Os Favoritos de Fortuna

Colleen McCullough · Capítulo 2 de 15 · parte 3/4

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Os Favoritos de Fortuna

resto deste ano não te ensinar mais…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— Eu nunca serei cônsul — disse ele asperamente, mas logo encolheu os ombros e tentou mostrar-se agradável: — A minha mãe diz que dar de comer àquela gente é como dar de comer a uma tribo de Titãs. Por todos os deuses, o que eles comem! — São boa gente.

— Sim, sem dúvida — disse César.

Tinham já chegado ao portão do edifício de Aurélia. Chamaram então pelas mulheres. Outras damas da aristocracia teriam preferido seguir de liteira, em especial com um tempo assim. Mas não as mulheres de linhagem juliana: essas iam a pé. Os filhos de Decúmio, que seguiam à frente, tornaram mais fácil a caminhada pela Faces Suburae, pois foram abrindo caminho por entre a neve entretanto acumulada.

O Fórum Romano estava completamente deserto e parecia estranhamente despojado de colunas, paredes, telhados e estátuas, cujas vividas cores a neve cobrira; tudo apresentava uma cor de mármore branco, tudo parecia ter mergulhado num sono profundo e sem sonhos. E a imponente estátua de Caio Mário, perto dos rostra, tinha um banco de neve empoleirado em cada uma das espessas sobrancelhas, cobrindo o feroz fulgor dos seus olhos negros. Subiram, com alguma dificuldade, a Colina dos Banqueiros, atravessaram os vastos portais da Porta Fontinal, e, momentos depois, estavam já à porta da casa de Caio Mário. Como o jardim do peristilo ficava nas traseiras da mansão, encaminharam-se directamente para o salão de entrada, onde puderam despir os seus abafos (só César, obrigado a usar o seu traje, nada despiu). Lúcio Decúmio e os filhos foram conduzidos pelo chefe dos criados, Estrofantes, que os convidou a provar um vinho e uns petiscos excelentes, enquanto César e as mulheres penetravam no átrio.

Se o tempo não estivesse tão desusadamente gélido, poderiam ter permanecido no átrio, pois a hora da refeição já ia longe. Porém, o rectângulo do compluvium, aberto no telhado, produzia um verdadeiro vórtice de neve e vento e o tanque que ficava por baixo resumia-se agora a uma crosta cintilante de flocos de neve que rapidamente derretiam. O jovem Mário apareceu então para os receber e para os conduzir até à sala de jantar, que, segundo ele, estava mais quente. Parecia quase arder de felicidade, pensou César, algo desconfiado, e a emoção que sentia tornava-o mais belo. Tão alto como César (que era seu primo direito), possuía uma constituição mais larga e musculada, cabelo louro e olhos cinzentos, e um tipo de beleza que impressionaria qualquer um. Fisicamente muito mais atraente que o pai, faltava-lhe, porém, aquele elemento vital que tornara Caio Mário um dos imortais de Roma. Muitas gerações hão-de passar, pensava César, e todas elas hão-de aprender as proezas de Caio Mário. Mas o destino do seu filho não será o mesmo.

Aquela era uma casa que César detestava visitar; tinham-lhe acontecido demasiadas coisas naquele espaço. Enquanto os outros rapazes da sua idade passavam descuidadamente o seu tempo, brincando no Campo de Marte, ele tinha de se apresentar naquela casa todos os dias e servir de companhia e de enfermeiro ao velho e vingativo Caio Mário. E embora César tivesse diligentemente varrido aquele chão com a sua vassoura sagrada, logo após a morte de Mário, a verdade é que a sua maligna presença continuava a pairar naquela atmosfera. Pelo menos era o que César pensava. Em tempos, admirara e amara Caio Mário. Mas depois Caio Mário nomeou-o sacerdote especial de Júpiter e, com esse único golpe, impossibilitou-o, para toda a vida, de rivalizar com ele. Nada de ferro, nada de armas, nunca ver ninguém na hora da morte — e era o fim da carreira militar para o flamen Dialis! Membro automático do Senado, sem direito a disputar nenhuma das eleições para magistrado — e era o fim da carreira política para o flamen Dialis! O destino de César era ser respeitado sem nada ter feito para ganhar o respeito dos outros, era ser reverenciado sem nada ter feito para ganhar a reverência alheia. O flamen Dialis era uma criatura que pertencia ao Estado, hospedado, remunerado e alimentado pelo Estado, um prisioneiro da mos maiorum, das práticas estabelecidas pelo costume e pela tradição. Porém, logo que os seus olhos encontravam os da tia Júlia, a revolta de César esfriava. Irmã do seu pai e viúva de Caio Mário.

E a pessoa que mais amava no mundo, com um amor diferente do que dedicava à mãe. De facto, amava-a mais do que à mãe, se o amor pudesse ser qualificado como um mero transporte de pura emoção. com a mãe era diferente: a mãe, ao contrário da tia, mantinha com ele um permanente relacionamento intelectual — e, a esse nível, era sua adversária, apoiante, crítica, companheira, igual. Ao passo que a tia Júlia o estreitava nos seus braços e beijava-o nos lábios e sorria para ele com aqueles ternos olhos cinzentos, inocentes da mais tênue condenação. Para ele, a vida sem uma daquelas mulheres, a mãe ou a tia, era algo de impensável. Júlia e Aurélia escolheram sentar-se lado a lado no mesmo divã, pouco à vontade porque eram mulheres e as mulheres não se reclinavam nos divãs. Impedidas pelo costume de se instalarem confortavelmente, empoleiraram-se na beira do divã, com os pés balançando acima do chão e sem nada que lhes apoiasse as costas.

— Não podes trazer cadeiras para as mulheres? — perguntou César ao jovem Mário quando este trouxe almofadas para elas se encostarem.

