Os Favoritos de Fortuna
— Não sei... — ia a dizer…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Aurélia despertou subitamente dos seus pensamentos: César, sentado à secretária, chamava-a e ria-se.
— Mas onde é que tu estás, mãe? — perguntou ele.
— Por todo o lado — respondeu ela, levantando-se, dando-se conta subitamente do frio. —vou pedir a Burgundo para trazer o braseiro, César. Este quarto está um gelo. — Mas que exagerada! — retorquiu ele, ternamente.
— Não quero que vás ter com Sila a fungar e a espirrar — contrapôs Aurélia. Mas no dia seguinte César estava perfeitamente bem: nem fungadelas, nem espirros. O jovem apresentou-se na casa de Cneu Aenobarbo uma boa hora antes do jantar, pois preferia esperar no átrio a chegar demasiado tarde. Como seria de esperar, o chefe dos criados — um grego de maneiras muito afectadas que o sujeitou a uma série de subtis e insinuantes olhares — informou-o de que chegara demasiado cedo.
— Não se importa de esperar um pouco? — perguntou-lhe o chefe dos criados. Dando-se conta de que o homem lhe provocava pele de galinha, César fez um breve aceno para lhe dizer que não se importava de esperar e virou imediatamente as costas àquele que, muito em breve, se tornaria famoso, àquele que toda a Roma conheceria como Crisógono. Mas Crisógono não se ia embora; era evidente que ficara fascinado com César e que não resistira a tentar a sua sorte. César, pelo seu lado, teve o bom senso de não fazer o que lhe apetecia — partir-lhe os dentes todos. Momentos depois, porém, César teve uma inspiração decisiva: bruscamente, encaminhou-se para a varanda; o chefe dos criados detestava demasiado o frio para se dar ao trabalho de o seguir. Aquela casa tinha duas varandas. A que César escolhera, e onde fazia agora desenhos na neve para passar o tempo, não dava para o Fórum Romano, mas sim para o penhasco do Palatino na direcção da Clivus Victoriae. Mesmo acima encontrava-se a varanda de uma outra casa, a qual se projectava literalmente sobre a casa de Aenobarbo. De quem era aquela casa? César fez um esforço para se lembrar. Ah, sim, era a casa de Marco Lívio Druso, assassinado no átrio dez anos antes. Então aquela é que era a casa onde viviam todos aqueles órfãos, sob o rigoroso controlo de... de quem? Sim, sim, da filha daquele Servílio Cepião que morrera afogado ao regressar da sua província! Cneia? Sim, Cneia. Acompanhada pela mãe, aquela criatura capaz de assustar qualquer um, aquela temível mulher chamada Pórcia Liciniana! Naquela casa, viviam não sei quantos Servílios Cepiões e Pórcios Catões. Os Pórcios Catões do ramo inferior, do ramo Salónio. Descendentes de um escravo. Ah, ali estava um deles! César debruçou-se sobre a balaustrada de mármore para melhor ver um rapaz muito magro, quase esquelético, com um pescoço tão alto que fazia lembrar uma cegonha, e um nariz suficientemente grande para se tornar notado àquela distância. Uma cabeleira farta, escorrida, ruiva. Sim, aquele não podia enganar ninguém: pertencia à prole de Catão, o Censor! Todos estes pensamentos indicavam um elemento da personalidade de César que Aurélia, durante o seu devaneio, não catalogara: ele adorava bisbilhotices e não se esquecia de nenhum mexerico.
— Ilustre sacerdote, o meu senhor está pronto a recebê-lo. César virou-se com um sorriso e um aceno simpático para o rapaz que estava na varanda de Druso; divertido, reparou que o rapaz não lhe retribuiu o aceno. O jovem Catão, provavelmente, ficara demasiado espantado para retribuir a gentileza; e tinha razões para ficar espantado: com certeza que, na residência temporária de Sila, poucos seriam os que tinham tempo para manifestar simpatia ou amizade por um rapazito que era descendente de um proprietário rural tusculano e de um escravo celtibero.
Embora estivesse preparado para se avistar com o Ditador, César não deixou de se sentir chocado com o aspecto físico de Sila. Não admirava que ele não tivesse procurado a mãe! Se eu estivesse no lugar dele, também não a procurava, pensou César, avançando tão silenciosamente quanto os seus tamancos lhe permitiam.
A reacção inicial de Sila foi a de que estava perante uma pessoa totalmente desconhecida; mas isso devia-se à feia capa vermelho-púrpura e ao peculiar efeito criado pelo capacete de marfim de cor creme num homem com o crânio rapado. — Tira essas roupagens — disse-lhe Sila e logo voltou a concentrar-se nos muitos papéis que tinha na secretária.
Quando voltou a olhar, o sacerdote tinha desaparecido. Em vez do sacerdote, era o seu filho que ali estava. Sila sentiu os pêlos dos braços e da nuca a arrepiar-se; emitiu um som como o de ar saindo de um balão e tropegamente levantou-se. O cabelo muito louro, os olhos azuis muito grandes, o rosto alongado dos Césares, a notável estatura... Só então é que os olhos de Sila, nublados pelas lágrimas, puderam ver as diferenças: os ossos da face muito marcados, como os de Aurélia, e as covas sob os ossos, e a estranha e bela boca de Aurélia com aqueles vincos nos cantos. Mais velho que o jovem Sila, mais homem que rapaz. Oh, Lúcio Cornélio, meu filho, porque morreste?
Recompondo-se, Sila limpou as lágrimas.
— Por um momento pensei que eras o meu filho — disse ele,, com aspereza, e estremeceu.
— Ele era meu primo direito.
— Lembro-me que tu gostavas dele.
— E gostava, de facto.
— Gostavas mais dele do que do jovem Mário, disseste tu. — Disse.
