Os Vivos e os Mortos na Sociedade Medieval
Introdução
Os mortos têm apenas a existência que os vivos imaginam para eles. Diferentemente segundo sua
cultura, suas crenças, sua época, os homens atribuem aos mortos uma vida no além, descrevem os lugares
de sua morada e assim representam o que esperam para si próprios. A esse título, o imaginário da morte e
da evolução dos mortos no além constitui universalmente uma parte essencial das crenças religiosas das
sociedades. Ele adquire formas diversas mas muito amplamente atestadas, entre as quais as visões e os
sonhos ocupam sempre um lugar de primeiro plano.{1} Aqui é reconhecida a capacidade de certos
homens, como os xamãs siberianos, de viajar para o além em sonho ou em estado de transe. Alhures,
seres de exceção, como Cristo ou, depois dele, os santos do cristianismo, teriam tido o poder de
ressuscitar os mortos. Universalmente, está presente também o que se costuma chamar de "crença nos
fantasmas".{2}
As aparições dos fantasmas representam entre os vivos e os mortos um deslocamento inverso às
viagens ao além. Na rica literatura das visões e das viagens ao além — do livro VI da Eneida de Virgílio
à Divina comédia de Dante, passando pelo Purgatório de são Patrício —, acontece de o visionário
encontrar almas de mortos que ele próprio conheceu na terra ou cujo nome e renome chegaram até ele.
Mas o objetivo de tais revelações não é, em regra geral, dar conta da sorte, no além, de um morto
particular (com exceção de certos soberanos, em visões eminentemente "políticas"){3} Seu objetivo é
antes revelar aos vivos, ouvintes ou leitores da visio, a geografia dos lugares do além, os caminhos
escarpados, os rios gelados, as fornalhas e o catálogo das torturas de além-túmulo, grandes reservatórios,
durante séculos, do imaginário do Ocidente. Bem diferentes são a estrutura e a função dos relatos de
fantasmas. Nesses relatos, não é o vivo que supostamente se dirige ao além, mas o morto que aparece aos
vivos. A manifestação do morto tampouco é totalmente assimilável às aparições de outros seres
sobrenaturais, como os anjos e os demônios ou mesmo o Cristo, a Virgem e os santos. Todos estes
residem normalmente no além, onde permanecem invisíveis, salvo mostrar-se ocasionalmente aos
homens. Os fantasmas, ao contrário, têm ainda, por assim dizer, um pé na terra: apenas acabam de deixar
os vivos aos quais aparecem e dos quais parecem não poder afastar-se. Com os relatos de aparições do
Cristo, da Virgem ou do diabo, o historiador é de imediato mergulhado em toda a riqueza do imaginário
da sociedade cristã. Mas, com os relatos de fantasmas, ele é além disso confrontado imediatamente com
o dédalo das relações sociais travadas entre os vivos e aquele que acaba de os abandonar e que os visita
novamente. Assim, ao contrário das grandes visões do além, os relatos de fantasmas concentram toda a
sua atenção na situação do defunto, que é um homem ordinário. Por certo, os santos aparecem também e
eles estão igualmente mortos, de maneira que suas aparições nos sonhos e nas visões dos vivos são um
tema favorito da hagiografia. Mas os santos, segundo a feliz expressão de Peter Brown,{4} são "mortos
muito especiais", que levantam problemas específicos. Falarei deles apenas de maneira secundária, a fim de insistir nas aparições dos mortos ordinários, no comum dos fantasmas.
Desde a época romântica, continuada pela literatura e pelo cinema fantásticos até a história em
quadrinhos contemporânea, os fantasmas fazem parte do cenário obrigatório da Idade Média tal como
gostamos de imaginá-la. Uma Idade Média de castelos mal-assombrados, de dragões, de fantasmas ou
mesmo de vampiros. Nem tudo é falso nessa imagem não obstante fácil demais: em uma cultura
eminentemente religiosa (no sentido em que cada um admitia a existência e o poder de seres
sobrenaturais, geralmente invisíveis, mas muito próximos) e familiar à morte e aos mortos, a "crença nos
fantasmas" era admitida por todos. No entanto, evitemos pensar que os mortos eram onipresentes nas
preocupações e nos sonhos dos vivos e que estes últimos esperavam ver surgir a cada passo seus
ancestrais! Nem todos os mortos voltam nem aparecem a qualquer um, não importa quando nem onde.
