doze se lastimaram...
Toríbio fez nova pausa para beber um trago de caninha. De novo o sorriso malicioso lhe encrespou os lábios.
— No outro dia tornamos a entrar no Brasil — prosseguiu — e tocamos pras cabeceiras do rio Apa. E vocês querem saber da melhor? Umas duas dúzias de paraguaias se vestiram de homem pra acompanhar o destacamento. — Soltou um suspiro. — Mas o João Alberto não quis saber da brincadeira. Guerra era guerra! Mandou elas voltarem para a fronteira. E a pé. Dez quilômetros! Foi uma pena. Eu já tinha a minha bugra marcada na paleta.
O relógio grande começou a bater meia-noite.
— E depois? — perguntou o Neco, que estava montado numa cadeira, ambos os braços pousados no respaldo.
Rodrigo tirou da gaveta da escrivaninha um mapa do Brasil e estendeu-o em cima da mesinha, diante da poltrona que o irmão ocupava. Toríbio inclinou-se para a frente, franziu o cenho:
— Sou ruim pra mapas... Quem entende bem deste negócio é o Prestes... Ah! — A ponta de seu dedo grosso e tosco resvalou sobre a carta geográfica e parou num ponto. — Aqui neste lugar atacamos o inimigo com uma carga de cavalaria. Eu tinha comigo gente do Rio Grande e boa cavalhada. Me lembrei muito de 23...
— Que efetivo tinha a coluna? — indagou Rodrigo.
— Quatro destacamentos num total de pouco mais de mil e quinhentos homens.
— Mal armados?
Toríbio deu de ombros:
— Ninguém se queixava. Tínhamos até metralhadoras pesadas. Mas lá por fins de junho... deixe ver... Eu me perco nesse negócio de datas... Sim! Em junho de 1925, entramos em Goiás.
— Mas qual era o plano de vocês?
— Cruzar o Brasil Central, ir arrebanhando pelo caminho cavalos e gado, requisitando munição de guerra e de boca, recrutando gente... voluntários, naturalmente.
— Que tal o João Alberto? — perguntou Chiru.
— É um bicho que eu estimo e respeito. Tem a cabeça fria. Mesmo na hora do maior perigo não perde as estribeiras. Pensa claro, faz o que é certo. Uma vez, na retranca duma metralhadora pesada, ele e mais uns poucos companheiros aguentaram um ataque violento da cavalaria inimiga em número muito superior. Quem socorreu o pernambucano foi um gaúcho muito amigo dele, o major Nestor Verissimo, que, com seu piquete, fez uma contracarga que obrigou os atacantes a recuarem.
Toríbio sorriu, com ar evocativo.
— O João Alberto achava o Nestor tão parecido comigo que às vezes, assim um pouco de longe, até me confundia com ele. Quando queria se referir ao Verissimo, ele me dizia “o teu irmão gêmeo”. Pois esse gaúcho de Cruz Alta tinha boas. Uma vez na linha de fogo, no meio das balas, resolveu descansar porque fazia duas noites e dois dias que não dormia. Disse pra um companheiro: “Se a coisa piorar, me acordem”. Deitou-se, fechou os olhos e pegou logo no sono. É um bárbaro.
— Fala o roto do esfarrapado... — sorriu o Neco.
— Há uns tipos que não vou esquecer mais — prossegue Toríbio — nem que eu viva mil anos. — Calou-se por alguns instantes, sorrindo decerto para as suas memórias. — Um deles é o coronel Luís Carreteiro, caboclo alto, reforçado, morenaço, de barba e bigode, a cabeleira já meio querendo branquear. Andava mais enfeitado que mulher de gringo. Não gostei nada da fantasia dele. Umas bombachas largonas cheias de bordados e botões de madrepérola. Chapelão de abas anchas, com barbicacho. Lenço colorado no pescoço. Peito cheio de medalhas e penduricalhos. Chilenas de prata que faziam barulho de libra esterlina quando ele caminhava. Dois revólveres na cintura. Parecia mais um caubói de cinema que um gaúcho de verdade. A gente tinha a impressão que ele tinha se preparado não pra marchar com a Coluna, mas pra tirar o retrato. Na fita do chapéu lia-se um letreiro, numa mistura de castelhano e português: “Não dou nem pido ventaja”. Contou que era do Rio Grande do Sul e que, muito moço, tinha feito a Revolução de 93. Botei o homem de quarentena, mas no primeiro combate vi que tinha valor. Era macho mesmo. Daí por diante desculpei todo aquele carnaval.