— Obrigada, sobrinho, agora que temos encosto já estamos melhor — disse Júlia, sempre conciliadora. — Não creio que a casa tenha cadeiras suficientes para todas nós! Isto é uma conferência de mulheres!

Uma verdade incontestável, reconheceu César pesarosamente. O elemento masculino da família limitava-se agora a dois homens: o jovem Mário e César. Ambos sem pai. Quanto às mulheres, havia mais. Se Roma pudesse estar presente naquela sala, teria desfrutado do espectáculo que era ver juntas duas das suas mais belas mulheres. Embora fossem ambas altas e elegantes, Júlia possuía a graça inata dos Césares, ao passo que Aurélia tinha uma aparência enérgica e grave. Uma, Júlia, tinha um cabelo louro suavemente ondeado e uns grandes olhos cinzentos, e poderia ter posado para a estátua de Clélia no Fórum Romano. A outra, Aurélia, tinha um cabelo castanho muito brilhante e um tipo de beleza que, na sua juventude, levara muita gente a compará-la a Helena de Tróia. Sobrancelhas e pestanas escuras e uns olhos fundos que, segundo muitos dos seus pretendentes, eram cor de púrpura, e o perfil de uma deusa grega.

Júlia tinha agora 45 anos e Aurélia 40. Ambas tinham enviuvado em circunstâncias difíceis, embora muito diversas.

Caio Mário morrera da sua terceira e mais devastadora trombose, mas apenas depois de ter lançado e mantido uma orgia de sangue que ninguém esqueceria mais em Roma. Todos os seus inimigos — e alguns dos seus amigos — tinham morrido e os rostra do Fórum Romano tinham ficado a abarrotar de cabeças espetadas. Júlia vivia com esta tristeza no coração. O marido de Aurélia, leal a Cina após a morte de Mário (a única alternativa adequada para quem tinha o filho casado com a filha mais nova de Cina), fora para a Etrúria recrutar tropas. Certa manhã de Verão, em Pisa, baixara-se para apertar as correias da bota e morrera. Segundo a autópsia, a causa da morte fora a ruptura de uma veia do cérebro; foi queimado numa pira, sem um único membro da família presente, e as cinzas enviadas para a viúva. Aurélia não sabia sequer que o marido tinha morrido quando o mensageiro de Cina lhe apareceu em casa com a urna funerária. O que tinha sentido, o que tinha pensado, ninguém sabia. Nem mesmo o filho, que assim se tornou chefe de família quando lhe faltava um mês para fazer 15 anos. Ninguém lhe viu uma lágrima e a sua expressão permaneceu inalterável. Porque ela era Aurélia, uma mulher fechada em si mesma, aparentemente mais ligada ao seu trabalho de senhoria de uma movimentada ínsula do que a qualquer ser humano, exceptuando o filho. O jovem Mário não tinha irmãs, mas César tinha duas, mais velhas do que ele. Ambas eram parecidas com a tia Júlia; havia nítidos ecos de Aurélia no rosto de César, mas não nos rostos das suas duas filhas.

Júlia Major, a quem chamavam Lia, já tinha, aos 21 anos, uma expressão sombria. E não sem razão. O seu primeiro marido, um patrício sem dinheiro, de seu nome Lúcio Pinário, fora o amor da sua vida e por isso fora autorizada — ainda que com alguma relutância — a casar-se com ele. Menos de um ano depois, deu à luz um rapaz. Porém, pouco tempo passado sobre o feliz acontecimento (que, ao contrário do que se esperava, não contribuiu em nada para que o carácter ou o comportamento do marido ganhassem sobriedade), Lúcio Pinário morreu em circunstâncias misteriosas. Aventou-se a hipótese de ter sido morto por algum dos seus supostos amigos, mas não foi possível encontrar provas. E Lia, deste modo, aos 19 anos, viu-se viúva e num tal estado de pobreza que foi forçada a voltar para a casa da mãe. Porém, entre o seu casamento e a viuvez, a identidade do paterfamilias tinha mudado, e, pelo que via agora, o seu irmão era muito menos sensível ou maleável do que o pai. Ela tem de voltar a casar, dizia César — mas com um homem escolhido por ele, porque, segundo as suas próprias palavras, se deixasse a irmã fazer o que quisesse, ela acabaria por escolher outro idiota. Ninguém sabia como ou onde César teria encontrado Quinto Pédio, ainda que alguns suspeitassem da colaboração de Lúcio Decúmio, o qual, apesar de ser um modestíssimo membro da Quarta Classe, tinha muitos e bons contactos. A verdade é que, certo dia, César apareceu em casa com Quinto Pédio e, passado pouco tempo, casava a irmã viúva com este lerdo e honrado cavaleiro da Campânia, de famílias decentes mas sem sinal de nobreza. Não era um homem bem-parecido. Não dava nas vistas. E, tendo ele 40 anos, nem sequer era jovem. Mas era colossalmente rico e sentia uma gratidão quase patética por lhe ser permitido casar com uma encantadora jovem da mais alta nobreza patrícia. Lia engoliu em seco, olhou para o seu irmãozinho, então com 15 anos, e, com modos afáveis, aceitou o casamento; já nessa idade, César conseguia transformar o seu rosto e os seus olhos numa máscara que sufocava todas as discussões ainda antes de nascerem.