Na sociedade medieval, assim como em muitas outras sociedades tradicionais, a forma particular
de existência que se atribui aos defuntos depende do transcurso do "rito de passagem" da morte: os
mortos voltam, de preferência, quando os ritos dos funerais e do luto não puderam efetuar-se
normalmente, por exemplo, se o corpo de um afogado desapareceu e não pôde ser sepultado segundo o
costume, ou ainda se um assassinato, um suicídio, a morte de uma mulher no parto, o nascimento de uma
criança natimorta apresentam para a comunidade dos vivos o perigo de uma mácula. Esses mortos são
geralmente considerados maléficos. Essa dimensão antropológica e universal do retorno dos mortos está
presente, entre outras, na tradição ocidental, desde a Antiguidade, na Idade Média e até no folclore
contemporâneo.{5} Contudo, parece-me que o historiador da Idade Média deve enriquecer a definição
antropológica universal dos fantasmas por considerações históricas mais particulares. Alguns desses
fatores específicos devemse à formação complexa da cultura medieval, ao peso das heranças que lhe
deram origem: as heranças do paganismo greco-romano (em que o culto dos mortos da cidade ou da gens
desempenhava um papel muito importante) ou ainda as heranças "bárbaras" revivificadas pelas
migrações dos povos germânicos e integradas à cristandade durante o primeiro milênio. Assim, Claude
Lecouteux teve o mérito de insistir na dívida da literatura eclesiástica e latina da Idade Média com
relação às tradições germânicas. Ele mostrou como o par cristão da alma (imaterial e eterna) e do corpo
(material e perecível) por vezes não fez mais do que recobrir superficialmente a concepção pagã
germânica de um duplo quase físico ( {6} hamr ) sobrevivendo depois da morte. Muitos relatos latinos que
apresentam os fantasmas como seres dotados de "corporeidade" derivam, portanto, segundo esse autor,
de tais concepções, que se encontram na Edda e em certas sagas escandinavas que foram postas por
escrito a partir dos séculos XII e XIII. Na linha dos inúmeros trabalhos sobre a cultura folclórica na
Idade Média, esse passo pode efetivamente conduzir a uma compreensão mais rica dos diversos níveis
de sentido que contém em certos casos o documento medieval.
Vou propor, porém, uma outra interpretação dos fantasmas medievais. Se as heranças e, por
conseguinte, uma tal "arqueologia" dos textos medievais não devem ser negligenciadas, pretendo antes
mostrar como as crenças e o imaginário dependem antes de tudo das estruturas e do funcionamento da sociedade e da cultura em uma época dada.
As "mentalidades" não consistem apenas nos estratos antigos e persistentes dos pensamentos e dos
comportamentos, mas nas crenças e nas imagens, nas palavras e nos gestos que encontram plenamente seu
sentido na atualidade presente e bem viva das relações sociais e da ideologia de uma época. É levando
em conta essa atualidade que compreenderemos como a cultura cristã da Idade Média ampliou a noção de
fantasma e concebeu para os mortos outras ocasiões de aparecer.