— E escreveste um poema sobre ele depois de ele morrer, mas disseste que o poema não era bom, por isso não mo mostraste.
— Sim, é verdade.
Sila deixou-se cair na cadeira, as mãos tremiam-lhe.
— Senta-te, meu rapaz. Aqui, onde a luz é melhor e eu posso ver-te. Os meus olhos já não são o que eram. — Sim, pensou Sila,vou deleitar-me com a sua visão! Foi o Grande Deus que mo mandou, o Grande Deus de quem ele é o sacerdote. — O teu tio Caio Cota explicou-te o motivo deste encontro?
— Disse-me apenas que me querias ver, Lúcio Cornélio.
— Trata-me por Sila, é assim que toda a gente me chama.
— E a mim todos me chamam César, até a minha mãe.
— Tu és o flamen Dialis. Uma súbita chama brilhou naqueles olhos inquietantemente familiares — porquê tão familiares, se os do seu filho eram muito mais azuis e alegres? Um olhar de raiva. Sofrimento? Não, sofrimento não. Raiva.
— Sim, sou o flamen Dialis — respondeu César.
— Os homens que te nomearam eram inimigos de Roma.
— Não o eram na altura em que me nomearam.
— Bem observado. — Sila pegou na sua pena de cana revestida a ouro, mas voltou a pô-la na secretária. — Tens uma esposa.
— Tenho.
— Que é filha de Cina.
— É, de facto.
— Consumaste o casamento?
— Não.
Sila levantou-se e encaminhou-se para a janela, aberta de par em par apesar do frio muito agreste. César sorriu ao pensar no que a sua mãe teria dito — ali estava mais um que não se preocupava com a violência dos elementos!
— Tomei a meu cargo a tarefa de restaurar a República — disse Sila, olhando pela janela para a estátua de Cipião Africano, em cima de uma alta coluna; àquela altitude, ele e o atarracado Cipião Africano encontravam-se ao mesmo nível. — Por razões que imagino que compreenderás, optei por começar pela religião. Nós perdemos os nossos velhos valores e precisamos de recuperá-los. Aboli a eleição de sacerdotes e augures, incluindo o Pontifex Maximus. Em Roma, a política e a religião encontram-se inextricavelmente ligadas, mas eu não quero que a religião esteja ao serviço da política, pois o contrário é que está certo.
— Eu compreendo essa posição — disse César, da sua cadeira. — No entanto, creio que o Pontifex Maximus deveria ser eleito. — Aquilo que tu crês, rapaz, não me interessa!
— Nesse caso, por que me chamaste?
— Certamente não foi para me aborreceres com a esperteza das tuas observações! — Peço desculpa.
Sila virou-se e fitou-o com um olhar ameaçador.
— Não tens nem um bocadinho de medo de mim, pois não, rapaz? E então, nos lábios de César, desenhou-se aquele sorriso — o mesmo sorriso! — que, ao mesmo tempo, atingia o coração e a mente dos outros.
— Em tempos, eu costumava esconder-me no tecto falso da nossa sala de jantar e via-te a conversar com a minha mãe. Os tempos mudaram e, com eles, todas as circunstâncias. Mas é difícil ter medo de um homem de quem, de um momento para o outro, passei a gostar, porque descobri que ele, afinal, não era o amante da minha mãe.
Aquela observação fez com que Sila desatasse numa gargalhada pegada; o riso afastava as lágrimas que uma vez mais ameaçavam explodir.
— Sim, é verdade! Eu não era o amante da tua mãe. Tentei uma vez, mas ela era demasiado inteligente para me querer. A tua mãe pensa como um homem. Eu não trago sorte às mulheres, nunca trouxe. — Os olhos inquietos de Sila miraram César de alto a baixo. — Tu também não trarás sorte nenhuma às mulheres, embora vás ter muitas. — Por que razão me chamaste, se não precisas das minhas opiniões? — perguntou César.
— Chamei-te porque é necessário corrigir certos procedimentos religiosos que não primam propriamente pela correcção. Segundo me disseram, tu nasceste no mesmo dia do ano em que se extinguiu o incêndio do templo de Júpiter.
— É verdade.
— E como interpretas isso?
— Como um bom augúrio.
— Infortunadamente, o Colégio dos Pontífices e o Colégio dos Augures não estão de acordo, jovem César. Tu e o teu cargo têm sido o principal tema dos seus debates nos últimos tempos. E os dois Colégios concluíram que uma determinada irregularidade no teu flaminato foi responsável pela destruição do templo do Grande Deus.
César tinha a alegria estampada no rosto.
— Ah, que bom que é ouvir-te dizer isso!
— Ha? Ouvir-me dizer o quê?
— Que eu não sou o flamen Dialis.
— Eu não disse isso.
— Disseste, sim!
— Interpretaste mal as minhas palavras. Tu és inequivocamente o flamen Dialis. Quinze padres e quinze augures chegaram a essa conclusão e não emitiram qualquer dúvida. A expressão de César não revela agora o menor sinal de alegria. — Preferia ser soldado — disse ele, desabridamente. — Tenho mais qualidades de soldado do que de sacerdote.
— O que tu preferes não interessa. O que interessa é aquilo que és. E aquilo que a tua mulher é.
César franziu a testa, intrigado, perscrutando algum sinal no rosto de Sila. — É a segunda vez que mencionas a minha mulher.
— Tens de te divorciar dela — disse bruscamente Sila.
— Divorciar-me dela? Mas como, se não posso?
— Porque não?
— Porque casámos confarreatio.
— Mas existe uma coisa chamada diffarreatio.
— E por que motivo tenho de me divorciar dela?