— O bicho aguentou até o fim da marcha? — perguntou Liroca.
— Até o fim da vida dele.
— Morreu de bala ou de arma branca? — tornou a perguntar José Lírio.
Esses pormenores tinham para o veterano uma importância mágica.
— Parece mentira. O coronel Carreteiro tomou parte em muitos combates, e nunca foi ferido. Morreu na cama, de uremia.
— Que injustiça!
Rodrigo ergueu-se para se servir de conhaque.
— Que homens como tu, o Nestor e outros gaúchos “duros pro frio” tenham aguentado a marcha eu compreendo — disse. — Mas nunca pensei que esses “tenentinhos” tivessem caracu...
— Pois é pra ver como são as coisas. Eu também me enganei com muitos deles. Quem fazia a nossa retaguarda era o Cordeiro de Farias, um moço simpático, muito bem-educado, e de fala macia. Olhei pra ele e pensei: “Chii, este menino bonito não vai aguentar o repuxo”. Mas qual! Aguentou. E lindo. Uma ocasião o Cordeiro e seu destacamento ficaram tiroteando com a vanguarda legalista do Bertoldo Klinger. Queimaram até o último cartucho, contiveram o inimigo e assim deram tempo pro resto da Coluna escolher uma posição mais conveniente pro combate.
— E o Siqueira Campos? — indagou Neco, ao mesmo tempo em que Chiru perguntava:
— E o Juarez Távora?
— Desses nem preciso contar nada, porque vocês conhecem bem... Os jornais sempre falavam neles. Flor de gente. Coragem sem fanfarronada.
— O que prova — interveio Roque Bandeira — que valentia não é privilégio de gaúcho.
Liroca lançou um olhar de reprovação para o lado de Tio Bicho. Como ousava dar palpites aquele gordo sedentário, aquele gaúcho renegado que jamais vira de perto uma revolução em toda su perra vida?
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Rodrigo, agora sentado num dos braços da poltrona do irmão, bateu no ombro deste:
— E o Chefão? O Prestes?
Toríbio ergueu o copo, que Chiru se apressou a encher de caninha.
— No princípio foi um caro custo convencer a minha gente a acreditar no homem como nosso comandante. Vocês sabem... O pessoal implicava com a vestimenta dele, uns culotes esquisitos, e com aquelas lutas cheias de mapas que o homem sempre carregava no cavalo... Depois, a barba não iludia ninguém. Por trás dela estava um menino. Nossa tropa era muito misturada, tinha de tudo: gente desligada do Exército, revolucionários de 22 e 23, peões de estância, doutores, estancieiros, comerciantes, caixeiros de loja, índios vagos, tudo... Olhavam para o Prestes com desconfiança. Mas o homem se impôs. Acabou mandando mais que o Miguel Costa. Depois da queda de Catanduvas, a Coluna estava desmoralizada, alguns falavam até em emigrar. Mas o Prestes bateu pé e disse que fosse embora quem quisesse, porque ele ia continuar. Daí por diante ninguém teve mais dúvida quanto à chefia da Coluna.
— E o Miguel Costa?