Afortunadamente, o casamento veio a ser bem sucedido. Lúcio Pinário podia ser um homem belo, vistoso e jovem, mas, como marido, tinha sido uma decepção. Lia descobria agora que havia muitas compensações no facto de ser a menina querida de um homem rico e com o dobro da idade dela. E à medida que o tempo foi passando, acabou por dedicar uma forte afeição àquele homem tão pouco atraente. Deu-lhe um filho e estava já tão habituada às delícias de uma vida luxuosa nas propriedades do marido, perto de Teano Sidicino, que, quando Cipião Asiágeno e, posteriormente, Sila, se instalaram nas cercanias, se recusou terminantemente a ir para casa da mãe, a qual, disso estava Lia certa, orientaria as suas tarefas, o seu regime alimentar, os seus filhos, enfim, toda a sua vida, de acordo com as ideias austeras que a caracterizavam. Como seria de esperar, Aurélia foi buscá-la pessoalmente (ao que parece, depois de um inesperado encontro com Sila — um encontro de que pouco falara) e Lia acabou por ser despachada sem cerimónias para Roma. E infelizmente sem os filhos; Quinto Pédio preferira ficar com eles em Teano. Júlia Minor, a quem chamavam Ju-Ju, casara no início daquele ano, pouco depois do seu décimo oitavo aniversário. Não teve a mínima hipótese de escolher um homem menos recomendável! Foi César quem lhe escolheu marido, embora ela se tivesse manifestado contra aquela arbitrária usurpação, pois considerava-se perfeitamente à altura de escolher um bom marido. É evidente que César venceu. Certo dia, apareceu em casa com outro pretendente colossalmente rico, desta feita um homem de uma velha família senatorial e ele próprio um senador das últimas filas, ou seja, dos mais humildes de todo o Senado. Provinha de Arícia, perto das terras de César em Bovilas, e esse facto tornava-o latino, o que era obviamente melhor que ser campaniano. Depois de ter visto Marco Ácio Balbo, Ju-Ju desposou-o sem um murmúrio de contestação; comparado com Quinto Pédio, podia considerar-se uma escolha razoável, pois tinha apenas 37 anos e, apesar de uma idade tão avançada, ainda era um homem bonito. Como era senador, Marco Ácio Balbo possuía uma domus em Roma, para além de extensas quintas em Arícia. Ju-Ju podia portanto dar-se por feliz, se comparasse a sua situação com a da irmã: é que ela, pelo menos, vivia em Roma quase todo o ano! Estava grávida, mas a mãe não se comovera com a gravidez dela e obrigara-a também a ir a pé até casa de Caio Mário. — As mulheres grávidas não devem ser tratadas como inválidas — dissera Aurélia. — É por isso que muitas morrem ao dar à luz.

— Mas tu dizias que elas morriam porque só comiam favas — contrapusera Ju-Ju, despedindo-se com algum pesar da liteira em que fora transportada da casa do marido, nas Carinas, para o edifício da mãe, no bairro de Subura.

— Essas também morrem de parto. Os físicos pitagóricos são um perigo. Havia mais uma mulher na sala, apesar de nenhum laço de sangue — ou, pelo menos, nenhum laço de sangue próximo — a unir às pessoas presentes. Chamava-se Múcia Tércia e era a esposa do jovem Mário. Filha única de Cévola Pontifex Maximus, tinham- -lhe dado aquele nome para a distinguirem das suas duas famosas primas, as filhas de Cévola, o Augure. Embora não fosse propriamente bela, Múcia Tércia já tinha tirado o sono a muitos homens. Tinha um tom de pele barrento e uns olhos demasiado separados e espessamente cobertos por umas pestanas negras que eram mais longas nos cantos exteriores dos olhos, o que acentuava ainda mais a distância entre eles; embora não o dissesse a ninguém, aparava as pestanas nos cantos interiores dos olhos com uma tesoura de marfim do Velho Egipto. Múcia Tércia tinha total consciência da invulgaridade das suas atracções físicas. O nariz alongado e fino conseguia não ser uma desvantagem, ainda que os puristas preferissem que ele possuísse alguma saliência na ponta ou então uma fenda na cana. A boca também se apartava muito do ideal romano de beleza, pois era muito larga; quando sorria, parecia mostrar cem dentes, aliás todos perfeitos. Mas os lábios eram carnudos e sensuais e a pele era espessa e sedosa e fazia uma bela combinação com o cabelo ruivo-escuro.

César era um dos que a achava muito sedutora. Aos dezassete anos e meio, possuía já uma vasta experiência em questões de sexo. Não havia mulher no bairro de Subura que, através de sugestões mais ou menos veladas, não se tivesse mostrado disposta a ajudar um jovem tão belo nas suas primeiras experiências sexuais. E porcas foram as que se sentiram dissuadidas quando descobriram que César só ia para a cama com uma mulher depois de ela ter tomado um bom banho; espalhara-se celeremente a notícia de que o jovem César estava equipado com poderoso armamento e sabia usá-lo na perfeição.

O interesse que César sentia por Múcia Tércia era motivado, em grande parte, pelo enigma que ela representava; por muito que tentasse, dificilmente conseguiria penetrar na verdadeira personalidade daquela mulher. Ela era uma mulher que facilmente exibia o seu sorriso, e aquela centena de dentes perfeitos, mas o sorriso nunca era acompanhado por qualquer alteração no olhar; e quanto aos seus gestos ou expressões, nunca constituíam pistas para a descoberta do seu pensamento.

Estava casada há quatro anos, quatro anos de aparente indiferença, tanto da sua parte como da parte do jovem Mário. Falavam muito um com o outro, mas sempre dentro dos limites da mais estrita formalidade; nunca trocavam esses olhares de secreto entendimento que são comuns à maior parte dos casais; não se tocavam, nem mesmo quando não estava ninguém por perto; e não tinham filhos. Se aquela era uma união de que estavam ausentes os sentimentos, quem não sofria com isso era por certo o jovem Mário; os seus namoros e aventuras eram bem conhecidos. Mas que se passaria com Múcia Tércia, a quem nunca fora apontada nenhuma imprudência, quanto mais a tentação de infidelidade? Seria feliz, aquela mulher? Amaria o marido? Ou odiá-lo-ia? Impossível saber e, no entanto, instintivamente, César sabia que ela era desesperadamente infeliz.