O período considerado (do século V ao século XV, com uma insistência particular na Idade Média
central) viu sucederem-se e combinarem-se as crenças tradicionais e os rituais lentamente cristianizados
da "morte domesticada" (segundo a terminologia de Philippe Ariès),{7} as angústias da "morte de si" (o
medo individual do instante do trespasse e do julgamento particular que conduz a alma para um dos três
principais lugares do além cristão: inferno, purgatório ou paraíso) e mesmo as dores da "morte de ti", a
preocupação inspirada pela sorte no além dos parentes e amigos falecidos (bem antes que o luto seja
exaltado sob uma forma mais laicizada na estatuária chorosa dos cemitérios da Europa burguesa, no
século XIX). Nesse dédalo complexo de atitudes umas muito antigas, outras novas, a sociedade medieval
considerava a possibilidade de retorno de certos defuntos para visitar os vivos ou aqueles vivos com
quem eles haviam estabelecido laços julgados inalteráveis mesmo além da morte. Simultaneamente,
importantes transformações das estruturas sociais levaram a redefinir o lugar dos indivíduos em grupos e
em comunidades que permaneciam solidárias depois do desaparecimento de cada um de seus membros:
os grupos de parentesco, carnal ou espiritual, do mosteiro, da linhagem nobre, da paróquia, da confraria
eram o quadro dessas novas relações entre os vivos, mas também entre os vivos e os mortos. Essas
relações inscreviam-se nas realidades do espaço social, pela articulação da morada dos vivos — a
aldeia, o bairro — e da morada dos mortos: o cemitério. A proximidade das sepulturas e das casas
sustentava e justificava a preocupação mais intensa que os vivos tinham com seus defuntos. Igualmente, a
influência religiosa e material da Igreja e dos clérigos sobre a sociedade leiga aumentou sensivelmente
depois do ano 1000. Ela permitiu inculcar nos fiéis uma moral religiosa centrada nas noções de pecado,
de penitência, de salvação, que culminou, no fim do século XII, no "nascimento do purgatório". {8}
Doravante todo cristão podia esperar ser salvo, mas com a condição de sofrer depois da morte castigos
reparadores cuja duração e intensidade dependiam, de um lado, de seus méritos pessoais (suas boas e
más ações e seu arrependimento no momento da morte) e, de outro lado, dos sufrágios (missas, preces e
esmolas) de que seus parentes e amigos lançavam mão para sua salvação. Na falta deles, o morto podia
aparecer a um parente ou amigo para reclamar-lhe os sufrágios de que tinha a maior necessidade e pedir-
lhe que cumprisse em seu lugar as obras pias necessárias à sua salvação. Preocupada em afiançar e
organizar a solidariedade dos vivos e dos mortos, a Igreja deu então ampla repercussão aos relatos de
fantasmas. Estes, longe de ser apenas esses mortos maléficos que se encontram em todas as culturas em
razão das perturbações ou da ausência fortuita do rito de passagem dos funerais. longe de ser apenas
produto de velhas crenças pagãs, exprimiram mais amplamente. por seu retorno nos fantasmas, nos medos e nos relatos dos vivos, as múltiplas disfunções possíveis da boa morte cristã.
Mais precisamente, as atitudes cristãs com relação aos mortos, tais como a Igreja medieval
entendia defini-las e impô-las, estavam contidas por inteiro na noção de memória de "memória dos
mortos".{9} Tratava-se de uma memória litúrgica. apoiada na inscrição dos nomes dos defuntos dignos de
ser comemorados nos libri memoriales, nos necrológios e nos obituários dos mosteiros e dos conventos.
Essa memória exprimia-se particularmente por ocasião das missas ditas pela salvação do morto, em
especial no aniversário de seu falecimento. Mas essa palavra memoria corre o risco de criar ilusão, pois
o objetivo da memoria era, na realidade, ajudar na separação dos vivos e do morto, abreviar a estada
deste último nas penas purgatórias (ou no purgatório) e, finalmente, permitir aos vivos esquecer o
defunto. O ritmo das missas e das preces era então cada vez mais frouxo e seu tempo era limitado: três
dias, sete dias, um mês, um ano, raramente mais. A inscrição do nome no libermemorialis não prometia
ao defunto uma glorificação duradoura pelos homens — esta era reservada aos santos e aos reis —, mas
uma fusão rápida no anonimato das gerações passadas. As fundações funerárias, embora ditas
"perpétuas" (como se diz hoje das "concessões perpétuas" em um cemitério...), não escapavam aos
efeitos da negligência dos homens e da erosão monetária. Praticamente, elas não duravam mais que um
tempo. A idéia de uma fundação de missas "perpétua" entrava em contradição, aliás, com a função
atribuída aos sufrágios pelos mortos, que era de tirar as almas dos defuntos, tão rapidamente quanto
possível, das provações do purgatório, para darlhes no paraíso uma morada definitiva. Além disso, nos
cemitérios a maior parte das sepulturas era anônima e periodicamente o solo era arado, as covas eram
esvaziadas para dar lugar a novos corpos. A partir do século XI, a memória de linhagem e genealógica
conheceu um real impulso nos meios aristocráticos, gozando por vezes do apoio da escrita. Mas ela
permanecia socialmente limitada e frágil. Portanto, é preciso sublinhar a que ponto os sinais eram
ambíguos, a que ponto a memoria era, como uma forma de memória coletiva, uma técnica social de
esquecimento. Tinha por função "esfriar" a memória sob o pretexto de mantê-la, apaziguar a lembrança
dolorosa do defunto até que se esfumasse. Técnica classificatória, ela punha os mortos em seu lugar de
mortos, para que os vivos, se porventura se lembrassem de seu nome, pudessem fazê-lo sem temor nem
paixão.
