Os Favoritos de Fortuna
resto deste ano não te ensinar mais…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— É um cobarde! — exclamou Bruto, indignado. Carbão fez um ruído grosseiro. — Não, isso ele não é! Preferia considerá-lo um homem estranho. Nunca reparaste que ele não tem amigos? Nem sequer mulher. Mas não possui a ambição de Caio Mário. Todos temos de dar graças por isso. Se ele fosse tão ambicioso como Caio Mário, a esta hora já seria cônsul sénior.
— bom, acho uma pena que ele nos tenha abandonado. A sua presença no campo de batalha teria feito a diferença. Além de tudo o mais, ele sabe como Sila combate. Carbão arrotou e levou a mão à barriga.
— Acho que mevou retirar para tomar um emético. O prodigioso sortido de comidas do nosso rapaz é demasiado suculento para o meu estômago. Bruto ajudou o cônsul júnior a erguer-se do divã e conduziu-o a um recanto do salão, atrás do pódio, onde vários criados aguardavam os mais aflitos, dispondo, para o efeito, de uma apreciável quantidade de bacios e bacias.
Lançando um breve olhar, cheio de desprezo, para Carbão, quando este já não podia vê-lo, César decidiu que tinha ouvido a conversa mais importante daquele banquete de tomada de posse dos cônsules. Descalçou os tamancos, pegou neles e, calmamente, abandonou o salão. Lúcio Decúmio estava escondido num recanto obscuro do vestíbulo da Casa do Senado e abeirou-se de César no momento em que este apareceu no vão da porta. Os seus braços estavam cheios de peças de roupa mais adequadas — botas decentes, uma capa com capuz, meias, calções de lã. César despiu imediatamente o traje de flamen Dialis. Atrás de Lúcio Decúmio, surgiu uma criatura formidável que pegou no apex, na laena e nos tamancos e os meteu numa saca de couro.
— O quê? Já regressaste de Bovilas, Burgundo? — perguntou César, atrapalhado com o frio enquanto se esforçava por calçar uma bota sem correias. — É verdade, César.
— E como vão as coisas? Cardixa está bem?
— Tenho mais um filho.
Lúcio Decúmio soltou um risinho.
— Eu bem te disse, Pavo! Quando chegares a cônsul, já ele te terá dado uma equipa completa de guarda-costas!
— Eu nunca chegarei a cônsul — retorquiu César, pesaroso, enquanto olhava, pela janela, para os telhados da Basílica Emília, cobertos de neve. — Disparate! Claro que chegarás a cônsul! — disse Lúcio Decúmio, envolvendo com as mãos o rosto de César. — Acaba já com essa tristeza! Nada no mundo te poderá deter a partir do momento em que tomares uma decisão! Nada, ouviste? — Lúcio Decúmio deixou cair as mãos e uma delas gesticulava já, impaciente, para Burgundo. — Põe-te já a caminho, minha bisarma germânica! Vá, vai à frente para abrires caminho para o senhor! Aquele Inverno terrível continuou como tinha começado e parecia nunca mais ter fim.
O calendário estava agora em perfeita harmonia com as estações, ao fim de vários anos de exercício do cargo de Pontifex Maximus por Cévola; Cévola, tal como Metelo Dalmático, acreditava que devia haver uma harmonia total entre as datas e as estações, enquanto que o Pontifex Maximus que o antecedera, Cneu Domício Aenobarbo, fizera com que o calendário se adiantasse — tinha menos dez dias que o ano solar — porque, segundo as suas próprias palavras, tinha o maior desprezo por certos hábitos amaneirados dos Gregos. Em Março, finalmente, o degelo começou e a Itália começou a acreditar que o calor voltaria aos campos e às casas. Adormecidas desde Outubro, as legiões acordaram e lançaram-se ao trabalho. Enfrentando os caminhos ainda cheios da neve do princípio de Março, Caio Norbano saiu de Cápua com seis das suas oito legiões e marchou ao encontro de Carbão, que estava de volta a Arimino. A meio do caminho, passou por Sila, que preferiu ignorá-lo; na Via Latina e depois na Via Flamínia, Norbano podia avançar facilmente apesar da neve e depressa chegou a Arimino. A sua chegada fez subir para trinta legiões e vários milhares de soldados de cavalaria as forças de Carbão — uma carga enorme para Roma e para o Ager Gallicus. Mas antes de rumar a Arimino, Carbão tinha resolvido o mais premente dos seus problemas: arranjar o dinheiro para manter tantos soldados. Foram porventura o ouro e a prata obtidos a partir dos destroços do templo de Júpiter Optimus Maximus que lhe deram a ideia de como resolver o problema. De facto, a primeira coisa que fez foi apoderar-se desses lingotes de ouro e prata depositados entretanto no Tesouro, deixando no seu lugar uma nota promissória que rezava que Roma ficava a dever ao seu Grande Deus um determinado total de talentos de ouro e prata. Muitos dos templos de Roma tinham acumulado riquezas graças aos seus próprios esforços e, dado que a religião era parte integrante do Estado e, para mais, governada pelo Estado, Carbão e o jovem Mário trataram de pedir ”emprestado” algum do dinheiro detido por esses templos. Teoricamente, estes pedidos de empréstimo não eram inconstitucionais, ainda que, na prática, fossem mal vistos, pelo que raramente se recorria a eles. A verdade, porém, é que, nessa altura, muitos foram os baús cheios de moedas que saíram das casas-fortes dos templos. Nada escapou: os sestércios que eram dados a Juno Lucina pelo nascimento de um filho, menino ou menina, de um cidadão romano; os denários que eram dados a Juventas pelo crescimento feliz dos rapazinhos romanos, filhos de cidadãos; os muitos denários doados a Mercúrio depois de um homem de negócios ter molhado o seu ramo de loureiro na fonte sagrada; os sestércios que eram dados a Vénus Libitina por morte de um cidadão romano; os sestércios que eram doados a Vénus Erucina por prostitutas bem sucedidas na vida — todo este dinheiro e muito mais foi requisitado para financiar a máquina de guerra de Carbão. O ouro e a prata em barras ou lingotes também foram levados e todas as oferendas de prata ou ouro doadas aos templos (desde que não fossem consideradas obras de arte) foram fundidas.