O grupo estava já convenientemente instalado e todos os olhos se fixavam agora no jovem Mário, o qual, perversamente, tinha optado por sentar-se numa cadeira. Para que o primo não o superasse, César também foi sentar-se numa cadeira, mas muito longe do filho de Caio Mário, que se encontrava no côncavo do U formado pelos três divãs; César sentou-se atrás da mãe, na abertura do U, e, por isso, não podia ver os rostos das duas mulheres que mais amava. Parecia-lhe muito mais importante poder ver o jovem Mário, Múcia Tércia e o chefe dos criados, Estrofantes, que fora convidado a assistir à reunião e que se encontrava de pé, perto da porta, depois de educadamente ter recusado a sugestão do jovem Mário para que se sentasse. Molhando os lábios — um sinal invulgar de nervosismo —, o jovem Mário começou a falar.

— Ao princípio da tarde, Cneu Papírio Carbão e Marco Júnio Bruto fizeram-me uma visita.

— Ora aí está um estranho par — comentou César, que não queria que o discurso do primeiro fluísse sem interrupções; queria ver o jovem Mário um pouco atarantado. O jovem Mário lançou-lhe um olhar irado, mas a ira que sentia não chegava para lhe perturbar o pensamento. Fora apenas uma coisa passageira. Depois, César viu que o seu projecto se tinha frustrado. com efeito, o jovem Mário acrescentou logo de seguida:

— Vieram perguntar-me se eu estaria disposto a disputar o consulado ao lado de Cneu Carbão. Eu respondi que estava.

O espanto era geral. César viu a surpresa estampada nos rostos das irmãs, um súbito espasmo percorrendo a espinha da tia, uma expressão peculiar, mas indecifrável, nos notáveis olhos de Múcia Tércia.

— Mas, meu filho, tu nem sequer estás no Senado! — observou Júlia. — Estarei a partir de amanhã. Perperna vai registar-me como membro do Senado. — Tu nem sequer foste questor, quanto mais pretor!

— O Senado está disposto a dispensar os habituais requisitos. — Mas não tens nem a experiência nem o conhecimento necessários! — persistiu Júlia, com desespero na voz.

— O meu pai foi cônsul sete vezes. Eu cresci rodeado de cônsules e antigos cônsules. Além disso, ninguém pode considerar Carbão inexperiente. — Porque estamos aqui? — perguntou Aurélia.

O jovem Mário fitou a tia com o mais sério e apelativo dos olhares. — Para discutirmos o assunto entre nós, é claro! — retorquiu, um tanto confuso. — Isso não faz sentido! — exclamou Aurélia com brusquidão. — E não faz sentido porque tu já tomaste uma decisão e já disseste a Carbão que ias disputar a seu lado a eleição. Não valia a pena fazer-nos sair do calor das nossas casas para nos dar esta notícia. A esta hora, graças aos mexericos, já todos saberíamos da novidade.

— Isso não é verdade, tia Aurélia!

— Claro que é verdade! — atirou-lhe Aurélia.

Já muito vermelho no rosto, o jovem Mário virou-se para a mãe, o braço estendido num apelo.

— Mamã, não é verdade! Eu sei que disse a Carbão que aceitava, mas sempre tencionei ouvir o que a minha família tinha a dizer! Sempre tencionei fazer isso! Eu posso mudar de opinião!

— Hah! Não acredito que mudes! — retorquiu Aurélia. Os dedos de Júlia estreitaram o pulso de Aurélia.

— Está calada, Aurélia! Não quero que os malefícios da ira invadam esta sala. — Tem toda a razão, tia Júlia: a ira é a emoção menos desejável neste momento — disse César, metendo-se entre a mãe e a tia. Desse novo e vantajoso local, fitou atentamente o primo. — Por que razão disseste que sim a Carbão? — perguntou. Uma questão que não embaraçou o jovem Mário nem por um momento.

— Ora, César, podias considerar-me um pouco mais inteligente, não achas? — disse ele com desdém. — Eu respondi que sim pela mesma razão que tu terias dito que sim, se por acaso não usasses laena e apex.

— Entendo que penses que eu teria aceite, mas, na realidade, nunca teria aceite. In suo anno é a melhor maneira.

— É ilegal — disse inesperadamente Múcia Tércia.

— Não, não é — disse César antes que o jovem Mário pudesse responder. — É contra o costume estabelecido e mesmo contra a lex Villia annalis, mas não é propriamente ilegal. Só poderia tornar-se ilegal e, portanto, passível de julgamento em tribunal, se o teu marido usurpasse a posição em causa contra a vontade do Senado e do Povo. O Senado e o Povo podem legislar no sentido de anular a lex Villia. E é isso que vai acontecer. O Senado e o Povo vão aprovar a legislação necessária, o que significa que só Sila declarará ilegal a eleição do meu primo. Por um momento, todos ficaram calados.

— Isso é o pior de tudo! — disse finalmente Júlia, com a voz embargada. — Vais ter de combater contra Sila.