— Porque ela é filha de Cina. Verificou-se que as minhas leis relativas aos homens proscritos e às suas famílias tinham uma deficiência no que toca ao estatuto de cidadão das crianças de menor idade. Os sacerdotes e os augures decidiram que, nesse caso, deveria ser aplicada a lex Minicia. O que significa que a tua mulher — que é flaminica Dialis — não é nem romana, nem patrícia. Portanto, não pode ser flaminica Dialis. Como o flaminato é uma entidade dual, a legalidade da posição dela é tão importante como a tua. Eis a razão por que tens de te divorciar.
— Não farei tal — retorquiu César, começando a enxergar uma possibilidade de escapar ao seu odiado cargo.
— Tu farás tudo o que eu te mandar fazer, rapaz! i — Não farei nada que ache que não devo fazer. Os lábios franzidos de Sila abriram-se lentamente. — Eu sou o Ditador — disse ele num tom normal. — Tu vais divorciar-te da tua mulher.
— Recuso — replicou César.
— Se for preciso, obrigo-te.
— Como? — perguntou César, com um ar de desdém. — Os ritos do diffarreatio exigem o meu total consentimento e cooperação.
Tinha chegado o momento de meter na ordem aquela peste de rapaz: Sila teria de mostrar a César a besta fera que vivia dentro dele, o animal que uivava à luz da Lua. Mas no instante em que a besta se preparava para exibir as suas garras, Sila percebeu porque é que os olhos de César lhe eram tão familiares. É que aqueles olhos eram iguais aos seus! Eram olhos que o fitavam com a frieza e a fixidez desprendida de uma serpente. E a besta fera encolheu as garras, impotente. Pela primeira vez na sua vida, Sila não conseguia submeter outro homem ao seu poder. A raiva que, naquele instante, deveria possuí-lo, não era raiva, porque logo se esfumara; obrigado a contemplar a sua própria imagem no rosto de outro homem, Lúcio Cornélio perdia todo o seu poder.
Tinha de lutar com palavras, apenas com palavras.
— Eu decidi consagrar-me à restauração da ética religiosa da mos maiorum — disse ele. — Roma honrará e cuidará dos seus deuses exactamente da mesma maneira que o fez nos primórdios da República. Júpiter Optimus Maximus está descontente. Contigo — ou melhor, com a tua esposa. Tu és o sacerdote especial de Júpiter, mas a tua esposa é uma parte inseparável do teu sacerdócio. Tens de separar-te dessa mulher, porque ela é inaceitável. Tens de casar-te com outra. Tens de te divorciar da filha de Cina porque ela não é romana. — Não me divorcio — replicou César.
— Nesse caso, terei de encontrar outra solução.
— Solução? Dou-te já uma — retorquiu num instante César. — Deixa que Júpiter Optimus Maximus se divorcie de mim. Cancela o meu flaminato. — Na minha qualidade de Ditador, poderia fazer isso. O problema é que envolvi os colégios sacerdotais na discussão do caso. E como fiz isso, agora tenho de atender às suas conclusões.
— Nesse caso — disse calmamente César — parece que estamos num beco sem saída, não é?
— Não, não estamos nada. Há uma saída.
— Matar-me.
— Precisamente.
— As tuas mãos ficariam manchadas com o sangue do flamen Dialis. — Não ficariam se por acaso fosse outra pessoa a matar-te. Eu não subscrevo a metáfora grega, Caio Júlio César. E os nossos
deuses romanos também não. A culpa não pode ser transferida para outrem.
César reflectiu no que acabava de ouvir.
— Sim, creio que tens razão. Se conseguires que seja outra pessoa a matar-me, será sobre essa pessoa que a culpa recairá. — César ergueu-se e verificou que era alguns centímetros mais alto que Sila. — Nesse caso, a nossa entrevista chegou ao fim. — Chegou. A menos que reconsideres.
— Não me divorciarei.
— Então farei com que sejas morto.
— Se puderes — disse César, e foi-se embora. Sila chamou-o. — Esqueceste-te da laena e do apex, sacerdote!
— Fica com eles! São para o próximo flamen Dialis.
César forçou-se a ir directamente para casa, pois temia que Sila conseguisse recuperar rapidamente o equilíbrio. Apercebera-se claramente de que o Ditador perdera esse equilíbrio durante a entrevista; era evidente que muito poucas pessoas se atreviam a desafiar Lúcio Cornélio Sila.
O ar estava frio, demasiado frio e seco para que nevasse. E aquele gesto infantil impedia-o agora de se proteger do frio. Mas isso não era importante, de facto não era. Não morreria de frio por causa de um passeio entre o Palatino e Subura. Muito mais importante era o que faria a seguir. Porque Sila mandaria matá-lo, quanto a isso não tinha a mínima dúvida. Suspirou. Teria de fugir. Embora soubesse que era capaz de se defender, não tinha a mínima ilusão quanto à vitória de Sila, se por acaso permanecesse em Roma. No entanto, tinha pelo menos um dia de clemência; a máquina burocrática emperrava tudo, incluindo as acções do Ditador; ora, Sila teria primeiro de se encontrar com um daqueles grupos de homens de aspecto normal; e esse encontro ainda demoraria, pois Sila tinha uma agenda sobrecarregada: como César não deixou de reparar, a casa do Ditador estava cheia de clientes e não de assassinos pagos. A vida em Roma não era nada parecida com uma tragédia grega; não havia chefes gritando ordens veementes a homens que, como cães, ansiavam ver-se livres do açaimo. Sila só daria as suas ordens quando tivesse tempo. Mas isso não seria para já.
Quando chegou à casa da mãe, estava azul de frio.
— As tuas roupas? — perguntou Aurélia, boquiaberta de espanto. — Ficaram na casa de Sila — conseguiu ele dizer. — Deixei-as para o próximo flamen Dialis. Mater, ele mostrou-me a maneira de me ver livre do cargo! — Conta-me — disse ela, levando-o para perto de um braseiro. César contou-lhe. — Mas porquê, César? Porquê? — exclamou ela por fim.