O pretor Quinto António Balbo, que não pertencia à família nobre dos Antónios, ficou com a tarefa de cunhar novas moedas e de pôr fora da circulação as velhas. Era possível que muitos considerassem aquela operação um sacrilégio, mas a verdade é que o valor total dos despojes era absolutamente impressionante. Assim, Carbão pôde deixar o jovem Mário a tomar conta de Roma e da campanha no Sul, e viajar para Arimino sem preocupações a atormentá-lo. Embora nenhum dos campos estivesse consciente de que partilhava algo com o outro, a verdade é que Sila e Carbão tinham tomado uma resolução similar — aquela guerra civil não poderia arruinar a Itália, todos os mantimentos de homens e animais envolvidos nas hostilidades teriam de ser pagos com dinheiro na mão, as terras devastadas pelas manobras militares deviam ser reduzidas ao mínimo dos mínimos. A Guerra Italiana tinha deixado todo o país a um passo da extinção; o país não agüentaria outra guerra igual e, para mais, tão pouco tempo depois. E tanto Sila como Carbão sabiam disso.
Sabiam também que, aos olhos do povo, faltava àquela guerra a nobreza de propósitos e as férreas motivações que haviam abundado na Guerra Italiana. Esta fora uma luta entre estados italianos que queriam ser independentes de Roma e uma Roma que queria manter os estados italianos num certo grau de vassalagem. Mas quais eram verdadeiramente as motivações deste novo conflito? As motivações reduziam-se a isto: qual dos dois campos adversários acabaria por dominar e possuir Roma. Era uma luta pela supremacia travada entre dois homens, Sila e Carbão, e nenhuma propaganda conseguiria disfarçar esse facto. E o povo miúdo de Roma e de Itália também não se deixava enganar. Por isso, o país não podia ser submetido a uma provação extrema, nem o bem-estar econômico das comunidades romana e italiana podia ser afectado. Sila ia buscar o seu dinheiro aos soldados, mas Carbão só podia recorrer aos deuses. E nas mentes de ambos pairava permanentemente um dilema tremendo: como pagar aquela dívida, depois de a guerra acabada?
Nada disto perturbava os pensamentos do jovem Mário, filho de um homem fabulosamente rico e que crescera sem qualquer preocupação relacionada com dinheiro, fosse este para pagar alguma dispendiosa ninharia ou para pagar as legiões. Se o velho Caio Mário tinha falado com alguém acerca dos aspectos fiscais da guerra, esse alguém fora César, durante os meses em que César o ajudara a recuperar da segunda trombose. com o filho, aliás, Caio Mário raramente falava. Na altura em que mais precisara do filho, o jovem Mário estava na idade de se entusiasmar mais com os encantos de Roma do que as lições do pai. César, nove anos mais novo que o primo, tivera acesso a todas as recordações de Caio Mário. E César escutara-as avidamente e aprendera as lições. As lições que, desde que era sacerdote, de nada lhe serviam. Quando o degelo começou, depois de meados de Março, o jovem Mário e a sua equipa de legados mudaram-se de Roma para um acampamento nas cercanias da pequena cidade de Ad Picta, na Via Labicana, um diverticulum que evitava os montes Albanos e se juntava à Via Latina num local chamado Sacriporto. Aí, numa planície aluvial, oito legiões de voluntários etruscos e úmbrios tinham estado acampadas desde o início do Inverno, sob um programa de treino tão rigoroso e intensivo quanto o frio permitia. Os centuriões destas legiões eram todos veteranos de Mário, e bons instrutores, mas, quando o jovem Mário chegou ao acampamento, em fins de Março, as tropas estavam ainda muito verdes. Não que o jovem Mário se preocupasse com isso; acreditava sinceramente que o mais inexperiente dos recrutas lutaria por ele como os mais duros dos soldados tinham lutado pelo seu pai. E enfrentava a tarefa de deter Sila com uma confiança ilimitada.
Havia homens no seu acampamento que compreendiam muito melhor que ele a grandeza e a dificuldade dessa tarefa, mas nenhum deles tentou esclarecer o cônsul e comandante sobre o assunto. Se lhes tivessem perguntado porquê, teriam respondido provavelmente que, sob uma capa feita de bazófia, o jovem Mário não possuía os recursos internos necessários para enfrentar uma verdade tão dura. Sendo o chefe, pelo menos de nome, o jovem Mário tinha de ser acarinhado e protegido, não poderia sofrer uma beliscadura. Quando lhe chegaram informações da espionagem segundo as quais Sila se preparava para avançar, o jovem Mário exultou. Ao que parecia, Sila tinha enviado onze das suas dezoito legiões e quase todos os esquadrões de cavalaria, sob o comando de Metelo Pio, o Bacorinho, na direcção da costa adriática e de Carbão, que se encontrava em Arimino. O que deixava Sila apenas com sete legiões, uma força inferior àquela de que o jovem Mário dispunha.