— Aí está outro sujeito de fibra. Um pouco difícil de entender. Falava pouco. Mas macho. Caiu ferido mais tarde, quando eu já estava preso, e a Coluna rumbeava de novo para Mato Grosso. Uma bala no peito, ferimento feio. Foi um companheiro de cadeia no Rio que me contou a história. Quem socorreu o Miguel Costa foi o João Alberto. Diz que o coitado botava sangue pela boca (me lembrei do velho Licurgo). O rombo era enorme, quase se podia ver o coração batendo... Pois o homem aguentava tudo sem gemer. Fizeram-lhe um curativo ligeiro, botaram iodo na ferida, tudo isso no meio do combate. E o homem dê-le a botar sangue pela boca. Todos achavam que ele estava perdido, mas conseguiram costurar o talho e dois meses depois o Miguel Costa já andava de pé, pronto pra outra.
Rodrigo de novo caminhava dum lado para outro. Todas aquelas histórias o deixavam numa excitação febril: mescla de entusiasmada admiração e inveja, pois ele não tinha participado da marcha heroica. Intrigava-o saber que “tenentinhos” que não haviam passado da casa dos vinte se tivessem atirado naquela grande aventura, indo até o fim. Que força os animaria? Com que misteriosas reservas morais contariam? Que iria acontecer-lhes, agora que estavam exilados ou presos? Haveria alguma esperança de que um dia fossem reincorporados à vida nacional?
Tio Bicho abafou um bocejo, mas seus olhos interessados não se afastavam do rosto de Toríbio, que prosseguiu:
— Mas chega de falar nos graúdos, nos graduados, nesses que sempre tiveram os nomes nos jornais. Vamos falar nos outros, na soldadesca. Havia uns tipos macanudos. Alguns conheci de perto, brigaram a meu lado. Outros vi de longe. E de outros só ouvi falar, pois não eram do meu destacamento. Davam um romance. E que romance!
O Zé Bigode, guarda do arquivo da Coluna, um misto de funcionário e revolucionário, defendia sua carga como um tesouro. Vadeava rios com ela nas costas, sem molhar um papel. Contava-se que um dia, no pior dum combate, em vez de abrigar-se atrás dos peçuelos que continham o arquivo, preferira proteger este com o próprio corpo.
O Pé de Anjo era especialista em assaltar trincheiras a peito descoberto, e tivera o corpo quatro vezes furado por balas.
E o Zé Viúvo? Esse era um voluntário maranhense, e ficara aleijado em consequência dum ferimento recebido na linha de fogo. Também não quis ficar para trás, e por algum tempo foi carregado em padiola pelos companheiros. Por fim ele mesmo improvisou umas muletas, com galhos de árvores, e continuou a marchar “por conta própria”. Dizia-se que era uma coisa portentosa ver aquele homem na hora do combate, a atirar de pé com sua carabina, o corpo sustentado pelas muletas.
O caso do negro Ermelindo era dos mais comoventes. Juntara-se à Coluna para acompanhar um jovem que ele ajudara a criar, filho dum estancieiro do Rio Grande do Sul do qual o crioulo fora peão durante quase quarenta anos. Ermelindo servia seu amo como um fiel escudeiro, cuidando-lhe da roupa, da comida e das armas. Sua dedicação era tamanha que os companheiros de destacamento lhe chamavam “Anjo da Guarda”. Duma feita, numa escaramuça de patrulhas, seu protegido, que era tenente, ficou para trás e um piquete de cavalaria inimigo precipitou-se na direção dele. Ermelindo sentou o joelho em terra e começou a atirar com sua Mauser, ao mesmo tempo que gritava: “Vai-te embora, guri! Vai-te embora! Tenho pouca munição e quando as bala se acabar tenho de entreverar com a chimangada”. Como era maragato, para ele o inimigo só podia ser chimango. O tenente safou-se. Depois de disparar o último tiro, Ermelindo puxou da espada e esperou a carga. Morreu varado de balas.
— Havia um sargento protestante — continuou Toríbio —, um tal de João Baiano, que não perdia oportunidade pra fazer sermões e ler trechos da Bíblia que carregava num embornal, de mistura com balas de revólver. Conheci também um católico beato, o tenente Belchior, melenudo e mal-encarado. Ajudava a rezar missa onde encontrasse igreja e padre, botava uma daquelas vestimentas de sacristão por cima da adaga e da pistola e lá ficava a tocar campainha e a alcançar coisas pro vigário. Um espetáculo!