— Ora, Mater, sabes bem porquê. Eu amo a minha mulher. Essa é a primeira razão. Durante todos estes anos, ela viveu connosco e procurou em mim o carinho e a atenção que nem o pai nem a mãe lhe podiam dar. De tal modo que acabou por achar que eu era a coisa mais maravilhosa que lhe sucedera em toda a sua vida. Como posso eu abandoná-la? Ela é filha de Cina! Uma indigente! Já nem sequer é romana! Mãe, eu não quero morrer. Viver como flamen Dialis é infinitamente melhor que morrer. Mas há coisas pelas quais vale a pena morrer. Princípios. Os deveres de um nobre romano, aqueles deveres que tu me ensinaste com tanto desvelo. Eu sou responsável por Cinila. Não posso abandoná-la! — César encolheu os ombros: parecia triunfante. — Além disso, encontrei a maneira de sair disto. Se eu recusar o divórcio, o Grande Deus não me poderá aceitar como seu sacerdote. Por isso, tenho de manter a minha recusa.
— Até que Sila consiga matar-te.
— Isso está nas mãos do Grande Deus, mãe, tu sabes que está. Acredito que Fortuna me ofereceu esta oportunidade e que eu não posso deixá-la fugir. O que eu tenho de fazer é permanecer vivo até que Sila morra. Depois de ele morrer, ninguém terá a coragem de matar o flamen Dialis e os colégios serão obrigados a libertar-me das grilhetas do sacerdócio. Mãe, eu não acredito que Júpiter Optimus Maximus me queira como seu flamen especial! Acredito, isso sim, que ele tem outras obras para eu fazer. Obras mais proveitosas para Roma. Aurélia não discutiu mais.
— Dinheiro. Vais precisar de dinheiro, César. — E passou com as mãos pelo cabelo, como sempre fazia quando precisava de se lembrar onde tinha deixado este ou aquele dinheiro. — Vais precisar de mais do que dois talentos de prata, porque esse é o preço de um homem proscrito. Se fores descoberto num esconderijo, precisarás de pagar muito mais que dois talentos para convencer
o informador a deixar-te partir. Três talentos devem chegar para uma situação dessas e para tu viveres normalmente. Mas onde é que euvou encontrar três talentos sem falar com banqueiros? Setenta e cinco mil sestércios... Eu tenho dez mil no meu quarto. E há as rendas, posso cobrá-las esta noite. Quando os meus inquilinos souberem para o que é, pagam sem hesitar. Eles adoram-te, embora eu não perceba porquê — tu és tão difícil, tão teimoso! Caio Macio pode saber de alguma maneira de arranjar mais dinheiro. E imagino que Lúcio Decúmio deve guardar o seu pé-de-meia debaixo da cama...
E foi-se embora num ápice, falando sozinha. César suspirou, levantou-se. Era tempo de organizar a sua fuga. E teria de falar com Cinila antes de se ir embora, teria de lhe explicar tudo. Pediu ao chefe dos criados, Eutico, que fosse chamar Lúcio Decúmio. Ele próprio chamou por Burgundo.
O velho Caio Mário tinha legado Burgundo a César por testamento; na altura, César suspeitara que tal oferta não era mais do que um último elo da cadeia com que Caio Mário o atara de pés e mãos. As suas suspeitas iam mesmo no sentido de que, se por acaso deixasse de ser o padre especial de Júpiter, Burgundo deveria matá-lo. Mas a verdade é que César, com todo o seu encanto pessoal, acabara por fazer com que Burgundo deixasse de ser um homem de Mário e passasse a ser o seu homem; um outro facto contribuíra para isso: a criada de Aurélia, a descomunal Cardixa, uma gaulesa dos Arvernos, tinha capturado o coração de Burgundo. Germano de origem címbria, Burgundo fora capturado aos 18 anos, na seqüência da batalha de Vercelas. Tinha agora 37 anos e Cardixa ia nos 45. Um tema que divertia a família de César era a fecundidade de Cardixa: durante quantos anos mais seria aquela mulher capaz de dar à luz, à média de um filho por ano? Por ora, ia já nos cinco. Burgundo e Cardixa tinham sido emancipados no dia em que César vestira a sua toga de adulto, mas este rito formal de emancipação não alterara nada, a não ser o seu estatuto de cidadãos: agora, eram ambos romanos (ainda que, como é evidente, tivessem sido inscritos na tribo urbana de Subura e, por isso, os seus votos não valessem nada). Aurélia, que sempre fora simultaneamente poupada e justa nos pagamentos, atribuíra a Cardixa um salário razoável, e achava que Burgundo também valia bom dinheiro. Como as suas necessidades básicas eram da conta dos patrões, Burgundo e Cardixa, ao que se dizia, juntavam todos os sestércios possíveis para os filhos. — Mas agora tens de levar as nossas poupanças, César — disse-lhe Burgundo no seu latim cheio de sotaque. — Vais precisar desse dinheiro.
César era alto para um romano, pois tinha um metro e oitenta e oito de altura, mas Burgundo tinha mais cinco centímetros de altura e era duas vezes mais largo que o seu amo. Ao dizer aquilo a César, o seu rosto claro, um rosto feio segundo os padrões romanos pois tinha um nariz demasiado pequeno e estreito e uma boca demasiado grande, expressava a solenidade habitual da sua pessoa, ainda que os seus olhos azuis claros denunciassem o amor e o respeito que sentia por César.
César sorriu para ele e abanou a cabeça.