— Posso derrotá-lo! — disse ele para o seu legado sénior, Cneu Domício Aenobarbo. Casado com a filha mais velha de Cina, Aenobarbo aderira ao partido de Carbão, apesar de uma inclinação natural por Sila; estava demasiado apaixonado pela sua bela esposa e suficientemente dominado por ela para fazer o que ela muito bem entendesse. Procurava, por isso, ignorar o facto de a maior parte dos seus parentes próximos se mostrarem neutrais ou favoráveis a Sila.
e Agora que via o jovem Mário tão exultante, Aenobarbo sentia-se, pelo contrário, muito preocupado; talvez devesse começar a pensar na melhor maneira de fugir, e para onde, se o jovem Mário não estivesse à altura da sua jactância e não vencesse a velha raposa vermelha, Sila. No primeiro dia de Abril, o jovem Mário, ainda com uma disposição excepcionalmente jovial, abandonou o acampamento com o seu exército, atravessou os antigos pilonos de Sacriporto e fez-se à Via Latina, rumando para sudeste, ou seja, para a Campânia e Sila. Não perdia tempo: havia duas pontes a atravessar, distando uma da outra pouco mais de oito quilômetros, e ele queria atravessá-las antes de encontrar o inimigo. Ninguém lhe deu nenhum conselho quanto à imprudência que era marchar ao encontro de Sila em vez de permanecer onde estava, e, embora tivesse viajado pela Via Latina dezenas de vezes, o Jovem Mário não era homem para se lembrar do terreno ou para ver o terreno em termos militares. Na primeira ponte, sobre o rio Veregis, permaneceu atrás enquanto as suas tropas, muito animadas, a atravessavam. De súbito, apercebeu-se de que o terreno que se avizinhava era pior para o combate do que as cercanias dos pilonos de Sacriporto. Mas não parou. Na segunda ponte, sobre o leito, mais largo e torrencial, do Tolero, deu-se finalmente conta de que avançava a passos largos para uma região onde as suas legiões teriam dificuldades de manobra. Entretanto, os seus batedores surgiram com a informação de que Sila se encontrava a cerca de quinze quilômetros dali e que acabara de passar, a boa velocidade, pela cidade de Ferentino. Ao ouvir isto, o jovem Mário entrou em pânico.
— Creio que será melhor voltarmos para Sacriporto — disse ele a Aenobarbo. — Nesta região, não posso manobrar as tropas à minha vontade e, por outro lado, não posso desviar-me de Sila para procurar um terreno menos acidentado. Por isso, teremos de enfrentá-lo em Sacriporto. Não achas que é melhor?
— Se tu achas que é... — disse Aenobarbo, que estava consciente do efeito que uma ordem de retirada teria naqueles soldados inexperientes, mas decidiu não dizer palavra. — Eu dou a ordem. Regressamos a Sacriporto.
— A toda a pressa! — exclamou o jovem Mário, cada vez menos autoconfiante e cada vez mais em pânico.
Aenobarbo olhou para ele, espantado, mas optou uma vez mais por não dizer nada. Se o jovem Mário queria que o seu exército ficasse exausto depois de uma retirada a toda a velocidade, por que haveria ele de contrariá-lo? Fosse como fosse, não conseguiriam vencer. E assim, as oito legiões voltaram para Sacriporto em marcha redobrada e os milhares de jovens soldados não escondiam a sua perplexidade ao ouvirem os centuriões exortando-os a todo o momento para que marchassem mais depressa. Também o jovem Mário acabou por ser contaminado por esta pressa desesperada, surgindo no meio das suas hostes a dar ordens para que não abrandassem, sem pensar uma única vez que deveria informá-los de que não estavam a retirar, mas apenas a procurar um terreno mais apropriado para a batalha. O resultado foi que tanto as tropas como o comandante chegaram ao ansiado terreno numa condição mental e física que não lhes permitia tirar partido desse factor.
Tal como todos os seus pares, o jovem Mário aprendera a travar uma batalha. Porém, até esse momento, limitara-se a acreditar que a sagacidade e a destreza do seu pai surgiriam automaticamente na sua mente sempre que necessário; porém, em Sacriporto, rodeado pelos legados e pelos tribunos militares que aguardavam as suas ordens, não conseguia pensar, não conseguia encontrar em si um único resquício da sagacidade e da destreza do pai. — Ora bem — disse por fim. — Disponham as legiões em xadrez — uma profundidade de oito homens de cada lado de cada quadrado, e mantenham duas legiões em linha, atrás, para servirem de reforço.
Estas não eram as ordens adequadas, mas ninguém tentou obter dele melhores ordens. As suas tropas, sequiosas e ofegantes, não ficaram mais animadas antes da batalha, pois o jovem Mário não lhes fez o discurso habitual; em vez disso, instalou-se num extremo do campo e montou no cavalo, com os ombros curvados e o rosto denunciando a violência do seu dilema. Discernindo o pouco afortunado plano de batalha do jovem Mário do alto de um monte entre o rio Tolero e Sacriporto, Sila suspirou, encolheu os ombros e mandou avançar as suas cinco legiões de veteranos, sob o comando do velho Dolabela e de Servílio Vátia. Quanto às duas melhores legiões do antigo exército de Cipião Asiáfeno, manteve-as em reserva, sob a chefia de Lúcio Mânlio Torquato, enquanto ele permanecia no cume do monte, assistido por um esquadrão de cavalaria transformado em corpo de mensageiros e encarregado de levar as instruções do general para o campo de batalha caso uma mudança de táctica se tornasse necessária. com Sila estava nem mais nem menos do que o velho Lúcio Valério Flaco Princeps Senatus, o dirigente do Senado; Flaco tomara uma decisão definitiva no pino do Inverno: deixara Roma em meados de Fevereiro e fora juntar-se a Sila.
