Os Favoritos de Fortuna

Colleen McCullough · Capítulo 4 de 15 · parte 3/3

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Os Favoritos de Fortuna

— Não sei... — ia a dizer…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Como seria de esperar, César e Burgundo atraíram as atenções dos clientes, gente que habitualmente se encontrava ali para beber vinho; a maior parte conseguiria regressar a casa no meio da neve, mas alguns (conforme confidenciou o estalajadeiro) passariam a noite no sítio onde caíssem de bêbedos.

— Temos chouriços e pão — disse o estalajadeiro.

— Venha o chouriço e o pão — retorquiu César.

— Vinho?

— Água — disse César com firmeza.

— Demasiado jovem para beber? — perguntou o estalajadeiro, pouco satisfeito com a resposta. Era no vinho que ele lucrava.

— A minha mãe matava-me se eu tocasse em vinho.

— E o teu amigo? Também não pode beber? Já não é nenhuma criança... — Pois não, mas é atrasado mental e é melhor não lhe dar vinho pois os efeitos são tremendos — ele é capaz de arrasar um urso hircaniano e já deu cabo de dois leões que um pretor queria levar aos Jogos — disse César, com um ar muito sério, enquanto Burgundo mantinha uma expressão apática e ausente, como se não estivesse ali. — Foge! — exclamou o homem e bateu em retirada.

Ninguém tentava importunar César quando Burgundo estava por perto. Daí que pudessem sentar-se no recanto mais sossegado daquela turbulenta taberna, onde assistiram ao desporto local, o qual parecia consistir em encher de vinho o mais jovem dos bebedores e especular sobre quanto tempo ele agüentaria.

— Assim é a vida no campo! — comentou César, batendo no seu braço nu. — Quem vê estes labregos, não percebe como é possível que eles votem nas eleições romanas! E ainda por cima, os votos deles contam, porque pertencem a tribos rurais, ao passo que tipos sagazes e despertos para as coisas da política, mas com o infortúnio de terem nascido em Roma, têm votos que não valem nada. Não está certo!

— E nem sequer sabem ler — disse Burgundo, que aprendera a ler recentemente, graças às lições de César e Gnifão.

O seu sorriso, muito lento sempre, começava a formar-se nos lábios. — Ainda bem que assim é, César. Os nossos livros estão a salvo.

— Sem dúvida — disse César, batendo de novo no braço. — Este sítio está cheio de mosquitos!

— Metem-se cá dentro por causa do frio — disse Burgundo. — Aqui está tanto calor que até dava para cozer ovos.

Burgundo exagerava, mas a verdade é que estava um calor insuportável na taberna, o qual resultava do excesso de corpos metidos num espaço limitado e de um fogo que ardia exuberantemente numa lareira; não havia frio que resistisse àquelas achas de madeira, tão grandes como a cintura de um homem, àquelas chamas enormes que se elevavam na direcção do buraco por onde saía o fumo; não havia dúvida que os homens de Trebula, a quem não faltava lenha para queimar, odiavam o frio.

Se os recantos escuros estavam cheios de mosquitos, as camas abundavam em pulgas e percevejos; César passou a noite numa cadeira dura e de bom grado deixou a estalagem ao alvorecer. Atrás dele deixava muitas e variadas especulações sobre os motivos que o levavam a ele e ao seu gigantesco criado a viajar com um tempo assim — e sobre que tipo de homem seria ele. — Gente arrogante! — comentou o estalajadeiro.

— Prescritos — sugeriu a esposa dele.

— Demasiado jovem para ser um prescrito — disse um indivíduo de aspecto urbano que chegara à estalagem no momento em que César e Burgundo partiam. — Além disso, se Sila andasse atrás deles, teriam um ar muito mais assustado!

— Então se calhar vai visitar alguém — disse a esposa.

— É muito provável — disse o estranho, parecendo de súbito inseguro. — É capaz de valer a pena investigar um pouco. Mas aqueles dois, ninguém os esquece, não é? Aquiles e Ajax! — exclamou, exibindo alguma instrução. — O que me surpreendeu foram os cavalos. Valiam uma fortuna! É gente com dinheiro.

— Provavelmente, o rapaz é proprietário da rosea rum, em Reate — disse o estalajadeiro. — Aposto que foi daí que vieram aqueles cavalos. — Há qualquer coisa de Palatino naquele jovem — disse o recém-chegado, cujas suspeitas se avolumavam. — Deve pertencer

a uma das Famílias Famosas. Sim, não há dúvida: é gente com dinheiro. — Pois se é gente com dinheiro, olhe que ele não o traz! — atirou-lhe o estalajadeiro, já aborrecido com a conversa. — Sabe o que é que as mulas traziam? Livros! Uma dúzia de sacas com livros! É o que lhe digo: livros!