— Agradeço-te a oferta, mas a minha mãe vai conseguir arranjar o dinheiro necessário. Se não conseguir, bom, se não conseguir, aceitarei a tua oferta e pagar-te-ei com juros. Lúcio Decúmio chegou entretanto, trazendo atrás de si uma revoada de neve; César tratou de dar as últimas instruções a Burgundo.
— Trata das nossas bagagens, Burgundo. Coisas quentes. Podes levar um bastão. Eu levo a espada do meu pai. — Ah, que bom que era poder dizer aquilo! Eu levo a espada do meu pai! Afinal havia coisas bem piores do que fugir à ira do Ditador. — Eu sabia que aquele homem nos ia trazer complicações! — disse Lúcio Decúmio com um ar soturno, embora não referisse uma ocasião em que Sila, só com o seu olhar, o deixara perfeitamente arrepiado. — Eu mandei os meus filhos buscar dinheiro a casa. Terás dinheiro bastante — acrescentou Decúmio, cravando um olhar feroz nas costas de Burgundo. — César, com este tempo invernoso, tu não podes ir apenas com aquele gigante pateta! Eu e os rapazes vamos também!
César, que estava à espera daquilo, lançou-lhe um olhar que silenciava todos os protestos.
— Não, pai, eu não posso permitir isso. Quanto mais formos, tanto mais atenções atrairemos.
— Atrair atenções? — disse Lúcio Decúmio, espantado. — Como podes não atrair as atenções com aquele gigante tolo ao teu lado? Deixa-o ficar e leva-me a mim. A mim ninguém me vê, eu confundo-me com as paredes.
— Dentro dos limites de Roma, sim, é verdade que ninguém dá por ti — retorquiu César, sorrindo com muito afecto para Lúcio Decúmio. — Mas em plena região sabina, as coisas seriam diferentes: darias tanto nas vistas como os tomates de um cão! Eu cá me arranjarei com Burgundo. E sabendo que tu ficas cá a tomar conta das mulheres, posso partir muito mais descansado.
Como aquela era, de facto, a verdade, Lúcio Decúmio resignou-se. — com as proscrições, é da máxima importância que haja alguém para proteger as mulheres. A tia Júlia e Múcia Tércia só nos têm a nós. Não creio que lhes possa acontecer alguma coisa, pois toda a gente em Roma adora a tia Júlia. Mas Sila não a adora, bem pelo contrário; portanto, terás de velar por elas. Quanto à minha mãe — acrescentou, com um encolher de ombros —, bom, quanto à minha mãe, ela é como todos nós sabemos, e isso tem tanto de bom como de mau para o caso de haver um confronto com Sila. Se as coisas mudarem — se, por exemplo, Sila decidir proscrever-me e proscrever, por minha causa, a minha mãe — serás tu quem terá de salvar a minha casa e a sua gente. — César pôs um sorriso de todo o tamanho e acrescentou: — Gastámos demasiado dinheiro a engordar os filhos de Cardixa para agora aparecer Sila e fazer lucro com eles!
— Meu querido Pavão, podes estar certo de que não lhes acontecerá nada! — Obrigado, pai. — César lembrou-se nesse instante de outro assunto. — Só mais uma coisa: tens de nos alugar um casal de mulas e de ir buscar os cavalos ao estábulo. Aquele era o segredo de César, o único aspecto da sua vida que era ignorado por todos; por todos, excepto Burgundo e Lúcio Decúmio. Na sua qualidade de flamen Dialis, não podia tocar num cavalo; porém, desde que Caio Mário lhe ensinara a montar, apaixonara-se pela sensação da velocidade e também por aquela rara sensação que era ter o corpo poderoso de um cavalo entre os seus joelhos e sob o seu comando. Embora a sua única riqueza fossem as valiosas terras que possuía, a verdade é que César tinha algum dinheiro seu, dinheiro em que Aurélia nunca pensaria em mexer. Obtivera esse dinheiro graças ao testamento do pai e, com ele, podia comprar o que quisesse sem ter de pedir a Aurélia. E foi assim que comprou um cavalo. Um cavalo muito especial.
César conseguira encontrar em si a força e a capacidade de renúncia para obedecer a todas as regras do seu flaminato. Como não ligava muito ao que comia, não lhe custara nada agüentar o monótono regime alimentar do flâmine. Já com as armas, era diferente: muitas vezes sentira o ardente desejo de pegar na espada do pai e de, com ela, se exercitar. Mas a única coisa de que não conseguira desistir era o seu amor pelos cavalos e pela arte de montar. Porquê? Por causa da associação entre duas criaturas vivas tão diferentes entre si e da perfeição que daí resultava. E foi assim que comprou um belíssimo cavalo castrado de pelagem castanha, tão veloz como Bóreas, ao qual chamou Bucéfalo, o nome do lendário cavalo de Alexandre, o Grande. Este animal era a maior alegria da sua vida. Sempre que conseguia escapulir-se, ia sozinho a pé até à Porta Capena, onde o esperavam Burgundo e Lúcio Decúmio com Bucéfalo. Depois, era cavalgar, cavalgar velozmente pelas margens do Tibre, sem pensar em quedas ou quaisquer outros perigos, serpenteando entre os pacientes bois que puxavam as barcaças ao longo do rio — e depois, quando a corrida pelas praias deixava de o interessar, embrenhava-se pelos campos, saltando todos os muros que era preciso saltar, ele e o seu querido Bucéfalo, duas criaturas transformadas numa só. Muitos eram os que conheciam o cavalo, mas ninguém conhecia o cavaleiro; de facto, para essas ocasiões, César vestia-se como um galaciano e usava um lenço à maneira dos Médios, um lenço que lhe cobria a cabeça e quase todo o rosto. As cavalgadas secretas introduziam também na sua vida um elemento de risco, o risco que, sem se dar conta, o atraía fortemente; de facto, ele não pensava naquilo em termos de risco, mas apenas como uma diversão, porque divertia-o imenso ludibriar Roma e pôr em perigo o seu flaminato. Embora honrasse e respeitasse o Grande Deus, sabia que tinha com ele uma relação absolutamente única; o seu antepassado Eneias nascera da deusa do amor, Vénus, e o pai de Vénus era Júpiter Optimus Maximus. Por isso Júpiter compreendia, Júpiter dava o seu consentimento, Júpiter sabia que o seu criado terreno tinha nas veias uma gota do divino ícore. César obedecia a todos os dogmas do seu flaminato o melhor que podia e sabia; mas o preço dessa obediência chamava-se Bucéfalo, a comunhão com uma outra criatura viva que, para ele, era mais preciosa que todas as mulheres de Subura. com elas, a soma era menos do que ele próprio. com Bucéfalo, a soma era mais, muito mais, do que ele próprio.