— Eu acabaria sempre por combater contra Sila — retorquiu o jovem Mário. — Mas não como representante do Senado e do Povo. Ser cônsul é aceitar a responsabilidade máxima. Tu vais chefiar os exércitos de Roma. — Uma lágrima corria pelo rosto de Júlia. — Vais ser o foco dos pensamentos de Sila e ele é o mais terrível dos homens! Não o conheço tão bem como a tua tia, mas conheço-o o suficiente. Cheguei mesmo a gostar dele, nos tempos em que ele cuidava do teu pai. Não sei se sabes, mas houve um tempo em que ele cuidou do teu pai. Obviava sempre a todas as situações embaraçosas em que o teu pai se via envolvido. Um homem mais paciente e perspicaz que o teu pai. E também um homem de alguma honra. Mas o teu pai e Lúcio Cornélio partilhavam um factor muito importante. São homens — ou deveria dizer ”eram”?— que, quando tudo o mais falha, desde a constituição ao apoio popular, são capazes dos maiores excessos para alcançar os seus objectivos. Foi por isso que, em tempos idos, ambos marcharam sobre Roma. E é por isso que Lúcio Cornélio marchará sobre Roma uma vez mais, se por acaso Roma seguir este rumo, ou seja, se Roma te eleger cônsul. O facto de seres eleito significará, para ele, que Roma tenciona combatê-lo até ao fim, que não poderá haver uma resolução pacífica para o conflito. — Júlia suspirou, limpou a lágrima. — É Sila quem me faz desejar que mudes de opinião, meu querido Caio. Se tivesses a idade e a experiência dele, era possível que o derrotasses. Mas não tens. Não podes vencer. E eu perderei o meu único filho. Aquele era o apelo de um adulto razoável e maduro, coisa que o jovem Mário não era. Daí que a sua expressão, enquanto escutava o sentido discurso da mãe, não revelasse qualquer reacção. Preparava-se para lhe responder quando César o interrompeu uma vez mais. — Pois bem, Mater — disse César. — Como a tia Júlia diz, tu conheces Sila melhor do que qualquer de nós! Que achas dele?

Poucas eram as coisas que perturbavam Aurélia e não tinha a mínima intenção de revelar os pormenores da última situação que a deixara seriamente perturbada: aquele trágico e horrível encontro com Sila.

— É verdade. Eu conheço bem Sila. Aliás, como todos sabem, tive mesmo a oportunidade de o ver uma vez há não muito tempo. Mas, em tempos passados, eu era sempre a última pessoa que ele via antes de deixar Roma e a primeira pessoa que ele visitava quando regressava. Entre as suas idas e vindas, quase não o via. Isso é típico de Sila. No fundo, ele é um actor. Não pode viver sem teatro. E soube transformar uma situação que, de outro modo, seria perfeitamente inócua, em algo prenhe de significado. Era por isso que escolhia ver-me unicamente naqueles momentos. Isso dava mais cor e significado à minha presença na sua vida. Em vez de uma vulgar visita a uma senhora com quem gostava de falar de coisas relativamente banais, cada visita transformava-se num adeus ou numa recepção de boas-vindas. Creio que seria correcto dizer que, desse modo, ele acabava por me atribuir um significado invulgar. César sorriu para a mãe.

— Não respondeste à minha questão, Mater — disse ele afavelmente. — Eu sei que não — retorquiu aquela mulher extraordinária, sem denunciar perturbação ou culpa. —vou fazê-lo agora. — Olhou gravemente para o jovem Mário, e prosseguiu: — O que tens de compreender é que, se tiveres de enfrentar Sila na qualidade de representante do Senado e do Povo, ou seja, na qualidade de cônsul, acabarás por ter também, aos olhos de Sila, um significado invulgar. Sila utilizará o facto de seres novo e o facto de seres filho de Mário para ampliar o drama da sua luta pelo poder em Roma. E tudo isto, sobrinho, é muito pouco reconfortante para a tua mãe. Por amor dela, desiste desta ideia! Enfrenta Sila no campo de batalha, mas apenas como um qualquer tribuno militar. — E tu que achas? — perguntou o jovem Mário a César.

— Acho... acho que sim, primo. Sé cônsul antes do tempo. — Lia?

Lia lançou um olhar perturbado para a tia Júlia e retorquiu: — Não, primo, por favor não aceites!

— Ju-Ju?

— Concordo com a minha irmã.

— Mulher?

— Deves seguir o que Fortuna mandar.

— Estrofantes?

O velho criado suspirou.

— Domine, não aceite!

Acenando ligeiramente com a cabeça, o jovem Mário sentou-se de novo e deixou cair o braço pelas costas altas da cadeira. Franziu a boca, expirou suavemente. — bom, de qualquer modo, não tive grandes surpresas — disse. — As mulheres da minha família e o meu chefe dos criados exortam-me a que faça tudo no seu devido tempo e de acordo com o meu estatuto. Exortam-me ainda a que não ponha em perigo a minha reputação. Talvez a minha tia quisesse dizer que poria também em perigo a minha reputação. A minha mulher põe tudo nas mãos da deusa Fortuna — e serei eu um dos seus favoritos? E por fim o meu primo diz que devo ir em frente.

Levantou-se: era de facto uma presença imponente.

— Nãovou voltar atrás com a minha palavra. Se Marco Perperna concordar em fazer-me entrar para o Senado e se o Senado promulgar a legislação necessária, declarar-me-ei candidato ao cargo de cônsul.

— Mas, na verdade, não nos disseste porquê — comentou Aurélia. — Julguei que as razões eram óbvias. Roma está desesperada. Carbão não consegue encontrar nenhum colega à sua altura. Por isso se virou para o filho de Caio Mário. Roma ama-me! Roma precisa de mim! Essa é a razão! — replicou o jovem.

Apenas o mais velho e o mais leal dos criados teria tido a coragem de dizer o que Estrofantes disse, falando não só em nome da mãe angustiada, mas também em nome do falecido pai:

— É o teu pai que Roma ama, domine. Roma vira-se para ti por causa do teu pai. Roma não te conhece. A única coisa que sabe de ti é que és o filho do homem que a salvou dos Germanos, do homem que obteve as primeiras vitórias na guerra contra os Italianos, do homem que foi cônsul sete vezes. Se fores cônsul, será por seres filho de quem és e não por ti mesmo. O jovem Mário adorava Estrofantes, e este sabia-o; tendo em conta as implicações daquele discurso, pode dizer-se que o aceitou muito bem. Limitou-se a franzir os lábios, nada mais. Quando Estrofantes terminou, respondeu apenas:

— Eu sei. Mas cabe-me a mim mostrar a Roma que o jovem Mário é feito da mesma fibra que o seu querido pai.