Era espantosa a coragem e a capacidade de resistência daquela gente. A Coluna não tinha serviço médico organizado. Toríbio lembrava-se do caso dum companheiro cujo peito fora varado por uma bala, e que se curara no mato, mastigando as ervas que os sertanejos lhe recomendavam. Um outro recebera um tiro que lhe entrara na boca e lhe saíra na nuca. O homem sobreviveu e continuou a seguir a Coluna.
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O relógio bateu uma badalada. Nenhum daqueles homens ali no escritório teve consciência disso. Pareciam estar todos dentro duma dimensão épica e intemporal.
— Isso é melhor que fita de cinema — comentou o Chiru dando uma palmada no ombro de Toríbio, que perguntou:
— Será que sobrou alguma coisa do jantar?
Rodrigo foi até a cozinha, de onde voltou com uma travessa cheia de pedaços de galinha e peru com farofa, sarrabulho e fatias de pão. Toríbio e Tio Bicho foram os primeiros a se servirem. Ninguém reclamou pratos e talheres. Usaram os dedos, como que contagiados pelo espírito da Marcha.
— Agora precisamos dum bom vinho tinto! — exclamou o anfitrião.
Foi buscar duas garrafas de borgonha e novos copos.
— Sim, havia mulheres seguindo a Coluna — disse o guerrilheiro, após um silêncio, satisfazendo a curiosidade do Neco. — Eram casadas ou amasiadas com soldados ou oficiais. Na minha opinião a Santa Rosa era a mais extraordinária de todas.
Contou, enternecido, a história da mulher. O marido era soldado do destacamento de Cordeiro de Farias e ambos seguiam a Coluna desde o Rio Grande do Sul. Ficou grávida e seu ventre foi crescendo durante a marcha. “Então, Santa Rosa, pra quando é a festa?” A mulher sorria: “Pra qualquer dia destes, se Deus quiser”. Nos últimos tempos recusava-se a andar a cavalo, seguia os soldados a pé “pra fazer a criança baixar e nascer mais ligeiro”. Uma noite vieram as dores. O inimigo andava por perto. Alguém se arriscou a sugerir que deixassem Santa Rosa pra trás. Houve protestos gerais. Todo o mundo queria bem àquela mulher destemida e dedicada, que acompanhava o marido através de perigos e durezas.
— E vocês sabem o que fez o João Alberto? — disse Toríbio. — Pois esse pernambucano com cara de pau no fundo é um sentimental. Retardou a retirada por algumas horas, pra Santa Rosa ter a criança. Fizeram um fogo, aquentaram água numa lata, meteram dentro dela uns trapos, e a função começou. Mas o grosso do destacamento não pôde esperar muito tempo. Deixamos a mulher pra trás, com um pequeno grupo de voluntários, e seguimos nosso caminho.
Toríbio ficou um instante pensativo, como quem sente saudade de alguma coisa.
— Somos todos umas vacas — murmurou, sacudindo a cabeça e mastigando um bom naco de galinha, os lábios lustrosos de banha. — Marchei com os outros pra obedecer ordens, mas fiquei com um remorso danado. O inimigo podia agarrar e liquidar a Santa Rosa e os companheiros. Depois de algumas horas de marcha, notei que o Nestor estava com uma cara engraçada, assim como quem quer dizer alguma coisa e não encontra jeito. Sabem o que era? O major Verissimo estava preocupado com o que pudesse acontecer a Santa Rosa e à sua guarda. Por fim falou franco com o João Alberto, que não teve outro remédio senão permitir que o major e mais trinta homens voltassem para escoltar a mulher até onde estávamos acampados. No outro dia, de manhãzinha, um dos nossos soldados veio a todo o galope anunciar que a criança tinha nascido sem novidade. Era macho e ia se chamar José. Nesse mesmo dia apareceu a Santa Rosa montada a cavalo, com o filho nos braços, rodeada pela sua escolta. Para resumir a história, a criança cresceu durante a marcha, andava escanchada nas cadeiras da mãe e às vezes pendurada no pescoço dum que outro soldado.