Pouco depois de a noite cair, já César estava pronto. Lúcio Decúmio e os seus dois filhos, puxando uma pequena carroça, tinham levado os setenta e seis mil sestércios que Aurélia conseguira arranjar até à Porta Quirinal, enquanto dois outros confrades do colégio, tão leais a César como Decúmio, haviam levado os cavalos desde os estábulos do Campo Lanatário até às portas da cidade, para lá das Muralhas Sérvias.
— Preferia que tivesses escolhido um cavalo que desse menos nas vistas. Ainda por cima, tens-te fartado de cavalgá-lo por todo o Lado — disse-lhe Aurélia sem mostrar o mínimo sinal da tremenda ansiedade que sentia.
César fitou-a boquiaberto e desatou a rir; logo que se recompôs da surpresa, limpou os olhos molhados e disse-lhe:
— Não posso crer, Mater! Há quanto tempo sabias do Bucéfalo ? — É assim que lhe chamas? — retorquiu ela, zangada. — Pelos vistos, meu filho, a tua recusa do sacerdócio revela que tens ilusões de grandeza! — Nos seus olhos brilhou uma chispa de alegre divertimento. — Eu sempre soube, César. Até sei o dinheirão que deste por ele — cinqüenta mil sestércios! És um gastador incorrigível e não percebo onde é que foste arranjar o dinheiro. Eu é que não to dava!
César abraçou-a e beijou-a na testa larga e sem rugas.
— Pois bem, uma coisa te prometo: tu é que hás-de tratar das minhas contas! Mas estou curioso em saber como é que descobriste que eu tinha o Bucéfalo. — Eu tenho muitas fontes de informação — retorquiu ela, sorrindo. — Ao fim de vinte e três anos em Subura, é natural. — Agora que o sorriso se esbatia, fitou-o com um olhar perscrutador. — Ainda não falaste com Cinila e ela está preocupada. Eu mandei-a para o quarto dela, mas, mesmo assim, apercebeu-se de que se passa qualquer coisa. César suspirou, franziu o sobrolho, fitou a mãe como que a pedir-lhe ajuda. — Que lhe hei-de dizer, mãe? Quanto lhe hei-de dizer?
— Diz-lhe a verdade, César. Ela tem doze anos.
Cinila ocupava aquele que fora o quarto de Cardixa, debaixo das escadas que davam para os andares de cima, no lado do edifício da Vicus Patricius; Cardixa vivia agora com Burgundo e os filhos num apartamento especial que César projectara e construíra, com a maior satisfação e sem ajuda de ninguém, por cima das casas dos criados. Quando César entrou, Cinila estava sentada ao tear, trabalhando num tecido de cor parda e muito peludo, destinado ao seu guarda-roupa de flaminica Dialis, ao ver aquela cena e aquele tecido tão grosseiro, o coração de César deixou-se vencer por uma compaixão extrema. — Ah, não é justo! — exclamou; e mal disse isto, pegou nela e levou-a para o único sítio disponível, a sua pequena cama, onde a sentou no seu colo. César achava-a de uma beleza requintada, embora fosse demasiado jovem para encontrar atractivos numa rapariga que apenas começava a revelar os sinais da feminilidade; César gostava de mulheres bastante mais velhas que ele. Mas aquela criatura pequena, levemente roliça e muito morena, não podia deixar de exercer um fascínio irresistível num homem que tinha passado toda a vida rodeado de gente alta, esguia e clara de tez. Os seus sentimentos em relação a Cinila eram algo de confuso, pois ela vivia há cinco anos em sua casa como se fosse sua irmã e, no entanto, era sua esposa; por outro lado, logo que Aurélia lho permitisse, ele levá-la-ia para a sua cama. Não havia qualquer elemento moral nesta confusão; quanto muito, quase seria uma questão de logística. O que perturbava César era o facto de aquela rapariga passar de súbito a ser sua mulher depois de ter sido sua irmã. Claro que todos os reis orientais casavam com as suas irmãs, mas César ouvira dizer que nos quartos das crianças dos Ptolemeus e dos Mitridates se ouviam ruídos de guerra e não de ternas brincadeiras, pois irmãos e irmãs se guerreavam como animais. Ao passo que ele nunca tivera qualquer guerra com Cinila, tal como não tivera com as irmãs verdadeiras; Aurélia nunca permitiria tais comportamentos. — Vais-te embora, César? — perguntou Cinila.
Uma mecha de cabelo mais rebelde caía-lhe sobre a testa; César, com um gesto suave, tirou-lhe o cabelo da testa e continuou a afagar-lhe a cabeça como se ela fosse um gatinho de estimação,
com gestos ritmados, sensuais, capazes de acalmar qualquer pessoa. Ela fechou os olhos e encostou-se muito encostada à curva do braço dele. — Ora esta, menina, agora não adormeças! — disse ele, de repente, abanando-a um pouco. — Bem sei que já devias estar na cama, mas tenho de falar contigo. Eu vou-me embora, é verdade.