Um dia depois, enfrentando um tempo cada vez mais rigoroso à medida que iam subindo as montanhas em torno do monte Fiscelo, César e Burgundo chegaram a Nersas. A mãe de Quinto Sertório era viúva há mais de trinta anos e parecia nunca ter tido marido. Sempre que a via, César não podia deixar de se recordar do falecido e muito lamentado Escauro Princeps Senatus, pois ela era pequena e franzina, com a pele incrivelmente enrugada e com muito pouco cabelo para uma mulher, e possuía um traço de uma beleza extrema: um par de olhos verdes de uma vivacidade inultrapassável. Era um mistério que uma mulher tão pequena e frágil tivesse dado à luz uma criança tão forte e grande como Quinto Sertório. — O meu filho está bem — disse ela a César enquanto enchia a sua velha mesa de produtos do fumeiro e da despensa; como era costume no campo, todos se sentavam à mesa para comer. — Quinto Sertório não teve o mínimo problema em conquistar o governo da Hispânia Citerior, mas prevê que venha a ter muitos problemas agora que Sila é Ditador — disse ela, com uma risadinha jovial. — Ora, não faz mal, não faz mal! Ele vai dar muito mais trabalho a Sila do que o filho do meu primo Mário, pobre rapaz. O jovem Mário teve uma educação demasiado branda. Júlia é uma senhora encantadora. Mas demasiado branda. E o meu primo Mário esteve sempre fora e não acompanhou o rapaz. Tu também tiveste um pai assim, César, mas a tua mãe não é amiga de branduras, pois não?

— Não, Ria — retorquiu César, sorrindo para ela.

— Seja como for, a verdade é que Quinto Sertório gosta da Hispânia. Sempre gostou. Ele e Sila estiveram em Hispânia quando andaram a espiar entre os Germanos, já lá vão alguns anos. Ele disse-me que tinha uma mulher germânica em Osca. Uma mulher e um filho. Fico contente. De outro modo, não haveria ninguém depois de ele morrer. — Quinto Sertório devia casar com uma mulher romana — disse César num tom austero.

Ria soltou um risinho cacarejado.

— Quem? O meu Quinto Sertório? Ora, ele não gosta de mulheres! A mulher germânica apanhou-o porque, para ele se meter na tribo, tinha de ter uma esposa. Não, ele não gosta de mulheres. — Ria franziu os lábios e abanou a cabeça. — Mas também não gosta de homens.

Durante algum tempo, a conversa girou em torno de Quinto Sertório e dos seus feitos. Até que Ria se decidiu a falar do que César devia fazer.

— Eu recebia-te em minha casa com o maior agrado, mas as nossas ligações são demasiado conhecidas e tu não és o primeiro refugiado que eu recebo. O meu primo Mário mandou-me o rei dos Volcas Tectósagos, nem mais nem menos! Chamava-se Copilo. Um homem muito simpático! Muito civilizado, para um bárbaro. É claro que o estrangularam no Cárcer, depois do triunfo do meu primo Mário. Mas ainda cuidei dele durante uns bons anos e isso permitiu-me fazer um bom pé-de-meia. Foram quatro anos, acho eu... Sempre generoso, o meu primo Mário. Pagou-me uma fortuna por esse trabalho. E eu tê-lo-ia feito de graça. Copilo era uma boa companhia... Quinto Sertório não é homem de estar em casa. Gosta da guerra. — Encolheu os ombros, deu umas palmadas nos joelhos e abordou finalmente o que interessava. — Há um casal que eu conheço, que vive nas montanhas entre esta região e Amiterno. Eles ficam contentes por ganharem uns dinheiros extra, e vocês podem confiar inteiramente neles — disso não tenho a mínima dúvida. Eu mando-lhes uma carta e instruções logo que vocês estejam prontos para partir.

— Partimos já amanhã — disse César. Mas ela abanou a cabeça. — Não, amanhã não! E depois de amanhã também não. Está uma grande tempestade e vocês não conseguem encontrar a estrada. Nem vão saber o que têm por debaixo dos pés! Ali o teu criado germânico, quando der por isso, já está no fundo do rio sem sequer saber que estava a atravessar um rio! Vão ter de ficar comigo até que o Inverno abrande. — Abrande?

— Depois das primeiras tempestades, que são as piores. É preciso que o gelo assente. Só então é que é seguro viajar, pois o gelo fica rijo e não há o perigo de se desfazer. É difícil para os cavalos, mas hão-de lá chegar. Deixa o teu criado ir à tua frente, pois os cascos do cavalo dele são tão grandes que o animal, além de pouco escorregar, sempre vai desbastando o terreno para o teu delicado cavalo avançar melhor. Imagina só: trazer um cavalo daqueles para estas bandas, no pino do Inverno! Falta-te bom senso, César!

— Foi o que a minha mãe me disse — retorquiu César, pesaroso. — A essa é que não falta bom senso. Outra coisa: os Sabinos gostam de cavalos. E esse belo animal dá nas vistas. Ainda bem que, no sítio para onde vais, não há ninguém que dê pelo cavalo! — Ria fitou-o com um sorriso franco, revelando alguns dentes estragados. — Mas afinal só tens dezoito anos! Hás-de aprender!

No dia seguinte, César verificou que Ria tinha razão quanto ao tempo; a neve continuava a cair com a mesma intensidade e ia-se empilhando no chão, formando maciços montes. Se César e Burgundo não tivessem pegado em pás e mourejado umas boas horas, a confortável casa de pedra de Ria depressa teria ficado cercada de neve e nem mesmo Burgundo teria conseguido abrir a porta. Nevou ainda durante mais quatro dias. Depois, começaram a aparecer no céu algumas réstias de azul e o ar ficou muito mais frio. — Gosto do Inverno aqui — disse Ria, ajudando-os a empilhar a palha no calor dos estábulos. — Em Roma, um Inverno frio é uma desgraça, e a verdade é que nesta década estamos a passar por um ciclo de Invernos frios. Mas aqui, pelo menos, é um Inverno limpo e seco, ainda que muito frio.

— Tenho de partir muito em breve — disse César.