Quando viu o exército de Sila a aproximar-se, o jovem Mário sentiu que a calma regressava à sua mente, ainda que não o optimismo, e assumiu pessoalmente o comando da sua ala esquerda, sem fazer a mínima ideia do que estava a fazer ou do que devia fazer. Os dois exércitos encontraram-se a meio da tarde e, antes que tivesse passado uma hora, já os jovens camponeses etruscos e úmbrios que, cheios de entusiasmo, se tinham alistado nas hostes do jovem Mário, desatavam a fugir em todas as direcções, enquanto os veteranos de Sila destroçavam facilmente os que os enfrentavam. Uma das duas legiões que o jovem Mário manteve de reserva desertou em massa para as hostes de Servílio Vátia e ficou quieta e parada enquanto, a pouca distância, os seus camaradas eram massacrados. Foi a visão dessa legião de desertores que acabou com o jovem Mário. Lembrando-se de que a formidável cidade-fortaleza de Preneste não ficava muito longe de Sacriporto, ordenou a retirada para essa cidade. Agora que já tinha algo de tangível para fazer, portou-se muito melhor e conseguiu evacuar as tropas da sua ala esquerda de forma razoavelmente ordenada. Comandando a ala direita de Sila, Ofela foi em perseguição do jovem Mário com uma rapidez e uma selvajaria que Sila, observando do cume do monte, aplaudiu calorosamente. Ao longo de mais de quinze quilômetros, Ofela perseguiu e fustigou, interceptou e retalhou os soldados que ficavam para trás, enquanto o jovem Mário procurava salvar o máximo de homens possível. Porém, quando as enormes portas de Preneste se fecharam atrás dele, contava apenas com sete mil dos seus soldados.
O eixo das tropas do jovem Mário tinha perecido no campo (quase nenhum soldado resistira), mas a sua ala direita, chefiada por Aenobarbo, conseguira fugir para Norba. Esta antiga fortaleza dos Volscos, fanaticamente leal à causa de Carbão, ficava no cume de uma montanha situada trinta quilômetros para sudoeste, e foi com alegria que abriu as portas das suas inexpugnáveis muralhas para receber os dez mil homens de Aenobarbo. Mas não para receber Aenobarbo! Desejando aos seus exaustos soldados a melhor sorte para o futuro, Aenobarbo continuou na direcção da costa e, em Tarracina, embarcou para África, isto é, para o local mais afastado de Itália de que conseguiu lembrar-se depois de ter acalmado. Ignorando que o seu legado sénior se tinha escapado, o jovem Mário mostrou a maior satisfação por dispor daquele abrigo em Preneste; Sila verificaria que era extremamente difícil, ou mesmo impossível, desalojá-lo daquela cidade. Situada a cerca de cinqüenta quilômetros de Roma, Preneste ficava num cume dos Apeninos; a sua situação geográfica permitira-lhe resistir a muitos assaltos ao longo dos séculos. Nenhum exército conseguiria apossar-se da fortaleza atacando-a por trás, onde o afloramento em que assentava se colava a picos ainda mais altos e abruptos; no entanto, podia ser abastecida por esse lado, pelo que era praticamente impossível reduzir à fome os eventuais sitiados. As nascentes não faltavam dentro da cidadela, e, nas vastas cavernas situadas debaixo do imponente santuário de Fortuna Primigénia, santuário que trouxera fama a Preneste, estavam armazenados muitos medimni de trigo, azeite e vinho, outros alimentos imperecíveis como certos queijos e passas de uva, e também as maçãs e as peras da última colheita.
Embora as suas raízes fossem latinas e o latim que falavam fosse considerado pelos seus orgulhosos cidadãos com o mais antigo e o mais puro, Preneste nunca se tinha aliado a Roma. Combatera do lado dos Aliados Italianos durante a Guerra Italiana, e continuava a defender, com alguma arrogância, que a sua cidadania era superior à de Roma — Roma era uma cidade nova-rica! A sua ferverosa adesão ao jovem Mário era portanto lógica; aos olhos do povo de Preneste, o jovem Mário era o oprimido enfrentando o poder vingativo de Sila; por outro lado, o facto de ser filho de quem era também contribuiu para o calor da recepção. Em sinal de agradecimento, o filho de Caio Mário mandou os seus soldados explorar os caminhos de cabras que havia em volta da cidadela, ordenando-lhes que trouxessem toda a caça e alimentos que encontrassem. Preneste tinha agora muitas bocas novas para alimentar.
— No Verão, o exército de Sila sentirá já tantas faltas que se verá obrigado a retirar; então, poderás partir — disse o supremo magistrado da cidade ao jovem Mário. Uma profecia que não se cumpriu; menos de oito dias depois da batalha de Sacriporto, o jovem Mário e os habitantes de Preneste testemunharam os preparativos de um cerco demasiado monumental para não fazer ceder a cidade. Os ribeiros que corriam pela montanha na direcção de Roma foram todos conduzidos para o rio Ânio, ao passo que aqueles que corriam na direcção oposta foram conduzidos para as águas do Tolero: Preneste transformava-se na linha divisória entre dois grandes rios. E pouco tempo depois, com uma velocidade que os sitiados consideraram inacreditável, uma enorme muralha com fosso começou a ser construída desde o Ânio até ao Tolero. Terminadas estas obras preparatórias do cerco, a única forma de entrar ou sair de Preneste seria através dos caminhos de cabras das montanhas do lado de trás da fortaleza. Desde que, como é evidente, esses caminhos fossem deixados sem protecção. As notícias de Sacriporto voaram para Roma antes do ocaso desse dia fatal — mas muito secretamente. A disseminação geral teria de esperar pelo boato. As notícias chegaram através de um correio especial do próprio jovem Mário, o qual, mal chegou a Preneste, ditou apressadamente uma carta dirigida ao pretor urbano de Roma, Lúcio Júnio Bruto Damasipo. Dizia essa carta:
Tudo está perdido a Sul de Roma. Temos de esperar que Carbão, em Arimino, trave o tipo de guerra que Sila não esteja à altura de enfrentar, nem que seja pelo facto de ter muito menos homens que Carbão. As tropas de Carbão são muito melhores do que as minhas. A ausência de treino e experiência dos meus homens perturbou-os tanto que nem uma hora conseguiram resistir aos veteranos de Sila.