César olhou para o chão e nada disse. Mas por que raio, perguntava para si mesmo, por que raio é que o velho não deu a laena e o apex do flamen Dialis a outra pessoa? Eu era capaz de lidar com esta situação! O jovem Mário, porém, nunca será capaz! E assim, em fins de Dezembro, os eleitores reunidos nas suas Centúrias concentraram-se no Campo de Marte e elegeram o jovem Mário cônsul sénior e Cneu Papírio Carbão cônsul júnior. O facto de o jovem Mário ter tido muito mais votos que Carbão constituía uma indicação clara do desespero, dos medos e das dúvidas que se tinham apossado de Roma. Contudo, muito dos que votaram sinceramente sentiam que alguma coisa de Caio Mário devia ter ficado no filho e que, sob o comando do jovem Mário, a vitória contra Sila era uma forte possibilidade. Num aspecto tiveram os resultados eleitorais conseqüências muito gratificantes: o recrutamento, sobretudo na Etrúria e na Úmbria, registou uma aceleração imediata. Os filhos e os netos de Caio Mário correram a alistar-se nas legiões do filho, sentindo-se de súbito muito mais animados, cheios de uma nova confiança. E quando o jovem Mário visitou as vastas propriedades do pai, foi saudado como um salvador, festejado, adorado. Roma encheu-se de uma disposição festiva para assistir à tomada de posse dos novos cônsules no primeiro dia de Janeiro. E não ficou desapontada. O jovem Mário exibiu em todas as cerimónias uma felicidade transparente, uma felicidade que o tornava ainda mais querido de todos; tinha um ar magnificente, e sorria, acenava, saudava rostos conhecidos por entre a multidão. E como toda a gente sabia onde estava a sua mãe (aos pés da grave estátua do falecido marido, perto dos rostra), todos puderam ver o novo cônsul sénior deixar o seu lugar no desfile para ir beijar-lhe as mãos e os lábios. E para fazer uma garbosa saudação ao pai. Talvez o povo de Roma precisasse de ter a juventude no poder neste momento crítico, pensou cinicamente Carbão. O que é certo é que já há muitos anos que não via uma multidão saudando de forma tão entusiástica um cônsul no primeiro dia do seu mandato. E por todos os deuses, concluiu Carbão, só espero que Roma não se venha a arrepender deste negócio eleitoral! É que, até àquele momento, a atitude do jovem Mário se caracterizara pela maior despreocupação; parecia considerar como um dado adquirido que tudo iria parar às suas mãos, que não teria necessidade de se esforçar, que todas as batalhas a haver estavam já ganhas. Os augúrios não eram bons, embora os novos cônsules não tivessem testemunhado nada de desagradável durante a sua noite de vigília no Capitólio. O mau augúrio decorria de uma ausência — uma ausência tão importante que ninguém poderia esquecê-la ou ignorá-la. No ponto mais alto do monte Capitolino, onde, durante quinhentos anos, existira o grande templo de Júpiter, mais não havia agora do que uma pilha de detritos enegrecidos, irreconhecíveis. No sexto dia de Quinctilis do ano que findara, um incêndio que começara no interior da casa do Grande Deus tinha lavrado durante sete longos dias. Do templo, nada restava. Nada. O grande problema é que o templo fora construído numa época em que se recorria muito à madeira: por isso, só o pódio era de pedra. Os maciços tambores das suas colunas dóricas eram de madeira, tal como eram de madeira as paredes, os tectos, os painéis interiores. Só o seu descomunal tamanho e solidez, as raras e dispendiosas cores usadas na pintura, os gloriosos murais e a copiosa ornamentação dourada tinham levado os Romanos a considerar aquele templo como uma residência adequada para Júpiter, o mais poderoso de todos os deuses, que aliás não tinha outra; a ideia de o grande Júpiter ter a sua residência no alto da mais alta montanha — tal como sucedia com Zeus, o deus máximo dos Gregos — era absolutamente inaceitável para qualquer romano ou italiano.

Depois de as cinzas terem esfriado, os sacerdotes foram inspeccionar o local e deram com um monte de restos. Da gigantesca estátua de terracota do Deus, feita pelo escultor etrusco Vulca, durante o reinado do velho Tarquínio, não havia sinal. As estátuas de marfim da mulher de Júpiter, Juno, e da sua filha Minerva, também tinham desaparecido; o mesmo sucedera às estátuas dos dois misteriosos intrusos do templo, os deuses Término e Juventas, que se tinham recusado a mover-se do local quando o rei Tarquínio iniciara a construção do lar de Júpiter Optimus Maximus. O fogo tinha também consumido tábuas de leis e arquivos antiquíssimos, tal como os Livros Sibilinos e muitos outros documentos proféticos em que Roma confiava como os mais adequados guias em tempos de crise. Inúmeros tesouros feitos de ouro e prata tinham-se derretido, incluindo a sólida estátua de ouro de Vitória, dada por Hierão de Siracusa depois de Trasimene, e uma outra estátua maciça, de bronze dourado, de Vitória conduzindo uma biga — um carro puxado por dois cavalos. Os fragmentos de metal, distorcidos e cheios de impurezas, encontrados no meio dos detritos tinham sido reunidos e entregues aos ferreiros para refinação, mas o metal que os ferreiros conseguiram extrair (e que foi rapidamente para o Tesouro, quando poderia ter sido usado para fazer outras obras artísticas) nunca poderia substituir os nomes imortais dos autores das esculturas perdidas — Praxíteles e Mirão, Estronguilião e Policleto, Escopas e Lisipo. A Arte e a História tinham sido consumidas pelas mesmas chamas que destruíram o lar terreno de Júpiter Optimus Maximus.