— Tendo em conta as quantidades de comida que o teu criado e o cavalo dele comem, ficarei muito contente em vê-los pelas costas — disse a mãe de Sertório, com um riso grunhido. — Mas não amanhã. Talvez depois de amanhã. Logo que seja possível viajar entre Roma e Nersas vocês deixarão de estar em segurança aqui. Se Sila se lembrar de mim — e é muito capaz de se lembrar, pois conheceu muito bem o meu filho — é certo e sabido que a primeira coisa que fará será mandar os seus lacaios à minha casa. Mas os hóspedes de Ria não partiriam tão cedo. Na noite anterior à partida, César adoeceu. Embora o tempo não estivesse exageradamente frio, a casa estava bem aquecida, pois possuía braseiros, dispostos contra as largas paredes de pedra, e boas e fortes persianas que a protegiam dos ventos. Apesar disso, César tinha frio, cada vez mais frio. — Não estou a gostar disto — disse-lhe Ria. — Até oiço os teus dentes a baterem. E é mais do que uma simples sezão, pois já dura há demasiado tempo. — Pôs a mão na testa dele e recuou, assustada. — Tu estás a arder em febre! Não te dói a cabeça? — Muito — murmurou ele.

— Então não sais daqui amanhã. Anda cá, meu gigante, leva o teu amo para a cama! E César meteu-se na cama, consumido pela febre, abalado por uma tosse seca e por uma dor de cabeça perpétua, e incapaz de ingerir comida.

— Caelum grave et pestilens — disse a curandeira chamada para ver o doente. — Não é uma sezão típica — disse a teimosa Ria. — Não é uma quarta, nem uma terça. E além disso, ele não sua.

— É uma sezão, sim, Ria. Mas é uma sezão fora do comum. — Ah, então vai morrer!

— O rapaz é forte — disse a curandeira. — Faz com que ele beba. Não posso dar melhor conselho. Água misturada com neve.

Sila preparava-se para ler uma carta de África, enviada por Pompeu, quando lhe apareceu o chefe dos criados, Crisógono, muito alvoroçado. — O que é que se passa? Estou ocupado, não vês? Quero ler esta carta! — Domine, é uma senhora, uma senhora que quer vê-lo.

— Diz-lhe que desapareça!

— Não posso, domine!

Aquela resposta distraiu Sila da leitura da carta; surpreendido, fitou Crisógono. — Nunca pensei que houvesse alguém capaz de te vencer e convencer, Crisógono! — disse ele, divertido. — Mas tu estás a tremer, homem! Ela mordeu-te? — Não, domine — retorquiu o criado, que não tinha o mínimo sentido de humor. — Mas cheguei a pensar que era capaz de me matar.

— Ah, então tenho de vê-la! Disse-te o nome? É mortal?

— Ela disse que se chamava Aurélia. Sila estendeu o braço e observou-o. — Olha! Ainda não estou a tremer!

— Mando-a entrar?

— Não. Diz-lhe que nunca mais quero vê-la — retorquiu Sila, mas não pegou de novo na carta de Pompeu; a carta já não lhe interessava.

— Domine, ela recusa-se a abandonar esta casa enquanto não o vir! — Então manda os criados pô-la na rua.

— Já tentei fazer isso, domine. Mas eles recusaram. Nem com um dedo lhe tocaram. — Pois fizeram bem! — Sila soprou, cerrou os olhos. — Está bem, Crisógono, manda-a entrar.

Aurélia não demorou.

— Senta-te — disse-lhe Sila.

Ela sentou-se. A luz forte do Inverno banhava-a sem mercê e, uma vez mais, Sila, ou os destroços do que ele fora, podia ver que o tempo não marcara ainda aquele rosto de traços perfeitos. No seu quartel-general de Teano, a luz era tão fraca que mal a enxergava. Por isso, agora, tirava a desforra. Aquela magreza poderia tê-la tornado menos bela; pelo contrário, ainda a tornava mais bela, e o tom róseo que lhe impregnava os lábios e as faces tinha-se esbatido, deixando que a pele ganhasse uma brancura de mármore. O cabelo não tinha encanecido; por outro lado, era evidente que ela não queria ficar com um ar mais jovem, pois continuava a usar o mesmo tipo de penteado austero, puxado atrás, num rolo. E os olhos eram tão belos, rodeados por espessas pestanas negras, sob umas sobrancelhas igualmente negras e fartas. Aqueles olhos que agora o fitavam gravemente.

— Vieste por causa do teu rapaz, imagino — disse ele, recostando-se na sua cadeira. — Sim.

— Então fala! Estou a ouvir.

— Foi por causa de ele ser tão parecido com o teu filho? Abalado, Sila não conseguiu continuar a olhá-la nos olhos.

Fixou a carta de Pompeu até a dor desaparecer.

— Foi um choque quando o vi, é verdade. Mas não foi por isso que tomei aquela decisão. — Os olhos dele voltaram a fixar-se nos dela, frios e poderosos. — Eu gostava do teu filho, Lúcio Cornélio.

— Não será assim que levarás a água ao teu moinho, Aurélia. O meu filho morreu há muito tempo. Aprendi a viver com isso, mesmo quando pessoas como tu tentam aproveitar-se do facto.

— Nesse caso, sabes o que eu pretendo.

— Claro que sei. — Inclinou a cadeira para trás, pois não se sentia muito confortável naquela cadeira baixa e larga e com pernas recurvadas. — Queres que eu poupe o teu filho. Apesar de o meu não ter sido poupado.

— Não podes culpar-me ou culpar o meu filho por isso!