Sugiro-te que tentes preparar Roma para um cerco, ainda que isso possa parecer impossível num local tão vasto e tão dividido nas suas lealdades. Se crês que Roma se recusará a suportar um cerco, então o melhor será esperares por uma invasão de Sila dentro de pouco tempo (um intervalo entre mercados, no máximo), já que não há tropas que se oponham às suas entre o sítio onde estou e Roma. Não sei se é intenção dele ocupar Roma. A minha esperança é de que ele ponha de lado Roma e ataque Carbão. Pelo que ouvi ao meu pai sobre Sila, seria muito natural que ele formasse uma tenaz para esmagar Carbão, usando Metelo Pio como o outro braço da tenaz. Quem me dera saber. Mas não sei. Só sei que seria prematuro para Sila ocupar Roma nesta altura e não estou a ver Sila cometer esse erro.
É possível que não possa sair de Preneste tão cedo. A cidade recebeu-me de braços abertos — o seu povo nutre uma grande afeição por Caio Mário e não se recusou a socorrer o filho. Podes estar certo de que, logo que Sila avançar para a guerra contra Carbão, deixarei Preneste e correrei a ajudar Roma. Se eu estivesse em Roma, talvez o povo concordasse em agüentar o cerco.
Para além disto, creio que chegou a hora de destruir todos os ninhos das víboras favoráveis a Sila dentro da nossa querida cidade. Mata-os a todos, Damásipo! Não permitas que o sentimento abrande a tua determinação. Os homens susceptíveis de apoiarem Sila impossibilitarão a resistência de Roma. Por isso, não poderão viver. Estando mortos os grandes que poderão opor-se-nos, os pequenos submeter-se-ão sem hesitar. Todos os homens que possam ajudar militarmente Carbão deverão deixar Roma imediatamente. E tu és um deles, Damásipo.
Quanto às víboras que têm de ser mortas, eis alguns nomes que me vêm à ideia. Sei que me estou a esquecer de muitos, por isso tenta lembrar-te de todos! O nosso Pontifex Maximus. O velho Lúcio Domício Aenobarbo. Carbão Arvina. Públio Antístio Vetus. Bruto Damásipo cumpriu as ordens. Durante o breve mas vasto massacre que o velho Caio Mário tinha perpetrado antes de morrer, Quinto Múcio Cévola, o Pontifex Maximus, tinha sido apunhalado sem que ninguém conseguisse entender porquê. O homem que o apunhalara (o mesmo Fímbria que fora com Flaco, o cônsul substituto, para o Oriente, com a ordem de afastar Sila do contando da guerra contra Mitridates e que depois assassinara Flaco) não conseguira apresentar melhor desculpa do que dizer, no meio de risos, que Cévola merecia morrer. Mas Cévola não morreu, apesar de o ferimento ser grave. Duro e robusto, o Pontifex Maximus retomava os seus deveres públicos dois meses depois. Agora, contudo, não poderia haver escapatória. Embora fosse o sogro do jovem Mário, foi mortalmente ferido quando tentava abrigar-se no templo de Vesta. Estava totalmente inocente de traição ao jovem Mário. O velho Lúcio Domício Aenobarbo, cônsul pouco tempo depois do seu irmão, o Pontifex Maximus que procedera a reformas, foi executado em sua casa. E sem dúvida que Pompeu, o Grande, teria dado a sua total aprovação se soubesse que, agora, não precisaria de sujar as mãos com o sangue do sogro; Públio Antístio também foi assassinado, e a mulher, enlouquecida pela dor, suicidou-se. Quando Bruto Damasipo chegou à conclusão de que livrara já a Roma de Carbão de todos os que poderiam representar um perigo, cerca de trinta cabeças adornavam os rostra no baixo Fórum Romano; os homens que se consideravam neutrais (como Catulo, Lépido e Hortênsio) aferrolharam-se em casa e recusaram-se a sair, não fosse algum dos amigos de Damasipo achar que também eles deviam morrer. Terminada a sua obra, Bruto Damasipo abandonou Roma a toda a pressa, tal como o seu colega pretor Caio Álbio Carrinas. Ambos foram juntar-se a Carbão. O pretor encarregado da cunhagem de moeda, Quinto António Balbo, também deixou Roma por essa altura, mas comandando uma legião; o seu objectivo era ir para a Sardenha e retirar o poder a Filipe. Contudo, a mais estranha das deserções foi a de um tribuno da plebe, Quinto Valério Sorano. Grande erudito e conhecido filantropo, Sorano não pôde tolerar aquela matança, tanto mais que nem sequer havia provas da ligação das vítimas à causa de Sila. Mas como fazer um protesto público capaz de impressionar toda a cidade? E como poderia um homem destruir Roma? É que Quinto Valério Sorano tinha chegado à conclusão de que o mundo se tornaria um sítio melhor para viver se Roma deixasse de existir. Ao fim de algum tempo, encontrou uma solução. Subiu aos rostra e aí, rodeado pelos troféus ainda gotejantes de sangue de Bruto Damasipo, pôs-se a gritar bem alto o nome secreto de Roma. — AMOR! — gritou ele até não poder mais.