Assim, pode-se compreender quem eram os fantasmas medievais. Eram os raros mortos que,
obstinadamente e durante um período bastante breve depois do trespasse, frustravam o funcionamento
regulado da memoria cristã, criavam obstáculo ao transcurso necessário do "trabalho do luto". Embora
uma imagem aviltada da Idade Média ou mesmo certos estudos de história ou de folclore pretendam
persuadir-nos de que os homens do passado viviam em uma coabitação obsedante com todos os seus
mortos, devemos usar de mais discernimento. As aparições dos mortos não eram a norma das relações
entre os vivos e os mortos. Os vivos as imaginavam apenas quando não podia cumprir-se plenamente o
ritual de separação em relação a eles, quando o esquecimento revelava-se impossível em conseqüência
de uma perturbação do transcurso normal do rito de passagem da morte e dos funerais. Seja porque os próximos sobreviventes (a viúva, o filho, os irmãos) tenham, por cupidez ou negligência, infringido as
regras rituais e privado a alma do defunto do apoio salutar dos sufrágios dos clérigos; seja porque, no
dizer dos vivos, o próprio defunto, não tendo cumprido antes de morrer uma penitência completa,
reclamasse o apoio dos seus para superar suas provas no além. Em todos os casos, o morto referido
lembrava-se à "memória" dos vivos, para o maior benefício de sua alma, sem dúvida, e também para o da
Igreja, grande ordenadora dos sufrágios remunerados para os mortos. Paradoxalmente, a Igreja medieval,
que nos primeiros séculos manifestara uma grande reticência com relação à crença nos fantasmas,
tomando-a como característica do "paganismo" e das "superstições", esteve, assim, na origem de um
enquadramento e de uma exploração da crença nos fantasmas de que os relatos de milagres e os sermões
dos pregadores dão amplo testemunho.
Assim se torna mais preciso o objeto deste livro. Ele trata do funcionamento social da memória dos
mortos na época medieval. Mais exatamente, se ele volta a esse grande tema de história que constitui a
memória das sociedades, é para interessar-se principalmente por seu aparente avesso, a uma só vez a
necessidade do esquecimento e o que se opõe ao esquecimento. Perguntar-nos-emos, com efeito, como os
homens do passado procuraram lembrar-se de seus defuntos, mas, sobretudo, esquecê-los, e como alguns
desses mortos-mortos "muito especiais" também, porém mais na imperfeição que na santidade —
aparentemente se rebelavam contra a vontade de esquecimento dos vivos, revivificavam suas lembranças,
invadiam seus sonhos, assombravam sua casa.
Historiadores e etnólogos têm o costume de falar da "crença nos fantasmas". Mas o que devemos
entender por isso e como o historiador pode alcançar as crenças dos séculos passados? Uma das
aquisições recentes da "antropologia do crer" é pôr em causa os usos inconsiderados da noção de
crença". {10} É preciso evitar reificar a crença, fazer dela uma coisa dada de uma vez por todas e
que bastaria os indivíduos e as sociedades exprimirem e transmitirem. Convém substituir essa noção pela
noção, ativa, do "crer". Nesse sentido, a crença é uma atividade jamais acabada, precária, sempre
recolocada em causa, inseparável das recorrências da dúvida. Nada menos fixo e menos certo do que
essa atividade do crer: o etnólogo que interroga seus informadores várias vezes seguidas e em ocasiões
diferentes logo toma consciência disso. Confrontado com um documento único e fixado para sempre, o
historiador está numa situação diferente. Ao menos, também ele pode levar em maior conta as condições
de enunciação do crer, a forma e o gênero dos relatos que analisa, pois os conteúdos da crença dependem
amplamente deles.