— Posso culpar quem eu quiser por tudo o que eu muito bem entender! Eu sou o Ditador! — gritou ele, com espuma ao canto dos lábios.

— Disparates, Sila! Tu acreditas nisso tanto como eu! Eu estou aqui para te pedir que poupes o meu filho, porque o meu filho não merece morrer, tal como não mereceu ser nomeado flamen Dialis.

— Concordo que ele não é o homem certo para esse cargo. Mas foi o cargo que lhe deram. E tu deves ter querido que ele desempenhasse esse cargo. — Eu não queria que ele fosse flamen Dialis. O meu marido também não. Fomos informados da sua nomeação, nada mais. Pelo próprio Mário, no meio das suas atrocidades — disse Aurélia, erguendo o seu lábio em sinal de repulsa. — E foi também Mário quem disse a Cina que o meu filho devia casar com a filha dele. A última coisa que Cina queria era ver Cinila no cargo de flaminica Dialis.

Sila mudou de assunto.

— O teu rosto já não tem o mesmo tom rosado de outros tempos — disse ele. — Como tens uma cara ossuda, ficava-te bem.

— Ora, deixa-te de disparates! — atirou-lhe ela. — Eu não vim aqui para agradar aos teus olhos inquisidores, vim aqui para defender o meu filho! — Gostaria muito de poupar o teu filho. Ele sabe o que tem a fazer. Divorciar-se da filha de Cina.

— Ele não se divorciará.

— E porque não? — gritou Sila, erguendo-se num impulso. — Porque não? Um pouco de cor subiu pelas faces de Aurélia, avermelhou-lhe os lábios — Porque tu, grande imbecil, tu lhe mostraste que continuar casado é uma maneira de fugir a um cargo que ele abomina com todas as forças do seu ser! Divorciar-se dela e permanecer flamen Dialis por toda a vida? O meu filho preferia morrer!

Sila fitou-a boquiaberto.

— O quê?

— És um imbecil, Sila! Um imbecil! Ele nunca se divorciará dela! — Não me chames imbecil!

— Chamo-te o que muito bem entender, velha relíquia! Velho poço de maldade! Um silêncio estranho fez-se então entre os dois. A fúria de Sila esbateu-se, enquanto a dela crescia. Ele tinha-se virado para a janela, mas agora fitava-a de novo, com algo mais na sua mente do que a raiva ou a provação que ela representava.

— Comecemos do princípio — disse ele. — Diz-me porque é que Mário tornou o teu filho flamen Dialis se nenhum de vós o queria.

— Mário fez isso por causa da profecia — disse ela.

— Sim, eu sei dessa história. Cônsul sete vezes. Terceiro Fundador de Roma. Ele contava isso a toda a gente.

— Não contava tudo. Havia uma segunda parte que ele não contava. Só contou quando a sua mente começou a falhar. Contou ao filho, que contou a Júlia, que me veio contar a mim. Sila sentou-se de novo, intrigado.

— Continua — disse ele.

— A segunda parte da profecia dizia respeito ao meu filho César. A velha Marta predisse que César seria o maior romano de todos os tempos. E Caio Mário também acreditou nisso. E nomeou

César flamen Dialis para o impedir de ir para a guerra e de fazer carreira política. — Aurélia sentou-se, lívida.

— Porque um homem que não pode ir para a guerra e não pode disputar o consulado nunca será famoso — disse Sila, aquiescendo. Assobiou. — Muito esperto, aquele Mário! Brilhante! Se o teu rival for o flamen Dialis, tens a vitória garantida! Nunca pensei que aquela velha besta fosse tão perspicaz.

— Ah sim, perspicácia não lhe faltava!

— É uma história interessante — disse Sila, pegando na carta de Pompeu. — Podes ir, já ouvi que chegue.

— Poupa o meu filho!

— Só se ele se divorciar.

— Ele nunca fará isso.

— Então não temos mais nada a dizer. Vai-te embora, Aurélia. Mais uma tentativa. Mais uma tentativa por César.

— Eu chorei por ti uma vez. Tu gostaste disso. Agora dou comigo desejando chorar por ti uma vez mais. Mas tu não gostarias dessas lágrimas. Porque eu estaria a chorar a morte de um grande homem. Porque aquele que eu vejo à minha frente desceu tão baixo que agora até persegue crianças. A filha de Cina tem doze anos. O meu filho, dezoito. Crianças! E no entanto, a viúva de Cina passeia-se impudentemente por toda a cidade porque agora é esposa de outro homem, e porque esse outro homem te apoia. O filho de Cina ficou sem dinheiro e não teve outra alternativa senão deixar o seu país. Outra criança. Enquanto a viúva de Cina prospera na vida. Mas ela não é nenhuma criança. — Aurélia sorriu-lhe com desprezo. — Ânia é ruiva, é claro. Terás ainda nessa cabeça velha e calva alguns dos cabelos de Ânia? E dito isto, virou-lhe as costas e foi-se embora. Crisógono entrou então, tão agitado como antes.

— Quero que me encontres uma pessoa — disse Sila, com o ar mais preverso que podia ter. — Que encontres, Crisógono. Não quero o homem proscrito, nem morto. Desejoso de saber o que transpirara da conversa entre o seu amo e aquela mulher extraordinária — ah, com certeza que tinha havido alguma coisa entre os dois, noutros tempos! —, o chefe dos criados suspirou para dentro (nunca se sabia como Sila reagiria, até mesmo a um suspiro) e disse muito baixinho:

— Uma transacção privada?