Aqueles que ouviram e compreenderam desataram a correr para bem longe, tapando os ouvidos. O nome secreto de Roma não podia nunca ser pronunciado em voz alta! Roma e tudo o que ela representava desabariam como um prédio velho abalado por um terramoto. Quinto Valério Sorano acreditava nisso. Por isso, depois de ter gritado aos quatro ventos o nome secreto de Roma, Sorano fugiu para Óstia, sem perceber por que razão Roma continuava de pé sobre as suas sete colinas. De Óstia, esse homem marcado seguiu para a Sicília. Virtualmente privada de governo, a cidade não se desintegrou. As pessoas continuaram a fazer a sua vida; os nobres neutrais espreitaram pelos postigos, sentiram que não havia perigo e voltaram a percorrer as ruas de Roma, ainda que de boca calada. Roma estava à espera de ver o que Sila faria.
Sila entrou de facto em Roma, mas tranqüilamente, e sem o exército atrás a protegê-lo. Não havia nenhuma razão importante para que não entrasse em Roma, mas muitas razões importantes para que entrasse. A problemas como o seu império — e saber se renunciava ou não ao império no momento em que atravessasse o limite sagrado do pomerium — ligava muito pouco. Naquela Roma sem rumo nem governo, que pessoas havia para o contestar, ou para o acusar de ilegalidades, ou para o impugnar de um ponto de vista religioso? Se regressava a Roma, tinha de ser como conquistador e senhor de Roma, com todos os poderes de que precisasse para repor a verdade relativamente à sua carreira passada. Por isso, atravessou o pomerium sem a mínima apreensão e tratou de devolver à cidade algo que se assemelhasse a um governo.
O mais importante dos magistrados que ficara em Roma era um dos dois irmãos Mágios de Eculano, um pretor; foi esse homem que Sila encarregou do governo, assistido dos edis Públio Fúrio Crassipes e Marco Pompónio. Quando soube que Sorano tinha proferido o nome secreto de Roma em voz alta, franziu a testa com um ar lúgubre e estremeceu; no entanto, foi com total serenidade que atentou nas cabeças espetadas em lanças à volta dos rostra, limitando-se a ordenar que retirassem as cabeças e providenciassem os ritos adequados. Não fez qualquer discurso ao povo, não convocou nenhuma reunião do Senado. Menos de um dia depois de ter entrado em Roma, regressava a Preneste. Deixava porém em Roma dois esquadrões de cavalaria sob o comando de Torquato — para ajudarem os magistrados a manter a ordem, disse ele brandamente.
Não fez qualquer diligência no sentido de ver Aurélia, que chegara a pensar nessa possibilidade; quando soube que Sila regressara a Preneste, Aurélia mostrou uma expressão de indiferença perante a família, em particular perante César, que sabia que o encontro da mãe com Sila, perto de Teano, fora extremamente significativo, mas que também sabia que ela nunca lhe contaria nada.
O legado encarregado do cerco a Preneste era o trânsfuga Quinto Lucrécio Ofela, cujas ordens vinham directamente de Sila.
— Quero o jovem Mário preso em Preneste para o resto da vida - dissera Sila a Ofela. — Vais construir uma muralha com trinta pés de altura que vá desde as montanhas do lado do rio Ânio até às montanhas do lado do rio Tolero. A muralha terá uma torre fortificada, com sessenta pés de altura, de duzentos em duzentos passos. Entre a muralha e a cidade, escavarás um fosso com vinte pés de profundidade e vinte pés de largo, e no fundo porás stimuli tão espessos como os juncos das margens do lago Fucino. Quando o cerco estiver completamente montado, disporás acampamentos de homens nos locais certos, de forma a guardarem todos os caminhos que saem de Preneste na direcção dos Altos Apeninos. Ninguém conseguirá entrar, ninguém conseguirá sair. Quero que aquele bonequinho arrogante perceba que Preneste será o seu lar enquanto for vivo. — Um sorriso amargo contorceu os cantos da boca de Sila, um sorriso que teria deixado à vista aqueles longos e ferozes caninos no tempo em que ele tinha dentes; mesmo assim, continuava a ser um sorriso tremendo. — Também quero que os cidadãos de Preneste percebam que vão ficar com o jovem Mário para o resto da sua vida, de maneira que vais dizer aos mensageiros que devem informá-los desse facto seis vezes ao dia. Uma coisa é socorrer um jovem encantador e com um nome famoso, outra coisa é perceber que esse jovem encantador e com um nome famoso trouxe a morte e o sofrimento a Preneste. Quando Sila seguiu para Veios, a Norte de Roma, deixou Ofela com duas legiões a realizar este trabalho. E de facto realizaram um belo trabalho. Afortunadamente, a região era rica em tufo vulcânico, uma curiosa pedra, tão fácil de cortar como queijo, mas que ganhava a consistência de uma rocha depois de exposta ao ar. com este tipo de pedra, a muralha foi crescendo a um ritmo impressionante e o fosso entre a muralha e Preneste ia aumentando de dia para dia. A terra retirada para fazer o fosso foi usada depois para construir uma segunda muralha e, na vasta terra de ninguém que existia entre estas obras dos sitiantes, não foi deixado de pé nenhum arbusto, árvore ou objecto suficientemente alto para servir de aríete. Nas montanhas por detrás da cidade, foram também deitadas abaixo todas as árvores que existiam entre as muralhas e os acampamentos dos homens que agora guardavam os caminhos de cabras e impediam os Prenestianos de proceder a qualquer missão exploratória.
Ofela revelou-se um capataz duro e persistente; tinha uma reputação a fazer com Sila e aquela era a sua oportunidade. Por isso, não permitiu que os seus homens tivessem pausas ou descanso: só paravam para se queixar das dores nas costas ou nos músculos. Além disso, aqueles homens também tinham uma reputação a fazer com Sila; uma das legiões era a que abandonara o jovem Mário em Sacriporto, e a outra pertencera a Cipião Asiágeno. A sua lealdade era suspeita, pelo que uma muralha tão bem construída e um fosso tão bem escavado serviriam para mostrar a Sila que eram homens valorosos. Para o trabalho, não tinham mais que as mãos e os utensílios de escavação dos legionários; mas havia dez mil pares de mãos e ferramentas mais do que suficientes, e os centuriões eram peritos em cercos e nas suas construções. Organizar tão monumental tarefa não levantou grandes problemas a Ofela, um romano típico no que tocava à eficiência e ao método.