Muito freqüentemente, é grande para o historiador a tentação de separar a crença, da qual postula a
priori a existência e o conteúdo, e a natureza dos documentos — tipos diferentes de textos e de imagens
— dos quais tira suas informações. O que diz ou mostra o documento, seria, ao que se diz, uma "crença"
e, para conhecê-la, bastaria então ao historiador ler os textos antigos e descrever as imagens. Mas as
coisas não são tão simples. Uma crítica elementar permite já pôr em evidência o peso das condições de produção de documento, tudo o que implica, por exemplo, para um relato de aparição do século XII ou
do século XIII, ter sido transcrito em latim por um clérigo, enquanto talvez tivesse sido contado
originalmente (mas sob que forma?) na língua vernácula. Tais mediações — lingüísticas, sociais,
ideológicas — fazem parte plenamente da enunciação da crença tal como o historiador é levado a
conhecê-la.
A questão das formas de enunciação não diz respeito apenas ao gênero documental, mas à maneira
mesma pela qual os homens do passado dizem crer. Para o historiador, como também para o etnólogo, a
questão é crucial; como entender todos esses relatos, propagados pelos letrados da Idade Média (homens
religiosos, por certo, mas não particularmente crédulos), que afirmam como evidente o que temos tanta
dificuldade em admitir: que mortos apareceram, em pleno dia, a pessoas despertas e perfeitamente sãs de
espírito? Deve-se incriminar, como outrora Lucien Lévy-Bruhl, a "mentalidade primitiva" de uma época
estranha à nossa própria lógica e que não teria sabido distinguir claramente o sonho da realidade? Tudo
desmente tal interpretação: alguns dos clérigos que propagaram esses relatos de aparições eram
"intelectuais" cujos raciocínios teológicos e filosóficos e cuja obstinação em distinguir o "verdadeiro" do
"falso" não são, em sua progressão lógica, radicalmente diferentes dos nossos.
Se se entra mais a fundo nas formas de enunciação dos relatos de fantasmas, acaba-se por
descobrir que são de dois tipos. A grande maioria é de relatos de aparições transmitidos oralmente e
transcritos por um clérigo, no mais das vezes em latim. Esses relatos são produto de uma cadeia, mais ou
menos longa, de testemunhos que fazem referência à experiência visionária anterior de uma terceira
pessoa. Aquele que escreve nunca reivindica para si mesmo a experiência direta da aparição. Em certos
casos, esta é descrita como um sonho, porém no mais das vezes é mencionada uma visão no estado de
vigília. Pois os preconceitos desfavoráveis que a cultura oficial, a dos clérigos, fazia pesar sobre os
sonhos na Idade Média incitavam a falar de visões despertas quando se queria reforçar a credibilidade
de um relato. Além disso, o morto (ou qualquer outro ser sobrenatural) cuja aparição é contada é descrito
nesses relatos de maneira concreta, quase física: a testemunha não apenas diz que o ouviu falar
claramente, mas também o descreve como uma pessoa viva e afirma por vezes que o tocou e sentiu seu
contato. Se em certos casos reconhecemos aí o peso duradouro das tradições pagãs, não se deve pensar
também nos efeitos de real próprios aos relatos feitos ao pé do ouvido, depois postos por escrito e, sob
essa forma, autenticados? Assim, a objetivação do conteúdo do relato contado ia de par com sua
socialização. De resto, não nos acontece, hoje ainda, de ouvir dizer e de contar por nossa vez "histórias
de fantasmas"? Ora, tão-somente pelo fato de contar e de nomear, damos uma espécie de existência, de
presença, uma forma, ou mesmo um corpo e uma voz, ao que não passa, contudo, de um ser imaginário.
Em uma cultura em que este mundo e o além supostamente se comunicavam, "crer nos fantasmas" era
falar deles em profusão e deles fazer imagens (por exemplo, nas miniaturas dos manuscritos iluminados).
Era também procurar "fazer crer" neles, utilizando esses textos e essas imagens para fins bem reais,
eficazes, que interessavam aos vivos e, sobretudo, aos poderosos:{11} pois os relatos de fantasmas favoreciam a promoção da liturgia dos mortos, o desenvolvimento da piedade, a atração das doações
piedosas, o reforço da influência da Igreja sobre a sociedade cristã.