— Ora aí está um bom nome para o que eu quero! Isso mesmo, uma transacção privada. Dois talentos de recompensa para quem localizar Caio Júlio César, o flamen Dialis. O qual deve ser trazido à minha presença sem um único arranhão! Informa os teus homens correctamente. Ninguém mata o flamen Dialis. Eu só o quero aqui, à minha frente. Entendido? — Claro, domine — retorquiu o chefe dos criados, embora não fizesse nenhum movimento para se ir embora. Em vez disso, pigarreou delicadamente. Sila voltara a atentar na carta de Pompeu, mas, perante aquela insistência, ergueu de novo a cabeça.

— O que há?

— Eu já fiz o esboço que me pediste, domine, na altura em que te perguntei se podia ser nomeado como o burocrata encarregado da administração das proscrições. Também já tenho um chefe de criados para me ajudar nas tarefas domésticas. Podes falar com ele quando quiseres, para o caso de concordares com a minha nomeação.

O sorriso de Sila não era nada agradável.

— E acreditas mesmo que vais poder fazer os dois trabalhos ao mesmo tempo? Isto é, se eu aceitar o chefe de criados que me propões.

— É preferível que eu faça os dois trabalhos, domine. Lê o meu esboço. Ele mostra de forma muito clara que eu entendo realmente a natureza desse trabalho administrativo. Porque hás-de dar o cargo a um profissional do Tesouro que se mostrará demasiado tímido para procurar clarificar os problemas e que estará demasiado preso aos métodos do Tesouro para tirar proveito dos aspectos mais comerciais do cargo?

—vou pensar no caso. Depois, comunico-te a minha decisão — disse Sila, pegando uma vez mais na carta de Pompeu. Impassível, viu o criado fazer a vénia e deixar a sala. Depois, pôs um sorriso amargo. Que criatura abominável! Que homem abjecto! E no entanto, era de um homem assim que a administração das proscrições precisava — um homem absolutamente abominável. Mas digno de confiança. Se o administrador fosse Crisógono, Sila podia ter a certeza de que não haveria liberdades desastrosas na administração. Sem dúvida que Crisógono arranjaria maneira de desviar algum lucro para os seus bolsos, mas ninguém estava em melhor posição do que Crisógono para saber que as coisas lhe correriam muito mal, caso esses lucros se reflectissem pessoalmente em Sila. O aspecto comercial das proscrições tinha de ser conduzido de uma forma positiva e respeitável, pelo menos na aparência — venda de propriedades, encaminhamento de dinheiros, joalharia, mobiliário, obras de arte, interesses e acções. Sila não teria a mínima possibilidade de administrar tudo aquilo; por isso, alguém teria de o fazer. Crisógono tinha razão. Antes ele que um burocrata do Tesouro! com um desses burocratas, o trabalho nunca estaria feito. As coisas tinham de andar rápidas. Mas ninguém podia ter a mínima hipótese de dizer que Sila tinha lucrado com essas operações, à custa do Estado. Embora fosse um liberto, a verdade é que Crisógono era sobretudo um homem de Sila; e Crisógono sabia que o seu amo não teria a menor relutância em matá-lo caso ele errasse. Satisfeito com o facto de ter resolvido o dilema das proscrições, Sila começou finalmente a ler a carta de Pompeu.

A Província de África e a Numídia estão pacificadas e calmas. Foi um objectivo que realizei em quarenta dias. Parti de Lilibeu no final de Outubro com seis legiões e dois mil cavaleiros, deixando Caio Mémio à frente da Sicília. Achei que não havia necessidade de deixar uma guarnição militar na Sicília. Já tinha começado a reunir navios quando cheguei à Sicília e, no final de Outubro, havia mais de oitocentos navios à nossa disposição. Sempre gostei da boa organização, poupa-nos muito tempo. Antes de partir, enviei um mensageiro ao rei Bogud da Mauritânia, o qual se encontra desde há algum tempo em lol, com o seu exército. lol não fica tão longe como Tíngis. Bogud reina agora em lol e deixou um representante seu, Ascális, em Tíngis. Todas estas mudanças se devem às lutas na Numídia, onde o príncipe larbas usurpou o trono ao rei Hiempsal. O meu mensageiro instruiu o rei Bogud para que invadisse imediatamente a Numídia pelo lado ocidental. A minha estratégia consistia no seguinte: Bogud empurraria larbas para leste, onde eu estaria à sua espera e poderia facilmente destroçá-lo. Distribuí os meus homens por duas divisões, deixando a primeira na velha Cartago e a segunda em Útica. Eu próprio