Em dois meses, a muralha e o fosso estavam acabados. Tinha mais de doze quilômetros de comprimento e seccionavam a Via Prenestina e a Via Labicana em dois sítios, interrompendo dessa forma o trânsito nessas duas estradas e tornando-as inutilizáveis para lá de Túsculo e Bola. Os cavaleiros e senadores romanos cujas propriedades foram afectadas pelas fortificações não podiam fazer outra coisa senão esperar que o cerco acabasse — e amaldiçoaj o jovem Mário. Por outro lado, os pequenos proprietários da região exultaram ao verem os blocos de tufo; quando o cerco terminasse, a muralha viria abaixo e eles disporiam de um abastecimento inesgotável de material de construção para cercas, casas, celeiros e estábulos. Em Norba, assistiu-se ao mesmo tipo de exercícios, ainda que Norba não exigisse obras tão monumentais. Mamerco fora enviado para as cercanias dessa cidade com uma legião de novos recrutas (mandados da região sabina por Marco Crasso) e lançara-se ao trabalho com a severa e discreta eficiência que o tinha ajudado, no passado, a enfrentar muitas situações perigosas.
Quanto a Sila, mal chegou a Veios, dividiu com Públio Servílio Vátia as cinco legiões de que dispunha. Vátia ficou com duas e marchou na direcção do litoral da Etrúria, ao passo que Sila e o velho Dolabela ficaram com as restantes três e subiram pela Via Cássia na direcção de Clúsio, mais para o interior. Estava-se no princípio de Maio e Sila sentia-se muito satisfeito com os progressos que tinha feito. Se Metelo Pio e a sua secção do exército (mais larga que as restantes) se portassem igualmente bem, Sila, no Outono, estaria numa excelente posição para ser o senhor de toda a Itália e de toda a Gália Italiana.
E como se estavam a portar Metelo Pio e as suas forças? Sila tinha ainda poucas notícias dos seus progressos no momento em que encetou a viagem para Clúsio, mas era enorme a sua fé no mais leal dos seus aderentes — para além de sentir uma viva curiosidade relativamente ao comportamento de Pompeu, o Grande. Deliberadamente, dera a Metelo Pio o maior dos exércitos. E também eram deliberadas as suas instruções para que Pompeu, o Grande, chefiasse cinco mil soldados de cavalaria, soldados de que não precisaria (e Sila sabia-o) para as suas manobras num terreno mais povoado e acidentado.
Metelo Pio marchara para a costa adriática com as suas duas próprias legiões (sob o comando do seu legado, Varrão Lúculo), seis legiões que haviam pertencido a Cipião, as três legiões que pertenciam a Pompeu e os cinco mil soldados de cavalaria que Sila dera a Pompeu. Como seria de esperar, Varrão, o Sabino, seguia com Pompeu, sempre pronto a escutar e compreender (e também a passar para o papel) os pensamentos de Pompeu. — Tenho de melhorar as minhas relações com Crasso — disse-lhe Pompeu enquanto atravessavam o Piceno. — Metelo Pio e Varrão Lúculo são fáceis de lidar — bom, e de qualquer modo eu gosto bastante deles. Mas Crasso é um brutamontes intratável. Muito mais difícil. Preciso dele do meu lado.
Montado num pônei, Varrão fitou durante um longo momento Pompeu, que montava o seu imponente Cavalo Público.
— Não há dúvida que aprendeste alguma coisa durante o Inverno que passámos com Sila! — disse ele, francamente surpreendido. — Nunca pensei ouvir-te dizer que querias manter boas relações com alguém! Exceptuando Sila, naturalmente. — Sim, aprendi — admitiu Pompeu com um ar magnânimo. Os seus belos dentes brancos brilharam num sorriso de pura afeição. — Ora, Varrão! Eu sei que estou prestes a tornar-me o mais valioso assistente de Sila, mas sou capaz de compreender que Sila precisa de outros homens para além de mim! Ainda que tu possas ter razão — acrescentou ele com um ar pensativo. — Esta é a primeira vez na minha vida que estou em contacto com um comandante-chefe que não o meu pai. Penso que o meu pai era um grande, um enorme soldado. Mas só dava importância às suas terras. Sila é diferente. — Em que aspecto? — perguntou Varrão, curioso.
— Ele não dá nenhuma importância à maior parte das coisas — incluindo todos nós, aqueles a quem ele chama seus legados, ou colegas, ou seja lá o que for que ele considere adequado nesta ou naquela altura. Não sei mesmo se dá alguma importância a Roma. Se há alguma coisa a que ele dê importância, essa coisa não é material. Dinheiro, terras — ou mesmo a sua auctoritas ou a qualidade da sua reputação pública. Não, essas coisas não são importantes para Sila.
— Então, o que é que é importante? — perguntou Varrão, fascinado com aquele fenômeno: um Pompeu que conseguia ver para além de si mesmo. — Talvez apenas a sua dignitas — respondeu Pompeu. Varrão matutou no assunto. Teria Pompeu razão? Dignitas!