Lágrimas escorriam pelas faces do velho Liroca. Rodrigo não podia nem tentava esconder sua emoção. Tio Bicho soltou um arroto e disse:
— É uma pena que mulheres como essa jamais passem para a história. Para principiar, nem sabem que existe tal coisa...
Toríbio ergueu-se, espreguiçou-se, tornou a encher o copo de vinho, ficou um instante a olhar para a bebida e depois:
— Mas havia outras — disse. — Umas horrorosas, verdadeiras megeras. De vez em quando aparecia uma bonitinha. Das feias a pior era a Cara de Macaca. Andava sempre com gibão e chapéu de couro. — Soltou uma risada. — Agora estou me lembrando duma boa história. Um dia o amásio da cangaceira tomou um porre monstro e resolveu acabar com a vida dela. Ergueu o revólver na fuça da mulher, puxou o gatilho mas a arma negou fogo. A sertaneja tirou a arma da mão do companheiro, agarrou ele pelo gasnete, levou o bicho ao comandante do destacamento, contou toda a história mas suplicou pelo amor de Deus que não castigassem “o coitado”.
Outra figura popular entre os soldados era a Tia Maria. Tinha o hábito de festejar as vitórias da Coluna com tremendas bebedeiras. Duma feita, num lugar chamado Piancó, bebeu tanto que acabou ficando para trás. O inimigo trucidou-a.
A enfermeira Hermínia costumava ir buscar os feridos na linha de fogo. A Chininha, gordíssima, apesar das longas marchas a pé, não conseguia emagrecer. E a Joana era tão pequena, que na travessia dos rios quase se afogava, quando a água dava apenas pelo peito dos soldados. Houve quem fizesse versos contando a odisseia da Albertina, flor de moça, que um dia deixou a Coluna para ficar cuidando dum tenente que, além de tuberculoso, tinha sido ferido em combate. Foi presa e degolada por um batalhão de civis.
Fez-se um silêncio. Rodrigo sentou-se e ficou de olhos cerrados, pensando nas coisas que o irmão acabara de contar. Neco acendeu um cigarro de palha. Toríbio e Chiru o imitaram.
Quando o relógio bateu as duas da madrugada, os seis amigos estavam ainda no mesmo lugar. Toríbio, mais desperto que antes, ainda falava.
— Aconteciam coisas engraçadas. Uma vez passamos a noite num convento de dominicanos, em Porto Nacional, nas margens do Tocantins. — Aproximou-se da mesa e apontou para um lugar no mapa. — Aqui. E pela primeira vez na minha vida dormi com um padre.
— Opa! — exclamou Chiru.
— Quero dizer, dormi no mesmo quarto. Os padres nos trataram à vela de libra. Mas não resisti... roubei um livro do meu companheiro de quarto... Eu andava sem nada pra ler...
— Não me diga que era o Livro de Horas — brincou Tio Bicho.
— Era o Rocambole, uma brochura esbeiçada e sebosa. O livro me acompanhou por vários meses. Muitas noites, à luz das fogueiras, eu me distraí com ele... Depois perdi o volume. Não. Desconfio que o Nestor me roubou. — Soltou uma risada.
Liroca olhava atentamente para o mapa. Queria saber exatamente qual tinha sido o trajeto da Coluna.
— O nosso plano, depois de sair de Ponta Porã, era cruzar o Brasil Central e depois rumbear pro Nordeste. Invadimos Minas Gerais porque esse era o caminho mais fácil para chegar ao coração de Goiás. Foi então que vi uma coisa que nunca esperava ver na vida: o rio São Francisco. Continuamos a marchar pro Norte e, quando estávamos perto da Bahia, quebramos à esquerda, entramos em Goiás e tocamos pro vale do Tocantins.
— E tu sempre foste fraco em corografia do Brasil! — exclamou Rodrigo.