comandei a segunda divisão. No momento em que desembarquei, sete mil homens de Cneu Aenobarbo vieram comunicar-me a sua submissão, o que me pareceu ser um bom augúrio. Aenobarbo decidiu travar a batalha imediatamente. Tinha medo de que desertassem mais homens do seu exército, caso não o fizesse. Instalou o seu exército na encosta de uma ravina, planeando emboscar-me a meio do meu caminho. Mas eu subi a um penhasco e vi o exército dele. Por isso não caí na armadilha que ele tinha montado. Entretanto começou a chover (o Inverno é a estação das chuvas na Província de África) e tirei proveito do facto de que a chuva batia de frente nos soldados de Aenobarbo. Obtive uma grande vitória e os meus homens proclamaram-me imperador no campo de batalha. Mas Aenobarbo e três mil dos seus homens escaparam ilesos. Os meus homens iam já a meio da cerimónia de consagração do imperador quando eu os detive, dizendo-lhes que podiam fazer isso mais tarde. Eles deram-me razão. Por isso, corremos para o campo de Aenobarbo e matámo-lo a ele e a todos os seus homens. Permiti então que os meus homens me consagrassem finalmente imperador no campo de batalha. Avancei então na direcção da Numídia, já que todos os insurrectos ainda em liberdade se tinham rendido. Executei-os em Útica. larbas, o usurpador, fugiu para Bula Régis — uma cidade junto ao curso superior do rio Bágrada —, pois soube que eu me aproximava vindo do leste, ao passo que Bogud vinha de oeste. Claro que cheguei a Bula Régis primeiro que o rei Bogud. Bula Régis abriu-me as portas no instante em que cheguei e entregou-me larbas. Executei-o imediatamente, tal como um outro chefe, de seu nome Masinissa. Devolvi ao rei Hiempsal o seu trono. Até tive tempo para caçar animais selvagens. Esta região abunda em animais selvagens de todos os tipos, desde elefantes até criaturas enormes parecidas com gatos. Estou a escrever-te esta carta do nosso acampamento na planície numidiana. Tenciono regressar em breve a Útica, depois de ter submetido todo o Norte de África em quarenta dias, como já referi. Não é necessário guarnecer militarmente esta nossa província. Podes mandar um governador sem qualquer espécie de receio.vou embarcar com as minhas seis legiões e dois mil cavaleiros

e partir para Tarento. Depois, marcharei com eles pela Via Ápia na direcção de Roma, onde gostaria que me fosse concedido um triunfo. Os meus homens consagraram-me imperador no campo de batalha, portanto tenho direito a um triunfo. Pacifiquei a Sicília e a África em cem dias e executei todos os teus inimigos. Também tenho uns belos despojos para exibir no meu desfile do triunfo.

Quando terminou a leitura, Sila chorava já de tanto rir, sem saber ao certo se as ingénuas confidências da missiva o divertiam mais do que a sua arrogância ou do que o cuidado posto nas informações (em particular, o facto de o Inverno ser a estação das chuvas naquela região africana ou o facto de Bula Régis ficar no curso superior do Bágrada) — com certeza que Pompeu sabia que Sila tinha passado muitos anos em África e capturara sem qualquer auxílio o rei Jugurta...! Ao fim de apenas quarenta dias Pompeu sabia tudo. Quantas vezes dizia ele na carta que as suas tropas o tinham consagrado imperador no campo de batalha? Mas que palerma aquele! Pegou numa folha de papel e escreveu a Pompeu; aquela era uma carta que nunca por nunca ditaria a um secretário.

Foi com grande prazer que recebi a tua carta e desde já te agradeço as interessantes informações que me dás sobre África. Gostaria de a visitar um dia, nem que seja para ver, com os meus próprios olhos, essas criaturas enormes parecidas com gatos de que tu falas na tua missiva. Parabéns. Mas que rapaz despachado que tu és! Quarenta dias. Quarenta dias, ao que sei, foi o tempo que a Mesopotâmia demorou a ser inundada já lá vai um milênio. Sei que posso confiar em ti quando dizes que a África e a Sicília não precisam de guarnições militares, mas, meu caro Pompeu, as formalidades têm de ser cumpridas. Ordeno-te, por isso, que deixes cinco das tuas legiões em Útica e que regresses apenas com uma. Não interessa qual: se tens uma legião favorita, trá-la contigo. A propósito de favoritos: está visto que és um dos favoritos de Fortuna!

Infortunadamente, não poderei autorizar-te a celebrar um triunfo. Embora as tuas tropas te tenham consagrado imperador

no campo de batalha, os triunfos são reservados aos membros do Senado que atingiram o estatuto de pretor. Tu vencerás mais guerras nos anos que hão-de vir, por isso terás direito ao teu triunfo mais tarde.

Também queria agradecer-te o rápido envio do aparelho de comer, ver, ouvir e cheirar que pertenceu a Carbão. Não há nada como uma cabeça para convencer os homens de que outros homens acabaram na poeira do chão, isto para citar Homero. A força da minha asserção de que Carbão estava morto e de que Roma não tinha cônsules tornou-se imediatamente evidente. Que bela ideia a tua, a de meteres a cabeça em vinagre! Obrigado também por Sorano. E pelo velho Bruto.

Há apenas um pequeno pormenor, meu caro Pompeu. Preferia que tivesses tratado do caso de Carbão de uma maneira menos pública, já que estavas determinado a seguir um processo tão bárbaro. Começo a acreditar no que dizem as pessoas — no fundo de um homem do Piceno está sempre a Gália toda. A partir do momento em que resolveste sentar-te num tribunal com a toga praetexta vestida e com cadeira curul e lictores, passaste a ser Roma. Mas a verdade é que tu não te comportaste como um romano. Depois de teres atormentado o pobre Carbão durante horas e horas debaixo de um sol abrasador, anunciaste, em tons de rei e senhor, que ele não merecia um julgamento e que, por isso, seria executado ali mesmo. Como lhe tinhas dado alojamento e o tinhas alimentado de forma atroz durante alguns dias antes desse deprimente acto público, o homem estava doente. No entanto, quando ele te pediu que o autorizasses a retirar-se, porque queria aliviar os intestinos antes de morrer, tu negaste-lhe a permissão! Segundo me disseram, o homem morreu enterrado na sua própria merda. Como é que eu soube de tudo isto? Tenho as minhas fontes. Se não tivesse, duvido que fosse agora o Ditador de Roma. Tu és muito novo e cometeste o erro de pensar que eu, por querer que Carbão morresse, não tinha tempo nenhum para ele. Em parte, é verdade. Mas eu tenho todo o tempo do mundo para o consulado de Roma. E o que é verdade também é que Carbão, quando foi morto, era um cônsul eleito. De futuro, jovem Pompeu, é melhor que te lembres de que todas as honras são devidas ao cônsul, mesmo que o seu nome seja Cneu Papírio Carbão.