— Que se tem passado nestes últimos tempos? Tem tudo a ver com as proscrições, é isso? Aurélia disse que o meu irmão fugiu para Hispânia.
— Sim, Cinila, em parte tem a ver com as proscrições; além disso, quem decide as proscrições é Sila. Eu tenho de me ir embora porque Sila diz que há uma dúvida no que toca ao meu sacerdócio.
Ela sorriu e o seu lábio superior, muito carnudo, ergueu-se e revelou uma dobra da sua superfície interior, um traço de Cinila que toda a gente achava encantador. — Devias estar contente. Tu preferias não ser flamen Dialis. — Ah, mas ainda sou o flamen Dialis — disse César com um suspiro. — Segundo os sacerdotes, o problema está em ti. — César fê-la sentar-se na ponta dos seus joelhos para que pudesse olhá-la no rosto. — Tu conheces a actual situação da tua família, mas provavelmente não te apercebeste de que o teu pai, a partir do momento em que foi considerado um sacer — um prescrito —, deixou de ser cidadão romano.
— bom, eu compreendo por que motivo Sila pode tirar-nos todos os nossos bens, mas a verdade é que o meu pai morreu muito tempo antes do regresso de Sila a Itália — disse Cinila, que não era muito inteligente e precisava que lhe explicassem tudo. — Mas como é possível que nós tenhamos perdido a cidadania?
— Porque as leis de Sila retiram automaticamente a cidadania a uma pessoa e também porque alguns homens já estavam mortos quando Sila pôs os nomes deles nas listas dos proscritos. O jovem Mário, o teu pai, os pretores Caninas e Damásipo, e muitos outros, estavam já mortos quando foram proscritos. Mas esse facto não obstou a que perdessem os seus direitos de cidadão.
— Não acho justo.
— Concordo contigo, Cinila — disse César, e prosseguiu a sua explicação, sentindo que seria uma grande coisa se os deuses lhe tivessem dado o dom da síntese e da simplificação. — O teu irmão
tinha atingido a maioridade quando o teu pai foi prescrito. Por isso, mantém o seu estatuto romano. Só não pode herdar os bens ou o dinheiro da família, nem exercer as funções de magistrado curul. Contigo, porém, as coisas são completamente diferentes. — Porquê? Por eu ser uma rapariga?
— Não! Por tu seres ainda uma criança. A questão do sexo, neste caso, é irrelevante. A lex Minicia de liberis diz que os filhos de um casal formado por um romano e um não romano devem ficar com a cidadania do pai não romano. Isto significa — pelo menos, segundo a versão dos sacerdotes — que tu agora tens o estatuto de estrangeira. Ela começou a tremer, mas não a chorar, e os seus enormes olhos negros fitavam César com dolorosa apreensão.
— Ah! Então isso quer dizer que eu já não sou tua esposa? — Não, Cinila, não é nada disso. Tu és minha mulher até ao dia em que um de nós morrer, porque nós casámos segundo as praxes antigas. Não há nenhuma lei que proíba um romano de casar com uma não romana. Por isso, o nosso casamento não está em causa. Aquilo que de facto está em causa é o teu estatuto de cidadã — e o estatuto de cidadão de todos os filhos de homens prescritos que, na altura da proscrição, eram menores. Percebeste? — Creio que sim. — A expressão de Cinila revelava a mesma concentração. — Isso significa que os filhos que eu te der não serão cidadãos romanos? — Precisamente. Pelo menos, enquanto vigorar a lex Micinia. — Oh, César, isso é terrível! -É.
— Mas eu sou uma patrícia!
— Já não és, Cinila.
— Que posso fazer?
— Por ora, nada. Mas Sila sabe que tem de clarificar estes aspectos das suas leis. Esperemos, por isso, que o faça de modo a que os nossos filhos possam vir a ser romanos, ainda que tu não o sejas. — Os braços de César desprenderam-se um pouco dela. — Sila chamou-me hoje a sua casa e ordenou-me que me divorciasse de ti.
Agora sim, as lágrimas encheram os olhos de Cinila, silenciosamente, tragicamente. Apesar de ter apenas 18 anos, César já estava acostumado às lágrimas das mulheres; de facto, já estava
farto das lágrimas das mulheres, pois muitas tinham chorado quando ele se cansava delas ou quando elas descobriam que havia outra. Eram lágrimas que ele detestava, capazes de o fazer explodir. Embora estivesse habituado a controlar-se, a verdade é que as lágrimas das mulheres lhe provocavam sempre um acesso de fúria, com os resultados desastrosos que seria de esperar — para a mulher que chorava. Mas as lágrimas de Cinila eram a revelação da mais pura dor e toda a raiva de César estava concentrada em Sila, que era a causa daquelas lágrimas. — Mas não há nenhum problema, amorzinho! — disse ele, aproximando-a mais de si. — Eu nunca me divorciaria de ti! Nem que aparecesse Júpiter Optimus Maximus em pessoa e mo ordenasse! Nem que vivesse mil anos, não me divorciaria de ti! Ela soltou um risinho e fungou e deixou que ele lhe secasse as lágrimas com o seu lenço. — Vá, agora assoa-te! — ordenou ele. Ela assoou-se. — Pronto, já chega de lágrimas! Não há razão para chorares. Tu és a minha esposa e continuarás a sê-lo aconteça o que acontecer. Cinila pôs um braço à volta do pescoço dele, encostou o rosto ao seu ombro e suspirou de felicidade.
— Ah, César, amo-te tanto! Custa-me tanto esperar até que seja mulher! Aquela observação chocou-o. Tal como o facto de sentir os pequenos seios dela roçando-se por ele, pois vestia apenas uma túnica. Encostou o seu rosto ao cabelo dela, mas, delicadamente, foi-se desprendendo daquele abraço, pois não queria cometer nenhum acto que manchasse a sua honra.