A mais intangível de todos as possessões de um nobre romano: dignitas. A auctoritas era a sua capacidade de influência política, a sua capacidade de influenciar a opinião pública e todas as instituições públicas, desde o Senado aos sacerdotes, passando pelo TeSouro. Dignitas era outra coisa. Era algo de intensamente pessoal e muito privado, e, no entanto, estendia-se a todos os parâmetros da vida pública de um homem. Tão difícil de definir! Era por isso, evidentemente, que existia uma palavra para a designar. Dignitas era... a capacidade que um homem tinha de se elevar acima dos outros... a sua capacidade de glória? Dignitas eqüivalia àquilo que um homem era, enquanto homem e enquanto líder da sua sociedade. Era o total do seu orgulho, da sua integridade, da sua palavra, da sua inteligência, dos seus feitos, das suas capacidades, do seu conhecimento, da sua posição, do seu valor como homem... A dignitas sobrevivia à morte de um homem, era a única forma que ele tinha de triunfar sobre a morte. Sim, essa era a melhor definição. Dignitas era o triunfo de um homem sobre a extinção do seu ser físico. E, vendo as coisas sob esse prisma, Varrão achava a afirmação de Pompeu rigorosamente correcta. Se alguma coisa tinha importância para Sila, era a dignitas. Tinha dito que bateria Mitridates. Tinha dito que regressaria a Itália e que se vingaria. Tinha dito que devolveria à República a sua antiga e tradicional forma. E, se dizia, fazia. Se não fizesse o que prometia, a sua dignitas sairia diminuída; no banimento e no opróbrio oficial não podia haver dignitas. Por isso tinha de ir buscar a si mesmo a energia necessária para cumprir o que dizia. E, cumprida a sua palavra, ficaria satisfeito. Até lá, Sila não podia descansar. Não descansava. — Ao dizeres isso — comentou Varrão — concedeste a Sila o maior dos louvores. — Ha? — fez Pompeu, com a surpresa estampada nos olhos muito azuis. — Quero dizer — acrescentou Varrão pacientemente — que me demonstraste que Sila não pode perder. Sila está a lutar por uma coisa que Carbão nunca conseguiria entender. — Ah, sim, claro! Sem dúvida! — disse Pompeu, todo contente. Estavam já muito perto do rio Ésis, de novo no coração do feudo de Pompeu. A impetuosidade juvenil do ano anterior não tinha desaparecido, mas fora integrada por uma ampla superestrutura de novas e estimulantes experiências; por outras palavras, Pompeu tinha crescido. Na realidade, todos os dias crescia um pouco mais. A oferta do comando da cavalaria levara-o a interessar-se por um tipo de actividade militar a que nunca tinha dedicado muita atenção. Isso era tipicamente romano. Os Romanos acreditavam nas potencialidades da infantaria, considerando de certo modo a cavalaria como uma força mais decorativa que útil, uma maçada, mais do que um trunfo. Varrão estava convencido de que os Romanos só utilizavam a cavalaria porque os seus inimigos o faziam. Noutras eras, nos tempos dos reis de Roma e nos primeiros anos da República, o soldado a cavalo formara a elite militar, era a ponta de lança do exército romano. Assim nascera e crescera a classe dos cavaleiros — a Ordo Equester, como Caio Graco lhe chamara. Mas os cavalos tornaram-se extremamente dispendiosos — demasiado caros para que muitos homens os pudessem comprar particularmente. Deste facto nasceu o costume do Cavalo Público, a montada do cavaleiro comprada e sustentada pelo Estado.
Agora, muito tempo passado, o soldado de cavalaria romano tinha deixado de existir, excepto em termos sociais e econômicos. O cavaleiro — homem de negócios ou proprietário de terras, membro da Primeira Classe das Centúrias — era a relíquia romana do soldado montado. E o Estado continuava a comprar cavalos para os seus mil e oitocentos cavaleiros séniores. Habituado à exploração dos tortuosos meandros do pensamento, Varrão verificou que se desviara, e muito, da sua reflexão inicial, e a ela regressou resolutamente. Pompeu e o seu interesse pela cavalaria. Cavalaria que já não era romana. Sila trouxera aqueles soldados da Grécia e, portanto, não havia entre eles Gauleses; se os tivesse recrutado em Itália, a esmagadora maioria seria gaulesa, homens vindos das planícies do Pó, na Gália Italiana, ou do grande vale do Ródano, na Gália Transalpina. Daí que os homens de Sila fossem, na sua maior parte, Trácios, para além de algumas centenas de Galácios. Bons combatentes e tão leais quanto podiam ser homens que não eram romanos. No exército romano, tinham um estatuto de aliados, e podiam ser recompensados, no final de uma dura campanha, com a cidadania romana ou um bocado de terra.
Desde Teano Sidicino que Pompeu andava numa grande azáfama com a sua cavalaria, mantendo-se em estreito contacto com aqueles homens de calças e jaquetas de couro que brandiam longas danças e se defendiam com pequenos escudos redondos; as suas espadas também eram longas, mais adequadas ao combate a partir da sela do que as espadas curtas da infantaria. Pelo menos Pompeu tinha capacidade para pensar, disse Varrão para si mesmo enquanto avançavam na direcção do Ésis. Pompeu estava a descobrir as qualidades dos soldados-cavaleiros e a ponderar as possibilidades. Estava a planear. A ver se haveria alguma maneira de melhorar a sua actuação ou os equipamentos. Os soldados-cavaleiros de Pompeu distribuíam-se por regimentos de quinhentos homens, consistindo cada regimento de dez esquadrões de cinqüenta homens, e eram chefiados pelos seus próprios oficiais; o único romano que os comandava era o general, neste caso Pompeu. Um Pompeu extremamente envolvido e fascinado — e decidido a comandá-los com um talento e uma competência invulgares para um romano. Se Varrão, em privado, pensava que uma parte do interesse de Pompeu decorria do muito sangue gaulês que lhe corria nas veias, era suficientemente sensato para não revelar a Pompeu essa sua teoria.