A propósito de nomes. Ouvi dizer que, com esse bárbaro episódio na agora de Lilibeu, ganhaste mais um nome. Um grande benefício para os infortunados que, nascendo sem um terceiro nome, se vêem condenados a um certo apagamento. Não é verdade, Pompeu Sem Terceiro Nome? Adulescentulus carnifex! O Miúdo Carniceiro. Acho que é um apelido maravilhoso para ti! Miúdo Carniceiro! És um carniceiro, tal e qual como o teu pai. Repito: cinco das tuas legiões ficarão em Útica, onde aguardarão a chegada do novo governador. Tratarei de escolher alguém para esse cargo quando tiver tempo. Quanto a ti, podes regressar à vontade. Estou ansioso por te ver. Podemos ter uma conversa muito agradável sobre elefantes e eu juro quevou aproveitar as tuas lições sobre África e sobre as coisas africanas. Tenho também de te mandar as minhas condolências pela morte de Públio Antístio Veto e da sua esposa, teus sogros. É difícil entender por que motivo Bruto Damásipo incluiu Antístio entre as suas vítimas. Mas é claro que Bruto Damásipo já está morto e não poderá explicar. Mandei-o executar. Mas em privado, Pompeu Miúdo Carniceiro. Em privado. Ora aqui está uma carta que eu gostei realmente de escrever!, pensou Sila ao concluir a missiva. Porém, nesse mesmo instante, o seu semblante carregou-se. Começou a pensar no que haveria de fazer com o Miúdo Carniceiro nos tempos mais próximos. É que aquele rapaz dificilmente largaria uma coisa a que se tivesse agarrado com unhas e dentes. Era o caso do triunfo. E um homem que era capaz de se instalar, no maior estadão, na praça pública de uma cidade não romana, e rodear-se de lictores e sentar-se na cadeira curul, e que depois se comportava como o mais bárbaro dos bárbaros, não ia apreciar as nuances de um protocolo triunfal. Talvez Sila se apercebesse de que o Miúdo Carniceiro era suficientemente esperto para reivindicar a consagração através de processos que minariam a sua recusa em conceder-lhe o triunfo; é que, nesse momento, Sila imaginava já intrigas e conspirações contra Pompeu. O seu sorriso voltava a iluminar-lhe o rosto e, quando o seu secretário entrou, o homem soltou involuntariamente um suspiro, tal era o alívio por ver o seu amo bem disposto. — Ah, Flósculo! Chegaste mesmo no momento certo. Senta-te e pega nas tuas tábuas. Estou tão bem disposto que me apetece tratar com a maior generosidade todo o género de pessoas, incluindo aquele indivíduo esplêndido que dá pelo nome de Lúcio Licínio Murena e que é o meu governador da Província da Ásia. Sim, sim, decidi perdoar-lhe todas as suas agressões contra o rei Mitridates e o facto de não ter obedecido às minhas ordens. Creio quevou precisar do indigno Murena; por isso, escreve-lhe a dizer que decidi que ele deve voltar a Roma o mais depressa possível a fim de celebrar um triunfo. Escreve também ao Flaco que está na Gália Transalpina e diz-lhe também que regresse imediatamente a fim de celebrar o seu triunfo. Ah, e cada um desses homens deve trazer consigo pelo menos duas legiões... Sila estava imparável e o secretário fez todos os esforços possíveis para o acompanhar. Da mente de Sila tinham desaparecido todas as recordações de Aurélia e daquela irritante entrevista; nem sequer se lembrava de que Roma tinha um flamen Dialis recalcitrante. Tinha de tratar primeiro do caso de um outro jovem, muito mais perigoso, e, para tal, teria de usar processos quase tão subtis como os que planeara para o jovem César — quase, mas não tão subtis. De qualquer modo, tinha de levar em conta que o Miúdo Carniceiro, quando tocava a defender os seus interesses, era sempre muito, muito esperto. Em Nersas, como Ria previra, o tempo invernoso caracterizava-se agora por temperaturas baixas e um céu muito azul; porém, a Via Salária, que conduzia a Roma, encontrava-se aberta, tal como a estrada que ia de Reate a Nersas, e o caminho que percorria os cimos dos montes até ao vale do rio Aterno. Mas nada disso interessava César, o qual vinha piorando de dia para dia. Na fase inicial, e mais lúcida, da sua doença, tentara levantar-se e sair, mas logo que se levantava era invadido por uma incontrolável vaga de fraqueza que o deitava por terra como se fosse uma criança aprendendo a andar. Ao sétimo dia, desenvolveu uma tendência para ficar adormecido e apático, a qual, gradualmente, se foi transformando num coma superficial. Foi então que chegou à casa de Ria Lúcio Cornélio Fagita, acompanhado pelo desconhecido que vira César e Burgundo na

estalagem de Trebula. Ria não pôde impedi-los de entrar, já que tinha mandado Burgundo cortar lenha.

— Tu és a mãe de Quinto Sertório e o homem que está naquela cama a dormir é Caio Júlio César, o flamen Dialis — disse Fagita, extremamente satisfeito. — Ele não está a dormir. Ele não consegue deixar de dormir — disse Ria. — Está a dormir.