Os templos adjacentes tinham também sido atingidos pelo incêndio, em particular o templo de Ops, a misteriosa guardiã da riqueza pública de Roma, que não tinha rosto nem corpo; o templo teria de ser reconstruído e reconsagrado, tão grande fora o prejuízo. O templo de Fé Pública também sofrera bastante. O calor do fogo próximo reduzira a cinzas todos os tratados e pactos afixados nas suas paredes interiores, bem como as faixas de linho atadas à mão direita de uma estátua muito antiga, que se pensava ser a própria Fé Pública. O outro edifício afectado pelo incêndio era novo e fora construído em mármore e, por isso, precisava apenas de uma nova pintura. Tratava-se do templo dedicado à Honra e à Virtude erigido por Caio Mário para albergar os seus troféus de guerra, as suas condecorações militares e as ofertas que fizera a Roma. O que perturbava todos os Romanos era o significado da distribuição dos prejuízos: Júpiter Optimus Maximus era o espírito que guiava Roma; Ops era a prosperidade pública de Roma; Fé Pública era o espírito de boa-fé entre os Romanos e os seus deuses; e Honra e Virtude eram as duas principais características da glória militar de Roma. Daí que todos os Romanos se perguntassem a si mesmos: teria sido o fogo um sinal de que a supremacia de Roma chegara ao fim? Seria o fogo um sinal de que Roma estava acabada? Desta forma, os cônsules daquele ano eram os primeiros a ser empossados sem a protecção de Júpiter Optimus Maximus. Um santuário provisório fora erigido sob um dossel, aos pés do pódio de pedra enegrecido que sustentava o antigo templo, e foi nesse local que os novos cônsules fizeram as suas oferendas e os seus juramentos.

com o seu cabelo claro escondido pelo apertado capacete de marfim, e o corpo oculto pelas sufocantes dobras da laena, César, o flamen Dialis, participou nos ritos, ainda que não tivesse qualquer papel activo a desempenhar. As cerimónias foram conduzidas pelo sacerdote-chefe da República, o Pontifex Maximus, Quinto Múcio Cévola, sogro do jovem Mário. Enquanto assistia aos ritos, dois tipos diferentes de sofrimento perturbaram César: o primeiro, causado pelo facto de a destruição do Grande Templo ter roubado ao sacerdote de Júpiter o seu lar religioso; o segundo, causado pela verificação de que nunca vestiria a toga de debrum púrpura do cônsul. Mas tinha aprendido a lidar com o sofrimento e, ao longo de todos os rituais, conseguiu manter a postura correcta e uma expressão que não denunciava nada do que ia no seu coração.

A reunião do Senado e a festa que se seguia já não se podiam realizar no templo de Júpiter Optimus Maximus: decorriam agora na Cúria Hostília que, para além de sede do Senado, era um templo convenientemente consagrado. Ainda que pela sua idade não pudesse entrar na Cúria Hostília, César, enquanto flamen Dialis, era automaticamente um membro do Senado, e por isso ninguém se opunha à sua entrada. Aí, escutou impassivelmente as breves e formais medidas que o jovem Mário tinha de tomar, na sua qualidade de cônsul sénior. Os diversos governos que iniciariam funções para os próximos doze meses foram distribuídos, por sorteio, aos pretores daquele ano e aos dois cônsules, a data da festa de Júpiter Latiaris no monte Albano foi fixada, e outros dias móveis de natureza pública ou religiosa foram também fixados.

Dado que, entre as deliciosas iguarias servidas após a reunião, poucas eram aquelas em que o flamen Dialis podia tocar, César instalou-se num local recolhido e tratou de ouvir o maior número possível de conversas. Entretanto, os senadores começavam a distribuir-se pelos diversos divãs. Os cargos exercidos ditavam as posições de alguns dos presentes na sala, em particular daqueles que eram magistrados, sacerdotes ou augures, mas a grande massa dos senadores tinha inteira liberdade para se instalar onde quisesse. Daí que muitos optassem por ficar junto de amigos, com eles disputando gulosamente as iguarias que a abastada bolsa do jovem Mário providenciara.

Aquela era uma assembleia escassa. Não estariam presentes mais de cem senadores, tantos eram os que já se tinham juntado a Sila. Por outro lado, nem todos os que tinham assistido à tomada de posse eram adeptos dos cônsules ou dos seus planos. Quinto Lutácio Catulo estava presente, mas não era adepto da causa de Carbão; o seu pai, Catulo César (que morrera durante o banho de sangue lançado por Mário) fora um inimigo implacável de Mário, e o filho era feito da mesma massa, embora não tão dotado ou instruído. Isto, reflectia o observador César, era devido ao facto de o sangue juliano do pai ter sido diluído pelo da mãe de Quinto Lutácio, uma Domícia dos Domícios Aenobarbos — uma família famosa por muitas razões, mas não pelas capacidades intelectuais. César não gostava dele por razões que se prendiam com a mera aparência física; Catulo era muito baixo e magro e, tal como a mãe, tinha cabelo ruivo e sardas. Estava casado com a irmã do homem reclinado ao seu lado no mesmo divã, Quinto Hortênsio, e Quinto Hortênsio (outro nobre que permanecia em Roma mas que se dizia neutral) estava casado com a irmã de Catulo, Lutácia. com trinta e poucos anos, Quinto Hortênsio tornara-se o maior advogado de Roma dos tempos de Cina e Carbão, e era considerado por alguns a maior autoridade em leis que Roma alguma vez tinha produzido. Era um homem bastante atraente; o seu gosto pelos pequenos prazeres da vida era denunciado por um lábio inferior muito sensual; quanto ao seu gosto por belos rapazes, era evidente pela forma como olhava naquele instante para César. Habituado a olhares desses, César levou Hortênsio a desistir rapidamente de qualquer projecto: respondeu-lhe entortando os olhos e chupando os lábios todos para dentro. Hortênsio enrubesceu e virou-se imediatamente para Catulo.