— A marcha através de Goiás foi divertida, fácil. O estado é bonito, o clima, bom. O João Alberto me dizia, olhando o planalto: “Seu Bio, aqui é que está o futuro do Brasil. Quando é que esses governos de borra vão compreender?”.
— Quanto tempo levaram para atravessar Goiás? — indagou Liroca.
— Sei lá! Eu não carregava calendário. Nem relógio. Quem sabia dessas coisas era o Prestes e o João Alberto. Eu não. Mas... o que sei dizer é que era primavera e começavam as chuvas. A tropa estava agora bem montada, bem alimentada, comendo boa carne. Foi assim que chegamos ao Maranhão.
— Minha nossa! — exclamou o Liroca, olhando para o mapa. — Como vocês foram longe, major!
— Depois descemos pro Sul e fizemos um estrupício danado no Nordeste — continuou Toríbio. — Muito vilarejo invadi com o meu piquete de vanguarda. Quase tomamos a capital do Piauí. Chegamos a fazer o cerco e travar combate. Esperávamos um levante dentro de Teresina, mas a coisa gorou. Perdemos nesse ataque uns cem homens, dos bons.
Fez um silêncio. Rodrigo afrouxou o laço da gravata, desabotoou o colarinho e o colete: estava agora mais deitado que sentado na poltrona. Seus olhos continuavam fitos no rosto do irmão, que prosseguiu:
— Foi lá que prenderam o Juarez Távora. Assim, tivemos de entrar no Ceará sem o nosso cearense, com quem a gente contava pra fazer uns contatos e animar o povo. Atravessamos o Rio Grande do Norte e entramos na Paraíba. Marcha forçada. O passeio tinha acabado. Agora não só as forças do governo andavam nos nossos calcanhares como também batalhões de jagunços. Fomos encontrando surpresas pelo caminho. Gente que devia estar do nosso lado atirava em nós. Nossos soldados, mais de metade, estavam atacados de malária. Havia horas que dava no pessoal uma tremedeira danada, que era triste e ao mesmo tempo engraçado de ver.
Toríbio apanhou a última coxa de galinha, meteu-lhe os dentes e, com a boca cheia, retomou a narrativa:
— No limite de Paraíba com Pernambuco me aconteceu outra coisa engraçada. Como disse há pouco, nunca tinha dormido com padre. Outra coisa que eu nunca tinha feito com padre era brigar. Pois no Piancó fui obrigado a dar uns tirinhos no padre Aristides, que na minha opinião era mais cangaceiro que sacerdote. Primeiro nos armou uma cilada, veio de bandeira branca... depois abriu fogo. Pois o diabo do homem defendeu a cidade com seus paroquianos e capangas. Era valente com as armas. Morreu em ação. Por causa do raio desse padre quase nos perdemos do resto da Coluna. Só nos juntamos com ela em terras de Pernambuco. Daí por diante tudo piorou. Tínhamos sido bem recebidos em todos os estados que cruzamos, até o Piauí. Depois a coisa mudou de figura. Corria por toda a parte a notícia da morte do padre Aristides, e em cada lugarejo onde a gente chegava nos recebiam à bala. Uma vez me acerquei dum rancho, gritei: “Ó de casa”, pedi um copo d’água e o que me deram foi uma descarga de chumbo. Depois foi o deserto, o calor e não queiram saber o que é passar sede. Mil vezes pior que fome. Nunca senti tanta saudade dos campos e das aguadas do Angico!
Tornou a rir:
— Me lembrei muito do Euclides da Cunha. Me parecia que eu tinha entrado dentro do livro dele. Tu sabes, Rodrigo, li Os sertões muitas vezes, principalmente a parte da campanha de Canudos. O diabo queira brigar com jagunço! Onde a gente menos esperava, lá estavam eles de tocaia. A gauchada que me acompanhava andava louca da vida. Queriam cargas de cavalaria (o terreno não se prestava), entrevero em campo aberto... Essa história de ficar esperando o inimigo atrás dum toco de pau não era com eles. Depois, quando se metiam pelas caatingas, se feriam nos espinhos e saíam furiosos. — Encolheu os ombros. — Mas que era que se ia fazer? Dança-se de acordo com o par. Tocamos pra diante. E como se os jagunços não bastassem, tínhamos outros inimigos: bichos pequenos e grandes e outras calamidades... Uma ocasião o 2o Destacamento pegou uma sarna braba, e mesmo na hora do combate os soldados tinham de parar pra se coçarem.