— Há uma pequena diferença. Eu não consigo acordá-lo. Aliás, ninguém consegue. O rapaz está doente. com a pior das sezões. O que significa que vai morrer. Aquela não era uma notícia agradável para Fagita, pois sabia que a recompensa pela cabeça de César só seria paga se a cabeça permanecesse ligada a um corpo vivo. Tal como os outros esbirros de Sila que eram também os seus libertos, Lúcio Cornélio Fagita tinha muito poucos escrúpulos e nenhuma moral. Fagita, um grego alto e belo, na casa dos quarenta, e que preferira vender-se como escravo a procurar um meio de ganhar a vida na sua devastada terra natal, tinha-se agarrado a Sila como uma lapa e, como recompensa, fora nomeado chefe de um dos bandos que perseguiam os proscritos; quando lhe foi entregue o caso de César, havia já ganho um total de catorze talentos por matar homens incluídos nas listas. Se levasse César vivo, ganharia mais dois talentos; e Fagita não gostava da perspectiva de perder dinheiro. No entanto, Fagita não revelou a Ria a natureza da sua comissão. Primeiro que tudo, pagou ao seu informador, que não largava a cama de César, para que o homem desaparecesse rapidamente. Neste caso, a morte não era uma boa coisa para os seus rendimentos. Mas talvez o rapaz tivesse dinheiro com ele. com alguma esperteza, pensou Fagita, talvez conseguisse arrancar dinheiro à velha contando-lhe uma história.

— Muito bem — disse ele, pegando na sua enorme faca. — De qualquer modo, posso cortar-lhe a cabeça. E depoisvou a Roma receber os meus dois talentos. — Toma mas é cuidado, citocacia! — gritou-lhe Ria, enfrentando-o corajosamente. — Há um homem que não tarda aí e que te mata num abrir e fechar de olhos se por acaso tocares no amo dele!

— O quê, aquela besta germânica? Então, ouve o que te digo: vai chamá-lo. Vá, vai lá chamá-lo, que eu sento-me aqui na beira da cama e faço companhia ao amo dele. — Fagita sentou-se ao lado da figura que jazia na cama, com a faca encostada à garganta de César. Enquanto Ria corria pelos caminhos gelados a chamar por Burgundo, Fagita foi até à porta da frente e abriu-a; lá fora, estavam os seus capangas, os membros da sua decúria. — O gigante germânico está cá. Matamo-lo se for preciso, mas é muito possível que alguns de nós fiquem com uns quantos ossos partidos. Por isso, só lhe damos luta se não tivermos outra hipótese. O rapaz está a morrer, não ganhamos nada com ele — explicou Fagita. — O que euvou fazer é tentar sacar-lhes o máximo de dinheiro possível. Mas quando o fizer, preciso que vocês me protejam do germano. Entendido?

Fagita voltou para dentro de casa e estava sentado na cama, com a faca encostada à garganta de César, quando Ria regressou com Burgundo. Do peito de Burgundo cresceu um rugido tremendo, mas a verdade é que a gigantesca criatura não fez qualquer movimento na direcção da cama, limitando-se a ficar no vão da porta, cerrando e abrindo as suas mãos enormes. — Ora muito bem! — disse Fagita num tom muito amistoso e sem qualquer receio. — Agora, velha,vou dizer-te o que deves fazer. Se tiveres dinheiro que chegue, eu posso deixar-te o rapaz com a cabeça em cima dos ombros. Os meus nove homens estão lá fora à minha espera, de maneira que eu posso cortar este belo pescoço e chegar ao caminho mais depressa que o teu gigante chegaria aqui. Entendido?

— Eu entendo, mas Burgundo não. Ele não fala uma palavra de grego. — Mas que animal! Então eu negoceio contigo, avozinha. Quanto tens para me dar? Por um momento, Ria ficou quieta, de olhos cerrados, perguntando a si mesma o que haveria de fazer. E como era tão prática como o seu filho, decidiu negociar com Fagitas para se ver livre dele. Se não o fizesse, César morreria antes que Burgundo conseguisse chegar à cama; e Burgundo e ela teriam a mesma sorte. Por isso, abriu os olhos e apontou para as sacas de livros que estavam empilhadas a um canto.

— Estás a ver aquelas sacas? Tens ali três talentos — disse ela. Fagita olhou para as sacas e assobiou.

— Três talentos! Muito interessante!

— Pega nas sacas e vai-te embora. Deixa-o morrer em paz. — Deixo, avozinha, está descansada. — Pôs os dedos entre os lábios e assobiou estridentemente.

Os seus homens entraram então aos tropeções, brandindo as espadas, pensando que iam lutar contra Burgundo. Para sua grande surpresa, todos os actores daquela cena estavam tão quietos como estátuas; mas a maior surpresa veio quando viram que o seu prêmio era constituído por livros.

— Por todos os deuses, mas que livros mais pesados! — disse Fagita ao pegar numa das sacas. — O nosso flamen Dialis é uma inteligência!

Três idas e vindas e as sacas de livros desapareceram. Da terceira vez que os seus homens entraram na casa, Fagita ergueu-se da cama e misturou-se rapidamente com eles. — Adeuzinho! — disse ele, e desapareceu. Do caminho vieram sons de actividade, depois o barulho das patas dos cavalos nas lajes, e, finalmente, o silêncio. — Devias ter-me deixado matá-los — disse Burgundo.