Nesse momento, um criado abeirou-se de César, segredando-lhe que o seu primo pedia a sua presença no outro extremo da sala. César levantou-se do degrau onde se tinha agachado para melhor observar os presentes e, com um andar pouco elegante, por causa dos tamancos de sacerdote, dirigiu-se ao local onde se encontravam o jovem Mário e Carbão. Depois de beijar o primo na cara, sentou-se na beira do pódio curul atrás do divã. — Não comes? — perguntou-lhe o primo.

— Não há muitas coisas que eu possa comer.

— Tens razão, esqueci-me — disse o jovem Mário, com a boca cheia de peixe. Engoliu o peixe e apontou para a enorme travessa que estava na mesa em frente do seu divã. — Não há nada que te impeça de comer aquilo — disse ele.

César olhou para a carcaça parcialmente desmembrada com muito pouco entusiasmo; era uma lampreia do Tibre.

— Obrigado — disse ele. — Mas nunca encontrei nenhuma virtude em comer merda. Este comentário provocou o riso do jovem Mário, mas não destruiu o seu apetite por um peixe que se alimentava dos excrementos que saíam dos vastos esgotos de Roma; Carbão, notou César divertido, não tinha um estômago tão forte como o outro cônsul, pois a sua mão, que se abeirava de uma posta de lampreia, mudou subitamente de direcção para se fixar num pequeno frango assado.

Claro que, naquele sítio, César dava muito mais nas vistas; porém, em compensação, também podia ver muito mais caras. Enquanto conversava sobre coisas sem importância com o primo, os seus olhos andavam numa azáfama, saltando de homem para homem. Roma, pensou, podia estar muito contente com a eleição de um cônsul sénior com 26 anos, mas alguns dos homens presentes naquele banquete não estavam nada contentes. Em particular os amigos de Carbão — Bruto Damasipo, Caninas, Marco Fânio, Censorino, Públio Burrieno, Públio Albinovano, o Lucaniano... Claro que havia alguns que estavam muitíssimo satisfeitos, como era o caso de Marco Mário Gratidiano e de Cévola Pontifex Maximus, mas ambos eram parentes do jovem Mário e tinham, por assim dizer, um capital investido na eleição e no êxito do desempenho do novo cônsul.

O jovem Marco Júnio Bruto apareceu do lado do divã ocupado por Carbão. César reparou que Carbão saudou o jovem com um fervor desusado; Carbão, normalmente, não condescendia em mostrar-se tão efusivo. O jovem Mário cedeu então o seu lugar a Bruto e foi à procura de companheiros mais divertidos. Bruto acenou de passagem para César, sem mostrar qualquer interesse por ele. Isso era o que as funções do flamen Dialis tinham de melhor; o sacerdote de Júpiter não despertava nenhum interesse porque, do ponto de vista político, era absolutamente insignificante. Carbão e Bruto deram início à sua conversa sem qualquer constrangimento.

— Creio que podemos congratular-nos com o nosso excelente plano — disse Bruto, enfiando os dedos no esqueleto da lampreia, nesse momento prestes a desintegrar-se. — Huh — fez Carbão e, com uma careta, pôs de lado o frango, em que apenas mordiscara, e substituiu-o por pão.

— Ora! De vias estar mais animado!

— com quê? com ele? Ora, Bruto, ele é tão vazio como um ovoftacabado de chupar! Já vi que chegue dele neste último mês para saber que assim é. Ele é que vai ficar com os fasces no mês de Janeiro, mas sou eu quevou ter o trabalho todo.

— Não estavas à espera que as coisas fossem de outro modo, pois não? Carbão encolheu os ombros e atirou o pão para cima da mesa; desde que César falara em merda que o seu apetite se evaporara.

— Ah, não sei... Talvez estivesse à espera de que ele ficasse mais sensato. No fim de contas, é filho de Mário e a mãe é da família dos Júlios. Uma pessoa pensa sempre que esses factos têm algum peso.

— E pelos vistos não têm, é isso?

— Têm tanto peso como o lenço usado da tua avozinha. O máximo que posso dizer dele é que é um ornamento útil — faz-nos parecer a todos muito bonitos e atraentes e é um bom chamariz para o recrutamento.

— Se calhar também é capaz de chefiar tropas — disse Bruto, limpando as mãos engorduradas a um guardanapo de linho que um escravo lhe passara. — Se calhar. Mas aposto que não é. Tenciono seguir o teu conselho nessa área. — Que conselho?

— Não lhe dar os melhores soldados.

— Ah. — Bruto deitou fora o guardanapo, sem se preocupar em ver se o criado silencioso que estava perto de César conseguiria apanhá-lo. — Quinto Sertório não está cá hoje. Eu ainda tinha esperanças de que ele viesse a Roma para assistir às cerimónias. É que, no fim de contas, o jovem Mário sempre é primo dele.

Carbão desatou a rir, e o seu riso não era um som agradável. — Sertório, meu caro Bruto, abandonou a nossa causa. Deixou Sinuessa entregue ao seu destino, partiu para Telamão, recrutou uma legião de clientes etruscos de Caio Mário e embarcou para Tarragona, aproveitando os ventos de Inverno. Por outras palavras, apoderou-se do governo da Hispânia Citerior muito, muito cedo. Espera, sem dúvida, que haja já uma decisão em Itália quando o seu governo chegar ao fim.

Continuar: parte 4 de 4