— Júpiter Optimus Maximus não pode aparecer em pessoa — disse ela, como uma menina romana bem comportada que sabia as normas da religião. — Júpiter está em todo o lado onde está Roma — é por isso que Roma é a melhor e a maior! — Terias dado uma boa flaminica Dialis!
— Faria um esforço. Por ti. — Cinila ergueu a cabeça para olhar para ele. — Se Sila te ordenou que te divorciasses e tu respondeste que não, isso quer dizer que ele tentará matar-te? É por isso que te vais embora, César?
— Ele tentará matar-me, disso não tenho dúvidas. É por isso que mevou embora. Se ficasse em Roma, ele não teria dificuldade nenhuma em matar-me. Sila tem muitos homens espalhados pela
cidade e ninguém conhece os seus nomes ou rostos. Mas se for para a província, terei mais hipóteses. — César fê-la cavalgar no seu joelho, como se o seu joelho fosse um cavalinho; era assim que brincava com ela desde que Cinila fora viver para sua casa, tinha ele 7 anos. — Não deves preocupar-te comigo, Cinila. Os fios da minha vida são muito resistentes — demasiado duros para as tesouras de Sila! Só tens de fazer uma coisa: mitigar as preocupações da minha mãe. —vou tentar — disse ela, beijando-o no rosto; preferia beijá-lo na boca e dizer-lhe que já era crescida para o fazer, mas sentia-se demasiado insegura para tomar tal iniciativa. — Óptimo! — disse ele. Depois, ergueu-a do seu colo e levantou-se. — Eu estarei de volta logo que Sila morra — disse César, e foi-se embora sem mais despedidas. Quando chegou à Porta Quirinal, César encontrou Lúcio Decúmio e os seus filhos à espera. As duas mulas levavam o dinheiro em sacas equitativamente dividas, o que implicava que nenhuma delas levasse uma carga excessiva. Não havia bolsas de couro, normalmente usadas para guardar dinheiro, à vista; em vez disso, Lúcio Decúmio tinha guardado o dinheiro no forro falso daquilo que parecia ser — e eram! — sacos de livros cheios de pergaminhos. — Não fizeste isto hoje, de um momento para o outro — comentou César com um sorriso arreganhado. — É nisto que trabalha o teu pessoal do colégio? — Olha, vai dizer isso ao teu cavalo. Mas primeiro, deixa-me dizer-te uma coisa. Quando for preciso pegar no dinheiro, deixa que seja Burgundo a fazê-lo — aconselhou Lúcio Decúmio, após o que se virou para o germano com um olhar tão feroz e poderoso que o gigante, involuntariamente, recuou. — Ouve lá, meu bruto, ouve-me com atenção: quando pegares naqueles sacos, tens de dar a impressão de que estás a levantar sacos de penas, ouviste? Burgundo aquiesceu.
— Ouvi muito bem, Lúcio Decúmio. Penas.
— Agora põe o resto da bagagem em cima dos livros. Ah, e se o rapaz voar que nem o vento, tu faz-me o favor de não ficares para trás! Entendido? César estava de pé junto ao cavalo, o seu rosto contra a cabeça do animal, segredando-lhe palavras carinhosas. E só deixou de falar
com ele, depois de Burgundo ter arrumado o resto da bagagem em cima das mulas. com a ajuda do criado, César subiu para a sela.
— Cuida bem de ti, Pavo! — disse Lúcio Decúmio, com a voz embargada pela emoção, os olhos enchendo-se de lágrimas. Depois, ergueu a sua mão suja para César. César, o fanático da limpeza, baixou-se, pegou na mão de Decúmio e beijou-a. — Cuidarei, meu pai!
E num instante César e Burgundo desapareceram por entre o manto de neve. A montada de Burgundo era o garanhão dos estábulos de César, um cavalo que custara quase tanto dinheiro como Bucéfalo. Era um cavalo de Neso, da linhagem dos cavalos da Média, e, por isso, muito mais corpulento que os cavalos dos povos do mar Mediterrâneo. Os cavalos nesinos eram uma raridade em Itália, pois só podiam ser usados para transportar cavaleiros de invulgar corpulência. Muitos tinham sido os agricultores e os mercadores que haviam desejado transformá-los em bestas de carga ou prendê-los a pesados arados ou carroças, já que eram mais velozes e inteligentes do que os bois. Porém, se lhes punham o jugo e os obrigavam a puxar uma carga, aqueles cavalos corriam o risco de morrer estrangulados; o movimento para a frente comprimia demasiado o arnês contra a traqueia do animal. Como animais de transporte de carga também eram inúteis; comiam tanto que não davam lucro. No entanto, um cavalo vulgar nunca poderia agüentar o peso de Burgundo; uma boa mula agüentaria, só que Burgundo tinha umas pernas tão altas que, quando montava em mulas, os seus pés roçavam pelo chão. César foi à frente, na direcção de Crustumério, debruçado sobre a cabeça de Bucéfalo para se proteger do vento — e que vento frio aquele!
Cavalgaram a bom ritmo durante toda a noite, a fim de se afastarem o mais possível de Roma, e só pararam quando a noite seguinte estava já próxima. Tinham chegado a Trebula, não muito longe do cume da primeira cordilheira. Era uma aldeia, mas possuía uma estalagem que servia também de taberna local; o local era por isso muito barulhento e quente, para além de estar sempre cheio de gente. César não ficou nada satisfeito com aquele ambiente sujo e descuidado. — bom, de qualquer modo sempre temos um telhado e uma espécie de cama — disse ele a Burgundo depois de inspeccionar um quarto do andar de cima, onde teriam de dormir, acompanhados por vários cães pastores e seis galinhas.