Toríbio limpou as mãos lambuzadas de banha nos lados das calças. Deu alguns passos no escritório, sentou-se na escrivaninha e tornou a falar:
— A situação melhorou um pouco quando entramos em Minas Gerais. Os legalistas tinham uma concentração nas margens do São Francisco e nós fomos informados que mais tropas iam ser enviadas do Sul para nos atacar. O remédio era voltar para trás.
— O movimento é a vitória — murmurou Liroca, repetindo sua citação napoleônica favorita.
— Tornamos a entrar na Bahia. Foi lá que me pegaram. Vocês conhecem a história. Mas a Coluna continuou, cruzou Pernambuco, Piauí, meteu-se de novo naqueles campos sem fim de Goiás, atravessou o Mato Grosso e se internou na Bolívia.
— Quantos quilômetros ao todo, major? — perguntou Chiru.
— Não contei. Pra mim distância é movimento. Tempo também é ação. O que eu queria era cancha. Já disse que não carregava no bolso nem folhinha nem relógio. O sol me dizia quando era dia e as estrelas, quando era noite. Quando não havia estrela, a escuridão tinha a palavra. Mas ouvi dizer que a marcha da Coluna Prestes cobriu quase trinta mil quilômetros.
— A la putcha! — exclamou Liroca.
38
O relógio bateu mais uma badalada. Chiru abriu a boca, num bocejo musical. Rodrigo olhou para o relógio-pulseira. Mas Neco e Liroca estavam ainda a escutar, interessados, as palavras do vanguardeiro de Prestes, que, com a voz agora amolentada pelo sono, ainda falava.
— Inventavam cobras e lagartos da Coluna. Diziam em todo o sertão que nós levávamos feiticeiras e que de noite elas dançavam na frente das metralhadoras, e essa dança fazia os soldados ficarem com o corpo fechado. — Toríbio escancara a boca num bocejo. — Essa história de flauta e música tem o seu fundamento. Sempre que a gente acampava, o João Alberto, que é louco por música, fazia funcionar uma vitrola que andava sempre com ele, e tocava os seus discos com uma agulha que com o uso ficou rombuda. Acho que algum espião inimigo ouviu a música e viu as nossas vivandeiras na luz da fogueira dos acampamentos...
— Atribuíam ao Prestes poderes sobrenaturais — disse Rodrigo, que estava quase morto de sono e ao mesmo tempo fascinado pela narrativa do irmão.
— É. Diziam que o homem era adivinho. Inventaram até que, com aquelas suas barbas, o Prestes era uma nova encarnação de dom Pedro ii que voltava para tomar conta do Brasil. Outros garantiam que até a princesa Isabel andava com a gente.
Fez-se um silêncio. Os olhos de Neco aos poucos se apequenavam de sono. Liroca soltou um suspiro:
— Que epopeia!
Toríbio tirou o casaco e a camisa e ficou com o dorso completamente nu.
— Fiz a maior parte da travessia assim... Só botava camisa e casaco de noite, quando a temperatura caía... e quando eu tinha camisa e casaco. Perdi as botas em Pernambuco. Andei de pé no chão durante vários dias.
— Teu peito parece um mapa — sorriu Rodrigo.
Na pele queimada de sol viam-se cicatrizes, lanhos, manchas. Toríbio, sorridente, mostrava as marcas uma a uma com o dedo.
— Chumbo... chumbo... chumbo... — contou doze delas. — Esta aqui foi duma bala que me pegou de raspão. Esta outra não sei bem... um bicho qualquer me mordeu de noite, a ferida apostemou, tive febre.