Mas não podemos ficar nisso. Na Idade Média, para cada homem em particular, o que significava
"crer nos fantasmas"? De imediato, descobrimos aqui um outro tipo de enunciação, em relatos em número
mais limitado: os relatos autobiográficos. Desta vez, o que escreve não se contenta em contar o que ouviu
ou leu, ele diz testemunhar pessoalmente sobre sua própria experiência dos mortos. Não é preciso dizer
que aqui também o historiador deve ser prudente: modelos literários da autobiografia pesam desde
aAntiguidade sobre as tradições ocidentais. Mas em certos casos, e sobretudo a partir do século XII, não
há motivo para duvidar da autenticidade dos sentimentos e das impressões expressos nesses textos. Ora,
os relatos autobiográficos mencionam apenas em casos bem particulares uma visão desperta, antes
característica dos relatos contados. Em compensação, os relatos autobiográficos falam por vezes da
impressão estranha de uma presença invisível e, no mais das vezes, de um sonho, de uma imagem onírica
mais ou menos inconsistente e fantasmática, produzida pelo pesar, pelo luto e pela má consciência depois
do desaparecimento de um ente querido. Tais relatos nos surpreendem muito menos que os relatos de
visões despertas: não podemos, também nós, sonhar com um parente morto, experimentar até no sono a
dor da "morte de ti"? Quando o núcleo íntimo da crença subjetiva deixa-se alcançar nos relatos
autobiográficos, descobrimos que, para o indivíduo como para a coletividade, para os homens da Idade
Média como para os de hoje, quando se opera na dor o "trabalho do luto",{12} o essencial é o conflito
entre o desejo e a impossibilidade de esquecer, entre a fragilidade da memória e a vontade de lembrar.
Nesse sentido, a Idade Média de que se trata aqui não é, portanto, tão diferente de nossa própria
cultura quanto se poderia esperar. Por certo, para os homens dessa época distante de nós, os fantasmas
"existem", e é verdade que há aí uma grande diferença entre essa época e a nossa. Quando Santo
Agostinho afirma que os mortos não podem voltar à terra, ele não põe em causa a realidade da existência
das almas no além, mas apenas o desejo de Deus de as deixar aparecer. Se os clérigos interrogam-se
sobre a "verdade" ou a "falsidade" das aparições, não é para sugerir a impossibilidade destas últimas,
mas para certificar-se de que aquelas que eles têm de julgar são de origem divina e não diabólica. É todo
esse sistema de crença que-desde as Luzes e o século XIX — tornou-se estranho à maior parte dos
ocidentais. Esse é, necessariamente, o ponto de partida do historiador. Ele não tem de fingir partilhar os
modos de pensamento dos autores antigos cujos escritos descobre. Confrontado com uma massa
considerável de relatos e de imagens, ele deve, ao contrário — sem nada abdicar de sua própria razão
—, compreender-lhes as lógicas e as funções. Assim, este livro pretende ser uma contribuição a uma
história social do imaginário. Por meio do caso dos fantasmas medievais — que existiam apenas pela
imaginação e nos relatos dos homens daquele tempo —, trata-se de saber como e por que os vivos (e
quem entre eles), em seus sonhos e relatos de visões, devolveram a certos mortos um simulacro de
existência, uma aparência de corpo e um rosto: talvez para compreender melhor a si próprios em suas
relações com a imagem onírica e obsedante de seus parentes defuntos, ou ainda, sob o pretexto de um diálogo imaginário com os mortos complacentemente propagado pelos clérigos, para dominar melhor a
sociedade dos vivos, a transmissão das heranças e a imposição das normas morais e sociais.
Tentar compreender historicamente um imaginário social: esse é o sentido deste livro, em que a
paixão do historiador pelo documento — relatos saborosos e imagens não menos surpreendentes —
rivaliza com a vontade de redescobrir, na materialidade mesma dos textos e das imagens, na linguagem,
no traço e na cor, o sentido do passado. Daí a forma particular dada muito conscientemente à sua escrita
pelo historiador. Com efeito, procurando analisar e explicar, era preciso adotar o estilo narrativo que
caracteriza o essencial da documentação e seguirlhe as transformações no tempo. Pois o que importa em
uni relato não é apenas a trama geral, uma estrutura formal que por vezes perdura inalterada através dos
séculos e desafia mesmo a singularidade das culturas. Importam também as variantes e uma multidão de
detalhes concretos em constante renovação, que trazem a marca de cada momento histórico como
intenções datadas e localizadas daqueles que produziram, divulgaram e receberam essas histórias e essas
imagens. Assim, ao mesclar o relato à análise, eu quis restituir, fazer ouvir e fazer ver as palavras e os
sonhos do passado.