— Escorpião — sugeriu Liroca, novelesco.
— Quem sabe! E esta aqui, perto da mamica, foi um talho de faca, num corpo a corpo. E o resto, amigos, são arranhões dos espinhos das caatingas, talhos de ponta de pedra... e recuerdos da prisão do Rio. O filho da mãe do carcereiro me queimou a mão com a chama duma vela... estão vendo a marca? Só de implicância. Quebrei-lhe todos os dentes. Daí por diante ficou que nem doce de coco, muito meu amigo, me trazia comidinhas especiais...
Tornou a atirar-se na poltrona e abriu a boca num prolongado bocejo. Bateu no braço do irmão:
— E tu, patife, que não querias que eu fosse pra revolução! Te lembras? Vê só quanta coisa eu ia perder se tivesse ficado...
Eram quase três da madrugada quando Liroca, Chiru e Neco se retiraram do Sobrado, arrastando consigo Tio Bicho, que a todo transe queria ficar para continuar a beber.
Toríbio e Rodrigo permaneceram ainda alguns instantes no escritório, num duelo de bocejos, ambos sonolentos mas sem muito ânimo para subirem a seus quartos.
— Como vai o Zeca? — perguntou o guerrilheiro.
— Muito bem. Foi o primeiro da classe este semestre. Os maristas estão muito orgulhosos dele.
— Não puxou por mim...
Toríbio sorriu, e uma ternurinha lhe brilhou nos olhos mal abertos. Depois ficou a mirar sua “obra-prima” — o navio de paus de fósforos que na cadeia ele armara dentro duma garrafa — que estava agora em cima da escrivaninha.
— Vou dar esse negócio pro meu guri — murmurou ele.
Ergueu-se, acercou-se da mesa, ficou a olhar por alguns segundos para o retrato do velho Licurgo, que ali estava. Depois, tornou a aproximar-se do irmão.
— Nunca duvidaste do meu juízo...
— Ué, Bio? Nunca.
— Sabes que nunca fui de ver visões.
— Claro.
— Nem um mentiroso...
— Homem, que negócio é esse?
Toríbio coçou a cabeça.
— Desde o nosso encontro no Rio estou pra te contar uma coisa que me aconteceu, mas ainda não tive coragem...
Rodrigo ergueu-se, picado pela curiosidade.
— Fala, rapaz! Tens algum problema? Desembucha.
— És a primeira pessoa a quem vou contar a história. A primeira e a última. E te peço que não repitas a ninguém.
— Vamos, homem.
— A coisa aconteceu pouco depois do combate do Piancó. Eu e uns oito companheiros estávamos perdidos no mato. Chegamos a uma clareira e vimos dois caminhos: um que ia pra direita e outro pra esquerda. Qual deles nos podia levar de volta ao grosso do destacamento? Não havia tempo a perder. O inimigo andava por perto. Cinco dos companheiros não tiveram dúvidas: atiraram-se para a direita e se sumiram no mato. Esporeei o cavalo para ir atrás deles quando, de repente, o animal se assustou de qualquer coisa. Pensei que era onça. Olhei pra frente e vi um vulto atravessado no meio das árvores. Agora não vás me chamar de doido. O dia estava claro e eu vi, mas vi mesmo o velho Licurgo a cavalo, de lenço branco no pescoço, bem como no dia que foi morto. Fiquei gelado. Papai me fazia sinais com a cabeça e com a mão, dando a entender que eu não devia seguir por aquele caminho. Dei de rédeas e me toquei pela estradinha da esquerda, sem olhar para trás. Os três homens que estavam comigo me seguiram. Não tínhamos andado nem cinco minutos quando ouvimos um tiroteio. Compreendemos que os outros companheiros tinham caído numa emboscada. Nunca mais soubemos notícias deles...
Rodrigo, arrepiado, olhava para o irmão sem dizer palavra. Toríbio pegou a garrafa com o navio e ergueu-a contra a luz. Um galo cantou longe na madrugada.